dois poemas: caldas & maimona

não conseguimos nem tentamos

• não conseguimos nem tentamos •
• matar o senhor nem seus filhos •
• nem sua mulher nem seus cães •

• suas terras continuam intactas •
• todas molhadas por nosso suor •
• e continuamos dançando o fado •

• não conseguimos tomar as armas •
• nem as fabricas nem as maquinas •
• o salario engolimos assim mesmo •

• seu estado continua a ser perverso •
• nos tritura e zomba e suga mais •
• da nossa carne e ossos vencidos •

• não conseguimos mudar os rios •
• agora é preciso mudar os mares •
• reverter os ventos e a alegria •

• nossa vida continua sem a morte •
• do senhor entranhada em nos •
• enquanto isso não seremos nada •

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Alberto Lins Caldas. Poema do livro de corpo presente. Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2013
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Festa de monarquia

não seria útil olhar de novo para o sol?
a mão que ofereci ao relevo do tempo
canta com as monarquias que dançam.
da música as sílabas fazem
imenso dezembro não anunciado.
na noite de ontem no centro
da lagoa entre dois barcos
estava um verde incêndio
anunciando a grande avenida
onde as palmeiras procuravam
saber se não seria útil
a pedra olhar ainda para o sol.
era a festa que se transformava
em festa.

* * *
João Maimona. Poema do livro Festa de Monarquia. Luanda, Kilombelombe, 2001
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Que houve em 1972?

Muito se fala do ano de 1972 na música brasileira. Mas bate-se não raro nas mesmas teclas: em 1972 ganhamos Transa, de Caetano Veloso, Expresso 2222, de Gilberto Gil, Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, Acabou Chorare, dos Novos Baianos, e Dança da Solidão, de Paulinho da Viola.

Os cinco discos essenciais para entendermos nossa música nunca antes tão aberta e misturada, experimentada e internacional. Depois da revolução de João Gilberto, os músicos populares da contracultura brasileira, e mesmo os da cultura corrente, entenderam não haver descontinuidade entre apuro inventivo e levada do samba.

O suíngue brasileiro, nos anos que serpenteiam 1972, marcou-se pelo fabuloso violão de Jorge Ben, e pelas guitarras elétricas e percussões psicodélicas da abundância solar de um país lutando para se reimaginar.

Outro dia, postei três sambas de escola de 1972, na minha opinião entre os melhores já gravados.

Ora, é muita boa música num mesmo ano. Não fiz vasta pesquisa, mas será escarafunchar e ver sair mais coisa dali.

Neste post, Romulo Fróes lembra de mais um disco importante, do mesmo marcante ano em que o Brasil constrói seu primeiro computador e vende seu primeiro vinho em caixinha, Jards Macalé, estreia homônima e retumbante do Jards, com Mal Secreto e Vapor Barato.

Que houve em 1972? Enquanto pensamos, aproveito para recomendar mais dois:

Se o caso é chorar, de Tom Zé, trabalho de poesia depurada, samba autoral leve, jogo musical atual até hoje, narrativa gostosa e dramaticidade cristalina.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cicatrizes, do MPB4, publicado aqui na música Canto de Nanã, de Dorival Caymmi. O álbum é ricamente arranjado, e destaca-se pelo trabalho de vozes, difícil de achar na mpb.

DESTAQUES DO ANO

DISCOS, DISCOS POR TODA PARTE

1

PRÉMIO ÂNCORA FORTONA \\ Violas caipiras, sanfona, flautins, batuques e rimas sertanejas, mais a voz densa e doce da Salmaso fazem deste o disco do ano em âmbito planetário. O repertório pode ser específico, de um tipo brasileiro estudado e representado, mas a temática é pra lá de famosa, tratando de beijos, saudade, sol, luar e bicharada.

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2

PRÉMIO RAIOSO \\ André e Antonio estarem entre os mais competentes instrumentistas do país não é novidade para ninguém. O que surpreende, aqui, é a narrativa. Contra spoilers, deixaremos o leitor ouvir a intrincada, em tudo planejada, rota cartográfica do álbum. Ao fim da audição, sentimos ter ouvido uma só, e longa e saborosa música em dueto.

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3

PRÉMIO TELEFONE ENCARNADO \\ A gente não se cansa desta inspirada trupe. E não é para menos. Os meninos e meninas que entoam sopros e guitarras como pouca gente faz no pop-rock obram um disco a um tempo coeso e repleto de singularidades. Difícil não dançar, difícil não cantar junto, difícil não dar risada e querer ouvir de novo, mais um pouquinho. Absolutamente uma das mais grandes bandas do mundo.

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LIVROS, LIVROS POR TODA PARTE

1

PRÉMIO CALOR HUMANO \\ Hilda é superior a Drummond e Bandeira, não sendo superior a João Cabral por questões meramente técnicas. Isso, no entanto, pouco se comenta. Pouco lida, pouco dada em sala de aula, e muito confundida em sua atitude reacionária (pornografia etc), é, do lado da recepção, uma pedra praticamente bruta. Ao trabalho, portanto. A reunião aqui é um mínimo, e o resto resta em nossa mão. Este poema, fácil de decorar, é uma aula de ética: “Ser terra / E cantar livremente / O que é finitude / E o que perdura. // Unir numa só fonte / O que souber ser vale / Sendo altura.”

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2

PRÉMIO CÓFIUM \\ Poucas vezes na literatura universal um futuro metade utópico, metade distópico, foi tão minuciosa e sensatamente imaginado (leia o primeiro capítulo). Num mundo drasticamente dividido entre os que têm muito e os que nada querem ter senão fazer, porque tudo não é senão nosso, a ética do conflito de classes é representada com atualíssima destreza, sendo a tecnologia e a virtude zen empenhadas com complexidade, num enredo tenso e original de cenários absurdos e afetos urgentemente verdadeiros, em prosa fluida e saborosa.

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3

PRÉMIO CENOURA DURA \\ Profilaxia de estilo e concentração artesanal induzem ao transe. Depois de algumas páginas, o leitor começa a crer um livro escrito inteiro numa só e mesma frase, repetida sem cessar até o sono. (Resenhei em setembro.) Não se engane. O neobarroco é o alto mar numa cumbuca. Em que pesem descalabro e abandono.

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