uma ideia para ‘minha casa, minha vida’

As fotos que vi dos projetos de habitação popular recendem o futum da imaginação pobre. Ninguém merece uma casa fria, insossa, em nada orgânica. Que dirá das famílias a habitar o bojo vasto do precariado, num país de patrícios insensíveis e políticagem espúria.

Nossa ideia para extorquir o programa Minha casa, minha vida de seu futum recendido via tristes imagens de esquadrias de alumínio por onde se passa um bebê e nada mais, cômodos minúsculos, profusão de paredes, porcelanatos horrendos, e frieza de cal e de morte, esboça-se a seguir:

É uma casa onde se toma juízo da arte da domesticidade essencial: a terra, o céu, a água, o fogo, o dia, a noite, e as plantas.

Num terreno de 9 por 9 metros, constroem-se 70 metros quadrados, sendo 50 (~7×7) no piso térreo, e 20 (~3×7) em patamar.

Ao centro, FOGO: forno a lenha, chapa e bocas, em adobe de radiação, e evacuação superior de fumaça.

Atrás, ÁGUA: pedras onde se lavam corpos, vestes e utensílios, com filtragem, reuso, e quedas em volumes vários.

Nas laterais, JANELÕES: enormes molduras de madeira a vidros em temperamento e difusão ótica, basculantes.

Em frente aos janelões, PLANTAS: espécimes da flora local em vasta jardineira modular de cerâmica.

À frente, PÓRTICO: enorme moldura de madeira a trabalho entalhado e único em madeira, em trilho.

À frente do pórtico, SOLEIRA: híbrido interior/exterior em pedra e madeira, ajardinado.

Entre água e fogo, CASA NOTURNA: espaço de ceia, leitura, jogos íntimos, meditação e sono. Piso de junco recolhível sobre concreto.

Entre fogo e pórtico, CASA DIURNA: espaço de trabalho, exercícios biomecânicos, atividades de manutenção e confraternização. Piso de concreto.

Sobre a casa noturna, SOLARIUM: mezanino amadeirado com cisterna, horta, ponto de energia e telecom e área livre.

No suporte, VIGAS MESTRAS: fortes toras a demarcar o limite da unidade, sustentar paredes, patamar e telhado.

12 unidades com ÁGUA voltada para dentro formam um amplo círculo, chamado “QUADRA”, em cujo centro arborizado há recanto para aves e insetos, micro-unidade de tratamento de descartes, e espaço para confraternização. Seis “quadras” unidas podem dar num quarteirão, servido enfim por vias por onde passa o transporte público e os veículos de serviço.

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Para solicitações e perguntas, casa@tourobengala.com

dois poemas: wei & chamie

RESPOSTA A MEU IRMÃO ZHANG WU

Minha humilde casa
   dá para as montanhas do sul.
Faz tempo que ninguém me visita,
   por isso a porta sempre fechada.
Sem preocupações ao longo do dia,
   aprecio meu longo repouso.
Pego minha vara de pescar
   e tranquilamente esvazio
   o odre de vinho.
Se quiser me visitar,
   venha, será um prazer.

* * *
Wang Wei (701–761), praticante do budismo chan. Poema reunido no volume Poemas clássicos chineses, com tradução e organização de Sérgio Capparelli e Sun Yuqi, L&PM, 2012
* * *

FOGO NO CÉU DA BOCA

Não faço o papel
de quem bate à porta
e espera a sua hora.
Esta é a palavra do profeta:
não troco os papéis
nem os rumos de vossa rota.
Vou por mim
sem a graxa da demora.
Caminho a pé no labirinto
que me ampara
e nem me escoro
na escora da memória.
Não forço as minhas rótulas
nesse passo.
Lentas, desfilo as cenas
do vosso agouro
em minha câmara.
Não faço o que disfarço.
Não corto os fios do telégrafo,
nem rompo os nervos
de nossa têmpera.
O que anuncio
no lacre desta mensagem
são os chifres do dilema
que faz de mim
outro profeta
entre o podre de vossa tâmara
e o mel de nossa abelha.
O que trago à tua porta,
nossa e vossa,
não são os frutos desta época.
São os ácidos
de meus açúcares
na palavra de teu déspota.

* * *
Mário Chamie (1933–2011), praticante da poesia-práxis. Poema do livro A Quinta Parede, Nova Fronteira, 1986
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sedição é chance: nota sobre a crise espanhola

Conforme escrevo, a gente catalã está fechada à vontade do Reino de Espanha. Acabo de assistir, num streaming em tempo real, a uma plácida e alegre caminhada dos bombeiros da Catalunha, em prol da autonomia indepedentista nacional. Trens, metrôs, ônibus, portos e estradas estão parados, num ato de represália à violência policial de Madri do domingo passado, quando o mundo quedou-se um tanto estarrecido ante as cenas de idosos e mulheres arremessados ao chão e chutados por enormes agentes da força espanhola. Numa das fotos mais belas, centenas de tratores, encaminhados das zonas rurais da Catalunha, fechavam as vias de acesso ao centro de Barcelona no domingo do referendo, de modo a impedir a chegada de novas tropas do batalhão do Reino.

Mas o que quer, afinal, a gente catalã? E por quê? E o que quer, por seu turno, o Reino de Espanha? E por quê? Ainda: por que tal evento, cujos desdobramentos restam imprevisíveis, é importante para nós, cá no Brasil?

Como toda gente, a gente catalã quer curtir a vida. Seria inacreditável se não fosse assim. Por seu turno, o Reino de Espanha não deseja desmembrar-se, desejo que tampouco chega a ser exorbitante a um organismo cuja identidade se expressa na união de suas partes. A crise atual acusa incompatibilidade entre os modos de propor os desejos de um e de outro lado.

Converse com um estudante catalão. Ele demonstrará, serena e lucidamente, que sua narrativa independentista está correta. Converse então com um agente do governo de Madri, ou mesmo com o editorialista do periódico El País, e eles demonstrarão, serena e lucidamente, que sua narrativa é legalista e, portanto, correta. No meio das conversas, uma e outra parte afirmarão o pacto democrático, a vontade popular, a soberania, o cristal teleológico do dínamo contratualista a reger a configuração política da convivência. Dois lados, nenhum deles errado. Como proceder?

A saída será uma de cálculo projetivo, estatístico e poético (posto que expresso em narrativas ansiadas), a partir do fio vermelho que teceu a nossa história. Numa leve e funcional distorção da fábula hercúlea do labirinto, seria o caso conjurarmos a prudência de Ariadne – não por retornar por onde entramos, mas para adivinhar e fazer o melhor dos mundos a seguir. O cálculo não é só estatístico: é também poético. Isto quer dizer: entre os vários cenários possíveis e queridos de desdobramento, a eleição se dará também em chave quente e apaixonada, sanguínea e vibrante, de uma confabulação de sonhos cruzados e ingenuidade imanente.

Leiamos por um instante o poema ‘Oda a Espanya’, do poeta catalão Joan Maragall (1860–1911), em tradução de Fábio Aristimunho Vargas:

Escuta, Espanha, a voz de um filho

que fala em língua não castelhana:
falo na língua que me legou
a terra áspera:
língua em que poucos já te falaram;
na outra, demais.

Mais te falaram dos saguntinos
e dos que pela pátria morrem;
das tuas glórias, tuas lembranças,
lembrança e glória de coisas mortas:
viveste triste.

Quero falar-te de outra maneira.
Por que verter o sangue inútil?
Dentro das veias o sangue é vida,
vida de agora e dos que virão;
vertido, é morte.

Muito pensavas em tua honra
e quase nada em tua vida:
teus filhos, trágica, à morte os davas,
te saciavas de honras mortais,
e os funerais eram-te festa,
ó triste Espanha!

Eu vi os barcos zarparem cheios
de filhos dados por ti à morte:
iam alegres a seu destino;
e tu cantavas à beira-mar
como uma louca.

Cadê os barcos? Cadê teus filhos?
Pergunta ao Poente e à onda brava:
perdeste tudo, não tens ninguém.
Espanha, Espanha, retorna a ti,
dá teu pranto de mãe!

Salva-te, oh! salva-te a tantos males;
faça-te o pranto fecunda, alegre e viva;
pensa na vida que te rodeia:
ergue a cabeça,
sorri às sete cores que há no arco-íris.

Não te vejo — onde estás, Espanha?
Não ouves minha voz tonitruante?
Não sabes esta língua que te fala entre riscos?
Desaprendeste de entender teus filhos?
Adeus, Espanha!

Agora, leiamos as estrofes 18, 19, 20 e 21 do ‘Cántico’ de San Juan de la Cruz (1542–1591):

  ¡O ninfas de Judea!,
en tanto que en las flores y rosales
  el ámbar perfumea,
  morá en los arrabales,
y no queráis tocar nuestros humblares.

  Escóndete, Carillo,
y mira con tu haz a las montañas,
  y no quieras dezillo;
  mas mira las compañas
de la que va por ínsulas estrañas.

  A las aves ligeras
leones, ciervos, gamos, saltadores,
  montes, valles, riberas,
  aguas, ayres, ardores,
y miedo de las noches veladores:

  Por las amenas liras,
y canto de serenas os conjuro
  que cessen vuestras yras
  y no toquéis al muro,
porque la esposa duerma más siguro.

Ora, o que temos aí? O que temos aí senão a celebração dialógica de uma cultura antiga e forte, tão radical quanto dinâmica? Nós, no Brasil, somos pelo menos 33% Ibéria, e a Ibéria é nada menos que o Brasil da Europa, tendo lá amalgamado, antes de nós, África, Roma, Arábia e Saxônia. No entardecer do Império brasileiro, Pedro II e seus conselheiros viam brotar no tabuleiro do território miríades de manifestações similares, revoltas carentes, sedições separatistas. Tanto nos faz pensar o que carrega de Recife, Barcelona. E como a força nacional foi capaz de superar os desejos de separação, impondo-se muitas vezes não como um pai responsável, mas como um irmão invejoso. Sempre que volto aos registros das revoltas que antecederam a República, penso, ao lado de Joan Maragall, que cabe ao governo central a postura paternal e responsável — olhar suas regiões como filhos, calando-lhes quando suas demandas são imaturas, sentando-lhes à mesa quando soarem persuasivos. Filhos que crescem, amadurecem e desenvolvem projetos de autonomia, mais dia, menos, dia, conversam de igual para igual. Se o Império Romano seguisse apenas seus anseios, não haveria Espanha. Espanha é filha de Roma, que soube crescer, desejar e falar por si.

Os Estados Nacionais nasceram graças a uma ruptura, mais ou menos pacífica, a depender do caso, dentro dos sistemas feudais e absolutistas. Hoje, no seio da globalização tecnológica, testemunhamos a expressão rediviva do orgulho local. As cidades, e não mais as nações, estão crescendo e se afirmando como pólos de inovação comercial e política. Em mais ou menos tempo, as culturas nacionais serão resíduos simbólicos, expressos e cultivados em seus mais honrados produtos. Nos lembraremos deveras do cinema espanhol de Buñuel e Almodóvar, da guitarra espanhola, flamejante e virtuosa, do queijo da Mancha e da paella de Valência, da cava, da pata negra e do tempranillo, mas não mais visitaremos um país, e suas antigas fronteiras serão meras curiosidades historiográficas. Visitaremos Córdoba, Madri, Barcelona e Oslo, ou nomes todavia insuspeitos, pois é alegremente amalucada a toponímia da quarta revolução industrial. Os países, cedo ou tarde, cederão à lei internacional, à licença autônoma das diversidades regionais, e à alegria dos fazedores dos primeiros dias dos muitos novos mundos. Assim aponta a maturação do Direito, e da expressão política popular.

Vejo a sedição catalã como uma oportunidade. Sob o topos amargo da desavença, dá-se à Espanha uma chance de ouro. Assumir as rédeas e tornar nobre o desenlace é o que se espera de uma cultura que legou ao mundo tamanha Arte, tamanho Ritmo, tamanha Política. Que mantenha-se altiva e imperiosa, e não ceda nem rebaixe-se aos queixumes tonitruantes de um filho sufocado e irritadiço. Há 40 anos talvez não fosse a hora; hoje, talvez, seja. Hora de sentar e ouvir a voz do filho que, enfim, se quer tão pai quanto.

Nada apagará da História as façanhas espanholas. Ao contrário: a cultura planetária dedicar-se-á a contemplá-la e a consumi-la, repetindo seu Nome em admiração e pesquisa, quanto mais motivos tiver de dela se orgulhar. Este orgulho hoje depende da condução augusta e serena, não ressentida nem orgulhosa, muitíssimo menos violenta, da crise que se desdobra em chance de ouro. Condução de quem raciocina junto a um filho bem nutrido e capaz, com ele arrazoando os novos termos de su desejada e nova autonomia, morrendo para não morrer, como pediu Santa Tereza, amando-o e bem querendo-o, con llama que consume y no da pena.

dois poemas: meireles & baq

APRESENTAÇÃO DO BOM PRESSÁGIO [trecho]

Olhando bem para o fundo da memória, vimos que éramos prisioneiros, e vimos que éramos também a prisão. E desejamos liberdade, como um último sorvo de ar para um resto de vida.

Foi quando reconhecemos no fundo de nós mesmos, depois de todos os desencantos e além de todas as misérias, aquele vulto gêmeo que ninguém pode ver, e que ninguém compreendeu nem amou. O que existiu por si, magoadamente. Que teve sempre glória: que foi arrependimento, que foi perdão, que foi um profundo suspiro para domínios mais puros e que, cercado de portas fechados, teve a forma com que as angústias limitam o tamanho das ansiedades.

* * *
Cecília Meireles (1901–1964). Poema em prosa do livro Episódio Humano, Editora Batel / Desiderata, 2007
* * *

Alguém sentado no escuro
sentiu a presença de Alguém.
Se um pintasse o outro,
os auto-retratos unidos
dariam meu rosto também.

* * *
bobby baq. Poema do livro Nébula, Riacho, 2016
* * *

lendo os novos: noite dentro da noite

Se eu fosse um resenhista, batizaria-o com um nome brasileiro corriqueiro, de preferência associado às camadas mais populares da sociedade. Um resenhista, formado no arcabouço de humanas das poucas Universidades brasileiras, afinal, tende a ser mais respeitável conforme se alie às perspectivas esquerdizantes da crítica, contra os antigos donos do poder, pelo poder aos novos poderosos, quem sabe inexistentes.

Na minha coluna de hoje, iniciada no dia 2 de julho de 2017, diria, em nome de meu heterônimo carismático, que principiei o dia, um domingo fresco, quieto, digno, demorando-me na figura ‘Os jogos e os enigmas’, estampada à página 2 da Ilustríssima. Óleo de Maria Leontina (1917 – 1984), a tela anuncia exposição numa galeria da cidade. O sólido plano configurado por níveis ou camadas de tons quentes lembra um edifício, destacado e coeso, contra o fundo escuro, praticamente negro. Sua luz viaja de dentro das cores andares. Suas portas e paredes vazadas são cores.

Publicada com meu nome verdadeiro mas dita em nome do resenhista popular, o texto lembraria que a pintora realmente existiu, viveu, sofreu, superou, comungou, isolou-se, publicou, exibiu-se e exibiu, meditou e refreou, negou e resgatou, afastou e atraiu, um mundo de coisas. Ela associa-se involuntária e desesperançosamente a um movimento cujo nome mais correto me escapa, a nós, como o faz o Joca Terron neste livro ao grande romance de formação latino-americano – Jogo de Amarelinha e Detetives Selvagens. O autor não comenta, mas esta é uma tradição guardada pelas duas colunas da fantasia escrita na América ibérica, Jorge Luis Borges e Gabriel Garcia Márquez.

Sem muitos rodeios, lembraria que, ainda hoje, antes de submeter minha resenha à editora, viverei o importante evento de quem sabe cozinhar um inhame, cortá-lo em rodelas, refogá-lo na mesma frigideira de sempre, acompanhado de alho-poró, curry, quem sabe shoyo. Dizendo, ou, constatando a previsão, é como se eu já a vivesse, a experiência dita, recontada, imaginada presa quando todos fogem e se escondem. É como, também, eu já vivesse abrir o jornal na Ilustríssima há quase três meses, deparando-me com a composição concreta e harmoniosa, enxuta indecisa entre o solene e o lúdico, de Maria Leontina. E seguiria, com a licença do leitor, lembrando a ele e a mim que uma resenha não se alonga, ou só não mais que o necessário. Certas coisas, entretanto, a gente precisa contar. Pois quando conhecermos melhor o homem por trás dele, dele e do resenhista por trás da leitura do livro do Joca Terron, aproveitaremos melhor essa parte da vida que é ler a resenha por trás dos livros que leremos ou não leremos, a depender de um mundo de coisas.

O homem por trás do resenhista imagina o resenhista desinteressado pelo homem por trás de si. Não por desprezo, mas por impessoalidade analítica, desde que possa ele, quem sabe conosco, ao acessar este domingo, 2 de julho de 2017, ao acessar e remontar um hoje passado e redivivo, enterrado e ressurreto em reação, viver de um ponto de vantagem a utilidade simbólica, a utilidade significante, dos eventos ali iniciados, quando se inicia e se encerra, no cair da noite, a leitura de Noite dentro da noite, livro de autoria de Joca Terron cuja resenha empregará os sintomas por assim dizer originais do homem homem Eu, passivo e consequente manipulador da equivocidade da heteronímia produtiva, tratada e manifesta, recriadora e ativadora se mnemopropulsora dos dias de leitura que seguiram o início da leitura, aos 2 de julho de 2017, no cair da noite dentro da qual rasgará, e com efeito rasga, resenhista à frente, tal e qual fazem as luzes de Leontina, a forma edifício do óleo vibrante da pintora este homem num fundo negro praticamente escuro.

Ora, diz o resenhista, ao que o homem baixa o livro. Você, diz, do centro escondido de seu nome popular e resenhista, ora lembra de Jogos de Amarelinha, às vezes de Detetives Selvagens, mas devo intervir e alertar: não, não é correto, e você não há de diminuir a análise assim, aditando desbragado um referencial afetivo antes das citações canônicas, compartilhadas pelas fortunas correntes, criteriosas, depuradas em conjunto aberto e cotejado. Depois, ao comentar ou detalhar virtudes técnicas da criação, o leitor provavelmente desconfiará, sem deixar de amá-la, sua resenha de resto adorável, da adequação da exposição, da competência do resenhista, e logo da sua, e assim, por indução forçada, e desagradavelmente, da dele, ou minha, final e inicial leitor. Ele diz, perguntará o leitor, referindo-se a mim, portanto ao resenhista a cujo homem deve a pedra e a fonte, a terra e o passar das sombras, desde o umbigo ou desde um sólido manancial?

Como num jogo de sombras, dança de escuros delimitada por recortes e compostos da paleta leontina, algo de rico correrá em pressentimento neste embate tensionado entre corpos. Vez que outra, a depender das posições, os corpos, pelo indistinguível que abarcam em sua condição de sombras, perfazem novas, cronoenfermas e insuspeitas unidades. Corpos novos e assombrados sem embate. O resenhista, e isso dizemos agora porque já dissera, ele a mim e eu a ele, antes mesmo de se dar, seu nome pulular e a nossa rica relação ceder, eu a eu e a eu ninguém, ergue em baile alternativo um enquadrar, da Noite dentro da noite, dentro de um vivo movimento literário contemporâneo, internacional, gênero-hibridista, escola atual da produção romanesca capaz de adensar o papel velho da ficção compondo-a junto às fibras rejuvenescedoras da biografia de si e dos próximos, aos contextos, costumes e motivações e consequências políticas da reportagem histórica, ao desafio associativo e divertido do meta-discurso, político e não político. É menos intrusivo, diria, como dirá, ainda que mais profissional, menos presunçoso e mais didático. O relho na mão da crítica, pensa-se, é incapaz de idealizar senão à exaustão.

Mas sendo genealógico e orientado por camadas, Noite dentro da noite hierarquiza apenas o bastante para fazer despespegar a narração dum ethos unívoco, mantendo aberto e lépido o jogo de transmutações e enigmas narrativos (quem? depende para quem; o quê? depende de quem conta; por quê? depende do que vem antes; como? depende de quem quê; para onde? para onde mesmo quando? etc), não deixando clara uma sua heráldica. A cozinha onde já posso ver o inhame a descansar, encascado e bojudo nas marolas encriptadas do alguidar mineiro, é pequena, não passa dos seis metros quadrados, e disputam tamanha exiguidade a barulhenta geladeira do tempo de casado, talvez, a pia íntima dum rajado e praticamente negro granito, o fogão de duas bocas amigas, se pereclitantes, o pequeno mas amplamente útil gabinete suspenso, despensa e cristaleira sem cristais. Um nada. Pois mais vasta é nossa dúvida: que sabe o resenhista do que nos conta a impressão demorada neste óleo sobre tela, pintura de Maria Leontina, o homem por detrás da intenção da resenha, e assim do resenhista ele mesmo, sua voz ainda a fímbria imaginada do fio d’água, nascente, margem infanta do que sai mas não jorra nem estanca, à qual não nos furtaremos de abarcar, tratar, consumir e processar?

À página 382:

Ao ouvir a história que Hugo lhe contava, você lembrou do som de um trovão distante que bem poderia ter sido o estrondo de seu primeiro passo no interior de um pesadelo habitado por bugios que arremessavam bosta fervente de cima das árvores, enquanto atravessava um desfiladeiro vegetal, uma bosta que o despertava, deixando-o mais lúcido. Surgiu então, mas disso você já não tem tanta certeza, o vulto de um índio emoldurado pela janela, talvez o kadiwéu albino visto pela rata naquela noite de muitos anos atrás no hospital de Medianeira em que você se encontrava inconscientemente, ou quem sabe na viagem através do pântanos ao lado de Karl Reiners logo depois do sequestro fracassado do embaixador alemão.

Os arames da cerca eram uma pauta musical que o vento regia na campina lá fora, uma música poderosa como um furacão entortando palmeiras e varrendo o que estivesse sob a tempestade.

Você, lembra o dizer de si ao resenhista o leitor como quem atravessa um espelho apenas para desviar e concentrar a viatura do homem falante num percurso fecundo e incerto, autor e porventura resenhista, se lembra dos trabalhos de Joca Terron na Ciência do Acidente, pequena e admirável editora do início do século, e de poemas e postagens infernais, e despautérios ante às fraudes de autorias tantas, e das tantas e tão malemolentes resenhas, resenhistas à frente, cozinha por habitar, fogo e água num tubérculo falante, e tempos quantos nomes e tempos, heim, em ciclotímica, deveras enferma condição, atados, da curva proverbial dum rio sujíssimo, paisagens e breus suscitados, ociosidades venturosas ou prosaicas de um Brasil profundamente gaucho e impossivelmente gauche.

Hoje, um hoje deveras enfermo por que poroso e produto, recordante e realejo, pressagista e cartográfico, utópico e desabrido, Joca Terron emprega a imbricação multívoca, a pluralidade genética e cirandista do contar, a retidão elíptica ou este pacto na e pela memória da flor do equívoco ou da ficção, tempo este que é ora de um… e justo de tantos, latrina e sanatório dos lugares, scroll de estratos em rebuçadas retículas, ecoantes efeitos, reverberantes, dissonantes, outra vez e ainda inconclusivos efeitos, quem sabe, é difícil dizer, mas suspeito, suspeito que faz hoje assim por dar potência de verdade ao mar de vozes que abarca o crânio mesmo, crânio do mesmo, furor dáctil e motor de um maturado, túrgido escriba.

Ao campear o intercâmbio trapezista no desvelo de rico e quase insone e alguergado enredo, Joca Terron pinta e prove um largo e organizado Maria Leontina, decerto em fundo escuro, mas lídimo no que ecoa e reverbera, assunta e destempera o domingo quando tudo começou, fim e recomeço da memória bando, lá quando se se caía a noite, lido o jornal e consumida a sopa quente, seria seguir e dormitar as ausências, quente e forte de picante e termogênica, e seu quadro evoca o timbre e a virtude do incerto, caos que só se rende à poesia curada, ao enigma nem tão aberto quanto prenhe, tragado e urdido na solícita juventude dos números, à vida vivida e ao medo superado. Invadir com noite a noite é errar, quando ruma fonte nova ao fogo lento, no tempo brevíssimo que nos mostra ou faz erguer a outra casa do sol.

* * *

Noite dentro da noite
de Joca Reiners Terron
Companhia das Letras, 2017
464 páginas
R$ 53,90

três pérolas da elizeth

Elizeth Cardoso parou de estudar no terceiro ano primário para começar a trabalhar. Foi balconista, cabeleireira, porta-bandeira de rancho, dançarina, crooner, até que cantou, meio que por acaso, numa festinha frequentada por altos bambas cariocas. Jacob do Bandolim ouviu e levou-a para o programa Suburbano, na Rádio Guanabara. Não parou mais, e tornou-se uma das maiores gravadoras de discos do Brasil.

Rigoroso, seu pai chegou a lhe bater uma só vez, com vara de marmelo, ao saber que a filha namorava o craque Leônidas. Colecionadora de apelidos, Divina foi também Noiva do Samba-canção, Machado de Assis da Seresta, Magnífica, Enluarada, Saliente do São Jorge, Feiticeira da Vila, 1a Dama da MPB, Faxineira das Canções, Mulata Maior, Lady do Samba, Rainha dos Músicos. Unha e carne com Grande Otelo, chegou a fazer black face em apresentações de comédia com o ator, antes da carreira de cantora engatar. Estrelou a estreia de Tom e Vinicius em disco, aprendeu a batida da bossa com João Gilberto e nos apresentou Paulinho da Viola.

Portelense e flamenguista, Elizeth percorreu todos os gêneros do cancioneiro brasileiro, mas é lembrada principalmente como alta fadista do samba-canção. Por quê?

Dois motivos explicam: primeiro, samba-canção era o que estava saindo, na época.

Sua predisposição, entretanto, que encantava os músicos e maestros, vinha da época de dançarina. No clube onde trabalhava, ela e suas colegas faziam as vezes de acompanhantes, na pista, a cavalheiros solitários, traídos, viúvos, esquecidos, desejosos de uma dança. Ganhava mil e quinhentos cruzeiros por dança. Certa feita, descobriram que ela cantava. Encantados, os cavalheiros passaram então a furar o bilhete da Elizeth como se com ela tivessem dançado, uma, duas, três vezes, mas abriam mão da vez em troca de ouvir seus dotes, junto à orquestra, e pediam aquela música, aquela e aquela — todas do repertório meloso e romântico da era de ouro. Para bem servir, ela decidiu decorar as canções mais solicitadas pelos pobres senhores. Quando deixou para trás a vida de táxi-dancing e foi para as rádios, parecia conhecer com a própria alma a dor daqueles homens. Vivera de perto o abandono deles, tão frágeis, saudosos e dependentes.

É difícil escolher, entre tantas, três pérolas da Elizeth. Depois perca tempo na internet investigando a vasta e rica trilha desta artista tão singular.

lendo os novos: nunca houve tanto fim como agora

O poeta português Herberto Helder e a brasileira Hilda Hilst são alguns dos convivas do narrador. Salvo pela mais nova namorada, ele deixa o despautério do Relento e vem contar o que viveu. Na casa nova, tudo é avesso ao descaso. Há, por exemplo, uma quem sabe obsoleta estante de livros. Daí que, mesmo sem dispor de intimidade com a cultura letrada, o narrador imita a leitura de que gosta e arrisca escrever. Resultado? Fôlego breve, demasiado repetitivo. Adorno neobarroco, não raro. Mais enforma que informa, o narrador.

Mas que era a vida do narrador no Relento? Miríade de infortúnios. Vida orgânica, patética, sofrida, sem fim. Isso quando sorte. Quando azar, não era, seu corpo, menos que cátedra do desconsolo. Entre humilhação e ignomínia, sem posse sequer de um nome certo, o circuito afetivo mnemônico do principiante na escrita só não nos leva às lágrimas por ser demasiado repetitivo, num fôlego breve que remete à maneira neobarroca do fazer.

Faz rir? Às vezes, pela ingenuidade. Mas logo o leitor se policia. Recobra tratar o papel de um ortodoxo do abandono. A rua, vemos nós da elite, soergue-se, se tanto, em ranho e ramela. Constrange, o avatar consciente do desvalido. No entanto, isso ocorre na mesma cidade capaz de violentar a inteligência de seus rios. Rir? Menos e cada vez menos.

À página 144:

Se o amor fosse o que é a rosa, e eu fosse feito uma folha, as nossas vidas cresceriam juntas no tempo sombrio ou no tempo de uma canção, nos campos ventosos ou nos cercados floridos, no prazer verde ou na dor sombria. Se o amor fosse o que é a rosa e eu fosse como uma folha. Se eu fosse o que são as palavras e o amor fosse como uma melodia com um duplo som e um único deleite, confundir-se-iam os nossos lábios com alegres beijos como são os pássaros que procuram a suave chuva do meio-dia. Se eu fosse o que são as palavras e o amor fosse como uma melodia.

Fica clara a pena tacteante, neófita. O narrador, premido a escrever, acaba por se repetir em fôlegos curtos. Confunde amiúde função com enfeite. Neste trecho, não só se lança ao tema interditado na escrita séria como acusa, na candura da metáfora, fatura de bagagem diminuta. Ler a produção contemporânea, entretanto, é dispor-se, por serviçal dever, às vozes que contêm multidões. Depois dizem se presta.

* * *

Nunca Houve Tanto Fim Como Agora

de Evandro Affonso Ferreira
Editora Record, 2017
158 páginas
R$ 37,90

brasil no limiar

É tempo de darmos espaço à urgência do resgate da dimensão política de nossas vidas. Parar um instante com os projetos e atribulações familiares ou profissionais, frear grandes viagens e investimentos. O solo está instável, os ventos confusos.

A dimensão política de nossas vidas amofinou, dissipada pela frustração. Resgatá-la é urgente porque só ela terá a força capaz de reequilibrar o jogo. Jogo que estamos perdendo, e de lavada, para nossa própria incapacidade de comoção diante da história recente.

A arte, a religião, a ciência, o direito, o império dos sentidos, as redes e a economia – tais modos de existir e ver o mundo são importantes, mas aceitar a pobreza da dimensão política de nossas vidas torna cada um desses modos consequentemente mais pobres. Paulatinamente, e sem que percebamos com clareza, viver torna-se mais enjoativo, a felicidade mais artificial, o amor mais cínico. Vamos fugindo de nós, de nossas potências e identidades, para abraçar paraísos inexistentes, fantasias de segregação e perseguição, violências que nada resolvem, gozos e consumos que nada satisfazem.

Resgatar a política é fazer um esforço para que o campo geral da vida volte a conspirar a nosso favor, frutificando nossos sonhos, celebrando nossos diferenciais e as potências de nossa gente.

Mas o que é, a dimensão política de nossas vidas? E por que estaria ela amofinada?

A dimensão política de nossas vidas é a forma com que organizamos e acessamos o poder. Poder para 1) decidir o que é importante, e 2) realizar o que foi decidido. Você é dono de seu corpo e, se tudo correu mais ou menos bem, de sua reserva doméstica, sua casa. Aí, é você quem preside e legisla. Você determina o que é importante, e você realiza o que foi decidido.

A vida, entretanto, acontece no encontro de muitos corpos e casas. Entre os corpos e as casas, existe tudo aquilo que é nosso, que sempre foi e sempre será nosso. As ruas e rios, o pôr e o nascer do sol, a brisa e a paixão. A faculdade de estender a mão a um irmão, de levantar uma festa, de lutar por direitos. O canto dos pássaros, a copaíba e o jatobá, o calor de um abraço, o sorriso de uma coincidência. A vida acontece feliz ou infelizmente graças à dimensão política com que nos ligamos e nos reconhecemos. Se deixarmos esta consciência esmorecer, murchar, enfraquecer, a alternativa será a estupidez nada confiável da lei do mais forte, dos espaços restritos e privados, do acesso à alegria da cidade reinventada apenas a poucos glutões.

Se a lei do mais forte não fosse estúpida, Homero, frágil e cego, jamais cantaria. A palavra de Jesus e de Confúcio jamais teria corrido o mundo e erguido milagres de fé e solidariedade. A escravidão jamais teria sido abolida. Os direitos trabalhistas jamais teriam sido criados e tornados lei. O Brasil jamais teria declarado independência.

Hoje, o poder está mal organizado, e nosso acesso ao poder é praticamente nulo. Tal situação, tensão que só faz aumentar, pede um redesenho republicano que torne os exercícios deliberativos e administrativos do poder mais atinentes às possibilidades e desejos atuais.

O Brasil é uma terra rica e abundante, mas somos um dos países mais desiguais do mundo. Quanto mais desigual o país, mais insignificante é curtir a vida. Eu pretendo curtir a vida. E você?

As urgências especificamente brasileiras, da União e de suas cidades, foram soterradas. Em seu lugar, opera-se nas câmaras legislativas e nos gabinetes executivos um teatro insosso de revezamento partidário, funcional até o momento em que o grande capital monopolista passou a ser ameaçado pela promotoria pública. Mas o grande capital, mesmo o monopolista, colocará sempre a razão na frente do orgulho. Já os partidos políticos, em tempos de convergência abundante e de superação das diferenças, tornaram-se repetidores intrinsicamente orgulhosos e incapazes de despertar confiança. É hora de ocupar o que é nosso, sem o ressentimento da máscara, sem a raiva do ofendido, mas com o orgulho e a força de quem conhece e zela e luta pelo lugar onde nasceu.

Em seu proveitoso livro de intervenção, Só mais um esforço, Vladimir Safatle diz:

Neste momento em que alguns se inclinam a uma posição melancólica diante dos descaminhos do país, há de se lembrar que podemos sempre falar em nome da primeira pessoa do plural, e esta será nossa maior força. Faz parte da lógica do poder produzir melancolia, nos levar a acreditar em nossa fraqueza e isolamento. Mas há muitos que foram, são e serão como nós. Quem chorou diante dos momentos de miséria política que este país viveu nos últimos tempos, que lembre que o Brasil sempre surpreendeu e surpreenderá.

dois poemas: penteado & naud

SOS

Deixei cair meu coração nas pedras
que chegam a gemer e a chorar o
cambalacho imposto ao inocente rio
por onde muitos hão passado,
por onde tantos vão passar!

Avezinhas tristes parecem murmurar
“Coitado! , pobre rio esquecido…” E
o instinto de sobrevivência as leva,
leva-as a brisa a outros ninhos.

Os peixes, ah! … Não têm saída.
Encontra-os a aflição e a morte e,
à tona bóiam suas feridas. Mas,

eis que alguém desperto vem
aos seres desta água poluída,
Ó seres desta água poluída!
Renovando a esperança,

SOS gritando aos ventos e,
entoando aos rios
a CANÇÃO DA VIDA!

* * *
– Marília Azevedo de Barros Penteado. Poema do livro Reconquista de um Oásis, João Scortecci Editora, 1992
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CONTEMPLAÇÃO DA CIDADE

Por
um momento sinto nas tuas letras
a palavra indispensável. Entro
na sua pura significação, elastifico-me,
e te possuo tôda. Não toca a mim
surpreender-te gênero. Toca tanger tua
humanidade, cidade
onde tantos dramas se comprimem na solidão dos edifícios.
Sinto, um momento, a realidade das tuas pedras, de tua gente,
das tuas águas,
a confluência dos conceitos de Deus, de lei, de vida,
boiando em tua essência.
Mais um dia, mais outro, e outro,
não serás já uma cidade, um momento, a memória
de meu estreitamento a ti.
Serás uma lembrança a vogar o sem tempo,
um susto, no que, sem saber, te encontre transposta,
palavra integral no reino íntegro.
Por enquanto — foge o momento de tua captação cabal —
és fragmentada em mim, no dono do bar, no automóvel, no esmoleiro
parado na esquina. Por enquanto és um pouco das vozes,
das palavras guardadas para ocasião propícia, dos dejetos de hotel
farejados pelo cão ou pelo homem, no lixo.
E mais coisas ainda: a igreja aberta;
a noite morta; o pássaro e o gato;
os canos de esgôto,
surdos rios das casas no ventre das ruas.
Mas és,
para vires um dia sinal, despojada
de tudo o que não foi o momento essencial
em que te surpreendi, na palavra.

* * *
– José Santiago Naud. Poema do livro A geometria das águas, Editora Globo, 1963
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