lendo a crítica: A espiritualidade clandestina de José Saramago

No que diz respeito aos dois pecadilhos reiterados e felinos do de resto amplamente estimulante ensaio A espiritualidade clandestina de José Saramago, composto por Manuel Frias Martins e exibido em 2014, não será repisá-los aqui mais urgente que um breve apontá-los equipados acaso nós desde o robótico interesse dos bandeirinhas do futebol. Cabe anotar porém que se no campo são as partes do objeto interessado (o mais avançado jogador no campo de ataque) sob escrutínio escusadas não avançarem a linha limítrofe e imaginária do positivismo chamemos euclidiano do auxiliar, aqui serão gatilhos de acusação justamente o que se viu aquém da provada elasticidade do ensaísta, tanto mais ruidosas tais protuberâncias em potência suculenta mas em desenvolvimento atrofiadas soem-nos e soam conforme atravessasse-nos a dedicada e delicada construção. São mesmo dois, pois agora refizemos as contas.

O primeiro trata do desprezo superficial de Caim pelo instituo do Milagre no romance Caim. Ele o personagem saramaguiano cita, conforme excerto destacado, e mistura a seu sopão de maldades por que se persegue o autoritarismo divinoso, o milagre como mais um estratagema de persuasão encantatória apenas indireta, relatada e não vivida, desditosa empresa da conquista d’almas. Mas a raiva de Caim não resolve o problema do milagre, e tampouco Martins solidariza-se com a fértil e inexplorada frente de cultivo poético e epistêmico que a larga fenomenologia do invisto, do inaudito, mesmo do impensável e dos espantosos achados deste ponto onde entendemos a dinâmica quântica menos e menos como a suspeitada indiferença quântica.

Milagres podem ser as imagens das comunicações interdimensionais como podem ser índice de nossa vida virtual, isto é, subproduto da realidade inatingível mas ~manifestável, um jogo ou dança de sombra ao pé do fogo projeta-se à parede e deixa nela a gravação queimada de uma sua idêntica silhueta, da sombra em dança ou jogo, três lebres trespassam para trás um muro baixo enquanto ímpias sincronias assentes tão somente nas peculiaridades da dilatação de uma viga de madeira numa certa manhã mediterrânea tombam antes o vagão de pinhão e salvam a vida do jumentinho que salvará do afogamento na corrente do rio o filho do agricultor nove anos mais tarde, que quando Senador impedirá uma guerra estúpida e assim nove mil mortos inocentes. Pronunciasse simplesmente que por ali há modos de ir e que entretanto hoje não irei. Mas perde-se a oportunidade e nós seguimos em frente.

O segundo é exagerar a invocação dos mortos em nome de Deus, como se o problema da mortandade geral tivesse qualquer coisa que ver com Deus, seu nome ou qualquer coisa sua. Nós modernos simplesmente não conhecemos volumosas mortandades em nome de Deus, não de modo a torná-las fundamentos de um escárnio violento, de modo que o argumento pela subversão interpelativa das certezas do Senhor no bojo de uma luta maior contra a indignidade humana nada ganha de sustância se acusamos antes dos maus iogurtes, maus carros e maus ônibus em autoestradas amalucadas, a indústria da arma de fogo, o individualismo exclusivamente concorrencial das pressões no trabalho derretido na infusão do Capital no caldo da lógica, os crimes passionais, as disputas por petróleo e território, os distúrbios advindos de comércios ainda lamentavelmente relativizados como ilegais, a devassa de Gaia baixo a cruz do Antropoceno e a influência arquitetônico-cultural das potências imperialistas na Guerra Fria o ex-machina do Bebé Gigante. Sem tônus e ainda assim repetido, dóem como sofismáticas e ligeiras impressões tais articulações, e um chega a perder a concentração. O romance de Saramago é atual mas, hoje, não se mata em nome de Deus. Não adere, a suspeita. De que fala e o que trará de útil pois o canto deste grito?

Dito isso, devo recobrar, desdas margens onde pisaram Eulálio Carpeaux Gilda e Antonio tanto quanto Andrade e Andrade, margens daquela desgraçada mas conhecida periferia do iluminismo onde ecoávamos as modas francesas então norte-americanas então alemãs de operar a crítica, meu verdadeiro deslumbre ao devorar tão urgente e elegante trabalho de análise literária sobre o tema da espiritualidade, já que nada sei da crítica portuguesa, sua tradição, mas usei-me no novo capim novo da américa pobre a catar dentro do ensaísmo sem escola dos professores artistas que mantêm viva a ilusão de uma universidade brasileira preciosidades da mais singular marca da generosidade intelectual que é o exercício da análise sobre autores que por pouco passavam como loucos inúteis. Um livro por demais acessível e iluminado, humoroso e sério, ainda que chancelado pela fundação que leva o nome do autor estudado e Nobel ele mesmo, o que nos haveria de meter em sítio como que de pé atrás. Mas tudo passa bem e equilibra-se, e mesmo quando o crítico empilha em seu chapéu o chapéu chapéu do advogado para não dizer o chapéu chapéu chapéu do publicista, entedemos que por mais decantada, a paixão do analista pelo objeto seria o de novo e de novo eletrocutada, e isto pode dizer energizada, pela oportunidade política de ir além da descrição referenciada de procedimentos e escolhas estéticas até botar quem sabe os pingos nos is no nome de um artista desprezado e agredido em seu país, censurado em 1993, apontado como mero ateu preguiçoso e assim odiado e mais recentemente revogado da condição de baptista de uma praça na cidade do Porto. Certo catolicismo português, e talvez confluente aos espíritos da fruição literária nacional e sobre ela influente, não percebeu vantagem no engolir do Saramago e deu a insultar o escritor, e tal registro de recepção, se incomodou Martins, é porque passou do ponto da simples recusa para aquele da impostura. A história, entendeu o ensaísta, estava ainda mal contada, ou mal recontada, e empenhar um esforço extra por isso, por levantar quanto pudesse Saramago de seus limbos imerecidos, era unir-se a um combate necessário. Sobram chapéus mas eram seis quando paramos de contar.

Martins debruça no que apresenta tal “romances bíblicos” de Saramago, ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ e ‘Caim’, para tentar esboçar uma figura da espiritualidade do novelista português. Ele leva nossas mãos tão longe quanto estabelece que ela, a espiritualidade, dá-se ali onde Cria, o espírito, mas a floresta do que ser o espírito, essa Martins não anima conosco. Fato é a ação do livro apreciar a PRODUÇÃO de/em uma diversão (a espiritualidade), e não sua norma. Espiritualidade “enraizada na interrogação” atinente “ao amor e à compaixão, à tolerância e ao perdão, à responsabilidade e à harmonia” que incita o espírito motriz a vociferar dentro da possibilidade mesma do entendimento. Pintar de verde o céu como Tom Zé e USÁ-LO (caps nossas) para enxugar lágrimas. Comunicar, um seu ofício diuturno e dialógico, no que sai no salto e volta ao chão a base de perna e contraperna que move e sustenta um homem em meio a tantos, um nome de muitos, os muitos nomes de um.

Se toma tantas páginas o artifício romanesco da participação de um sujeito que o escreva, será bom tratar o tomo de grandes e complicadas coisas. Ou isso ou ler as tantas sagas dos moreiras dos anos oitenta ou qualquer coisa que o valha se quedaria impraticável. Mas tal lembra Martins que Saramago faz, pois deforma e testa as normatizações do estado disciplinador e de seus abusos o autor. É claro que um comunista daria num artista engajado, mas não era tão óbvio que miraria e arquearia setas duras de respeito contra tão fundamentalmente estruturais parcelas das culturas globais do ocidente, ao que parece com primazia na tática de falar por Jesus e ortogonalmente capaz seara romanesca fora, criando de mais a mais a “multiplicidade de mundos” que apenas espera-se.

A leitura-diagnóstico também da recepção como se indicou preocupadamente alarmante de Martins (no fundo era outra coisa, etc) aposta que um ateu declarado, desde que fale por mais si, chegará antes e mais que o crente perto de Deus se, por exemplo, renunciar aos erros da Igreja. Seria, numa tradução livre e rápida, encarnar a santidade que é viver longe dos pecados da autointitulada esposa de um profeta rebelde que a nunca em verdade conheceu, não custa lembrar. Claro que dá-se o rebuliço dizer isso em qui, cujas raízes de uma socialização clerical submetida ao Vaticano pimparam ou dificultaram os frutos dos encontros desde as artes da malícia e da perversidade. Aí um tentáculo da turba em seus escritórios arranja-se à velha moda da caça ao Hamellin e chora-se e nascem medalhas que fundam fundações que imprimem este atenorado grito de resgate à complexa e delicada meada de uma obra e de uma vida compatriotas, mas também de um fluido legado internacional de mais ou menos eloquentes leituras compartilhadas.

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Estruturalmente, olhamos para um arco cuja tese é vetor que paira nítido, enquanto atravessa, sobre catorze capítulos eles em si pílulas ensaísticas capazes de submergir rapidamente, em poucas páginas, funduras dentro vários elementos de preocupação do filósofo ficcionista. Se lembrar das famosas suítes de Frankfurt, centradas e abrangentes a um só tempo, tabuleiros de redes de parágrafos vincados e torcidos, o leitor terá somente a si a creditar. Um dos elementos a preocupar o filósofo ficcionista, por exemplo, é o sexo. Diz no capítulo dedicado ao sexo Martins que

“Recusar a morte e optar pela vida e pelo mundo humano também significa para o Jesus lawrenciano fruir finalmente os prazeres que o corpo tem para oferecer, e que o narrador enuncia deste modo:

‘Ressuscitados de entre os mortos, acabava de compreender que também havia no corpo a maior vida, para além da pequena vida. Era virgem para evitar a pequena vida, a vida cúpida do corpo. Mas ficava agora a saber que a virgindade é uma forma de cupidez, e quando o corpo volta a levantar-se, fá-lo para dar e obter, para obter e dar sem cupidez. Compreendia que tinha ressurgido para a mulher ou as mulheres que conhecem a maior vida do corpo, sem cupidez na dádiva, sem cupidez na obtenção, com as quais o seu corpo podia misturar-se.’

‘Era virgem para evitar a vida pequena, a vida cúpida do corpo’, diz-nos D. H. Lawrence. E virgem terá de ser Caim, filho de Adão e Eva, antes de partir para as intermitências temporais de errância terrena por que o romancista português o levará até aos prazeres do corpo de Lilith. Mas tal só acontecerá depois de Caim ter experimentado a surpresa da ereção, a significância do ímpeto lascivo e o fulgor do seu olhar masculino perante o seu próprio esperma nos rostos e nas bocas de algumas escravas que para isso aí foram colocadas pelo narrador saramaguiano numa espécie de espermodrama intempestivo:

‘Conduzidos por elas a um quarto separado, caim foi despido e logo lavado dos pés à cabeça com água tépida. O contacto insistente e minucioso das mãos das mulheres provocou-lhe uma ereção que não pôde reprimir, supondo que tal proeza seria possível. Elas riram e, em resposta, redobraram de atenção para com o órgão ereto, a que, entre novas risadas, chamavam flauta muda, o qual de repente havia saltado nas suas mãos com a elasticidade de uma cobra. O resultado, vistas as circunstâncias, era mais do que previsível, o homem ejaculou de repente, em jorros sucessivos que, ajoelhadas como estavam, as escravas receberam na cara e na boca. […] As escravas pareciam não ter pressa, concentradas agora em extrair as últimas gotas do pénis de caim que levavam à boca na ponta de um dedo, uma após a outra, com delícia.’

Jesus e Caim unidos pelos meandros da conversação artística entre dois escritores maiores. Jesus e Caim geminados pela sexualização da experiência do mundo oferecida a ambos como derradeira opção existencial.” Martins exalta o enfrentamento de tão poluta via do comportamento por Lawrence e Saramago, neste capítulo, por crer merecerem suas “atitudes criativas” nossa atenção, uma vez firmarem-se prenhes da coragem de “não querer separar a sexualidade do sagrado nem, ao mesmo tempo, do fundo mitológico de uma religião que dele parece estar cada vez mais carente.”

Assim faz Martins, observação equipada de muitas lentes, categorizador a lançar mão de um selecionado, contido ferramental idealógico disponível na biblioteca mundial contemporânea para enfim reafirmar, no que cedia à impressão centrípeta de aprofundamento, a fuga em mola firme ao rabo do vetor do arco original para dizer algo como

“É nesta teia de sexo e morte que o efeito espiritual do romance volta a confirmar-se. Através de Caim, o rancor contra Deus atinge aqui um paroxismo impressionante. Mas Caim é uma espécie de justiceiro que contraria a cegueira da procriação a qualquer preço, designadamente o preço da indiferença moral que é exigida por Deus. Contra ela Caim (e a humanidade com ele) ergue a plenitude erótica, o mistério, a experiência profunda da sexualidade, a vida e a morte, elevando moralmente todas elas a alturas dignas da verdade. Isso é feito através de ações insensatas, é certo, e de um modo brutal, violento, selvagem mesmo. Mas o Caim da ficção saramaguiana, lembremo-lo, é humano, demasiado humano.”

A “potencialidade subversiva” de um autor que “não tem medo de falar com Deus” será função da “diferença solitária” do escritor Saramago e atrairá mais e mais este público afeito às sensações associadas “ao inesperado, ao não familiar, ao estranho, ao indecidível, ao mitológico e, é claro, também ao espiritual”, confia Martins, apenas porque o romancista fincou bandeira nas próprias condições de condução de uma voz crítica e fez a contento seu trabalho de “impugnar aquela cisão entre ética, moral, política e literatura” onde os Modernos por destemperança e aflição especialista situaram-se. Viveremos, porém e agora, o que fizermos do momento da espiritualidade, qual seja, viveremos os modos de fazer de que são capazes os libertos modos de existir, ou não viveremos.

TRANSFUSÃO & LETARGIA

Será o homem o último animal capaz de fabricar toda uma indústria em redor desta ideia simples, a melodia.

Hoje temos isso, músicos apaixonados ou resignados com a rabeira do colapsado processo radiofônico/discos de platina, ou aos cantos de viés, vestidos de preto e portadores de meta- arroubos assim ninguém os entenda.

Por que tal estado, música desinteressada à beira, músicos atrás do mel da música e de um colchão excentricizados à maneira do zoo?

Feitio e circulação são o nervo do produto. As escolhas que tomaram os homens e mulheres da indústria fonográfica visaram ganhos de capital antes de riqueza cultural. Foram más escolhas que encadearam em processo maus desenhos de curadoria, reconhecimento, promoção e produção musical e executiva. Maus desenhos só perduram porque homens e mulheres obstinados não entendem más suas escolhas, mas naturais quando é a indústria quem fala. Correto. Não se trata de culpabilizar, apesar de sim tratar-se de imputá-lo, o mau desenho, pois que muito mais urgente venha santa nossa vontade para seguir em frente simplesmente sem repeti-los. Queremos falar mal do grosso do pop porque ele é pobre e feio. Tal é um ato de lógica, ainda que ofenda, construtiva. Posso falar à vontade pelo Brasil, onde Guerra-Peixe é um zé ninguém e abominações incitáveis frequentam a grade da globo e consequentemente as lajes e salões das gentes. Tampouco repiso a passada de pano da preguiça sociológica da esperança a qualqer preço, pia de que num ato de bondade jogará no lixo o compêndio da Estética. Não devia, pois. Nossa música hoje, a mais vivaz pernambucana, paraense, carioca e paulista, ensaia suas frinchas de beleza com a ousadia que cabe a um rato acuado, descrente, magro, enlameado na entulhagem ignóbil de um entorno absolutamente não música, ou pior, um entorno em que dela música foi feito o gato e o sapato da futilidade comercial, valor fugaz e apreensão de mentirinha. Suicidam-se desde os anos 1960 e antes, os músicos.

Infelizmente, a pobreza é tendência maior, mais arcaica mesmo, que a indústria. O que esta fez foi se tanto calcular, corretamente desde sua perigosa ética, os porquês da obsessão formulaica e da exploração artística e intelectual dos outros. Dava lucro e deu. Mas vejamos, antes de pintar a indústria um dragão tão cruel, se não havia no temperamento ocidental a semente mesma de sua letargia, se não nos deixamos encaixotar, adoradores infantilóides de “gêneros”, neles vendo e deles tirando riquezas apenas virtuais, num esquema essencialmente restritivo e estupidamente hierárquico de aceitar tal e tal som como música, tal e tal como não.

Se o som fruído naturalmente por nós nunca deixará de ser o ar em movimento, atente para a hipótese da pergunta, desde um também hipotético pianista Evarildo à cantora imaginada Dorotéia, Dorotéia, você quer ‘Chega de Saudade’ trans… posta em lá menor?’

Falemos um bocado sobre este salto.

Como a simples habilidade de deslocar a massa ubíqua que nos engolfa foi dar em tão específico, ainda que por demais corriqueiro, momento do encontro da prática musical numa randômica e ainda por cima suposta pizzaria imaginada? Artur, o titular, acamado da gripe porcina não pôde vir. Evarildo, amigo de um amigo, vende esparsas aulas de harmonia a iniciantes, despreza sem argumentos convincentes a gastronomia e, no litígio, garfou a quitinete da Mariza, mas nem por um átimo imaginou declinar cobrir a noite de outro músico. O termo do acordo, ainda que o cachê integral de 150 reais caia limpo no colo de Evarildo, foi, de Artur para Evarildo, Quebra essa pra mim. Claro, irmão, Evarildo para Artur. MPB leve, uns oitentas, umas bossas? Risos. Na pasta preta puída de envelopes plásticos, semelhante demais à do próprio Evarildo, ruínas baralhadas daquilo que a gente do meio tem tão carinhosamente por The Real Book. Nem tanto, pois deu como quem visse um desconhecido pelado Evarildo numa ostensiva invasão de Jobins, Linses, Djavans. Já está na ordem, apressa a Téia, vamos indo até o último cliente, aquela cara inevitável gig sucker cansadaça mas em pé de quem quer logo cantar para acabar logo com isso. Abre Evarildo a pasta no primeiro plástico e lê, inclinado em cursiva de canetinha verde do punho do Artur, Téia quer tr p/ Am.

Ora, aquele Korg, aquele microfone, aqueles amplificadores da época ainda do cassino, as louças e talheres e janelas e botões de camisa onde chocar-se-iam cíclicas as miríades de frequências da canção antes do tato estéreo com ouvidos não fosse tudo uma hipótese sequer suspeitam de que há um Lá. Que dirá um Lá menor. Que possam 440 ciclos quaisquer dotarem-se como faraós da hierarquia harmônica deste solar e disciplinado predicado, tônica, vai já uma ciência que aquele Korg, aquele microfone etc, etc, talvez nem mesmo devam perceber. O mesmo todavia não se atribui a nós. Tão blissful ignorance, aqui, já nem como romantismo hauseriano passa mais. Horse? Depende, você precisa de um?

Assim vamos pois, categóricos a dar com pau. Tudo muda entretanto se Evarildo, distraído ou preguiçoso, simplesmente não pergunta e dá azar. Não pergunta e escolhe tendo, no caso, 50% de chance de acertar. Aqui, a Téia já quis transpor, foi logo quando voltou arrependida do Chile, pois lá gastou o arisco dinheiro turista e o namorado já a deixou pela novinha, Periguete para quem, disse o homem no último zap. Isso deu raiva nela, talvez, mas na canção o que se deu foi depressão. Desceu um tom e meio e assim ficou setembro todo, as quatro noites. Em casa, por ter problemas diante dad funcionalidades do Windows 10, sentia frustração e ansiedade quando deparava com as fotos da viagem era certo que as havia deletado. Todo esse tempo, porém, Dulcinéia deletava os anexos, anexos criados na letal confusão que tantos pais e mães e tios e tias nublou, a breve porém marcante vida do clique no botão direito, ou seja, tudo meio sem querer em quatro pastas diferentes nomeadas baixo a turbulência da imperícia de uma não nativa digital em seus quertys tão inúteis ou até inimigos quando o sistema operacional conspira e caçoa dessa gente, jh56.., 2lhj77 e ttttt5.

Claro, as fotos voltavam sempre, e nas piores ocasiões. Ao anexar um ppt para a mãe, ao mandar um currículo porque a gente nunca sabe o dia de amanhã, ao trocar a testeira do face afinal a Dora, a Pati, todas trocaram e parecem felizes. Fantasma ponto jpeg podiam todas se chamar, as fotos, o Otávio rindo, brindando um vinho, braços abertos na bike, paisagem qualquer ao fundo. Eu tinha apagado!

Claro que tinha, Téia.

Hoje à noite não havia quase ninguém, se houvesse a noite. Duas famílias que você bate o olho e percebe a estirpe pelo primogênito. Barbas feitas ambos, tendo um nítida vantagem de desmelanização, isto é, afeitara-se não tem muito mas já há algumas horas, provável assim vivesse longe. Mais ainda, provável que a visita timbrasse as raias da decepção ou derrota. Um recuo? Uma rendição? O pai não  olhava de volta e bebia. Uma família, digamos, feliz a sua maneira, equipada e podendo parcelar camisas polo, talvez calando agora ante a perda da bolsa de estudos do filho mais velho que, egresso do ônibus que o viajou desde São Carlos, talvez cogite,  se o pai der confiança, tocar no assunto daqueles terreninhos em Ourinhos, aqueles que certa feita o velho pai dele mencionou. Lembra? Há, afinal, liquidez? Laços e nós da vida, pizzaria é para isso mesmo. Coisa de três ou quatro meses além, o primogênito acusa leveza ao manter baixos os ombros apesar do incorreto arco cervical e compartilhar imediatamente o motivo de um riso quando dá scroll na telinha. Haha, solta, vocês viram que não sei quem não sei que tem não se que lá, e mostra a telinha, ao que todos também riem e já mudam de assunto. Uma pequena mas certeira amostra do estado de equilíbrio em que se encontra junto ao núcleo sanguíneo, afeitando-se muito provavelmente assim porque assim o bem quer e entende, e não porque clama o protocolo desta ou daquela barganha ou sujeição.

Mas tudo isso pouco ou nada muda nossa tese, ficando aí mais pelo amor de imaginar o índice da insalubridade que é jogar Ialta com uma família sem antes averiguar se se dispõe de outra para que a prática conte com um mínimo jogo de perspectivas que seja.

Téia enfim diz, Não, e coça o nariz. Ao que Evarildo faz OK, e eles tocam e é como se não tocassem, digo, mesmo dentro da absurda realidade que carrega a mera hipótese, mesmo ali onde tudo de melhor pode vir e ser, é como se não tocassem. O pesadelo de Schoenberg, aquele de que ninguém ausculte mais e nunca mais porcaria nenhuma, é uma presença mais e mais totalizante? Um cataclisma sem dúvida, mas também o reflexo espontâneo das first e second lives? A música foi para os fundos de vez? Dizer, Ah, na pizzaria pode, vá, é compactuar com o desprezo. É o mesmo que dizer, Ah, sei lá, tava errada. Se o Korg não desconfia das travas de seus meio-tons, ou de como pode haver tolhimentos tão marcantes e personalistas contrabandeados aos prados de alegria numérica e isenta da física mecânica, também não pode a Téia e se é para dizer todos os nomes também não pode Evarildo e não poderia Artur, estando onde estiver Otávio porque neste ponto ele não se implica, desconfiar que apreço inerte não machuca, mas tem o proverbial poder do lampião suburbano, aceso e sozinho a apagar milhões de estrelas. Mastigam as duas famílias suas pizzas enquanto corre ‘Chega de Saudade’ como um segundo e substituível plano. Areia colorida entre os dedos, pôr-do-sol às costas ou mesmo aquela rápida ida ao banheiro quando passa um meteoro. Acontece.

E nada estranham, e das erucções esquivam, e as contas respectivas acertam aceitando o esforço extra de doar o cpf ao estado em troca de um punhado de reais ao fim do ano. Um agrado por saber um bocadinho mais de nossas vidas. Se são felizes cada uma a sua maneira, também ninguém seria preso se as tomasse, as famílias, por exemplares.

É findo o show. Microfonia e estalos, normal, são da época ainda do cassino. Um chopp para cada músico e o cachê quase completo. O gerente pede o senhor entenda, Evaristo, É Evarildo, Sim, Evarildo, Gomes o gerente pede que o senhor entenda o contexto de crise e a noite fraca hoje teve jogo mais tarde por causa da novela. Evarildo não torce ou tem TV, mas agora tem um problema. O vale de 20 reais a completar os 130 em espécie não chegam para uma brotinho. Ademais, e as palavras são dele, Estou parando com o leite, o queijo. Nossa abobrinha não vai queijo… Mas sai por quanto? 32. Pronto.

Evarildo dá o vale a Dorotéia e vai embora. Talvez ainda hoje veja um western bem enquadrado no mudo, como tanto fez e faz quando está, assim, neutro, nem triste nem feliz, e bota Gênesis em cima. Gênesis sua banda de sempre, a banda que acompanha westerns bem enquadrados no mudo, ainda que se perca um Moriconi aqui outro ali. Compensa.

É importante entretanto lembrar, se a neutralidade de Evarildo é função de uma hipótese, de pouco ou nada serve que você fique neutro com, por, via, desde, para, contra, ante, sob ou sobre ele. Falamos aqui da trivialização criminosa e pasteurizante empreendida por homens e mulhers mau desenhistas, e não, nunca, jamais, do que sente ou deixa de sentir o pobre músico que tampouco achou guarida matinal no que ao que tudo indica bem intencionado iogurte de soja. Deixa mole igual, o cocô, diz, cabisbaixo mas não sem transmitir certa neutralidade. Tal é a neutralidade que não temos mais momento para ceder a muitas indústrias. Queremos nossas crianças extremamente crackers, a medir com as próprias mãos a febre da Origem. Tapas e pisões, balanço de olhos fechados nas aulas-terreiro para depois, em casa, acordarem os mais velhos dos rincões da mitografia do pulso. É muito mais que aprender com a selvageria, é dar se quisermos à disciplina da Linguagem o meio fértil que ela merece. Quando o século 20 estacou, buscou-se a ironia, a paródia, a desconstrução radical. Foi bom? Foi surpreendente. O que são as cantigas do fauno, do pássaro de fogo, da lulu? Mas e então? Não serão simular um computador, de um lado, e romper com o significado, do outro, saídas sem dúvida sonoras mas poeticamente fatigantes? Não virá quem sabe a inovação forte daquilo que supomos pré-música, já que a música per se a dita música centrifugou-se em motores especulativos vítimas do pêndulo cinismo e transgressão, para não dizer cinismo e agressão? Isto é, dos quandos e ondes da música, dos comos e dos porquês, dos quens da música, suas cúpulas e halls reimaginados mesmo no claustro, mesmo na pobreza, no fundo do mar e na guerra? Ou mesmo na vitória tácita de uma gente sem motivo para celebrar, na conquista de uma minúscula variável no enorme código dos choques estelares? Seu alaúde vertido do entulho, seu oboé roubado a um encanamento precário, seu tamborim o berço inorgânico de uma lasanha veggie processada pela indústria? Por que dançar tornou-se exótico? E agora, números a coletar números, pois é a tal configuração civilizacional que chegamos, ou se dança ou não se dança, e, quem dançar, é melhor que dance bem? Como assim? Somos enfim especialistas e profissionais, mas a que custo? Quanto valeu, afinal, o show?

Já li de músicos sérios (gente, os sérios também transam e sabem troçar, não há que ter receio de se aproximar ou credo cruzes de tentar ser um, e seus salários tendem a ser maiores, se isso acaso interessar) que o bom mesmo seria desaprendermos Bach, pois que foi Bach quem nos engaiolou a todos e ainda não se obteve notícia de fuga.

Foi uma maldição, disse o músico.

Eu concordo em partes. Bach sim foi quem nos engaiolou, e sim se se obteve notícia de fuga ela foi amordaçada pela Grande Imprensa, isto é, tornou-se lenda grímmica, lenda fabulosa. Portanto não houve. Mas discordo que o desaprendamos. Seria demais o esforço para perder três ou quatro objetos que já levaríamos à lua de todo modo.

Um de tais objetos reconhece-se pela missa Paixão de S. Mateus, escrita em vida pelo artesão mestre capeleiro e filho de artesão afinador o cervejeiro não porque anti-itália (inclusive os copiava muito) mas porque sim alemão, solícito pai de muitos, dedicado luterano de fé e atacado pelo mundo nas dores sempre anverso das delícias, muito bem por isso, basta ler diários, cartas e biografias, empoderado desde certa neutralidade, o Bach pai do Christian, viúvo da pequena Ana Magdalena. Não é tanto o caso de jogar fora, mas imbricar e ladear a música que herdamos de Bach, essa toda que se ouve hoje cristalinamente bachiana seja doce ou odiosamente previsível a ocasião, por muitas outras novas e insuspeitas músicas. Da mecânica do som à transposição ao Lá menor, eu preferia que Evarildo amarrasse um fio de cânhamo no dente e apertasse os tornozelos da Dorotéia antes de perguntar isso ou aquilo.

Destaco a ária Erbarme dicht de uma gravação que não é a de Gardiner, da qual peguei gosto, tampouco a de von Karajan, lenta sem ser herege, pois o caso aqui não é a peça tanto quanto a transfusão melódica incólume 400 anos dentro até um produto pop oriental, no seio de um dos mais capazes cinemas plásticos que é o de Kar Wai, prova da gaiola, sim, mas também do limite da beleza dentro dela, e de como tudo necessário nesse mundo estava posto, mas foi reposto e reposto, e não se diz se madrugava já o mundo em que fazíamos e fazíamos, sem por que ou por quem, ou nem se faziam por nós.

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OFERTA PÚBLICA

Orwell e Twain não eram, de humanos, completamente belos. Mas souberam adensar as raivas na fogueira disciplinar da imaginação. Escreveram ambos sobre quão frágil irá a frágil jangada do engenho humano, ante quais ameaças por Ela ou por si, baixo quais e quais símbolos de sorte e contradição. Neste inexato se palpável espírito quer anunciar esta holding seu noviço móbile de confusão lúdica e informação crítica, a Touro Bengala Reportagens S/ Acinte, braço forte que responderá horizontalemte ao manda-chuva mas necessariamente verticalmente no que diz respeito aos segredos de sua biometria, isto é, será um braço que sustenta um guarda-chuva.

Neste contexto de crise, quando dá-se à ambiguidade finalmente um assento depois de tanto palanque, sobe ora ao destaque o suspiro sóbrio de uma razão conhecedora já de máximos e mínimos inúteis como soluções aos problemas circulantes. Numa palavra, e para economizar ainda mais ao citar não interessa quem, a Brasiliana já foi construída. Cabe assim como consequência orgânica à implicação epistêmica da pessoa físico-jurídica dar-se à melhor postura possível, e com isso dizemos não a práticas falidas eoperações infecudas, sim ao escrutínio do desenho, não aos erros fundamentais. São muitos, e que a tempo hão-de ascender livres da culpa em meio a incensos fúnebres. São os corpos a enterrar que o matriarcado prega desde Antígona.

Feitio e circulação são os nervos do produto. Quando empobrecem ou inflamam, fazem doente o organismo sócio-econômico. Empobrecem ou inflamam, agora escapulindo da metáfora, porque homens e mulheres escolheram mal e exageradamente mal más posturas do fazer e do circular. Tais más escolhas, por sua vez, rastreiam-se qual passos largados neste nosso simples mas limpo reboco de desejos paradoxais, já que é como se fossem a um avalizados e patológicos, pacificadores e fascistas. Assim, quando prestes a sérias decisões, o blog insiste cá, observe-se a oportunidade da respiração silenciosa e do humor da renúncia. Elas não te tornarão carentes, elas no máximo te farão razoáveis. Um círculo de vícios é esta sorte de mock up para o experimento do círculo de virtudes. Por se tratar no entanto dum desenho coletivo sem domínio conquistável possível ou pensável, será natural aproveitar sistêmicos afrouxamentos de tensão aqui e ali donde entornar crispadas as boas questões às autoridades instituídas. Produto em fundo e forma de combate não por ser esta mais uma querida opção, mas por medo da patrulha que virá a quem vier a público.

A Touro Bengala Repostagens S/ Acinte, sem pudor frente às vaquinhas, pools, blogosferas, angels, Old Media, parentes, amigos importantes e laboratórios de neuroquímica aplicada que não testam em animais, oferece a seguinte promoção a título de gênese empresarial

– 1 (um) artigo de 2 mil a 5 mil toques acerca da small press portugesa, sua situação estético-processual agora. Em que ponto do torque que foge ao desequilíbrio estarão a poética e o ferramental editorial deste hiperliterário porém bocejante país em verdade pós-industrial, quais mãos e vozes merecem atenção e por que, e como se recebe a produção.

investimento = 800 dólares limpos

bônus (só vale com o pacote) = cobertura da feira de livros de Porto, formato a combinar, de 650 por 400 dólares limpos

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