sobre uma instalação não realizada

Infelizmente, a Torre da Canção toca a música louca, língua de Babel, mas a Maison Dieu do Tarot não deixa de ser também uma caixa de música carrolliana, máquina de colagem, caça-níqueis de fonemas, trocando as figuras, a cada lance de escadas. O que era ruído de fundo, rangido inorgânico, no patamar seguinte, subindo ou descendo, vira voz principal de um oráculo: efeito sonoro de um almanaque enciclopédico de sons, clipes-espectros, música de entonações e ritmos, conjuntos de timbres, trilha de um desenho animado infinito. Este gigantesco realejo de nove andares mimetiza a nossos ouvidos uma imensa nostalgia do século XX, saudades daqueles sons da impressora matricial e da fita crepe, que levaram o artista a compor no século XXI suas músicas com materiais de escritório, remixadas a lindos gemidos e vozes de macacos e seres humanos. Na pintura de Comparini já vimos esse mesmo empenho híbrido, etnográfico na abordagem e iconográfico na fatura. Nos trabalhos sonoros com o Grivo, nos esquemas e croquis incorporados à obra. O que a ciência da loucura chamou de pareidolia – enxergar figuras onde há apenas o acaso – ou witzelsucht – a compulsão doentia à piada – neste novo trabalho é adotado como procedimento artístico fundamental diante de um amplo acervo de vozes do passado. Acidentalmente, não há, contudo, como não ver aqui nessa vertigem de possibilidades aflitivas uma crítica radical ao cinismo com que o sistema da arte contemporânea, a serviço da valorização do capital, neutraliza os extremos do trágico e do cômico, da barbárie do mercado, reivindicando para si as chaves da decifração da experiência humana como um todo. Deliberadamente, Comparini flerta com a derrisão, com o sarcasmo e a ironia, sem emitir no entanto nenhuma afirmação autoral previamente validade; a sintaxe é aleatória, sugerida pelo movimento, dadaísta no corte. Depois do tempo do inferno da modernidade, a pós-modernidade corresponderia à montanha esboroada do purgatório, da qual escalamos os escombros, em sobe-desce constante, pelas escadas de emergência de um edifício público.

Saísse era topar o prejuízo
fábricas de alcantiladas britas

Fumasse era sacar-se fortuna
cantos de galos interrompidos

Jogasse era musgo na modorra
espelhos somos centelhas d’alvas

Caísse era noivar as chinelas
amalgamados jós & zé-ruelas

Levantasse era radiar a prece
cobre na volta zelo e mutismo

Calasse era ouvir chegar a justa
palavra ponte dobra qual sina

Comesse como um tatear contínuo
de mãos em mãos a sagrar tecidos

Sentasse eram colunas em pedras
– é com as costas que se respira –

Dormisse era dar no cume alívio
peito arado, campear o cacique

––

dois poemas

FÁBULA

Um pensamento pensado
até a total exaustão
termina por germinar
no mesmo lugar exato
sua exata negação.

Enquanto isso, uma ideia
trauteada numa flauta
faz uma cidade erguer-se –
é claro, sem alicerces,
mas ninguém dá pela falta.

Paulo Henriques Britto (1951). Poema do livro Formas do nada, Companhia das Letras, 2012

RESSACA

Também os barcos bêbados
sentem a ressaca.
Estrelas afogadas
acesas como sóis
espelham
inexatas
os olhos
dos faróis.
Entre sereias mudas
amores sem rota
navegam
sua carga
de derrota.

Ana Martins Marques (1977). Poema publicado na revista Escamandro #02, Editora Patuá, 2016

querido diário

Fica no 33 da antiga Rua São José a redação e a oficina do ‘Farol Paulistano’, primeiro jornal de São Paulo impresso em tipografia. Sai aos 7 de fevereiro de 1827. Antes, aos 22 de setembro de 1823, nascia ‘O Paulista’, manuscrito, redigido por Mestrinho, Antônio Marques, paulistano professor desde os quinze anos. Mestrinho é mais velho Juiz de paz, vereador, deputado provincial e vice-presidente da província. Aos 8 de janeiro de 1823, portaria do Ministro da Fazenda pede que se envie, em nome do Imperador, um prelo antigo da Imprensa Nacional até São Paulo, decisão revogada ante o bafafá da Constituinte. O ‘Farol’ circula até 1833, sendo acusado de abuso em 1829 (sem procedência). Sai, em 31x21cm, duas vezes por semana até 1829, e então três. No editorial de lançamento do farol, outro mestre, José da Costa Carvalho, Chefe dos Ministros do Império quando da promulgação da Lei 581 de 1850 que extingue a importação de escravos e Marquês de Monte Alegre em 1854, chama, em primeira do plural, “tão árdua quanto perigosa” a tarefa nossa da imprensa. Em 1988, sem interesse por diversas atividades, uni-me a outras três crianças e redigimos ‘O Paiolino’, jornal daquela temporada do acampamento montanhês Paiol Grande, para o qual realizei uma reportagem sobre a humilhação de quem deixava, no refeitório, a bandeja cair. Também desenhei um logotipo recusado pelos colegas e liderei o encadernamento e a grampeagem. Conforme vivemos, os jornais estão em servidores vários na internet, e replicamos suas páginas em nossos aparelhos. A redação está difusa: centenas de milhões de jornalistas publicam informação, análise, comentário, arte visual e humor várias vezes ao dia, e são diversos os métodos e ferramentas de que dispõe o leitor para organizar e regular, no tempo, seu consumo. Cada um lê um jornal, que pode sempre mudar, mas pode sempre melhorar. Lemos o que queremos, e lemos o que outros leem. Hoje mais cedo, participando de um seminário sobre ‘fake news’, percebi a ideia ainda pequenina mas, intuo, potente, de que vivemos a necessidade de pensar a descrença e a normalização do cinismo trabalhando junto à, e não duvidando da, inteligência artificial, enxugando e lapidando seus termos fortes (no que ligam e fazem perdurar os objetos caros) e neles insistindo em viva discussão.

o ‘boletim de ariel’ é o marco simbólico que anuncia uma nova geração de ensaístas, esta verdadeiramente notável: lúcia miguel pereira, augusto meyer, eugênio gomes, astrojildo pereira, afonso arinos sobrinho, barreto filho, carlos dante de morais, aires da mata machado filho, moisés velinho. a ela se juntará pouco depois a de álvaro lins, viana moog, cristiano martins, otto maria carpeaux (que a guerra e o exílio tornam escritor brasileiro), afrânio coutinho, brito broca, temístocles linhares, adonias filho, aurélio buarque de holanda, gustavo corção. todos eles, sem excetuar quase nenhum, prosadores que irão preferir como seu meio de expressão uma prosa tersa, quase neoclássica na sua maneira de ser discreta […] único gênero, conforme já se fez notar, que acompanha o gosto do público sem perder a qualidade literária, e, ao contrário, em cada situação nova recria essa qualidade, a tradição brasileira do ‘familiar essay’ persistia muito viva depois de joão do rio [com nomes exponenciais como] bilac, raimundo correia, guimarães passos, artur azevedo, coelho neto

dois poemas

ODOR DE FILHO BRANCO

estamos diante do espelho enorme que há na sala
(aguardou para saber se a equipe ganharia),
vejo com nitidez seu perfil, não vejo o meu

sua demora me confunde, afronta-me,
a tela mostra a taça do penta sendo carregada,
o capitão não esconde o que é nossa infantilidade

seu corpo de mulher branca se interpõe
entre meus olhos e o televisor, a camiseta laranja,
estampa porn star, subtrai o verde do gramado

sua mão estica a passagem para rotterdam,
deixa tudo à mostra (não ousa me chamar de pai),
seus olhos têm um azul que chega a me repugnar

Paulo Scott (1966). Poema do livro Senhor Escuridão, Bertrand Brasil, 2006

––

PARA A MINHA POBRE FRAGILIDADE

Para a minha pobre fragilidade
Olhas, sem dissipar palavras.
Tu és pedra, mas eu canto,
És estátua, mas eu voo levanto.

Eu sei que o maio mais terno
Não é nada, aos olhos do Eterno.
Mas eu sou pássaro – a mal não leve,
Se sobre mim pousou uma lei mais leve.

– Marina Tsvetáieva (1892-1941). Poema traduzido por Aurora F. Bernardini na seleção Indícios Flutuantes, Martins Fontes, 2006

assumindo a forma do ensaio como uma atitude interna na ordem da percepção e, portanto, aceitando a diretiva adorniana de que ensaiar no pensamento é *estranhar* via o uso de repertórios irredutíveis a inércia do conceito, rompendo identidades que nos sufocam na excessiva abstração, dirijo-me agora para um relevo mais especificamente filosófico, mas mantendo no horizonte o ruído das grandes asas negras que assombram as fronteiras internas e externas (lovecraft) típicas da concepção gótica de mundo, cuja função na microdinâmica conceitual deste capítulo é impedir nosso sono (dogmático), e manter a vigília. afinal, do que temos medo?

das cartas a nora

Em ti amei a imagem da beleza do mundo
o mistério e a desgraça da minha raça
as imagens de pureza e piedade
espirituais
em que eu acreditava quando menino

Tua alma, teu nome, teus olhos
têm a beleza estranha das flores selvagens
de um campo encharcado de chuva

Senti tua alma estremecer
ao lado da minha
e pronunciei suavemente
teu nome à noite

Chorei vendo a beleza do mundo
passar como um sonho
no fundo dos teus olhos

uma resenha de resenha

Publicada na revista Quatro cinco um de maio, ‘O’Hara é o cara’, de Sérgio Alcides, merece nossa atenção por conseguir, na meia página em que resenha Frank O’Hara. Meu coração está no bolso, apresentar o autor em suas facetas histórica e artística, relacionar a obra com a sensibilidade do tempo e o autor com produtores contemporâneos em diálogo explícito ou implícito. A “figura” de O’Hara, capaz de ser percebida na “amostra pequena, mas primorosa” da coletânea poética editada pela Luna Parque, tem, para o resenhista, produção “ágil como um ciclista, terna como um bate-papo na hora do almoço, muito urbana e altiva (…) que vai a pé até os grandes temas, como o amor, o desejo e o luto.” Alcides tece com transparência um breve curso biográfico de O’Hara que dá a segura sensação de reconhecimento familiar, e exalta a jornada autônoma do poeta num modernismo que condenaria tanto o isolamento desinformado quanto a filiação obtusa, citando uma observação de John Ashbery, outro epítome da geração da Escola de Nova York dos anos 1950: “Para Ashbery, O’Hara era a síntese daquele momento, por ser ‘muito descolado para os quadrados e muito quadrado para os descolados.'” O poeta nascido em Baltimore em 1926 seria proprietário de referências não necessariamente canônicas, sem entretanto deixar de incorporar o lingo atual e espontâneo “da gíria e dos temas ‘baixos’ de uma cultura industrial”. Para o professor de Letras da UFMG e doutor em História pela USP, O’Hara é “whitmaniano e torrencial”, acena tanto a Rimbaud quanto a Mallarmé, ecoa Pollock na multiplicidade sem amarras do fazer num plano quase infinito, e pode ser lido como “parente próximo de Ana Cristina Cesar ou Francisco Alvim.” ‘O’Hara é o cara’ é uma resenha a um tempo leve e rigorosa, detalhada e acessível, que deixa patente no leitor a vontade de ler mais.

 

como será, o calor das costas
e a prática daquela cintura
os banhos na pedra escorregada e a lonjura
aonde chegam os olhos
como será a dobra, a guarda e a fronte adornada
da noite calada e confusa
o caldo de moqueca dela, como será
o canto quarto daquele sorriso, e quando
molhados os cabelos, como será
o sorriso
as cartas pedindo volta, amigo
como está indo a fábrica
de sonhos do seu dia; como será
quando rouca mas suave aquela voz
a cantar ainda assim linhas da lírica
brasileira ouvindo lee&eller&duncan&salmaso, como será
dormir no quente
daquele regaço
– –

um trecho de lima barreto

Toda a gente que lidou com qualquer espécie de administração, se não nos altos pastos, mas simplesmente em lugares convenientes de altas situações, sabe bem que pendor extraordinário para essa sabença de regulamentos têm os homens medíocres e as mulheres.

A primeira coisa que faz um amanuense de vocação é aprender todas as disposições do regulamento de sua secretaria, das demais repartições, não só os regulamentos, mas também os avisos explicativos e outros atos referentes.

A sua inteligência, sentindo-se por si mesma fraca, não quer ser de surpresa colhida no estudo ou na informação de um caso que, de antemão, não tenha para resolvê-lo três linhazinhas impressas, promulgadas, publicadas, adotadas pelas autoridades competentes.

Não se fia a sua inteligência nela mesma; quer o apoio de outras que, valendo tanto ou menos que a dele, têm entretanto o prestígio sobre-humano do Estado.

É dessa natureza intelectual que me parece ser o famoso general Lundendorff.

É ler-lhe um trecho ao acaso de suas Reminiscências, para se sentir logo o burocrata guerreiro, exato, meticuloso, sabendo bem todos os regulamentos, o de ligação, o de retaguarda, o de vanguarda, não esquecendo sequer nenhuma das abreviaturas consagradas e estabelecidas. Vejam só este pedacinho, como denuncia bem essa singular mentalidade de guerreiro moderno, metade amanuense, metade chefe de horda bárbara do século V da nossa era. Ei-lo:

A ordem de batalha era a seguinte: XI C.E., imediatamente ao nordeste de Cracóvia; Corpo de Reserva da Guarda, X C.E., XVII C.E., 35 D.R., entre Kaptowitz e Kareuzburg; 8º D. Ca., D. Lwd. Conde von Bredow, entre Kempem Kalisch.

O engraçado é que, com toda essa meticulosidade burocrática, procurando tudo prover e prever, empregando automóvel, aeroplano, telefone e telégrafo, as suas batalhas, se não começam por uma grande confusão, um entrevero, como dizem os nossos vizinhos, acabam nisso.

A tal famosa vitória dos lagos masurianos, no dizer dele mesmo, terminou numa baralhada com batalhões e magotes de alemães. Se houvesse mesmo ódio entre uns e outros, se a guerra não fosse uma coisa político-capitalista, a coisa tinha desandado em um tumulto de rua, em uma bagarre a que deviam atender, para restabelecer a ordem, simples agentes de polícia e guardas-civis armados de São Benedito.

Está aí em que dá a famosa preparação para a guerra que os doutores militares tanto preconizam e nós estamos fazendo com os indispensáveis discursos e chás dançantes.

[…]

Em todo o caso, o exemplo de Joffre é elucidativo de que, tanto cá como lá, o que imperou foi o acaso, a serviço da mediocridade; a vitória coube às forças obscuras da sociedade e da natureza que, desencadeadas, nenhum homem soube captar em seu próprio proveito ou dos homens de sua e das futuras gerações. Todos tateiam nas trevas e apalpam os regulamentos com medo de se perderem neles.

Houve um único que se lançou ousadamente pelo “Mar Tenebroso” em fora; e este foi Lênine. É este o grande homem do tempo, que preside, com toda a audácia, uma grande transformação social da época, enquanto Joffre, o êmulo de Alexandre, César e Napoleão, vai presidir partidas de futebol…

––

Excerto de ‘Memórias da Guerra’, de 17/4/1920, reunida no volume Lima Barreto – A crônica militante, Expressão Popular, 2016

General Ludendorff e Papa Joffre

dois poemas

QUEM

Quem um dia dançou os pés de outro?
Todos os que dançam, todos
Apenas dançam os próprios pés.
Quem pensa na imortalidade do outro
E durante o próprio sonho
Sonha com o sonho do outro?
Quem, no nascimento do menino humilde,
Pede sua coroação pelos reis?
Quem manda violetas ao pobre encarcerado?
Quem se sente poeta pelo que o não é?

– Murilo Mendes (1901–1975). Poema do livro ‘Parábola’, reunido em seleção da Global editora, 1983

––

o homem perfeito
usa o seu espírito
como um espelho
diziam os poetas do Tao
eu próprio em certos dias
promovo o vazio dentro de mim
e quando o vento e a chuva
me impedem de sair
procuro o silêncio
e tenho por testemunhas
as límpidas fontes da alma
e seixos brancos
que se podem ver
mesmo quando
cobertos de água

Manuel Afonso Costa. Poema do livro Memórias da casa da China e outras visitas, Assírio&Alvim, 2017

quatro verbetes do ‘almanaque bierce breton carroll cummings kipling kerouac &c’

kerouac

1 Rabisque em blocos secretos, e páginas datilografadas, para o seu próprio prazer.
2 Submeta-se a tudo, abra, ouça.
3 Tente nunca ficar bêbado na sua própria casa.
4 Esteja apaixonado pela sua vida.
5 Uma coisa que você sente encontrará sua própria forma.
6 Seja um louco santo idiota da mente.
7 Vá tão fundo quanto quiser.
8 Escreva o que você quiser que seja sem fundo com o fundo da sua mente.
9 As visões indizíveis do indivíduo.
10 Sem tempo para a poesia mas para o que é exatamente.
11 Tiques visionários tremendo no peito.
12 Fixado no transe sonhando com um objeto à sua frente.
13 Livre-se das inibições literárias, gramaticais e sintáticas.
14 Como Proust, seja um velho chapado pelo tempo.
15 Conte a verdadeira história do mundo em monólogo interior.
16 A jóia central do interesse é o olho dentro do olho.
17 Escreva por recordação e para seu próprio espanto.
18 Trabalhe do olhar lapidar médio em diante, nadando no mar da linguagem.
19 Aceite a perda para sempre.
20 Acredite no contorno sagrado da vida.
21 Lute para esboçar o fluxo que já existe intacto na sua mente.
22 Não pense nas palavras quando parar mas sim em ver melhor a imagem.
23 Não perca a conta todo dia da data glorificada na sua manhã.
24 Nada de medo ou vergonha na dignidade da sua experiência, da sua linguagem, do seu conhecimento.
25 Escreva para que o mundo leia e veja as suas imagens dele.
26 Filme de livro é o filme em palavras, a forma visual americana.
27 Louvado seja o Personagem em Desolada e desumana Solidão.
28 Compondo de modo selvagem, indisciplinado, puro, entrando por baixo, quanto mais louco melhor.
29 Você é sempre um Gênio.
30 Autor-diretor de filmes Terrestres Patrocinados e Anjoguardados pelo Céu.

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bierce bufão

Funcionário que outrora era ligado à casa de um rei, cujo negócio era divertir a corte com atitudes e frases ridículas, cujo absurdo era atestado por sua fantasia disparatada. O próprio rei trajado com dignidade, o mundo levou alguns séculos para descobrir que sua conduta e seus decretos eram suficientemente ridículos para divertir não só a sua corte como toda a humanidade. O bufão era geralmente chamado de bobo, mas os poetas e romancistas sempre se deleitaram em representá-lo como uma pessoa singularmente sábia e perspicaz. No circo de hoje em dia o fantasma melancólico do bobo da corte age sobre a tristeza das plateias humildes com as mesmas graças com que na vida ele lançava sua sombra no salão de mármore, despertava o senso de humor do patrício e batia na barrica das lágrimas reais.

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bierce inundação

Enchente. A maior inundação de que temos notícia é o dilúvio Noaquiano descrito por Moisés, Berosus e um cronista assírio traduzido pelo falecido senhor George Smith. Inundações são causadas por diversos motivos, mas essa foi devida a uma longa temporada de tempo úmido – quarenta dias e quarenta noites, segundo Moisés. Caiu tanta água nesse período que cobriu todas as montanhas da terra, algumas das quais – a mais alta sendo próxima de onde Noé vivia – chegavam a trinta mil pés acima do nível do mar. Nossas chuvas mais pesadas dão cerca de seis polegadas em vinte e quatro horas – uma precipitação de meio metro de água mataria quem tentasse caminhar por dentro dela. Mas a chuva de Noé foi a uma taxa de 750 pés a cada vinte e quatro horas, ou 31 1/2 pés por hora. Foi uma baita chuva.

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eliot

Há muitas posturas perante o Natal,
Algumas das quais podemos ignorar:
Social, apática, puramente comercial,
Estróina (os bares só fecham mais tarde),
E a infantil – não a da criança,
Que acha que a vela é uma estrela e o anjo
Abrindo as asas brilhantes no alto da árvore
Não é só um enfeite, mas é mesmo um anjo.
A criança se maravilha diante da árvore de Natal:
Deixe que fique o espírito de quem se maravilha
Durante a Festa como um acontecimento e não como um pretexto;
E assim esse sonho reluzente, esse alumbramento
Da primeira Árvore de Natal de que nos lembramos,
Assim as surpresas, delícia dos novos presentes
(Cada um com seu cheiro peculiar e excitante),
A espera da comida, da galinha ou do peru
E o esperado oh! com sua aparência quando chega,
E que assim a reverência e a alegria
Não sejam esquecidas na experiência futura,
No hábito aborrecido, no cansaço, no tédio,
Na certeza da morte, na consciência do fracasso,
Ou na atitude piedosa de um convertido
Que pode sofrer a tentação de ser convencido,
O que desagrada a Deus e desrespeita as crianças
(E aqui me lembro, obrigado
Santa Lucia, por seu hino, e sua coroa de fogo):
Que assim antes do fim, no octogésimo Natal
(Por 80o querendo dizer talvez o último)
As memórias acumuladas das emoções do ano
Se concentrem numa grande felicidade
Que deve ser também um grande medo, como quando
Todo mundo sentiu medo:
Porque o começo deve nos lembrar do fim
E o Natal do Dia do Juízo final.

benjamin se preocupa sempre com o momento utópico encontrado no negativo – nas passagens encardidas e barulhentas, nas extravagâncias de grandville, na permuta de aforismos entre a moda e a morte, no papagaio barato de feuilletoniste, em baudelaire exclamando: “hélas! tout est abîme”. ninguém negaria que tudo isso faz parte do enredo. todo louvor a benjamin por trazer à luz esses fatos. mas, curiosamente, talvez tenhamos chegado a um momento da história em que é preciso reafirmar o outro lado da dialética do século XIX: não só os desejos e as potencialidades urdidos, contra as probabilidades, pelo negativo, mas antes de tudo aquilo que as formas de lucidez e positividade mais altivas do século (suas realizações efetivas) revelaram do terror – o verdadeiro abîme – entretecido ao sonho de liberdade da burguesia

dois poemas

as bases do
íntimo e
expressivo as correntes
do similar sem validade
o discurso
produz e
nomeia teste de
desempenho da
identidade este
tempo não
é tempo de sutilezas
de um mundo simpático
1967
nancy
sinatra
lee
hazelwood
equivaliam
“flowers are the things
we know
secrets are the things
we grow”
2003
kate
moss
bobby
gillespie
distoam
“flowers are the things
we grow
secrets are the things
we know”
não se perde
valor reajusta-se
na inflação da
querença as
versões do mesmo
entre o contíguo e
o similar as
ansiedades do comum
do próprio e do nome

Ricardo Domeneck (1977), poema do livro a cadela sem Logos, 7Letras, 2007

––

Se não sofri ainda mais
nem maltratei
cachorros
se sou prudente com meus olhos
e toco com o palato
como se tocasse piano
a membrana feminina
se busco prazer e não prosódia
é porque você me ensinou
tua risada. (Não foi só a risada
mas um dar as costas
ao gordo triunfo dos ossos).

Nuno Ramos (1960), poema do livro Sermões, Iluminuras, 2015

nunca fui capaz de memorizar os nomes de pés e versos, ou de guardar o devido respeito às regras consagradas da escansão. na escola, gostava muito de recitar homero ou virgílio à minha própria maneira. talvez tivesse alguma suspeita instintiva de que ninguém sabia de fato como o grego deveria ser pronunciado, ou o que, entretecendo os ritmos gregos e latinos, pudesse o ouvido romano apreciar em virgílio; talvez fosse meu ócio que instintivamente me protegesse

Sobre COSMA

A história começa pelo título; COSMA, um plural latino estropiado de COSMOS, porque, como se veria ao final, múltiplos universos eram criados a partir da clonagem do sangue da pomba que invadia uma espécie de bunker onde vivia um Noé pós-apocalipse com um acervo do material genético das espécies.

A conseqüência lógica, o desdobramento natural desse começo nos fez empacar por anos a fio: do desgaste desse material genético, haveriam fatalmente de surgir outros universos idênticos mas gradativamente menos semelhantes ao primeiro. No fim do mundo, no último universo as essências, por assim dizer, já estariam gastas e começam a surgir desequilíbrios que levam todo esse universo a se extingüir. Devido à súbita desaparição desse último universo, o penúltimo acaba indo pelo mesmo caminho – como que sugado pelo buraco formado pelo último – e assim sucessivamente até que a desaparição dos universos chegasse enfim ao nosso universo conhecido, tal como nós hoje o conhecemos.

Tínhamos um final que era novamente a mesma pomba se espatifando no microscópio do Noé do bunker e a visão do Aleph, do que seria algo como o DNA de Deus. Mas e quanto a todos os acontecimentos significativos, indicativos dessa perda de inspiração, do entusiasmo divino dos anjos, dos santos, visionários? Ensaiamos começar, listando episódios representativos dessa nova versão da Queda arquetípica, da expulsão do velho Paraíso, dos homens dos universos bizarros paralelos extintos.

Um deles era uma versão má de cada personagem bíblico, culminando com uma versão má de Jesus que meio se arrependia no final e acabava não ressuscitando mais, deixando sua versão da humanidade na dúvida sobre todo o Evangelho até ali. Reforçando o escopo patrístico, tínhamos também a moldura narrativa: o narrador era descendente de outro filho de Adão, Cam, que dera origem aos camitas, amaldiçoados através das gerações da tribo familiar.

O problema dessas transposições era que a analogia que servia de base era toda canônica, não entravam anônimos.

Quando tivemos que inventar esses anônimos todos, éramos nós mesmos e vimos que não fazia sentido escrever toda uma saga cósmica se fosse para acabar contando uma história de nós mesmos, uma prosa de ficção que não fosse nem científica, nem realista demais, que acabaria virando mais um amontoado de palavras em seqüência.

Uma opção era manter apenas personagens lendários em versões bizarras, o que nos levaria à fantasia. Não poderíamos jamais sucumbir à fantasia, o rock progressivo da literatura.

Pode-se dizer que fomos vítimas do próprio realismo ou que essa história, pelo menos, foi: jamais a concluíamos, nunca escrevemos nada dela além destas poucas linhas que buscam, se não rastrear seu paradeiro, apurar os motivos de sua protogênese, as causas de sua procrastinação.

A idéia inicial era juntar na mesma história todos, ou muitos temas obscuros, mitológicos, bíblicos, com uma atmosfera futurista; uma leitura irônica de textos sagrados em chave de ficção científica.

– – –

Capas de ‘Cosma’ respetivamente em Rússia e Suécia

dois sambas de escola de silas de oliveira

Ele esteve na fundação da Império Serrano, escola advinda da ocupação negra, após a Abolição, da Serra da Misericórdia, região do Rio ao norte da Tijuca e a oeste de Guanabara. Batizada antes Prazer da Serrinha, a escola ali criada na primeira metade do século 20 era frequentada por um Silas ainda criança, às escondidas do pai evangélico. Por ali ele aprendeu as artes dos mais velhos e se divertiu nas conversas e nas rodas de jongo. Fez-se mestre do gênero samba de escola e venceu 14 concursos com peças de sua autoria. Faleceu em 1972, data que, para muitos, aponta o início da decadência do gênero.

A seguir, ‘Aquarela brasileira’, que a Império desfilou em 1964, e ‘Heróis da liberdade’, de 1969, em duas gravações: uma a evocar a catarse plena do rancho, outra que exalta o lirismo nem tão doce mas coeso da obra, difícil de achar nos dias de hoje.