das cartas a nora

Em ti amei a imagem da beleza do mundo
o mistério e a desgraça da minha raça
as imagens de pureza e piedade
espirituais
em que eu acreditava quando menino

Tua alma, teu nome, teus olhos
têm a beleza estranha das flores selvagens
de um campo encharcado de chuva

Senti tua alma estremecer
ao lado da minha
e pronunciei suavemente
teu nome à noite

Chorei vendo a beleza do mundo
passar como um sonho
no fundo dos teus olhos

quatro verbetes do ‘almanaque bierce breton carroll cummings kipling kerouac &c’

kerouac

1 Rabisque em blocos secretos, e páginas datilografadas, para o seu próprio prazer.
2 Submeta-se a tudo, abra, ouça.
3 Tente nunca ficar bêbado na sua própria casa.
4 Esteja apaixonado pela sua vida.
5 Uma coisa que você sente encontrará sua própria forma.
6 Seja um louco santo idiota da mente.
7 Vá tão fundo quanto quiser.
8 Escreva o que você quiser que seja sem fundo com o fundo da sua mente.
9 As visões indizíveis do indivíduo.
10 Sem tempo para a poesia mas para o que é exatamente.
11 Tiques visionários tremendo no peito.
12 Fixado no transe sonhando com um objeto à sua frente.
13 Livre-se das inibições literárias, gramaticais e sintáticas.
14 Como Proust, seja um velho chapado pelo tempo.
15 Conte a verdadeira história do mundo em monólogo interior.
16 A jóia central do interesse é o olho dentro do olho.
17 Escreva por recordação e para seu próprio espanto.
18 Trabalhe do olhar lapidar médio em diante, nadando no mar da linguagem.
19 Aceite a perda para sempre.
20 Acredite no contorno sagrado da vida.
21 Lute para esboçar o fluxo que já existe intacto na sua mente.
22 Não pense nas palavras quando parar mas sim em ver melhor a imagem.
23 Não perca a conta todo dia da data glorificada na sua manhã.
24 Nada de medo ou vergonha na dignidade da sua experiência, da sua linguagem, do seu conhecimento.
25 Escreva para que o mundo leia e veja as suas imagens dele.
26 Filme de livro é o filme em palavras, a forma visual americana.
27 Louvado seja o Personagem em Desolada e desumana Solidão.
28 Compondo de modo selvagem, indisciplinado, puro, entrando por baixo, quanto mais louco melhor.
29 Você é sempre um Gênio.
30 Autor-diretor de filmes Terrestres Patrocinados e Anjoguardados pelo Céu.

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bierce bufão

Funcionário que outrora era ligado à casa de um rei, cujo negócio era divertir a corte com atitudes e frases ridículas, cujo absurdo era atestado por sua fantasia disparatada. O próprio rei trajado com dignidade, o mundo levou alguns séculos para descobrir que sua conduta e seus decretos eram suficientemente ridículos para divertir não só a sua corte como toda a humanidade. O bufão era geralmente chamado de bobo, mas os poetas e romancistas sempre se deleitaram em representá-lo como uma pessoa singularmente sábia e perspicaz. No circo de hoje em dia o fantasma melancólico do bobo da corte age sobre a tristeza das plateias humildes com as mesmas graças com que na vida ele lançava sua sombra no salão de mármore, despertava o senso de humor do patrício e batia na barrica das lágrimas reais.

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bierce inundação

Enchente. A maior inundação de que temos notícia é o dilúvio Noaquiano descrito por Moisés, Berosus e um cronista assírio traduzido pelo falecido senhor George Smith. Inundações são causadas por diversos motivos, mas essa foi devida a uma longa temporada de tempo úmido – quarenta dias e quarenta noites, segundo Moisés. Caiu tanta água nesse período que cobriu todas as montanhas da terra, algumas das quais – a mais alta sendo próxima de onde Noé vivia – chegavam a trinta mil pés acima do nível do mar. Nossas chuvas mais pesadas dão cerca de seis polegadas em vinte e quatro horas – uma precipitação de meio metro de água mataria quem tentasse caminhar por dentro dela. Mas a chuva de Noé foi a uma taxa de 750 pés a cada vinte e quatro horas, ou 31 1/2 pés por hora. Foi uma baita chuva.

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eliot

Há muitas posturas perante o Natal,
Algumas das quais podemos ignorar:
Social, apática, puramente comercial,
Estróina (os bares só fecham mais tarde),
E a infantil – não a da criança,
Que acha que a vela é uma estrela e o anjo
Abrindo as asas brilhantes no alto da árvore
Não é só um enfeite, mas é mesmo um anjo.
A criança se maravilha diante da árvore de Natal:
Deixe que fique o espírito de quem se maravilha
Durante a Festa como um acontecimento e não como um pretexto;
E assim esse sonho reluzente, esse alumbramento
Da primeira Árvore de Natal de que nos lembramos,
Assim as surpresas, delícia dos novos presentes
(Cada um com seu cheiro peculiar e excitante),
A espera da comida, da galinha ou do peru
E o esperado oh! com sua aparência quando chega,
E que assim a reverência e a alegria
Não sejam esquecidas na experiência futura,
No hábito aborrecido, no cansaço, no tédio,
Na certeza da morte, na consciência do fracasso,
Ou na atitude piedosa de um convertido
Que pode sofrer a tentação de ser convencido,
O que desagrada a Deus e desrespeita as crianças
(E aqui me lembro, obrigado
Santa Lucia, por seu hino, e sua coroa de fogo):
Que assim antes do fim, no octogésimo Natal
(Por 80o querendo dizer talvez o último)
As memórias acumuladas das emoções do ano
Se concentrem numa grande felicidade
Que deve ser também um grande medo, como quando
Todo mundo sentiu medo:
Porque o começo deve nos lembrar do fim
E o Natal do Dia do Juízo final.

Sobre COSMA

A história começa pelo título; COSMA, um plural latino estropiado de COSMOS, porque, como se veria ao final, múltiplos universos eram criados a partir da clonagem do sangue da pomba que invadia uma espécie de bunker onde vivia um Noé pós-apocalipse com um acervo do material genético das espécies.

A conseqüência lógica, o desdobramento natural desse começo nos fez empacar por anos a fio: do desgaste desse material genético, haveriam fatalmente de surgir outros universos idênticos mas gradativamente menos semelhantes ao primeiro. No fim do mundo, no último universo as essências, por assim dizer, já estariam gastas e começam a surgir desequilíbrios que levam todo esse universo a se extingüir. Devido à súbita desaparição desse último universo, o penúltimo acaba indo pelo mesmo caminho – como que sugado pelo buraco formado pelo último – e assim sucessivamente até que a desaparição dos universos chegasse enfim ao nosso universo conhecido, tal como nós hoje o conhecemos.

Tínhamos um final que era novamente a mesma pomba se espatifando no microscópio do Noé do bunker e a visão do Aleph, do que seria algo como o DNA de Deus. Mas e quanto a todos os acontecimentos significativos, indicativos dessa perda de inspiração, do entusiasmo divino dos anjos, dos santos, visionários? Ensaiamos começar, listando episódios representativos dessa nova versão da Queda arquetípica, da expulsão do velho Paraíso, dos homens dos universos bizarros paralelos extintos.

Um deles era uma versão má de cada personagem bíblico, culminando com uma versão má de Jesus que meio se arrependia no final e acabava não ressuscitando mais, deixando sua versão da humanidade na dúvida sobre todo o Evangelho até ali. Reforçando o escopo patrístico, tínhamos também a moldura narrativa: o narrador era descendente de outro filho de Adão, Cam, que dera origem aos camitas, amaldiçoados através das gerações da tribo familiar.

O problema dessas transposições era que a analogia que servia de base era toda canônica, não entravam anônimos.

Quando tivemos que inventar esses anônimos todos, éramos nós mesmos e vimos que não fazia sentido escrever toda uma saga cósmica se fosse para acabar contando uma história de nós mesmos, uma prosa de ficção que não fosse nem científica, nem realista demais, que acabaria virando mais um amontoado de palavras em seqüência.

Uma opção era manter apenas personagens lendários em versões bizarras, o que nos levaria à fantasia. Não poderíamos jamais sucumbir à fantasia, o rock progressivo da literatura.

Pode-se dizer que fomos vítimas do próprio realismo ou que essa história, pelo menos, foi: jamais a concluíamos, nunca escrevemos nada dela além destas poucas linhas que buscam, se não rastrear seu paradeiro, apurar os motivos de sua protogênese, as causas de sua procrastinação.

A idéia inicial era juntar na mesma história todos, ou muitos temas obscuros, mitológicos, bíblicos, com uma atmosfera futurista; uma leitura irônica de textos sagrados em chave de ficção científica.

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Capas de ‘Cosma’ respetivamente em Rússia e Suécia