vimos nas aulas passadas
que o universo é um tubo
vimos que não há tempo
apenas a sequência
de uma clara colisão
em tudo a imitar as contingências
do espaço que formou
das células da vida geracional às moléculas de toda a vida
naquilo que ainda inocentes chamamos ‘movimento’
(pois nunca houve, nem fantasticamente
o não movimento. nada será ‘A’
se ‘não A’ não é pensável)
imitamos em tudo as contingências do espaço
porque nele somos
e porque ele, em realidade, somos
assim há sôma, num desabrochar contínuo de tangentes
nas virtudes nos cabíveis desvarios das elipses
antes de dizer ‘no início’
seu cérebro é esta miríade elíptica, tangencial
não exatamente livre de verbo
mas num verbo inacessível
faria diferença dizer ‘ainda’ inacessível?
faz. ela mostra, mas não conta, de quem é filha
: ela é filha do universo
ela é filha do universo de quem nada não é
filha como o bruno martelada
filha como o newton das maçãs
filha como o einstein das minas
aquele da estação dizendo amor,
pega os trem que o coiso chegou

¢§¢

por uma visão nevrálgica da ética

.
este ponto não tem
a dimensão do horror
na face da jangada
não sabe da cachoeira
rasgada nas costas
pelo peso molhado da bronca
jangada nas costas
uma face de horror e horror numa face nova
alheia só no papel
de que vive na prática só
na face da favela
.
este ponto é a chave da bronca
que molha, no oblivion à cachoeira
a face da jangada, e traz horror
à face nova e à face de horror
estufa seu peso
quando da queda
.
.
será entretando necessário
sair dessa veneza amarga
estripar o fraco da força
descarar o ouro de tolo
falir o fonema aberto que fere de longe
geme-geme, arremedos de free-shopping
nem o fraco não trabalha e não tem costas
nem a jangada não surfa ou toma sol
– – –

“Não faça aos outros o que não gostaria que te fosse feito”
–– Kong Fuzi

Sua terceira pessoa é aquela que vive impressa no outro. Como ele ou ela podem referir-se à sua primeira todos os outros, menos você. Mesmo se tentar fazê-lo, tudo de que cuidará é ainda mais substância dar para que componham-no. Algo mesmo fora do controle. Mas será isto importante? A depender da fase em que se vive, pode ser mais ou menos. Um bebê não metafórico não só não se importa com sua terceira pessoa como talvez, num movimento que lembrasse o pescoço a cheio antes da barriguinha, figurasse naturalmente improvável. Mas o reino da metáfora acaba quando o tino do self estala, isto é, a cada minúscula fração de segundo. Sim a apreensão de tão nova ideia acerca da mecânica do ser empodera. Mas não faz ninguém um super-herói além das geringonças diplomadas. Eu me refiro às causalidades da matéria não numa zat qualquer mas no cosmo, donde não se escapa, as mesmas às quais colhemos os frutos referenciais de partilha, no vasto e denso pomar este nosso pensar. Que a energia será então a multiplicação da massa pela multiplicação ensimesmada da luz pode ser um desses frutos, se assim determinarem sua maturidade os que lá colhem. Pode a geringonça diplomada referir-se a um simples código de duas cores a 4 metros da cabeça de pedestres e condutores, promovidos pelos cobres e elétrons às lâmpadas bastidores dos acrílicos tingidos, e então, portando ou não um bebê, calcula-se, estando verde a luz, melhor atravessar, ou não, posto que o carro ali a vir não deixa claro a entender que observou a vermelha dele. Está rápido. Pronto, é um encadeamento de geringonças, então. Não bastava mudar o mundo como nenhum outro animal. Teríamos que explicar, justificar, forçar ou garantir as mudanças. Por quê?

A mais típica das geringonças diplomadas é o Direito. Por que é tão primorosa naquele léxico a ideia de processo? Ali, inclusive, fala-se em diploma porque os homens teriam esquecido não os pesos de papel em casa, mas os pesos que acaso pode ter, um papel. Seria necessário, assim, ganhar tempo, evitar as conversas sérias (o Direito entende fora dele apenas se vai ou não chover, se estava a costelinha boa e outras coisas assim), complexificar a processualidade pois que ser bom em realidade não basta. Para operar o Direito, que não só não dispõe propriamente de vísceras, miocárdios, um lugar, enfim, onde nem sutura se faz, há que ser conhecedor daquelas anatomias da desconfiança. Todos os códigos começam com “se fulaninho fizer tal coisa, isso, isso e isso deve acontecer porque nossa sociedade não aguentaria de outro jeito”. Assim começam todas as leis de todos os códigos de todo o Direito de todo o mundo. Se você não acha este quadro um problema, considere quanta gente, do 1 bilhão que não é miserável no planete de 7 bilhões, apenas vive para não se ferrar no Direito. Exatamente a vida averiguando e relacionando seus passos com o que, na larga maioria de orelhada, conheceu fulaninho dos códigos civil e criminal. Quem diz “pagar meus boletos” esconde a mais profunda formulação do receio de ser processado, despejado, ter o nome sujo, pagar multa, ser preso.

Fartos de palavras e ses, os códigos roubaram ao mundo um sem número de poetas. Não resta tempo e quiçá vontade de acercar a imaginação do assovio no escuro se tanto dispõem as leis de massa de manejo, barros a esculpir, dedos onde abrir as brechas sem precedentes e toneladas de cal com que dignificar rotas de fuga. A organização policial e militar é uma consequência do Direito, e não poderiam existir se o Direito não existisse. Mas é complicado demais parar para conversar sobre um mundo sem Direito, e, assim, torna-se difícil a um pixo como “fuck the police” distinguir-se de um pixo como “fuck eruction”, ou ainda de um pixo como “fuck flatulence”. Um poema surrealista, sim, mas que deixa de obter da gente do meio a legitimação política que se espera do pixo. Na yoga, o yogui permanece numa mesma posição inusual e um diria imprática para realizar as tarefas do dia a dia por bastantes respirações. Por isso se chama exercício. Nosso círculo de afazeres biomecânicos será alterado por um evento fora de seu perímetro. Pensar o mundo sem Direito é um exercício que estabelece vetores angustiantemente longínquos e difíceis de manter sem firmeza de encadeamentos e lucidez lógica, de concepção conceitual e configuração sociopolítica. É chato, alguns podem dizer, como pode parecer chato surfar a quem não surfa. Então é inútil, podem contestar, o que não explicaria o sucesso dos estúdios de Yoga.

A célebre definição de Andy Wharol, arte é tudo you get away with, merece algumas críticas. Pulemos a do campo biográfico, o que tal frase diz Sobre Ele, e prestemos atenção aos poderes de confusão estética e política. Não que não seja importante esmiuçar o artista, posto servirem as personagens para tanto, dar prazer a seus fruidores. Mas correm nas linhas editoriais deste blog menos os pintassilgos do passatempo que os jaguares da urgência antropocênica. Eu venho da faculdade de Negócios, onde no primeiro semestre cuidam de que entenda a fisicalidade ontológica do conceito de Caixa, e a seguir a luminosidade regrada da Eficácia. Se este 1 bilhão vive problemas mais complexos, tratá-los em contextos de crise é conhecer a tristeza do dinheiro mal aplicado. Pergunte a homens de sucesso como Silvio Santos ou Guilherme Leal se o relatório de gestão do MinC ou do MEC estão razoáveis, junto às fotos das escolas e às sinopses dos roteiros rejeitados. Eu adoraria falar mais do Andy Wharol, ou de como sua célebre definição do que é arte conjuga-se a certo delírio principesco além do bem e do mal, a sua vanguarda de ressentimento ironizado em glamour e excessos, mas considero, sinceramente, Don Quixote mais rico. Se tampouco vou falar de Don Quixote, esse afastamento de personagens pode querer dizer algo Sobre Mim. Que será?

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Se arte fosse tudo you get away with, então os loops do 11 de setembro teriam sumido das galerias quando da captura do Obama. Se não sumiram, é porque arte é outra coisa. Ou então, arte é exatamente isso, basta adotarmos as lentes do consequencialismo material. Arte é tudo you get away with (you). Mais provavelmente acertada é esta alternativa, diga-se, em se tratando de Wharol, o que trai a linha editorial bla bla. Arte é então a mudada que sofremos daquilo que fazemos. Para o público, tal expectativa é drástica. Quando vou fruir o loop do 11 de setembro, quem está A Fazer (a fruir) sou Eu. Donde a arte estar sempre se dando, e nunca dada. Daí, saio da galeria e bum, sofro aquela mudada. Segundo Wharol, a essência da arte é este breve momento, mas que pode assemelhar-se ao não tempo, de reflexão nos espelhos hologromáticos da consciência pós-fruição de um objeto. É o que consigo longe com, ao pé da letra, ou o que faço do que levo, em livre. Eu poderia dizer que são suas contingências e limitações as que botam mãos a obra para fazer essa arte, mas prefiro dizer que são seu repertório e agilidade referencial a substância dos espelhos. Então pronto, a célebre definição é eficaz. Antes de ir correndo contar à mamãe que você também é artista, todavia, aceite este pequeno exercício:

que dizem de você os objetos? que dizem a você os obetos? que tipo de terceira pessoa te faz a moldura de um retrato? que suspeitam de sua vida secreta as nadadoras da seleção búlgara? como te veriam eastwood, mafalda, este meu lustre? Antes de não necessariamente responder, mas afundar nas perguntas, cogite por um instante o conceito Vida (desminta o senso biologicamente comum e tente reinaugurar a definição), cogite por um instante o conceito Inteligência (extrapole a redução verbal para incluir uma possível manifestação não verbal da inteligência, e o pulo do gato, aqui, não é defender o que a dona abelha quis dizer pousando acolá, mas colher como e por que aquela ação calórica pode ter transformado o mundo sensível e imediatamente disposto). por fim, embalsame vida e inteligência no cogito, também por um instante, do conceito de Comunicação (jogue fora a premissa da persuasão hercúlea, e agarre firme a poética alquímica)

A precariedade das escolas não muda porque as coisas têm de ser assim ou porque alternativas melhores e já formuladas não encontraram suas caixas e eficácias? Não estará a terceira pessoa do Estado longe de mais de nossas mãos, entrevada em Direito? E por isso apenas, por um sufoco constante de cálculos processuais ameaçadores que arruina o prazer de pensar grandes problemas, parece que as coisas têm de ser assim? As falas e gestos em cobrança, repressão e disciplinarização burocratizante bastam para que façamos dele uma figura razoavelmente próxima, leve, confiável? O niilismo anarquista do mercado financeiro será alterado desde certas estratégias de comunicação.

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