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Leitores!

Na página abaixo, número 230 da primeira edição do livro Da família, um longo ensaio imaginativo, há um curioso enigma na forma de poema. Diz o autor:

Não é bem um enigma na forma de poema, posto ser natural, do poema, uma sua feição enigmática. Mas sim que aludem, as cinco estrofes, a cinco personagens femininos da mitologia grega, das mais famosas, portanto rapidamente vislumbradas por quem nutre-se de elegância. Contudo, o que poderia acabar aí, complica-se. Quem lê o livro e tenta associar as personagens aos cinco arquétipos de Mãe trabalhados no capítulo dois do livro (Mãe Gaia, Mãe África, Mãe Bahia, Mãe Paulista, Mãe Magia), entende que, no poema, acertando-se a relação mãe arquetípica – personagem mitológico, dá-se não na ordem direta das seções de um a cinco, mas numa sorte de baralhamento, um outro jogo-texto e, em si, outro poema-enigma, assim significativo.

Eis no que consiste, o concurso cultural imaginativo: o primeiro leitor que encaminhar a correta atribuição das personagens da mitologia grega às estrofes do poema ao e-mail casa@tourobengala ganha um exemplar do livro, livre de qualquer custo.

Boa pesquisa!

dois poemas: hilda hilst

XIX

As mães não querem mais filhos poetas.

A esterilidade dos poemas.
A vida velha que vivemos.
Os homens que nos esperam sem versos.
O amor que não chega.
As horas que não dormimos.
A ilusão que não temos.

As mães não querem mais filhos poetas.

Deram o grito
desesperado
das mães do mundo.

* * *
do livro Presságio (1950)
* * *

XV

a Carlos Drummond de Andrade

A rosa do amor
perdi-a nas águas.

Manchei meus dedos de luta
naquela haste de espinho.
E no entanto a perdi.
Os tristes me perguntaram
se ela foi vida p’ra mim.
Os doidos nada disseram
pois sabiam que até hoje
os homens
dela jamais se apossaram.

Ficou um resto de queixa
na minha boca oprimida.
Ficou gemido de morte
na mão que a deixou cair.

A rosa do amor
perdi-a nas águas.
Depois me perdi
no coração de amigos.

* * *
do livro Balada de Alzira (1951)
* * *

Da inteligência

Brotaram flores
nos meus pés.
E o quotidiano
na minha vida
complicou-se.

– Hilda Hilst

Nunca foi tão difícil driblar a inteligência, mas o motivo é simples. Nos séculos passados da era moderna, quando experimentamos a convivência plural com mobilidade social, a face impessoal da inteligência era irreconhecível. Misturavam-se os conceitos de habilidade e inteligência, e o clichê era dar àquela o nome desta. Alguns seriam mais, outros menos inteligentes, donde a inevitável desigualdade rancorosa, e não raro deturpada, no mercado dos méritos.

Corre o tempo em que descobrimos, ainda sem coordenar dignamente potência e produção, a inteligência em trama dinâmica e crescente, universalmente acessível e absolutamente impessoal. Os efeitos da descoberta poderão ajudar-nos a relaxar as falsas tensões da competição, reforçando as autênticas, e dissolver os falsos dilemas do desejo, tornando mais duros, múltiplos e coesos os autênticos.

Entender e determinar por que lutar e como curtir a vida, sem precisar reinventar a crise romântica diariamente, tornará a realização política da convivência, bem como a autonomia espiritual da vida leve, tarefas mais abertas à novidade e menos entulhadas das manhas pré-fixadas que, outrora, invocávamos para dirimir os riscos e aumentar a previsibilidade dos empenhos. Mais equilibrados e menos temerosos, faremos mais com menos.

Está em nossas discussões e mentes não mais saber qual lado ocupar antes da luta, nem tampouco saber onde balizar, fora de si, as manobras da vontade. Antes, a tarefa seria saber manter e contrastar, atender e coligar as prioridades eventuais. Livres das supernarrativas que cuidavam, a depender das contingências do indivíduo, de restringir suas potências a certos modelos de submissão ou contravenção.

Na prática, vive-se individualmente num corpo que se quer produtivo e singular. Tal corpo pertence a algumas jurisdições variáveis mas comunga, ainda e de forma crucial, a língua e os códigos de convivência de um território dito nacional. Atentar a esta premissa, por difícil que seja num momento de globalização digital e tentações anarquizantes, seria a língua franca da ética da transição. Não por orgulho ou saudosismo, mas por facilitar os processos e liberar tempo de rinha para invenções frutificantes, ócio alegre e a infinita descoberta de si.

Na prática, portanto, almeja-se convergir a energia despendida no acesso à face impessoal da inteligência para dar cabo de tarefas necessárias consideradas impensáveis nos séculos passados: reformar uma constituição nacional em poucos meses, redesenhar completamente a atuação da governança pública, tornar os cidadãos proprietários efetivos das cidades, revolucionar o ensino no espaço de uma geração, para ficarmos nalguns exemplos óbvios.

Está em nossas discussões e mentes não mais contrapor ideias fundamentais sobre para onde ir, mas escolher a velocidade com que queremos ir.

QUAL SERÁ MEU FIM?

OFERTA

Se sua editora atua no mercado jovem ou do ensino médio, este autor informa ter bem encaminhado um livro de filosofia com o título Qual será meu fim? – O desejo e a cidade. Para obter mais informações, tratar em casa@tourobengala.com.

SINOPSE

Sem encostar na história da filosofia, nem tratar de teorias disso ou daquilo, mas citando o exemplo de homens inspiradores como Sócrates e Jesus Cristo, o opúsculo pretende apascentar as práticas do autoexame e da crítica social a partir de problemas atuais, levando em conta a novidade digital e a exaustão das grandes cidades.

As narrativas de Sócrates e Jesus como epítomes do homem político bastam para uma apreensão filosófica sólida. Formam, através de um alicerce ético descomplicado, o patamar da independência e da voz ativa singular. Daí, se busca e se cria, administrada a sismografia do constrangimento psicológico e da incompletude mal aceita, as novas, necessárias e importantes possibilidades de autodescrição e felicidade.