Carpe diem

Por tanto tempo julguei besteira adolescente a expressão ‘carpe diem’, aquilo que separava homens de meninos: debandar-se do privilégio da vida às palafitas vulneráveis do subterfúgio egoísta da diversão irresponsável, seja porque trapaceira, seja porque viciosamente cínica.

Até topar com Horácio, ou melhor, com a ode 11 do livro primeiro, em cujo arremate lemos:

carpe diem, quam minimum credula postero

O poema parece o conselho chato do poeta à irmã mais nova, sugerindo-lhe afastar-se da ganância antecipadora da cabala. Biográfica ou não, a peça carrega um tanto da ambiguidade dissuasória dos mestres. Tem cunho epistolar mas mais enfático é o empenho moralista.

Imagino se a amiga, outra pessoa a Horácio uma versão imatura de si, fantasiava progredir quando em verdade traía o ofício da poesia, aprendizado de sucessivas etapas, originais ou transfiguradas, mas não ao arrepio dos elos, estes em harmonia difícil com a bênção natural. Somos o que desejamos, mas cobra o clima por aquilo que poderíamos desejar.

A interlocutora horaciana recebe o acre bilhete do sinédrio mais antigo, mais atual, ontológico compromisso não contra o carnaval, mas contra o escapismo do falso testemunho e da retórica sem persuasão.

A ode perpassa impaciência, a dura de um bedel com mais o que fazer além de alertar a via equívoca do desprezo à comunidade, morada em que a liberdade se faz a desenho, e não a desdém.

Não será exagero atinar com o momento por que volta e meia se nos lembra a imprensa viver o país. Querer enricar, ganhar dinheiro, não é um erro absoluto. Mas desvirtuar-se para tanto cancelará a legitimidade da busca. Se não suspeitamos da justiça cósmica, a civil justiça é encarregada hoje de assegurar o bom nome das trocas, do comércio, da ferramenta monetária.

Num estudo sobre o helenismo estoico, corrente nutritiva a todo poeta em formação, A.A. Long diz:

Virtude e riqueza estão de acordo com a Natureza, mas de modos diferentes. A virtude concorda porque é a função especial ou objetivo do ser racional ser virtuoso (D.L. vii 94). Tal afirmação não é circunstancial. Aplica-se absoluta e inequivocamente a todos os humanos maduros. A riqueza concorda com a Natureza porque o ser racional está naturalmente predisposto a preferir a riqueza à pobreza se está ao seu alcance escolher uma delas. Riqueza é um estado objetivamente preferível à pobreza, mas a riqueza não é a função especial que distingue o ser racional. O valor da riqueza aparece em relação à pobreza, mas a riqueza não tem valor algum em relação à virtude. Moralmente, riqueza e pobreza são indiferentes.

Para os estoicos, o bom, o vantajoso, o útil, são marcas linguísticas usadas para separar virtude e vício. Para nós modernos, o bom, o vantajoso e o útil sofreram as relativizações da competição proprietária, confundindo a justa busca da estima com a configuração nem sempre escrupulosa dos intentos.

À dúvida reflexiva, à hesitação caridosa, e à humildade sapiente, subimos tampões onde grudamos os cartazes de um qualquer empoderamento. Mas este, no lugar de libertar, poderá podar gestos e atos e falas prematuramente, quando a vontade obtusa do ‘dar-se bem e mostrar’ sucumbe à indistinção da virtude, acusa preventivamente o remorso e o arrependimento de má consciência, a paciência de derrota ou vitimismo, e troca a maturação dos frutos pela ganância das marquinhas de performance.

Carpe diem, assim, não recomenda trocar esforço civil pela bestialidade fajuta que nos apartaria dos saberes, natural e social. Fruir no dia os frutos e as tramas plantadas e tecidas, enquanto tecemos e plantamos, desperta o ser ao trabalho desinteressado ou concentrado. Se a lição do amor é invisível demais para nos tocar, acreditemos pelas obras em si mesmas (parafraseando o evangelista João).

Colhe o dia, o mínimo antecipa.

Assim traduzi o arremate da ode. Se ora sua morada é mais aprender, coloque-se. Se mais é fazer, ajuste-se ao que cobra o clima, e assim coloque-se. Colher o dia é gozo e esforço unos, tributo à força e leite à sensibilidade. Talhe a imagem sua, enfeite a proa, e siga.

Em Memórias da casa da China e outras visitas, Manuel Afonso Costa escreve:

A leira paira
o vento por cima inclina
e o estrume irriga
a veia fértil
no seu gesto iam as sementes
e uma agonia
que a manhã vazava;
nessa corrente espessa
e viscosa
só as palavras eram raras

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