dois poemas: lucas bonolo

A flor precária

Não desistir da flor precária
Ou atirar-se ao mar das camas
Despossuir bem a quem amas
Na doce aventura diária

Admirar os modos parcos
Conhecer da selva as ternuras
Talhando no homem usuras
Como aos planos se drena os charcos

Louvar o amor e o povo em chamas
Ainda que em via contrária
Escrever com a pena arbitrária
Em que o vento encena as tramas

E não viver de amarraduras
Nem de triunfos arcos
Mas voar em tantos barcos
Quantas do sol as posturas

– – –

Tais campos

Na cidade
Entre as casas
Pedras ficam
Pra contar a história
Todos já partiram
Por desgraça ou pandemia
O vinho estragou, não há memória
Ou rios santos

Mas são meus,
Que comprei ali
Ao tempo, sob a ponte
Os mais regados de pena,
Tais campos

* * *
do livro –Gaia primavera, o amor vai à guerra! (2018)
* * *

POLIGRADO

Tomem um esboço de aplicação de engenharia social.

O apelido é Poligrado, pois parte da visualização de um sólido de oito lados visualizável em capacitações de realidade aumentada e que almeja tocar, em mecânica progressiva de estágios (graus), as principais estâncias da vida.

A interface cidadã de avaliação holística pode ser instalada em governos eletrônicos com forte correlação, por exemplo, a descontos no Imposto de Renda. Modo transparente e seguro de nudging, que troca a generalização nominalista da legislação e a assombração das patrulhas coercivas pela sanidade lúdica e longeva do entendimento.

O usuário pode ser avaliado momento a momento, dia a dia, semana a semana etc, de acordo com parâmetros emprestados à expectativa social e às contingências individuais. Pontua de ZERO a UM, em cada um dos sete aspectos ou faces (realms da vida social) do poliedro, sendo reconhecido e/ou recompensado pela média simples e dinâmica.

Idade, ocupação, localização, índices fisiológicos, objetivos para o ano (por ex.: perder 30Kg, correr a São Silvestre etc) e situação socioeconômica indicam o regime aconselhável para o corpo. Não em alimentos específicos, mas em nutrientes, quantidades e frequências. O desafio é buscar o necessário sem abrir mão da aventura dos ingredientes, seus múltiplos preparos e funções bioenergéticas. Se come fora de casa, estabelecimentos cadastrados podem oferecer refeições montadas a partir da pontuação desejada pelo usuário. Se come em casa, busca na rede de usuários com a mesma biotipologia recomendações e dicas preciosas. Um sensor ingerido pelas manhãs pode monitorar a eficiência de cada alimentação e bocado em tempo real.

Idade, ocupação, localização, índices fisiológicos, objetivos para o ano (passar no vestibular, curar dores crônicas etc) indicam o trabalho aconselhável para o corpo. A rotina de exercícios para tonificação muscular, resistência cardiovascular, equilíbrio biodinâmico e qualidade de movimentos observada diária e semanalmente é constantemente atualizada a partir das respostas lidas e processadas pela programa. Além da ginástica propriamente, o usuário pode optar por ser lembrado, ao longo do dia, de oportunidades de ‘exercício fora de hora’ que o ajudarão a antecipar a meta de trabalho em ocasiões como a fila do banco (onde é possível ficar num pé só e recrutar a musculatura transversa), a demora de uma ligação ao telemarketing (em que é possível realizar diversas respirações com a contração do abdômen) etc.

Cuidar do corpo, íntimo habitat, leva o usuário a cuidar da casa, corpo do corpo, morada reclusa para restauros, fazeres domésticos, cultivos próprios. Neste pequeno zoneamento, aprende-se a reconhecer as vias da limpeza, do lugar das coisas, da fluidez e da harmonia espacial. Daí se expande, por apropriação parental, um saber afim do apropriado e do leve estar até outros, mais abrangentes perímetros: o condomínio, o bairro, a cidade, a nação, o planeta, o cosmo. Sob o imperativo da necessidade e a resolução da ordem, habitua-se. Trabalha-se em vigência contínua e irrevogável pela saúde dos corpos que nos contêm. Resíduos, descartes, pegada de carbono, economia energética, inovações pela longevidade da casa. Pontuar, em EKO, é entender-se extensão da matéria comum, uno com todos os corpos.

Sua por assim dizer ocupação profissional não é, nem deve ser, o fim do mundo, do dia, das forças, da sensibilidade. Ciente de que o homem do terceiro milênio não é filho de hippie com yuppie porque curte aprender e experimentar novidades, desfrutar do tempo livre para tocar o mundo com curiosidade ingênua e andar a esmo atrás de iluminações serendípicas, o usuário dedicará boa fatia do dia à geração de renda, mas tão boa quanto enxuta. Seu trabalho econômico, entretanto, é mais largo que o holerite. Incluirá as tantas outras trocas sem valor monetário explícito de que seus interesses e possibilidades são capazes. Aprender, ensinar, doar, compensar, realizar, voluntariar-se, projetar, cooperar, reformar, ceder, consertar. O objetivo de um contato menos dinheirista e mais virtuoso com a economia será domar a angústia em que o imaginário de um consumo exagerado e desnecessário aprisionou o trabalho e a ambição.

Partícipe, o usuário nunca está completamente satisfeito com seu círculo. Sobram contatos, faltam contatos. Discussões empacam em vícios circulares. Preconceitos se ossificam. O léxico perde o sabor. O que era festa vira deserto. Buscar novas redes, ainda que a partir da postura muda do etnógrafo, faz-se vital para manter ativo e vibrante o pulso relacional. Aprender, mudar, arriscar, transformar-se, fazer cada uma das significativas coisinhas que dão colorido à vida estimuladx pela adrenalina renovadora da pertença a novos grupos. Investigar tradições que lhe eram estranhas, familiarizar-se expandindo de novo e de novo seu círculo.

Não é porque se trata de um experimento imaturo que abandonaremos a democracia americana aos carreiristas resfriados e ao status quo insensível. Antes, o usuário Poligrado agarrará a política como a um filho perturbado, sempre próximo, cansado de bullying e de ser tirado como o boboca da vila. Trará a política ao plano achegado, no nível dos passos que se cruzam e se saúdam no passeio. E sobretudo falará. Exerce o direito à voz e toca os problemas que nos tocam, em discussões abertas e mediadas pela hierarquia dos saberes. Tomar partido é expressar confiança em quem merece confiança, mas é também publicar o pensar próprio na discussão, na redação, na ação. Votar a cada dois anos não rende ponto algum em POL.

Ligar os pontos, investigar os trabalhos que salientam e enobrecem o percurso de uma espécie capaz de recriar a experiência de mundo ao articular linguagem com técnica e ciência histórica. Mistério disponível, claro enigma, convites à percepção e à luz, à dúvida e ao assombro. Debruçar, dar tempo, se perder nos objetos de arte que atraem pelo que negam do mundo em si, pelas mentiras que expõem para desdobrarem-se verdadeiros e maleáveis, pelo fracasso que superam tecendo pontes abissais e desfiladeiros virtuais. Não é a arte papo só para especialistas ou obsessivos, mas para quem nutre o que de melhor é capaz seu Homo sapiens. Pontuar em FIC é curar um museu inteiro para si, ser crítico e poeta relacionado a outros tantos, demorar-se não no prazer que dão, mas na trajetória trabalhosa em que nos dispõem algumas obras, do arrepio inicial à análise refletida.

Se não é filho de hippie, o cidadão (CIT) tem certo afã por aperfeiçoar os modos, evoluir as técnicas, fruir ativo a máquina do mundo. Se não é filho de yuppie, encanta os corpos e objetos na nobreza simples do pé no chão, sem pressa nem botões apertados no gogó. Não pretende entregar completamente sua sensibilidade aos algoritmos na medida quase mesma em que não pode dar as cosas à novidade da inteligência artificial. Conquanto não despreze a priori nem abrace apenas a posteriori, jogará criticamente com o advento da performatividade ubíqua usando-a qual aliada leal e domada. Há valor no mérito, há beleza na recompensa justa dos esforços, e se a poesia da vida se abre aos números sem o prejuízo da ordem civil, todos podemos melhorar enquanto tudo melhoramos.