do fato de ser possível obter prazer estético de diversas fontes não decorre que se trate do mesmo prazer, seja quantitativa, seja qualitativamente; do fato de que se possa obter prazer estético tanto do texto lido no cartaz do metrô de londres quanto do poema ‘in a station of the metro’, de ezra pound, não decorre que ambos tenham o mesmo valor. pensar o contrário equivaleria a supor que, do fato de que os seres humanos são capazes de se deleitar com o som do vento nas copas das árvores, de habitar cavernas e de comer frutas silvestres, decorre a inutilidade da música, da arquitetura e da culinária. não creio ser necessário insistir nesse ponto

lendo a crítica: ficção e confissão

Antonio Candido

(Ouro sobre Azul, 2012)

Ficção e Confissão é um desses sucessos típicos da empresa editorial indisposta a negociar sua fé no necessário. Reunião de quatro ensaios sobre a produção de Graciliano Ramos, complementares, aqui e ali imbricados, mas todos eles vítimas felizes da intuição, originalidade e destreza do mestre Candido, o volume se aproveita da enxuta produção do analisado e destrincha com nitidez a técnica e a visão de mundo do universalíssimo autor alagoano, em menos de um dedo de lombada.

De saída, Candido sugere ao leitor “aparelhar-se do espírito de jornada, dispondo-se a uma experiência que se desdobra em etapas”. Isto porque Graciliano, em sua jornada de escritor, vai da ficção mais enredada à autobiografia plena em apenas sete livros, sempre experimentando e nunca se repetindo: “para ele, uma experiência literária efetuada era uma experiência humana superada.”

Se os livros são entretanto diversos, Candido pede que atentemos para a “unidade na diversidade”, pois a obra traz a “clara geometria do estilo” e as “correntes profundas do desespero” que a tornam coesa. Com efeito, a panorâmica de Candido sobre a entrega de Graciliano nos faz enxergar, claro e irreversível, qualquer coisa como um épico poema de sete fases.

Caixa de areia estilística onde o autor faz “exercício de técnica literária”, o romance Caetés seria a primeira fase. Livro “apurado no estilo, sumário na psicologia”, donde insuficiente. Mas já brotam ali, mostra o crítico, o “desencanto seco” e o “humor algo cortante” do romancista “profundo e doloroso” das obras posteriores. Destaque para nota de Candido para a capa da primeira edição, desenhada e composta pelo artista e poeta alagoano Tomás Santa Rosa. O desenho “lê” o romance com precisão, pois sugere “não apenas o enredo, mas as ambiguidades do texto, vinculadas à ironia criadora de Graciliano Ramos”.

Na segunda fase, a obra-prima de Graciliano aos olhos de Candido, São Bernardo. Livro “curto, direto e bruto”. O crítico esquadrinha São Bernardo com gosto e vigor. Resume a vida de Paulo Honório numa análise sumária e rica que ultrapassa a radiografia da composição ou o discernimento dos “mecanismos da criação” para atingir seguro e arrojado os picos da especulação psicológica e da proposição filosófica. Sobre a desgraçada inclinação do protagonista ao jogo do capitalismo, por exemplo, Candido diz,

o sentimento de propriedade, mais do que simples instinto de posse, é uma disposição total do espírito, uma atitude geral diante das coisas. Por isso engloba todo o seu modo de ser, colorindo as próprias relações afetivas. Colorindo e deformando.

Angústia, na terceira fase, é livro “fuliginoso e opaco” em que o “leitor chega a respirar mal.” Como num truque de mágica, Candido tira da manga o poema ‘A mão suja‘, de Drummond, citando-o no meio da resenha (desconfio que esse tipo de procedimento de licenciosa comparação era incomum na crítica estabelecida), e de repente todo o drama do personagem de Graciliano, em oito exíguos versos de Drummond, ganha luz e relevo. Angústia, segue Candido, é “nojo, inércia e desespero” (a inércia, por sinal, é “amarela e invicta”), características do personagem mas que “se estendem por todo o livro”, pois Luís da Silva “assimila o mundo ao seu mundo interior”. Candido aproveita para expor uma “explicação sexual” para a “consciência estrangulada” de Luís da Silva. Três símbolos fálicos são pinçados do enredo (cobra, corda e cano) e jeitosamente amarrados ao elemento água, associando a “virilidade espezinhada” da personagem a seu “desejo bloqueado de viver.” Se Angústia não é para Candido o melhor livro de Graciliano, é o mais complexo. E é aqui que ele aproxima o alagoano dos dois autores que virariam lugares-comuns em sua vindoura fortuna crítica, Kafka e Dostoiévski.

Haveria uma quarta fase no volume de contos Insônia, desprezada por Candido. “Medíocres”, as narrativas breves não conseguiriam “afundar-se sinceramente numa situação limitada”. O próprio Graciliano, na dedicatória que faz a Candido num volume de Insônia, diz que os contos saíram “chinfrins”.

Quinta fase, Vidas Secas. Aqui a crítica de Candido chama a atenção por dois aspectos. É a que mais cita outros críticos (vale-se largamente de observações de Lúcia Miguel Pereira, Almir de Andrade e Otto Maria Carpeaux) e é também a mais poeticamente fresca e desimpedida, talvez espelhando um certo despudor, inorgânico e corajoso, na composição do próprio Vidas Secas. As imagens de Candido variam soltas e miram longe. Graciliano “esbateu-se no ramerrão das misérias diárias e o fez irremediavelmente doloroso”. O livro é feito de “polípticos medievais”, de “pequenas telas encaixilhadas”, é um “romance em rosácea” (imagem que empresta a Benjamim Crémieux). A história “não pressupõe refolhos, não devora”, e a

alma dos personagens, perquirida com amor e sugerida com desatavio, é apenas a câmara lenta do mesmo brilho que lhes vai nos olhos.

Num didatismo incansável, Candido resume novamente os três romances anteriores para deixar mais claras as escolhas do autor em sua jornada de maturação. Aponta a gradual supressão dos diálogos, que em Vidas Secas se extinguem, bem como a brusca mudança de registro de primeira, nos três livros anteriores, para a terceira pessoa em Vidas Secas. Quando refaz o rol de sofrimentos de Fabiano, o analista mostra poder absurdo de síntese e, usemos a palavra, de tans- ou recriação. Em novo lance de comparação insuspeita, Candido convoca Euclides da Cunha, e emprega citações elucidativas d’Os Sertões acerca dos “vínculos brutais entre homem e natureza no Nordeste árido.”

O livro Infância é a sexta fase do progresso de Graciliano Ramos, na qual o autor começa a abandonar a ficção para se apoiar nas memórias “da tenra haste da meninice”, e exibir sua aprendizagem desencontrada e progressiva num mundo não raro injusto, tirano ou simplesmente incompreensível. Mundo em que “humilhação”, “machucamento” e “machucaduras” (palavras de Candido) dão a tônica. “A consequência natural”, resolve Candido, “é o refúgio no mundo interior e o interesse pelos aspectos inofensivos da vida. Inofensivos e, portanto, inúteis. Sonhar, ler, imaginar o mundo na escala das baratas.” Aqui aprendemos sobre o “sistema literário pessimista” de Graciliano. O crítico sintetiza a filosofia do romancista ainda outra vez, e outra vez aprendemos: nada, ao menos para o Graciliano de Candido, “tem sentido, porque no fundo de tudo há uma semente corruptora, que contamina os atos e os desvirtua em meras aparências.”

Mas Graciliano vai preso. Na sétima fase do autor, lemos um livro póstumo sobre seu tempo de detento. Memórias do Cárcere apresenta, já sem qualquer ponta de ficção, o relato da “franja de inferno” a que o alagoano militante comunista foi relegado. Aviltamento, parasitismo, dissolução da integridade moral, medo, desespero, envenenamento das relações, promiscuidade, tortura física e formas repulsivas de perversão são alguns dos termos de Candido em sua leitura da obra final de Graciliano. O crítico acha o livro “desigual”, apesar de guardar “traços fundamentais da sua arte narrativa”, e tenta como que extrair, da barbaridade punitiva por que passou Graciliano, uma espécie de resolução redentora ao homem e ao escritor. A “teia de capitulações e desajustes sem saída” que ele via por toda parte do lado de fora das grades ganha nova perspectiva com a experiência da prisão. “Aumenta a capacidade de compreender e perdoar”, aposta Candido, e o “sujo viveiro do cárcere propicia, na obra desse pessimista, lampejos de confiança na vida.”

Foram muitas as análises de Graciliano desde Ficção e Confissão. A de Candido, porém, além de acessível, minuciosa, compacta e bela, divide com os livros de que trata a vibrante qualidade de melhorar e melhorar-nos a cada releitura.

dois sambas do adoniran

Epítome do caipira paulista clownesco a desafiar a civilização urbana, Adoniran Barbosa, pseudônimo de João Rubinato (1910-1982), filho de italianos natural de Valinhos, começa a carreira artística, depois de inumeráveis fracassos, graças à voz, potente e versátil, e à habilidade autodidata de cronista. Consegue emprego na rádio, com que citava e dava voz aos muitos tipos paulistanos em suas aflições afetivas e infortúnios materiais. Quando nota que cantar por acaso daria ainda mais ibope que a comédia, resolve compor suas próprias canções, e emenda uma centena de pérolas que o firmariam como um dos patrões do samba paulista, famoso pela dicção estampa de uma cidade que reiventava o português brasileiro. Adoniran canta e conta dos sabores e das durezas da vida do caipira presa ao que Antonio Candido diz “mínimos sociais e vitais”, os mínimos de quem perde padrões europeus para improvisar táticas de sobrevivência de forma rústica e não raro primitiva numa São Paulo de pobres indignos. A seguir, ‘Conselho de mulher’ e, numa roda com Elis, ‘Iracema’.

dois sambas do salgueiro

A seguir, duas belas faturas da escola tijucana e xangoniana Acadêmicos do Salgueiro: Bahia de todos os deuses (1967), e Do Yorubá à luz, a aurora dos deuses (1978), tendo este brindado a escola com o Estandarte de Ouro. O Salgueiro, que nos anos 1970 e 1980 ficou conhecido por resgatar e difundir a cultura afro-brasileira, teve, segundo a pesquisa de Mussa e Simas, “papel fundamental na popularização do samba de enredo”, sendo suas composições rapidamente assimiladas, memorizadas e cantadas pelas gentes nos morros e ruas do Rio.

Me agradam nestes dois exemplos, o andamento, cadenciado entre 130 e 140 bpm, as melodias, emocionantes sem pieguice, alegres sem melação, e sofisticadas sem maluquice, e, principalmente, as imagens e histórias que invocam seus textos, por despertarem minha curiosidade e fazerem-me aprender uma tantinho a mais da formação cultural do país.

dois poemas: poças falcão & ascher

o corpo, pobre corpo
esta choupana

e uma luz lá dentro
que o ama
que o ama

– Carlos Poças Falcão (1951). Poema do ‘Pequeno livro azul’, reunido no volume Arte Nenhuma (Poesia – 1987-2012), Opera Omnia, 2012

––

Proibida de fazer amor outrora,
a mulher, livre (graças à vitória
feminista) daquele pesadelo,
pode hoje livremente não fazê-lo.

– Nelson Ascher (1958). Poema do livro Parte Alguma, Companhia das Letras, 2005

assim, o absoluto nessas ciências não é apenas dado ‘conteudisticamente’ – nenhuma ciência poderia operar se seu conteúdo não lhe fosse trazido de fora –, mas sua fonte é totalmente terrena e positiva, o que em termos epistemológicos equivale a dizer: demonstrável numa base lógico-positivista; é a ‘personalidade humana em máxima abstração’. o conteúdo dessa abstração pode variar – desde o ‘ato de ver enquanto tal’ ao ato de contar enquanto tal e à operação lógica enquanto tal. isso não significa que o homem com todas as propriedades do corpo, alma e mente tenha se tornado a medida de todas as coisas, mas sim que o homem, na medida em que não é senão sujeito cognitivo, o suporte dos atos de cognição, é a fonte do absoluto. a origem do absoluto, em sua validade absoluta, necessária e obrigatória, pertence a este mundo

dois sambas de sinhô


José Barbosa da Silva (1888 – 1930), mulato magro, regular em gafieiras, pianista e flautista, foi uma das pontes entre a pompa europeizada das valsas e polcas harmônicas e a simpleza rueira do choro logo samba, nascendo este graças à informação melódica daquele mais o ímpeto percussivo afro e ameríndio e as agruras comuns da urbe precária, num movimento que seguiria em novas maneiras de usar os instrumentos do velho mundo mais o improviso marcador da cozinha nossa. Sinhô foi poeta encaixador e moteteiro, criador de verdadeiros hinos da primeira geração do samba, com Pixinguinha, Donga, China e outros. Narigudo e desdentado, diz o pesquisador Jair Severiano, “compensava a feiúra com uma lábia prodigiosa”. Namorador, teve cinco esposas e problemas com dinheiro. Abaixo, Mario Reis (seu aluno de violão) canta ‘Sabiá’ e Dorival Caymmi ‘Gosto que me enrosco’.

Saísse era topar o prejuízo
fábricas de alcantiladas britas

Fumasse era sacar-se fortuna
cantos de galos interrompidos

Jogasse era musgo na modorra
espelhos somos centelhas d’alvas

Caísse era noivar as chinelas
amalgamados jós & zé-ruelas

Levantasse era radiar a prece
cobre na volta zelo e mutismo

Calasse era ouvir chegar a justa
palavra ponte dobra qual sina

Comesse como um tatear contínuo
de mãos em mãos a sagrar tecidos

Sentasse eram colunas em pedras
– é com as costas que se respira –

Dormisse era dar no cume alívio
peito arado, campear o cacique

––

dois poemas

FÁBULA

Um pensamento pensado
até a total exaustão
termina por germinar
no mesmo lugar exato
sua exata negação.

Enquanto isso, uma ideia
trauteada numa flauta
faz uma cidade erguer-se –
é claro, sem alicerces,
mas ninguém dá pela falta.

Paulo Henriques Britto (1951). Poema do livro Formas do nada, Companhia das Letras, 2012

RESSACA

Também os barcos bêbados
sentem a ressaca.
Estrelas afogadas
acesas como sóis
espelham
inexatas
os olhos
dos faróis.
Entre sereias mudas
amores sem rota
navegam
sua carga
de derrota.

Ana Martins Marques (1977). Poema publicado na revista Escamandro #02, Editora Patuá, 2016

querido diário

Fica no 33 da antiga Rua São José a redação e a oficina do ‘Farol Paulistano’, primeiro jornal de São Paulo impresso em tipografia. Sai aos 7 de fevereiro de 1827. Antes, aos 22 de setembro de 1823, nascia ‘O Paulista’, manuscrito, redigido por Mestrinho, Antônio Marques, paulistano professor desde os quinze anos. Mestrinho é mais velho Juiz de paz, vereador, deputado provincial e vice-presidente da província. Aos 8 de janeiro de 1823, portaria do Ministro da Fazenda pede que se envie, em nome do Imperador, um prelo antigo da Imprensa Nacional até São Paulo, decisão revogada ante o bafafá da Constituinte. O ‘Farol’ circula até 1833, sendo acusado de abuso em 1829 (sem procedência). Sai, em 31x21cm, duas vezes por semana até 1829, e então três. No editorial de lançamento do farol, outro mestre, José da Costa Carvalho, Chefe dos Ministros do Império quando da promulgação da Lei 581 de 1850 que extingue a importação de escravos e Marquês de Monte Alegre em 1854, chama, em primeira do plural, “tão árdua quanto perigosa” a tarefa nossa da imprensa. Em 1988, sem interesse por diversas atividades, uni-me a outras três crianças e redigimos ‘O Paiolino’, jornal daquela temporada do acampamento montanhês Paiol Grande, para o qual realizei uma reportagem sobre a humilhação de quem deixava, no refeitório, a bandeja cair. Também desenhei um logotipo recusado pelos colegas e liderei o encadernamento e a grampeagem. Conforme vivemos, os jornais estão em servidores vários na internet, e replicamos suas páginas em nossos aparelhos. A redação está difusa: centenas de milhões de jornalistas publicam informação, análise, comentário, arte visual e humor várias vezes ao dia, e são diversos os métodos e ferramentas de que dispõe o leitor para organizar e regular, no tempo, seu consumo. Cada um lê um jornal, que pode sempre mudar, mas pode sempre melhorar. Lemos o que queremos, e lemos o que outros leem. Hoje mais cedo, participando de um seminário sobre ‘fake news’, percebi a ideia ainda pequenina mas, intuo, potente, de que vivemos a necessidade de pensar a descrença e a normalização do cinismo trabalhando junto à, e não duvidando da, inteligência artificial, enxugando e lapidando seus termos fortes (no que ligam e fazem perdurar os objetos caros) e neles insistindo em viva discussão.

o ‘boletim de ariel’ é o marco simbólico que anuncia uma nova geração de ensaístas, esta verdadeiramente notável: lúcia miguel pereira, augusto meyer, eugênio gomes, astrojildo pereira, afonso arinos sobrinho, barreto filho, carlos dante de morais, aires da mata machado filho, moisés velinho. a ela se juntará pouco depois a de álvaro lins, viana moog, cristiano martins, otto maria carpeaux (que a guerra e o exílio tornam escritor brasileiro), afrânio coutinho, brito broca, temístocles linhares, adonias filho, aurélio buarque de holanda, gustavo corção. todos eles, sem excetuar quase nenhum, prosadores que irão preferir como seu meio de expressão uma prosa tersa, quase neoclássica na sua maneira de ser discreta […] único gênero, conforme já se fez notar, que acompanha o gosto do público sem perder a qualidade literária, e, ao contrário, em cada situação nova recria essa qualidade, a tradição brasileira do ‘familiar essay’ persistia muito viva depois de joão do rio [com nomes exponenciais como] bilac, raimundo correia, guimarães passos, artur azevedo, coelho neto

dois poemas

ODOR DE FILHO BRANCO

estamos diante do espelho enorme que há na sala
(aguardou para saber se a equipe ganharia),
vejo com nitidez seu perfil, não vejo o meu

sua demora me confunde, afronta-me,
a tela mostra a taça do penta sendo carregada,
o capitão não esconde o que é nossa infantilidade

seu corpo de mulher branca se interpõe
entre meus olhos e o televisor, a camiseta laranja,
estampa porn star, subtrai o verde do gramado

sua mão estica a passagem para rotterdam,
deixa tudo à mostra (não ousa me chamar de pai),
seus olhos têm um azul que chega a me repugnar

Paulo Scott (1966). Poema do livro Senhor Escuridão, Bertrand Brasil, 2006

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PARA A MINHA POBRE FRAGILIDADE

Para a minha pobre fragilidade
Olhas, sem dissipar palavras.
Tu és pedra, mas eu canto,
És estátua, mas eu voo levanto.

Eu sei que o maio mais terno
Não é nada, aos olhos do Eterno.
Mas eu sou pássaro – a mal não leve,
Se sobre mim pousou uma lei mais leve.

– Marina Tsvetáieva (1892-1941). Poema traduzido por Aurora F. Bernardini na seleção Indícios Flutuantes, Martins Fontes, 2006

assumindo a forma do ensaio como uma atitude interna na ordem da percepção e, portanto, aceitando a diretiva adorniana de que ensaiar no pensamento é *estranhar* via o uso de repertórios irredutíveis a inércia do conceito, rompendo identidades que nos sufocam na excessiva abstração, dirijo-me agora para um relevo mais especificamente filosófico, mas mantendo no horizonte o ruído das grandes asas negras que assombram as fronteiras internas e externas (lovecraft) típicas da concepção gótica de mundo, cuja função na microdinâmica conceitual deste capítulo é impedir nosso sono (dogmático), e manter a vigília. afinal, do que temos medo?