Samosa de Repolho à Brasileira

Se o que não pode faltar numa samosa é curry, não demorei para perceber a chance de reinventar massa e recheio.

Simples mas esperto na função, a mistura levou batata-doce, abóbora e repolho na manteiga.

A massa, e por ela o nome leva à Brasileira, é de fécula de mandioca e farinha de milho num pouquinho d’água. Resulta consistente e crocante, e a leveza do não trigo combina deveras com o espírito do curry.

Samosa de Repolho à Brasileira

INGREDIENTES

Repolho
Batata-doce
Abóbora
Fécula de mandioca
Farinha de milho
Manteiga
Curry

PREPARO

recheio:
Cozinhar batata-doce e abóbora em cubos até consistência esmagável
Puxar o repolho fatiado na manteiga até desmilingui-los
Juntar cozidos ao repolho, descer curry e misturar

massa:
Unir porções iguais de fécula de mandioca e farinha de milho
Descer água aos golinhos para uma liga fofa e sem excesso de umidade
Deixar descansar uns vinte minutos
Alisar a massa na pedra com nova farinha (para não grudar)
Montar as samosas nas mãos amanteigadas (para não grudar)

forno:
de 12 a 16 minutos, em torno de 250 graus

dica:
faltando uns três minutos, deite uma manteiguinha sobre os pasteis ainda no forno

Carpe diem

Por tanto tempo julguei besteira adolescente a expressão ‘carpe diem’, aquilo que separava homens de meninos: debandar-se do privilégio da vida às palafitas vulneráveis do subterfúgio egoísta da diversão irresponsável, seja porque trapaceira, seja porque viciosamente cínica.

Até topar com Horácio, ou melhor, com a ode 11 do livro primeiro, em cujo arremate lemos:

carpe diem, quam minimum credula postero

O poema parece o conselho chato do poeta à irmã mais nova, sugerindo-lhe afastar-se da ganância antecipadora da cabala. Biográfica ou não, a peça carrega um tanto da ambiguidade dissuasória dos mestres. Tem cunho epistolar mas mais enfático é o empenho moralista.

Imagino se a amiga, outra pessoa a Horácio uma versão imatura de si, fantasiava progredir quando em verdade traía o ofício da poesia, aprendizado de sucessivas etapas, originais ou transfiguradas, mas não ao arrepio dos elos, estes em harmonia difícil com a bênção natural. Somos o que desejamos, mas cobra o clima por aquilo que poderíamos desejar.

A interlocutora horaciana recebe o acre bilhete do sinédrio mais antigo, mais atual, ontológico compromisso não contra o carnaval, mas contra o escapismo do falso testemunho e da retórica sem persuasão.

A ode perpassa impaciência, a dura de um bedel com mais o que fazer além de alertar a via equívoca do desprezo à comunidade, morada em que a liberdade se faz a desenho, e não a desdém.

Não será exagero atinar com o momento por que volta e meia se nos lembra a imprensa viver o país. Querer enricar, ganhar dinheiro, não é um erro absoluto. Mas desvirtuar-se para tanto cancelará a legitimidade da busca. Se não suspeitamos da justiça cósmica, a civil justiça é encarregada hoje de assegurar o bom nome das trocas, do comércio, da ferramenta monetária.

Num estudo sobre o helenismo estoico, corrente nutritiva a todo poeta em formação, A.A. Long diz:

Virtude e riqueza estão de acordo com a Natureza, mas de modos diferentes. A virtude concorda porque é a função especial ou objetivo do ser racional ser virtuoso (D.L. vii 94). Tal afirmação não é circunstancial. Aplica-se absoluta e inequivocamente a todos os humanos maduros. A riqueza concorda com a Natureza porque o ser racional está naturalmente predisposto a preferir a riqueza à pobreza se está ao seu alcance escolher uma delas. Riqueza é um estado objetivamente preferível à pobreza, mas a riqueza não é a função especial que distingue o ser racional. O valor da riqueza aparece em relação à pobreza, mas a riqueza não tem valor algum em relação à virtude. Moralmente, riqueza e pobreza são indiferentes.

Para os estoicos, o bom, o vantajoso, o útil, são marcas linguísticas usadas para separar virtude e vício. Para nós modernos, o bom, o vantajoso e o útil sofreram as relativizações da competição proprietária, confundindo a justa busca da estima com a configuração nem sempre escrupulosa dos intentos.

À dúvida reflexiva, à hesitação caridosa, e à humildade sapiente, subimos tampões onde grudamos os cartazes de um qualquer empoderamento. Mas este, no lugar de libertar, poderá podar gestos e atos e falas prematuramente, quando a vontade obtusa do ‘dar-se bem e mostrar’ sucumbe à indistinção da virtude, acusa preventivamente o remorso e o arrependimento de má consciência, a paciência de derrota ou vitimismo, e troca a maturação dos frutos pela ganância das marquinhas de performance.

Carpe diem, assim, não recomenda trocar esforço civil pela bestialidade fajuta que nos apartaria dos saberes, natural e social. Fruir no dia os frutos e as tramas plantadas e tecidas, enquanto tecemos e plantamos, desperta o ser ao trabalho desinteressado ou concentrado. Se a lição do amor é invisível demais para nos tocar, acreditemos pelas obras em si mesmas (parafraseando o evangelista João).

Colhe o dia, o mínimo antecipa.

Assim traduzi o arremate da ode. Se ora sua morada é mais aprender, coloque-se. Se mais é fazer, ajuste-se ao que cobra o clima, e assim coloque-se. Colher o dia é gozo e esforço unos, tributo à força e leite à sensibilidade. Talhe a imagem sua, enfeite a proa, e siga.

Em Memórias da casa da China e outras visitas, Manuel Afonso Costa escreve:

A leira paira
o vento por cima inclina
e o estrume irriga
a veia fértil
no seu gesto iam as sementes
e uma agonia
que a manhã vazava;
nessa corrente espessa
e viscosa
só as palavras eram raras

ideia de bandeira

Porque indignação e imaginação hão de juntas caminhar, mode que aquela não discrepe sem razão, e esta não fabrique parva, exercito, a par de propostas como a nova previdência (OZ), a nova escola mafaldina, o parlamento dinâmico, o poder executivo incorporado em quatro diretorias, e o regime de tributação efetiva, propostas tais encontradas em meu livro e neste sítio, a ideia também de uma nova bandeira nacional.

Entendi que a atual teve sua importância, e jamais deixou de ser bela, e se algures, qualquer infeliz tatambica, em arroubo de vilipêndio, tenha lha difamado, que leve a mão à consciência e deixe de brincar com as coisas da nação. Não somos, entretanto, local de antiquíssimo cultivo das folhas quadriculadas. Cá aprendeu e ministrou Anchieta nas areias da praia. Dos povos assim chamados ameríndios, avós da gente, leis, códigos e ritos eram jamais grafados ou cartoriados, e suas veras bandeiras, pintadas no corpo, faziam-nas ao olho nu, na simetria que cabe à perfeição endógena, e não exógena, da natureza da qual somos filhos.

O símbolo premente, motivo da ficada colonizadora, que queiramos ou não nos fez em povo vário, é a árvore da tintura brasílica, como bem se vê pelos dois espinhaços duros. Assim dispostos, creio aludem respeito ao losango pretérito. Pois está o símbolo primeiro da espoliação dos que não nos reconhecem e assim não nos respeitam (em seguida ludibriaram e adoeceram e exterminaram as nações nativas, cá trouxeram presos em escravidão irmãos da África, e urbanizamo-nos iníquos, desumanos, imersos em erros, feiúras, mais exploração e maus desenhos), limpando a terra da árvore sagrada e forte, para que jamais nos esqueçamos de que se trata participar da história desta obra chamada Brasil.

Resta o pau sobre a imagem pitoresca de uma praia? Pode ser. Aí é bom cabeças componham interpretações, melhorem a ideia, discutam. A moldura representa o perspectivismo, filosofia da baixa Amazônia que impinge todas as coisas de humanidade e pontos-de-vista igualmente válidos, convidando o simpósio da civilização deste novo mundo à constante diplomacia com a graça do cosmo.

Em cada uma de suas produções,

meu jovem e brilhante professor, novos signaes vejo de qualidades, menos vulgares e mais uteis nas duas provincias do saber, a que as feições de sua condição intellectual o propendem: a historia e a philologia.

Para essas duas altas especialidades o talharam as prendas que lhe são nativas, de uma vocação benedictina: a paciencia investigativa, a pertinacia no estudo, a abstracção de interesses, o amor e senso de verdade, a intuição critica, o faro e adivinhação das fontes, dos veios de mina, dos thezoiros soterrados, ignotos ou esquecidos, a isenção de espirito, a franqueza da palavra, a coragem das realidades malvistas á rotina da sciencia de compilações e convenções.

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Ruy Barbosa, em carta a um colega, fevereiro de 1921
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Sopa de abóbora e aveia

Postei este vídeo no começo do ano passado, demonstrando um moinho manual para moer grãos torrados de café. O utensílio, além de portátil e resistente, prova-se presto (dãr, claro) para moer outras coisas. Pimenta do reino, tenho usado, e hoje, pela primeira vez, e para resultado fabuloso, moí sementes de erva-doce. O pozinho desabrocha a complexidade aromática da planta – anis, pêssego e cravo – num modo que a semente não consegue.

Usei erva-doce numa sopa de abóbora e aveia, inédita para mim. O prato chama a atenção pelo aconchego generalizado: aroma, textura, sabor, reverberação corporal e potência nutricional. Fácil de fazer, toma menos de 15 minutos de preparo e cai bem para apaziguar e restaurar, à noite, o corpo cansado da labuta. Há fibra, proteína, gordura e carboidratos a contento.

Para preparar, cozinhe a abóbora em cubos, troque a água, misture o missô e a aveia e tempere. Para servir, encime o caldo com as folhas de agrião e as castanhas. As medidas a seguir agradam duas pessoas.

Sopa de abóbora e aveia

– 1/4 de abóbora cabotiá
– 4 colheres grandes de aveia em flocos
– 1 colher grande de missô
– 1/2 maço de agrião
– 1 punhado de castanha-de-caju
– 1 toco de gengibre ralado
– 1 colher pequena de sementes de erva-doce
– 1 colher grande de curry
– 1 fio de azeite
– 1 sujeirinha de shoyo

Bom apetite!

sobre o sentido da vida

1 Coríntios 3 : 21

Não busque no do outro seu orgulho, é tudo nosso.

2 Coríntios 8 : 13

Não sofra se o outro se conforta, haja igualdade.

Parto destas expressões paulinas, por mim traduzidas em segunda mão, para entender melhor, via empenho poético, dois deveres fundamentais:

1) Renasço todos os dias da Jerusalém livre para, desde minha memória, colaborar a carne apurada na construção da Jerusalém cativa.

2) Trabalho na força dos corpos para cultivar e criar, na Jerusalém cativa, os sinais da Cidade de Deus, que as artes componham união na diversidade.

O tarô que oferta Santo Agostinho, dizendo haver profecias acima, de uma parte, e acima e abaixo juntas, de outra, conforta o cristão de ignorar o sentido da vida. Não havendo profecias reservadas exclusivamente abaixo (Jerusalém cativa), o tempo encarnado do Espírito, tempo salvo e crismado na Paixão, exime-se de confusão ontológica ou caos maligno: diz respeito ao aperfeiçoamento individual em voz e ofício, mas também à engenharia de uma adequação: que tudo seja nosso pois não há, em verdade, desigualdade.

Anri Sala no IMS-SP

Se puder criticar a novidade digital por uma perversidade retardante, não de todo isenta de paradoxal conforto, assim o faria: cedo meu juízo ao império da referenciabilidade exógena desde que as facilidades advindas não me desanimem nem me afastem do eventual cavocar poético do entendimento. Abra-se alas para tanto!

Vamos formando craques gerações em obediência. No entanto, de um modo ainda pouco descrito e examinado, o exercício incerto da apreciação singular chega-nos não apenas ingrato, mas mesmo estigmatizado. Que sorte de vítima ou otário pretende, hoje, pensar por si, ou ao menos agregar insuspeito valor ao pensamento coletivo?

A tarefa, primordial para a publicação da voz própria que nos carimba a maioridade do estar, incrementa a inteligência universal, mas encontra-se hoje em vexaminosa estagnação, quando não baixo a perseguição tácita e aflita do custo de oportunidade, ou de um utilitarismo entre aspas, que anuncia um mundo de mais amplos e frequentes consensos sem dar, com a outra mão, o estímulo e o respeito aos antigos saberes e fazeres.

Resta a generosidade dos que se formaram pensando na realidade analógica e a resistência alcoviteira de alguns protégés dos establishments no meio de um regulado deus-nos-acuda a compensar o charme da disciplina em pleno acato com o desdém por qualquer coisa que tenha história.

O prejuízo é óbvio porque a inovação a valer é produto das tradições assumidas com integridade, incertezas junto. As vantagens, quando saímos dos previsíveis vaivéns diários, tornam-se exercício complicado de aceitação, malabarismo gregário de regeneração positiva num organismo em pacto agudo de anti-faustos.

A arte contemporânea, além do viver melhor o melhor possível e falar disso, tem, em sua vertente isolada e exibicionista que engendra o mercado de objetos exclusivos mas impacta o pensamento atual tanto ou menos que um bloco de titio-vovô, escusada sobrevivência entre nós não artistas nem marchantes. Ela perdura a duras e estrambólicas penas sob os pretextos nem sempre compráveis das ‘exposições das diferenças’, das ’exibições curiosamente plurais’, das ’coletivas de jovens do mundo’. Ocupam espaços consagrados ao público da cidade e são devidamente amaciadas pela tutela de ‘pedagogos’, a ponte-pano entre a idiossincrasia de um criador que poderia ser um pasteleiro mas não é, e nós, cuja fome por arte não é a fome por novos objetos (se nem meu Goya eu digeri), mas uma fome de pensar. E hoje, mais que nunca, fome de pensar num paralelo construtivo ao festival da referenciação exógena das prateleiras, que sinalizam o gostável sem reflexão em troca de obediência.

Seu produto nos parece estranho porque não compõe nenhuma das facetas práticas do lazer, este que compramos nas mídias, nos serviços e nas reuniões. É a diversão culpada de quem não quer parecer habitante da ralé ignara, das elites formadoras que não querem parecer simplórias, dos intelectuais que carecem de afirmar sua diferença amarga falando bem ou mal do que já não interessa a ninguém.

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Instalados no prédio do InstitutoMoreiraSalles até 25 de março estão oito trabalhos de Anri Sala (n. 1974), artista albanês presente nas bienais paulistanas de 2002 e 2010.

Dá uma aflição não ser apresentado a coisas que já estão acontecendo, sem título, sem sinalização, sem a indicação inequívoca da comédia ou da tragédia, sem a clareza sociodemográfica de um público alvo. Aquilo é para mim? Eu posso…? Como eu faço para saber se entendo aquilo, e assim, se gosto ou não gosto? Por que me dar ao trabalho de sofrer incertezas, ainda mais incertezas, justo hoje, quando tudo ficou claro como um raio, quando tudo enfim vem mastigado, explicado, em colaboração imediata com os aplicativos de orientação? O sentido do vale do silício não era esse? Um dia de domingo é uma imersão azeda na anomia do século 20? Consumo de diversão não é perda de tempo! É para ser um sorvete gostoso, um evidente sor-ve-te, e não um quasi sorvete, um meta-sorvete, um alter-sorvete, um pós-sorvete, mas um sorvete sorvete! (titio vovô !!), de preferência no sabor que eu sei que eu gosto? Por que, enfim, acreditar que, à exceção de turmas escolares involuntariamente presentes, alguém além de um infeliz solitário perdido no mundo sem amigos nem parentes importantes perderá tempo expondo-se, no horário de lazer, a algo sem título, sem evidente sinalização, começo meio e fim, nem bandeira de filiação? Aquilo, afinal, era coisa do Corinthians?

A aridez da montagem, a falta de coragem para admoestar o público com um mínimo de sensacionalismo, faz mais difícil o trabalho. O aventureiro que arrisca perder um trecho do dia ali e sair sem ter o que postar pode, no entanto, apegar-se à forma explorada por Sala em transparente eleição: a música. É da estética maravilhosa do som, feito por e para humanos via instrumentos variados, e de sua vitória sobre um mundo em Morte renovada, de que trata a exposição.

Se atentarmos, perceberemos muitos modos musicais por trás das situações estranhas a que somos submetidos. Vale perguntar: se queria expor que curte músicas, por que não fez um playlist e pôs no face? Por que todo esse trabalho?

Difícil responder com facilidade. Parte do interesse nessa sorte de evento é entrarmos num aguçado espírito de aventura e saírmos provocados a pensar. São muitas lojas, vitrines e sinais ao redor, mas frequentar o desconhecido faz o cérebro crescer forte. A arte é enigmática, propõe jogos de interpretação e pontos-de-vista, convida a cogitar e existir nas motivações do artista, nas vidas secretas dos objetos, bem como nas motivações institucionais e assim políticas que os acolheu e curou. Quais as mensagens possíveis, e por que elas importariam urgentemente hoje?

O desconforto situacional incomoda. Tudo na Avenida Paulista é tão claro. Ninguém atravessa fora da faixa sem pesar as consequências. E ali, nas duas galerias de um prédio novo, o que poderia ser fácil descrever e facilmente gostoso de frequentar, atordoa, constrange, falta, me faz prestar atenção nas roupas das pessoas.

O aventureiro tem como ferramenta multívoca a generosidade, abertura alerta, o fio dos sentidos desencapado, e a oportunidade de co-criar, alongar os objetos, tornar-se ele também o artista, fruindo da parte boa de uma aventura que começou na Albânia. Na minha exibição de Anri Sala, o momento presente simplesmente não existe. A prova do tiro no pé do albanês, doravante meu colega faltoso, é a de que a música, querida, é a gravação de um tempo sem pausa, a evidência maior da pura ausência do presente: tudo na música já foi, ou está vindo. Eu entendo, pensando um pouco mais, que o título é irônico.

A música quer dizer sem palavras, logar sem logos. É timbre do afeto do instrumentista depurado pela prática, documentado em vídeo, reexibido como a oferenda de um pensador. O pensador não quer texto, que julga destemperado, elitista, arrogante, cronológico, datado, sintoma dos sábios. Para Sala, colega humano de difícil sensibilidade, toda compreensão é duvidosa, e nada está isento do filtro contingencial da tradução variegada e corrompível. Você percebe apenas o que bate numa tabela referencial e volta liso? Quando um lado do telão ganha lúmens a mais na intensidade do volume do saxofone, o que Sala faz é pedir para usar o telefone e anunciar, eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer.

O que é grande em Anri Sala? Seu respeito pelo músico treinado, símbolo do operário em sua beatitude sindical e sofrimento existencial, e pela infinita variedade da música ou da expressão da vida. O sexteto em nada ansioso faz música conturbadamente angelical, os tambores fantasmais são signo de que algo invisível e mágico perpassa o artesão e a ferramenta, será o amor, o saxofonista em Berlim mostra como é arriscada a vida entregue à arte, e solitária, e longamente insuficiente, porque inconclusa e variabilíssima.

O casal de namorados não renuncia nem abraça o desprezo mútuo. Pede que atentemos aos ofícios do grego e do judeu (emprestando a São Paulo sua figuração do yin e yang), presente em todo ser. Há conciliação sugerida na silhueta unida, mas não de todo confirmada. O que restou, para mim, foram os dois semblantes, atenção obstinada no baterista, caridade dialogal na mulher.

O punk do The Clash não foi exatamente ridicularizado, mas a experiência propõe que melodia é inscrição mnemônica nos nervos da tribo; somos elos de lembranças; aquilo que do sol nos protege também há de encantar e unir.

Pensam, as mariposas, aonde ir, ou somente em transmitir cifradas, benevolentes mensagens desde o profícuo, fincado reino de-entre os dias?

Ao fim de uma serpente escura, num cubículo apartado, simulam-se aulas entre gerações, palavras simples em contraste repetidas em respeito ao duro frio do aprendizado resistente, às matizes do saber e à escuridão do não saber, fragilidade capaz de acusar a diferença insuportável e nos tornar ao pó de onde viemos.