DESTAQUES DO ANO

DISCOS, DISCOS POR TODA PARTE

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PRÉMIO ÂNCORA FORTONA \\ Violas caipiras, sanfona, flautins, batuques e rimas sertanejas, mais a voz densa e doce da Salmaso fazem deste o disco do ano em âmbito planetário. O repertório pode ser específico, de um tipo brasileiro estudado e representado, mas a temática é pra lá de famosa, tratando de beijos, saudade, sol, luar e bicharada.

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PRÉMIO RAIOSO \\ André e Antonio estarem entre os mais competentes instrumentistas do país não é novidade para ninguém. O que surpreende, aqui, é a narrativa. Contra spoilers, deixaremos o leitor ouvir a intrincada, em tudo planejada, rota cartográfica do álbum. Ao fim da audição, sentimos ter ouvido uma só, e longa e saborosa música em dueto.

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PRÉMIO TELEFONE ENCARNADO \\ A gente não se cansa desta inspirada trupe. E não é para menos. Os meninos e meninas que entoam sopros e guitarras como pouca gente faz no pop-rock obram um disco a um tempo coeso e repleto de singularidades. Difícil não dançar, difícil não cantar junto, difícil não dar risada e querer ouvir de novo, mais um pouquinho. Absolutamente uma das mais grandes bandas do mundo.

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LIVROS, LIVROS POR TODA PARTE

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PRÉMIO CALOR HUMANO \\ Hilda é superior a Drummond e Bandeira, não sendo superior a João Cabral por questões meramente técnicas. Isso, no entanto, pouco se comenta. Pouco lida, pouco dada em sala de aula, e muito confundida em sua atitude reacionária (pornografia etc), é, do lado da recepção, uma pedra praticamente bruta. Ao trabalho, portanto. A reunião aqui é um mínimo, e o resto resta em nossa mão. Este poema, fácil de decorar, é uma aula de ética: “Ser terra / E cantar livremente / O que é finitude / E o que perdura. // Unir numa só fonte / O que souber ser vale / Sendo altura.”

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PRÉMIO CÓFIUM \\ Poucas vezes na literatura universal um futuro metade utópico, metade distópico, foi tão minuciosa e sensatamente imaginado (leia o primeiro capítulo). Num mundo drasticamente dividido entre os que têm muito e os que nada querem ter senão fazer, porque tudo não é senão nosso, a ética do conflito de classes é representada com atualíssima destreza, sendo a tecnologia e a virtude zen empenhadas com complexidade, num enredo tenso e original de cenários absurdos e afetos urgentemente verdadeiros, em prosa fluida e saborosa.

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3

PRÉMIO CENOURA DURA \\ Profilaxia de estilo e concentração artesanal induzem ao transe. Depois de algumas páginas, o leitor começa a crer um livro escrito inteiro numa só e mesma frase, repetida sem cessar até o sono. (Resenhei em setembro.) Não se engane. O neobarroco é o alto mar numa cumbuca. Em que pesem descalabro e abandono.

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FRNKNSTN: update

Leitores perguntam quais concertos para violino do repertório romântico eu recomendaria, já que passei horas ouvindo-os enquanto fazia Frankenstein Revisitado.

Não tenho favoritos absolutos, e se algo aprendi ouvindo música é que, tirando as obras primas, ou mesmo elas, as outras nos tocarão variadamente a depender do humor da ocasião.

Rememorando os dias dedicados a este trabalho, porém, elencaria as seguintes peças mais marcantes, todas concertos para violino compostas no século XIX:

• Opus 61 de Beethoven
• Opus 64 de Mendelssohn
• Opus 53 de Dvorák
• Opus 35 de Tchaikovsky
• Concertos 1 a 6 de Paganini
• Opus 26 de Bruch
• Opus 47 de Sibelius
• Opus 77 de Brahms

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Aproveito a postagem para dividir questões, a partir da contagem de palavras do romance de Mary Shelley.

Em Frankenstein, a autora usa o termo ‘mind’ (mente) 98 vezes; ‘head’ (cabeça) 26 vezes; ‘brain’ (cérebro), uma vez.

Ao consultar o corpus textual da ficção em inglês no nGram, a relação entre mente/cabeça de Frankenstein respeita a relação indicada na varredura do software quando da publicação, em 1818. Passados 200 anos, no entanto, a relação se inverteu. Por quê?

Suspeito a explicação na aderência do discurso da prosa ficcional aos achados das investigações científicas. Neste tempo, a Ciência desprezou ‘mente’ para favorecer os mais materialmente corretos termos ‘cabeça’ e ‘cérebro’.

Note-se, entretanto, na virada da revolução digital, inflexão negativa em ‘cabeça’, e positiva em ‘mente’, mantendo-se ‘cérebro’ em lenta mas positiva evolução. As viravoltas podem ser apenas soluço, mas podem não ser, o que acusaria reversão da tendência observada nos dois séculos passados.

Intrigante, o fenômeno atualizaria nosso momento à luz do momento de Mary Shelley.

Ora, se for este o caso, resta perguntar: o que explicaria, hoje, tal guinada a repriorização de ‘mente’?

FRNKNSTN

Só há pouco fui ler Frankenstein. Encantado com passagens do lirismo depurado da Sra. Shelley, passei a recortá-las (de um original barato), como quem colecionasse versos soltos.

Fui guardando as linhas na ordem da leitura.

Terminado o livro, fiz da prosa picotada um poema colagem. Ficou assim:

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Em seguida, e sempre a ouvir concertos para violino do repertório sinfônico romântico, dediquei-me à traduzir o poema recém-montado.

‘DA FAMÍLIA: UM LONGO ENSAIO IMAGINATIVO’ em pré-venda por R$ 40,90 :: update: fim da pré-venda

Nosso principal lançamento de 2017, o livro Da família: um longo ensaio imaginativo, de Guilherme Coube de Carvalho, está em pré-venda pelo preço promocional de R$ 40,90.

Reserve seu exemplar autografado e receba-o em casa, com frete grátis, a partir de 18/12.

O livro é um romance de formação com vinte personagens multifacetados, e a prosa se aproxima da tradição do ensaio familiar brasileiro. Há, além de trechos gostosos de autoficção, dramaturgia e ficção científica, traduções de Anne Carson e John Keats, uma releitura do processo condenatório de Frei Caneca, e a síntese da trajetória de Johann Sebastian Bach como artesão exemplar e um dos pais da nossa música. O livro mira na grande filosofia da maturação para entregar um tarô divertido, híbrido e aqui e ali sortílego, acerca dos possíveis da paz aos espíritos modernos.

Leia abaixo oito páginas de Da família.

tratado das três faces

Doria, Silvio Santos e Zé Celso entram numa sala de reunião. A força histórica do encontro é mais importante que as miudezas do assunto. Sentam à mesa o típico capitalista brasileiro, riqueza ciosa de si e de sua perspectiva inflexível porque veio de baixo; o típico poeta brasileiro, popularíssima erudição mais ou menos desperdiçada, mais ou menos desenganada; enquanto media ou não media o tempo o típico político brasileiro, capaz de pensar, a cada passo, na própria carreira antes de pensar na coisa pública. Um roteirista premiado seria incapaz de atribuir as falas, tempos e deixas melhor que o que de fato aconteceu. A cena, captada em vídeo digital, foi publicada na internet.

Por que a força histórica é mais importante que o assunto em si?

Bem, não bastasse a representatividade generosa, atual e precisamente encarnada de tipos nacionais protagonistas de nossa formação, o jogo de tensões representado, mas não encenado, ajuda a visualizarmos os credos de cada um. Melhor que um alentado estudo sociológico, as falas espontâneas de Doria, Silvio Santos e Zé Celso, apontam com depuração arquetípica e eficácia semiótica, às vezes num simples trejeito, num ato falho, no modo com que provocam, se deixam provocar ou respondem a uma provocação, no modo com que anunciam seus desejos e restrições, escondem ou revelam seus ressentimentos, diluem ou acentuam os conflitos, algumas das estruturas essenciais da dinâmica de poderes em certame no Brasil. O vídeo, amador, poderia desde já ser colocado ao lado de Casa Grande & Senzala, Raízes do Brasil e Os Donos do Poder, como um documento de acurada síntese de nossas forças e fraquezas, ameaças e oportunidades.

O poeta quer que todos sejamos poetas, e que troquemos a ganância particular por uma vida boa na cidade aberta. O capitalista não quer ver seu esforço desmerecido de repente e do nada, como se todo seu trabalho pudesse ser diluído da noite para o dia. O político não pode ser o anjo de que gostaríamos, pois crê ter altos planos para nosso futuro, planos que só ele será capaz de concretizar, e deve ser maquiavélico antes de esbanjar bom coração. O capitalista, a um só tempo, desmerece e idolatra o dinheiro, e mascara-se inúmeras vezes no eufemismo do clichê preconceituoso para contrastar a vida vadia, licenciosa e ‘mal sucedida’ do poeta. O poeta é leitor da cultura universal, e porque um capitalista resta há tempos decifrado e repisado, esquiva-se dos golpes baixos com facilidade, mas é incapaz de vestir-se nos termos do oponente, acentuando, na ingenuidade de suas demandas, o abismo irrevogável entre as duas visões de mundo. O político tem assuntos mais importantes para tratar antes de apaziguar um choque de vaidades entre senhores cujos legados estão para lá de concretos, de modo que responde mecânica e desapaixonadamente, entoando um ‘qualquer coisa’ para sair logo dali. A rigidez do capitalista, sua inabilidade em pensar fora do próprio bolso, a fragilidade declarada do poeta, a serviço de seu desprezo atávico pelos gananciosos, e a frieza do pragmatismo superficial do político, concentrado em expandir seu domínio sobre nós, custam aos habitantes e trabalhadores da cidade tempo e saúde irrecuperáveis. Perdemos todos, mas a lição é boa.

sem vista para o mar

Nem maremática mnemografia matura assustadiça, nem ripanço febril da ortodoxia sintática em privilégio: o livro é nada tranquilo vem lido na garupa da motoneta, velha, engasopada.

Caminhoneira, nem tampouco em meimendro transgênero pueril faz desejar sexozinhos de anjos recém-quistos. Não desbasta sobrancelhas casimira a narradora rosiana?

Forma breve é susto cômico cinemático, trote casquicheio na ramela craniana do leitor arrebatado; num segundo instante, arrebitado, todo respeito.

Ela ordenha numa mão e a outra sufoca, ducta muito em peso lépido, concentra e sapateia, voz inseminada bucha olhos da pele. Tem calos na mão e shortinho de ginasta embaixo da saia. Desencantada, desenganada, amplo gesto coração sagaz.

À página 107:

O grito aciona o cordado a fazer o que sabe e voa reto pra fonte o buraco escuro da minha cara onde ainda perfuma o chocolate quente. Esguio pro lado mas o cabelo que não se penteia e mal se lava faz triscar a cartilagem da asinha em armadilha que não queria ser. Bate debate a minha orelha e uma pastilha mentol desce bombeira pela espinha dorsal. Respira cavado que a calma acalma ele.

Casos assim suscitam, logrará frevo tão prisco se na forma menos breve? Tornará a salsa rímica, einsensteiniana, em arrimo das estâncias do quedar menos bailoso, mais esticado? A ver.

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Sem vista para o mar
de Carol Rodrigues
Edith, 2014
124 páginas
R$ 30,00