Três lançamentos

É com alegria que oferecemos três novos livros ao público.

O romance Cinco nomes brasileiros, a coletânea Poemas 2009 – 2016, e o álbum Praha: tentativas quando finda a língua.

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Entrega-se via Correios para todo o Brasil com frete incluso.

Leia a seguir quatro páginas de Cinco nomes brasileiros:

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Se houvesse três regras para um fruir mais fluido…

Coisa de quatro anos atrás, teria tuitado três sentenças, à moda dos saquinhos do açúcar União. Não queria doutrinar meus subalternos, mas esclarecer, a mim mesmo, caso tudo me faltasse súbito, o mar sertão virasse e canivetes nada menos que chovessem, e por sorte achando guarida numa marquise de comércio encerrado, de que modo manteria a sanidade limpa e firme, o prumo reto e o corpo livre de atravancos, dédalos circunlófilos e outras pragas da estagnação. Ei-las:

1 – MASTER ZERO
Masterizar o zero compete à prática psíquica da concentração absurda. No frio absurdo você dispersa de frio e bate os dentes e diz coisas como ai pqp q frio nees prrr, assim como num absurdaço calor você sua a sunga já repleta de areia senta na canga que cobre um gravetinho dá risada mole baba olha os corpos fala hein? depois de horas do companheiro ao lado achar que te contava um troço. Não é disso. Masterizar o zero é você em temperatura ambiente sem exageradas cedições termodinâmicas ir ao ponto, ponto de que fala Krishna em seu garboso cardo conselhudo ao príncipe da carruagem. Transformar TODA a sua existência mental num único e minúsculo pontinho. Eis o zero. Desconectar de tudo para, centrado, a tudo reconectar-se em plenitude emocionante – ser de tudo o centro.

2 – CULTIVE A HISTÓRIA
De nada adiantará masterizar o ZER0 se você restar insensível à GRANDE CONVERSA DA HISTÓRIA. Sim, porque o que acontece hoje é produto do que vem acontecendo em marcha polimórfica dinâmica e caprichosa em sua equivocidade aparente, prenhe de interpretações divergentes a grandes movimentos que a todos nos tocam como trama tecido que tramamos e tecemos mais ou menos conscientes. Se quero assumir uma bandeira, uma cor, um time, um legado, preciso SABER ESCOLHER o que jogar fora e resistir às tentações gracejantes dos mini-cinismos acríticos que nos deglutem pontos do grande ranking universal. A saída é uma só: ingressar na irmandade tão fortuita mas também tão frutuosa dos que lêem a história. Pois é uma artimanha: você escolhe um momento, um trecho do mundo, um personagem, afunda-se ali (livros, filmes, docs, simpósios etc) e uaaaau, o entorno começa a mudar, seus modos de ligar os pontos se diversificam e suas raízes se aprofundam nessa terra. Sei onde ando, você dirá. Se cada um de nós tivesse de conhecer a história toda, bastaria um homem viver. Mas somos muitos para sermos complementares. Só não vale não participar.

3 — ESPERE UMA TERCEIRA PRESENÇA
Numa passagem muito bonita da Bíblia Jesus diz algo como ué, por que que eu vou acender uma luz e colocar essa luz embaixo da cama? A frase dá margem a discussão. Eu entendo que ele usou a voz do Pai, de quem senta à direita, para indicar que Deus não permitiria sigilo absoluto sobre nada em momento algum, ou não haveria porque existirmos, humana espécie tão por acaso criadora inquisidora inventora continuadora da mais bela jornada. Talvez não fosse esperado que tirássemos da cartola gutural umas tão ricas linguagens. Mas! Acabamos inventando, ó tão linda ferramenta de encaixes múltiplos e proposições tropeiras. E agora? Pandora! Eterno compromisso: partilhar na íntegra (tudo para sempre) nossa programação… Se somos pensadores, se nosso cérebro literalmente se ilumina quando pensamos desejamos planejamos sentimos, não haverá, no entender de Jesus, por que esconder um intento sequer. Seria, talvez, conspurcação cognitiva, ou mero erro de compreensão. Se pensamos desejamos planejamos sentimos será para somar à multitude de esforços mais um pouquinho, nossa humilde e pequena parte, feita com serenidade e sabedoria, alegria equilibrada e senso de pertença a uma obra muito maior. Nossos fazeres e agires, sentires e pensares, integralmente acompanhados pela TERCEIRA PRESENÇA a que culturas e vocabulários diferentes darão nomes diferentes, mas que antes de nos assustar ou restringir, nos dará força, a cada pessoinha, para escrever história própria, singular E integrada à família.

O que será a Memória?

Leituras recentes me fazem pensar nas especificidades do modo de existência MEMÓRIA. Objeto de conexão entre os modos da superestrutura (Política, Organização, Ficção, Religião, Redes, Direito etc) e a singularidade do Ser (entidade subjetiva, mental e persistente que possibilita o agir e o experimentar o mundo a partir de uma personalidade), é aludido sem propriedade.

Se quisermos observar a Memória em termos que superem os termos da religião (e.g. Espírito Santo ou Espírito do Mundo), os da ficção (e.g. metáforas advindas da tecnologia computacional), e os da ciência (rol referencial biofísico da processualidade neuroquímica), falaremos da experiência do reconhecimento (MEM) em termos próprios.

Sugiro três abordagens cá rascunhadas à investigação: fenomenológica, ontológica, metafísica. Não para defini-las, mas para buscar.

Fenomenológica: Germinados no evento de um acesso, os atos de MEM são parturientes do campo comum. A total experiência material proscrita é manancial cediço (mesmo se numérico) à elegância dos saberes familiares ou terranos, ativada por acaso e intenção mais ou menos misturados. Mana, pois, da gravação cósmica às aplicações da consciência, amalgamando a inteligência.

Ontológica: Mana, pois, da gravação cósmica, para habitar o Ser que habita os corpos mediadores. Habitante de um habitante, MEM é procuradora de um sentido. Sua fatura é orientar, mas sua explicitação só se faz visível no fazer humano (e.g. MEM•FIC, MEM•POL) comparado, em jornada de reflexão.

Metafísica: Além dos corpos conhecidos haverá, de novo e de novo, novos corpos. O limite à intelectualização dos objetos, portanto, será ferramental antes de concreto. Porém, se MEM é habitante do habitante Ser (procuração), ligado este aos modos da superestrutura (proteção) graças à mediação dos corpos (provação), não será estranho imaginar um corpo real mas processualmente exorbitante, conosco em contato e uso, mas ditoso de fortuna alheia. Se vive em especulação procuradora-protetora-provadora dos fazeres e agires terranos, germinará, alhures e enquanto nos informa, estância outra de experiência.

– –

dois poemas: hilda hilst

Lenho, olaria, constróis
Tua casa no meu quintal.
E desde sempre te espio

Linhos e cal tua cara
Lenta tua casa

Nova crescendo agora
Nos meus cinquenta.
E madeirames e telhas
E escadas, tuas rijezas

Tuas costas altas

Vezenquando te volteias
Para que eu não me esqueça

Do instante cego

Quando me pedirás companhia.
Eu não me esqueço.
Te espio de hora em hora

Casa e começo, tua cara,
A qualquer tempo te reconheço.

* * *
Do livro Da morte. Odes mínimas (1980)
* * *

Ouvia:
Que não podia odiar
E nem temer
Porque tu eras eu.
E como seria
Odiar a mim mesma

E a mim mesma temer

Se eu caminhava, vivia
Colada a quem sou
E ao mesmo tempo ser
Dessa de mim, inimiga?

Que não podia te amar
Tão mais do que pretendia.
Pois como seria ser
Pessoa além do que me cabia?

Que pretensões de um sentir
Tão excedente, tão novo
São questões para o divino

E ao mesmo tempo um estorvo
Pra quem nasceu pequenino.
Tu e eu. Humanos. Limite mínimo.

* * *
Do livro Cantares de perda e predileção (1983)
* * *

haiku em quadrinhos

Um dos exercícios tradicionais da evolução da escrita em versos está em fabricar, a partir de uma imagem, um poema. Este exercício funciona em salas de aula porque estimula a turma a praticar os esforços da versificação (ritmo, figuração, concisão etc) dando um passo de tradução, passo este que pode voltar à ancoragem referencial, ponto de partida comum e estimulante em sua potência sugestiva amplamente indefinida, para fazer das discussões comparativas ainda um terceiro produto, aberto, dialógico, novamente enriquecedor.

NEM ME LIXO

Porque:

1) São Paulo tem dificuldades de limpeza;

2) A contratação de “varrimento” (é muito mais que isso) está emperrada por desacordo entre poder público e pessoas jurídicas do direito privado;

3) O lixo acumulado obstrui a mobilidade e o bem-estar;

4) Está mais do que na hora de pensarmos, sociedade civil, num trato maduro com o lixo que nós mesmos produzimos (por que descartamos/aceitamos descartar o que descartamos, para onde vai tanto lixo, por que não tratamos no nível local, por que esperar que outras pessoas cuidem do descarte que é nosso etc)
5) Temos tecnologia de telecomunicação, mobilização, competição, performance, verificação e estímulo e difusão midiática;

6) As telecomunicação, mobilização, competição, performance, verificação e estímulo e difusão midiática da internet atual nos colocam ESTAGNADOS numa ‘caixa de areia’, jogando a versão degustação de sua potência instalada, beirando a neurose que resulta da frustração ou do déficit entre a potência instalada e os atos de transformação do mundo (tentando ‘resolver’ a ansiedade por meio de apelos de transgressão, como quem diz “olhem pra gente, pra nossa coragem, pro nosso tamanho” etc),

sugiro darmos o passo que NÃO SERÁ DADO POR NINGUÉM QUE NÃO NÓS:

DA CAIXA DE AREIA PARA A DEMOCRACIA.

— Como?

Operando a transição ativamente (sem esperar instruções e estímulos prontos, posto que muitas vezes aceitamos segui-los sem entender o sentido daquilo, e como aqiulo de fato colabora com a obra humana no planeta) mas começando devagarinho e docemente.

— Dá um exemplo.

Sim. Vamos crescer a ideia, aqui em sinopse, do jogo

NEM ME LIXO


• Consiste o jogo NEM ME LIXO, primeiramente,
na assunção do problema do lixo
como um problema importante e comum •

Se estivermos de acordo que
i) o problema do lixo é importante e comum,
ii) a situação emergencial justifica intervenção radicalmente inovadora, e
iii) o exercício pode ser um bom laboratório em grande escala da gradual transformação democrática (afinal, por que faríamos política à moda antiga com as ferramentas atuais?),

então, e considerando sempre
que o problema foi considerado comum e importante,
NEM ME LIXO pedirá em seguida que:

A) o contingente populacional interessado em participar se agrupa em categorias de SKILLS (por ex.: desenho e/ou fabrico de transportes leves e ferramentas de coleta; desenho e/ou fabrico de estações portáteis de tratamento (separação, adensamento, eliminação química, geração de material reciclado); desenho e/ou fabrico de objetos reciclados e soluções de reuso; mão na massa (todos));

B) o contingente populacional interessado em participar se agrupa demograficamente (distritos);

C) uma vez agrupado em uma ou mais skills, e pertencente a um distrito, você pode, na fase emergencial do jogo, ganhar preciosos pontos cósmicos (numa outra oportunidade eu revelo os detalhes dessa pontuação) conforme mostre VALOR REAL à comunidade humana e transforme visível e concretamente a situação da vida (o que de modo algum impede que a aliança mercado Estado premie as performances de modo mundano)

Atitude não será obedecer o que nos chega imposto ou pré-formatado. Isso seria tentar forçar virtude libertária em eventos cujos significados profundos, justificações públicas e consequências materiais restassem escondidos ou simplesmente ignorados.

Antes, faremos nós o desenho do jogo a partir da constatação evidente de compartilharmos uma cidade problemática, espaço público adoentado, pessoas jurídicas de direito privado essencialmente apartadas da preocupação humana, e um poder público sobrecarregado por prioridades múltiplas numa organização obsoleta.

NÃO DARÃO ESSE PASSO POR NÓS

Se não nos movermos antes, dignificando a alta potência da internet e sua genial arquitetura com um impacto de transformação em grande escala, concreto e estruturante, restaremos de novo e de novo atrofiando o cérebro na caixa de areia, falsamente livres, mas nas mãos condutoras de atores com interesses não necessariamente coincidentes com o bem comum.

Sendo esta apenas uma semente, sintam-se à vontade para crescer.

Cinco nomes brasileiros – estudo de capa

Das 129.854 palavras após a primeira revisão, restaram 120.120 após a segunda. Deslumbres vis, cacoetes, repetições, gralhas, digressões nauseantes e primarismos sintáticos foram sanados. Confusões voluntárias e sentenças e parágrafos demasiado longos, atenuados até onde permite a autocrítica do editor de si. O autor está satisfeito com o terceiro tratamento. Por isso, vestiu-se de desenhista e arriscou uma capa. A novidade, em comparação com a do livro anterior (Da família – um longo ensaio imaginativo), é a presença de orelhas. Nela, o publisher pediu ao crítico um resumo abonador, desde que sincero e elegante.