troFéu logrou // touro bengala indie pub // Feira plana 2016

Recomeçamos janeiro dando nossa opinião sobre o bom e o mau, Feira Plana 2016. Como estamos a milhão com a produção de 1 primeira peça teatral (mais), seremos práticos: não falar do descartável sendo claros, indiretos com o que prestou.

Nasci assim Troféu Logrou Touro Bengala Indie Pub, um reconhecimento que também, para prestar, não bastaria dar-se em prêmio e só. Imperativo seria, antes, obter o devido reconhecimento, aquele que cabe a quem deseja instituir um reconhecimento derivado (há, por trás deste troféu, engenharia de material ou mera contingência bruta? Se for esta última, podemos falar de outra coisa enquanto não reconhecemos em absoluto um plágio da “natureza”?)

Pegadinha, contudo: só se obtém reconhecimento na empilhada consistência. Mesmo o falso bipolar só é reconhecido como um bipolar se se mantiver fiel à ilusão da enfermidade. Ele produz a repetição do sintoma para ganhar dos outros um nome que o exima do gesto que as mulheres fortes mães ou não de família chamam segurar o rojão. “Quero me ajeitar fora disso aí…”. Tal é a cilada do capitalismo incentivado por políticos e empresários mal formados a estragar impunemente gerações de inocentes. Pena? Nem tanto. Quando faltar a qualquer coisa que importe, diga, uma das gentes, um dos seres vivos, a autocrítica, atacaremos com invenções de improvável insucesso como o Troféu Logrou. Ainda que não fale a eles, a instituição ajuda a apartar mais e mais o descartável do que presta, o que baba bafafá de vento do que instrui e reforça.

Outra vez a Feira Plana se provou um dos eventos mais consequentes da cultura atual em São Paulo. Amalgamando e desamalgamando viéses, desafiando produtores, confrontando perspectivas, provocando encontros, estimulando a troca, o acesso, a apropriação, a bricolagem e a remistura e, talvez seu maior trunfo, expondo a bem mais que à meia dúzia do bate-cartão das feirinhas e, pouco a pouco, alargando essa meia dúzia, ela fica como quem fica para ficar.

Destacam-se, também, as inovações da residência editorial (amparada pela Cosac e produzida na Ipsis, duas casas de excelência), as mesas, as oficinas, o café e a cachaça. Falta, no entanto, robustez ditatorial à curadoria e revolução radical na ocupação.

O discurso da reunião de expositores sairia menos fraco e difuso se mais contaminado fosse pela obsessão, a loucura do controle, por paradoxal que soe. Um dos mais interessantes sítios onde se jogar hoje é uma curadoria mesm, o que não equivale à chance imediata de tratá-la como, por exemplo, um desenho irônico no mundo pós-desenho. Seu estatuto é o de uma forma expressiva nascente, que mal tem pernas, e que não merece assim a lassidão desinteressada, o suicídio ou o renascimento poliparódico de formas antigas como o desenho. Ainda que tenha sido só um exemplo.

A manifestação espacial da feira é ainda mais complicada, presa que está ao molde baias-anhembi de expositores de aparelhos ortodônticos e auriculares. Não se viu terra, plantas, tendas coloridas no chão, mágicos, animais, narguilés, instrumentos musicais, pufes coloridos, sombras orgânicas, águas, pedras, balanços e redários. Nada disso, infelizmente.

TL-01

A mim, pois, a voz do troféu. Eu digo chegarei à mão de três escolhidxs qual areiazinha molecular invisível, perceptível, porém, no do-inzinho micro-licious. Nelas cairei tornando as entranças das ditas mãos sensíveis à dança do deslize.

§ 3º § FRAGMENTO DE HISTÓRIA FUTURA

por Gabriel Tarde [ trad Fernando Scheibe ]

Sem saber o que ler, estávamos aflitos. O ritmo de três bons livros a cada dois anos não precisava envergonhar ninguém. Ainda assim, acreditamos no conservadorismo das melhores idéias. Cultura e barbárie mostrou parruda a mesa letras e ofertou cadernos inclusive, aparentemente propícios a receber figuras (imagine uma montanha, um sol etc) também. Baita afago.

tl-a

Escritor a influenciar Freud, Tarde estudou o comportamento de grupos e o crime; alertou que não trocávamos tanto serviços quanto reflexos, ou o contrário, ou algo perto disso. Esta parece uma ficção científica de mil oitocentos e tanto; o prefácio seria de H. G. Wells, deveras laudatório. Perceba um trecho do capítulo ‘Luta’:

Com cuidados infinitos, elas foram descidas uma após a outra, caixote depois de caixote, às entranhas da terra. Esse resgate do mobiliário humano se faz em ordem: toda a quintessência das antigas grandes bibliotecas nacionais de Paris, de Berlim e de Londres, reunidas em Babilônia, e depois abrigadas no deserto com todo o resto, e mesmo de todos os antigos museus, de todas as antigas exposições da indústria e da arte, está condensada ali, com incrementos consideráveis. Manuscritos, livros, bronzes, quadros: quanto esforço, quanta dificuldade, apesar da ajuda das forças intraterrestres, para embalar, transportar e instalar tudo isso! Tudo isso deve, no entanto, ser inútil em sua maior parte para aqueles que se entregam a esse trabalho. Eles não o ignoram, sabem-se condenados, provavelmente pelo resto de seus dias, a uma vida dura e material, para a qual sua existência de artistas, de filósofos e de letrados não os preparara. Mas – pela primeira vez – a idéia do dever a cumprir entrou nesses corações, a beleza do sacrifício subjugou esses diletantes. Devotam-se ao desconhecido, ao que ainda não é, à posteridade para a qual se orientam todos os votos de suas almas eletrizadas, como todos os átomos de ferro tendem para o polo. Era assim que, no tempo em que ainda havia pátrias, num momento de grande perigo nacional, um vento de heroísmo soprava sobre as cidades mais frívolas. E, por mais admirável que tenha sido, na época de que falo, essa necessidade coletiva de imolação individual, talvez não devamos nos espantar, sabendo, pelos tratados de história natural que foram conservados, que simples insetos, oferecendo o mesmo exemplo de previdência, empregavam antes de morrer suas últimas forças em reunir provisões inúteis para eles próprios, úteis apenas no futuro a suas recém nascidas larvas.

 

§ 2º § CARTELA DE SELOS

por Lola Etelvina

A artista mineira vem explorando os tipos incomuns e usando-os, como é de seu feitio, com a tranquilidade e a leveza de quem garante a dinâmica sismográfica da imagem sem se apoiar na paródia de um tsunami, na paródia de uma samarco, na paródia de uma chernobil ou de uma pé-de-chinelo-friboi. Rir depois do riso crispado do vapor waze, por exemplo, não é tanto um contragolpe quanto uma condição ontológica inquebrantável e desimportante. Daí a leveza e a tranquilidade, apesar da agudeza do comentário e o sacerdócio do sermão.

Aqui estão uma cidade e um estado vermelhos, de onde contarei o que vivo para você que não pôde vir, para você que mora longe mas quem sabe agora sinta algo de delicioso no tocar deste envelope. Em preto eu aproveito e vou: compor quadro, contrastar, impor, contornar, sobrepor, antepor, harmonizar, desafiar, interferir, quebrar, torcer e listar. Este selo agora é seu, preso ao envelope de cujas entranhas fiz páginas de carta desta sorte de saudoso e cavoucado amor.

tl-b

 

§ 1º § UNIVERSO EXPLORATÓRIO

por Cleo Lacoste

Este zine é projeto de conclusão dalgum curso da criadora carioca, inspirada livremente nos conceitos de física elaborados em O universo numa casca de noz, de Stephen Hawkins.

Resulta curiosa, a aposta de Cleo. Um livro poema que remete aos bons websites narrativos e enigmáticos do começo do milênio pode dar num objeto logradamente misturado ao frenesi impresso da baixa tiragem com alta estima sem padecer de insingularidade?

Não é fácil. Neste caso, contudo, acontece de sim.

tl-c

Pode ter sido sorte da Cleo. Tanto a autora quanto o objeto, a quem do magma o retira e à calma da canoa o traz, canoa só a deslizar sem pressa na baía, tudo aparenta a fúria da historiadora travestida de riso-chick para humilhar os desavisados. Eu, no entanto, posso estar lendo mal. Ela não é só mais uma riso-tit, ou, ela não é ainda outra riso-freak, nem, antes, uma riso-kitten, esta tão comum. Ela será daqui a pouco, é isto, uma moderadamente cínica so-riso, uma no-riso, uma inclusive pós-riso ou, enfim, uma back-to-the-riso. Então, estarei certo. O quanto antes, não estarei mais.

É do tempo que não passa e da clara colisão que não acabou ainda de que fala a Cleo.

Este objeto, desde já em minhas mãos, por assim dizer funciona melhor a partir de operações simples mas elegantemente vinculadas a certos conceitos do aparato teórico dos corpos e do cosmo. Dobrar aqui ali assim as margens os buracos, o desbastar fruir reter de trechos, os escuros e as explicaçõezinhas des-tacadas/locadas além do riso-charm a permear os spreads fazem do presente zine um objeto não de descarte, mas muito ao contrário de retenção, apesar de tudo quanto é glitch, de tudo quanto é sobra.

TL-04 TL-05

marque isso: um brinde pra feira

entre tudo o que pode acontecer
ao marcador
notamos no escritório os nossos
aos poucos perdendo espaço
regredindo a pedaços
menores e menores
quem nasceu
para evitar orelhas livros
de bruço for
çando a espinha
quando some é que aprendeu
a viver mais
de uma vida sem capricho
que a defina
os nossos sumindo
invariavelmente sumindo e terminando
comigo calhou, disse um
do marcador acabar junto com o livro
rá, dissemos, o marcador acabou
junto com o livro, nunca mais
que caso difícil
significa que o livro exigiu na leitura o exato
número de piteiras
disponíveis no marcador

§

Na Feira Plana, os livros da Touro Bengala acompanham um marcador que traz em si a marca, a sugestão processual e diríamos a rota mesma de seu próprio fim. Um marcador para tempos que não passam conforme pensamos.

marcador_3

fotolivro: yui 393

Mais um xamã acessível (lembrando que o xamã, de fato, não há tanto quanto grupos fortuitos onde, do eventual, um ou mais esforços acessam o xamanismo em processo, que virá comunicar e administrar perspectivas cruzadas) na Frei Caneca lá embaixo, aonde vou bastante.

Avaro veio de Córdoba, Argentina, formado nas artes do DJing e da fotografia. Por vários motivos instalou-se em São Paulo onde vive e trabalha há cinco anos.

Não raro, Avaro deixa escapar indignações e desejos utópicos que poderiam ser ditos, sem tirar nem por, por mim mesmo. É um tanto espantoso o quanto, às vezes quando encontramos, as falas das bocas orbitam conceitos e percepções que não podemos chamar de próprias, mas de plenamente compartilhadas.

Isso, é claro, quando se pode a mínima complexidade na articulação (para excluir eventos ~meramente catárticos, por exemplo), ou seja, quando é possível abrir espaço para a produção de novos ou para a visita crítica de conhecidas percepções e conceitos não interessadas senão na direção da Verdade.

Há pouco, por uns quatro ou cinco dias, Avaro foi visitado pela enorme mariposa Canthela, nome de trabalho. Não há dúvida, Canthela não era só uma mariposa. Avaro diz que ela o seguia, que se aquietavam ambos quando queriam, e também que se agitavam concomitantes, passando da cozinha à sala e da sala ao banheiro. Eu disse: Avaro,

há pesquisa entre as mariposas, elas levam pranchetas mentais e ali esquadrinham sua ciência. Ela só queria uns dados. Rimos, mas sabemos: sob a máscara animal de Canthela, há, de fato, uma forma humana capaz de ver Avaro como um deslocado rinoceronte de cativeiro ou, mesmo, como uma mera mariposa.

“Vendo os seres não humanos como estes se veem (como humanos)”, diz Eduardo Viveiros de Castro em seu famoso ensaio, “os xamãs são capazes de assumir o papel de interlocutores ativos no diálogo transespecífico; sobretudo, eles são capazes de voltar para contar a história, algo que os leigos dificilmente podem fazer. O encontro ou o intercâmbio de perspectivas é um processo perigoso, uma arte política – uma diplomacia.”

avaro-post-blog

Avaro é apurado compositor, cioso das decisões que chamaríamos clássicas da operação harmônica. Regras de ouro, a forma clara, a beleza fora do grito, o ruído sequestrado pelo esquadro tanto quanto a dor pelo algorítimo luz, e ainda assim um pórtico, uma ponte entre estranhezas, uma sólida passagem para o espanto.

Em tempos de fotolivros ligeiríssimos, de tutoriais de fast-linguagem, de repetições de errinhos estetizados um tanto além do ponto naquela ociosa chave da frouxidão casual hipster, é salutar apresentar YUI 393, um fotolivro canônico. A seguir, um spread:

pg-avaro-blog

Canônico, atenção, quando as “”rupturas”” disponíveis nos aportam tal qual filtros corretivos pré-programados, enjauladas por muitas e muitas aspas.

Avaro há muito frequentava o ?Parque? Augusta. Milita um tanto discreto, mais no silêncio da reza. No canto da sala do pequeno apê que divide com Gábi, há duas dúzias de vasos de onde sobem os verdes em galhos e folhas variadas. Na parede atrás, uma plaquinha diz: Parque Augusta.

Avaro é também muito grato. Nunca o visitei sem notar, às vezes simplesmente do nada, gestos e falas de gratidão genérica ao planeta e a tudo. É bonito ver.

Aqui você pode ouvir o set musical mais recente de Avaro:

YUI 393 estará na mesa da Touro Bengala na Feira Plana, de 15 a 17 agora.

ó lá, mundo

pensamos em começar com esta citação de 1949

Diante de um universo que anseia por compreender, mas cujos mecanismos não domina, o pensamento normal sempre busca o sentido das coisas nelas mesmas, que nada informam. O pensamento dito patológico, ao contrário, transborda de interpretações e ressonâncias afetivas, sempre pronto para aplicá-las sobre uma realidade de outro modo deficitária. Para o primeiro, existe o não verificável experimentalmente, isto é, o exigível; para o segundo, experiências sem objeto, ou o disponível. Na linguagem dos linguistas, diríamos que o pensamento normal sempre sofre de uma deficiência de significado, enquanto o pensamento dito patológico (ao menos em algumas de suas manifestações) dispõe de um excedente de significante. Graças à colaboração coletiva na cura xamânica, chega-se a um meio-termo entre essas duas situações complementares.

TB SIT

Para Lévi-Strauss, então, pode ser grande a força mágico-social na cura de nossos males. Não há aqui ‘um xamã’, mas o evento xamânico que se dá necessariamente a partir das forças e fraquezas de um conjunto.

Neste caso, o mal (ou o ruim, que é o contrário do que deseja a razão) é o hiato ou apartheid corrente em certa modernidade despreocupada com a seriedade da natureza conflituosa do que nos faz agir e escolher e cliva assim brutal o que o capitalismo das farmácias definiu como normal e desejável de um lado, e como doença e assim inoperabilidade e oportunidade de tratamento comercial e/ou intervenção, ostracismo, perseguição e prisão, do outro. Segundo tal modernidade, o caso é mesmo não dar nas mãos da norma nenhum tipo de biruta.

Contra tal rigidez improdutiva e perpetuadora de processos pouco revisados, existe a chance de compreender a experiência do patológico como “instauradora da condição humana e a via privilegiada para conhecermos nossos processos de formação, assim como traços de nossas estruturas de comportamento” (Safatle), isto é, a esperança de que o medo da loucura como casa (ai o hábito do impensável) dissolva-se em realizações normatizantes que simplesmente passem no teste da mágica social, isto é, sejam integradas e não repudiadas no decantar da análise da razão.

Eu acho engraçado a gente administrar o medo assim. Nunca se ameaçou tanto. E nunca fizemos tanta força para respirar a ontologia da escassez. Estamos provavelmente 99% errados.

Percebamos que é do fundo do poço que se vê a lua, claro, mas não deixemos de performar. Não hoje. Não deixemos de performar. Ampliemos essa treta conosco de modo a

amplificar tudo aquilo que não podemos.

Só assim para chamar a atenção dos magos sociais, não? Foi nomeando a si de neurótico e limítrofe que W. Allen e o punk convocaram sua cura. E

uma dimensão fundamental do trabalho analítico consiste não em dissolver os sintomas, mas em dissolver o vínculo do sujeito à identidade produzida pela doença, o que permite aos sintomas perderem certos efeitos, diminuírem intensidades e se abrirem à possibilidade de produção de novos arranjos

Não é pouca coisa fazer desejo e linguagem e não poder conversar com o cérebro. E ter que acreditar na inexistência da inteligência do cérebro. E herdar e repassar o que queremos por vitória e beleza. E trair quem não se importa. Tudo isso no momento em que “o casamento assombroso entre Gaia e Antropoceno” pressiona por duras reordenações de prioridades e desmontes em série. Você está fazendo o quê no bando transicional, exatamente? Tem certeza? Que bom.

Quer saber o que é ser da internet? Ser da internet é dizer sem vergonha e não precisar esconder que não leu Freud nem Marx PORRA NENHUMA. É isso. A Touro Bengala bem como seus sujeitos em sintonia xamânica são da internet. Não lemos Freud nem Marx porra nenhuma. Nosso devir é superar a doença da indeterminação da identidade que recusa a raia fácil da predicação não artística, isto é, a da posse ou repetição destrutiva. Boa sorte tentando seguir a gente.