dois poemas: hilda hilst

Eu nem soube falar do amor nos homens.
(Amor feito de júbilo aparente)
Nem soube replantar no que era terra
Uma mesma semente.
Tive no peito o mantra mais secreto
E não pude vibrá-lo, alento, lira
Corda divina no seu veio certo.

Elaborei em vão todos meus sonhos.
E súbito me tomas e me ordenas
A solidão mais funda:
Estes cantos agora, alguns poemas
Um amor tão perfeito e indizível
Porque não é tumulto nem tormento
(E se o homem na carne foi punido
O verbo diz melhor do sofrimento.)

Que nome te darei se em mim te fazes?
Se o teu batismo é o meu e eu só te soube
Quando soube de mim?

* * *
Do livro Sete cantos do poeta para o anjo (1962)
* * *

As aves eram brancas e corriam na brancura das lajes.
As aves eram tantas e sabiam do seu corpo de ave.

Esguias e vorazes consumiam
Os corpos que eram aves menos ágeis.
E as garras assombradas dividiam
As espessuras ínfimas da carne.

Na plumagem umas gotas de sangue
Dos corpos devorados se entrevia.
Mas da vida e do sangue não sabiam
As aves que eram tantas sobre as lajes.

O ritual sincopado das gargantas
Tinha o ruído oco de umas águas
Deitadas bem de leve em algum cântaro.
Todo o espaço se enchia desse canto
E atraía umas aves, outras tantas.

A face do meu Deus iluminou-se.
E sendo Um só, é múltiplo Seu rosto.
É uno em seus opostos, água e fogo
Têm a mesma matéria noutro rosto.
Alegrou-Se meu Deus.
Dessa morte que é vida, Se contenta.

* * *
Do livro Trajetória poética do ser (I) (1963–1966)
* * *

Rascunho Redactio II

Praticar andamentos diversos, em especial os menos comuns, favorece novas ligações no cérebro e explora a plasticidade neural. Na esteira do estudo anterior, propomos outro exemplo de familiarização com o ritmo supostamente estranho.

É um exercício de batuque, sem desafio dáctil, a propor duas figuras rítmicas para o compasso de sete tempos. Figuras distintas convivem num mesmo andamento a partir da escolha da marcação ou acentuação, e sua seguida repetição. Na primeira figura, acentuamos o primeiro e o quarto tempos. Na segunda, o primeiro e o terceiro.

Ambíguo, Ex-Pajé dá sono e assombra

Numa das mais belas imagens de Padre Vieira, o jesuíta compara a riqueza oculta na terra que os portugueses pretendiam retirar com outra, aquela que habita e permeia a alma dos índios. Escrevendo e assinando aos 20 de abril de 1657 da capitania do Maranhão, diz António, na carta ao Rei D. Afonso VI, a respeito de uma frustrada Entrada do Ouro no Paraná, em que morreram, vítimas de fome e exaustão, quarenta colonos e duzentos nativos da nação Pacajá,

Estas, Senhor, são as minas certas deste Estado, que a fama das de ouro e prata sempre foi pretexto com que daqui se iam buscar as outras minas, que se acham nas veias dos índios, e nunca as houve nas da terra.

É sabido que as missões americanas da Companhia de Jesus, ordem fundada na segunda metade do século XVI por Inácio de Loyola, obedeciam, conforme arquivo epistolar dos primeiros padres, o cristianismo potencial dos nativos, jamais os julgando indignos ou escravizáveis. Ao contrário, reconheciam, nas pequenas mas significativas semelhanças, num dito famoso de Nóbrega, motivo de amor. Tais semelhanças seriam a entrega íntegra ao trabalho comunitário e solidário, um epítome do serviço cristão, e, ainda que difusa, crença e temor a um único e soberano Criador.

Graças às tão notáveis, aos olhos dos jesuítas, semelhanças, houve rápido e frutífero entrosamento, e as missões, enquanto funcionaram, produziram felizes convertidos, e intenso intercâmbio entre os conhecimentos das artes e utensílios europeus, e entidades e sensibilidades da floresta. Em verdade, para os jesuítas, o maior obstáculo às missões não seria a distância dos nativos dos conceitos da ordem e da fé, mas a inconstância da ordem e da fé dos assim ditos cristãos que cá chegavam para tentar enriquecer e apenas isso. Eram estes os que ignoravam o sentido da harmonia em expansão, o amor de Cristo em Cristo na unidade do Espírito Santo, e assim atrasavam, como afirmam as mesmas cartas jesuítas, o progresso do projeto brasileiro.

As missões foram fechadas pela ganância desmedida, e o projeto brasileiro tornou-se um mal disfarçado projeto de espoliação e segunda classe. Nele, um pequeno contingente teria acesso aos excedentes, o governo seria um simulacro de contenção popular, e nós seguiríamos proibidos de produzir tecnologia e conhecimento de vanguarda. Esta situação nos levou à dedicação absurda de solos às pastagens e à construção de Belo Monte. Pouco mudou até então. Nesse interregno, expressões culturais de monta valiosíssima, capazes de fazer triunfar no tabuleiro global do jogo das nações a diferença brasileira como algo além do sensualismo fácil dos corpos, expressões essas relacionadas à difícil cognição relacional não alfabética com a matéria e os espíritos, foram perdidas ou desperdiçadas.

Deste assim chamado, apud Pierre Clastres, etnocídio, isto é, extermínio das formas de um povo produzir sentido e relacionar-se com o mundo, trata o filme silencioso e perturbador Ex-Pajé, em cartaz no circuito comercial. Documento duradouro sobre a postura diante da perda, a fita escava no público a vala funda da complexa culpa brasileira.

Apreender o valor do registro é jogar damas com narratividade lacunar, demasiado ambígua. Ora as cenas querem dizer nada além de um valor de face prosaico, quiçá tardo-antropológico, mas ora sentidos de alta densidade ética subjazem em detalhes de bruta esquivança. Estar atento, ou desatento de um norte dado pela montagem e cioso dos frágeis, efêmeros sinais, será como andar, tal e qual a humilde equipe de cinco produtores, em solo onde abundam jararacas, sob uns céus em que espreitam araras os gaviões, saltam vítimas da fome macaquinhos, e anunciam, a quem trilha o caminho do adepto e está aberto, as razões e motivos do porvir.

Perpera é o xamã protagonista, provocativamente chamado ex-pajé, quando sabemos tal titulação impraticável, tanto quanto uma idade ex-idade é impossível. Sob a regência evangélica, advento que transforma a aldeia Paiter Suruí num psicologicamente conturbado hibridismo entre o colapso hodierno brasileiro e sua esquecida ancestralidade, Perpera alerta contra a distração da tribo mediante as coisas dos brancos, principalmente a comida. Perpera refere-se ao branco não como um inimigo, mas como um irmão mais novo, amável via de regra ignorante.

Entre sequências de perseverante espontaneidade e outras graciosamente posadas, o protagonista mais marcante acaba sendo a banda sonora. Aves variadas, águas, ventos, cantos, rezas, choros, sermões, ladainhas, conversas e percussões induzem o público à confusão e à sonolência, aos marasmos e assombros e, consequentemente, à reflexão. A ausência de narração em texto falado, ou de qualquer preparação historiográfica, a não ser inicial cenografia de arquivo da mesma tribo no anos 1960, ainda pouco aculturada, faz o percurso menos fácil e quem sabe por isso dubiamente cativante. Os arcos narrativos não são completados, os personagens não expõe seus conflitos de forma dramática, e a estrutura da história estira-se num não roteiro de parca poesia cênica, dadas a abundância à mão e as facilidades do sensacionalismo.

Restam a quem assiste o gosto amargo de ver perder o Brasil este importante jogo contra sua própria formação, e a missão de assegurar, em si, o fogo original e a melhor estratégia, para a melhor vontade, e ventura e faculdades do Reino.

‘A cidade do futuro’ seduz, encanta com pouco

Da retomada para cá, resta isento de mistério a partição da produção comercial do cinema brasileiro em dois polos. Num, faz-se com muito, noutro, com pouco. Dois exemplos recentes seriam a franquia Tropa de elite, de um lado, e O Som ao redor, do outro. Outros seriam Cidade de Deus, de um lado, e Cinema, Aspirinas e Urubus, de outro.

Com mais dinheiro, explora-se as possibilidades absurdas do movimento e do tempo descontínuo, das plásticas inumanas e dos pontos de vista interessantes e incomuns, logrando não raro forte aderência do espectador sem necessariamente pauperizar texto e caracterização.

Com menos dinheiro, o esforço é outro, sem ser menor. Concentra-se na árdua tarefa de narrar no lugar hoje híper-dinâmico do audiovisual, quando o deslize mal administrado à lacunar contemplação pode ser multado com a desconexão. Conta com o pequeno da dramaturgia clássica e com as limitações da fotografia sensível, carente das sonháticas riquezas cênicas e da computação gráfica, mas podendo contar com os estranhos revelares do real.

Deste pequeno e destas limitações, transformados em qualidade via competência e originalidade, nascem os bons filmes feitos com pouco. Recém-lançado no circuito nacional, A cidade do futuro, vide boa carreira em festivais mas não só, é o caso.

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O filme conta de três jovens unidos em amizade a enfrentar facetas ora tradicionais, ora ignorantes, de um conservadorismo quase sufocante no interior da Bahia. O pano de fundo é a memória dos cidadãos removidos décadas atrás para a construção da barragem de Sobradinho, quando regia a expropriação e os abusos uma ditadura militar.

A professora de teatro é jeitosa e namoradeira. O professor de história é maternal e sereno. O que ainda não se achou é valente e obstinado. Juntos, divertem-se com pouco, ensinam os mais novos, enfrentam más vontades e inventam, do jeito deles, uma família nova, em triângulo.

Fazem um filho, habitam a mesma cama, sofrem na escola e na rua nem menos nem mais que qualquer jovem interessado em dar um passo de verdade vida adentro. Logram perseverar, e conter a alagação das vontades respectivas, pois que informadas elas são por delicadeza e inocência.

A direção equilibrada se arrisca, e tira dos atores, iniciantes no cinema, os resquícios de teatralidade, leitura e pose, expondo algo perto de suas auras, e nos encantam seus suspiros, vacilos, sorrisos. Pródigas atuações complementa trabalho de câmera discreto mas magnetizado à beleza descansada das coisas, à luz que houver no caso, e ao trato sutil das peles.

Há muitas maneiras de ver o Brasil, mas se só vemos o que conhecemos, há que concentrar em conhecê-lo, antes mesmo de assumi-lo ou de nele enfraldar-se. Se os livros têm muitas letras, se o turismo da pressa é avesso à experiência cognitiva, e se não há tempo para imersões alentadas nos rincões, resta no cinema, e tanto mais neste feito de gentes e lugares, boa alternativa para ganhar o contato do país.

Quando muito se especula sobre o que precisamos ou não precisamos, e a conversa esquenta, e o que vai a jogo se complica, chegar aos brasis dos criadores pode ser ótima tática para evitarmos perder discussões. No cinema, trabalho de muitos, a vantagem é maior. O cinema feito com pouco, por ter menos cenouras, deslumbres, distrações e subterfúgios, pode acabar revelando ao público trechos autênticos do Brasil, mais densos e firmes que o Brasil dos grupos de zap, novelas e jornais.

Rascunho Redactio I

Hoje, no lugar de um improviso disfarçado de estudo, memorizei breve e simplíssima composição, também disfarçada de estudo.

Sem dificuldades, a peça tem por objetivo deixar o estudante à vontade com a mescla de andamentos.

Declaração de eleitor II

Porque:

1) Desde o impedimento parlamentar da Sra. Presidente Dilma Rousseff o governo federal assumiu viés centrista;

2) O viés centrista, por natureza, trabalha por transição impondo, antes de agendas, algum temperamento à ordem civil;

3) Usamos, cidadãos e empresas, ordem civil temperada para contrastar e discutir alternativas aos problemas centrais da Nação;

4) Tais alternativas serão, daqui em diante, desenvolvidas e apresentadas por quatro oposições ao centro atual, na forma de concorrentes planos de governo;

5) E porque não diremos situação versus oposição, mas oposição versus oposição,
eu, na qualidade de cidadão e livre pensador, proponho as seguintes chapas, além das duas já apresentadas, sendo elas quatro e apenas quatro para evitarmos o desperdício de tempo e paciência em desvios, delírios, falsos problemas e pequenezas:

Chapa SB: Marina Silva + Joaquim Barbosa

Chapa DB: Manuela D’Ávila + Guilherme Boulos


Porque:

1) Marina, além de mulher séria e de palavra, é sensível e elegante, qualidades que urgem num país em processo de embrutecimento. // Magistrado e herói nacional, Barbosa é capaz de espantar a desconfiança da direita pragmática aos “amigos da floresta” com sua aliança ao capitalismo solene. // A esquerda natural, não cooptada por militância de cartilha, compartilha com Marina o anseio pela viravolta ecológica da política, rigorosamente humana e igualitária. // Barbosa, à mesma esquerda difusa, não é motivo de repulsa, não sendo em si capitalista, mas antes homem de ofício com história de vida inspiradora, tal e qual Marina.

2) Manuela e Boulos, lideranças relevantes da nova esquerda teórica e prática, são os únicos entre os oito candidatos capazes de imaginar a renovação radical e abrangente da política. // Diz-se não teriam chances em 2018, mas sem eles o debate giraria em falso, extorquindo do eleitor o sonho e a chance de imaginar com sanidade e alegria o futuro de uma democracia agonizante. // Suficientemente corajosos e sem rabo preso com o passado vicioso das instituições, seriam capazes de abrir o governo ao redesenho do Estado, mais que tocar a passos de cágados uma agenda de reformas eufemísticas e praticar fisiologismo.

3) A chapa SB tem contra si alguns preconceitos obsoletos mas que ainda rondam certos setores das elites. Marina, por ser adepta de uma religião, não seria capaz de governar. Barbosa, por ser Magistrado, não teria competência para o Executivo. Os argumentos são frágeis, mas em tempos de fake news, podem frutificar. A favor, gozam de popularidade e confortável desconexão da cansada polaridade PT–PSDB. // A chapa DB tem contra si, i) o pendor às diatribes genéricas contra o mercado do qual todos dependemos; e ii) o ressentimento ainda carente de trabalho de superação por todos nós contra o fantasma “eles”, útil para atiçar beligerância aos convertidos mas inútil para persuadir indecisos. A favor, um insuspeito mas potente trunfo: sendo jovens atuais poderosos e atraentes, poderiam, salvando-lhes do relativismo epistêmico, seduzir à fé socialista ampla massa de seres inoculados na revolução digital, hoje ladeada ao mercado apenas por falta de melhor oferta. // De lado a lado, as duas oposições têm, dentro de si, seus piores inimigos. Quem os podem derrotar são suas próprias lacunas, teimosias, comunicação incompetente, falta de humildade e de autocrítica, promessas vãs ou fantasiosas, argumentação leviana e, do lado SB, excessivo apego às frescuras vigentes que nos atrapalham, equivalendo, do lado DB, excessivo desapego à ordenação transitória de uma República, num momento tão sensível quanto oportuno.