dois poemas: caldas & maimona

não conseguimos nem tentamos

• não conseguimos nem tentamos •
• matar o senhor nem seus filhos •
• nem sua mulher nem seus cães •

• suas terras continuam intactas •
• todas molhadas por nosso suor •
• e continuamos dançando o fado •

• não conseguimos tomar as armas •
• nem as fabricas nem as maquinas •
• o salario engolimos assim mesmo •

• seu estado continua a ser perverso •
• nos tritura e zomba e suga mais •
• da nossa carne e ossos vencidos •

• não conseguimos mudar os rios •
• agora é preciso mudar os mares •
• reverter os ventos e a alegria •

• nossa vida continua sem a morte •
• do senhor entranhada em nos •
• enquanto isso não seremos nada •

* * *
Alberto Lins Caldas. Poema do livro de corpo presente. Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2013
* * *

Festa de monarquia

não seria útil olhar de novo para o sol?
a mão que ofereci ao relevo do tempo
canta com as monarquias que dançam.
da música as sílabas fazem
imenso dezembro não anunciado.
na noite de ontem no centro
da lagoa entre dois barcos
estava um verde incêndio
anunciando a grande avenida
onde as palmeiras procuravam
saber se não seria útil
a pedra olhar ainda para o sol.
era a festa que se transformava
em festa.

* * *
João Maimona. Poema do livro Festa de Monarquia. Luanda, Kilombelombe, 2001
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