numa época em que “tempo é dinheiro”, a poesia se compraz em esbanjar o tempo do poeta, que navega ao sabor do poema. Mas exatamente o poema em que a poesia esbanjou o tempo do poeta é aquele que também dissipará o tempo do leitor ideal, que se deleita ao flanar pelas linhas dos poemas que mereçam uma leitura por um lado vagarosa, por outro ligeira; por um lado reflexiva, por outro, intuitiva; por um lado auscultativa, por outro, conotativa; por um lado, prospectiva, por outro, retrospectiva; por um lado linear, por outro não linear; por um lado imanente, por outro transcendente; por um lado imaginativa, por outro, precisa; por um lado intelectual, por outro, sensual; por um lado ingênua, por outro, informada. Ora, é por essa temporalidade concreta – que se põe no lugar da temporalidade abstrata do cotidiano e que se manifesta, em oposição a esta, como uma preguiça fecunda – que se mede a grandeza de um poema.

Muito mais do que arcaico, Nelson Cavaquinho (como Cartola) parece ter nascido já extemporâneo, na contramão da “promessa de felicidade” da década de 50 e da agoridade exigente dos anos 60. É desse patamar que Nelson e Cartola compõem, esquecidos, mas também preservados – e é desse mesmo lugar que Paulinho da Viola enxerga o mundo, embora, digamos, sabendo disso. O extemporâneo, característica de tanta coisa boa produzida no Brasil (difícil explicar a força de um Machado de Assis, por exemplo, através de sua relação com seus contemporâneos), pode ser diferenciado do arcaico se o compreendermos como este mesmo arcaico, mas liberto de seu oposto, o contemporâneo/moderno, afirmando-se para além dessa dualidade, conquistando o chão onde pisa.

Se o retorno ao passado visa abolir o presente, transformando o passado em utopia a ser resgatada, o milenarismo atua pelo mesmo objetivo. Novamente, o presente não deve ser transformado, mas abolido, porém, agora, o alvo é o futuro, a ser atingido em um movimento absoluto que visa anular o próprio tempo. O futuro já não nasce das condições do presente, e quase não há mais continuidade entre um e outro. O futuro é uma promessa cuja realização integral implica uma ruptura também integral e sem compromissos. Em um caso, o retorno à tradição anula a modernidade; no outro, a modernidade a ser realizada sem vínculos com o presente o eclipsa. Ambos os projetos, por ambos os motivos, fogem à história e buscam realizar-se em um tempo alheio a ela.

dois poemas: rafael mantovani

conversation piece

3.
o que você conquistou: orgulhou
sua mãe frente aos outros condôminos
sempre visita
aos sábados não toma
Lexotan, não viaja sem avisar
nem pede dinheiro emprestado e lembra
aniversários, nunca comentários que ela não entenda
estoca queijo ralado e tem
plano de saúde e um
guarda-chuva reserva, ela liga pra avisar
a promoção do Sendas.

– – –

(na Noruega é assim:
o sono desce de trenó
desembarca em pernas curtas
traz uma mochila, diz que vai morar comigo

ele tem o rosto de um cachorro
e um rastro escuro na barriga
ele guarda os nomes de lugar
escritos todos numa lista.)

* * *
do livro Cão (2011)
* * *

SQ6

Uma seta que se finca no ponto tenro e nevrálgico da palavra. Meu corpo incógnito te diz: dinossauros, ictiossauros e plessiossauros, com sentido apenas auditivo, sem que por isso se tornem palha seca, e sim úmida.

Assim conta Clarice de seu estado quando abre Água Viva. É engraçado, num livro deste nome, ouvir mais ode ao ar e ao fogo que à agua. E qual é o movimento?

Antes que o afastamento querúbico hilstiano, a atitude é a disciplina da atração: atiçar, escrevendo e atravessando, o escorpião mercurial de volta aos leitos. Demonstra a resolução de um problema? Assoma.

– Parem de sufocar suas avós.

A pista foi tomada pelo regozijo.

As ancas sobejaram, rebuçadas em chocalhos.

Exalavam: ardor, bundas e sovacos.

Anná levou a voz feminina ao ótimo mesmo de uma tradição difícil. Dos rueiros guaranizantes de Teko Porã rastilharam no tablado a alma irriquieta e a senda alumbrada das aves em chama. Drusa transfundiu raízes em hastes de exaltação e controle.

Chuva, constância inumerável, e também peitos.