sobre o sentido da vida

1 Coríntios 3 : 21

Não busque no do outro seu orgulho, é tudo nosso.

2 Coríntios 8 : 13

Não sofra se o outro se conforta, haja igualdade.

Parto destas expressões paulinas, por mim traduzidas em segunda mão, para entender melhor, via empenho poético, dois deveres fundamentais:

1) Renasço todos os dias da Jerusalém livre para, desde minha memória, colaborar a carne apurada na construção da Jerusalém cativa.

2) Trabalho na força dos corpos para cultivar e criar, na Jerusalém cativa, os sinais da Cidade de Deus, que as artes componham união na diversidade.

O tarô que oferta Santo Agostinho, dizendo haver profecias acima, de uma parte, e acima e abaixo juntas, de outra, conforta o cristão de ignorar o sentido da vida. Não havendo profecias reservadas exclusivamente abaixo (Jerusalém cativa), o tempo encarnado do Espírito, tempo salvo e crismado na Paixão, exime-se de confusão ontológica ou caos maligno: diz respeito ao aperfeiçoamento individual em voz e ofício, mas também à engenharia de uma adequação: que tudo seja nosso pois não há, em verdade, desigualdade.

Anri Sala no IMS-SP

Se puder criticar a novidade digital por uma perversidade retardante, não de todo isenta de paradoxal conforto, assim o faria: cedo meu juízo ao império da referenciabilidade exógena desde que as facilidades advindas não me desanimem nem me afastem do eventual cavocar poético do entendimento. Abra-se alas para tanto!

Vamos formando craques gerações em obediência. No entanto, de um modo ainda pouco descrito e examinado, o exercício incerto da apreciação singular chega-nos não apenas ingrato, mas mesmo estigmatizado. Que sorte de vítima ou otário pretende, hoje, pensar por si, ou ao menos agregar insuspeito valor ao pensamento coletivo?

A tarefa, primordial para a publicação da voz própria que nos carimba a maioridade do estar, incrementa a inteligência universal, mas encontra-se hoje em vexaminosa estagnação, quando não baixo a perseguição tácita e aflita do custo de oportunidade, ou de um utilitarismo entre aspas, que anuncia um mundo de mais amplos e frequentes consensos sem dar, com a outra mão, o estímulo e o respeito aos antigos saberes e fazeres.

Resta a generosidade dos que se formaram pensando na realidade analógica e a resistência alcoviteira de alguns protégés dos establishments no meio de um regulado deus-nos-acuda a compensar o charme da disciplina em pleno acato com o desdém por qualquer coisa que tenha história.

O prejuízo é óbvio porque a inovação a valer é produto das tradições assumidas com integridade, incertezas junto. As vantagens, quando saímos dos previsíveis vaivéns diários, tornam-se exercício complicado de aceitação, malabarismo gregário de regeneração positiva num organismo em pacto agudo de anti-faustos.

A arte contemporânea, além do viver melhor o melhor possível e falar disso, tem, em sua vertente isolada e exibicionista que engendra o mercado de objetos exclusivos mas impacta o pensamento atual tanto ou menos que um bloco de titio-vovô, escusada sobrevivência entre nós não artistas nem marchantes. Ela perdura a duras e estrambólicas penas sob os pretextos nem sempre compráveis das ‘exposições das diferenças’, das ’exibições curiosamente plurais’, das ’coletivas de jovens do mundo’. Ocupam espaços consagrados ao público da cidade e são devidamente amaciadas pela tutela de ‘pedagogos’, a ponte-pano entre a idiossincrasia de um criador que poderia ser um pasteleiro mas não é, e nós, cuja fome por arte não é a fome por novos objetos (se nem meu Goya eu digeri), mas uma fome de pensar. E hoje, mais que nunca, fome de pensar num paralelo construtivo ao festival da referenciação exógena das prateleiras, que sinalizam o gostável sem reflexão em troca de obediência.

Seu produto nos parece estranho porque não compõe nenhuma das facetas práticas do lazer, este que compramos nas mídias, nos serviços e nas reuniões. É a diversão culpada de quem não quer parecer habitante da ralé ignara, das elites formadoras que não querem parecer simplórias, dos intelectuais que carecem de afirmar sua diferença amarga falando bem ou mal do que já não interessa a ninguém.

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Instalados no prédio do InstitutoMoreiraSalles até 25 de março estão oito trabalhos de Anri Sala (n. 1974), artista albanês presente nas bienais paulistanas de 2002 e 2010.

Dá uma aflição não ser apresentado a coisas que já estão acontecendo, sem título, sem sinalização, sem a indicação inequívoca da comédia ou da tragédia, sem a clareza sociodemográfica de um público alvo. Aquilo é para mim? Eu posso…? Como eu faço para saber se entendo aquilo, e assim, se gosto ou não gosto? Por que me dar ao trabalho de sofrer incertezas, ainda mais incertezas, justo hoje, quando tudo ficou claro como um raio, quando tudo enfim vem mastigado, explicado, em colaboração imediata com os aplicativos de orientação? O sentido do vale do silício não era esse? Um dia de domingo é uma imersão azeda na anomia do século 20? Consumo de diversão não é perda de tempo! É para ser um sorvete gostoso, um evidente sor-ve-te, e não um quasi sorvete, um meta-sorvete, um alter-sorvete, um pós-sorvete, mas um sorvete sorvete! (titio vovô !!), de preferência no sabor que eu sei que eu gosto? Por que, enfim, acreditar que, à exceção de turmas escolares involuntariamente presentes, alguém além de um infeliz solitário perdido no mundo sem amigos nem parentes importantes perderá tempo expondo-se, no horário de lazer, a algo sem título, sem evidente sinalização, começo meio e fim, nem bandeira de filiação? Aquilo, afinal, era coisa do Corinthians?

A aridez da montagem, a falta de coragem para admoestar o público com um mínimo de sensacionalismo, faz mais difícil o trabalho. O aventureiro que arrisca perder um trecho do dia ali e sair sem ter o que postar pode, no entanto, apegar-se à forma explorada por Sala em transparente eleição: a música. É da estética maravilhosa do som, feito por e para humanos via instrumentos variados, e de sua vitória sobre um mundo em Morte renovada, de que trata a exposição.

Se atentarmos, perceberemos muitos modos musicais por trás das situações estranhas a que somos submetidos. Vale perguntar: se queria expor que curte músicas, por que não fez um playlist e pôs no face? Por que todo esse trabalho?

Difícil responder com facilidade. Parte do interesse nessa sorte de evento é entrarmos num aguçado espírito de aventura e saírmos provocados a pensar. São muitas lojas, vitrines e sinais ao redor, mas frequentar o desconhecido faz o cérebro crescer forte. A arte é enigmática, propõe jogos de interpretação e pontos-de-vista, convida a cogitar e existir nas motivações do artista, nas vidas secretas dos objetos, bem como nas motivações institucionais e assim políticas que os acolheu e curou. Quais as mensagens possíveis, e por que elas importariam urgentemente hoje?

O desconforto situacional incomoda. Tudo na Avenida Paulista é tão claro. Ninguém atravessa fora da faixa sem pesar as consequências. E ali, nas duas galerias de um prédio novo, o que poderia ser fácil descrever e facilmente gostoso de frequentar, atordoa, constrange, falta, me faz prestar atenção nas roupas das pessoas.

O aventureiro tem como ferramenta multívoca a generosidade, abertura alerta, o fio dos sentidos desencapado, e a oportunidade de co-criar, alongar os objetos, tornar-se ele também o artista, fruindo da parte boa de uma aventura que começou na Albânia. Na minha exibição de Anri Sala, o momento presente simplesmente não existe. A prova do tiro no pé do albanês, doravante meu colega faltoso, é a de que a música, querida, é a gravação de um tempo sem pausa, a evidência maior da pura ausência do presente: tudo na música já foi, ou está vindo. Eu entendo, pensando um pouco mais, que o título é irônico.

A música quer dizer sem palavras, logar sem logos. É timbre do afeto do instrumentista depurado pela prática, documentado em vídeo, reexibido como a oferenda de um pensador. O pensador não quer texto, que julga destemperado, elitista, arrogante, cronológico, datado, sintoma dos sábios. Para Sala, colega humano de difícil sensibilidade, toda compreensão é duvidosa, e nada está isento do filtro contingencial da tradução variegada e corrompível. Você percebe apenas o que bate numa tabela referencial e volta liso? Quando um lado do telão ganha lúmens a mais na intensidade do volume do saxofone, o que Sala faz é pedir para usar o telefone e anunciar, eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer.

O que é grande em Anri Sala? Seu respeito pelo músico treinado, símbolo do operário em sua beatitude sindical e sofrimento existencial, e pela infinita variedade da música ou da expressão da vida. O sexteto em nada ansioso faz música conturbadamente angelical, os tambores fantasmais são signo de que algo invisível e mágico perpassa o artesão e a ferramenta, será o amor, o saxofonista em Berlim mostra como é arriscada a vida entregue à arte, e solitária, e longamente insuficiente, porque inconclusa e variabilíssima.

O casal de namorados não renuncia nem abraça o desprezo mútuo. Pede que atentemos aos ofícios do grego e do judeu (emprestando a São Paulo sua figuração do yin e yang), presente em todo ser. Há conciliação sugerida na silhueta unida, mas não de todo confirmada. O que restou, para mim, foram os dois semblantes, atenção obstinada no baterista, caridade dialogal na mulher.

O punk do The Clash não foi exatamente ridicularizado, mas a experiência propõe que melodia é inscrição mnemônica nos nervos da tribo; somos elos de lembranças; aquilo que do sol nos protege também há de encantar e unir.

Pensam, as mariposas, aonde ir, ou somente em transmitir cifradas, benevolentes mensagens desde o profícuo, fincado reino de-entre os dias?

Ao fim de uma serpente escura, num cubículo apartado, simulam-se aulas entre gerações, palavras simples em contraste repetidas em respeito ao duro frio do aprendizado resistente, às matizes do saber e à escuridão do não saber, fragilidade capaz de acusar a diferença insuportável e nos tornar ao pó de onde viemos.

Manifesto Comunista e República Popular da China

No aniversário de 170 anos do Manifesto Comunista, duas tarefas se impõem:

1) Reler e comentar o texto de Marx e Engels bem como as ideias por trás; e

2) Olhar para a China, que, após uma série de esforços de Mao para cá, anuncia hoje (25) via Comitê Central do Partido Comunista a possível inclusão do Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para a Nova Era na Constituição do País.

Pronunciando pelo Presidente Xi em 2017 no 19º Congresso do Partido, o Pensamento de Xi tem 14 pontos (adaptados aqui em segunda mão do inglês):

1) Liderança do Partido sobre todas as formas de trabalho da China
2) Interesse público centrado nas pessoas
3) Continuidade na agenda de reformas estruturais
4) Inovação com tecnologia, sustentabilidade e compartilhamento
5) Povo no poder
6) Governança nas regras da lei
7) Prática do Socialismo raiz comunista
8) Garantia e melhora da qualidade de vida via desenvolvimento
9) Harmonia entre humanos e natureza
10) Segurança nacional forte e holística
11) Exército do povo sob controle estrito do Partido
12) Promoção da reunificação nacional (Hong Kong e Macau)
13) Comunhão pacífica do povo chinês com o ambiente internacional
14) Exercício da disciplina e da governança

Olhar para a China não apenas pela direção que lhe confere o Manifesto 170 anos depois, mas por ser, hoje, aquela a mais interessante e forte economia do mundo. País que gerou ~ 126 GW de energia fotovoltaica em 2017 (o Brasil tropical, com 160 GW de capacidade instalada, promete 3,7 GW para 2020). País que acaba de incluir, no juramento que devem prestar todos os funcionários públicos, o tão politicamente infrequente termo “beleza”. Sim, pois a sentença final do juramento diz:

… e tornar a China um país socialista moderno próspero, forte, democrático, culturalmente avançado, harmonioso e belo, e rejuvenescer a nação.

Se a China, que forma centenas de milhares de engenheiros de ponta todos os anos, estiver a entender deveras de que se trata a nova era, e tudo indica que sim, os países em desenvolvimento têm um novo modelo onde inspirar sua política e suas aspirações.

dois poemas: hilda hilst

O vocábulo se desprende
Em longas espirais de aço
Entre nós dois.
Ajustemos a mordaça
Porque no tempo presente
Além da carícia, é a farsa
Aquela que se insinua.
Faço parte da paisagem.
E há muito para se ver
Aquém e além da colina.
Há pouco para dizer
Quando a alma que é menina
Vê de um lado o que imagina,
Do outro o que todos veem:

O sol, a verdura fina
Algumas reses paradas
No molhado da campina.
Ventura a minha, a de ser
Poeta e podendo dizer
Calar o que mais me afeta.
Ventura ter o meu mundo
E resguardá-lo das cinzas
Das invasões e dos gestos.
Ah, poderiam ter sido
Encantados e secretos
Aqueles brandos colóquios
Que outrora se pareciam
Às doces falas do afeto.

* * *

A Aldous Huxley

Agora, meus senhores
É preciso dormir.
Embora muitos não saibam
É cada vez mais difícil
Sorrir.

Agora, meus senhores
É preciso dormir.
Minhas senhoras e mães:
É preciso esquecer
de parir.

Temos um mundo novo:
Traço, aço, espaço e cor.
E estruturas infantis
Garra e pupila
Para o amor.

Agora, meus senhores
É preciso dormir.
E que o sonho não tarde.
Azul e rosa e gaze
Repetindo comigo:

Azul
E rosa
E gaze.

* * *
ambos do livro Roteiro do silêncio (1959)
* * *

Mania e má consciência dão os tons de ‘Trama fantasma’

Quando vai começando, em seu terceiro ato, a bifurcar a vereda central de seu enredo, a irmã governanta pergunta ao herói: devo mandá-la embora? O herói nega. A forma (interpretação e direção) é entretanto complexa o bastante para não esclarecer se ele hesita porque quer, ou hesita porque não quer.

Cada nova musa, entende a irmã, é despachada quando o herói, casado com a obra, pretende a companheira exaurida, embora bela e quase perfeita. Só não faça dela um fantasma, reclama a gestora. Ele silencia.

Imaginamos sucessivas, as mui afins modelos consortes do artista tombando, recusadas, contra tão solene e amarga muralha. Por que não param?

“Tanto a salvação quanto a punição do homem”, diz Tolstoi, “jaz no fato de que se ele viver no erro, pode iludir-se a fim de não ver a miséria de sua própria posição.”

Posição. Um passinho à direita? Um passinho para trás? Três dedos menos de barra? Situação, postura e navegação são os temas da fita velazquiana na forma e machadiana no conteúdo Trama fantasma, escrita, dirigida e co-fotografada por Paul Thomas Anderson (Punch Drunk Love).

Na tocante e deslumbrante peça de câmara, Daniel Day-Lewis (Sr. Woodcock) e Vicky Krieps (Alma) encenam a agrura do equilíbrio no espaço do cinema. O casal tombará, outra vez, em extrativismo e abandono? Ou para em pé e dá frutos?

Discreto nos gestos e ciclópico na psicologia, o drama remete aos pares românticos da literatura do XIX, e aos avós e à tradição da elegância difícil. Difícil porque costurada, nas fímbrias da nobreza e da decadência, à Arte e à fragilidade em estado de polida maioridade.

††

Quem lembra Tolstoi é José Luiz Passos em seu Romance com pessoas, fértil investigação, e de muitas faces, sobre a obra de Machado. O ganho de consciência do homem no erro do russo pode nunca vir, tornando sua “denegação ruinosa” colapso contundente, seja na ilusão do poder sobre o outro, seja na ilusão da submissão a alguém. Do objeto do romance do XIX para o XX, diz Passos que

parece ter sido a formação e a deformação da pessoa moral, que delibera, evoca, julga e acaba por compor, diante do leitor, um retrato complexo da relação que o sujeito mantém consigo e com a comunidade. Oferecer, pela linguagem, o rumo de uma experiência humana particular e cambiante, no momento mesmo em que ela acontece, é a contribuição mais fundamental deste gênero.

Alma e Woodcock, quando encontram-se, vivem a inércia de um encaixe fortuito. Vinham de sítios e em dinâmicas distintas mas suficientemente compatíveis para encetar dança passageira. À perda do torque, aponta e preocupa o desequilíbrio que martelará caso os corpos não despertem para a nova situação. Novas posturas e táticas de navegação haverão de seguir se o sentido for o fruto.

Na sintaxe fílmica, a graça e a destreza com que se dá tal ajuste é mérito de uma direção que tira do jogo de cena sugestivo e lacônico, da direção de arte de pintura acadêmica, e das atuações transparentes e livres de imperfeições, a boa e velha, mas sempre refrescante, fatura dos clássicos. Faz Anderson em Trama… cinema contido, discreto – mesmo tratando da pujante moda milionária – belo e de sagaz humor.

Perceber Machado de Assis num filme de 2017 que se passa na Inglaterra dos anos 1950 não deixa de ser curioso. Para isso também serve nossa exposição aos objetos de arte: ligá-los de modo insuspeito e aprender com surpresa sobre a vida no mundo. “Na literatura brasileira”, segue Passos,

a consciência moderna nasce quando o primeiro dos seus heróis [Brás Cubas] é incapaz de solucionar a dúvida sobre os motivos da conduta alheia. Se não prestarmos atenção a esse estratagema, perdemos de vista o veio mais sutil da nossa primeira modernidade literária. E para tentar responder à minha própria pergunta sobre como podemos, e às vezes devemos, tratar personagens de ficção como pessoas, proponho que voltemos a um tema que marca sua produção como romancista desde o início: a representação da consciência atribulada pela desconfiança, ou melhor, o herói ameaçado pela própria imaginação da malícia. Aqui se encontra a desunião da pessoa consigo.

O ponto alto da literatura de Anderson é incutir, indo além de Machado, a mania e a má consciência, em doses e expressões variadas, tanto no herói quanto em sua musa-coluna. Este herói, moderno porque concentrado num ofício, seguirá consertando o mundo conquanto seja consertado. Woodcock e Alma superam a desconfiança ao ficarem fiéis a suas substâncias essenciais ou vetores de contingência mas cederem, em impulsos aparentes porque maquinados de provocação e redenção, naquilo que os poderia desunir mas não desune: ele e ela amam, apesar de se usar pouco, nada menos que um leão.

CSC [beta]

E se o que entendemos por cidadania fosse produto de um esforço de localização entre seis modos? Bem estar, ou estar situado em equidistância aos seis modos indispensáveis à cidadania seria:

1) ser capaz de descrever, justificar e fruir seus valores e funções

2) participar ativamente de suas dinâmicas de adaptação e crescimento

Dois atos, como vemos, práticos discursivos, propositivos ou responsais, i) esfriados na busca abstrata da mera conceituação, ou ii) quentes porque em atrito numa discussão para resolver um problema.

Esforço de localização, jamais superável, seres móveis e instáveis que somos. Será preciso, a cada confusão, grande evento ou fim de jornada que prepara a próxima, rebuscar as coordenadas. Novamente situar-se num local fora de seus domínios (posto serem caprichosos e vaidosos, os modos) mas ao alcance de nossos comandos e devassas.

˚ ˚ ˚

Bem. A vida é muito mais que cidadania. Esta é uma redução necessária para que a civilidade não suma, engasgada, morta, amofinada, no interior da urbanidade esquecida de critérios e senso. Quando escalo a trilha deslizante que me leva à cachoeira, dou bananas à cidadania. Ali, quero a ficção do príncipe selvagem, alucinado devorador de cogumelos incapaz de preencher um formulário.

Eis que a vida na cidade complicou-se. Nossa culpa fez dela uma entrega desmedida à função socioeconômica da força. Quem tenta enquadrar nosso cada instante numa célula de aferição em bigdata de fato venceu. Mas a vitória só foi possível dado o charme irresistível de seu ponto fraco: juntar-se a quem quer que esteja bem na foto.

Recuperar a dignidade plural do emprego da força. Nutrição, potência, postura, ato e consequência não estão, apenas, a serviço de uma carreira de sucesso, de artigos comprados para a inveja do vizinho. Devemos a força sagrada dos corpos alimentados pelos frutos da terra, também, ao exercício eclesiástico (em sentido largo) da aventura. Aqui, não há ranking, mesmo que haja risco. Não há salário, mesmo que a recompensa seja linda. Não há, tampouco, comparação ou competição, ainda que gostemos de nos superar e combater o marasmo com ineditismo.

A dignidade plural do emprego da força, no entanto, não virá com a tradução literal dos sonhos. A tradução, antes e infelizmente, é anti-poética, mais difícil e indigesta que a tradução literal. Os grandes culpados eram bonecos de olinda pilotados por nós mesmos. Ficou, ao mesmo tempo, mais fácil e mais difícil remontar o paraíso nos termos da conciliação. O divórcio não era apenas um gozo irresponsável. Era também a ilusão de consertar um erro com outro erro.

A tradução anti-poética dos sonhos requer a união de muitas Artes. Organização (em sentido largo) e equilíbrio, ou cada coisa em seu lugar além de nada sobrando ou faltando. O carnaval e o despertar trágico eram só mais um sabor de picolé?

Agora, contudo, resta a busca negociada de um amplo, semprevacilante equilíbrio. Nele, enquanto se ature, será mais fácil conceituar, discutir e decidir. Muitas das decisões que nos aguardam são  difíceis. Mas não será pedindo esse favor a alguém que ficaremos satisfeitos.

Organização e equilíbrio começam na primeira casa, o corpo do indivíduo. Conforme a prática se repita, um costume frutificante, generativo, pode nascer em rede. Situar-se pois, em mão dupla e acesso livre aos seis modos, é ativar-se de forma ligada (em rede) e autônoma (capaz).

LEG, JUD, EXE

Respondem tais três modos pela condução do serviço estatal, comprado por nós em comum acordo. Somos o Estado, ocupamos o Legislativo, orientamos o Judiciário e verificamos o Executivo. De novo, não é um boneco de olinda. Somos nós, sempre seremos.

IMP, ESC, IGR

Tais três modos respondem pelos quarto e quinto poderes, Imprensa livre, e Escola da qual ninguém se livra, mas que, numa fase da vida, é locus específico de formação mais ou menos dirigida. Igreja ponho aqui em sentido largo por tratar-se de apropriação idiossincrática, inventiva, no mais das contas reduzida ao cosmos em suas formas de silêncio, atenção, cuidado, cultivo e edificação.

˚ ˚ ˚

Buscar o centro exato do Círculo Situante Cidadão será tão vão quanto belo saber-se melhor hoje do que ontem, isto é, mais próximo, ‘mais equidistante’ dos seis modos, sabendo melhor descrevê-los e melhor usá-los hoje do que ontem.

Sou artífice de minha Igreja, assim como sou do Judiciário do meu país. Se necessário, cancelo um barzinho para meditar a São Bento ou Cosminho. Se necessário, não faço janta, peço um japonês e elaboro uma crítica a uma decisão do Supremo. Se necessário, pulo o futebol para interpelar o MEC quanto ao vício do vestibular, e não atendo, se necessário, a namorada para sugerir uma denúncia ao wikileaks.

Este breve, ligeiro, quase irresponsável esboço de teoria social tem, para além de sua missão primeira (tirar da bagunça mental um improviso quem sabe útil e me forçar, redigindo, a entendê-lo ou quase), uma missão segunda: provocar no leitor o autoexame: estou em dia com o bem estar cidadão? Situado estou em equidistância dos seis modos? Considero-os inescapáveis ou estranhos? Sou capaz de descrever, justificar e fruir seus valores e funções? Participo ativamente em casa, na rua e na cidade deste estado do Brasil, de suas dinâmicas de adaptação e crescimento?

Declaração de eleitor

Porque:

1) Desde o impedimento popular da Sra. Presidente Dilma Rousseff o governo federal assumiu viés centrista;

2) O viés centrista, por natureza, trabalha pelo bem da transição, impondo, antes de agendas, o temperamento da ordem civil;

3) Usamos, cidadãos e empresas, o temperamento da ordem civil para contrastar e discutir alternativas aos problemas centrais da Nação;

4) Tais alternativas serão, daqui em diante, desenvolvidas e apresentadas, na forma de concorrentes planos de governo, por duas oposições ao centro atual;

5) E porque não diremos situação versus oposição, mas oposição versus oposição,

eu, na qualidade de cidadão e livre pensador, proponho as seguintes chapas, sendo elas duas e apenas duas para evitarmos o desperdício de tempo e paciência em desvios, delírios, falsos problemas e pequenezas:

Chapa AV: Geraldo Alckmin + Luislinda Valois

Chapa GH: Ciro Gomes + Fernando Haddad


Porque:

1) Alckmin é um gestor sério e provado, mas precisa, a seu lado, dalguém a lembrar-lhe do que foi feito o Brasil. // A história de Luislinda é mais bela que a de Lula. // O impedimento popular da Sra. Presidente Rousseff não foi bem aceito por uma minoria, entre ela as próprias mulheres e alguns adeptos do lulismo. // Estes talvez encontrem em Luislinda, assim que ela puder falar serena e sinceramente, o aconchego de uma representação autêntica, popular e sênior, no Executivo;

2) Ciro tem cacife para barganhar os votos de Lula no Nordeste (se Luislinda não o fizer antes). // Ele pode usar o fato de ser esfinge ideológica em favor de um discurso pragmático, tendência irreversível. // De pulso e fala firmes, compensa a hesitação preferia-não-ser-político do professor Haddad, que, por sua vez, tem charme e seduz a militância jovem. // Com ele a chapa evoca o novo e o vigoroso, e talvez construa num vazio ainda sem nome da expectativa nacional;

3) A chapa AV tem contra si o fantasma do continuísmo, o velho mais do mesmo capaz de unir o país em repulsa e escárnio. A favor, tem os cofres sãos de São Paulo e uma mulher negra juíza e neta de escravos. // A chapa GH tem contra si a verborragia sebosa que derrubou a esquerda quando esta trocou compromisso por cinismo. A favor, tem o sonho de refundação, em novos termos e cores, do projeto petista de dignificar a política brasileira e levar o povo ao poder. // De lado a lado, as duas oposições tem dentro de si seus piores inimigos. Quem os podem derrotar são suas próprias lacunas, teimosias, maquiagens marqueteiras, falta de humildade e de autocrítica, promessas vãs, argumentação leviana e mentiras deslavadas e ridículas que insistem em contar, deturpando a história e embelezando os fatos como se esta fosse a pátria da burrice e do esquecimento.

dois poemas: edimilson de almeida pereira

DA CERA

a proibição deu-se a ver escrita. antes era tudo conversa de inocentes. agora a escrita fala no corpo que ruiu sob os estrados. um livro se escreve agreste e quem o fala regressa do garimpo apenas com a garimpagem. a capanga em que recolheu o melhor do dia, rompeu-se; sobre ela o infortúnio atira seus mascates. a mina e a língua cultivam uma cabeça para habitar os corpos que maduram nas árvores.

* * *

JOÃO. DE DEUS

João de deus não vive
do seu.
Vive do alheio.
Para dar, em graça,

um assobio de barro,
um pião.
Seu ouro,
sem arca, é para os

pobres.
Ele diferente deles,
e dos ricos,
arca com o mistério.

Labor sem causa
de quem,
não tendo casa, vai
à caça

pelos outros:
um boi rosado, uma
linha
entre bordados.

João. De deus
se nutre
e sua forma não cessa.
Junta-se

à farsa da vida,
aos farsantes de cepa.
João, menos
que nome,

uma letra.
Faz-se em graça. Para
si retira
o último coringa.

* * *
do livro qvasi (2017)
* * *

Boquinha versus corpo

No informativo e bonito documentário Yoga – Arquitetura da paz, deparamos com aspectos estarrecedores do estilo de vida desses mestres da mente e do corpo. Ultrapassam os cem anos sem qualquer complicação de saúde, desejos e vontades sob o controle estrito da renúncia enriquecida pela meditação. Em verdade, chegam aos cento e poucos anos enxutos, fortes, em plena comunhão espiritual com a matéria, sem reclamar das miudezas de poder e frustração que tanto dano causam à fortuna do antigo ocidente. Um ocidente envergonhado que nos deu o aspirador de pó e os aparelhos de laser disc, mas sobretudo as guerras modernas, que confundem virilidade com a colonização do outro.

No capítulo dois, seção cinco, do meu mais recente livro, escrevo:

Homens e mulheres brilhantes, honestos, dedicados à família e ao trabalho muitas vezes passavam da juventude à vida adulta sem sequer um dia parar para cuidar da respiração e da alimentação como um adepto em busca do Ser. Julgavam-se ligados graças a gadgets e aparelhinhos, mas não estavam ligados coisa nenhuma; estavam, se tanto, presos. Você pode correr vinte minutos numa esteira ouvindo lambada enquanto pensa no seu patrão ou na sua amante, mas isso não será, nem por decreto, cuidar da respiração. No médio e no longo prazo, dirá o adepto, este sujeito não saberá dizer se vive a vida alegre e sem arroubo dos seres ligados, ainda que seus índices de colesterol estejam na média e sua rede social bombe de amigos.

Planos de saúde, consultórios de psicanálise, tabelas de performance, medicação psiquiátrica, hábitos deselegantes, gastos que geram mais gastos, consumos exibicionistas, produção de lixo, desprezo ambiental, hipocrisia familiar, não raro, seriam os reais sucessos de uma sociedade despreocupada em cogitar, profunda e autenticamente, a disciplina crítica da força motriz dos desejos. Lembremos o farmacêutico mineiro tão discreto e assertivo, poeta cuja inspiração e realização casaram-se, na história da literatura brasileira, como a aliança quase perfeita da eficácia semiótica, humildade na partida, e impacto na chegada, Carlos Drummond de Andrade, em seu manifesto iogue tão famoso e estudado chamado ‘Máquina do Mundo’. Neste poema, ponto alto do brilhantemente irregular livro Claro Enigma, ao deparar-se com a abertura do ‘reino augusto’ da máquina do mundo, sorte de aleph moderno, Drummond diz,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando a colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Quando repele a máquina do mundo, o poeta revela, em gesto, a alma que, porque soube renunciar, está agora disposta à recomposição miúda.

É lícito dizer que a vida do iogue, tal e qual exibida no documentário, será um bocado difícil de realizar neste atual estado de distrações e tentações. Mas os exemplos e as lições de vida servem não como algoritmos dogmáticos de performance, mas como inspiração para melhorarmos um pouquinho. Um pouquinho todos os dias, recusando, via raciocínio e dados, os hábitos arraigados pela ignorância e pelo comodismo frouxo. Hábitos que tornaram as grandes cidades circos entristecidos de consumo impulsivo, manadas zumbis e aculturação pelo supérfluo e pelo esquecimento.

Se a respiração, treinada e exercitada, é o primeiro passo para o reencontro do corpo com o Ser (termo corrente num dos pilares do hinduísmo, os Upanishads), o outro passo, tão importante quanto, é a alimentação, repensada em suas virtudes energéticas e processuais.

Hoje, a alimentação comum sofre da inércia empobrecida que corrompeu o século XX com a lógica imoral do domínio mercante, quando a assim dita praticidade empurrou-nos, literalmente goela abaixo, as falsas gostosuras das besteiras processadas e as falsas recompensas da gastronomia luxuriante.

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Reverter prejudicial postura exigirá novos paradigmas na ponta da produção, cultivo e comércio. Mas a indústria, escorada na busca insensível do lucro, dificilmente dará o braço a torcer sem a pressão pública e informada na ponta do consumo. Nós, sentados à mesa ou no chão, comendo com garfos ou com a fabulosa pinça dos dedos, ditaremos o progresso da indústria da comida, negando e acusando disciplinada e coletivamente os maus alimentos, as más práticas e as seduções que nos pretendem fazer crer que a comida acaba na boquinha. Não. A comida se come com todo o corpo. O que parece irresistível à boquinha pode ser, ao fim e ao cabo, uma traição contra os órgãos, células, tecidos e sistemas sanguíneo, ósseo, digestório e nervoso.

Cá no Bistrô Bengala, comemos com o corpo. Conversamos com a comida, apresentamos os ingredientes uns aos outros como novos coleguinhas de classe e temperamos, no colorido doce e picante das muitas manhãs que florescem dia adentro para despertar, aquecer e ativar o corpo, nutrindo sem pesar nem condená-lo à leseira arrependida.

Nosso Berço de broto tropical leva:
– Broto de alfafa fresco
– Abacaxi
– Figo
– Raspa de limão
– Azeite extra virgem

Nossa Bala de coco leva:
– Lascas de coco
– Flocos de aveia
– Uvas-passa
– Goiabas desidratadas
– Páprica picante
– Gengibre ralado
– Cacau em pó
– Amendoim
– Mel de laranjeira
– Tudo empapado na infusão de canela

Bom apetite!

Nota sobre o novo do del Toro

And hide not thy face from thy servant; for I am in trouble: hear me speedily.
(Salmo 69, 17, AKJV)

Perto do clímax da bela fita vencedora do Leão de Ouro (Veneza, 2017), The Shape of Water, o militar Strickland (Michael Shannon) vive uma anagnórisis: a súbita revelação de que o Homem Anfíbio (Doug Jones) é, na verdade, um Deus.

Cai o mundo de Strickland e ele nos dá a entender, olhos estupefatos diante do falso inimigo, que todo esse tempo defendera um mero simulacro, um castelo de areia, e não a verdade.

A verdade – a divindade, e assim a intocabilidade do Homem Anfíbio – quem a defende na narrativa do diretor de O Labirinto do Fauno (Hugo Award, 2007), Guillermo del Toro (n. 1964) é Elisa Esposito (Sally Hawkins), órfã, muda, solteira e faxineira de um laboratório secreto do governo Norte Americano.

O ano é 1962. Em plena Guerra Fria, Esposito desafia a segurança para resgatar o Homem Anfíbio, alvo de um experimento obscuro, e devolvê-lo às águas. O faz por amor, obstinada e ingênua, mas antes que o pior aconteça.

Não quer Esposito trair os EUA em proveito da União Soviética. O infantilismo geopolítico sequer habita a cabeça da simplória. No entendimento da funcionária, a humanidade do suposto monstro apenas supera a ambição exclusivista do experimento. Ou: aquilo que haveria de aprender a ciência com a destruição do Homem Anfíbio importa menos que sua graça em vida: lições de força e cura, sensibilidade e juízo.

Quem é Homem Anfíbio? Ou, nos termos sulcados no escudo do Arcanjo Miguel, QVIS VT DEVS? A referência religiosa não está lá. Mas não se trata de uma aproximação forçada. The Shape of Water atualiza o mito do herói que aniquila a besta interior e afirma: ninguém será mestre de um escravo outro. Quem é Deus? Eu, no fio da minha espada, contra o medo e a servidão.

Na cena do pôster estamos num instante após o clímax, bela e fera afundam, salvas, e Esposito perde um dos sapatos antes de aprender a respirar na novidade aquosa. Quem notou ali a alusão ao episódio dos argonautas acertou.

No início da famosa aventura grega, quando um barco aparece pela primeira vez na história da ficção literária, o comandante perde uma das sandálias para o mar antes de reunir a trupe e singrar as águas. Sua missão é recuperar o velocino dourado – alegoria da fé, ensinada por Esposito ao Homem Anfíbio quando leva a mão ao coração do monstro assustado.

fala e água: ao chocarem-se
em continentes de carência,
o conteúdo dita a forma.

diz o apropriado poema Carta aos anfíbios. Esposito e H.A., abraçados afundando, são a perfeita aliança da estrutura helicoidal dos cromossomos da jornada heroica do homem e da mulher no cosmo. Sem fala, a faxineira dá ao mundo o testemunho do alicerce volúvel mas de firme sentido quando escolhe rejeitar a crueldade desentranhada de razão.

The Shape reafirma a destreza original de del Toro para efeitos in camera, esforços formais teimosamente artesanais, à semelhança do colega contemporâneo Michel Gondry (n. 1963). Nos dois casos, faturas maestras excêntricas e atuais da arte, a teimosia perderia o porquê amparada não fosse por tão trabalhado argumento: a potência mercurial da mensagem, órgão pleno e certeiro da construção do mundo, perene através de ricas reinvenções do mito, prescreve o talhe do objeto, e sopra vida à imaginação.

Variação sobre o arroz com feijão – I

Um bom dicionário de português brasileiro não mostrará menos que 150 entradas para o verbete feijão. Feijão-baru, feijão-congo, feijão-corda, feijão-cru, feijão-peludo, feijão-mula. A lista impressiona.

No entanto, um mercado comum não disporá além de duas ou três variedades em suas gôndolas, sendo em larga e curiosa onipresença o preto, o carioca e o fradinho a graçar.

Outro dia, achei num mercadinho expresso um saco do encarnado. Sorri e comprei. Foi ‘o’ assunto na fila do caixa. Trago amiúde o branco, parrudo e pedidor de mais alento no pré-molho. Aqui aliás a dica. Ninguém precisa de panela de pressão para fazer feijão. Basta ser generoso no pré-molho.

Fato é que anda o espectro do feijão demasiado estreito, estigmatizado por certas presenças monopolizantes. Por ser caractere fundamental da comida brasileira, estranha não se ouvir falar em sart-ups de feijão. A ideia, simples mas charmosa, poderia contar com a seguinte formatação:

Um ponto comercial aberto no nível da calçada chamado por exemplo Três Feijões. A ironia é essa: entrando, o consumidor dá não com três mas com centenas. De onde, então, viria o três?

Seria a start-up conduzida, desde a traseira do fogaréu a lenha, pela tradição de três cozinheiras, também pilares da mesa atlântica e sertaneja: uma das Minas Gerais, uma da Bahia, uma caipira. Três modos à brasileira de abordar o feijão, com suas peculiares picâncias, texturas, temperos, acompanhamentos e acabamentos.

No mix de produtos da loja, feijões para comer na hora, em diversas formas, mas principalmente para levar para casa, congelados em porções para um, dois, três ou quantos forem.

Em São Paulo, cidade de estudantes, iniciantes, aventureiros em quitinetes, casais nas primeiras horas, a loja teria, creio, um bom giro, retornando o investimento em menos de um ano. Além disso, toda uma miríade de modismos e experimentos, bem à moda do orgulho max-min da geração digital, carregaria o feijão às possibilidades lúdicas da rica leguminosa, formando tira-gostos, doces, quitutes profanas, invencionices k-pops, neo-glitch, proto-grunge, sertafunk, glitter, dark, pós-punk, etc.

Uma loja de feijão. No Brasil. {{ NSSP }}

Neste arroz com feijão, usei:
– Feijão preto
– Bifun (macarrão de arroz)
– Batata-doce
– Munguzá (canjica amarela)
– Missô
– Linguiças de soja

Temperei com:
– Cúrcuma in natura
– Seu irmão (da Cúrcuma), o Gengibre, in natura
– Um pau de canela
– Três bagos de pimenta cumari
– Páprika picante
– Shoyo
– Curry

Bom apetite!