Miró da Muribeca, jogador de palavras

Miró, de Mirobaldo, craque da pelota do Santa Cruz Futebol Clube do Recife.
No tempo em que o maior talento de João era o futebol, os seus amigos o apelidaram de Miró,
forma reduzida de Mirobaldo, que se pronuncia com a vogal aberta na fala nordestina.
Muribeca do Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco.

O poema precisa do poeta, mais precisamente do corpo do poeta, de seu movimento.
Miró é imagem, é corpo, é cantor de rap sem microfone. Sua superfície é a cena,
as ruas, a farmácia, o boteco, o banco de trás de um carro.

Caretas, olhos esbugalhados, abre e fecha sem parar, grita,
chora, aponta seus versos com o dedo,
segue.

A poesia é armadura e armada para compor vida – acontecimento – que se reinventa a cada segundo e que freneticamente aparece como convulsão e como fala. Difícil saber, em sua fala, o que ele pensa, o que é poesia, o que é cena. Seu pensamento grava tudo ao redor como uma filmadora que passa compondo cenas com palavras. O corpo é instrumento de trabalho e de re-atualização, ritualização do mundo que o cerca.

Miró da Muribeca é corpo em poesia.

Pulsa, grita, chora, recita, pula, contorce-se, cospe.
É performance pura – movimento/pensamento/sentimento – acontecimento,
ou performance de quem se faz de bobo da corte.
E, não para…
Miró até agora

A poesia é pré-articulação, eventos que acontecem no fazer. O corpo é lugar de passagem, que se relaciona a todo instante com e no ambiente. O corpo se move a todo instante. Ele sente. Tudo ao mesmo tempo. A poesia é incorporação, movimento/pensamento/sentimento. Um corpo é mais que signos e significações, mais do que vemos ou olhamos, mais que pele, carne e osso. (Brian Massumi)

obra:

2012 – dizCriação
2010 – Quase Crônico
2007 – Tu tás aonde?
2006 – Onde estará Norma?
2004 – Pra não dizer que não falei de flúor
2002 – Poemas para sentir tesão ou não
1999 – Quebra a direita, segue a esquerda e vai em frente
1998 – Flagrante deleito
1995 – Ilusão de ética
1987 – São Paulo é fogo
1985 – Quem descobriu o azul anil?

QUASE CRÔNICO

a questão não é se há uma luz no fim do túnel:
a questão é você não entrar no túnel

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLÚOR

tem certas coisas que até hoje
não entendo:
notícias da bolsa
e essa enchente de políticos
visitando a miséria de perto

ÚLTIMO ATO

mesmo que tivéssemos uma enorme luneta
a viajar em nossas veias
nunca nos enxergaríamos a olho nu
logo nós
seres tão vestidos

mas um dia o pano cai

Passo horas
Pensando porque tanto penso
Em algo que não é nem tanto.
Ser humano:
Saco de coisas.
Uma pá de sentimentos.
Tijolo por tijolo

Até virar cimento.

da rise and fall of da tower

O primeiro livro do Bruno Galan, Da Rise and Fall of da Tower (2011), narra as psico-elipses de eneagá, um interiorano salvo pelo roque na noite paulistana. Pequena pérola da escrita urbana em repente poético apurado na cultura pop e na filosofia comum que viria, nas obras posteriores, Taco da Lôca (2016) e O meme é a mensagem (2017), reforçada por verve crítica da política, a obra vem envelhecendo bastante bem.

Trata-se de uma prosa de formação com astutos tratamentos dispensados à sequência cronológica, tomada por idas e vindas em ritmo de incansáveis recomeços, e ao cenário, que descreve jornadas e teletransportes entre as mentalizações e virtualizações pessoais do autor-personagem, a Augusta, a Vila Madá, a praça ‘rúzivel’, e a locação principal, a antiga Torre do Dr. Zero. Os tipos da noite são descritos na linguagem inacessível aos escritores de gabinete, que escrevem sem viver, e impensável aos passantes distraídos, que vivem sem se ver. Ao final, como um brinde, a história é recontada ainda outra vez, mas como o roteiro dum filme de final feliz.

As músicas que fazem parte da formação de eneagá foram reunidas pelo autor nesta playlist, para você ler ouvindo:

Para ler o livro em PDF, eiqui: DARISE 2017

mentolado&remelento

Querido roteiro,

nossa vida é um tecido, comungado com a idade da Terra. Nossa escolha não tem pressa, pois é carro da vontade justa. Não é ilusão que a solicitude está entre o grátis e o barato, mas também não é ilusão que o ‘caro’ indica o bem quisto, o graças a nós ficante. A revolta pode ser justa e alegre, como pode ser um baque de derrota a ver navios de expulsão, exclusão, extinção. Entre a revolução e a reforma, conspira e aflige a Alma Mãe (a casa grande que nos guarda é ela, mas nem viagens para Marte são capazes de ser o que não são) o típico trepidar do fraco.

Kkkk

Bom dia.

Por questões técnicas, essa foto preparada para o Facebook transferi para o sítio online da editora. Não que o Facebook seja incompetente tecnicamente, pelo contrário, são bons em muita coisa, mas como player de cores vetorizadas não prestam. Mesmo a função ‘álbum’, onde seria possível aceitar mais pixels por polegada, não interessa tanto ao repórter cidadão a colher muitas vezes pautas no calor do momento, sem a preocupação da “fruição familiar”: nem todo conteúdo se enquadra como tal. De resto, a compactação em PNG, propalada como corretora, não é. Ao menos não a ponto de quem cuida da própria por amor de persuadir e não marcar ponto sem dar o endereço pras crianças, concordar. O wordpress também comprime. Mas muito menos que lá. Nem seria para tanto, a foto resultou medíocre. Mas como acabei memeficando (com saturação ideal-contínua), parte da graça iria embora porque a aplicação emporcalha. Em nota, a editor da editora pronunciou na rede de microblogs Twitter que o Facebook, “se não pode pagar ninguém que forneça conteúdo”, pode achar modos de gerir a angústia de haver tanto upload concomitante à necessidade da editorialização ou cura humano-algorítmica. E deu uma ideia: “que publicadores de sucesso ganhem privilégios como o de, por exemplo, estar isento da compactação a que se sujeita o usuário médio”. Não houve retorno da Incorporação.

dois poemas

estava atrasado, estava
perdido, estava espalhado
pelas ruas, pelo bairro
com nome engraçado, estava
em desgraça, estava inútil,
tenso, fugindo, deixando-se
pelo caminho, estava,
estava abandonado, lançado
no fluxo insuportável dos dias,
estava pensando em partir,
estava querendo mais, temendo
a trilha, o atalho, estava
perdendo o controle, sentia
o impulso da letra, no meio
da vida: estava

a lua espessa
e um sol vítreo eram tudo
o que vinha do céu

Tarso de Melo (1976). Poema do livro ‘Lugar algum’ (2007), reunido no volume Poemas, 1999-2014, Dobra Editorial, 2014

INVENTÁRIO DE TÍTERES

livro à prova d’água
espessura aquosa

inundações cataratas marujos
caramujas lancinantes

resmas polidas com alicate e arreio
cavalas com valas
nas coxas

riso casco grinalda

inventário alfabético dos mortos
adão susanah
livro de nascimento

páginas pulsam e sangram
designo léguas, libreto a pequenas estrelas

peixe-pêssego

rugir sulfúreo
(ferormônio)

dúctil exumação
dúctil esteio de manobras e ardis
persuadir com laços
e declivoso labor, campos
de inquirição dos beiços

lábios diletos

Érica Zíngano, Renata Huber, Roberta Ferraz. Poema do livro fio, fenda, falésia, 2010

adorno ressalta a insuficiência dessa atitude, que, no calor do embate entre tantas obras “irreconciliáveis”, sem dúvida tinha a intenção de apaziguar as diferenças, colocando o critério de julgamento do valor das obras em um ponto onde não havia nada a ser julgado: “a marca estilística que parece provir da maioria dos trabalhos, a ‘atonalidade’, ou melhor, a renúncia à constante relação tonal de progressão harmônica, é um conceito fraco e arbitrariamente escolhido, que em schoenberg e hindemith, em bártok e jarnach, em krenek e stravinsky corresponde a uma realidade musical em cada caso diferente e que portanto tem um sentido, tanto técnico quanto estilístico, em constante mutação”

dois poemas

O PRINCÍPIO DO POEMA

Uma mulher atravessou o rio comigo
na névoa e sob o luar,
atravessou o rio ao meu lado
e nem sei mesmo de quem se trata.

Subimos para as montanhas.
Seus cabelos longos e dourados,
coxas próximas ao caminhar.

Abandonamos leis e parentes,
olvidamos o aroma da mesa paterna,
abraçamo-nos de repente
e nem sei mesmo de quem se trata.

Não retornamos aos telhados da cidade,
vivemos entre estrelas na planície,
exércitos não nos encontrarão,
águias tampouco,
um gigante descerá entre nós
e deverá possuí-la
enquanto eu estiver caçando javalis.

E nossos filhos entoarão o princípio
desta tribo em longas canções
festejando fugitivos e deuses
que cruzaram o rio.

Miodrag Pávlovitch (Sérvia, 1928), traduzido por Aleksandar Jovanovic no livro Bosque da maldição, Editora UNB, 2003

Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo

Adília Lopes (Portugal, 1960), na Antologia da 7Letras, 2002

Diz Jomard

Retomando o debate sobre literatura e performance em Recife, quero declarar que meu propósito caminha em direção totalmente contrária a qualquer ideia de regionalidade frequente na crítica literária. De que modo poderia eu, uma paulistana, falar de um poeta pernambucano e principalmente de uma literatura que conheço instrumentalmente como a literatura de cordel, como fiz no primeiro post?

Por isso, meu olhar indica, denuncia ou apenas revela a curiosidade de falar sobre esses escritores a partir desse primeiro encontro, despretensioso, no qual reconheço descaradamente a literatura como performance.

O eixo norteador ou provocador parte da proposta de dançar com a palavra

A proposta de uma Literatura como Performance trata de pensar o mundo como espaço de composição, em que a palavra e o movimento se fazem na escrita, na poesia. O que importa não é a imagem, mas o que acontece entre as imagens, o que se passa entre os movimentos, da palavra e de sua localização como acontecimento. Não no movimento em si – sua duração –, mas nas virtualidades que entre eles escoam.

A performance é a escrita e o próprio pensamento em movimento. O que move o pensamento é a sensação e o pensamento tenta fixar. A palavra cria a imagem para tal sensação em movimento. No pensar/sentir, a linguagem é criativamente encerrada dentro de tonalidades afetivamente referenciadas, transformando-se em significados co-imputados pelo receptor. É quando novos territórios e paisagens podem nascer a partir do experienciado, do vivido.

Esta é a catalisação que encontramos em Jomard Muniz de Britto, cuja escrita transita por diferentes áreas: filosofia, poesia, teatro, cinema e música. Dentre suas inúmeras publicações estão os “atentados poéticos” (poemas em glosa) que nos interessam pelo caráter claramente performático. O atentado de Jomard é visual, auditivo, tátil e principalmente intervencionista.

Não se assustem leitores

Entre o sim e outros sinais,
o carnaval não pertence a ninguém.
Porque tudo – até mesmo o Bloco do NADA –
atravessa redemoinhos nas ladeiras de
Olinda ao Marco Zero reciferido por nossos
des-go-ver-nos!?
Imposs;ivel oficializar nossos desejos
Desrecalcados na folia.
Porisso escrevemos desgovernos: de 0 a 10
Ainda apostando no fervor
Dos empoderamentos foliões.
Viva o Bar do Sebastião com nosso
paganismo saudável, não saudosista.
Um telefonema de Amin Stepie para nós
Ultrapassa qualquer propaganda.
AMAR SEM TEMER NEM TERROR.
Brincar com fome de amorosidades.
Porisso a Sociedade Internacional de Economia
Ecológica arrebenta pré-conceitos
das ruas aos divãs.
Carnavalizar sem ignorar as
TRAMAS da VIDA do folião Abel Menezes.
Nossa paixão é um sábado ou domingo
que não tem fins de-ter-mi-nis-tas.
Beijar, abraçar, dançar, suspirar.
Com o retorno da pipoca moderna
entre suspenses e surpresas.
Rimas de tudo no Galo da Madrugada.
Ritmos de avenida devassadas.
Estrelas reinventando a beleza fugaz
de nossas tristes cidades.
Tempo folião de Carlos Fernando.
Mares, mangues, magias, alegrias.
Para nada salvar sem oitentação nem
Ostentação. Será possível?
Carnaval em clímax de trans-fi-gu-ra-ção
No cotidiano de todos, cada um de NÓS.

Recifevereiro 2017-05-17

Atentadospoeticos@yahoo.com.br

Jomard, não somente nos “atentados poéticos”, mas também em outras escritas pretende de forma alguma alcançar um pensamento puro e tampouco parece confiar que uma sensação pura existe. O que acontece é que na escrita eles estão juntos, o pensar está unido ao sentir ao mesmo tempo e são eles que imprimem movimento à escrita. É uma inclusão mútua, como sustenta Brian Massumi. A escrita é um corpo sem imagem, na qual está presente a força virtual do corpo, um corpo em passagem. Passagem que Jomard percorre nas ruas do Recife, na interação com os acontecimentos, com o carnaval, com as manifestações, com pessoas que sua escrita pretende evidenciar. Uma dobra do que um corpo na cidade pode tornar-se. Essa é a dimensão da performance “um corpo virtual e do não-ainda que o movimento incorpora através do movimento da escrita.” (MASSUMI)

Assim, é na captura do evento que temos o ponto convergente entre performance e literatura, onde Jomard através dos recortes das palavras e do ambiente que lhe é próprio se expressa no acontecimento-escrita, seja na composição de afetos e perceptos, seja no simples manejo das palavras e suas reverberações corpóreas.

um post sobre política

Supondo um Brasil só, excetuadas as mãos autoritárias, tendo conhecido um partido desde o Império. Que seu nome, Poder Moderador, servia tal prática utópica da mente necessariamente sã do regente tencionado a exemplificar a ordem constitucionalista do governo possível e não a disputar showmícios como encantador midiático, como fazem, em graus e estilos variados, a totalidade dos quadros eleitoreiros. Não deixando de contar com o encontro utópico, não do ponto de vista de vocabulário, mas outra vez da prática (da ética), entre as gestões públicas dispostas não a remediar doenças locais sem que se germine ou ative o orgulho patriótico com as boas práticas empresariais em situações mais ou menos normais de competição, escrutínio societário e regulador. Que tal partido tomou de empréstimo, nas sucessivas idades democráticas da República, chavões ideológicos exógenos pouco depurados por uma intelectualidade também estilisticamente confusa e assim inócua na lavagem cerebral da classe política, chavões estes que resultavam em grandes intervenções pouco acuradas no efeito reformador apesar do calor narrativo eventual (protocomunismo, 50 anos em 5, banho de lucidez, salvacionismo, nossa vez, país nos trilhos etc). Que a mais recente polarização pós arrefecimento da híper-inflação entre os dois socialismos quasi-brasileiros mas literalmente de meia tijela posto ter o PSDB reservado metade da sua tijela à velharia do PFL e o PT metade da sua ao anarcocapitalismo incompetente apenas fez confirmar a tese da batalha naval mediada por dissonância cognitiva e pouca libido por vitórias profundas, quando errava-se o alvo, nos projetos públicos de grande escala, baixo o pretexto desleal de produzir oportunidades de discurso eleitoreiro contra ‘o outro time’. Que a exaustão de crédito das ruas à representação partidária incorre em risco grave de niilismo epistêmico e de desengajamento paulatino especialmente das gerações mais novas. E que tal tendência desdobra-se em círculos viciosos de distanciamento do crucial sentimento de orgulho pelas coisas da terra e do caráter do país, em relativismo de subsistência carburado pela estética mercadológica da superficialidade do jogo sem passado e sem futuro, e consequente brutalização do leque de desejos e aspirações a trocar o norte da construção por absurdos e repetitivos jorros de ansiedade por segurança escatológica, este weblog compromete-se a:

1) não admitir amigos ou colegas não fluentes em Esquerda e Direita no que a primeira pretende reinaugurar e a segunda preservar, e fluentes não para arrogar certezas entusiasmantes de nada mas para provar sustentável a habilidade de agir na discussão, e antes de agir deliberar, e ao deliberar ouvir e processar, bater termos e falas nas rodas do evento com os nós e rios da sua não meramente observadora mas partícipe experiência de vida e, só então, falar;

2) não ver na ruína do sistema político-partidário interesse de restauro;

3) não ver na ruína do sistema político-partidário interesse de ainda mais demolição;

4) entender o conteúdo de verdade produzido por disputas de discursos como só possíveis quando os partícipes nela não entram com nada fixo, isto é, nela entram esvaziados de Verdades prévias de qualquer sorte mantendo evidente a sanidade e assim abertos para as mesmo insuspeitas maravilhosas surpresas das novas formas de felicidade humana graças à resolução de mais um problema comungado;

5) não cansar de dizer que disputas pré-programadas de discurso não dão em nada;

6) levar adiante que a eleição popular de cargos para representação não precisa, como se treme um e se range outro lado da mesa arcaica, deixar de existir por um bom tempo, do mesmo modo que a eleição do Poder Executivo da noite para o dia pode não ser mais popular, e simplesmente técnica por agregado de notório saber e aleatoriedade da nossa gente;

7) reclamar que estamos gastando nosso tempo ao falar de recomeçar do zero, pois o medo é tão cafona quanto a crença adolescente de que amanhã tudo vai ser do nada diferente. Pior que a preservação além da conta e a revolução indevida, só a terceira postura, demagoga, niilista, cínica, orgulhosa, de desprezar o comum;

8) disputar com a narrativa de que a democracia brasileira pode largar a mão de fixações menores que o orgulho de ser brasileiro. Este podemos ter mais ou menos em medidas salutares e germinativas, e daí virão sensações fiáves de desgosto ante a injustiça e a desigualdade;

9) lembrar de que estar no mercado pode ser excitante mas lembrar que, antes, urge-nos cuidar do corpo despreparado do Estado ou nada será excitante;

10) lembrar: enquanto houver entrada de receitas e saída de custos fixos e variáveis a política pública qualquer uma será às claras de portas abertas, nos termos correlatos dos envolvidos (realizadores e comunidades afetadas em concerto);

11) perguntar sempre, se o agente pode tanto fluir na poesia do mundo que virá, quanto na poesia do mundo que vem ficando porque assim queremos, dobrar-se ao cinismo do não engajamento ruidoso e melancólico não fará brotar um fardo alienável?

um jogo

No Mundaparede™ v1, o objetivo é transportar um seu mundo para a parede perto do sono
no Mundaparede™ v1, vence quem plasmar o lúdico-prático deste um mundo na parede perto do sono


Atenção, pois as regras a seguir são importantes:
as regras a seguir são tudo o que temos

Será que posso ver a evolução da correção
as quase perfeitas massas atmosféricas sopradas
se por nada por diferenças de pressão; você sabia
que não existe um exato instante em que a atmosfera acaba
e o espaço sideral começa?
o que existe, todavia, é uma convenção
graças a elas, cosmólogos e engenheiros podem
trocar e revisar papéis uns dos outros

um lar chegado ao chão, água e fogo dentro
quem não quer?

quero e vou salvaguardar o luxo
de poder olhar em tantas nossas caras
visitas às casas da rua

no Mundaparede™ v1, perde quem não perde
por esperar

se à noite viajamos de autocarro e ele faz uma curva e se olhamos nessa altura para a parte da frente dele (que não se move em relação aos passageiros), acreditamos que o ‘vemos’ fazer a curva. Sentimos, claro, que o veículo faz a curva e é possível também um sinal disso pela escuridão exterior, que ainda vemos, ainda que inconscientemente, pelo canto do olho. Mas queremos dizer que vemos a parte da frente do veículo descrever a curva e que ‘ao mesmo tempo’, naturalmente, não se move em relação a nós

dois kästner por drummond

CARTA A MEU FILHO

Afinal, eu quisera ter um filho
Forte e inteligente como essas crianças de hoje.
Só uma coisa me falta para esse menino.
Falta-lhe apenas a mãe.

Não é qualquer moça que serve para esse fim.
Há longos anos eu a estou procurando.
A felicidade é mais rara que os feriados,
E tua mãe nada sabe ainda de nós, meu filho.

Mas um belo dia começas a existir,
E já me alegro por isso.
Aprendes a correr, aprendes a viver,
E o que daí resulta chama-se: uma existência.

A princípio, apenas gritas e gesticulas,
Até passares a outros atos,
Até que teu corpo e teus olhos cresçam
E compreendas o que é preciso compreender.

Quem começa a compreender já não entende mais nada
E olha estarrecido para o teatro do mundo.
No começo, criança necessita muito da mãe.
Mas quando ficares maior, precisarás de teu pai.

Quero levar-te às minas de carvão.
Quero mostrar-te os parques com palácios de mármore.
Tu me fitarás, sem compreender.
Mas eu vou te esclarecer, criança, e me calarei.

Quero ir contigo a Vaux e a Ypres
E lá olhar o mar de cruzes brancas.
Ficarei quieto, nada insinuando.
Mas quando chorares, meu filho, eu estarei de acordo.

Não quero te dizer como vão as coisas,
Quero te mostrar como a coisa é.
Pois a razão só pode vencer por si mesma.
Quero ser teu pai, e não um profeta.

Se entretanto fores um homem como a maioria,
Apesar de tudo que te fiz ver,
Um homem como qualquer outro, fabricado em série,
Então jamais serás o que deves ser: meu filho.

POR ASSIM DIZER, NO ESTRANGEIRO

Estava sentado na grande cidade de Berlim,
Junto à pequena mesa.
A cidade era grande, mesmo sem ele.
Não fazia falta à cidade, bem percebia.
E em seu redor havia veludo.

Pessoas amontoavam-se em cacho,
Apesar disso, estava só.
E no espelho, para onde olhava,
Todos se amontoavam outra vez,
Como se assim devesse ser.

A sala, pálida de tanta luz,
Cheirando a perfume e bolos.
Sério, fita rosto após rosto.
O que ele vê não lhe agrada,
E, triste, desvia o olhar.

Alisa a branca toalha,
Olha no fundo do copo.
Já meio farto da vida!
Que queria dessa cidade,
Ali, sentado, sozinho?

Então se levanta, na cidade de Berlim,
Daquela mesa pequena.
Ninguém o conhece,
Mas começa a tirar o chapéu para todos.
A necessidade nos torna inventivos.

Poemas de Erich Kästner traduzidos por Carlos Drummond de Andrade reunidos no livro Poesia Traduzida, Cosac Naify, 2011

Muitos escritores – especialmente os poetas – preferem ter entendido que compõem por meio de uma espécie de sutil frenesi, de intuição extática, e positivamente estremeceriam, ante a ideia de deixar o público dar uma olhadela, por trás dos bastidores, para as rudezas vacilantes e trabalhosas do pensamento, para os verdadeiros propósitos só alcançados no último instante, para os inúmeros relances de ideias, que não chegam à maturidade da visão completa, para as imaginações plenamente amadurecidas e repelidas em desespero como inaproveitáveis