Deixar pronta a casa bonita é o que ele quer, mas nem porque apontam troçando rindo que o patamar entortou. Eles acham que eu faria assim, uma casa torta e altinha sem querer? Mas não explica. Confessar dirão pior, olha o viado, já nem uma nem duas vezes, de mim que sou religioso e visito até hoje minha mãe. Mas é capricho no bom sentido. Negociei sobrado e entortei o prumo como coisa calculada de aproveitar melhor o sol da manhã. Beber seu gole mais encheio. Vão dizer do viado que não é hombridade, desarrumar um patamar. Fosse esse o problema. Quer bonita, amarelo gema forte, número em preto grande pra chegar correspondência. Quer fixar conchas brancas arqueando a entrada, pedras e contas desenhando a imitação das ondas nas paredes, e um chão de ladrilho paulista que nem eu vi no facebook fica bonito parece de qualquer jeito mas tem ordem. Isso é depende como olha. Brasa, amarelo e preto. Muitas samambaias, tantas quanto der, pois acha bonito as samambaias. Até que venha pássaro. Por causa das plantas. Ou nem que não venha ninguém. Mesmo assim eu prefiro. Fosse isso de apontarem era isso. Deixar bonita a casa, isso sim. Subi cimento, empilhei tijolo e pisei laje, encimei, e daí que não vieram, dois sobrinhos e o colega funcionário do ex-emprego diz que vinham, dia de jogo, é certo que esqueceram, no outro ameaçou chover, decerto foi cautela. Fosse isso. Agora já durmo. Calcula. Um colchão desses achado em bairro limpinho. Enrolei, baixo do braço, nem notaram. Criança nova nem dois anos, agora eu assim, no chão duro que não durmo. A manta a senhora de idade que às vezes passa deixou na porta. Serve. Sou bom de frio. Decerto ela ouviu da briga na empresa que briguei e da enchente que o senhor castigou, perdi tudo. Uma banqueta, as mudas nas big-coke. Olha. Cada coisa especial. Já já amanhece. Fosse isso né, provar isso, da luz e das plantas. Será durmo mais, e olho o teto. Vou é acabar esse teto assim que entrar serviço. Desço compro material faço gesso rebaixado, coisa fácil de fazer e fica chique. Prendo luzinha led que nem os restaurantes da cidade, você passa olha dentro e cadê as luzes? Guardadas, dando bafinho. Nem usa mais luz no teto, isso acabou, basta ver nas bancas as capas quando mostram casa chique você vê. E os tontos rindo, meteram a mão no bolo da noiva! E riem que a casa ficou torta. E que parece um bolo de noiva torto. Mas olha a luz da padaria. Fria, estralando a vista. Disso ninguém troça. Nenhuma planta no estabelecimento? Nada, nem percepção. Nem troça. Agora, é minha casa que está errada? Mas, né, fosse isso. E essa luz fria, de que que precisa? Vou é dizer isso. Mas nem é isso. Eu tento dormir, olho pro teto. Num durmo. Soergue o corpo magro, veste a camisa verde, mangas curtas alisada no descanso. Vou ali, na janela. E vai. Ó o leste, aponta. E ninguém ouve. É só o sol, só. Coisa pouca. Um sol grande e humilde, distanciado, vermelho, laranja e rosa-choque. Soergue o corpo, veste a camisa do mar alisada no descanso numa noite nunca a mesma, sempre a noite e ele ali. Eu fico aqui um pouco. E fica. Vou sim, diz, deixar bonita a casa. Esquadria de madeira achada, barato e chique. Vão dizer que dá trabalho que alumínio é prático. Eu cuido lixo e provo, ó, as plantas perto, coisa bonita que fica. Quando alguém aqui eu mostro. Aí é casa feita acabada e pronta. Agora é esmorecer os boatos. Pessoal fala muito. Mas nem é isso. Fosse isso, né. Olha o sol. Pura lentidão. Olha a largueza dum sol. Hoje eu tivesse material, né, continuava. Vou aonde.

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