Ser de desejo, ser de mediações, o homem encontra nas mediações, isto é, em sua ação, o que nele há de divino. Porque deseja — carente, mediato, movente-movido, imitador —, o homem se diviniza, pois nasceu com a tendência — hormé, oréxis, bóulesis — para compreender e agir. Ou, como dizem as primeiras linhas da Metafísica, “todos os homens têm por natureza o desejo [hormé] de conhecer”, ou, como lemos no primeiro livro da Política, a finalidade [télos] da pólis é a autarquia e o bem-viver e, por isso, “o homem é por natureza animal político [politikón zôon]” e, como repete Aristóteles na Ética a Eudemo e na Ética a Nicômaco, a amizade [philía] é a virtude que melhor imita a autarquia do Bem ou do divino, pois cada amigo supre as carências dos outros e, juntos, tornam-se mais perfeitos do que separados.

Este é um dos trechos que colhi ao ler Desejo, paixão e ação da ética de Espinoza.

Na pequena resenha de comprador no site da Amazon, escrevi:

Em rara destreza na condução da matéria, Chauí dá com originalidade e eficácia pedagógicas o sumo importante dum filósofo que teria propulsionado o pensamento ocidental das amarras da teologia para a aplicabilidade desassombrada do moderno pragmatismo.


Não foi pouco o que realizou a revolução espinosiana, tocando com engenho e humaníssima lucidez problemas difíceis como o do livre-arbítrio, da dúvida alma-corpo, do dilema medo-esperança, da autonomia política do homem numa Natureza que não o reconhece com a excepcionalidade que outrora gostaríamos, etc.

Amiúde repisando genealogias da evolução de sistemas proposicionais com segurança e vigor sintético, de Aristóteles e Plotino a Hobbes e Descartes, sublinhando e conectando o que se salva ou nos serve, a professora cativa e satisfaz mesmo o não iniciado com generosidade de mãe, cadência de poeta, e rigor de inquisidor.


Saímos do livro convencidos da relevância deste lugar de correção de curso que ocupa Espinosa e sua Ética, contribuição de forte e perene influência para a construção da modernidade e surpreendentemente atual para melhor descrevermos e enfrentarmos os desafios, em especial na evolução tecnológica do Direito, que nos espreitam neste um novo milênio de matiz internacionalizante.


Devo chamar a atenção para pequenas diferenças de revisão entre as versões para Kindle e a impressa, mas nada que prejudicasse a leitura.

Você pode ler aqui o documento com todos os trechos colhidos.

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