Da família: capítulo II.3

Na seção II, dedicada ao arquétipo da Mãe, o terceiro capítulo (Mãe Bahia) traz um texto dramático sobre a Insurreição Praieira. Como introito e pano de fundo, comentários sobre o poema Auto do frade, de João Cabral de Melo Neto.

LEIA AQUI O CAPÍTULO II.3 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo

Da família: capítulo III.5

Neste capítulo, a ideia da escola é retomada com a ajuda do filósofo e educador norte-americano John Dewey. O elemento central, no entanto, não é a Escola, mas a Previdência. Questão longe de resolução no Brasil e no mundo, a perspectiva pública a uma sociedade que aos poucos envelhece merece novas e mais arejadas formas de ser discutida. Proponho, num breve conto de ficção científica, a criação de uma estatal (OZ) que irá empregar os mais experimentados cérebros da sociedade na função objetiva de regulação econômica.

LEIA AQUI O CAPÍTULO III.5 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo

Da família: capítulo I.2

Aproveito o clima de transição, em que os assuntos circulam tensionados nas prioridades evidentes, para alimentar a discussão de uma prioridade implícita e não raro carente da devida atenção: a Escola.

No link abaixo, o capítulo I.2 de meu livro-ensaio publicado em 2017 pode ser lido na íntegra. Entre outros assuntos, começo a esboçar a ideia de uma escola pública, a meu ver, atual e possível.

LEIA AQUI O CAPÍTULO I.2 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo

uma tradução: samuel beckett

cascando

por que você não foi meu simples desespero
um ocaso de palavras
melhor abortar ou ser infértil?

depois que você foi, as horas se arrastaram
desde cedo
garras fincando cegas a cama do ardor
os ossos que o velho gosta exaltando
choças que seus olhos já ocuparam
sempre tudo melhor cedo do que nunca
pardo desejo espalhado nas caras
dizendo de novo nunca aboiaram nove dias os amados
nem nove meses
nem nove vidas

dizendo de novo
se você não me ensinar eu não aprendo
dizendo de novo há uma última
última das últimas
chances de começar
chance de amar
de fingir não saber não saber
das últimas a última das últimas chances de dizer
se não me amar não serei amado
se eu não te amar nada amarei

a chusma das velhas palavras outra vez no coração
amor amor amor o tranco do velhaco
pilando o inalterável
canto das palavras

de novo é apavorante não amar
de amar mas não você
de ser não mais amado mas por outro
de fingir saber não saber
fingindo

eu e os outros todos que amaremos
você
se eles te amarem

* * *

cascando

why were you not simply what I despaired for
an occasion of wordshed
is it better to abort than be barren

The hours after you are gone are so leaden
they will always start dragging too soon
the grapples clawing blindly the bed of want
bringing up the bones the old loves
sockets once filled with eyes like yours
all always better too soon than never
the black want splashing their faces
saying again nine days never floated the loved
nor nine months
nor nine lives

saying again
if you do not teach me I shall not learn
saying again there is a last
even of last times
last times of begging
last time of loving
of not knowing not knowing pretending
a last even of last times of saying
if you do not love me I shall not be loved
if I do not love you I shall not love

the churn of old words in the heart again
love love love thud of the old plunger
pestling the unalterable
whey of words

terrified again of not loving
of loving and not you
of being unloved and not by you
of knowing not knowing pretending
pretending

I and all the others that will love you
if they love you


* * *
Conforme versão remetida a Seuman O’Sullivan em julho de 1936
publicada em The Letters of Samuel Beckett 1929–1940
* * *

dois poemas: gabriela wiener

Canción de cuna

sucumbo pequeno hijito
pero antes de hacerte dormir
en mi columpio del parque San José
sin niños sucios que empujen a traición
mis zapatos miran al sol

la canción que ahora no escuchas
la conozco bien
a mí logra dormirme
es el himno de mi casa
donde no tuve paz

paz la de tus párpados cansados
azules por sus juegos y caídas
en los patios
en los parques
aves de ensueño sobre ramas

mi paz era mentira
mamá me acostaba en pleno día
ocultaba en su casa amarilla
los patios de la noche
cerraba mis ojos con broches de muñeca
creía en esa manera de estar a salvo
pero nunca me avisó del pelligro:
puntapié, parque desierto, árbol pelado, niño muerto

ahora me mezo en tus manitas
y te veo y trato de cantar alguna canción cierta

no duermas pequeño con esas melodías
despierta si escuchas
un día de ahora o de mañana:
el arrurrú

– – –

Somos pobres

nuestra casa no tiene patio
ni exteriores
solo vivimos
al despertar
a la hora de la comida
al volver
en la noche
quietos
bajo las sábanas
cosidas de sombras
juntamos nuestros cuerpos
al frío de las paredes
hasta desaparecer

una casa es una planta carnívora

* * *
Do livro Ejercicios para el endurecimiento del espírito (2016)
* * *

uma tradução: T. S. Eliot

O hipopótamo

O hipopótamo grandão
Descansa a pança na lama
Se parece assim, firmão
Não passa de carne e sangue

Carne e sangue é fraco e frágil
Ataques de nervos medram
Já a Igreja não falha
Pois é feita sobre pedra

Erra o bicho às vezes débil
Prejuízos remoendo
Já a Igreja é indelével
Somando seus dividendos

O bichano nunca alcança
Na mangueira a manga alta
Mas pêssegos e romãs
Vêm à Igreja do além-mar

A voz do bicho excitado
Trai-se rude e desafina
Mas ouvimos, extasiada
A Igreja, a Deus unida

De dia dorme, o hipopótamo
Só à noite é que ele caça
Deus faz certo em linhas tortas
Dorme e caça a Igreja em Graça

O bichano bateu asas
Ascendendo das savanas
Em redor, anjos cantavam
Glória a Deus, altas hosanas

Sangue do Cordeiro o lave
Braços celestes o tenham
Entre os santos colocado
Harpa dourada tecendo

Branco o lavem como a neve
Virgens mártires ao lado
Ficando a Igreja na terra
Em fumos velhos rodeada

* * *

The hippopotamus

The broad-backed hippopotamus
Rests on his belly in the mud;
Although he seems so firm to us
He is merely flesh and blood.

Flesh-and-blood is weak and frail,
Susceptible to nervous shock;
While the True Church can never fail
For it is based upon a rock.

The hippo’s feeble steps may err
In compassing material ends,
While the True Church need never stir
To gather in its dividends.

The ‘potamus can never reach
The mango on the mango-tree;
But fruits of pomegranate and peach
Refresh the Church from over sea.

At mating time the hippo’s voice
Betrays inflexions hoarse and odd,
But every week we hear rejoice
The Church, at being one with God.

The hippopotamus’s day
Is passed in sleep; at night he hunts;
God works in a mysterious way–
The Church can sleep and feed at once.

I saw the ‘potamus take wing
Ascending from the damp savannas,
And quiring angels round him sing
The praise of God, in loud hosannas.

Blood of the Lamb shall wash him clean
And him shall heavenly arms enfold,
Among the saints he shall be seen
Performing on a harp of gold.

He shall be washed as white as snow,
By all the martyr’d virgins kist,
While the True Church remains below
Wrapt in the old miasmal mist.

ao mr. robot

Whiterose tem a vantagem de crer
Depois dos nomes ruírem
Restarão suas nódoas fluidas (seus saberes)
E que antes dos nomes sentimos
Tantos dados iguais, caindo
Jogados, de ninguém, para todos
Mas Whiterose nos chama
a ver: nos fins, e só nos fins
far-se-ão valer os meios
meios que se meios saberão
do nome meio a nódoa: liga
entre a lonjura do tom
e o trom sem desconsolo
pórtico e charrua, casa e armadura
marcha em cosmo são
fértil chão, convidativo

Elliot prevalece porque ajusta
À par com a cova da sombra e a deleção
Da falta pressa sobra e da demora
Partos sonhados a fundo
Que é fio — vívido da história
Quando há ruído neste aquém
(pense em olhos numa face)
Há fluxo sem deleite
Capital dolente e massa
De manobra
Mas Elliot forte arbitra
Um por um dos fortes sem canto
Porque chaves vão trancadas
Se são ondas as fendas os vasos que transbordam
Servem mais quando merecem

Por que você não porta o que suporta com postura
Por que suas costas curvas, os milhos brancos, os sisos crus
Botas frágeis e essa falta
De milongas toantes a crer
Que migalhas contam se todos
Sabiam o que era, o que não era
Com a queda do muro de berlim zanzaremos a valer
Entre os mastros sem bandeira li aqui
Que antes da escrita eram poemas
As leis bem como as cartas de amor você sabia
Quantos caramujos cabem no rápido dilema de um nome?
Números encontram nomes
Eles casam, a lua-de-mel numa brecha
Entre a hora d’alva o lábio e o meio-dia
Mas o menino ajoelhado num imerso sagrado
Tem na mão direta as chaves
Na esquerda a vontade arqueada
E a ignorância da pipoca-doce