Ali vão baldes, vassouras, ferramentas de pequeno porte, lenços amarrados a pedaços de pau, estratos de candeias onde óleos, bumerangues silvos remos, bingos, tamancos qual sem par a minérios dezembrinos, chapéus de palha e sarja, de cânhamo e de lata, três ou quatro bengalas de porta de ótica, tráfico de gente a essa altura do século a brumados arquipélagos a esfíngicos globinhos se trocam navegar valor humano por coisas que usamos sem dar tino de gente, coisas são que servem se caprichos e apetites são de gente, não é verdade ? ergo tanta gente como nós tem na distância do recato a discrição da reverência mesma ao íntimo da conversa, deixe meu braço, licença, mais caloroso é meu regaço, senhor, na copa do navio a pelejar milagres tácteis num xadrez indistinguível, a meio da partida deixe a grande armada negra ser servil sem preferência, vontades de um açor desesperado e de outro rei conquanto os filhos, runas dignatárias do poder, não julgassem o balé como se filhos meio à margem do balé do tabuleiro, forâneas peças, crinas não eram senão da virtude das ovelhas pressionadas cabras depois de atravessar tantas mazelas a reunir-se e a organizar a vida nova longe das falésias surrealistas, já quase como sem palavras ao pé do forno aceso em dengoso tapete de brasas estalando pois perdiam, paladinas num torpe confronto sem contrários, o calor benevolente das tristes do apetite e repeti baixinho estrênuo, visai, maternal e condoída, contingente e rejeitada, lutai contra a virose desgraçada de uma imagem, tirai do coelho móvel afeita lua, dois brutos rubis travos olhos cavos e a tal crassa, tácita contumácia de nora a devorar peões em bispos, rainhas em cavalos, torres lídimos faróis em nívios sóis com o olho na barriga _

त्रप् + अप

Em Gênesis 2:6, Lutero escreve:

Aber ein NEBEL ging auf von der Erde und feuchtete alles Land

O termo (as caixas altas são nossas) deriva da raiz *nebh-, a mesma que nos dará nuvem. Na Vulgata, entretanto, lemos

sed FONS ascendebat e terra, irrigans universam superficiem terræ

Na Bíblia de 1909 de Reina Valera, o lema é diverso:

Mas subía de la tierra un VAPOR, que regaba toda la faz de la tierra

Em King James, a escolha tem ainda outra raiz, *meigh-, que nos terá dado, provavelmente, o xulo ‘mijo’

But there went up a MIST from the earth, and watered the whole face of the ground

O momento é decisivamente seminal. Em 2:7, enfim (não do ‘pó’, como erram muitas traduções, mas do ‘barro’, sendo a questão, conforme chovera, de solução naturalmente lógica), Deus forma Adão.

É preciso, se tanto no seu íntimo, que tenha o leitor qualquer distanciamento familiar ao que subia, ou fazia-se subir, naquele instante, desde o chão da terra.

Aqui, claro, não por lógica nenhuma, posto as raízes *kwep-, de ‘vapor’, que dará inclusive no ‘cozer’, e *dhen-, do lema latino ‘fons’, que nos traz o ‘fluir’, serem, junto às anteriores, cada uma ungidamente verisimilis. Mas, isto sim, por um motivo em nada menos importante: o apreço.

A pessoa é bom que tenha perto do coração suas palavras. Gênesis 2:6 é um destes inescapáveis, quem sabe mágicos, relicários da cultura que habitamos.

Na memória que transcorre, turvar-se-á o porvir – véu que ascende – apenas para ilha e salvação reencontrarem-se férteis em novo nascimento.

No belo verso de Isaías, não é senão isto o que a Septuagenária Septuaginta recorda, em 45:16,

ἐγκαινίζεσθε πρός με νῆσοι

um corpo despossuído a varrer a capelinha sem jeito é trágico e sinistro como o efeito de ambular sem prece. Criptas à poeira dobram, altares à ruína atinam. Contínuo de um bailante suportar de escorregares, copázios de leite e moças d’enxovais têm sonhos. A brasileira tragava do futuro notas e mágoas da república que sentada contaria do frágil bonito papá que interrompia. Em vez disse infelizmente está metida noutras coisas e tentasse eu deitar ronda de cume de prédio cujas luzes tantas voltas às varandas de uma casa adjacente, vizinhança que não luzi, examinasse. Ouve, disse, apenas para lá do vidro o breu que é mar de formas e abre, então, a porta de correr, azul do meu crescer. Faz um breve recuo ao canto escuro da varanda e salta, por força de um sucesso esplêndido, não mais o traje do abandono, mas como quem tece um semblante tenaz. Adiante o brilho nos olhos da irmã da quitandeira só por trinta contrapestes fará vargem no mural das horas grandes, repique nas cisqueiras instaladas e travas tipo brocas lá na sonda da moenda. A face pacificada da egressa era matriz, laço e açude na cacimba e, dos bons, tropel à pátria. Como enxugam-se, os troncos rímicos! Mares quase sós entanto jazem… Sonhos são, as canduras, nessu’as jangadas? Das poucas ofertas sanitárias, o  enxuto dava pano para um terso, discurso fio d’água, e furo e remo leu, canoa nos olhos, barris se errassem random para o precipício _

Vênus & Vulcano

Nem Odorico Mendes, nem Carlos Alberto Nunes conseguiram, a nosso ver, gravar em alta fidelidade o núcleo lógico deste modesto cenáculo que precede o fabrico das armas de Enéias na frágua arquifamosa de Vulcano.

Estamos num tenso estágio da epopeia. Em sono visitado pela divindade tiberina, o herói recebe a nota oracular de preste, renhida luta, resolvida entretanto pela providência arquetípica da mãe. Ele sacrifica a leitoa profetizada, mãe de trinta porquinhos; quem por ele apruma o estro do combate é também mãe, Vênus. Ela faz sua parte para que Vulcano faça a dele.

Virgílio graceja no feitiço matricial e logo documenta o despertar de marido e mulher. É como se tudo se passasse numa casa de família comum. Cubile coniugis aqui a nosso ver está para ‘casa de família’.

É preciso perguntar se quem acorda antes do sol e atiça o fogo, instrumento central dos trabalhos do lar, o faz para manter arrumado o ‘leito’ (termo adotado nas duas Eneidas brasileiras) ou a casa inteira. Cremos que o fogo alto será mister nas lides de limpeza e cozimento, ou seja, manutenção diária de um lar.

Outra dificuldade que passa em branco nas traduções é o termo lumina longo. Num jogo lesto de transferência do pequeno fogareiro ao próprio sol, o poeta diz que a faina doméstica, iniciada no fogo da casa, vai até o pôr-do-sol, quando esse (outro) lume estará distante.

É o que o idioma hoje diria, por Vênus, ‘trabalhar de sol a sol’, com a pequena correção da estreia em medio noctis. Nada de novo, pois se não afama o cancioneiro popular brasileiro os versos:

A estrela d’alva lá no céu brilhou
brilhou, brilhou, já é madrugada!
Acorda, vaqueiro, e vai ‘pra malhada

A forja de Vulcano, sabemos, empregará as melhores ligas para guardar Enéias num escudo complicado. O bonito deste livro, no entanto, está nesta breve reportagem da vida como ela é, no tempo e no lugar do autor, numa casa de família. Minerva já não faz sentido para nós, nem na vingança troiana tem peso, a não ser como símbolo indisputável da diarista.

Os versos vão da linha 407 à linha 415 do livro VIII. Assim traduziríamos:

Inde ubi prima quies medio iam noctis abactae
curriculo expulerat somnum, cum femina primum,
cui tolerare colo vitam tenuique Minerva
impositum, cinerem et sopitos suscitat ignes,
noctem addens operi, famulasque ad lumina longo
exercet penso, castum ut servare cubile
coniugis et possit parvos educere natos:
haud secus Ignipotens nec tempore segnior illo
mollibus e stratis opera ad fabrilia surgit.

Lá donde corre, noite fora aviado
o sono, faz a esposa a estrénua estreia
daqueles a quem lide egrégia é dado:
– Atice a brasa em cinza sopitada!
A faina lavra, da noite até a ceia
e assim dá pé de casta e serva casa
de família e piás sem ter ideia:
se tal qual faz o esposo quando sai
da cama entusiasmado e ofício emprega.

 

§

Força e entendimento

Diferença é ser para o outro. Diferença não disto ou daquilo, mas diferença em si – equivalência universal de Força. Para que possa ser, Força há de estar livre do pensar. Há de estar colocada, antes, como substância da diferença, inteiramente.

Por si, tem dois momentos: i) manter-se Força (Noção de Força); ii) desdobrar-se em coisas (que parecerão coisas mas serão expressão de Força).

Não pode estar Força num momento sem estar no outro, ou deixaria de ser Força.

O que pode e acontece é Força solicitar Força. Força pensada a livrar-se do pensar e a expressar Força na coisa que segue. Em verdade, porém, só sabemos Força no pensamento.

– – –

O breve desenho hegeliano é metódico. Para o leitor, resta continuar, prolongar o que diz o filósofo. Compor o entendimento é tarefa de uma mente. Quanto mais importante o tema, mais importante continuá-lo.

Onde está a diferença, ao fim? Na coisa que segue. Porque Força, não mais pensada, e ainda Noção de Força, desdobrou-se.

Dizer entretanto inteiramente colocada como substância da diferença parece desmerecer a dignidade existencial do momento i. Ou haverei de cogitar Noção como a história de uma noção.

Pois se está colocada inteiramente como substância da diferença, Força parecerá coisa. É preciso perguntar se tal processo avariaria a chance construtiva da noção do que não é coisa.

O fluxo filosófico (Arfeu) persegue a coisa (Aretusa) para que a Fama espalhe a boa nova: o que era potência atualizou-se.

Não se faz contudo Itália de Noções. Antes, Itália é ela mesma coisa de coisas, completamente; que tampouco seria sem Força.

Ora, se Itália tem a coisa história da Itália, por aí pressuponho um caminho.

Na história dessas coisas, nada leviano contará que perdure, uma vez que o historiador exaure o pão filosófico da dúvida. Então, coisa que segue foi diferença – consubstanciada.

Momentos ii saltarão ao cenáculo. A disciplina solidária crescerá, da petrificação meramente germinativa da marcação orgânica Força nas buscas do historiador, sua Noção.

Donde fica demonstrada, na arte de Hegel, a priorização secundária de i (Noção de Força) graças a ii (expressão), chance ilesa dessa construção.

Mas: ponta solta: por que, livra-se do pensar? Porque coisa nenhuma comunica. Simulacro nenhum ganha força. Força pensada seria Força na proeza absurda de já não ser i e não ser já ii.

Se vossa ideia é criticar os modos contemporâneos, o fluxo filosófico dá-se em ponto de partida? Pergunte: a coisa comunica ou apenas aparenta? Desconfie que, muito provavelmente, apenas aparenta. Nossa forte crença é que coisa nenhuma comunica, simulacro nenhum ganha força.

Nossa forte crença é que o que há são diferenças nas quais Força, livre do pensar, desdobra-se em coisas.

Travas na língua

Isidoro Martins Junior faz publicar, a 10 de novembro de 1893 no Recife, sua nota de repúdio à parte da ocupação da baía da Capital da República. Antes, porém, é bom lembrar: a inteligência brasileira, tortuosamente novomundista desde sua certidão de nascimento em 1824, quando uma Constituição liberal segue a dissolução de sua própria Assembleia, não chega a incorporar o clássico, eficaz conservadorismo. A tensão política, aqui, se deu porque só soube se dar do centro à esquerda. A disputa, amiúde pueril e sem estofo, pela posse dum autêntico espírito social e transformador, toma o quanto pode das polêmicas a aderência que o bate-boca perde em pseudo-argumentação de pureza de origem. Como se o liberalismo, a orientação pela crescente emancipação social e os demais atributos das inovações políticas franco-americanas fossem fatos sanguíneos ou hereditários, e não meramente racionais. Tal marca seguirá, acompanhada da figura desconfiada e jacobinizante do Poder Moderador e do encardido espectro da Questão Militar, como se vê, até nossos dias.

Quando outorga o Imperador e Defensor perpétuo do Brasil o diploma constituinte de 25 de março de 1824, o gesto é revolucionário porque compreende, contra a obsolescência da organização provincial dos donos de terra, as qualidades capazes de consubstanciar a atualização urbana dos conceitos de poder, respeitabilidade, obediência e coesão. A coloração da longeva e enfática realidade colonial,”aristocrática e personalista” nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda no livro Raízes do Brasil,  não deixa que a cidade nasça e prospere, pois cria atração magnética à Casa Grande. Em torno dela, os pobres ofícios e o comércio marginal estarão em completa subordinação ou sedento, quiçá sedicioso improviso.

Nossa Carta inaugural, todavia, decide apostar no que era até então, como lembrará Brasil Bandecchi no livro O município no Brasil e sua função política, a única estância de autêntica representação do povo – as Câmaras Municipais. Não será, da parte da Carta, um não senso; antes, quem sabe, um contrassenso. E talvez esteja aí, no título sétimo, capítulo II, artigo 169, que dita,

O exercicio de suas [das cidades e vilas] funcções municipaes, formação das suas Posturas policiaes, applicação das suas rendas, e todas as suas particulares, e uteis attribuições, serão decretadas por uma Lei regulamentar.

– lei regulamentar, isto é, com autonomia não só diante do governo central, mas especialmente ante a Província –, pois talvez esteja aí, nesta chaga ou nesta luz, a Constituição brasileira a negar de abjeção (ao menos em letra, num contágio que há de ser lento em ambiência rural) o vício estrutural mais arcaico da terra, a psykhé pré-moderna e de jeito nenhum tradicional dos donos de fato da ocupação territorial.

Quatro anos depois, por óbvia pressão do Legislativo que não sabe representar um povo que não existe, lavra-se a Lei de primeiro de outubro de 1828. Inconstitucional, na leitura de Bandecchi e também na nossa, ela pretende revogar a bela característica de estímulo à autoridade municipal de 1824. Em detrimento da força da cidade, a Lei de primeiro de outubro dá dois passos para trás. Dita, no artigo 78, que:

E’ prohibido porém todo o ajuntamento para tratar, ou decidir negocios não comprehendidos neste Regimento, como proposições, deliberações, e decisões feitas em nome do povo, e por isso nullos, incompetentes, e contrarios á Constituição, art. 167, e muito menos para depôr autoridades, ficando entendido, que são subordinadas aos Presidentes das provincias, primeiros administradores dellas.

Deliberação local nenhuma, sequer “em nome do povo” (sic), seria possível sem o aval da autoridade provincial. Atentemos aqui para a abrupta aparição do termo “contrários à Constituição”, que no Brasil significará não raro ‘contrários à nossa vontade’, sendo de parte a parte evocado sem mesura como uma acusação última, passível de agressão ou ameaça da parte acusatória. Salientemos, martelando e contrastando com noção de integridade, que um mesmo objeto não pode ser A e não ser A. Pois que a não contradição, por antiga e evidente, não foi familiar às discussões que, do centro à esquerda, abarrotaram ou vêm abarrotando nossas folhas e sessões parlamentares.

Nem central, nem local, o poder da província operará por muito tempo como um negócio um bocado obscuro e autárquico, capaz de contrapesos e pressões que tanto marcarão o árduo processo emancipatório e de unificação nacional. Eis que a fazenda escravista de monocultura fornece, em virtualidade e nova roupagem, a contradição brasileira ao estrato burocraticamente válido da Província.

É preciso insistir na tipificação de uma postura, entre a fidalguia bastarda e o arrivismo perdulário, a caracterizar homens de quem Buarque de Holanda dirá “adventícios ambiciosos de riquezas e de enobrecimento”, com a mesma frieza que Lenin adotará, mais adiante, para observar os capitalistas financeiros. “Não partilham o mundo”, dirá o ensaísta popular, “levados por uma particular perversidade, mas porque o grau de concentração a que se chegou os obriga a seguir esse caminho para obterem lucros”. Este tipo – nem fazendeiro, nem escravo, nem afeito à oficina – é um dos fundamentais arquétipos brasileiros.

A depender da contingência, sorte ou falta de sítio aonde ir, o tipo achará em breve, na organização militar, a ‘mersa cavernis’ de Arfeu e Aretusa. Far-se-á um, não com este ou aquele saber fazer, mas pura e simplesmente com a segurança completa do dono de terra, lembrança talvez carimbada no semblante daqueles que, intimoratos e enfáticos, controlam e sentenciam.

Comentando, em janeiro de 1889, a difusa incompreensão dos movimentos do republicanismo brasileiro, o Journal des Debats, em coleta de Delso Renault no livro O dia-a-dia no Rio de Janeiro segundo os jornais, 1870 – 1889, dirá:

Quando se souber que o Exército brasileiro conta com 1 oficial para 13 soldados, compreender-se-á facilmente como os republicanos intransigentes, bacharéis, advogados e jornalistas – na sua maioria – sonhando tão só em chegar ao poder encontram fáceis adesões entre os chefes de tropas e, sobretudo, entre generais ambiciosos que brigam pelas altas dignidades.

Dos 52 militares congressistas em 1890, 9 eram do Sul ou da Corte, 4 do Sudeste, 15 de “outros lugares” e 24 do Nordeste, informa Murilo de Carvalho no livro Forças Armadas e política no Brasil. Os dados demonstram a tradicional conexão entre a grande propriedade agrária do Nordeste e sua transformação em influência provincial; demonstram esta sorte de duplicação do honorífico senhor de engenho no ambicioso oficial militar.

A afronta à orla carioca de 1893 que por seis meses e sete dias desorganizou o comércio e o ir e vir naquele município é um objeto de interesse histórico porque nos chega eivado de equivocidades categoriais e prenhe de, num microcosmo, iluminações sobre os multívocos e conflitantes desejos da alma brasileira em seus primeiros passos republicanos. O livro de Villalba traz, como dizíamos, um depoimento de notável equilíbrio.

Isidoro Martins Junior, acadêmico pernambucano e republicano de positivista jaez, faz publicar, a 10 de novembro de 1893 no Recife, sua nota de repúdio à parte da ocupação da baía da Capital:

Os que os promovem [os intuitos do movimento setembrino, na leitura de Martins e também na nossa, uma revolta] esquecem-se de que as revoluções não se inventam, não soem ser o resultado da vontade de um homem e sim o produto de toda uma época ou de muitas épocas históricas, através das quais se foram estratificando lentamente as cóleras e as aspirações sociais, até chegar o momento de fazerem voar a crosta do mundo político n’uma explosão vencedora e definitiva. Assim a revolução francesa, assim a revolução americana, assim o 15 de Novembro.

A 4 de setembro de 1850, um objeto jurídico de sintética, reveladora importância, vem à luz na forma da Lei 581. Diz seu artigo primeiro:

As embarcações brasileiras encontradas em qualquer parte, e as estrangeiras encontradas nos portos, enseadas, ancoradouros, ou mares territoriaes do Brasil, tendo a seu bordo escravos, cuja importação he prohibida pela Lei de sete de Novembro de mil oitocentos trinta e hum, ou havendo-os desembarcado, serão apprehendidas pelas Autoridades, ou pelos Navios de guerra brasileiros, e consideradas importadoras de escravos.

Aquellas que não tiverem escravos a bordo, nem os houverem proximamente desembarcado, porêm que se encontrarem com os signaes de se empregarem no trafico de escravos, serão igualmente apprehendidas, e consideradas em tentativa de importação de escravos.

Vinte anos depois de proibida, a importação de escravos seguia. A lei de 1850 cria, talvez pela primeira vez em nossa história de forma tão contundente, um estado de exceção, de guerra tácita e repressão estatal, no caso contra os operadores do tráfico de africanos. A reação, em terra, a reboque dos primeiros casos de intervenção em mar e apreensão de embarcações, foi das mais esganiçadas entre o dinheiro antigo e seus patrocinados. Como seria possível o Império dispor brasileiros contra brasileiros em prejuízo do bom andamento dos negócios?

Caio Prado Jr., no livro História econômica do Brasil, tem como um dos veios centrais de sua disciplinadamente dialética mesura expositiva, a decadência econômica da grande propriedade do Norte. O autor cita, além do contexto internacional a criar concorrências vantajosas à cana brasileira, a lei de 1850 como um dos golpes que abalariam o regime produtivo da monocultura escravista. A crise do açúcar entretanto só se concretiza quando um novo personagem da terra mostra-se potente o bastante para disputar o protagonismo. O café, diz Caio Prado

em confronto com a cana-de-açúcar, é uma planta delicada. Os limites de temperatura dentro dos quais prospera favoravelmente são muito estreitos: 5 a 33 C. O cafeeiro é muito sensível tanto às geadas como ao calor e à insolação excessivos. Requer doutro lado chuvas regulares e bem distribuídas, e é muito exigente com relação à qualidade do solo. Finalmente, ao contrário da cana-de-açúcar e também ao algodão, é uma planta permanente e tem de atravessar por isso todas as estações e anos sucessivos sem substituição. Outra dificuldade da lavoura cafeeira é que a planta somente começa a produzir ao cabo de 4 a 5 anos de crescimento; é um longo prazo de espera que exige pois maiores inversões de capital.

Deste modo, physis altera praxis, exigindo ao trabalho mais ciência e ao capital mais vigília ao estágio de financeirização internacional. O fazendeiro do café, diferente do anterior, haverá, por exemplo, de ler jornal. É provável que, uma vez que foi à banca, em alternância ao campo, deseje ficar e fruir da cidade que passará, de roça carola, a cidade do bonde elétrico em 1900. Esta nova elite, passo a passo, religará o ímpeto municipalista, artificialmente originário (uma vez contrário à essência provincial da nação), frustrado em 1828. O microcosmo paulistano, cidade do Modernismo que, ao menos até o Estado Novo, fiar-se-á numa espécie de cosmopolitismo distanciado do nobiliarquismo oficialesco, cavando entretanto a nobreza do homem comum, migrante, imigrante, forâneo, patriota, construtor e, a seu modo, vencedor sobrevivente no ecletismo antropofágico da cultura utópica, feita sua por rigor obstinado, fará portanto a ponte entre a má consciência militar, o republicanismo corrompido pelo falso republicanismo, e os novos compromissos do Estado Novo.

أمير البح

Em grossas linhas, o mito de Aretusa é um metamito. Sua mais emblemática aparição, prove-se contrário, são os versos 639, 640 e 641 do livro V de nossa Metamorfose, aqui em edição alemã de 1977:

Delia rupit humum, caecisque ego mersa cavernis
advehor Ortygiam, quae me cognomine divae
grata meae superas eduxit prima sub auras.

Casta e amedrontada, a Ninfa por Diana consolada em densa nuvem precipita. Seu medo, Arfeu, persegue-a – porque nua.

Ao ver Aretusa em água – por ter ou querer, quem sabe nele, a Desejada –, faz-se Arfeu na coisa amada. São ele e ela água inseparáveis; ele que a culpa saudava, ela que um fluxo temia.

Não é secreta, a cripta aonde descem. É antes cega, diz Ovídio – como a Justiça –, a nova assembleia. Leito doce & submarino a fluir frescor ao substrato, farão rica, os amantes, a ilhéu Sicília.

Misérrimo Arfeu, Aretusa infensa: o infortúnio do desejo, a iniquidade do dínamo, a providência da autoridade, a alteração material, a redução à origem, o renascer.

Antes cega porque, como dirá Lao Tsé, “doa-se sem disputa”. Estamos no poema 8 d’A Marcha Ingênua:

Ver da água sua fluência
Lá onde os homens não querem
A água quer: sem preferência
Como o Tao, a água está perto
Do chão; flui sem pretensão
Não controla e não compete
Move um leve coração
Porque doa-se sem disputa
Contra está à oposição

Metamito porque se prestam, os versos de 639 a 641 do livro V de nossa Metamorfose, sem penduricalhos, à simples espécie εῖδος Mito, cujo princípio – um mito é a atualização de um mito – não pode, por mito algum, negar-se.

perspectiva artística da então sitiada Rio de Janeiro | autor desconhecido

Coisa diferente será ler a história, que exigirá do filósofo i) a responsabilidade tátil do escrutínio comum; ii) a tessitura, contra a fantasia edificante e ad hoc do Mito, em doses iguais de escrúpulo e desinteresse.

Tentemos um ensaio.

À página 97 do livro A revolta da armada, de Epaminondas Villalba, disponível aqui, lê-se:

Às 3h30 da tarde do dia 3 [de novembro de 1893] foi observada para os lados da ilha do Governador uma negra coluna de fumo elevar-se na atmosfera e sentido logo em seguida um terrível estampido que, abalando o solo em um âmbito bastante considerável, pôs todos os moradores das circunvizinhanças sobressaltados. Eram os paióis de pólvora da ponta do Matoso que explodiam. Não estando ainda bem averiguadas as causas deste desastre a que parece não ser estranha a intervenção de uma máquina infernal, nem determinadamente avaliado o número de vítimas, sabe-se que dentre estas figuram […]

a que se segue a nomeação de oficiais.

Quando objetos concorrentes à história da gestação republicana no Brasil como proprietários de terra do Sul e do Norte, jornalistas mais ou menos autônomos, militares mais ou menos nobres, intelectuais mais ou menos radicais e a família monárquica atuam na complexa emulsão de um passado decisivo, o esperado conúbio não é outro: intuição – pulga exacerbada pela medicinal solicitude da anamnese –, e coleta – esquematização sistêmica de leituras congênitas – em prol duma só água que de sua mais franca ‘aguidade’ não prescinda.

É preciso perguntar: como os seis meses e sete dias da ocupação da baía de Guanabara contra o governo de Floriano Peixoto, conduzida pelo então Contra-almirante Custódio José de Mello, podem ser lidos de modo a mitigar a difusa incompreensão do evento República Velha?

Qual dulçoroso leito

Baixo muito mais suor porque no curso crosta-magma os achados estarão ‘ex oculi’?

É como ater-se em garbo inquisidor de volta à história, mas neste caso a história não dos fatos, que documentos proveria ao tato, e sim das formas, que nada à mão fiável provê.

A tarefa da tenção filosófica, salvífica no que confere torque às atualizações necessárias, imitará Cristo também no que descende à mansão dos mortos sem qualquer protocolo de segurança além do aguerrido duma fé praticamente mística:

si modo quod memoras factum fortuna sequatur

diz Virgílio no quase perfeito verso 109 do livro IV de nossa Eneida.

O episódio central, aí, é a união erótica de Dido e Enéias. À moda do que a εῖδος epopeia marcara a psykhé modernizante dos latinos, o principal autor literário do Ocidente memora a mais que proba manha grega, o Narrar Dramático.

O narrar dramático está contido na mais grega das técnicas, lógos, ou a arte do discurso.

A mitografia hélade, de início oral, isto é, escrita somente na mente, não só foi a responsável pelo nascimento da filosofia, posto prestar-se invariavelmente em télos cosmogônico ou originário-organizacional, mas fez também com que ela, a filosofia, quando a vanguarda do interesse artístico na Atenas pré-Peloponeso assume, englobasse, a si e ao mito, na categoria ou conjunto superior do Discurso – ordenação sistêmica de unidades terminológicas, Nomes, com fins proposicionais – e estes com fim dialético.

Memora Virgílio Homero ao dar a deuses e similares a maquinação da fortuna dos homens. O verso 109 sai da boca de ninguém menos que Vênus, império da formosura, à face artimanhosa de Juno, que por sua vez armará as condições ambientais para que Enéias inocente e misérrima Dido caiam presas do amor.

O plano dá certo.

À entrega do casal, diz-nos prenhe de ático espanto o verso 172,

coniugium vocat hoc praetexit nomine culpam

O princípio desta busca é voltar à crosta salvo – mas também salvando. De mais ricos solos trará o filósofo mãos cheias. Mas não dum composto qualquer. Antes de physis* – natural cultura humana – decomposta e lida.

A moto segue, vagarosa e circulando, pois que teima analisar. Felídeas mãos, agora que em faro e mandíbula fez sua parte a arma lupina. A emergência do impensado rima, lembremos, o que está por vir e aquele que pensa. Harmoniza o que ainda não é com o que cabe em meu querer. Antes da prova, ou junto dela, experimento:

chamam conúbio, querem desvelar

O ato é de amor porque nem nada escondem quando i) se arriscam, Dido e Enéias, obliterando política por êxtase; e ii) reduzem corpos historicamente engrandecidos por discursos à anomia erótica.

Lembram homem e mulher de uma fulcral segurança inominável no amor? Ou quem ama é Eros, tradicional εῖδος grega ofertada no Banquete de Platão? Se sou capaz de dizer e pensar ‘anomia’, a anomia existe?

“O que ama o Amor?”, pergunta a filósofa (CHAUI, M., Introdução à história da filosofia. São Paulo, Cia. das Letras, 2002).  E responde:

O que dura, o perene, imortal. Ama o bem, pois amar é desejar que o bom nos pertença para sempre. Por isso Eros cria nos corpos o desejo sexual e o desejo da procriação, que imortaliza os mortais. O que o Amor ama nos corpos bons? Sua beleza exterior e interior. Amando o belo exterior, Eros nos faz desejar as coisas belas; amando o belo interior, Eros nos faz desejar as almas belas.

Prenhe de ático espanto é o verso 172 da Eneida porque pode ser lido, em contínuo ganho escolástico, como a cópula originária duma εῖδος primordial, misérrimas luvas, inocentes mãos, aliadas em função eclesiástica do que ascende – da morte à eternidade.

Segue entretanto do gozo um novo espanto. Agora a cena é quase tão rica quanto a Pandora de Machado de Assis, emblema supremo de nossa Memórias Póstumas. Aqui, é a Fama. Em metonímica coreografia, a personagem espalha a energia da boa nova num corpo de elástica plástica:

ingrediturque solo et caput nubila condit

este sim um verso perfeito (177).

Sente o leitor a influência de Aretusa? A seguir trataremos dela. Antes, ensaio:

A grados pisa o chão, mente nas nuvens.

Não é outra a fama do que floresce, filhas as flores de terroir e atmosfera, húmus e altura. Dedáleas entretanto se desdobram, e assim entretêm, nossas histórias desde Homero. No que gozam, complicam-se; e nisto ativam sombras e uns escândalos.

É a vez de Mercúrio, extremoso de apolínea culpa, cobrar do homem insuficiente – multá-lo? – seu compromisso, labor construtivo amestrado, ou nada na história de Troia vingar-se-ia. Não porque Apolo assim deseja, mas porque falha, aqui e ali, a nossa Eneida. Eram, pergunte-se, amor e obra, excludentes?

Em nada arrependido, antes vestido no púrpuro da virtude amorosa, está Enéias. À praia, contempla. Em triste viravolta, o mensageiro o amarga. Traz-lhe a antiga sombra da inveja, brumada e temerosa. Toma de assalto, seu cogito, a moderna confusão duma clivagem:

atque animum nunc hoc celerem nunc divit illuc
in partesque rapit varias perque omnia versat

A mente vagueia, incerta e incapaz. É de novo o homem um barco sem porto. Vale dizer: a moto do filósofo não teme conhecer o tanto que teme parar. Familiarizar-se com um mundo a cada passo mais largo não supõe trocar o reino infinito pela monografia do conforto.

Pese o baque, o amor e a dor, o livro IV traz ainda uma bem realizada cena de DR, que nada fica devendo ao melhor cinema do gênero (comédia romântica). Construir a Itália, diz Enéias e Dido,

hic Amor, haec patria est

Não é sobre você, Dido, é sobre a Itália. Prenhe outra vez da sophía da Academia e do Liceu, o dictum de Enéias o faz Virgílio antes político que maldoso. Resignado, o filósofo retorna, pés no chão e a mente em branco, enquanto o corpus social frui das ricas florações da cidade. Em seu antebraço, em pedaço, ou imperfeito para a época de Virgílio mas redondo para a época de João Cabral, um octassílabo (verso 361):

Italiam non sponte sequor

Com Odorico Mendes,

Não espontâneo para Itália sigo.

Com Carlos Alberto Nunes,

Não busco a Itália por gosto.

Ou ainda,

À Itália não é meu querer.