marque isso: um brinde pra feira

entre tudo o que pode acontecer
ao marcador
notamos no escritório os nossos
aos poucos perdendo espaço
regredindo a pedaços
menores e menores
quem nasceu
para evitar orelhas livros
de bruço for
çando a espinha
quando some é que aprendeu
a viver mais
de uma vida sem capricho
que a defina
os nossos sumindo
invariavelmente sumindo e terminando
comigo calhou, disse um
do marcador acabar junto com o livro
rá, dissemos, o marcador acabou
junto com o livro, nunca mais
que caso difícil
significa que o livro exigiu na leitura o exato
número de piteiras
disponíveis no marcador

§

Na Feira Plana, os livros da Touro Bengala acompanham um marcador que traz em si a marca, a sugestão processual e diríamos a rota mesma de seu próprio fim. Um marcador para tempos que não passam conforme pensamos.

marcador_3

fotolivro: yui 393

Mais um xamã acessível (lembrando que o xamã, de fato, não há tanto quanto grupos fortuitos onde, do eventual, um ou mais esforços acessam o xamanismo em processo, que virá comunicar e administrar perspectivas cruzadas) na Frei Caneca lá embaixo, aonde vou bastante.

Avaro veio de Córdoba, Argentina, formado nas artes do DJing e da fotografia. Por vários motivos instalou-se em São Paulo onde vive e trabalha há cinco anos.

Não raro, Avaro deixa escapar indignações e desejos utópicos que poderiam ser ditos, sem tirar nem por, por mim mesmo. É um tanto espantoso o quanto, às vezes quando encontramos, as falas das bocas orbitam conceitos e percepções que não podemos chamar de próprias, mas de plenamente compartilhadas.

Isso, é claro, quando se pode a mínima complexidade na articulação (para excluir eventos ~meramente catárticos, por exemplo), ou seja, quando é possível abrir espaço para a produção de novos ou para a visita crítica de conhecidas percepções e conceitos não interessadas senão na direção da Verdade.

Há pouco, por uns quatro ou cinco dias, Avaro foi visitado pela enorme mariposa Canthela, nome de trabalho. Não há dúvida, Canthela não era só uma mariposa. Avaro diz que ela o seguia, que se aquietavam ambos quando queriam, e também que se agitavam concomitantes, passando da cozinha à sala e da sala ao banheiro. Eu disse: Avaro,

há pesquisa entre as mariposas, elas levam pranchetas mentais e ali esquadrinham sua ciência. Ela só queria uns dados. Rimos, mas sabemos: sob a máscara animal de Canthela, há, de fato, uma forma humana capaz de ver Avaro como um deslocado rinoceronte de cativeiro ou, mesmo, como uma mera mariposa.

“Vendo os seres não humanos como estes se veem (como humanos)”, diz Eduardo Viveiros de Castro em seu famoso ensaio, “os xamãs são capazes de assumir o papel de interlocutores ativos no diálogo transespecífico; sobretudo, eles são capazes de voltar para contar a história, algo que os leigos dificilmente podem fazer. O encontro ou o intercâmbio de perspectivas é um processo perigoso, uma arte política – uma diplomacia.”

avaro-post-blog

Avaro é apurado compositor, cioso das decisões que chamaríamos clássicas da operação harmônica. Regras de ouro, a forma clara, a beleza fora do grito, o ruído sequestrado pelo esquadro tanto quanto a dor pelo algorítimo luz, e ainda assim um pórtico, uma ponte entre estranhezas, uma sólida passagem para o espanto.

Em tempos de fotolivros ligeiríssimos, de tutoriais de fast-linguagem, de repetições de errinhos estetizados um tanto além do ponto naquela ociosa chave da frouxidão casual hipster, é salutar apresentar YUI 393, um fotolivro canônico. A seguir, um spread:

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Canônico, atenção, quando as “”rupturas”” disponíveis nos aportam tal qual filtros corretivos pré-programados, enjauladas por muitas e muitas aspas.

Avaro há muito frequentava o ?Parque? Augusta. Milita um tanto discreto, mais no silêncio da reza. No canto da sala do pequeno apê que divide com Gábi, há duas dúzias de vasos de onde sobem os verdes em galhos e folhas variadas. Na parede atrás, uma plaquinha diz: Parque Augusta.

Avaro é também muito grato. Nunca o visitei sem notar, às vezes simplesmente do nada, gestos e falas de gratidão genérica ao planeta e a tudo. É bonito ver.

Aqui você pode ouvir o set musical mais recente de Avaro:

YUI 393 estará na mesa da Touro Bengala na Feira Plana, de 15 a 17 agora.

todos soltos

À página 66 do livro Todos soltos, o leitor depara com as dezenove linhas de um poema que, nas palavras do poeta,

eu não lembro exatamente o sermão do Vieira que no Carnaval de 2014 eu lia. Mas lá ele dizia, no sermão de que não lembro, das tenças claramente; eu não lembro se eram necessariamente as tenças da segunda; e eu não lembro, também, se eram ou não grossas as tais tenças. Muito hip-hop eu ouvia, muita canção advinda da dor blues apenas quase subjugando a marcha eu consumia nas horas vazias daquela desalmada Brigadeiro, confusa na razão, até que como exatamente, muita confissão eu lia dos tuberculosos, os chamados góticos eu lia, os advindos da dor

. Sem dúvida um poema estranho porém marcado por negação e desamparo. Depois, pessimista. Seu fim, “já não imagina”, é também o bordão do desistente, daquele de quem os sonhos e os ossos pegaram no sono. Assim, numa transmutação goyana, produz-se monstruosidades

e eu acrescentaria ainda que não, parte-se uma bolha de sabão, com sorte, com um dedo, e assim nascem duas menores, duas bolhas menores completamente desinteressadas. Não é o caso neste poema. Aqui há tão somente uma bacia de latão carcomida em parte, demasiado amassada pois vê-se quedas, quinas, dedadas e martelos, toda sorte de pedra se vê e mais chapisco, lascas, resinas, ferrugens e metais e um geral estrago alma da segunda, se assim acreditarmos, ou desde uma compreensão tolerante diante das cruezas da situação. Quem gostaria de ser “infensa por decreto”? Cadê a transparência, ela gritava; “tripas na vitrina”, concluía.

A página não revela outra coisa, apesar de fazer pouca ou nenhuma diferença

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Há um problema na depressão, bastante sintomática no poema, quando dá-se o que a psicanálise chama de “cansaço em expressar a si mesmo”. Ora, nós não podemos esperar nada de sujeitos cuja trajetória de autocriação e reconhecimento tenham sido por esta ou aquela contingência guilhotinada. As últimas linhas são brutais quando aniquilam os trapinhos de autoestima e convocam a guarida da melancolia for good.

Tal seria um problema menor. Acontece que há, na modernidade vigente, uma série de arapucas camufladas de estradas, gaiolas camufladas de automóveis. Não é fácil perceber. Eles dizem: você não precisa articular suas vivências em linguagem compartilhada e tecnologicamente desperta, basta render-se à “hiperexcitação contínua da festa”, e sair correndo, e abraçar a cisma superegóica da promessa do gozo. Vem assim, não por acaso, prescrito o descaso com a ansiedade via quem? ele mesmo: o consumo; do qual, aliás, poucos de nós (os monges, bichos) estaríamos livres ou soltos. O que o mundo tal como o erguemos nos parece pedir, sem vergonha, então, é: anule sua voz e viva o tempo morto de quem trabalha para comprar arapuca por estrada.

É mais difícil do que parece, pois os seres da Organização estão à solta e são gigantes. Um deles, inclusive, pretende “cuidar” de nós os depressivos. E cuidariam, talvez, não fosse um detalhe: quando fazem circular inibidores disto ou daquilo (testados baixo o domínio do Earning Per Share), o que circulam, em verdade, é o discurso mal acabado do “fim da era dos conflitos”, quando nada muito drástico, em esfera alguma, e por mais contraditória, pode ou deve ser incitado. Pare eles, estaria “tudo certo”.

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Reunindo dois anos de produção, Todos soltos é o primeiro cujo nome do autor, Guilherme Coube, vai à capa. Por quê?

Talvez eu tenha amadurecido. Talvez, agora, eu sinta mais firmeza na ideia de fazer circular um livro apenas mais um, sem que o nome do autor tenha medo de aparecer. Mas eu não mandaria ninguém embora se este ninguém dissesse assim mesmo: o que houve foi que regrediu, você, você regrediu. Antes era contido na forma mínima que programa o desterro da autoria, morriam longe tantas influências prosaicas, e víamos ali algo que não se dói desprezar. Agora? Agora você tão somente deseja ser um e só mais um, mais um comum. Você voltou atrás, quando muito…

Todos soltos foi distribuído em residências aleatórias do bairro Bela Vista na semana que passou, infelizmente sem registro fotográfico. Mesmo assim, será lançado entre 15 e 17 de janeiro no Museu da Imagem e do Som de São Paulo por sintonia da edição preto e branco da Feira Plana.

ó lá, mundo

pensamos em começar com esta citação de 1949

Diante de um universo que anseia por compreender, mas cujos mecanismos não domina, o pensamento normal sempre busca o sentido das coisas nelas mesmas, que nada informam. O pensamento dito patológico, ao contrário, transborda de interpretações e ressonâncias afetivas, sempre pronto para aplicá-las sobre uma realidade de outro modo deficitária. Para o primeiro, existe o não verificável experimentalmente, isto é, o exigível; para o segundo, experiências sem objeto, ou o disponível. Na linguagem dos linguistas, diríamos que o pensamento normal sempre sofre de uma deficiência de significado, enquanto o pensamento dito patológico (ao menos em algumas de suas manifestações) dispõe de um excedente de significante. Graças à colaboração coletiva na cura xamânica, chega-se a um meio-termo entre essas duas situações complementares.

TB SIT

Para Lévi-Strauss, então, pode ser grande a força mágico-social na cura de nossos males. Não há aqui ‘um xamã’, mas o evento xamânico que se dá necessariamente a partir das forças e fraquezas de um conjunto.

Neste caso, o mal (ou o ruim, que é o contrário do que deseja a razão) é o hiato ou apartheid corrente em certa modernidade despreocupada com a seriedade da natureza conflituosa do que nos faz agir e escolher e cliva assim brutal o que o capitalismo das farmácias definiu como normal e desejável de um lado, e como doença e assim inoperabilidade e oportunidade de tratamento comercial e/ou intervenção, ostracismo, perseguição e prisão, do outro. Segundo tal modernidade, o caso é mesmo não dar nas mãos da norma nenhum tipo de biruta.

Contra tal rigidez improdutiva e perpetuadora de processos pouco revisados, existe a chance de compreender a experiência do patológico como “instauradora da condição humana e a via privilegiada para conhecermos nossos processos de formação, assim como traços de nossas estruturas de comportamento” (Safatle), isto é, a esperança de que o medo da loucura como casa (ai o hábito do impensável) dissolva-se em realizações normatizantes que simplesmente passem no teste da mágica social, isto é, sejam integradas e não repudiadas no decantar da análise da razão.

Eu acho engraçado a gente administrar o medo assim. Nunca se ameaçou tanto. E nunca fizemos tanta força para respirar a ontologia da escassez. Estamos provavelmente 99% errados.

Percebamos que é do fundo do poço que se vê a lua, claro, mas não deixemos de performar. Não hoje. Não deixemos de performar. Ampliemos essa treta conosco de modo a

amplificar tudo aquilo que não podemos.

Só assim para chamar a atenção dos magos sociais, não? Foi nomeando a si de neurótico e limítrofe que W. Allen e o punk convocaram sua cura. E

uma dimensão fundamental do trabalho analítico consiste não em dissolver os sintomas, mas em dissolver o vínculo do sujeito à identidade produzida pela doença, o que permite aos sintomas perderem certos efeitos, diminuírem intensidades e se abrirem à possibilidade de produção de novos arranjos

Não é pouca coisa fazer desejo e linguagem e não poder conversar com o cérebro. E ter que acreditar na inexistência da inteligência do cérebro. E herdar e repassar o que queremos por vitória e beleza. E trair quem não se importa. Tudo isso no momento em que “o casamento assombroso entre Gaia e Antropoceno” pressiona por duras reordenações de prioridades e desmontes em série. Você está fazendo o quê no bando transicional, exatamente? Tem certeza? Que bom.

Quer saber o que é ser da internet? Ser da internet é dizer sem vergonha e não precisar esconder que não leu Freud nem Marx PORRA NENHUMA. É isso. A Touro Bengala bem como seus sujeitos em sintonia xamânica são da internet. Não lemos Freud nem Marx porra nenhuma. Nosso devir é superar a doença da indeterminação da identidade que recusa a raia fácil da predicação não artística, isto é, a da posse ou repetição destrutiva. Boa sorte tentando seguir a gente.