Muitos escritores – especialmente os poetas – preferem ter entendido que compõem por meio de uma espécie de sutil frenesi, de intuição extática, e positivamente estremeceriam, ante a ideia de deixar o público dar uma olhadela, por trás dos bastidores, para as rudezas vacilantes e trabalhosas do pensamento, para os verdadeiros propósitos só alcançados no último instante, para os inúmeros relances de ideias, que não chegam à maturidade da visão completa, para as imaginações plenamente amadurecidas e repelidas em desespero como inaproveitáveis

dois sambas de dona ivone lara

Informa o manual Samba de enredo – história e arte:

Filha de um violonista do Bloco dos Africanos e de uma pastora do Rancho Flor de Abacate, Dona Ivone Lara começou a aprender música no colégio Orsina da Fonseca, na Tijuca, onde estudou como interna após a morte dos pais. Foi aluna de Lucília Villa-Lobos, esposa do grande maestro.

Prima de Mestre Fuleiro, começou a frequentar as rodas de samba da escola Prazer da Serrinha e, posteriormente, do Império Serrano. Ali passou a compor seus primeiros sambas de terreiro, enquanto vivia profissionalmente como enfermeira e assistente social (trabalhou no Serviço Nacional de Doenças Mentais, com a doutora Nise da Silveira).

dias melhores

Vamos falar de outras coisas. Contar depois que abre e abre espaço para dar em incrementos e ventila nossos campos. Atar quando roer é ato-semba se se olha para dentro e dentro fica, por causas, formas, casa&construção.

Em maio, o blog da Touro apresenta Carol Marim como co-editora da categoria dias melhores. Filósofa e bailarina praticante de butô e outros contatos, Carol nasceu em São Paulo, viveu em Florianópolis e hoje leciona Estética na Universidade Federal de Pernambuco. O foco de sua atual pesquisa são os encontros entre a pauta filosófica e as emoções humanas, à luz da performance. Valendo!

dias melhores marim

quando você diz “essa obra não tem nada a ver comigo”, ou quando diz “essa obra é chata/sem sentido/boba/obscura/elitista etc.”, pode estar certo porque o que está à sua frente é um modismo, ou pode estar errado porque a obra ficou tão fora da zona de segurança de sua experiência que, para preservar o próprio mundo intacto, você precisa recusar o outro mundo, o da pintura. essa negação da experiência imaginativa se dá num nível mais profundo que a afirmação de nosso mundo cotidiano. todos os dias, de inúmeras maneiras, você e eu nos convencemos de nós mesmos. a verdadeira arte, quando nos acontece, desafia o “eu” que somos

built mur

dois poemas

estou aqui
a milhares de quilômetros
com um siso inflamado
e o corpo latejando
com um poema medonho de lindo
da Hilda Hilst na cabeça
e você pula na minha tela do Facebook
sem ser convidada
numa foto patética
seguindo o trio elétrico
da Ivete Sangalo em Salvador
agora te odeio muito mais
daria tudo pra tirar seu nome dos meus livros
e do meu cacete de 26 centímetros, mas isto é quase impossível
vai doer
vai sangrar
vou apenas excluir nosso amigo em comum
que trabalha restaurando
quadros falsificados do Van Gogh
num galpão fedorento em Pindamonhangaba

Diego Moraes (1982), em seu livro ‘Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava Eu te amo no orelhão’, Corsário-Satã, 2015

JUST READ MY DIARY

Em nova York use óculos escuros
Lia avisou ao telefone
lá do queens disse:
use óculos escuros no metrô
no central p. na quinta av.
na B.H. em wall street
no moma na victoria’s secret
na casa do Cruz todo mundo usa óculos escuros
em Nova York pronuncie s=t=a=r b=u=c=k=s
sorria para os ratos da pen’station
e repita I’m so sorry
como o camarada Morrissey grunhindo
why ho-ho-ho ha-ha em fairmount
porque quase sem perceber
nós envelhecemos juntos
cantarolando suehead nas
manhãs geladas de um aeroporto
de nova York ou tanto faz
porque quanto vidro
tanto quanto lixo
atrás dos óculos vi o metrô apagar as luzes
e o cara num inglês bizarro
não como no termini em roma
– próxima fermata uscita lado sinistro –
a voz metálica
ah fellini ah Marcelo
ah você camarada morrissey
na banheira
você me olha melancólico enquanto
lê seu Byron de capa vermelha
e james dean jaz
ah mi nueva York você escureceu
sem mim
tão cedo às 4 da tarde
na esquina da “walk c/ a don’t walk”

Jussara Salazar (1959), poema publicado na revista escamandro #02, Editora Patuá, 2016

dois poemas

BENFICA

das guerras que sempre respiram
em algum lugar do mundo,
pousa aqui este
atrito
contra a tarde pronta para
esmurrar meu abraço
na lembrança de você dizendo caminhar
por uma cidade
desconhecida é tomar a vida
de alguém
emprestada,
contra a luz (e seu monólogo,
esta milonga), esta
bela infelicidade a jogar
ligue-os-pontos
com cumeeiras, árvores
e sombras do bairro
unidas sem voz
como em uma
língua
de estátuas

Diego Vinhas (n. 1980), em seu livro Nenhum nome onde morar, 7Letras, 2014

DIZ O AGENTE GENÉRICO ZUMBI DO SISTEMA

  % cidadão % atualize seu pacote germinal d dados móveis p/
novo recenseamento disponível tbm através d coleta sanguínea
em qqr % espaço nave médica % autorizada %
  ao descumprir-se % a pena é de ruptura da sequência (doutro
modo ininterrupta) d todas as suas etapas reprodutivas % e d
sua família % e de sua espécie tbm % involução compulsória
fulminante a ser induzida % % pela Paróqia do Extermínio %

Reuben da Rocha (n. 1984), fascículo 2 de 6 de Siga os sinais na brasa longa do haxixe

duas falas* do piva

O ritmo do jazz é inseparável da minha poesia. Aliás, agora que está na moda badalar o Chet Baker, você observa que em 1963 eu já falo dele em um verso meu. Agora ele está na moda, descobriram o cara quando ele está em uma ruína, quando está em franca decadência, está democrático, convidando uns caras do Rio de Janeiro, um pessoal que não sabe nem o que diz nem o que toca, para tocar com ele. Ele democratizou essa sua energia, e daí perdeu todo o pique. Atualmente ele é um cara totalmente sem aquele pique, aquela genialidade, sem aquela energia de transformação e de invenção que ele tinha, a ponto de influenciar a nossa bossa nova. E todo esse balanço da bossa é o balanço da minha poesia. Uma poesia sem música, sem jogo de cintura, é uma poesia rígida, dos comunistas, dos marxistas, uma poesia absolutamente trancada dentro de um túmulo que é o túmulo do leninismo, que já está fedendo. É claro que o rock também me influenciou, mas não teve a mesma importância que o jazz, o cool jazz. Mas há evidentemente alguma influência do rock, uma vez que pessoas como Jim Morrison, Bob Dylan, Frank Zappa são excelentes poetas. Então o rock me influenciou também, e até mesmo antes do jazz. Eu fui, por exemplo, um dos caras que em 1957 foi receber o Bill Haley, com um grupo de jovens, lá na Praça do Patriarca, onde ele se hospedou. Fomos fazer uma manifestação de carinho, de afeto. Posteriormente o jazz me influenciou e, logo em seguida, a bossa nova. Eu fui apaixonado pela bossa nova. Então essas três correntes – o rock, a bossa nova e principalmente o jazz – são uma constante da influência musical na minha obra.

– em entrevista a Floriano Martins, publicada em O começo da busca, Escrituras, 2001

Poesia=xamanismo=técnicas arcaicas do êxtase. Xamã: sacerdote-poeta inspirado que, em transe extático, percorre o inframundo, florestas, mares, montanhas e sobe aos céus em “viagens”. Dante foi um xamã cabalista que conheceu, em sua viagem pelos três mundos, os orixás travessos da sombra. Deixe a visão chegar. É a hora da despedida dos deuses do deserto & da chegada dos deuses da vegetação. Minha poesia é magmática, de magma: como Dante, sou exilado em minha própria pátria. Como Dante, sou monarquista e reacionário. Como diria Pasolini, sou uma força arcaica, um bárbaro. & não sou um homem normal, isto é, um racista, um colonialista. Ecologia da linguagem: os poetas brasileiros têm que deixar de ser broxas para serem bruxos. Estados alterados de consciência. Há quem disseca os versos, mas não conhece o êxtase, que é a alma dos versos (Mckenna / Gordon Wasson). O caminho do poeta/xamã é o caminho do coração. “e parve di costoro / quelli che vince, nos colui che perde.” Dante, Inferno, canto XV.

– em depoimento à revista Poesia Sempre, FBN, 1997

* ambas coletadas no volume Encontros | Roberto Piva, Azougue, 2009

dois pensares

Outra nudez já tinha surgido no horizonte cultural da Europa, com o aparecimento do homem americano. E se houve um ponto de encontro entre a Renascença e o Humanismo, esse se deu no entusiasmo comum pela natureza que a Idade Média difamava.

Era, porém, tão terrível e grosseiro o preconceito que aureolava o mundo helênico que, quando com as Cartas de Vespúcio e pelas Utopias se divulgou a existência de uma super-humanidade perdida do outro lado da terra, se perguntava a respeito dessa gente: – Serão gregos? Ou pelo menos mediterrâneos? O cristianismo dólico-louro trabalha e deforma tudo. Petrarca protesta contra a ideia de que Cícero pudesse ter ido para o inferno, pelo desconhecimento do Cristo. Ele e Sócrates são tidos como “colaborantes do cristianismo”.

A Cícero e a Sócrates, que são considerados deístas, incorpora-se então uma legião de sub-humanistas católicos que têm, hoje, nomes inteiramente esquecidos. É tão grave a deformação cristianizante que a mitologia pagã passa a ser uma teologia velada, as Metamorfoses de Ovídio são a Gênese. Até Homero é um pronunciador de mistérios católicos.

(…)

A Renascença modela e disciplina grandes assuntos. Sempre o seu triunfo técnico se sobrepõe ao tema, à inspiração e ao sentimento. Enquanto isso, o Humanismo dá o estofo das Utopias futuras. Ele cria o Direito Natural. Ele produz, na longínqua América, a primeira experiência de uma sociedade nova – a República Comunista Cristã do Paraguai. No século XVIII, ele dá os fundamentos da Filosofia das Luzes e realiza a Revolução Francesa. No século XIX consegue o abalo sísmico das agitações liberais. E hoje, mais do que nunca, é no Humanismo e na sua tradição revolucionária que se fundamenta a conquista de uma vida melhor para todos os povos.

Oswald de Andrade, no artigo A marcha das Utopias I, publicado n’O Estado de São Paulo aos 5/7/1953, e reunido no volume A utopia antropofágica, Globo, 2001

Alguém é um pai apenas porque existe outrem de quem ele é o pai: a paternidade é uma relação, ao passo que a peixidade ou a serpentitude é uma propriedade intrínseca dos peixes e cobras. O que sucede no perspectivismo, entretanto, é que algo também só é peixe porque existe alguém de quem este algo é o peixe.

Mas se dizer que os grilos são os peixes dos mortos ou que os lameiros são a rede das antas é realmente como dizer que Nina, filha de minha irmã Isabel, é minha sobrinha, então, de fato, não há nenhum relativismo envolvido. Isabel não é uma mãe para Nina, do ponto de vista de Nina, no sentido usual, subjetivista, da expressão. Ela é a mãe de Nina, ela é real e objetivamente sua mãe, e eu sou de fato seu tio. A relação é interna e genitiva – minha irmã é a mãe de alguém, de quem sou tio, exato como os grilo dos vivos são os peixes dos mortos –, e não uma conexão externa, representacional, do tipo “X é peixe para alguém”, que implica que X é apenas representado como peixe, seja lá o que for “em si mesmo”. Seria absurdo dizer que, desde que Nina é filha de Isabel mas não minha, então ela não é uma “filha” para mim – pois de fato ela o é, filha de minha irmã, precisamente. Em Process and reality, Whitehead observa: “a expressão ‘mundo real’ é como ‘ontem’ ou ‘amanhã’ – ela muda de sentido conforme o ponto de vista” (apud Latour 1994). Assim, um ponto de vista não é uma opinião subjetiva; não há nada de subjetivo nos conceitos de “ontem” e “amanhã”, como não há nos de “minha mãe” ou “teu irmão”. O mundo real das diferentes espécies depende de seus pontos de vista, porque o “mundo” é composto das diferentes espécies, é o espaço abstrato de divergência entre elas enquanto pontos de vista: não há pontos de vista sobre as coisas – as coisas e os seres é que são pontos de vista (Deleuze 1969). A questão aqui, portanto, não é saber “como os macacos veem o mundo” (Cheney; Seyfarth 1990), mas que mundo se exprime através dos macacos, de que mundo eles são o ponto de vista.

(…)

O sangue dos humanos é o cauim do jaguar exatamente como minha irmã é a esposa do meu cunhado, e pelas mesmas razões. Os numerosos mitos ameríndios que põem em cena casamentos interespecíficos, demorando-se nas difíceis relações entre os genros ou cunhados humanos e seus sogros ou cunhados animais, não fazem senão combinar as duas analogias em uma só. Vemos assim que o perspectivismo tem uma relação estreita com a troca. Ele não apenas pode ser tomado como uma modalidade de troca, mas a troca mesma deve ser definida nestes termos – como troca de perspectivas.

Eduardo Viveiros de Castro, no ensaio-fundição Perspectivismo e Multinaturalismo na América Indígena, reunido no volume A inconstância da alma selvagem, Cosac Naify, 2001; Ubu, 2017

certa genealogia de ‘Ponteio’

em1967, com Marilia Medalha e Edu Lobo

em 1967, com Quarteto Novo

em 1968, com Sérgio Mendes

em 1968, com Paul Mauriat

em 1969, com a Woody Herman Orchestra

em 1969, com Pat Williams

em 1970, com Edu Lobo

em 1971, com Astrud Gilberto e Stanley Turrentine

em 1972, com Elis Regina

em 1973, com Sivuca

em 1977, com Edu Lobo

em 1992, com Zizi Possi

em 1995, com Alceu Valença

em 2003, com Da Lata

em 2007, com Silvana Malta

em 2009, com Leila Pinheiro

em 2009, com sexteto Caraivana

em 2010, com Ulisses Rocha

em 2011, com San Juan Coral

em 2012, com Coral Parthenon

em 2013, com Grooveria

em 2014, com Jessica Davey e Ben Modley

em 2014, com Mauro Senise

em 2014, com Trio Baru

em 2015, com Renato e Adriana Godoy e Sérgio Belo