dois poemas: Paulo Henriques Britto

Pois era assim: o dia era mais dia,
diáfano, diíssimo, e entre um
e outro dia o luxo de uma noite.
E isso era tudo. Havia isso. E mais

a promessa de que após esse dia
viria uma noite, e, depois, mais um,
primícia da iguaria de uma noite.
Isso era vida. Isso era até demais,

e isso nenhum de nós nunca entendia,
e era dia claro, e isso nenhum
de nós via, como se fosse noite.
E isso bastava. Não havia mais

que a sucessão que não cessava: dia
se abrindo em noite a desabrochar num
dia em que sempre eclodia uma noite.
Isso era sempre. E agora, nunca mais.

* * *

HERACLITUS MEETS PASCAL

Ninguém se molha duas vezes
na mesma tempestade. Mudam
você, a água, nem é o mesmo,
na sua mão, o guarda-chuva;

muda o motivo pelo qual
você houve por bem molhar-se,
oferecendo ao temporal
— por assim dizer — a outra face;

não muda, porém, a consciência
de que os sapatos encharcados
e a calça manchada de lama

terão talvez efeito idêntico
ao que teria ter ficado
em casa, quietinho, na cama

* * *
Do livro Nenhum mistério (2018)
* * *

Três lançamentos

É com alegria que oferecemos três novos livros ao público.

O romance Cinco nomes brasileiros, a coletânea Poemas 2009 – 2016, e o álbum Praha: tentativas quando finda a língua.

Os produtos estão à venda na LOJA.
Entrega-se via Correios para todo o Brasil com frete incluso.

Leia a seguir quatro páginas de Cinco nomes brasileiros:

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Se houvesse três regras para um fruir mais fluido…

Coisa de quatro anos atrás, teria tuitado três sentenças, à moda dos saquinhos do açúcar União. Não queria doutrinar meus subalternos, mas esclarecer, a mim mesmo, caso tudo me faltasse súbito, o mar sertão virasse e canivetes nada menos que chovessem, e por sorte achando guarida numa marquise de comércio encerrado, de que modo manteria a sanidade limpa e firme, o prumo reto e o corpo livre de atravancos, dédalos circunlófilos e outras pragas da estagnação. Ei-las:

1 – MASTER ZERO
Masterizar o zero compete à prática psíquica da concentração absurda. No frio absurdo você dispersa de frio e bate os dentes e diz coisas como ai pqp q frio nees prrr, assim como num absurdaço calor você sua a sunga já repleta de areia senta na canga que cobre um gravetinho dá risada mole baba olha os corpos fala hein? depois de horas do companheiro ao lado achar que te contava um troço. Não é disso. Masterizar o zero é você em temperatura ambiente sem exageradas cedições termodinâmicas ir ao ponto, ponto de que fala Krishna em seu garboso cardo conselhudo ao príncipe da carruagem. Transformar TODA a sua existência mental num único e minúsculo pontinho. Eis o zero. Desconectar de tudo para, centrado, a tudo reconectar-se em plenitude emocionante – ser de tudo o centro.

2 – CULTIVE A HISTÓRIA
De nada adiantará masterizar o ZER0 se você restar insensível à GRANDE CONVERSA DA HISTÓRIA. Sim, porque o que acontece hoje é produto do que vem acontecendo em marcha polimórfica dinâmica e caprichosa em sua equivocidade aparente, prenhe de interpretações divergentes a grandes movimentos que a todos nos tocam como trama tecido que tramamos e tecemos mais ou menos conscientes. Se quero assumir uma bandeira, uma cor, um time, um legado, preciso SABER ESCOLHER o que jogar fora e resistir às tentações gracejantes dos mini-cinismos acríticos que nos deglutem pontos do grande ranking universal. A saída é uma só: ingressar na irmandade tão fortuita mas também tão frutuosa dos que lêem a história. Pois é uma artimanha: você escolhe um momento, um trecho do mundo, um personagem, afunda-se ali (livros, filmes, docs, simpósios etc) e uaaaau, o entorno começa a mudar, seus modos de ligar os pontos se diversificam e suas raízes se aprofundam nessa terra. Sei onde ando, você dirá. Se cada um de nós tivesse de conhecer a história toda, bastaria um homem viver. Mas somos muitos para sermos complementares. Só não vale não participar.

3 — ESPERE UMA TERCEIRA PRESENÇA
Numa passagem muito bonita da Bíblia Jesus diz algo como ué, por que que eu vou acender uma luz e colocar essa luz embaixo da cama? A frase dá margem a discussão. Eu entendo que ele usou a voz do Pai, de quem senta à direita, para indicar que Deus não permitiria sigilo absoluto sobre nada em momento algum, ou não haveria porque existirmos, humana espécie tão por acaso criadora inquisidora inventora continuadora da mais bela jornada. Talvez não fosse esperado que tirássemos da cartola gutural umas tão ricas linguagens. Mas! Acabamos inventando, ó tão linda ferramenta de encaixes múltiplos e proposições tropeiras. E agora? Pandora! Eterno compromisso: partilhar na íntegra (tudo para sempre) nossa programação… Se somos pensadores, se nosso cérebro literalmente se ilumina quando pensamos desejamos planejamos sentimos, não haverá, no entender de Jesus, por que esconder um intento sequer. Seria, talvez, conspurcação cognitiva, ou mero erro de compreensão. Se pensamos desejamos planejamos sentimos será para somar à multitude de esforços mais um pouquinho, nossa humilde e pequena parte, feita com serenidade e sabedoria, alegria equilibrada e senso de pertença a uma obra muito maior. Nossos fazeres e agires, sentires e pensares, integralmente acompanhados pela TERCEIRA PRESENÇA a que culturas e vocabulários diferentes darão nomes diferentes, mas que antes de nos assustar ou restringir, nos dará força, a cada pessoinha, para escrever história própria, singular E integrada à família.

O que será a Memória?

Leituras recentes me fazem pensar nas especificidades do modo de existência MEMÓRIA. Objeto de conexão entre os modos da superestrutura (Política, Organização, Ficção, Religião, Redes, Direito etc) e a singularidade do Ser (entidade subjetiva, mental e persistente que possibilita o agir e o experimentar o mundo a partir de uma personalidade), é aludido sem propriedade.

Se quisermos observar a Memória em termos que superem os termos da religião (e.g. Espírito Santo ou Espírito do Mundo), os da ficção (e.g. metáforas advindas da tecnologia computacional), e os da ciência (rol referencial biofísico da processualidade neuroquímica), falaremos da experiência do reconhecimento (MEM) em termos próprios.

Sugiro três abordagens cá rascunhadas à investigação: fenomenológica, ontológica, metafísica. Não para defini-las, mas para buscar.

Fenomenológica: Germinados no evento de um acesso, os atos de MEM são parturientes do campo comum. A total experiência material proscrita é manancial cediço (mesmo se numérico) à elegância dos saberes familiares ou terranos, ativada por acaso e intenção mais ou menos misturados. Mana, pois, da gravação cósmica às aplicações da consciência, amalgamando a inteligência.

Ontológica: Mana, pois, da gravação cósmica, para habitar o Ser que habita os corpos mediadores. Habitante de um habitante, MEM é procuradora de um sentido. Sua fatura é orientar, mas sua explicitação só se faz visível no fazer humano (e.g. MEM•FIC, MEM•POL) comparado, em jornada de reflexão.

Metafísica: Além dos corpos conhecidos haverá, de novo e de novo, novos corpos. O limite à intelectualização dos objetos, portanto, será ferramental antes de concreto. Porém, se MEM é habitante do habitante Ser (procuração), ligado este aos modos da superestrutura (proteção) graças à mediação dos corpos (provação), não será estranho imaginar um corpo real mas processualmente exorbitante, conosco em contato e uso, mas ditoso de fortuna alheia. Se vive em especulação procuradora-protetora-provadora dos fazeres e agires terranos, germinará, alhures e enquanto nos informa, estância outra de experiência.

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