colagens visuais, sonoras e textuais – durante muitos séculos tradições relativamente fugazes (uma mistura aqui, um pastiche popular acolá) – foram o centro explosivo de uma série de movimentos no século 20: futurismo, cubismo, dadaísmo, música concreta, situacionismo, pop art e o apropriacionismo. na verdade, a colagem, o denominador comum nessa lista, pode ser considerada a forma de arte por excelência do século 20, sem falar do século 21. mas deixemos de lado, por ora, cronologias, escolas ou mesmo séculos. à medida que os exemplos se acumulam – a música de igor stravinsky e de daniel johnston, a pintura de francis bacon e henry darger, os romances do grupo oulipo e de hannah crafts (a autora que se valeu do bleak house de dickens para escrever the bondwoman’s narrative), assim como os textos favoritos, que se tornaram problemáticos para seus admiradores após a descoberta de elementos ‘plagiados’, como os romances de richard condon ou o sermões de martin luther king jr. – fica evidente que a apropriação, a imitação, a citação, a alusão e a colaboração sublimada consistem em uma espécie de condição sine qua non do ato criativo, permeando todas as formas e gêneros no campo da produção cultural

a consistência de um sistema equivale à proposição que afirma que, através das regras do sistema, nenhuma contradição pode ser derivada. a proposição é, em si, combinatória, envolvendo regras simples de manipulação de símbolos – regras que determinam quais sequências de símbolos decorrem de quais sequências de símbolos. essa proposição combinatória é, exatamente por ser combinatória, equivalente a algo aritmético. portanto, pode ser formulada dentro do sistema da aritmética – e a questão natural a ser respondida é se ela pode ser provada dentro do sistema, e a resposta é que não pode. os aspectos sintáticos dos sistemas formais – que visavam evitar as intuições, aquelas alimentadoras de paradoxos – não conseguem captar todas as verdades sobre o sistema, inclusive a verdade de sua própria consistência

do fato de ser possível obter prazer estético de diversas fontes não decorre que se trate do mesmo prazer, seja quantitativa, seja qualitativamente; do fato de que se possa obter prazer estético tanto do texto lido no cartaz do metrô de londres quanto do poema ‘in a station of the metro’, de ezra pound, não decorre que ambos tenham o mesmo valor. pensar o contrário equivaleria a supor que, do fato de que os seres humanos são capazes de se deleitar com o som do vento nas copas das árvores, de habitar cavernas e de comer frutas silvestres, decorre a inutilidade da música, da arquitetura e da culinária. não creio ser necessário insistir nesse ponto

assim, o absoluto nessas ciências não é apenas dado ‘conteudisticamente’ – nenhuma ciência poderia operar se seu conteúdo não lhe fosse trazido de fora –, mas sua fonte é totalmente terrena e positiva, o que em termos epistemológicos equivale a dizer: demonstrável numa base lógico-positivista; é a ‘personalidade humana em máxima abstração’. o conteúdo dessa abstração pode variar – desde o ‘ato de ver enquanto tal’ ao ato de contar enquanto tal e à operação lógica enquanto tal. isso não significa que o homem com todas as propriedades do corpo, alma e mente tenha se tornado a medida de todas as coisas, mas sim que o homem, na medida em que não é senão sujeito cognitivo, o suporte dos atos de cognição, é a fonte do absoluto. a origem do absoluto, em sua validade absoluta, necessária e obrigatória, pertence a este mundo

o ‘boletim de ariel’ é o marco simbólico que anuncia uma nova geração de ensaístas, esta verdadeiramente notável: lúcia miguel pereira, augusto meyer, eugênio gomes, astrojildo pereira, afonso arinos sobrinho, barreto filho, carlos dante de morais, aires da mata machado filho, moisés velinho. a ela se juntará pouco depois a de álvaro lins, viana moog, cristiano martins, otto maria carpeaux (que a guerra e o exílio tornam escritor brasileiro), afrânio coutinho, brito broca, temístocles linhares, adonias filho, aurélio buarque de holanda, gustavo corção. todos eles, sem excetuar quase nenhum, prosadores que irão preferir como seu meio de expressão uma prosa tersa, quase neoclássica na sua maneira de ser discreta […] único gênero, conforme já se fez notar, que acompanha o gosto do público sem perder a qualidade literária, e, ao contrário, em cada situação nova recria essa qualidade, a tradição brasileira do ‘familiar essay’ persistia muito viva depois de joão do rio [com nomes exponenciais como] bilac, raimundo correia, guimarães passos, artur azevedo, coelho neto

assumindo a forma do ensaio como uma atitude interna na ordem da percepção e, portanto, aceitando a diretiva adorniana de que ensaiar no pensamento é *estranhar* via o uso de repertórios irredutíveis a inércia do conceito, rompendo identidades que nos sufocam na excessiva abstração, dirijo-me agora para um relevo mais especificamente filosófico, mas mantendo no horizonte o ruído das grandes asas negras que assombram as fronteiras internas e externas (lovecraft) típicas da concepção gótica de mundo, cuja função na microdinâmica conceitual deste capítulo é impedir nosso sono (dogmático), e manter a vigília. afinal, do que temos medo?

benjamin se preocupa sempre com o momento utópico encontrado no negativo – nas passagens encardidas e barulhentas, nas extravagâncias de grandville, na permuta de aforismos entre a moda e a morte, no papagaio barato de feuilletoniste, em baudelaire exclamando: “hélas! tout est abîme”. ninguém negaria que tudo isso faz parte do enredo. todo louvor a benjamin por trazer à luz esses fatos. mas, curiosamente, talvez tenhamos chegado a um momento da história em que é preciso reafirmar o outro lado da dialética do século XIX: não só os desejos e as potencialidades urdidos, contra as probabilidades, pelo negativo, mas antes de tudo aquilo que as formas de lucidez e positividade mais altivas do século (suas realizações efetivas) revelaram do terror – o verdadeiro abîme – entretecido ao sonho de liberdade da burguesia

nunca fui capaz de memorizar os nomes de pés e versos, ou de guardar o devido respeito às regras consagradas da escansão. na escola, gostava muito de recitar homero ou virgílio à minha própria maneira. talvez tivesse alguma suspeita instintiva de que ninguém sabia de fato como o grego deveria ser pronunciado, ou o que, entretecendo os ritmos gregos e latinos, pudesse o ouvido romano apreciar em virgílio; talvez fosse meu ócio que instintivamente me protegesse

adorno ressalta a insuficiência dessa atitude, que, no calor do embate entre tantas obras “irreconciliáveis”, sem dúvida tinha a intenção de apaziguar as diferenças, colocando o critério de julgamento do valor das obras em um ponto onde não havia nada a ser julgado: “a marca estilística que parece provir da maioria dos trabalhos, a ‘atonalidade’, ou melhor, a renúncia à constante relação tonal de progressão harmônica, é um conceito fraco e arbitrariamente escolhido, que em schoenberg e hindemith, em bártok e jarnach, em krenek e stravinsky corresponde a uma realidade musical em cada caso diferente e que portanto tem um sentido, tanto técnico quanto estilístico, em constante mutação”