أمير البح

Em grossas linhas, o mito de Aretusa é um metamito. Sua mais emblemática aparição, prove-se contrário, são os versos 639, 640 e 641 do livro V de nossa Metamorfose, aqui em edição alemã de 1977:

Delia rupit humum, caecisque ego mersa cavernis
advehor Ortygiam, quae me cognomine divae
grata meae superas eduxit prima sub auras.

Casta e amedrontada, a Ninfa por Diana consolada em densa nuvem precipita. Seu medo, Arfeu, persegue-a – porque nua.

Ao ver Aretusa em água – por ter ou querer, quem sabe nele, a Desejada –, faz-se Arfeu na coisa amada. São ele e ela água inseparáveis; ele que a culpa saudava, ela que um fluxo temia.

Não é secreta, a cripta aonde descem. É antes cega, diz Ovídio – como a Justiça –, a nova assembleia. Leito doce & submarino a fluir frescor ao substrato, farão rica, os amantes, a ilhéu Sicília.

Misérrimo Arfeu, Aretusa infensa: o infortúnio do desejo, a iniquidade do dínamo, a providência da autoridade, a alteração material, a redução à origem, o renascer.

Antes cega porque, como dirá Lao Tsé, “doa-se sem disputa”. Estamos no poema 8 d’A Marcha Ingênua:

Ver da água sua fluência
Lá onde os homens não querem
A água quer: sem preferência
Como o Tao, a água está perto
Do chão; flui sem pretensão
Não controla e não compete
Move um leve coração
Porque doa-se sem disputa
Contra está à oposição

Metamito porque se prestam, os versos de 639 a 641 do livro V de nossa Metamorfose, sem penduricalhos, à simples espécie εῖδος Mito, cujo princípio – um mito é a atualização de um mito – não pode, por mito algum, negar-se.

perspectiva artística da então sitiada Rio de Janeiro | autor desconhecido

Coisa diferente será ler a história, que exigirá do filósofo i) a responsabilidade tátil do escrutínio comum; ii) a tessitura, contra a fantasia edificante e ad hoc do Mito, em doses iguais de escrúpulo e desinteresse.

Tentemos um ensaio.

À página 97 do livro A revolta da armada, de Epaminondas Villalba, disponível aqui, lê-se:

Às 3h30 da tarde do dia 3 [de novembro de 1893] foi observada para os lados da ilha do Governador uma negra coluna de fumo elevar-se na atmosfera e sentido logo em seguida um terrível estampido que, abalando o solo em um âmbito bastante considerável, pôs todos os moradores das circunvizinhanças sobressaltados. Eram os paióis de pólvora da ponta do Matoso que explodiam. Não estando ainda bem averiguadas as causas deste desastre a que parece não ser estranha a intervenção de uma máquina infernal, nem determinadamente avaliado o número de vítimas, sabe-se que dentre estas figuram […]

a que se segue a nomeação de oficiais.

Quando objetos concorrentes à história da gestação republicana no Brasil como proprietários de terra do Sul e do Norte, jornalistas mais ou menos autônomos, militares mais ou menos nobres, intelectuais mais ou menos radicais e a família monárquica atuam na complexa emulsão de um passado decisivo, o esperado conúbio não é outro: intuição – pulga exacerbada pela medicinal solicitude da anamnese –, e coleta – esquematização sistêmica de leituras congênitas – em prol duma só água que de sua mais franca ‘aguidade’ não prescinda.

É preciso perguntar: como os seis meses e sete dias da ocupação da baía de Guanabara contra o governo de Floriano Peixoto, conduzida pelo então Contra-almirante Custódio José de Mello, podem ser lidos de modo a mitigar a difusa incompreensão do evento República Velha?

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