Ambíguo, Ex-Pajé dá sono e assombra

Numa das mais belas imagens de Padre Vieira, o jesuíta compara a riqueza oculta na terra que os portugueses pretendiam retirar com outra, aquela que habita e permeia a alma dos índios. Escrevendo e assinando aos 20 de abril de 1657 da capitania do Maranhão, diz António, na carta ao Rei D. Afonso VI, a respeito de uma frustrada Entrada do Ouro no Paraná, em que morreram, vítimas de fome e exaustão, quarenta colonos e duzentos nativos da nação Pacajá,

Estas, Senhor, são as minas certas deste Estado, que a fama das de ouro e prata sempre foi pretexto com que daqui se iam buscar as outras minas, que se acham nas veias dos índios, e nunca as houve nas da terra.

É sabido que as missões americanas da Companhia de Jesus, ordem fundada na segunda metade do século XVI por Inácio de Loyola, obedeciam, conforme arquivo epistolar dos primeiros padres, o cristianismo potencial dos nativos, jamais os julgando indignos ou escravizáveis. Ao contrário, reconheciam, nas pequenas mas significativas semelhanças, num dito famoso de Nóbrega, motivo de amor. Tais semelhanças seriam a entrega íntegra ao trabalho comunitário e solidário, um epítome do serviço cristão, e, ainda que difusa, crença e temor a um único e soberano Criador.

Graças às tão notáveis, aos olhos dos jesuítas, semelhanças, houve rápido e frutífero entrosamento, e as missões, enquanto funcionaram, produziram felizes convertidos, e intenso intercâmbio entre os conhecimentos das artes e utensílios europeus, e entidades e sensibilidades da floresta. Em verdade, para os jesuítas, o maior obstáculo às missões não seria a distância dos nativos dos conceitos da ordem e da fé, mas a inconstância da ordem e da fé dos assim ditos cristãos que cá chegavam para tentar enriquecer e apenas isso. Eram estes os que ignoravam o sentido da harmonia em expansão, o amor de Cristo em Cristo na unidade do Espírito Santo, e assim atrasavam, como afirmam as mesmas cartas jesuítas, o progresso do projeto brasileiro.

As missões foram fechadas pela ganância desmedida, e o projeto brasileiro tornou-se um mal disfarçado projeto de espoliação e segunda classe. Nele, um pequeno contingente teria acesso aos excedentes, o governo seria um simulacro de contenção popular, e nós seguiríamos proibidos de produzir tecnologia e conhecimento de vanguarda. Esta situação nos levou à dedicação absurda de solos às pastagens e à construção de Belo Monte. Pouco mudou até então. Nesse interregno, expressões culturais de monta valiosíssima, capazes de fazer triunfar no tabuleiro global do jogo das nações a diferença brasileira como algo além do sensualismo fácil dos corpos, expressões essas relacionadas à difícil cognição relacional não alfabética com a matéria e os espíritos, foram perdidas ou desperdiçadas.

Deste assim chamado, apud Pierre Clastres, etnocídio, isto é, extermínio das formas de um povo produzir sentido e relacionar-se com o mundo, trata o filme silencioso e perturbador Ex-Pajé, em cartaz no circuito comercial. Documento duradouro sobre a postura diante da perda, a fita escava no público a vala funda da complexa culpa brasileira.

Apreender o valor do registro é jogar damas com narratividade lacunar, demasiado ambígua. Ora as cenas querem dizer nada além de um valor de face prosaico, quiçá tardo-antropológico, mas ora sentidos de alta densidade ética subjazem em detalhes de bruta esquivança. Estar atento, ou desatento de um norte dado pela montagem e cioso dos frágeis, efêmeros sinais, será como andar, tal e qual a humilde equipe de cinco produtores, em solo onde abundam jararacas, sob uns céus em que espreitam araras os gaviões, saltam vítimas da fome macaquinhos, e anunciam, a quem trilha o caminho do adepto e está aberto, as razões e motivos do porvir.

Perpera é o xamã protagonista, provocativamente chamado ex-pajé, quando sabemos tal titulação impraticável, tanto quanto uma idade ex-idade é impossível. Sob a regência evangélica, advento que transforma a aldeia Paiter Suruí num psicologicamente conturbado hibridismo entre o colapso hodierno brasileiro e sua esquecida ancestralidade, Perpera alerta contra a distração da tribo mediante as coisas dos brancos, principalmente a comida. Perpera refere-se ao branco não como um inimigo, mas como um irmão mais novo, amável via de regra ignorante.

Entre sequências de perseverante espontaneidade e outras graciosamente posadas, o protagonista mais marcante acaba sendo a banda sonora. Aves variadas, águas, ventos, cantos, rezas, choros, sermões, ladainhas, conversas e percussões induzem o público à confusão e à sonolência, aos marasmos e assombros e, consequentemente, à reflexão. A ausência de narração em texto falado, ou de qualquer preparação historiográfica, a não ser inicial cenografia de arquivo da mesma tribo no anos 1960, ainda pouco aculturada, faz o percurso menos fácil e quem sabe por isso dubiamente cativante. Os arcos narrativos não são completados, os personagens não expõe seus conflitos de forma dramática, e a estrutura da história estira-se num não roteiro de parca poesia cênica, dadas a abundância à mão e as facilidades do sensacionalismo.

Restam a quem assiste o gosto amargo de ver perder o Brasil este importante jogo contra sua própria formação, e a missão de assegurar, em si, o fogo original e a melhor estratégia, para a melhor vontade, e ventura e faculdades do Reino.

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