Deixar pronta a casa bonita é o que ele quer, mas nem porque apontam troçando rindo que o patamar entortou. Eles acham que eu faria assim, uma casa torta e altinha sem querer? Mas não explica. Confessar dirão pior, olha o viado, já nem uma nem duas vezes, de mim que sou religioso e visito até hoje minha mãe. Mas é capricho no bom sentido. Negociei sobrado e entortei o prumo como coisa calculada de aproveitar melhor o sol da manhã. Beber seu gole mais encheio. Vão dizer do viado que não é hombridade, desarrumar um patamar. Fosse esse o problema. Quer bonita, amarelo gema forte, número em preto grande pra chegar correspondência. Quer fixar conchas brancas arqueando a entrada, pedras e contas desenhando a imitação das ondas nas paredes, e um chão de ladrilho paulista que nem eu vi no facebook fica bonito parece de qualquer jeito mas tem ordem. Isso é depende como olha. Brasa, amarelo e preto. Muitas samambaias, tantas quanto der, pois acha bonito as samambaias. Até que venha pássaro. Por causa das plantas. Ou nem que não venha ninguém. Mesmo assim eu prefiro. Fosse isso de apontarem era isso. Deixar bonita a casa, isso sim. Subi cimento, empilhei tijolo e pisei laje, encimei, e daí que não vieram, dois sobrinhos e o colega funcionário do ex-emprego diz que vinham, dia de jogo, é certo que esqueceram, no outro ameaçou chover, decerto foi cautela. Fosse isso. Agora já durmo. Calcula. Um colchão desses achado em bairro limpinho. Enrolei, baixo do braço, nem notaram. Criança nova nem dois anos, agora eu assim, no chão duro que não durmo. A manta a senhora de idade que às vezes passa deixou na porta. Serve. Sou bom de frio. Decerto ela ouviu da briga na empresa que briguei e da enchente que o senhor castigou, perdi tudo. Uma banqueta, as mudas nas big-coke. Olha. Cada coisa especial. Já já amanhece. Fosse isso né, provar isso, da luz e das plantas. Será durmo mais, e olho o teto. Vou é acabar esse teto assim que entrar serviço. Desço compro material faço gesso rebaixado, coisa fácil de fazer e fica chique. Prendo luzinha led que nem os restaurantes da cidade, você passa olha dentro e cadê as luzes? Guardadas, dando bafinho. Nem usa mais luz no teto, isso acabou, basta ver nas bancas as capas quando mostram casa chique você vê. E os tontos rindo, meteram a mão no bolo da noiva! E riem que a casa ficou torta. E que parece um bolo de noiva torto. Mas olha a luz da padaria. Fria, estralando a vista. Disso ninguém troça. Nenhuma planta no estabelecimento? Nada, nem percepção. Nem troça. Agora, é minha casa que está errada? Mas, né, fosse isso. E essa luz fria, de que que precisa? Vou é dizer isso. Mas nem é isso. Eu tento dormir, olho pro teto. Num durmo. Soergue o corpo magro, veste a camisa verde, mangas curtas alisada no descanso. Vou ali, na janela. E vai. Ó o leste, aponta. E ninguém ouve. É só o sol, só. Coisa pouca. Um sol grande e humilde, distanciado, vermelho, laranja e rosa-choque. Soergue o corpo, veste a camisa do mar alisada no descanso numa noite nunca a mesma, sempre a noite e ele ali. Eu fico aqui um pouco. E fica. Vou sim, diz, deixar bonita a casa. Esquadria de madeira achada, barato e chique. Vão dizer que dá trabalho que alumínio é prático. Eu cuido lixo e provo, ó, as plantas perto, coisa bonita que fica. Quando alguém aqui eu mostro. Aí é casa feita acabada e pronta. Agora é esmorecer os boatos. Pessoal fala muito. Mas nem é isso. Fosse isso, né. Olha o sol. Pura lentidão. Olha a largueza dum sol. Hoje eu tivesse material, né, continuava. Vou aonde.

Janela sem fumaça

A CRISE DA Ciência está exposta quando o chefe do Poder Executivo de uma democracia moderna faz pouco dos alertas pandêmicos e contraria as recomendações sanitárias. Vivemos, fica a impressão, um absurdo desmentido dos últimos 300 anos de Luzes.

O impulso ingênuo da crítica será indicar algum incesto, culpa da religião, a atravancar o progresso. No varejão jornaleiro, vênia à arte do quarto poder que ora flui melhor nos camelôs digitais de zap, o produto é nímia, obsoleta bruma.

Estaríamos diante de um mágico de crianças enquanto o grosso da conversação sitiada nas distrações do performer deixa o truque passar em branco?

E se houver, digamos, boa chance de não haver truque?

Nem procederia, assim, o arrependimento bolsonarista (este arrependimento seria uma ficção à wishful thinking), nem seria possível desqualificar a seriedade e a responsabilidade da equipe econômica (vide sucesso de terapias setoriais, arranjo juro–câmbio, articulação condigna do Renda Brasil, tonificação fiscal via austeridade organizacional etc).

Então será encanto? Um tanto amargo à inércia árida da reclamação tradicional, dramatúrgica, da etiqueta política, mais ou menos alienígena à fraternidade brasileira?

Arrisco um palpite.

Para tanto usarei duas metáforas, uma dentro da outra.

Nesta fotografia banal, um acontecimento chama a atenção.

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O porta-livros, objeto K, reflete-se na porta de vidro do armário. No objeto K’, segundo porta-livros, este que se vê no espaço refletido, incide, atenção, a imagem da janela original. Esta imagem, um quadrado de luz, que, nesta perspectiva, K’ reflete, não incide entretanto em K. O objeto K’, para este observador, exibe portanto a forma de K, mas numa luz nova. O reflexo na folha de vidro deixa sua condição inane, por assim dizer, simulacral, e ganha a condição de realidade virtual. Isto porque, apesar de ser forma, ‘age’, ou responde, como matéria. Sua potência, ao prolongar o espaço e colher luz nas mesmas condições mecânicas da realidade concreta, dá-se em Revelação ao observador. Este pode ver, sem se deslocar, um mundo maior; ou, pode ver K e K’ em situações diferentes.

Um plano reflexivo disposto no espaço pode dar ao observador mais que um inane simulacro; pode dar uma realidade virtual. A potência desta realidade virtual será Revelação ao observador em tal ou tal posto situado; será, isto é, enriquecimento inopinado de sua experiência.

Se quisesse conhecer K a refletir o quadrado de luz da janela, o observador teria de se deslocar a um novo posto.

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Aqui, vê-se, em K incide a imagem luminosa da janela. Mas eis que se perde a visualização de K’. Há, no movimento, emprego de energia e empobrecimento da experiência.

Eis comum façanha da caneta vermelha, no Brasil, esta capaz de trair a família real sem ter o que colocar no lugar. É preciso no entanto perguntar se nossa obra será capaz de estudar enquanto os pais trabalham.

Posso olhar para o plano reflexivo, dimensão concretamente formal mas mecanicamente material, como quem olha para a história?

DE ONDE ESTOU, olho para a crítica social, objeto K, com as mãos para trás. Percebo-a dura, monotemática, assertiva, praticamente unânime. A leitura desta opinião não me seduz, intuitivamente, em seu engajamento. Seu temps de bouche é aligeirado e suas notas me levam ao resmungo estético que empanzinou a pseudo-polarização PT-PSDB. Sua negação, no entanto, bloqueia-me certa lealdade nutricional: quem a profere come à mesa da estirpe urbana que me deu de comer. Aliás, verdadeiramente republicana. Resisto à diatribe; volto-me ao studium. Na história, 60 anos atrás: eis K’.

Plano Nacional de Educação, III Conferência Nacional de Saúde, relações comerciais com a República Popular da China, intercâmbio com países africanos, Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura e Estatuto do Trabalhador Rural, Código Brasileiro de Telecomunicações, sistema Eletrobrás, Usiminas, porto de Tubarão, Companhia Siderúrgica Paulista.

Nem a auesteridade fiscal do ministro Furtado foi entretanto capaz de iluminar a crítica, que insistia teimosamente no descabido populismo (ou seria um delirante medo da ameaça vermelha?) da empresa goulartiana.

A forte contrariedade opinativa que sofreu o governo Jango, ou K’, exibe a confusão interpretativa que hoje não se dá à luz devido as contingências do acontecimento Bolsonaro. A novidade deste acontecimento, e sua eficácia em distrair os apressados, vem roubando a análise de seu bojo, a ciência de sua dignidade ontológica.

Quando escancara a fraqueza do Presidencialismo e nos deixa antever a caducidade inerente da expectativa meramente estética diante de uma organização especialmente empresarial como o Poder Executivo, Bolsonaro não convida ninguém ao oblívio da habilidade negocial, da acuidade em diagnóstico, e do comprometimento autêntico que destravaram as atualizações trabalhista e previdenciária, tímidas porém frescas diante do pântano.

Posso, como observador, empregar energia sem perder de vista a história.

Dar à atualidade participação situacional sem importe categorial (ou predicativista) redutor do escopo epistêmico.

Ser analítico e pragmático ou nada dizer e voltar-me, mãos para trás, à história. Aí sim, solicitar à Ciência sua excelência e propor ao ensaio crítico contribuição geracional. Algo bem diverso de dar a última ou ‘mais verdadeira’ palavra sobre o que quer que seja, este deslize de domínio que ilude a participação de um discurso com a imposição e o juízo da própria Lógica. Antes, testo metódica e comparativamente hipóteses interessantes porque posso ver K’. E porque vejo também K, dirijo-me à atualidade em contrição urbana, em observação poética do que está porque o estudo crítico deixa.

Preâmbulo a ‘Duas Sicílias’

ANTES DA IDADE Média, ascenção religiosa, o império da técnica despertaria nos agrupamentos culturais sobreviventes e potentes o amargo deste esquivo desafio: se primor familiar nenhum conterá o escândalo da barbaridade, haverá guerra tamanha que permita produzir, no ofício dos netos, nossos ofícios?

A questão pode parecer solícita, mas tão grave mexerá nas tramas e raízes dos assentamentos letrados indoeuropeus que sua contínua atualização verterá o dilema do encontro dos povos na semente conceitual da aldeia global. Isto é dizer, o signo mesmo da potência generativa, crença mais cara às comunidades ciosas de suas raízes ou origens a partir do neolítico, que tão à vontade bailava nas pontas dos dedos e nos destros manuseios procurados pelo advento do Instrumento, internalizar-se-á, antecipatória e então urgentemente, nas construções enigmáticas, abstratas, teróricas e ferramentais do invisível pensamento.

A prática oracular do vaticínio, gênio dos eleitos, contemplava-a com mais ou menos lealdade o patrocínio dos conselhos sociais. Pensar seria outro pensar quando o saber fosse labor divino, expresso em carme e ludo na prática mercurial do poeta. Assim os governos, ciosos do que abarcavam em égide e pátria, far-se-iam sócios especialmente cordiais dos artesãos da revelação, ora albergando-os, ora expulsando-os.

A errância, apenas arbitrariamente essencial, responderia entretanto à história do trauma do exílio abrindo a via instituinte do método. Barganha, ao vate amealhava a urbana chance: provar ser humana, a ciência; ou: matéria de instrução. Tradições da Ásia ao Lácio erigiram o albergue do aprendiz de coisa alguma, coisa alguma que não a saga virtual do dínamo psíquico vertido ora não mais no assomo órfico, se antes em acomodação descritiva, inspetora, crítica, comunal, da física, da natureza, da tragédia, da república, do cosmo. Pois.

Museu marcará a transição da antiguidade para o mundo religioso ao sofrer o câmbio categórico de alcunha autoral para guarda nutricional. Novo edifício, servirá tal complexo do que espelhou e esculpiu o pensamento. Mínimo cosmo, cura fractal dos nomes, das alegorias, dos rastos consequentes. A novidade maior da ascensão será o convívio fazer viável, do juízo diversificado, este expresso em alternativas curatoriais não exclusivas; e, porque tornadas à história, também não diretivas. Aprenderemos com ela, num longo percurso de luzes e sombras, sombras e funduras, que é coeva à voz da saudade o primor da experiência. Coadunam-se.

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LIMPAR O TERRENO é sinal de contemplação anual. O câmbio sazonal e os tênues arbítrios das quatro imbricações a tela do arado os penhora na graça da terra. Esta os por assim dizer avançará a uma e cada semente, que então sofrerão duas vezes a cor local. Aquela da história do solo; aquela que confirmará no crescimento não ser outra a sua história. Os ciclos sublunares termoexangues não disporão, em regra, a dotes exóticos o plantio. Cada futuro estará guardado onde cada futuro idem. Sedibus urbem será o dizer, passo de um passo, antes que passo do passo, passo do quero, passo do passo do nada.

Acampamentos, jardins, academias, liceus. Florescerão tais imos nas fímbrias dos povos com divulgação e característica. O tipo trocará rapsódia por palestra, mas acabrunhará o mesmo conselho que diante do poeta sorria acomodado. Os guardadores de nomes e valores testemunharão, das margens para o centro, diversa, incontrolável produção na medida mesma em que se dista a controlar, incomodamente difusa e no entanto contagiante. Os feitos serão irregulares, deslocados, ruidosos, até que a voluntária fisiocultura componha novo fator de confusão, posto escravos e guerreiros terem bons belos corpos desde sempre, mas estes ora erotizados magos sem fama nem dívida, não. Porque restou difícil exilar a flor essencial da cidade, seu modo cativo e transitável – institucional –, a sanja estatal ali penetrará quesitos. Ser parte de um corpo, ao cabo, é ser corpo ao corpo mesmo. Encastelada pelo processo, a realidade do aedo-cientista crescerá e padecerá verões de gruta e invernos de fuga, os mesmos a que aliás apontara o antigo vate reduzirem-se sutis nossas empresas.

Matizes chocantes híbridas e parturientes alargarão porém o escopo do pensável. A maneira do edifício firme e nítida vai aos sulcos, salas de tábuas, rolos e volumes que tangem eirando as guarnições dos museus dos palácios e dos grêmios, silos em camadas empilhando, vistas e pórticos organizando.

Diante dos poetas o público é não poeta, mas a seu modo, em sua própria oficina ou família, será poeta a valer. Ante o fantasma erudito seremos apenas leigos. A chave da ascenção religiosa forja-se pois na sombra incogitável dos que dela para as luzes se doavam. As intrigas entre escolas, o comércio excludente das tutelas, a empáfia da inércia sofística, o escárnio goliardo das paródias destrutivas devolverão os conselheiros ao sono policial dos mores armados sobre a turba. Um novo império, protocolar e extremoso, ganhará da técnica o rubi e o cetro da redução.

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ANTES DA PRENSA, ascensão do comércio, o império da religião despertaria nos agrupamentos culturais sobreviventes e potentes o amargo deste esquivo desafio: se primor salvífico nenhum conterá o escândalo da descrença, haverá guerra tamanha que permita produzir, no ofício dos netos, nossos ofícios?

Se diante de alternativas há o capaz de optar pela pior, será preciso temor à lei a procurar temor à consequência. Neste estágio, o antigo artesão da voz, amigo das musas, fez-se caso de loucura. O denegrido bibliófilo é indexado na polícia. Administrada, nasce a modernidade. Seu sucesso é testemunho da atitude ignária. Variegadas na escala, serão as prendas a curar a loja, a roça, a escola, a oficina; valores valerão amiúde mais que a técnica; solicitada, a crítica revigora.

Dorme neste mundo organizado a premência belicosa da hierarquia. Palavras são: palavras de ordem. Juntos ou separados, a repressão nos conduz quando o milagre não convence. Aos senhores do conselho restará as novidades de semblante de uma arte univocamente espiritual. O capricho, a machetaria, os altares trabalhados. O assunto inflacionado será o da desinflação humana. No horizonte do maná abscôndito, as doações, a verve persuasiva, o doce recontar, e generoso, de uns simulacros de insânia e desespero. Orfeu, mas imitado.

Amargará ver no entanto que por mais trauma, é sem ruptura que ela galga. A história. Ora nos enfada, aprisiona e entristece o equívoco da desonra. Então desejaríamos um grave buraco no chão. Rasgar o chão aliás imputará engenho ao trunfo paupérrimo da cruz. Proceloso, emaranhado e alto em rios purpúreos haverá, desta cessão imaginada e descumprida, de chegar a mastro soprado o massivo nascituro à voz do povo?

A cônscia mansidão avessa ao caos pregará no exemplo extemporâneo da técnica. Mãos juntas, pescoço oblíquo, comiseração. Mesura elementar endividada. Estar nem lá, quando era deslumbre, nem cá, no instante interessado da penumbra.

À urbana chance servirá um burocrático evangelho. O chaveado livro-caixa, a lúgubre listagem, a confecção minuciosa do contrato, o custo marginal de produção, a tendência a investimento, a taxa de juro, a barreira de entrada, o dumping, o cartel – signos que da andança civilizacional tecem o ritmo no dito seguro e inclusivo da matéria meritosa. O indivíduo será todo para membro ser; o todo será corpo para contínuo gradar. E a nave vai, organizada, fazendo sempre nova a oração que nos livra da praga.

Duas Sicílias, zine que escrevi na Quarentena imposta pela crise sanitária internacional, fala da cópula. Procurei, em hipótese, inúmeros modais de matéria, toda ela viva. Do que fui capaz de elencar, a totalidade se melhor deu a dois, acredito. Melhor escrever um poema para comemorar a pesquisa e a luta empenhada no livreto a sair quando a situação melhorar:

Um ser será dois
infinitamente?
Dos dois,
um surgirá?
E neste, serão
dois para noutro
ser um?
Algo me inquieta.
Um nome à espreita
vence. O ser que cogito me re-
quer, donde não basto; o paço
do querer se dá à luz,
e às frondes
da chuva mas essas
correm. Há, creio,
dentro de mim
o que não tenho.

O IMPÉRIO DO comércio engendrado foi na unívoca conclamação à caritas, encarnada esta na urbana multiplicidade em convívio. Caro se nos haverá de ser não mais do sangue a efígie, do suor a expensa, mas deste o estrênuo próprio, daquele a chaga comum, secos e indistintos por chupados pelo barro que é só um.

Ora a passos de ócio temeroso, ora a torto passo ébrio, eis as luzes voláteis da modernidade a tencionar o mundo à saudosa concreção do Direito Natural. No alvará da loja, da escola, da roça e da oficina, lavrada está em vida a força tênue do verbo:

VOSAUTEMDIXIAMICOSQUIAOMNIA
QUAEAUDIVIAPATREMEONOTAFECIVOBIS

O espanto engendrou o poeta; a inveja, o crítico. Sobrevivente e potente, é no labor social do indivíduo que afim e judicioso o espiralado dito da aldeia global vingará. No ritmo acostumado, o ora cidadão-consumidor cultivará em si a marcha ingênua do homem novo – poeta-crítico –, signo fresco, continuador deste a nós eterno dual.

Ali vão baldes, vassouras, ferramentas de pequeno porte, lenços amarrados a pedaços de pau, estratos de candeias onde óleos, bumerangues silvos remos, bingos, tamancos qual sem par a minérios dezembrinos, chapéus de palha e sarja, de cânhamo e de lata, três ou quatro bengalas de porta de ótica, tráfico de gente a essa altura do século a brumados arquipélagos a esfíngicos globinhos se trocam navegar valor humano por coisas que usamos sem dar tino de gente, coisas são que servem se caprichos e apetites são de gente, não é verdade ? ergo tanta gente como nós tem na distância do recato a discrição da reverência mesma ao íntimo da conversa, deixe meu braço, licença, mais caloroso é meu regaço, senhor, na copa do navio a pelejar milagres tácteis num xadrez indistinguível, a meio da partida deixe a grande armada negra ser servil sem preferência, vontades de um açor desesperado e de outro rei conquanto os filhos, runas dignatárias do poder, não julgassem o balé como se filhos meio à margem do balé do tabuleiro, forâneas peças, crinas não eram senão da virtude das ovelhas pressionadas cabras depois de atravessar tantas mazelas a reunir-se e a organizar a vida nova longe das falésias surrealistas, já quase como sem palavras ao pé do forno aceso em dengoso tapete de brasas estalando pois perdiam, paladinas num torpe confronto sem contrários, o calor benevolente das tristes do apetite e repeti baixinho estrênuo, visai, maternal e condoída, contingente e rejeitada, lutai contra a virose desgraçada de uma imagem, tirai do coelho móvel afeita lua, dois brutos rubis travos olhos cavos e a tal crassa, tácita contumácia de nora a devorar peões em bispos, rainhas em cavalos, torres lídimos faróis em nívios sóis com o olho na barriga _

त्रप् + अप

Em Gênesis 2:6, Lutero escreve:

Aber ein NEBEL ging auf von der Erde und feuchtete alles Land

O termo (as caixas altas são nossas) deriva da raiz *nebh-, a mesma que nos dará nuvem. Na Vulgata, entretanto, lemos

sed FONS ascendebat e terra, irrigans universam superficiem terræ

Na Bíblia de 1909 de Reina Valera, o lema é diverso:

Mas subía de la tierra un VAPOR, que regaba toda la faz de la tierra

Em King James, a escolha tem ainda outra raiz, *meigh-, que nos terá dado, provavelmente, o xulo ‘mijo’

But there went up a MIST from the earth, and watered the whole face of the ground

O momento é decisivamente seminal. Em 2:7, enfim (não do ‘pó’, como erram muitas traduções, mas do ‘barro’, sendo a questão, conforme chovera, de solução naturalmente lógica), Deus forma Adão.

É preciso, se tanto no seu íntimo, que tenha o leitor qualquer distanciamento familiar ao que subia, ou fazia-se subir, naquele instante, desde o chão da terra.

Aqui, claro, não por lógica nenhuma, posto as raízes *kwep-, de ‘vapor’, que dará inclusive no ‘cozer’, e *dhen-, do lema latino ‘fons’, que nos traz o ‘fluir’, serem, junto às anteriores, cada uma ungidamente verisimilis. Mas, isto sim, por um motivo em nada menos importante: o apreço.

A pessoa é bom que tenha perto do coração suas palavras. Gênesis 2:6 é um destes inescapáveis, quem sabe mágicos, relicários da cultura que habitamos.

Na memória que transcorre, turvar-se-á o porvir – véu que ascende – apenas para ilha e salvação reencontrarem-se férteis em novo nascimento.

No belo verso de Isaías, não é senão isto o que a Septuagenária Septuaginta recorda, em 45:16,

ἐγκαινίζεσθε πρός με νῆσοι

um corpo despossuído a varrer a capelinha sem jeito é trágico e sinistro como o efeito de ambular sem prece. Criptas à poeira dobram, altares à ruína atinam. Contínuo de um bailante suportar de escorregares, copázios de leite e moças d’enxovais têm sonhos. A brasileira tragava do futuro notas e mágoas da república que sentada contaria do frágil bonito papá que interrompia. Em vez disse infelizmente está metida noutras coisas e tentasse eu deitar ronda de cume de prédio cujas luzes tantas voltas às varandas de uma casa adjacente, vizinhança que não luzi, examinasse. Ouve, disse, apenas para lá do vidro o breu que é mar de formas e abre, então, a porta de correr, azul do meu crescer. Faz um breve recuo ao canto escuro da varanda e salta, por força de um sucesso esplêndido, não mais o traje do abandono, mas como quem tece um semblante tenaz. Adiante o brilho nos olhos da irmã da quitandeira só por trinta contrapestes fará vargem no mural das horas grandes, repique nas cisqueiras instaladas e travas tipo brocas lá na sonda da moenda. A face pacificada da egressa era matriz, laço e açude na cacimba e, dos bons, tropel à pátria. Como enxugam-se, os troncos rímicos! Mares quase sós entanto jazem… Sonhos são, as canduras, nessu’as jangadas? Das poucas ofertas sanitárias, o  enxuto dava pano para um terso, discurso fio d’água, e furo e remo leu, canoa nos olhos, barris se errassem random para o precipício _

Vênus & Vulcano

Nem Odorico Mendes, nem Carlos Alberto Nunes conseguiram, a nosso ver, gravar em alta fidelidade o núcleo lógico deste modesto cenáculo que precede o fabrico das armas de Enéias na frágua arquifamosa de Vulcano.

Estamos num tenso estágio da epopeia. Em sono visitado pela divindade tiberina, o herói recebe a nota oracular de preste, renhida luta, resolvida entretanto pela providência arquetípica da mãe. Ele sacrifica a leitoa profetizada, mãe de trinta porquinhos; quem por ele apruma o estro do combate é também mãe, Vênus. Ela faz sua parte para que Vulcano faça a dele.

Virgílio graceja no feitiço matricial e logo documenta o despertar de marido e mulher. É como se tudo se passasse numa casa de família comum. Cubile coniugis aqui a nosso ver está para ‘casa de família’.

É preciso perguntar se quem acorda antes do sol e atiça o fogo, instrumento central dos trabalhos do lar, o faz para manter arrumado o ‘leito’ (termo adotado nas duas Eneidas brasileiras) ou a casa inteira. Cremos que o fogo alto será mister nas lides de limpeza e cozimento, ou seja, manutenção diária de um lar.

Outra dificuldade que passa em branco nas traduções é o termo lumina longo. Num jogo lesto de transferência do pequeno fogareiro ao próprio sol, o poeta diz que a faina doméstica, iniciada no fogo da casa, vai até o pôr-do-sol, quando esse (outro) lume estará distante.

É o que o idioma hoje diria, por Vênus, ‘trabalhar de sol a sol’, com a pequena correção da estreia em medio noctis. Nada de novo, pois se não afama o cancioneiro popular brasileiro os versos:

A estrela d’alva lá no céu brilhou
brilhou, brilhou, já é madrugada!
Acorda, vaqueiro, e vai ‘pra malhada

A forja de Vulcano, sabemos, empregará as melhores ligas para guardar Enéias num escudo complicado. O bonito deste livro, no entanto, está nesta breve reportagem da vida como ela é, no tempo e no lugar do autor, numa casa de família. Minerva já não faz sentido para nós, nem na vingança troiana tem peso, a não ser como símbolo indisputável da diarista.

Os versos vão da linha 407 à linha 415 do livro VIII. Assim traduziríamos:

Inde ubi prima quies medio iam noctis abactae
curriculo expulerat somnum, cum femina primum,
cui tolerare colo vitam tenuique Minerva
impositum, cinerem et sopitos suscitat ignes,
noctem addens operi, famulasque ad lumina longo
exercet penso, castum ut servare cubile
coniugis et possit parvos educere natos:
haud secus Ignipotens nec tempore segnior illo
mollibus e stratis opera ad fabrilia surgit.

Lá donde corre, noite fora aviado
o sono, faz a esposa a estrénua estreia
daqueles a quem lide egrégia é dado:
– Atice a brasa em cinza sopitada!
A faina lavra, da noite até a ceia
e assim dá pé de casta e serva casa
de família e piás sem ter ideia:
se tal qual faz o esposo quando sai
da cama entusiasmado e ofício emprega.

 

§

Força e entendimento

Diferença é ser para o outro. Diferença não disto ou daquilo, mas diferença em si – equivalência universal de Força. Para que possa ser, Força há de estar livre do pensar. Há de estar colocada, antes, como substância da diferença, inteiramente.

Por si, tem dois momentos: i) manter-se Força (Noção de Força); ii) desdobrar-se em coisas (que parecerão coisas mas serão expressão de Força).

Não pode estar Força num momento sem estar no outro, ou deixaria de ser Força.

O que pode e acontece é Força solicitar Força. Força pensada a livrar-se do pensar e a expressar Força na coisa que segue. Em verdade, porém, só sabemos Força no pensamento.

– – –

O breve desenho hegeliano é metódico. Para o leitor, resta continuar, prolongar o que diz o filósofo. Compor o entendimento é tarefa de uma mente. Quanto mais importante o tema, mais importante continuá-lo.

Onde está a diferença, ao fim? Na coisa que segue. Porque Força, não mais pensada, e ainda Noção de Força, desdobrou-se.

Dizer entretanto inteiramente colocada como substância da diferença parece desmerecer a dignidade existencial do momento i. Ou haverei de cogitar Noção como a história de uma noção.

Pois se está colocada inteiramente como substância da diferença, Força parecerá coisa. É preciso perguntar se tal processo avariaria a chance construtiva da noção do que não é coisa.

O fluxo filosófico (Arfeu) persegue a coisa (Aretusa) para que a Fama espalhe a boa nova: o que era potência atualizou-se.

Não se faz contudo Itália de Noções. Antes, Itália é ela mesma coisa de coisas, completamente; que tampouco seria sem Força.

Ora, se Itália tem a coisa história da Itália, por aí pressuponho um caminho.

Na história dessas coisas, nada leviano contará que perdure, uma vez que o historiador exaure o pão filosófico da dúvida. Então, coisa que segue foi diferença – consubstanciada.

Momentos ii saltarão ao cenáculo. A disciplina solidária crescerá, da petrificação meramente germinativa da marcação orgânica Força nas buscas do historiador, sua Noção.

Donde fica demonstrada, na arte de Hegel, a priorização secundária de i (Noção de Força) graças a ii (expressão), chance ilesa dessa construção.

Mas: ponta solta: por que, livra-se do pensar? Porque coisa nenhuma comunica. Simulacro nenhum ganha força. Força pensada seria Força na proeza absurda de já não ser i e não ser já ii.

Se vossa ideia é criticar os modos contemporâneos, o fluxo filosófico dá-se em ponto de partida? Pergunte: a coisa comunica ou apenas aparenta? Desconfie que, muito provavelmente, apenas aparenta. Nossa forte crença é que coisa nenhuma comunica, simulacro nenhum ganha força.

Nossa forte crença é que o que há são diferenças nas quais Força, livre do pensar, desdobra-se em coisas.