Apresentando Luisa Micheletti

Luisa Micheletti nasceu em 1983 em São Paulo e trabalhou de 2003 a 2010 na MTV Brasil, onde foi produtora, editora e apresentadora. Atriz, integrou montagens de Ibsen, Jean Genet e Roberto Alvim. Tocou baixo por dois anos no femme trio de dance-metal Fantasmina. Nem sofá nem culpa, seleta de contos a ganhar por este selo as falanges do público, sai no primeiro semestre de 2017 e marca a estreia de Micheletti em livro desde predicados próximos de maturidade, ouvido musical, íntegra abertura mística. O trecho a seguir, pinçado de um dos contos, casa bem com a série Mãe,

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Luisa Micheletti diz: Mãe,

Aos treze graus de Sagitário, dilatava rumo aos limites do círculo, claro insulto aos astros mais distantes das orgânicas córneas. Absteve-se de escolher. Determinara que faria parte de tudo e de propósito cravou-se, limiar da primeira, cúspide da segunda; assim, seria ambas. A estreita oposição mercurial em mortífera oito, perspectiva que mais tarde ensinaria a integrar valores ao que é dito, submeteria a fala do bebê vermelho às mais limpas verdades sempre, nesta infinita linhagem de matrioskas honesticidas. O inverno ameno o suficiente para que pudesse descer nua e com três jóias douradas empedradas de Vênus: era assim que posaria no momento de se consumar o retrato da carta nascente.

[…]

Sônia foi mãe três vezes. Dois vingaram. Pioneira em desquite, sol em leão, acelerada, válvula mecânica. Tinta dourada no cabelo, Aldemir Martins na parede, homens do PSDB e suas malas de dinheiro. A praia, ela viu, a novela, o mar. Ter tido um neto médico. Ter sido Shirley Temple. Ria. Ensinou não correr atrás de homem, escolher entre os que vêm e permanecem. Memória em molho netuniano que perpassa carne, bolognesa, sangue. Por dentro as que já foram, encuba, guarda, estão por vir. Em Uberlândia nasceu avó Sônia, lua da minha mãe, caçula de Antonieta poeta, neta de Leopoldina, filha de todas as filhas das matrioskas lunares honesticidas.

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