uma tradução: Wallace Stevens

Ave negra treze vezes


Nos tantos montes claros
Nada se movia
Só um olho da ave negra

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Eram eu três almas
Como a árvore
Na qual três aves negras

•••
Ventava a ave negra era setembro
Era um trecho da pantomima

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São um, homem e mulher
Homem, mulher e ave negra
São um

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Não sei o que prefiro
Se o belo dos desvios
Ou o belo das alegorias
Se da ave negra o canto
Ou seu descanso

••••••
Brincos de suor enchiam
A janela de um visco esquisito
Da ave negra a sombra
Cruzava, indo e vindo
Num traçado cujo humor
Nos escapava

•••••••
Ó magruço de Goiânia
Por que vês amarela
A ave negra ao pé
Da mulher que te rodeia?

••••••••
Sei bem dos nobres gestos
Dos lúcidos, chicletosos ritmos
Mas sei também que
Mete-se a ave negra
Em tudo o que sei

•••••••••
Ao voar para longe, a ave negra
Riscou a beirada
De um de muitos círculos

••••••••••
Era ver a ave negra
Voando na luz verde
Que a própria musa do tom
Desafinava

•••••••••••
Viajou Goiás afora
Num longo carro de vidro
Uma vez, pinçou-lhe um frio
Assim que confundiu
A sombra da bagagem
Com aves negras

••••••••••••
Corre o rio, corre o rio…
Só pode estar voando, a ave negra

•••••••••••••
Era tarde demais
Estava nevando e
Ainda ia nevar
Sentava a ave negra
No espinhaço do angelim

* * *

Thirteen Ways Of Looking At A Blackbird

I
Among twenty snowy mountains,
The only moving thing
Was the eye of the blackbird.

II
I was of three minds,
Like a tree
In which there are three blackbirds.

III
The blackbird whirled in the autumn winds.
It was a small part of the pantomime.

IV
A man and a woman
Are one.
A man and a woman and a blackbird
Are one.

V
I do not know which to prefer,
The beauty of inflections
Or the beauty of innuendoes,
The blackbird whistling
Or just after.

VI
Icicles filled the long window
With barbaric glass.
The shadow of the blackbird
Crossed it, to and fro.
The mood
Traced in the shadow
An indecipherable cause.

VII
O thin men of Haddam,
Why do you imagine golden birds?
Do you not see how the blackbird
Walks around the feet
Of the women about you?

VIII
I know noble accents
And lucid, inescapable rhythms;
But I know, too,
That the blackbird is involved
In what I know.

IX
When the blackbird flew out of sight,
It marked the edge
Of one of many circles.

X
At the sight of blackbirds
Flying in a green light,
Even the bawds of euphony
Would cry out sharply.

XI
He rode over Connecticut
In a glass coach.
Once, a fear pierced him,
In that he mistook
The shadow of his equipage
For blackbirds.

XII
The river is moving.
The blackbird must be flying.

XIII
It was evening all afternoon.
It was snowing
And it was going to snow.
The blackbird sat
In the cedar-limbs.

dois poemas: caldas & maimona

não conseguimos nem tentamos

• não conseguimos nem tentamos •
• matar o senhor nem seus filhos •
• nem sua mulher nem seus cães •

• suas terras continuam intactas •
• todas molhadas por nosso suor •
• e continuamos dançando o fado •

• não conseguimos tomar as armas •
• nem as fabricas nem as maquinas •
• o salario engolimos assim mesmo •

• seu estado continua a ser perverso •
• nos tritura e zomba e suga mais •
• da nossa carne e ossos vencidos •

• não conseguimos mudar os rios •
• agora é preciso mudar os mares •
• reverter os ventos e a alegria •

• nossa vida continua sem a morte •
• do senhor entranhada em nos •
• enquanto isso não seremos nada •

* * *
Alberto Lins Caldas. Poema do livro de corpo presente. Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2013
* * *

Festa de monarquia

não seria útil olhar de novo para o sol?
a mão que ofereci ao relevo do tempo
canta com as monarquias que dançam.
da música as sílabas fazem
imenso dezembro não anunciado.
na noite de ontem no centro
da lagoa entre dois barcos
estava um verde incêndio
anunciando a grande avenida
onde as palmeiras procuravam
saber se não seria útil
a pedra olhar ainda para o sol.
era a festa que se transformava
em festa.

* * *
João Maimona. Poema do livro Festa de Monarquia. Luanda, Kilombelombe, 2001
* * *

Que houve em 1972?

Muito se fala do ano de 1972 na música brasileira. Mas bate-se não raro nas mesmas teclas: em 1972 ganhamos Transa, de Caetano Veloso, Expresso 2222, de Gilberto Gil, Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, Acabou Chorare, dos Novos Baianos, e Dança da Solidão, de Paulinho da Viola.

Os cinco discos essenciais para entendermos nossa música nunca antes tão aberta e misturada, experimentada e internacional. Depois da revolução de João Gilberto, os músicos populares da contracultura brasileira, e mesmo os da cultura corrente, entenderam não haver descontinuidade entre apuro inventivo e levada do samba.

O suíngue brasileiro, nos anos que serpenteiam 1972, marcou-se pelo fabuloso violão de Jorge Ben, e pelas guitarras elétricas e percussões psicodélicas da abundância solar de um país lutando para se reimaginar.

Outro dia, postei três sambas de escola de 1972, na minha opinião entre os melhores já gravados.

Ora, é muita boa música num mesmo ano. Não fiz vasta pesquisa, mas será escarafunchar e ver sair mais coisa dali.

Neste post, Romulo Fróes lembra de mais um disco importante, do mesmo marcante ano em que o Brasil constrói seu primeiro computador e vende seu primeiro vinho em caixinha, Jards Macalé, estreia homônima e retumbante do Jards, com Mal Secreto e Vapor Barato.

Que houve em 1972? Enquanto pensamos, aproveito para recomendar mais dois:

Se o caso é chorar, de Tom Zé, trabalho de poesia depurada, samba autoral leve, jogo musical atual até hoje, narrativa gostosa e dramaticidade cristalina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cicatrizes, do MPB4, publicado aqui na música Canto de Nanã, de Dorival Caymmi. O álbum é ricamente arranjado, e destaca-se pelo trabalho de vozes, difícil de achar na mpb.