adorno ressalta a insuficiência dessa atitude, que, no calor do embate entre tantas obras “irreconciliáveis”, sem dúvida tinha a intenção de apaziguar as diferenças, colocando o critério de julgamento do valor das obras em um ponto onde não havia nada a ser julgado: “a marca estilística que parece provir da maioria dos trabalhos, a ‘atonalidade’, ou melhor, a renúncia à constante relação tonal de progressão harmônica, é um conceito fraco e arbitrariamente escolhido, que em schoenberg e hindemith, em bártok e jarnach, em krenek e stravinsky corresponde a uma realidade musical em cada caso diferente e que portanto tem um sentido, tanto técnico quanto estilístico, em constante mutação”

se à noite viajamos de autocarro e ele faz uma curva e se olhamos nessa altura para a parte da frente dele (que não se move em relação aos passageiros), acreditamos que o ‘vemos’ fazer a curva. Sentimos, claro, que o veículo faz a curva e é possível também um sinal disso pela escuridão exterior, que ainda vemos, ainda que inconscientemente, pelo canto do olho. Mas queremos dizer que vemos a parte da frente do veículo descrever a curva e que ‘ao mesmo tempo’, naturalmente, não se move em relação a nós

Muitos escritores – especialmente os poetas – preferem ter entendido que compõem por meio de uma espécie de sutil frenesi, de intuição extática, e positivamente estremeceriam, ante a ideia de deixar o público dar uma olhadela, por trás dos bastidores, para as rudezas vacilantes e trabalhosas do pensamento, para os verdadeiros propósitos só alcançados no último instante, para os inúmeros relances de ideias, que não chegam à maturidade da visão completa, para as imaginações plenamente amadurecidas e repelidas em desespero como inaproveitáveis

quando você diz “essa obra não tem nada a ver comigo”, ou quando diz “essa obra é chata/sem sentido/boba/obscura/elitista etc.”, pode estar certo porque o que está à sua frente é um modismo, ou pode estar errado porque a obra ficou tão fora da zona de segurança de sua experiência que, para preservar o próprio mundo intacto, você precisa recusar o outro mundo, o da pintura. essa negação da experiência imaginativa se dá num nível mais profundo que a afirmação de nosso mundo cotidiano. todos os dias, de inúmeras maneiras, você e eu nos convencemos de nós mesmos. a verdadeira arte, quando nos acontece, desafia o “eu” que somos

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