Anri Sala no IMS-SP

Se puder criticar a novidade digital por uma perversidade retardante, não de todo isenta de paradoxal conforto, assim o faria: cedo meu juízo ao império da referenciabilidade exógena desde que as facilidades advindas não me desanimem nem me afastem do eventual cavocar poético do entendimento. Abra-se alas para tanto!

Vamos formando craques gerações em obediência. No entanto, de um modo ainda pouco descrito e examinado, o exercício incerto da apreciação singular chega-nos não apenas ingrato, mas mesmo estigmatizado. Que sorte de vítima ou otário pretende, hoje, pensar por si, ou ao menos agregar insuspeito valor ao pensamento coletivo?

A tarefa, primordial para a publicação da voz própria que nos carimba a maioridade do estar, incrementa a inteligência universal, mas encontra-se hoje em vexaminosa estagnação, quando não baixo a perseguição tácita e aflita do custo de oportunidade, ou de um utilitarismo entre aspas, que anuncia um mundo de mais amplos e frequentes consensos sem dar, com a outra mão, o estímulo e o respeito aos antigos saberes e fazeres.

Resta a generosidade dos que se formaram pensando na realidade analógica e a resistência alcoviteira de alguns protégés dos establishments no meio de um regulado deus-nos-acuda a compensar o charme da disciplina em pleno acato com o desdém por qualquer coisa que tenha história.

O prejuízo é óbvio porque a inovação a valer é produto das tradições assumidas com integridade, incertezas junto. As vantagens, quando saímos dos previsíveis vaivéns diários, tornam-se exercício complicado de aceitação, malabarismo gregário de regeneração positiva num organismo em pacto agudo de anti-faustos.

A arte contemporânea, além do viver melhor o melhor possível e falar disso, tem, em sua vertente isolada e exibicionista que engendra o mercado de objetos exclusivos mas impacta o pensamento atual tanto ou menos que um bloco de titio-vovô, escusada sobrevivência entre nós não artistas nem marchantes. Ela perdura a duras e estrambólicas penas sob os pretextos nem sempre compráveis das ‘exposições das diferenças’, das ’exibições curiosamente plurais’, das ’coletivas de jovens do mundo’. Ocupam espaços consagrados ao público da cidade e são devidamente amaciadas pela tutela de ‘pedagogos’, a ponte-pano entre a idiossincrasia de um criador que poderia ser um pasteleiro mas não é, e nós, cuja fome por arte não é a fome por novos objetos (se nem meu Goya eu digeri), mas uma fome de pensar. E hoje, mais que nunca, fome de pensar num paralelo construtivo ao festival da referenciação exógena das prateleiras, que sinalizam o gostável sem reflexão em troca de obediência.

Seu produto nos parece estranho porque não compõe nenhuma das facetas práticas do lazer, este que compramos nas mídias, nos serviços e nas reuniões. É a diversão culpada de quem não quer parecer habitante da ralé ignara, das elites formadoras que não querem parecer simplórias, dos intelectuais que carecem de afirmar sua diferença amarga falando bem ou mal do que já não interessa a ninguém.

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Instalados no prédio do InstitutoMoreiraSalles até 25 de março estão oito trabalhos de Anri Sala (n. 1974), artista albanês presente nas bienais paulistanas de 2002 e 2010.

Dá uma aflição não ser apresentado a coisas que já estão acontecendo, sem título, sem sinalização, sem a indicação inequívoca da comédia ou da tragédia, sem a clareza sociodemográfica de um público alvo. Aquilo é para mim? Eu posso…? Como eu faço para saber se entendo aquilo, e assim, se gosto ou não gosto? Por que me dar ao trabalho de sofrer incertezas, ainda mais incertezas, justo hoje, quando tudo ficou claro como um raio, quando tudo enfim vem mastigado, explicado, em colaboração imediata com os aplicativos de orientação? O sentido do vale do silício não era esse? Um dia de domingo é uma imersão azeda na anomia do século 20? Consumo de diversão não é perda de tempo! É para ser um sorvete gostoso, um evidente sor-ve-te, e não um quasi sorvete, um meta-sorvete, um alter-sorvete, um pós-sorvete, mas um sorvete sorvete! (titio vovô !!), de preferência no sabor que eu sei que eu gosto? Por que, enfim, acreditar que, à exceção de turmas escolares involuntariamente presentes, alguém além de um infeliz solitário perdido no mundo sem amigos nem parentes importantes perderá tempo expondo-se, no horário de lazer, a algo sem título, sem evidente sinalização, começo meio e fim, nem bandeira de filiação? Aquilo, afinal, era coisa do Corinthians?

A aridez da montagem, a falta de coragem para admoestar o público com um mínimo de sensacionalismo, faz mais difícil o trabalho. O aventureiro que arrisca perder um trecho do dia ali e sair sem ter o que postar pode, no entanto, apegar-se à forma explorada por Sala em transparente eleição: a música. É da estética maravilhosa do som, feito por e para humanos via instrumentos variados, e de sua vitória sobre um mundo em Morte renovada, de que trata a exposição.

Se atentarmos, perceberemos muitos modos musicais por trás das situações estranhas a que somos submetidos. Vale perguntar: se queria expor que curte músicas, por que não fez um playlist e pôs no face? Por que todo esse trabalho?

Difícil responder com facilidade. Parte do interesse nessa sorte de evento é entrarmos num aguçado espírito de aventura e saírmos provocados a pensar. São muitas lojas, vitrines e sinais ao redor, mas frequentar o desconhecido faz o cérebro crescer forte. A arte é enigmática, propõe jogos de interpretação e pontos-de-vista, convida a cogitar e existir nas motivações do artista, nas vidas secretas dos objetos, bem como nas motivações institucionais e assim políticas que os acolheu e curou. Quais as mensagens possíveis, e por que elas importariam urgentemente hoje?

O desconforto situacional incomoda. Tudo na Avenida Paulista é tão claro. Ninguém atravessa fora da faixa sem pesar as consequências. E ali, nas duas galerias de um prédio novo, o que poderia ser fácil descrever e facilmente gostoso de frequentar, atordoa, constrange, falta, me faz prestar atenção nas roupas das pessoas.

O aventureiro tem como ferramenta multívoca a generosidade, abertura alerta, o fio dos sentidos desencapado, e a oportunidade de co-criar, alongar os objetos, tornar-se ele também o artista, fruindo da parte boa de uma aventura que começou na Albânia. Na minha exibição de Anri Sala, o momento presente simplesmente não existe. A prova do tiro no pé do albanês, doravante meu colega faltoso, é a de que a música, querida, é a gravação de um tempo sem pausa, a evidência maior da pura ausência do presente: tudo na música já foi, ou está vindo. Eu entendo, pensando um pouco mais, que o título é irônico.

A música quer dizer sem palavras, logar sem logos. É timbre do afeto do instrumentista depurado pela prática, documentado em vídeo, reexibido como a oferenda de um pensador. O pensador não quer texto, que julga destemperado, elitista, arrogante, cronológico, datado, sintoma dos sábios. Para Sala, colega humano de difícil sensibilidade, toda compreensão é duvidosa, e nada está isento do filtro contingencial da tradução variegada e corrompível. Você percebe apenas o que bate numa tabela referencial e volta liso? Quando um lado do telão ganha lúmens a mais na intensidade do volume do saxofone, o que Sala faz é pedir para usar o telefone e anunciar, eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer.

O que é grande em Anri Sala? Seu respeito pelo músico treinado, símbolo do operário em sua beatitude sindical e sofrimento existencial, e pela infinita variedade da música ou da expressão da vida. O sexteto em nada ansioso faz música conturbadamente angelical, os tambores fantasmais são signo de que algo invisível e mágico perpassa o artesão e a ferramenta, será o amor, o saxofonista em Berlim mostra como é arriscada a vida entregue à arte, e solitária, e longamente insuficiente, porque inconclusa e variabilíssima.

O casal de namorados não renuncia nem abraça o desprezo mútuo. Pede que atentemos aos ofícios do grego e do judeu (emprestando a São Paulo sua figuração do yin e yang), presente em todo ser. Há conciliação sugerida na silhueta unida, mas não de todo confirmada. O que restou, para mim, foram os dois semblantes, atenção obstinada no baterista, caridade dialogal na mulher.

O punk do The Clash não foi exatamente ridicularizado, mas a experiência propõe que melodia é inscrição mnemônica nos nervos da tribo; somos elos de lembranças; aquilo que do sol nos protege também há de encantar e unir.

Pensam, as mariposas, aonde ir, ou somente em transmitir cifradas, benevolentes mensagens desde o profícuo, fincado reino de-entre os dias?

Ao fim de uma serpente escura, num cubículo apartado, simulam-se aulas entre gerações, palavras simples em contraste repetidas em respeito ao duro frio do aprendizado resistente, às matizes do saber e à escuridão do não saber, fragilidade capaz de acusar a diferença insuportável e nos tornar ao pó de onde viemos.

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