um trecho de lima barreto

Toda a gente que lidou com qualquer espécie de administração, se não nos altos pastos, mas simplesmente em lugares convenientes de altas situações, sabe bem que pendor extraordinário para essa sabença de regulamentos têm os homens medíocres e as mulheres.

A primeira coisa que faz um amanuense de vocação é aprender todas as disposições do regulamento de sua secretaria, das demais repartições, não só os regulamentos, mas também os avisos explicativos e outros atos referentes.

A sua inteligência, sentindo-se por si mesma fraca, não quer ser de surpresa colhida no estudo ou na informação de um caso que, de antemão, não tenha para resolvê-lo três linhazinhas impressas, promulgadas, publicadas, adotadas pelas autoridades competentes.

Não se fia a sua inteligência nela mesma; quer o apoio de outras que, valendo tanto ou menos que a dele, têm entretanto o prestígio sobre-humano do Estado.

É dessa natureza intelectual que me parece ser o famoso general Lundendorff.

É ler-lhe um trecho ao acaso de suas Reminiscências, para se sentir logo o burocrata guerreiro, exato, meticuloso, sabendo bem todos os regulamentos, o de ligação, o de retaguarda, o de vanguarda, não esquecendo sequer nenhuma das abreviaturas consagradas e estabelecidas. Vejam só este pedacinho, como denuncia bem essa singular mentalidade de guerreiro moderno, metade amanuense, metade chefe de horda bárbara do século V da nossa era. Ei-lo:

A ordem de batalha era a seguinte: XI C.E., imediatamente ao nordeste de Cracóvia; Corpo de Reserva da Guarda, X C.E., XVII C.E., 35 D.R., entre Kaptowitz e Kareuzburg; 8º D. Ca., D. Lwd. Conde von Bredow, entre Kempem Kalisch.

O engraçado é que, com toda essa meticulosidade burocrática, procurando tudo prover e prever, empregando automóvel, aeroplano, telefone e telégrafo, as suas batalhas, se não começam por uma grande confusão, um entrevero, como dizem os nossos vizinhos, acabam nisso.

A tal famosa vitória dos lagos masurianos, no dizer dele mesmo, terminou numa baralhada com batalhões e magotes de alemães. Se houvesse mesmo ódio entre uns e outros, se a guerra não fosse uma coisa político-capitalista, a coisa tinha desandado em um tumulto de rua, em uma bagarre a que deviam atender, para restabelecer a ordem, simples agentes de polícia e guardas-civis armados de São Benedito.

Está aí em que dá a famosa preparação para a guerra que os doutores militares tanto preconizam e nós estamos fazendo com os indispensáveis discursos e chás dançantes.

[…]

Em todo o caso, o exemplo de Joffre é elucidativo de que, tanto cá como lá, o que imperou foi o acaso, a serviço da mediocridade; a vitória coube às forças obscuras da sociedade e da natureza que, desencadeadas, nenhum homem soube captar em seu próprio proveito ou dos homens de sua e das futuras gerações. Todos tateiam nas trevas e apalpam os regulamentos com medo de se perderem neles.

Houve um único que se lançou ousadamente pelo “Mar Tenebroso” em fora; e este foi Lênine. É este o grande homem do tempo, que preside, com toda a audácia, uma grande transformação social da época, enquanto Joffre, o êmulo de Alexandre, César e Napoleão, vai presidir partidas de futebol…

––

Excerto de ‘Memórias da Guerra’, de 17/4/1920, reunida no volume Lima Barreto – A crônica militante, Expressão Popular, 2016

General Ludendorff e Papa Joffre

dois poemas

QUEM

Quem um dia dançou os pés de outro?
Todos os que dançam, todos
Apenas dançam os próprios pés.
Quem pensa na imortalidade do outro
E durante o próprio sonho
Sonha com o sonho do outro?
Quem, no nascimento do menino humilde,
Pede sua coroação pelos reis?
Quem manda violetas ao pobre encarcerado?
Quem se sente poeta pelo que o não é?

– Murilo Mendes (1901–1975). Poema do livro ‘Parábola’, reunido em seleção da Global editora, 1983

––

o homem perfeito
usa o seu espírito
como um espelho
diziam os poetas do Tao
eu próprio em certos dias
promovo o vazio dentro de mim
e quando o vento e a chuva
me impedem de sair
procuro o silêncio
e tenho por testemunhas
as límpidas fontes da alma
e seixos brancos
que se podem ver
mesmo quando
cobertos de água

Manuel Afonso Costa. Poema do livro Memórias da casa da China e outras visitas, Assírio&Alvim, 2017

benjamin se preocupa sempre com o momento utópico encontrado no negativo – nas passagens encardidas e barulhentas, nas extravagâncias de grandville, na permuta de aforismos entre a moda e a morte, no papagaio barato de feuilletoniste, em baudelaire exclamando: “hélas! tout est abîme”. ninguém negaria que tudo isso faz parte do enredo. todo louvor a benjamin por trazer à luz esses fatos. mas, curiosamente, talvez tenhamos chegado a um momento da história em que é preciso reafirmar o outro lado da dialética do século XIX: não só os desejos e as potencialidades urdidos, contra as probabilidades, pelo negativo, mas antes de tudo aquilo que as formas de lucidez e positividade mais altivas do século (suas realizações efetivas) revelaram do terror – o verdadeiro abîme – entretecido ao sonho de liberdade da burguesia

dois poemas

as bases do
íntimo e
expressivo as correntes
do similar sem validade
o discurso
produz e
nomeia teste de
desempenho da
identidade este
tempo não
é tempo de sutilezas
de um mundo simpático
1967
nancy
sinatra
lee
hazelwood
equivaliam
“flowers are the things
we know
secrets are the things
we grow”
2003
kate
moss
bobby
gillespie
distoam
“flowers are the things
we grow
secrets are the things
we know”
não se perde
valor reajusta-se
na inflação da
querença as
versões do mesmo
entre o contíguo e
o similar as
ansiedades do comum
do próprio e do nome

Ricardo Domeneck (1977), poema do livro a cadela sem Logos, 7Letras, 2007

––

Se não sofri ainda mais
nem maltratei
cachorros
se sou prudente com meus olhos
e toco com o palato
como se tocasse piano
a membrana feminina
se busco prazer e não prosódia
é porque você me ensinou
tua risada. (Não foi só a risada
mas um dar as costas
ao gordo triunfo dos ossos).

Nuno Ramos (1960), poema do livro Sermões, Iluminuras, 2015

nunca fui capaz de memorizar os nomes de pés e versos, ou de guardar o devido respeito às regras consagradas da escansão. na escola, gostava muito de recitar homero ou virgílio à minha própria maneira. talvez tivesse alguma suspeita instintiva de que ninguém sabia de fato como o grego deveria ser pronunciado, ou o que, entretecendo os ritmos gregos e latinos, pudesse o ouvido romano apreciar em virgílio; talvez fosse meu ócio que instintivamente me protegesse

dois sambas de escola de silas de oliveira

Ele esteve na fundação da Império Serrano, escola advinda da ocupação negra, após a Abolição, da Serra da Misericórdia, região do Rio ao norte da Tijuca e a oeste de Guanabara. Batizada antes Prazer da Serrinha, a escola ali criada na primeira metade do século 20 era frequentada por um Silas ainda criança, às escondidas do pai evangélico. Por ali ele aprendeu as artes dos mais velhos e se divertiu nas conversas e nas rodas de jongo. Fez-se mestre do gênero samba de escola e venceu 14 concursos com peças de sua autoria. Faleceu em 1972, data que, para muitos, aponta o início da decadência do gênero.

A seguir, ‘Aquarela brasileira’, que a Império desfilou em 1964, e ‘Heróis da liberdade’, de 1969, em duas gravações: uma a evocar a catarse plena do rancho, outra que exalta o lirismo nem tão doce mas coeso da obra, difícil de achar nos dias de hoje.

dias melhores

Vamos falar de outras coisas. Contar depois que abre e abre espaço para dar em incrementos e ventila nossos campos. Atar quando roer é ato-semba se se olha para dentro e dentro fica, por causas, formas, casa&construção.

Em junho, o blog da Touro apresenta Alexandre Barbosa de Souza (São Paulo, 1972) como co-editor da categoria dias melhores. Tradutor no Brasil de Moby Dick, Alice através do espelho, Só garotos, entre outros, e autor de Livro de poemas (Giordano, 1992), Viagem a Cuba (Hedra, 1999), XXX (Dolle Hond, Amsterdã, 2003), Azul escuro (Hedra, 2004), Livro geral (Cia. das Letras, 2013), Vinagre (Laranja original, 2016) e do infantojuvenil Autobiografia de um super-herói (Hedra, 2003), foi editor literário na Editora 34, Cosac Naify e Biblioteca Azul. Nas próximas quatro semanas, Alê tratará por aqui principalmente do assunto ‘livro’. Valendo!

dois poemas

em 2008
para participar de uma antologia
em homenagem a ana cristina cesar
fiz um poema chamado
“a garota de belfast
ordena a teus pés
alfabeticamente”
o poema partiu de uma brincadeira de leitura
peguei todos os versos do livro
a teus pés
e coloquei em ordem alfabética
foi uma maneira de ler o livro de ana c. de outra forma
de deslocar o contexto de onde tinham saído os versos
para poder perceber outras relações             a partir
dos próprios versos
foi uma maneira de conhecer ana c. outra vez
parece que a gente está sempre buscando conhecer de novo
refazer o caminho até as coisas
percebi por exemplo que a palavra                             “atravessar”
se repete muitas vezes no início dos versos
ou então que o “agora” é o marcador temporal
mais frequente ocupando o início dos versos
o procedimento deixa a gente curioso
para ler por exemplo
quais são as linhas que começam com o pronome “eu”
nos poemas de ana c.
ou pelo “você”

a teus pés em ordem alfabética foi apenas um jogo de leitura
do qual parti para fazer o poema
há algumas semanas
para o lançamento da obra poética de ana c.
preparei um vídeo a partir desse poema
queria descrever concretamente o processo de feitura
de algum modo essa prática é como a da escrita
escolhi um filme da cineasta belga chantal akerman
je, tu, il, elle
e recortei quatro cenas
o filme parecia um banco de dados
queria pegar uma imagem
que dialogasse com o poema
uma imagem fora do contexto
mas trazendo dele rastros           restos
uma imagem que pudesse estabelecer relações com o texto
escrever também pode ser assim
às vezes basta um verso uma fala solta
que possa se encaixar e transformar um poema
a fala não traz nada do seu contexto inicial?
ele pergunta
seleciono as cenas do filme para importar no adobe pro
depois importo o áudio com a leitura do poema
a partir daí
passo a recortar as cenas
montar              repetir             avançar
ouvir o ritmo do texto a voz da imagem
em movimento
então insiro texto sobre isso tudo
para dialogar com o que está acontecendo
de algum modo é como escrever
e o resultado imprevisto
o vídeo está aqui

Marília Garcia (1979), poema do livro um teste de resistores, 7Letras, 2014

IANSÃ

 
Sopro

leve.

 
Que se atrevendo

atravesse:

 
corpo. muro. corpo.

 
Afago relâmpago

de vento

fêmea,

que conduza o arrepio

através da pele.

E,

por toda ela,

 
reverbere.

 
(Um
 
blefe
 
de um frio,
 
que se respira,
 
e exausta.)

 
Invisível, a tempestade

se revela,

na maquiagem que usa
:
a chuva.

Borra-se,

cai.

Eduardo Lacerda (1982), poema do livro Outro dia de folia, Patuá, 2012

mentolado&remelento

Querido roteiro,

nossa vida é um tecido, comungado com a idade da Terra. Nossa escolha não tem pressa, pois é carro da vontade justa. Não é ilusão que a solicitude está entre o grátis e o barato, mas também não é ilusão que o ‘caro’ indica o bem quisto, o graças a nós ficante. A revolta pode ser justa e alegre, como pode ser um baque de derrota a ver navios de expulsão, exclusão, extinção. Entre a revolução e a reforma, conspira e aflige a Alma Mãe (a casa grande que nos guarda é ela, mas nem viagens para Marte são capazes de ser o que não são) o típico trepidar do fraco.

Kkkk

Bom dia.

Por questões técnicas, essa foto preparada para o Facebook transferi para o sítio online da editora. Não que o Facebook seja incompetente tecnicamente, pelo contrário, são bons em muita coisa, mas como player de cores vetorizadas não prestam. Mesmo a função ‘álbum’, onde seria possível aceitar mais pixels por polegada, não interessa tanto ao repórter cidadão a colher muitas vezes pautas no calor do momento, sem a preocupação da “fruição familiar”: nem todo conteúdo se enquadra como tal. De resto, a compactação em PNG, propalada como corretora, não é. Ao menos não a ponto de quem cuida da própria por amor de persuadir e não marcar ponto sem dar o endereço pras crianças, concordar. O wordpress também comprime. Mas muito menos que lá. Nem seria para tanto, a foto resultou medíocre. Mas como acabei memeficando (com saturação ideal-contínua), parte da graça iria embora porque a aplicação emporcalha. Em nota, a editor da editora pronunciou na rede de microblogs Twitter que o Facebook, “se não pode pagar ninguém que forneça conteúdo”, pode achar modos de gerir a angústia de haver tanto upload concomitante à necessidade da editorialização ou cura humano-algorítmica. E deu uma ideia: “que publicadores de sucesso ganhem privilégios como o de, por exemplo, estar isento da compactação a que se sujeita o usuário médio”. Não houve retorno da Incorporação.

dois poemas

estava atrasado, estava
perdido, estava espalhado
pelas ruas, pelo bairro
com nome engraçado, estava
em desgraça, estava inútil,
tenso, fugindo, deixando-se
pelo caminho, estava,
estava abandonado, lançado
no fluxo insuportável dos dias,
estava pensando em partir,
estava querendo mais, temendo
a trilha, o atalho, estava
perdendo o controle, sentia
o impulso da letra, no meio
da vida: estava

a lua espessa
e um sol vítreo eram tudo
o que vinha do céu

Tarso de Melo (1976). Poema do livro ‘Lugar algum’ (2007), reunido no volume Poemas, 1999-2014, Dobra Editorial, 2014

INVENTÁRIO DE TÍTERES

livro à prova d’água
espessura aquosa

inundações cataratas marujos
caramujas lancinantes

resmas polidas com alicate e arreio
cavalas com valas
nas coxas

riso casco grinalda

inventário alfabético dos mortos
adão susanah
livro de nascimento

páginas pulsam e sangram
designo léguas, libreto a pequenas estrelas

peixe-pêssego

rugir sulfúreo
(ferormônio)

dúctil exumação
dúctil esteio de manobras e ardis
persuadir com laços
e declivoso labor, campos
de inquirição dos beiços

lábios diletos

Érica Zíngano, Renata Huber, Roberta Ferraz. Poema do livro fio, fenda, falésia, 2010

adorno ressalta a insuficiência dessa atitude, que, no calor do embate entre tantas obras “irreconciliáveis”, sem dúvida tinha a intenção de apaziguar as diferenças, colocando o critério de julgamento do valor das obras em um ponto onde não havia nada a ser julgado: “a marca estilística que parece provir da maioria dos trabalhos, a ‘atonalidade’, ou melhor, a renúncia à constante relação tonal de progressão harmônica, é um conceito fraco e arbitrariamente escolhido, que em schoenberg e hindemith, em bártok e jarnach, em krenek e stravinsky corresponde a uma realidade musical em cada caso diferente e que portanto tem um sentido, tanto técnico quanto estilístico, em constante mutação”

dois poemas

O PRINCÍPIO DO POEMA

Uma mulher atravessou o rio comigo
na névoa e sob o luar,
atravessou o rio ao meu lado
e nem sei mesmo de quem se trata.

Subimos para as montanhas.
Seus cabelos longos e dourados,
coxas próximas ao caminhar.

Abandonamos leis e parentes,
olvidamos o aroma da mesa paterna,
abraçamo-nos de repente
e nem sei mesmo de quem se trata.

Não retornamos aos telhados da cidade,
vivemos entre estrelas na planície,
exércitos não nos encontrarão,
águias tampouco,
um gigante descerá entre nós
e deverá possuí-la
enquanto eu estiver caçando javalis.

E nossos filhos entoarão o princípio
desta tribo em longas canções
festejando fugitivos e deuses
que cruzaram o rio.

Miodrag Pávlovitch (Sérvia, 1928), traduzido por Aleksandar Jovanovic no livro Bosque da maldição, Editora UNB, 2003

Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo

Adília Lopes (Portugal, 1960), na Antologia da 7Letras, 2002

um post sobre política

Supondo um Brasil só, excetuadas as mãos autoritárias, tendo conhecido um partido desde o Império. Que seu nome, Poder Moderador, servia tal prática utópica da mente necessariamente sã do regente tencionado a exemplificar a ordem constitucionalista do governo possível e não a disputar showmícios como encantador midiático, como fazem, em graus e estilos variados, a totalidade dos quadros eleitoreiros. Não deixando de contar com o encontro utópico, não do ponto de vista de vocabulário, mas outra vez da prática (da ética), entre as gestões públicas dispostas não a remediar doenças locais sem que se germine ou ative o orgulho patriótico com as boas práticas empresariais em situações mais ou menos normais de competição, escrutínio societário e regulador. Que tal partido tomou de empréstimo, nas sucessivas idades democráticas da República, chavões ideológicos exógenos pouco depurados por uma intelectualidade também estilisticamente confusa e assim inócua na lavagem cerebral da classe política, chavões estes que resultavam em grandes intervenções pouco acuradas no efeito reformador apesar do calor narrativo eventual (protocomunismo, 50 anos em 5, banho de lucidez, salvacionismo, nossa vez, país nos trilhos etc). Que a mais recente polarização pós arrefecimento da híper-inflação entre os dois socialismos quasi-brasileiros mas literalmente de meia tijela posto ter o PSDB reservado metade da sua tijela à velharia do PFL e o PT metade da sua ao anarcocapitalismo incompetente apenas fez confirmar a tese da batalha naval mediada por dissonância cognitiva e pouca libido por vitórias profundas, quando errava-se o alvo, nos projetos públicos de grande escala, baixo o pretexto desleal de produzir oportunidades de discurso eleitoreiro contra ‘o outro time’. Que a exaustão de crédito das ruas à representação partidária incorre em risco grave de niilismo epistêmico e de desengajamento paulatino especialmente das gerações mais novas. E que tal tendência desdobra-se em círculos viciosos de distanciamento do crucial sentimento de orgulho pelas coisas da terra e do caráter do país, em relativismo de subsistência carburado pela estética mercadológica da superficialidade do jogo sem passado e sem futuro, e consequente brutalização do leque de desejos e aspirações a trocar o norte da construção por absurdos e repetitivos jorros de ansiedade por segurança escatológica, este weblog compromete-se a:

1) não admitir amigos ou colegas não fluentes em Esquerda e Direita no que a primeira pretende reinaugurar e a segunda preservar, e fluentes não para arrogar certezas entusiasmantes de nada mas para provar sustentável a habilidade de agir na discussão, e antes de agir deliberar, e ao deliberar ouvir e processar, bater termos e falas nas rodas do evento com os nós e rios da sua não meramente observadora mas partícipe experiência de vida e, só então, falar;

2) não ver na ruína do sistema político-partidário interesse de restauro;

3) não ver na ruína do sistema político-partidário interesse de ainda mais demolição;

4) entender o conteúdo de verdade produzido por disputas de discursos como só possíveis quando os partícipes nela não entram com nada fixo, isto é, nela entram esvaziados de Verdades prévias de qualquer sorte mantendo evidente a sanidade e assim abertos para as mesmo insuspeitas maravilhosas surpresas das novas formas de felicidade humana graças à resolução de mais um problema comungado;

5) não cansar de dizer que disputas pré-programadas de discurso não dão em nada;

6) levar adiante que a eleição popular de cargos para representação não precisa, como se treme um e se range outro lado da mesa arcaica, deixar de existir por um bom tempo, do mesmo modo que a eleição do Poder Executivo da noite para o dia pode não ser mais popular, e simplesmente técnica por agregado de notório saber e aleatoriedade da nossa gente;

7) reclamar que estamos gastando nosso tempo ao falar de recomeçar do zero, pois o medo é tão cafona quanto a crença adolescente de que amanhã tudo vai ser do nada diferente. Pior que a preservação além da conta e a revolução indevida, só a terceira postura, demagoga, niilista, cínica, orgulhosa, de desprezar o comum;

8) disputar com a narrativa de que a democracia brasileira pode largar a mão de fixações menores que o orgulho de ser brasileiro. Este podemos ter mais ou menos em medidas salutares e germinativas, e daí virão sensações fiáves de desgosto ante a injustiça e a desigualdade;

9) lembrar de que estar no mercado pode ser excitante mas lembrar que, antes, urge-nos cuidar do corpo despreparado do Estado ou nada será excitante;

10) lembrar: enquanto houver entrada de receitas e saída de custos fixos e variáveis a política pública qualquer uma será às claras de portas abertas, nos termos correlatos dos envolvidos (realizadores e comunidades afetadas em concerto);

11) perguntar sempre, se o agente pode tanto fluir na poesia do mundo que virá, quanto na poesia do mundo que vem ficando porque assim queremos, dobrar-se ao cinismo do não engajamento ruidoso e melancólico não fará brotar um fardo alienável?