a gente faz um país

Richard Rorty, singular pensador norte-americano, compreende 30 anos de produção livresca. Floresce em 1979 com Filosofia e o espelho da natureza e deságua em Filosofia como políticas culturais, de 2007.

A gente faz um país (tradução aproximada do título original, Achieving Our Country), sai em 1999 pela Harvard University Press. Como de costume, Rorty beneficia a obra com a concretude aplicada dos problemas, em detrimento de suas teorias e abstrações.

O conteúdo reúne três conferências ministradas em 1997. Dedicadas aos militantes socialistas Irving Howe e A. Philip Randolph Jr., elas são: 1) Orgulho nacional americano: Whitman e Dewey; 2) O eclipse da esquerda reformista; e 3) A esquerda cultural. Dois valiosos apêndices, breves e potentes, arrematam: 1) Movimentos e campanhas; e 2) A regeneração via grandes obras da literatura.

Sobre o orgulho nacional, Rorty diz,

Orgulho nacional faz a um país o que o amor próprio faz a um indivíduo: é condição de sua constante perfeição. Muito orgulho nacional pode gerar beligerância e inclinação imperialista, assim como amor próprio em excesso pode gerar arrogância. Mas também do mesmo modo que pouco amor próprio afasta da pessoa a coragem moral, orgulho nacional deficitário torna menos provável o debate político quente e efetivo. O envolvimento emocional do cidadão com seu país – isto é, os sentimentos de vergonha ou orgulho quando conhece sua história e os fatos de sua atual conjuntura – é necessário se quisermos contar com deliberações políticas originais e produtivas. Tais deliberações serão mais prováveis na medida em que o orgulho suplantar a vergonha.

Rorty não só não flerta com o cinismo, como propõe uma tese a partir do prosaísmo rasteiro de termos como ‘orgulho’ e ‘vergonha’. Seu diagnóstico afirma que o orgulho de ser americano foi paulatinamente trocado por uma qualquer sensação de segurança: a modernidade estaria salva da miséria e da exclusão graças ao consumo.

Citando e comparando o fundo filosófico de diversos romances como Almanac of the Dead, Vineland, Manchurian Candidate, The Jungle, The grapes of Wrath, além de apoiar-se em original comparação da dualidade Whitman–Dewey, Rorty nada de braçadas neste que é seu metiê por excelência: o livre uso do espírito do tempo articulado por variegados artistas literários a fim de fundar e sustentar um argumento político original.

O diabo de Rorty não é citar uma dúzia de autores por página, como se deles fosse íntimo, sem aspá-los ou sequer referenciá-los em rodapé, mas antes a gravidade de sua persuasão, imbatível em tempos de relativismo epistêmico e carência de pragmática aderente. Não há, nas prateleiras da academia hoje, filósofo mais urgente.

Como resulta tão persuasivo seria objeto de outro estudo, estilístico e alentado. Nossa aposta entretanto é que Rorty opera libérrimo nas tramas da intertextualidade com firmeza de propósito reformador, dando ao mármore da ética e à murta da política a mesma e fresca substância.

Dá a seu eclético rol de nada batidos heróis o tratamento da repetição terapêutica. Pragmático, solidariza as leituras de um esquisito cânone ao próprio argumento, antes de tentar explicá-las.

Whitman e Dewey, diz o filósofo, são “profetas da religião cívica americana”. Tal religião pede aos cidadãos sentirem-se excepcionais não por favor divino, mas graças à chance iluminada da América, por si só, reinventar-se dos escombros do Velho Mundo e frutificar o advento do inclusivo e equânime sonho democrático. Lembra-nos Whitman a cantar nas Folhas de relva,

E eu digo à humanidade, Não se preocupem com Deus,
Pois eu que me preocupo com cada um de nós não me preocupo com Deus

Tanto Whitman quanto Dewey, diz Rorty,

viam nos Estados Unidos a razão de ser de um projeto histórico, humano, visível (finite), antes que algo aleatório, caótico (eternal) e não humano. Ambos esperavam ver na América um lugar em que a religião do amor enfim substituiria a religião do medo. (…) Desejaram que a luta por justiça social fosse nosso princípio animador, a alma da nação.

Somos o maior poema, diz Rorty sobre seu país, porque os Estados Unidos não devem satisfação a ninguém mais poderoso que eles – nem a Deus. A nação ela mesma é o Norte comum de respeito e labor, construção aberta e convidativa, não restritiva nem exclusiva.

Quando o empenho e o consumo de energia partem de núcleos apartados ou contrários à nação, qualquer utopia resta frágil, cede à autodestruição ou, no melhor dos casos, é assimilada e reconduzida a novos termos depois de muito desperdício.

“Outras nações pensaram a si mesmas como hinos de glória a Deus. Nós chamamos Deus nosso futuro”, propõe o filósofo. Eis um procedimento tipicamente rortyano: dizer a filosofia tal e qual um arco narrativo cuja operação básica está no abandono redivivo de vocabulários e metáforas desgastadas. Palavras e conceitos que servem menos e menos à maioria tendem a subsistir na teimosia de minorias que se creem excepcionais. Assim, são paulatinamente corroídas pela etiqueta democrática, liberdade de voz, voto e imprensa. A intervenção rortyana faz menos proposições genéricas e antecipadas à ação, e mais considerações dos possíveis da velocidade do progresso.

A única razão de ser da sociedade é a de formar sujeitos capazes de forjar sempre novas, sempre ricas formas de felicidade humana,

diz o filósofo para quem pressuposto nenhum, além da crença de que a justiça social é nossa obra maior, carecia ser carregado de antemão. É seu um pensar leve e perspectivista, pluralista e lucidamente preocupado com a falência da empresa filosófica, dirigida a cada geração por novas levas de ansiosos distraídos com as novas roupas do velho platonismo (pouco nos serviu sacar do trono a fala religiosa para no mesmo trono empossar a fala científica, sendo o problema, antes, a mera existência de um trono).

A gente faz um país resplandece a dinâmica de um pensador que superara os escaninhos e as expectativas bibliográficas setorizadas, tão comuns na jornada acadêmica. Pagou evidentemente o preço de ser taxado de amalucado pela direita e de vendilhão pela esquerda. Passada contudo a picuinha poeirenta, sobra nítida e pulsante a clareza de sua argumentação, a honestidade de seus clamores, a originalidade de seus ataques.

Qual ataque específico pode o livro ser lido a uma esquerda norte-americana, ao ver do autor, desvairada. Para Rorty, a esperança de Dewey e Whitman fora subestimada como “humanismo ingênuo”, já que agora a esquerda estaria empoderada para “conhecer o mundo como ele realmente é”. Tal substituição de esperança por pretensão seria para Rorty um remake da astúcia de parte da intelectualidade do início do século 20, aquela que muito sorveu seu Hegel de Marx, e não de Dewey, e fez água quando deu trela ao cientificismo do autor de Das Kapital em vez de observar o compromisso utópico do autor de Art as experience.

Marx profetizou um mundo enfim pacificado, previsível e fácil de arrumar, produto de um revolução global, como única alternativa ao apocalipse de nossa jornada na Terra. Já Dewey preferia ver nos eventos históricos não a matriz incorrigível e absoluta do concreto fatalismo, mas antes os selos de “experimentos sociais cujos resultados são imprevisíveis”.

Não há ingenuidade humanista tanto quanto maturidade e compromisso elevado, de Dewey sobre Marx, quando comparo a leitura rortyana das duas fontes hegelianas da esquerda norte-americana. A obsessão com o rigor científico da esquerda que prevaleceu nos Estados Unidos, segundo o autor, trocava a alegria simples de desenhar novos experimentos sociais por sofisticação teórica de gabinete e, não raro, patologicamente autorrefereciada, camuflando o desespero de acordar entre as amarras da polis com metalinguagem enfermiça e manifestações simbólicas, nem sempre tão engraçadas quanto ineficazes.

“A descrença no humanismo”, diz Rorty, “com sua regressão da prática para a teoria, é a sorte de falência nervosa que leva a gente a trocar secularismo por crença no pecado”. Era como se o desvio da pureza de pensamento e da ação, podendo ser metrificado e punido, a Terra Sem Mal nasceria num passe de mágica, numa linda manhã de primavera, ao som do canto dos galos etc. Mas Rorty elegeu Dewey, e não Marx, como seu herói hegeliano. E assim fez porque Dewey o inspirava mais a duvidar dos discursos, e portanto a refletir em seu bocado espiritual e singular, enquanto Marx o inspirava mais a obedecer e confiar nos comandos, e portanto a aceitar a robotização do arbítrio. Para um, o meio é sempre o fim, e para o outro, o meio a gente aguenta porque o fim será lindo. Qual atitude será a mais duvidosamente dialética?

Para mudar e refazer a esquerda ética e política, e não meramente cultural ou proto-religiosa, entretanto, não basta, diz Rorty, desconfiança – há que exercitar o corpo nas práticas e na mão na massa, na redução do mentalismo ao braço à barriga e à coxa, e praticar a humildade renovada diariamente da não importa quão incerta, frágil e desarmada participação na obra única e comunitária de fazer um país.

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