TRANSFUSÃO & LETARGIA

Será o homem o último animal capaz de fabricar toda uma indústria em redor desta ideia simples, a melodia.

Hoje temos isso, músicos apaixonados ou resignados com a rabeira do colapsado processo radiofônico/discos de platina, ou aos cantos de viés, vestidos de preto e portadores de meta- arroubos assim ninguém os entenda.

Por que tal estado, música desinteressada à beira, músicos atrás do mel da música e de um colchão excentricizados à maneira do zoo?

Feitio e circulação são o nervo do produto. As escolhas que tomaram os homens e mulheres da indústria fonográfica visaram ganhos de capital antes de riqueza cultural. Foram más escolhas que encadearam em processo maus desenhos de curadoria, reconhecimento, promoção e produção musical e executiva. Maus desenhos só perduram porque homens e mulheres obstinados não entendem más suas escolhas, mas naturais quando é a indústria quem fala. Correto. Não se trata de culpabilizar, apesar de sim tratar-se de imputá-lo, o mau desenho, pois que muito mais urgente venha santa nossa vontade para seguir em frente simplesmente sem repeti-los. Queremos falar mal do grosso do pop porque ele é pobre e feio. Tal é um ato de lógica, ainda que ofenda, construtiva. Posso falar à vontade pelo Brasil, onde Guerra-Peixe é um zé ninguém e abominações incitáveis frequentam a grade da globo e consequentemente as lajes e salões das gentes. Tampouco repiso a passada de pano da preguiça sociológica da esperança a qualqer preço, pia de que num ato de bondade jogará no lixo o compêndio da Estética. Não devia, pois. Nossa música hoje, a mais vivaz pernambucana, paraense, carioca e paulista, ensaia suas frinchas de beleza com a ousadia que cabe a um rato acuado, descrente, magro, enlameado na entulhagem ignóbil de um entorno absolutamente não música, ou pior, um entorno em que dela música foi feito o gato e o sapato da futilidade comercial, valor fugaz e apreensão de mentirinha. Suicidam-se desde os anos 1960 e antes, os músicos.

Infelizmente, a pobreza é tendência maior, mais arcaica mesmo, que a indústria. O que esta fez foi se tanto calcular, corretamente desde sua perigosa ética, os porquês da obsessão formulaica e da exploração artística e intelectual dos outros. Dava lucro e deu. Mas vejamos, antes de pintar a indústria um dragão tão cruel, se não havia no temperamento ocidental a semente mesma de sua letargia, se não nos deixamos encaixotar, adoradores infantilóides de “gêneros”, neles vendo e deles tirando riquezas apenas virtuais, num esquema essencialmente restritivo e estupidamente hierárquico de aceitar tal e tal som como música, tal e tal como não.

Se o som fruído naturalmente por nós nunca deixará de ser o ar em movimento, atente para a hipótese da pergunta, desde um também hipotético pianista Evarildo à cantora imaginada Dorotéia, Dorotéia, você quer ‘Chega de Saudade’ trans… posta em lá menor?’

Falemos um bocado sobre este salto.

Como a simples habilidade de deslocar a massa ubíqua que nos engolfa foi dar em tão específico, ainda que por demais corriqueiro, momento do encontro da prática musical numa randômica e ainda por cima suposta pizzaria imaginada? Artur, o titular, acamado da gripe porcina não pôde vir. Evarildo, amigo de um amigo, vende esparsas aulas de harmonia a iniciantes, despreza sem argumentos convincentes a gastronomia e, no litígio, garfou a quitinete da Mariza, mas nem por um átimo imaginou declinar cobrir a noite de outro músico. O termo do acordo, ainda que o cachê integral de 150 reais caia limpo no colo de Evarildo, foi, de Artur para Evarildo, Quebra essa pra mim. Claro, irmão, Evarildo para Artur. MPB leve, uns oitentas, umas bossas? Risos. Na pasta preta puída de envelopes plásticos, semelhante demais à do próprio Evarildo, ruínas baralhadas daquilo que a gente do meio tem tão carinhosamente por The Real Book. Nem tanto, pois deu como quem visse um desconhecido pelado Evarildo numa ostensiva invasão de Jobins, Linses, Djavans. Já está na ordem, apressa a Téia, vamos indo até o último cliente, aquela cara inevitável gig sucker cansadaça mas em pé de quem quer logo cantar para acabar logo com isso. Abre Evarildo a pasta no primeiro plástico e lê, inclinado em cursiva de canetinha verde do punho do Artur, Téia quer tr p/ Am.

Ora, aquele Korg, aquele microfone, aqueles amplificadores da época ainda do cassino, as louças e talheres e janelas e botões de camisa onde chocar-se-iam cíclicas as miríades de frequências da canção antes do tato estéreo com ouvidos não fosse tudo uma hipótese sequer suspeitam de que há um Lá. Que dirá um Lá menor. Que possam 440 ciclos quaisquer dotarem-se como faraós da hierarquia harmônica deste solar e disciplinado predicado, tônica, vai já uma ciência que aquele Korg, aquele microfone etc, etc, talvez nem mesmo devam perceber. O mesmo todavia não se atribui a nós. Tão blissful ignorance, aqui, já nem como romantismo hauseriano passa mais. Horse? Depende, você precisa de um?

Assim vamos pois, categóricos a dar com pau. Tudo muda entretanto se Evarildo, distraído ou preguiçoso, simplesmente não pergunta e dá azar. Não pergunta e escolhe tendo, no caso, 50% de chance de acertar. Aqui, a Téia já quis transpor, foi logo quando voltou arrependida do Chile, pois lá gastou o arisco dinheiro turista e o namorado já a deixou pela novinha, Periguete para quem, disse o homem no último zap. Isso deu raiva nela, talvez, mas na canção o que se deu foi depressão. Desceu um tom e meio e assim ficou setembro todo, as quatro noites. Em casa, por ter problemas diante dad funcionalidades do Windows 10, sentia frustração e ansiedade quando deparava com as fotos da viagem era certo que as havia deletado. Todo esse tempo, porém, Dulcinéia deletava os anexos, anexos criados na letal confusão que tantos pais e mães e tios e tias nublou, a breve porém marcante vida do clique no botão direito, ou seja, tudo meio sem querer em quatro pastas diferentes nomeadas baixo a turbulência da imperícia de uma não nativa digital em seus quertys tão inúteis ou até inimigos quando o sistema operacional conspira e caçoa dessa gente, jh56.., 2lhj77 e ttttt5.

Claro, as fotos voltavam sempre, e nas piores ocasiões. Ao anexar um ppt para a mãe, ao mandar um currículo porque a gente nunca sabe o dia de amanhã, ao trocar a testeira do face afinal a Dora, a Pati, todas trocaram e parecem felizes. Fantasma ponto jpeg podiam todas se chamar, as fotos, o Otávio rindo, brindando um vinho, braços abertos na bike, paisagem qualquer ao fundo. Eu tinha apagado!

Claro que tinha, Téia.

Hoje à noite não havia quase ninguém, se houvesse a noite. Duas famílias que você bate o olho e percebe a estirpe pelo primogênito. Barbas feitas ambos, tendo um nítida vantagem de desmelanização, isto é, afeitara-se não tem muito mas já há algumas horas, provável assim vivesse longe. Mais ainda, provável que a visita timbrasse as raias da decepção ou derrota. Um recuo? Uma rendição? O pai não  olhava de volta e bebia. Uma família, digamos, feliz a sua maneira, equipada e podendo parcelar camisas polo, talvez calando agora ante a perda da bolsa de estudos do filho mais velho que, egresso do ônibus que o viajou desde São Carlos, talvez cogite,  se o pai der confiança, tocar no assunto daqueles terreninhos em Ourinhos, aqueles que certa feita o velho pai dele mencionou. Lembra? Há, afinal, liquidez? Laços e nós da vida, pizzaria é para isso mesmo. Coisa de três ou quatro meses além, o primogênito acusa leveza ao manter baixos os ombros apesar do incorreto arco cervical e compartilhar imediatamente o motivo de um riso quando dá scroll na telinha. Haha, solta, vocês viram que não sei quem não sei que tem não se que lá, e mostra a telinha, ao que todos também riem e já mudam de assunto. Uma pequena mas certeira amostra do estado de equilíbrio em que se encontra junto ao núcleo sanguíneo, afeitando-se muito provavelmente assim porque assim o bem quer e entende, e não porque clama o protocolo desta ou daquela barganha ou sujeição.

Mas tudo isso pouco ou nada muda nossa tese, ficando aí mais pelo amor de imaginar o índice da insalubridade que é jogar Ialta com uma família sem antes averiguar se se dispõe de outra para que a prática conte com um mínimo jogo de perspectivas que seja.

Téia enfim diz, Não, e coça o nariz. Ao que Evarildo faz OK, e eles tocam e é como se não tocassem, digo, mesmo dentro da absurda realidade que carrega a mera hipótese, mesmo ali onde tudo de melhor pode vir e ser, é como se não tocassem. O pesadelo de Schoenberg, aquele de que ninguém ausculte mais e nunca mais porcaria nenhuma, é uma presença mais e mais totalizante? Um cataclisma sem dúvida, mas também o reflexo espontâneo das first e second lives? A música foi para os fundos de vez? Dizer, Ah, na pizzaria pode, vá, é compactuar com o desprezo. É o mesmo que dizer, Ah, sei lá, tava errada. Se o Korg não desconfia das travas de seus meio-tons, ou de como pode haver tolhimentos tão marcantes e personalistas contrabandeados aos prados de alegria numérica e isenta da física mecânica, também não pode a Téia e se é para dizer todos os nomes também não pode Evarildo e não poderia Artur, estando onde estiver Otávio porque neste ponto ele não se implica, desconfiar que apreço inerte não machuca, mas tem o proverbial poder do lampião suburbano, aceso e sozinho a apagar milhões de estrelas. Mastigam as duas famílias suas pizzas enquanto corre ‘Chega de Saudade’ como um segundo e substituível plano. Areia colorida entre os dedos, pôr-do-sol às costas ou mesmo aquela rápida ida ao banheiro quando passa um meteoro. Acontece.

E nada estranham, e das erucções esquivam, e as contas respectivas acertam aceitando o esforço extra de doar o cpf ao estado em troca de um punhado de reais ao fim do ano. Um agrado por saber um bocadinho mais de nossas vidas. Se são felizes cada uma a sua maneira, também ninguém seria preso se as tomasse, as famílias, por exemplares.

É findo o show. Microfonia e estalos, normal, são da época ainda do cassino. Um chopp para cada músico e o cachê quase completo. O gerente pede o senhor entenda, Evaristo, É Evarildo, Sim, Evarildo, Gomes o gerente pede que o senhor entenda o contexto de crise e a noite fraca hoje teve jogo mais tarde por causa da novela. Evarildo não torce ou tem TV, mas agora tem um problema. O vale de 20 reais a completar os 130 em espécie não chegam para uma brotinho. Ademais, e as palavras são dele, Estou parando com o leite, o queijo. Nossa abobrinha não vai queijo… Mas sai por quanto? 32. Pronto.

Evarildo dá o vale a Dorotéia e vai embora. Talvez ainda hoje veja um western bem enquadrado no mudo, como tanto fez e faz quando está, assim, neutro, nem triste nem feliz, e bota Gênesis em cima. Gênesis sua banda de sempre, a banda que acompanha westerns bem enquadrados no mudo, ainda que se perca um Moriconi aqui outro ali. Compensa.

É importante entretanto lembrar, se a neutralidade de Evarildo é função de uma hipótese, de pouco ou nada serve que você fique neutro com, por, via, desde, para, contra, ante, sob ou sobre ele. Falamos aqui da trivialização criminosa e pasteurizante empreendida por homens e mulhers mau desenhistas, e não, nunca, jamais, do que sente ou deixa de sentir o pobre músico que tampouco achou guarida matinal no que ao que tudo indica bem intencionado iogurte de soja. Deixa mole igual, o cocô, diz, cabisbaixo mas não sem transmitir certa neutralidade. Tal é a neutralidade que não temos mais momento para ceder a muitas indústrias. Queremos nossas crianças extremamente crackers, a medir com as próprias mãos a febre da Origem. Tapas e pisões, balanço de olhos fechados nas aulas-terreiro para depois, em casa, acordarem os mais velhos dos rincões da mitografia do pulso. É muito mais que aprender com a selvageria, é dar se quisermos à disciplina da Linguagem o meio fértil que ela merece. Quando o século 20 estacou, buscou-se a ironia, a paródia, a desconstrução radical. Foi bom? Foi surpreendente. O que são as cantigas do fauno, do pássaro de fogo, da lulu? Mas e então? Não serão simular um computador, de um lado, e romper com o significado, do outro, saídas sem dúvida sonoras mas poeticamente fatigantes? Não virá quem sabe a inovação forte daquilo que supomos pré-música, já que a música per se a dita música centrifugou-se em motores especulativos vítimas do pêndulo cinismo e transgressão, para não dizer cinismo e agressão? Isto é, dos quandos e ondes da música, dos comos e dos porquês, dos quens da música, suas cúpulas e halls reimaginados mesmo no claustro, mesmo na pobreza, no fundo do mar e na guerra? Ou mesmo na vitória tácita de uma gente sem motivo para celebrar, na conquista de uma minúscula variável no enorme código dos choques estelares? Seu alaúde vertido do entulho, seu oboé roubado a um encanamento precário, seu tamborim o berço inorgânico de uma lasanha veggie processada pela indústria? Por que dançar tornou-se exótico? E agora, números a coletar números, pois é a tal configuração civilizacional que chegamos, ou se dança ou não se dança, e, quem dançar, é melhor que dance bem? Como assim? Somos enfim especialistas e profissionais, mas a que custo? Quanto valeu, afinal, o show?

Já li de músicos sérios (gente, os sérios também transam e sabem troçar, não há que ter receio de se aproximar ou credo cruzes de tentar ser um, e seus salários tendem a ser maiores, se isso acaso interessar) que o bom mesmo seria desaprendermos Bach, pois que foi Bach quem nos engaiolou a todos e ainda não se obteve notícia de fuga.

Foi uma maldição, disse o músico.

Eu concordo em partes. Bach sim foi quem nos engaiolou, e sim se se obteve notícia de fuga ela foi amordaçada pela Grande Imprensa, isto é, tornou-se lenda grímmica, lenda fabulosa. Portanto não houve. Mas discordo que o desaprendamos. Seria demais o esforço para perder três ou quatro objetos que já levaríamos à lua de todo modo.

Um de tais objetos reconhece-se pela missa Paixão de S. Mateus, escrita em vida pelo artesão mestre capeleiro e filho de artesão afinador o cervejeiro não porque anti-itália (inclusive os copiava muito) mas porque sim alemão, solícito pai de muitos, dedicado luterano de fé e atacado pelo mundo nas dores sempre anverso das delícias, muito bem por isso, basta ler diários, cartas e biografias, empoderado desde certa neutralidade, o Bach pai do Christian, viúvo da pequena Ana Magdalena. Não é tanto o caso de jogar fora, mas imbricar e ladear a música que herdamos de Bach, essa toda que se ouve hoje cristalinamente bachiana seja doce ou odiosamente previsível a ocasião, por muitas outras novas e insuspeitas músicas. Da mecânica do som à transposição ao Lá menor, eu preferia que Evarildo amarrasse um fio de cânhamo no dente e apertasse os tornozelos da Dorotéia antes de perguntar isso ou aquilo.

Destaco a ária Erbarme dicht de uma gravação que não é a de Gardiner, da qual peguei gosto, tampouco a de von Karajan, lenta sem ser herege, pois o caso aqui não é a peça tanto quanto a transfusão melódica incólume 400 anos dentro até um produto pop oriental, no seio de um dos mais capazes cinemas plásticos que é o de Kar Wai, prova da gaiola, sim, mas também do limite da beleza dentro dela, e de como tudo necessário nesse mundo estava posto, mas foi reposto e reposto, e não se diz se madrugava já o mundo em que fazíamos e fazíamos, sem por que ou por quem, ou nem se faziam por nós.

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