‘A cidade do futuro’ seduz, encanta com pouco

Da retomada para cá, resta isento de mistério a partição da produção comercial do cinema brasileiro em dois polos. Num, faz-se com muito, noutro, com pouco. Dois exemplos recentes seriam a franquia Tropa de elite, de um lado, e O Som ao redor, do outro. Outros seriam Cidade de Deus, de um lado, e Cinema, Aspirinas e Urubus, de outro.

Com mais dinheiro, explora-se as possibilidades absurdas do movimento e do tempo descontínuo, das plásticas inumanas e dos pontos de vista interessantes e incomuns, logrando não raro forte aderência do espectador sem necessariamente pauperizar texto e caracterização.

Com menos dinheiro, o esforço é outro, sem ser menor. Concentra-se na árdua tarefa de narrar no lugar hoje híper-dinâmico do audiovisual, quando o deslize mal administrado à lacunar contemplação pode ser multado com a desconexão. Conta com o pequeno da dramaturgia clássica e com as limitações da fotografia sensível, carente das sonháticas riquezas cênicas e da computação gráfica, mas podendo contar com os estranhos revelares do real.

Deste pequeno e destas limitações, transformados em qualidade via competência e originalidade, nascem os bons filmes feitos com pouco. Recém-lançado no circuito nacional, A cidade do futuro, vide boa carreira em festivais mas não só, é o caso.

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O filme conta de três jovens unidos em amizade a enfrentar facetas ora tradicionais, ora ignorantes, de um conservadorismo quase sufocante no interior da Bahia. O pano de fundo é a memória dos cidadãos removidos décadas atrás para a construção da barragem de Sobradinho, quando regia a expropriação e os abusos uma ditadura militar.

A professora de teatro é jeitosa e namoradeira. O professor de história é maternal e sereno. O que ainda não se achou é valente e obstinado. Juntos, divertem-se com pouco, ensinam os mais novos, enfrentam más vontades e inventam, do jeito deles, uma família nova, em triângulo.

Fazem um filho, habitam a mesma cama, sofrem na escola e na rua nem menos nem mais que qualquer jovem interessado em dar um passo de verdade vida adentro. Logram perseverar, e conter a alagação das vontades respectivas, pois que informadas elas são por delicadeza e inocência.

A direção equilibrada se arrisca, e tira dos atores, iniciantes no cinema, os resquícios de teatralidade, leitura e pose, expondo algo perto de suas auras, e nos encantam seus suspiros, vacilos, sorrisos. Pródigas atuações complementa trabalho de câmera discreto mas magnetizado à beleza descansada das coisas, à luz que houver no caso, e ao trato sutil das peles.

Há muitas maneiras de ver o Brasil, mas se só vemos o que conhecemos, há que concentrar em conhecê-lo, antes mesmo de assumi-lo ou de nele enfraldar-se. Se os livros têm muitas letras, se o turismo da pressa é avesso à experiência cognitiva, e se não há tempo para imersões alentadas nos rincões, resta no cinema, e tanto mais neste feito de gentes e lugares, boa alternativa para ganhar o contato do país.

Quando muito se especula sobre o que precisamos ou não precisamos, e a conversa esquenta, e o que vai a jogo se complica, chegar aos brasis dos criadores pode ser ótima tática para evitarmos perder discussões. No cinema, trabalho de muitos, a vantagem é maior. O cinema feito com pouco, por ter menos cenouras, deslumbres, distrações e subterfúgios, pode acabar revelando ao público trechos autênticos do Brasil, mais densos e firmes que o Brasil dos grupos de zap, novelas e jornais.

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