Janela sem fumaça

A CRISE DA Ciência está exposta quando o chefe do Poder Executivo de uma democracia moderna faz pouco dos alertas pandêmicos e contraria as recomendações sanitárias. Vivemos, fica a impressão, um absurdo desmentido dos últimos 300 anos de Luzes.

O impulso ingênuo da crítica será indicar algum incesto, culpa da religião, a atravancar o progresso. No varejão jornaleiro, vênia à arte do quarto poder que ora flui melhor nos camelôs digitais de zap, o produto é nímia, obsoleta bruma.

Estaríamos diante de um mágico de crianças enquanto o grosso da conversação sitiada nas distrações do performer deixa o truque passar em branco?

E se houver, digamos, boa chance de não haver truque?

Nem procederia, assim, o arrependimento bolsonarista (este arrependimento seria uma ficção à wishful thinking), nem seria possível desqualificar a seriedade e a responsabilidade da equipe econômica (vide sucesso de terapias setoriais, arranjo juro–câmbio, articulação condigna do Renda Brasil, tonificação fiscal via austeridade organizacional etc).

Então será encanto? Um tanto amargo à inércia árida da reclamação tradicional, dramatúrgica, da etiqueta política, mais ou menos alienígena à fraternidade brasileira?

Arrisco um palpite.

Para tanto usarei duas metáforas, uma dentro da outra.

Nesta fotografia banal, um acontecimento chama a atenção.

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O porta-livros, objeto K, reflete-se na porta de vidro do armário. No objeto K’, segundo porta-livros, este que se vê no espaço refletido, incide, atenção, a imagem da janela original. Esta imagem, um quadrado de luz, que, nesta perspectiva, K’ reflete, não incide entretanto em K. O objeto K’, para este observador, exibe portanto a forma de K, mas numa luz nova. O reflexo na folha de vidro deixa sua condição inane, por assim dizer, simulacral, e ganha a condição de realidade virtual. Isto porque, apesar de ser forma, ‘age’, ou responde, como matéria. Sua potência, ao prolongar o espaço e colher luz nas mesmas condições mecânicas da realidade concreta, dá-se em Revelação ao observador. Este pode ver, sem se deslocar, um mundo maior; ou, pode ver K e K’ em situações diferentes.

Um plano reflexivo disposto no espaço pode dar ao observador mais que um inane simulacro; pode dar uma realidade virtual. A potência desta realidade virtual será Revelação ao observador em tal ou tal posto situado; será, isto é, enriquecimento inopinado de sua experiência.

Se quisesse conhecer K a refletir o quadrado de luz da janela, o observador teria de se deslocar a um novo posto.

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Aqui, vê-se, em K incide a imagem luminosa da janela. Mas eis que se perde a visualização de K’. Há, no movimento, emprego de energia e empobrecimento da experiência.

Eis comum façanha da caneta vermelha, no Brasil, esta capaz de trair a família real sem ter o que colocar no lugar. É preciso no entanto perguntar se nossa obra será capaz de estudar enquanto os pais trabalham.

Posso olhar para o plano reflexivo, dimensão concretamente formal mas mecanicamente material, como quem olha para a história?

DE ONDE ESTOU, olho para a crítica social, objeto K, com as mãos para trás. Percebo-a dura, monotemática, assertiva, praticamente unânime. A leitura desta opinião não me seduz, intuitivamente, em seu engajamento. Seu temps de bouche é aligeirado e suas notas me levam ao resmungo estético que empanzinou a pseudo-polarização PT-PSDB. Sua negação, no entanto, bloqueia-me certa lealdade nutricional: quem a profere come à mesa da estirpe urbana que me deu de comer. Aliás, verdadeiramente republicana. Resisto à diatribe; volto-me ao studium. Na história, 60 anos atrás: eis K’.

Plano Nacional de Educação, III Conferência Nacional de Saúde, relações comerciais com a República Popular da China, intercâmbio com países africanos, Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura e Estatuto do Trabalhador Rural, Código Brasileiro de Telecomunicações, sistema Eletrobrás, Usiminas, porto de Tubarão, Companhia Siderúrgica Paulista.

Nem a auesteridade fiscal do ministro Furtado foi entretanto capaz de iluminar a crítica, que insistia teimosamente no descabido populismo (ou seria um delirante medo da ameaça vermelha?) da empresa goulartiana.

A forte contrariedade opinativa que sofreu o governo Jango, ou K’, exibe a confusão interpretativa que hoje não se dá à luz devido as contingências do acontecimento Bolsonaro. A novidade deste acontecimento, e sua eficácia em distrair os apressados, vem roubando a análise de seu bojo, a ciência de sua dignidade ontológica.

Quando escancara a fraqueza do Presidencialismo e nos deixa antever a caducidade inerente da expectativa meramente estética diante de uma organização especialmente empresarial como o Poder Executivo, Bolsonaro não convida ninguém ao oblívio da habilidade negocial, da acuidade em diagnóstico, e do comprometimento autêntico que destravaram as atualizações trabalhista e previdenciária, tímidas porém frescas diante do pântano.

Posso, como observador, empregar energia sem perder de vista a história.

Dar à atualidade participação situacional sem importe categorial (ou predicativista) redutor do escopo epistêmico.

Ser analítico e pragmático ou nada dizer e voltar-me, mãos para trás, à história. Aí sim, solicitar à Ciência sua excelência e propor ao ensaio crítico contribuição geracional. Algo bem diverso de dar a última ou ‘mais verdadeira’ palavra sobre o que quer que seja, este deslize de domínio que ilude a participação de um discurso com a imposição e o juízo da própria Lógica. Antes, testo metódica e comparativamente hipóteses interessantes porque posso ver K’. E porque vejo também K, dirijo-me à atualidade em contrição urbana, em observação poética do que está porque o estudo crítico deixa.

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