Aleijadinho no MASP

“A cidade deve ser um órgão do amor”, disse Lewis Mumford, “e a maior riqueza das cidades é cuidar da cultura e das pessoas.”

Para o autor de A cidade na história, é função da urbe nutrir e promover a vida. Missão famosa desde o livro Gênesis, quando é dada a Adão a tarefa de “cultivar e guardar” (Gn 2:15) o Éden da terra.

Hoje, o imperativo é comum à cidadania e às instituições que nos servem. O homem político aprende, com as quedas da história, o que preservar. Mumford vê na cidade um receptáculo de receptáculos. A cidade guarda corpos que guardam corpos.

Da cultura, expressões são acolhidas em regime de seleção e exclusão a partir de critérios escolados e comparados, justificados e democráticos. Centros culturais e museus mantêm-se lugares deste acolhimento. Na vida em trânsito da cidade moderna, parece imperar a economia da distração. A reboque, embotam-se a percepção da beleza (e consequentemente da justiça) e o senso crítico (e consequentemente o respeito à história).

Perder tempo em centros culturais e museus, entre as sugestões e pedagogias curatoriais. Recriar uma rota livremente e ser, você também, um artista que experimenta a arte, alongando e desdobrando os objetos na imaginação. Estar aberto não só à informação do catálogo, mas aos mistérios da criação. Atividades que tornam menos desumana a vida numa capital feia e sofrida.

Da administração Haddad e das jornadas de 2013 para cá, o paulistano vem usando com mais alegria a principal avenida da cidade. É na Paulista, alto espigão e aproximada bissetriz de nossa mesopotâmia, que a rua se frui, misturando e libertando os corpos, destravando e enlevando os humores. É lá também que estão InstitutoMoreiraSalles, Conjunto Nacional, MASP, Sesc Paulista, Casa das Rosas, Itaú Cultural e Japan House.

Sendo como foi São Paulo, destratada e abandonada, fechada e loteada, desmioladamente ocupada e retraçada, tais instituições, de guarda e cultivo da obra e da presença humana, merecem nossa graça e atenção disciplinada.

A exposição Imagens do Aleijadinho, montada no primeiro andar do MASP até três de junho, mostra 37 peças atribuídas ao escultor mineiro. É um presente impagável. Hoje espalhadas em coleções variadas, as obras sacras pertenceriam originalmente a igrejas.

Trata-se de um estágio definidor da arte brasileira, realizada pelo gênio intuitivo e singular, capaz de impor assinatura sem submeter-se integralmente (tanto melhor quanto involuntariamente) às gramáticas e ciente de um entorno pouco polido. As consequências são algumas obras-primas como Sant’Anna Mestra e Santo Antônio. A tensão entre as vestes engruvinhadas e o rosto liso contam do árduo trabalho do talho resolvido na graça de uma expressão devota. Arrematam a beleza o perecimento da pintura e o desgaste do material, inigualáveis em outros meios.

A caracterização católica oscila entre a paixão e o dever, a penitência e a humildade. Não porque as vidas dos nomes por trás fossem santas, mas porque as madeiras conquistaram presenças, encantadas ambiguamente pelo conjunto talho, pintura, caracterização, escritura, manuseios, e pelas forças de quem as quis e as olhou de perto. Corpo e contingência, histórias vivas e ainda pulsantes, em ativa conversação.

Este blog recomenda a visita. O museu afirma estar todo afro-inclinado esse ano, de modo que não faltarão bons motivos a idas fecundas no largo bardiano. Esta do Aleijadinho, no entanto, pela raridade da reunião, e pela mão de um artista patriarca mor em cuja linhagem nascem Villa-Lobos rudepoema e Millôr Fernandes chargista, tem motivação escolar a todas as idades e credos.

Depois dê um pulo no acervo e reste um instante em frente ao par Volpi–Valentim. Lado a lado em azul e amarelo, ótimos Cosme e Damião de um possível minimalismo à brasileira, este que se quer rigoroso no feng-shui semiótico, mas sem deixar ver derruir o orgulho mestiço, apaixonado e forçudo, e ora lúdico, que Mestre Aleijadim ensinou.

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