Nota sobre o cinema do XXI

Onde está o lugar do cinema no bastão da virada do século? Dele, a próxima forma nascerá todos os dias quando engajados caminham os paráclitos do Espírito?

Assistimos a muita coisa.

Ainda assim, seria preciso provar a falsa decadência de uma forma apenas residual, aposentada pela vanguarda, exibindo o fenômeno que a consumou, a saber, a mimese da crítica, bastão esta (um endobastão) do cinema de autor.

Plantada pelos famosos franceses da novelle vague, a tendência concretiza-se na tríade de sumo arquetípico Michel Gondry (1963), Charlie Kaufman (1958) e Spike Jonze (1969).

Serão os três respectivamente i) a atitude do clown, ii) o sopro do ministro, iii) a coragem do repórter. Suas escolas, o experimentalismo vaudevillesco, o judaísmo cosmopolita, o videoclip. Bastam para satisfazer o truco desta completude categórica de avanço universalista no que resta e interessa do cinema dos 2000 para cá.

Gondry cruzou as platitudes suburbanas exigindo mágica da imagem em movimento. Observá-lo como o coach deste vigor mais fresco e original, remando contra a corrente das ‘facilitações’ digitais depõe com brilho a favor do pressuposto mecânico e material da forma expressiva em sua consequência de verdade e duração.

Quem nunca experimentou a construção do cinema em sua concreção analógica não está desautorizado a tentá-lo. Mas porque nasceu como nasceu, o cinema será para sempre avaliado, como experiência estética, a partir do que tenta e consegue em sua essência procedural mínima e comum. Gondry eventualmente não ceder ao truque resfriado da computação gráfica lembrará seus fãs de que contra um mundo desencantado, só o autêntico encanto da arte – os truques quentes da técnica tradicional – salva.

Procedimento e matéria, o enxágue luminário do mundo, serão importantes a ponto de Bergman não alugar ou arrendar, mas definitivamente habitar a ilha que será sua locação. A ponto de Hitchcock dizer que não, não é um pedaço da vida, o cinema. É um pedaço de bolo. A ponto de Tarkovsky esperar meses e meses o trigo plantado pela equipe num prado crescer para, só então, rodar a cena.

Em O Bebê de Rosemary, famosa resta a cena de bastidor, disponível no making of, quando Polanski de novo e de novo rearranja o braço de Mia Farrow sobre a mesa. Não raro atrizes que anos mais tarde afirmarão em entrevistas tocantes a indisponibilidade definitiva de trabalhar com Lars Von Triers.

Teimosias por assim dizer herzoguianas, navios sobre montanhas amazônicas, atiçaram estúdios a enquadrar, encapsular intimoratos artistas em soluções de prateleiras e focus groups de ‘entendimento’ de diálogos e sequências. Não a toa, os filmes daqueles que não se deixam domar são os que seguiremos assistindo e colecionando.

Quando vai tratar a inflação autoral intimorata instituindo o filme da produção executiva, Hollywood trola o talento, num mecanismo perverso de descarte premiado. O assunto é muito bem contado por Lynch no obsessivo “this is the girl” que antecede o empastelamento de um carro de luxo pelo taco de golf do diretor em Mulholland Drive.

É trolagem e descarte premiado porque o cinema de autor norte-americano nasce a um tempo viabilizando e negando o trono da produção executiva. Tubarão, de Spielberg, é o emblema deste tempo novo anunciado na missão renovada, um pouquinho mais complicada, a demandar do artesão, além de técnica, habilidade para calar a boca de quem se faz de mandachuva mas não manja do metiê.

A onda autoral norte-americana de Coppola, Lucas e Scorcese vai dar, graças a uma porção de eventos felizes, no seio de um paradoxo explícito: o mais novo e famoso cinema é dos homens de negócio, estes que não são mais homens de negócio apenas porque não morreram na praia da indiferenciação.

Homens que internalizam o sal tutor de um pai como Akira Kurosawa sem deixar dormir o touro indomável da criação.

Testemunhar a afirmação relevante do discurso post-mortem de uma expressão artística é vê-la florir a despeito de teses e movimentos.

Discurso post-mortem ou sobrevida, posto que o divórcio da vanguarda de modo algum totaliza a negação da tradição. Apenas a põe de lado, bibelô querido num altar, e toca em frente suas aflições, desimpedindo a antiga aliança aos gozos renovados das latências em timbre de homenagem, comemoração, autorreferenciação e metalinguagens pedagógicas.

A crítica do cinema, aqui, é a embocadura mesma deste oroborismo de resto antecipado desde os boons dos franceses aparecendo. Sua evolução, entretanto, extrai a confusão e reforça a essência poética do dizer do cinema. O cinema não é tudo isso, diziam os carriers, porque não vale a pena deixar de brincar. Não vale a pena deixar de brincar, disseram na antessala de Star Wars, mas burlar também é uma arte.

De modo que Kaufmann, leitor de romances, imaginador do teatro e trickster das rádios, manipulará dobras frescas na tradição lastreando-as em seu tronco originário – o texto. Só então albergará o sonho nas limitações brincantes e burlativas das gravações de luz e som e na montagem.

Kaufman faz sem sensacionalismo o bastante para ruborizar um quartel de surrealistas, e perguntamo-nos de onde, de um claro azul de céu sobre a topografia, a crítica hospedada na forma, signo de sua sobrevida cultista, nasce tal sorte de esquematismo virtuoso aliado a inventividade em tal potência que altíssimos investimentos em desenho de produção também restariam constrangidos.

O fenômeno, para variar, não é teoricamente lógico. É, antes, contingência solidária ao estágio tecnológica (no sentido vegetativo) das especificidades do longametragem.

Dos rascunhos à exibição, o cinema imaginativo de Kaufman operará para compensar a culpa da vida insuficiente numa ressurreição paternal. Olhará a tradição como sua filha; proverá o que ela não soube, infelizmente, alcançar. Por isso é crítica, não mais cinema apenas.

Antes da onda francesa, no entanto, houve a Segunda Grande Guerra. Dela, cinematógrafos de pulso semi-suicida retornaram para chutar a porta da gramática temerosa, gravar som diretamente e elencar pescadores para protagonizar falas antes delegadas a atores ‘profissionais’.

Desta estirpe nasce a câmera na mão, a luz natural (coragem que amalgamou o Dogma mas, de forma estupenda, é adotada em 2018 por Eastwood em A Mula), o não ator, o imbricamento dos modos documentais e imaginativos, e logra em seu rebento lúdico, amadoríssimo e hiperdemocrático, a handycam de fatura VHS, o desafio aos realizadores de declararem-se diante de um teto baixo ou de, por que não, de um chão alto.

O videoclip de Praise You, música de Fatboy Slim, ainda não foi superado por flashmob digital nenhuma, e são bilhões tentando diariamente. Por quê?

Spike Jonze, parceiro de Kaufman em Quero ser John Malkovich (1999), aliará a lealdade convicta do truque quente da manobra da gravação à visada etnográfica de quem roda o mundo urbano leve, discreto em sua BMX, reconhecendo das tribos seus códigos mais íntimos e então reproduzindo-os como bem entende ou pode, caindo de pé e adensando o repertório de um tarô deveras singular, mas esponjoso o bastante para torná-lo tesouro da diversidade.

O brilho eterno de uma mente sem lembrança‘ (2004), comédia romântica que une lirismo folk e neurosciência num dos casais mais saudosos do cinema recente, é parceria de Kaufman e Gondry sobre mácula, decepção e fé.

O esquecimento de si, nem em Malkovich, nem em Brilho eterno, resultam condignos de uma humanidade dissipada pelas traições da modernidade.

Clown, ministro e repórter montam nesses dois mundos de invejável simplicidade e sofisticação técnica o adro e senda de um pessimismo alegre, aparentemente labiríntico se o sujeito indispõe da chave-mestra da poesia, cruel se ele a joga fora.

Ser moderno, dificuldade que pressupõe diplomacia cósmica e um querer fundador – carpir ontologias sem deixar de habitar múltiplos objetos – será o dilema filosófico comum às duas peripécias, tão drasticamente diversas na superfície graças às mãos de Jonze e Gondry.

Kaufman coloca a questão da subjetividade esvaziada pela decepção, súbito largada numa beira de estrada, sem ter aonde ir quando cessa o simulacro (comprar isto ou aquilo, ser outro por um tempo, abandonar, mentir, trair, trocar responsabilidade por coletivos etc). Pior: propõe a institucionalização do esquecimento, manobra ardilosa, infelizmente profética, contra a confusão patente entre ‘virar a página’ e ‘não lavar a louça’, síndrome atualíssima entre vídeos que duram cinco segundos e trastes quase humanos que fingem não responder por si.

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