Boquinha versus corpo

No informativo e bonito documentário Yoga – Arquitetura da paz, deparamos com aspectos estarrecedores do estilo de vida desses mestres da mente e do corpo. Ultrapassam os cem anos sem qualquer complicação de saúde, desejos e vontades sob o controle estrito da renúncia enriquecida pela meditação. Em verdade, chegam aos cento e poucos anos enxutos, fortes, em plena comunhão espiritual com a matéria, sem reclamar das miudezas de poder e frustração que tanto dano causam à fortuna do antigo ocidente. Um ocidente envergonhado que nos deu o aspirador de pó e os aparelhos de laser disc, mas sobretudo as guerras modernas, que confundem virilidade com a colonização do outro.

No capítulo dois, seção cinco, do meu mais recente livro, escrevo:

Homens e mulheres brilhantes, honestos, dedicados à família e ao trabalho muitas vezes passavam da juventude à vida adulta sem sequer um dia parar para cuidar da respiração e da alimentação como um adepto em busca do Ser. Julgavam-se ligados graças a gadgets e aparelhinhos, mas não estavam ligados coisa nenhuma; estavam, se tanto, presos. Você pode correr vinte minutos numa esteira ouvindo lambada enquanto pensa no seu patrão ou na sua amante, mas isso não será, nem por decreto, cuidar da respiração. No médio e no longo prazo, dirá o adepto, este sujeito não saberá dizer se vive a vida alegre e sem arroubo dos seres ligados, ainda que seus índices de colesterol estejam na média e sua rede social bombe de amigos.

Planos de saúde, consultórios de psicanálise, tabelas de performance, medicação psiquiátrica, hábitos deselegantes, gastos que geram mais gastos, consumos exibicionistas, produção de lixo, desprezo ambiental, hipocrisia familiar, não raro, seriam os reais sucessos de uma sociedade despreocupada em cogitar, profunda e autenticamente, a disciplina crítica da força motriz dos desejos. Lembremos o farmacêutico mineiro tão discreto e assertivo, poeta cuja inspiração e realização casaram-se, na história da literatura brasileira, como a aliança quase perfeita da eficácia semiótica, humildade na partida, e impacto na chegada, Carlos Drummond de Andrade, em seu manifesto iogue tão famoso e estudado chamado ‘Máquina do Mundo’. Neste poema, ponto alto do brilhantemente irregular livro Claro Enigma, ao deparar-se com a abertura do ‘reino augusto’ da máquina do mundo, sorte de aleph moderno, Drummond diz,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando a colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Quando repele a máquina do mundo, o poeta revela, em gesto, a alma que, porque soube renunciar, está agora disposta à recomposição miúda.

É lícito dizer que a vida do iogue, tal e qual exibida no documentário, será um bocado difícil de realizar neste atual estado de distrações e tentações. Mas os exemplos e as lições de vida servem não como algoritmos dogmáticos de performance, mas como inspiração para melhorarmos um pouquinho. Um pouquinho todos os dias, recusando, via raciocínio e dados, os hábitos arraigados pela ignorância e pelo comodismo frouxo. Hábitos que tornaram as grandes cidades circos entristecidos de consumo impulsivo, manadas zumbis e aculturação pelo supérfluo e pelo esquecimento.

Se a respiração, treinada e exercitada, é o primeiro passo para o reencontro do corpo com o Ser (termo corrente num dos pilares do hinduísmo, os Upanishads), o outro passo, tão importante quanto, é a alimentação, repensada em suas virtudes energéticas e processuais.

Hoje, a alimentação comum sofre da inércia empobrecida que corrompeu o século XX com a lógica imoral do domínio mercante, quando a assim dita praticidade empurrou-nos, literalmente goela abaixo, as falsas gostosuras das besteiras processadas e as falsas recompensas da gastronomia luxuriante.

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Reverter prejudicial postura exigirá novos paradigmas na ponta da produção, cultivo e comércio. Mas a indústria, escorada na busca insensível do lucro, dificilmente dará o braço a torcer sem a pressão pública e informada na ponta do consumo. Nós, sentados à mesa ou no chão, comendo com garfos ou com a fabulosa pinça dos dedos, ditaremos o progresso da indústria da comida, negando e acusando disciplinada e coletivamente os maus alimentos, as más práticas e as seduções que nos pretendem fazer crer que a comida acaba na boquinha. Não. A comida se come com todo o corpo. O que parece irresistível à boquinha pode ser, ao fim e ao cabo, uma traição contra os órgãos, células, tecidos e sistemas sanguíneo, ósseo, digestório e nervoso.

Cá no Bistrô Bengala, comemos com o corpo. Conversamos com a comida, apresentamos os ingredientes uns aos outros como novos coleguinhas de classe e temperamos, no colorido doce e picante das muitas manhãs que florescem dia adentro para despertar, aquecer e ativar o corpo, nutrindo sem pesar nem condená-lo à leseira arrependida.

Nosso Berço de broto tropical leva:
– Broto de alfafa fresco
– Abacaxi
– Figo
– Raspa de limão
– Azeite extra virgem

Nossa Bala de coco leva:
– Lascas de coco
– Flocos de aveia
– Uvas-passa
– Goiabas desidratadas
– Páprica picante
– Gengibre ralado
– Cacau em pó
– Amendoim
– Mel de laranjeira
– Tudo empapado na infusão de canela

Bom apetite!

Variação sobre o arroz com feijão – I

Um bom dicionário de português brasileiro não mostrará menos que 150 entradas para o verbete feijão. Feijão-baru, feijão-congo, feijão-corda, feijão-cru, feijão-peludo, feijão-mula. A lista impressiona.

No entanto, um mercado comum não disporá além de duas ou três variedades em suas gôndolas, sendo em larga e curiosa onipresença o preto, o carioca e o fradinho a graçar.

Outro dia, achei num mercadinho expresso um saco do encarnado. Sorri e comprei. Foi ‘o’ assunto na fila do caixa. Trago amiúde o branco, parrudo e pedidor de mais alento no pré-molho. Aqui aliás a dica. Ninguém precisa de panela de pressão para fazer feijão. Basta ser generoso no pré-molho.

Fato é que anda o espectro do feijão demasiado estreito, estigmatizado por certas presenças monopolizantes. Por ser caractere fundamental da comida brasileira, estranha não se ouvir falar em sart-ups de feijão. A ideia, simples mas charmosa, poderia contar com a seguinte formatação:

Um ponto comercial aberto no nível da calçada chamado por exemplo Três Feijões. A ironia é essa: entrando, o consumidor dá não com três mas com centenas. De onde, então, viria o três?

Seria a start-up conduzida, desde a traseira do fogaréu a lenha, pela tradição de três cozinheiras, também pilares da mesa atlântica e sertaneja: uma das Minas Gerais, uma da Bahia, uma caipira. Três modos à brasileira de abordar o feijão, com suas peculiares picâncias, texturas, temperos, acompanhamentos e acabamentos.

No mix de produtos da loja, feijões para comer na hora, em diversas formas, mas principalmente para levar para casa, congelados em porções para um, dois, três ou quantos forem.

Em São Paulo, cidade de estudantes, iniciantes, aventureiros em quitinetes, casais nas primeiras horas, a loja teria, creio, um bom giro, retornando o investimento em menos de um ano. Além disso, toda uma miríade de modismos e experimentos, bem à moda do orgulho max-min da geração digital, carregaria o feijão às possibilidades lúdicas da rica leguminosa, formando tira-gostos, doces, quitutes profanas, invencionices k-pops, neo-glitch, proto-grunge, sertafunk, glitter, dark, pós-punk, etc.

Uma loja de feijão. No Brasil. {{ NSSP }}

Neste arroz com feijão, usei:
– Feijão preto
– Bifun (macarrão de arroz)
– Batata-doce
– Munguzá (canjica amarela)
– Missô
– Linguiças de soja

Temperei com:
– Cúrcuma in natura
– Seu irmão (da Cúrcuma), o Gengibre, in natura
– Um pau de canela
– Três bagos de pimenta cumari
– Páprika picante
– Shoyo
– Curry

Bom apetite!

Sem sal e sem fermento, pão de milho é nutritivo e ‘culturalmente correto’

Em seu Caminhos e fronteiras (1957), leitura obrigatória e sorte de Velho Testamento do paulista secular, Sérgio Buarque de Holanda dedica um capítulo aos usos do milho na região.

O autor anota e explica por que a canjica é o prato do estado por excelência, desde quando o sal faltava e a caminhada exigia. E também por que, para mais garboso efeito, havia de ser mascado o grão de milho, antes de cozido, por uma mulher velha.

Lembra da triste difamação do alimento, tratado nos brasis como bobeia de animais e escravos. E por aí, talvez, explica-se o vilipêndio do milho ante o arroz. Lembra quando acusavam as cervejas brasileiras de levarem milho? Verdade ou mentira, pronunciavam o nome ‘milho’ com incontido escárnio. Aqui em casa, entra semana e sai semana, é milho com feijão que se deita ao prato.

Tratei do desamparo da mandioca na mesa da família brasileira, cegamente enamorada da batata. Somo agora o do milho, escanteado pelo arroz. Não são urgências nacionais, mas a correção, cedo ou tarde, engrenará.

Certa feita, na serra de Mogi, provei de uma estupenda aguardente de milho elaborada por famílias agricultoras advindas do Japão. O produto lembra um bom malte à moda escocesa, mas infelizmente não tem circulação. Mesmo bares chiques da cidade não dispõem dessa delícia alcoólica. Holanda aponta o fato da bebida, chamada então aluá, correr secretamente entre os escravos africanos do Brasil colonial. Sempre que encontrada, era apreendida.

Em 1687, o ouvidor-geral de São Paulo dr. Tomé de Almeida e Oliveira proíbe seu comércio “por assim convir ao bem do povo e haver mantimentos”. Os vendedores da “bebida combatida”, diz Holanda, eram multados e encarcerados. O paulista, entretanto, aprendendo junto ao índio, insistia no milho, e mesmo sóbrio fabricava biscoitos, bolos, guizados, canjicas, cuscuzes, broas e pães.

Não só sua versatilidade explicará o sucesso da gramínea indígena nos tempos da expansão paulista, mas sua eficiência nutricional e energética. Em tempos pré-Fapesp, ela era intuída, ou creditada no método tosco da autoexperiência. Hoje, os números provam. O milho é um alimento potente, amigo da terra e da cozinha.

As intrigas, a estigmatização de ‘segunda classe’, e a perseguição judicializada tolheram no entanto uma presença que poderia ser mais bem colocadinha. Nesses bolos de botequins que atravessam as tardes sobre os ovos coloridos dos balcões envidraçados, a chance do paulistano deparar com um bolo de laranja é incrivelmente maior que a de ali dar conta dum bom bolo de milho. Triste!

Meu pão de milho leva uma parte de farinha de milho moída na pedra, a mesma parte de farinha de trigo integral e quatro dedos d’água.

Descansa na cuia de cerâmica 16 horas. Vai 24 minutos ao forno alto, dentro de uma panela quente e tampada (destampada nos cinco minutos finais)

Bom apetite!