Se no século XVIII o progresso podia aparecer em sua potência de desmistificação contra o encantamento da natureza, agora que as consequências problemáticas da submissão integral da natureza à técnica são evidentes e redutoras, isso não terá mais lugar. Dessa forma, ser fiel ao espírito antimitológico do progresso exige uma crítica à mitologia do progresso. Reversão possível, porque a atualização do conceito em uma situação sócio-histórica determinada nunca equivale ao esgotamento completo do mesmo. Há de se perguntar, e esta é uma pergunta dialética por excelência, sobre o que fica apenas em latência quando o conceito é atualizado em uma situação. A dialética aqui consiste em afirmar que a realização do progresso não consiste na simples melhore consolidação dos ideais normativos em operação em nossas formas sociais presentes, formas essas constituídas em nome do progresso. Ela consiste na destituição de tais formas através de uma crítica capaz de produzir uma transformação estrutural em tais ideais. Essa transformação, feita em nome da crítica do progresso, é a verdadeira realização do progresso. Se o verdadeiro progresso só começa lá onde ele termina é porque a consciência do fracasso do progresso, até o momento atual, é a condição para dar corpo ao que até agora foi impossível.

Pode haver homens que, em todo caso, não cheguem nunca ao mais fundo de si mesmos, e, por isso, não só não alcançam jamais a plenitude de seu ser, a formação completa de sua alma no sentido de sua determinação essencial, mas que nem sequer logram uma primeira posse “provisional” de si mesmos, que é condição para a posse completa e que se alcança já durante uma instância passageira na profundidade: um saber – ao menos de uma maneira obscura – sobre o sentido de seu ser e a força para trabalhar por si mesmo com um fim intencionado, assim como o compromisso de alcançar o fim. Tal saber traz consigo a “iluminação” das profundidades durante os acontecimentos da própria vida. Mas essa luz pode também ser transmitida pelo ensinamento intelectual (e, em primeiro lugar, pela doutrina da fé, que define, nesse sentido, a vida humana). Esses dois aspectos são chamados à alma para incitá-la a “voltar-se a si mesma” e a viver a vida do ponto de vista de sua interioridade mais profunda.

Lygia Maria, LM, narradora principal da Epístola Canária, tem saudade do marido Paulo e filhos Janaína e Afonso. Depois de resfriada, mesmo incompreensível disposição da qual em volição erguem-se raras rememorações enigmática caras à biografia íntima do núcleo familiar, no entanto, a professora cujo voo em direção à livre-docência em Lyon é desviado e torna-se a rapsódia de desencantamento numa terra cheia de mistérios e belezas, cursa nada menos que o teórico e também resfriado eixo formativo – a fundação de sua visão de mundo – do marido, sem que ele se alongue mais que ela no assunto. Este assunto ela mistura à própria digressão acadêmica, um bocado divertida, sobre a desinflação do renasciment; o assunto privilegia a inventividade comparatista do professor e fundador do Instituto Brasileiro de Desenho relendo de memória seu livro-tese, trabalho pelo qual ficou famoso Paulo na inteligência: aproximando e contrastando o russo responsável pela abstração enquanto tentativa ingênua, autêntica e original à pintura, Wassily Kandinsky, e o autodenominado Mestre Abóbora Amarga, Shitao, conhecido eremita e artista do século XVII. É argumentação gradual e sintética sobre as dúvidas da Ficção, sobre uma estratégia para a unidade material do objeto. Para além, faz tricô cortaziano à biblio-juve (highgfideliamente bildunguiano),

Quando conheci, desencantada com a referenciação matricial e gélida reprodução taxonômica dos laboratórios de biologia, meu marido, ele há muito ruminava seu célebre estudo sobre a atualidade de Wassily Kandinsky. Atualidade da obra pictórica, mas também da compreensão teórica do proceder artístico. De sua postura politicamente lúcida tanto na Alemanha pré-terceiro Reich quanto na União Soviética comunista. Da cooperação de Kandinsky na Balhaus e de seu voluntarismo como guia e formador aos pretendentes à difícil jornada do artista. Da atualidade de Kandinsky como filósofo e poeta de quem acentuada noção histórica da arte, bem como de sua acentuada noção expositiva e capacidade relacional, legariam ao interesse coletivo obras de rara penetração como Do Espiritual na Arte. Paulo com lupas e introspecção faz-se das telas de Kandinsky íntimo a ponto de mais de uma vez eu acordar de um cochilo para flagrar o homem a conversar com as cores.

Cinco páginas depois, à 266,

Ademais, aonde iríamos, se da quitinete sequer saímos, indignos em penugens, puídos algodõezinhos? Aos versos, sempre aos versos, códigos herméticos, duros, curvos, borrachentos, pândegos, deitados, extorsivos os dois pontos no tapete vinho tinto e abatido, ébrios revogados pelas páginas cálices holofotes, páginas ópios amarras, páginas álcoois claustros às quais rolávamos felinos pandas, abutres hamsteres, desmoronados perdedores da campal batalha às letras sossegadas, doces doravante negras maldições.

Páginas choviam nos raros suores e comuns vintános vivos livres priscos de pudores guarda-chuvas, dissabores sem folias livres, querendo porque querendo augúrios divinais das dobras prenhes, saltos largos estelares, pontes cadentes logrando sem satisfazer a urbanidade a tez sintética, o horror do ocaso à tona à torre ao queijo, rodelas de cebola e dedos chupando. De sorte que por vias digressei, sem romas avistar, nem tenerifes.

As falas do particular e do universal em conluio é motivo composicional de um livro que toca os anseios do empreendedorismo e do cultivo filosófico em harmônico, ainda que colorida coisa de cimento.

À página 279, exibe-se o calor da pesquisa:

comprar

Aqui se vê a selva solar: um bosque cerrado onde as verdes árvores têm glória da folhagem perene. Quando se abrasava o céu do fogo de Faetonte, conservou-se todo o sítio indene das chamas. E quando o dilúvio inundou o mundo inteiro, emergia ele das águas de Deucalião. Não o infesta a peste sombria, nem a achacosa velhice e o medo mordaz. Não abriga o ciúme iníquo, a sede insana da pecúnia ou a ardente volúpia assassina. Longe estão o luto acerbo, a andrajosa miséria, a fome pungente. As tempestades não raivam, não se enfurece a hórrida violência dos vendavais, nem o tiritante rocio cobre a terra de seu aljofre gélido. Do meio do jardim jorra, porém, uma límpida fonte serena, de doces águas, a que dão os homens o nome de “fonte da vida”.

Lançamento: Epístola Canária

Está em nossa loja Epístola Canária.

🙂

R$65,00 com frete grátis.

COMPRAR

Leia abaixo o capítulo 13 do romance:

Sou Lygia e renovo os dias nos passos de arranjo, a virtude de um raiar em corpo mesmo, corpo novo, todos os dias novo e espaço incrédulo, saga interior de uns filamentos de sentires e novelos da traição original. Recomeço, novos termos, pacificação tabulada dos fluxos, vértices noticiosos dos sulcos descendentes. Na planície, reencontro a vila. Ela vibra às margens do Rio Azul. Os homens às lavradas e oficinas, mulheres em círculos, mulheres às lavradas e às oficinas, homens tragando do tempo uns contrastes. As crianças repercutem a fala ansiosa dos jogos.

Cedo acordei e ao chão do quarto dei conta de um filho de Eugênia. Dormia ou recolhia-se em murmúrio interior. Federico. Logo se preparava para a caça. Sem lençol, trajava brim verde, algodão bege, mochila quadrada e ferramenta tubular de escavação e sucção. Sorriu Federico. Apertava e afrouxava o cinto. Se extraviaram suas bagagens, diz, deves escrever à companhia. Conheceste o posto? Federico pensou: se escrevo à Pakallollo Airmonde e reclamo meus direitos, crio um álibi para combater as picuinhas da bolsa da livre-docência.

* * *

Varrendo à soleira, Emília para um pouco, lança a boina para cima, varre com a boina encaixada na pira de uma jaqueira. Veste capa de chuva velha sobre o lençol. Bate botas de borracha branca. À lousa, raspo:

Sou vítima da fortuna lamentável
Do voo 775 da Pakallollo Airmonde
Não bastasse a nave quicar
Em Tenerife e cair encaixada
Depois de rodopiar, num banco de areia
Minhas malas sumiram
Onde estão minhas malas
Duas malas grandes e negras
Fitas vermelhas à manopla
Abrigam material sensível
Das letras brasileiras e estrangeiras
Exijo pois presteza no buscar
Sóbria reportagem do paradeiro
Da bagagem: única: insubstituível

Emília some atrás da cortina estampada. Volta com dois dedos pressionando a têmpora. Seus entes fizeram escrever coisas bonitas, vulgares, detalhes verossímeis mas desimportantes. Filtrei alguns trechos, veja se acha bom. Como vão vossos pés? Soubeste que Eugênia é uma casa? Vestiste sozinha como Emília os lençóis? Logo farás sandálias que são elas, as de plecas, tua sã cidadania. O que guardam para ti as bandas de lá do vale?