sobre uma instalação não realizada

Infelizmente, a Torre da Canção toca a música louca, língua de Babel, mas a Maison Dieu do Tarot não deixa de ser também uma caixa de música carrolliana, máquina de colagem, caça-níqueis de fonemas, trocando as figuras, a cada lance de escadas. O que era ruído de fundo, rangido inorgânico, no patamar seguinte, subindo ou descendo, vira voz principal de um oráculo: efeito sonoro de um almanaque enciclopédico de sons, clipes-espectros, música de entonações e ritmos, conjuntos de timbres, trilha de um desenho animado infinito. Este gigantesco realejo de nove andares mimetiza a nossos ouvidos uma imensa nostalgia do século XX, saudades daqueles sons da impressora matricial e da fita crepe, que levaram o artista a compor no século XXI suas músicas com materiais de escritório, remixadas a lindos gemidos e vozes de macacos e seres humanos. Na pintura de Comparini já vimos esse mesmo empenho híbrido, etnográfico na abordagem e iconográfico na fatura. Nos trabalhos sonoros com o Grivo, nos esquemas e croquis incorporados à obra. O que a ciência da loucura chamou de pareidolia – enxergar figuras onde há apenas o acaso – ou witzelsucht – a compulsão doentia à piada – neste novo trabalho é adotado como procedimento artístico fundamental diante de um amplo acervo de vozes do passado. Acidentalmente, não há, contudo, como não ver aqui nessa vertigem de possibilidades aflitivas uma crítica radical ao cinismo com que o sistema da arte contemporânea, a serviço da valorização do capital, neutraliza os extremos do trágico e do cômico, da barbárie do mercado, reivindicando para si as chaves da decifração da experiência humana como um todo. Deliberadamente, Comparini flerta com a derrisão, com o sarcasmo e a ironia, sem emitir no entanto nenhuma afirmação autoral previamente validade; a sintaxe é aleatória, sugerida pelo movimento, dadaísta no corte. Depois do tempo do inferno da modernidade, a pós-modernidade corresponderia à montanha esboroada do purgatório, da qual escalamos os escombros, em sobe-desce constante, pelas escadas de emergência de um edifício público.

das cartas a nora

Em ti amei a imagem da beleza do mundo
o mistério e a desgraça da minha raça
as imagens de pureza e piedade
espirituais
em que eu acreditava quando menino

Tua alma, teu nome, teus olhos
têm a beleza estranha das flores selvagens
de um campo encharcado de chuva

Senti tua alma estremecer
ao lado da minha
e pronunciei suavemente
teu nome à noite

Chorei vendo a beleza do mundo
passar como um sonho
no fundo dos teus olhos

quatro verbetes do ‘almanaque bierce breton carroll cummings kipling kerouac &c’

kerouac

1 Rabisque em blocos secretos, e páginas datilografadas, para o seu próprio prazer.
2 Submeta-se a tudo, abra, ouça.
3 Tente nunca ficar bêbado na sua própria casa.
4 Esteja apaixonado pela sua vida.
5 Uma coisa que você sente encontrará sua própria forma.
6 Seja um louco santo idiota da mente.
7 Vá tão fundo quanto quiser.
8 Escreva o que você quiser que seja sem fundo com o fundo da sua mente.
9 As visões indizíveis do indivíduo.
10 Sem tempo para a poesia mas para o que é exatamente.
11 Tiques visionários tremendo no peito.
12 Fixado no transe sonhando com um objeto à sua frente.
13 Livre-se das inibições literárias, gramaticais e sintáticas.
14 Como Proust, seja um velho chapado pelo tempo.
15 Conte a verdadeira história do mundo em monólogo interior.
16 A jóia central do interesse é o olho dentro do olho.
17 Escreva por recordação e para seu próprio espanto.
18 Trabalhe do olhar lapidar médio em diante, nadando no mar da linguagem.
19 Aceite a perda para sempre.
20 Acredite no contorno sagrado da vida.
21 Lute para esboçar o fluxo que já existe intacto na sua mente.
22 Não pense nas palavras quando parar mas sim em ver melhor a imagem.
23 Não perca a conta todo dia da data glorificada na sua manhã.
24 Nada de medo ou vergonha na dignidade da sua experiência, da sua linguagem, do seu conhecimento.
25 Escreva para que o mundo leia e veja as suas imagens dele.
26 Filme de livro é o filme em palavras, a forma visual americana.
27 Louvado seja o Personagem em Desolada e desumana Solidão.
28 Compondo de modo selvagem, indisciplinado, puro, entrando por baixo, quanto mais louco melhor.
29 Você é sempre um Gênio.
30 Autor-diretor de filmes Terrestres Patrocinados e Anjoguardados pelo Céu.

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bierce bufão

Funcionário que outrora era ligado à casa de um rei, cujo negócio era divertir a corte com atitudes e frases ridículas, cujo absurdo era atestado por sua fantasia disparatada. O próprio rei trajado com dignidade, o mundo levou alguns séculos para descobrir que sua conduta e seus decretos eram suficientemente ridículos para divertir não só a sua corte como toda a humanidade. O bufão era geralmente chamado de bobo, mas os poetas e romancistas sempre se deleitaram em representá-lo como uma pessoa singularmente sábia e perspicaz. No circo de hoje em dia o fantasma melancólico do bobo da corte age sobre a tristeza das plateias humildes com as mesmas graças com que na vida ele lançava sua sombra no salão de mármore, despertava o senso de humor do patrício e batia na barrica das lágrimas reais.

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bierce inundação

Enchente. A maior inundação de que temos notícia é o dilúvio Noaquiano descrito por Moisés, Berosus e um cronista assírio traduzido pelo falecido senhor George Smith. Inundações são causadas por diversos motivos, mas essa foi devida a uma longa temporada de tempo úmido – quarenta dias e quarenta noites, segundo Moisés. Caiu tanta água nesse período que cobriu todas as montanhas da terra, algumas das quais – a mais alta sendo próxima de onde Noé vivia – chegavam a trinta mil pés acima do nível do mar. Nossas chuvas mais pesadas dão cerca de seis polegadas em vinte e quatro horas – uma precipitação de meio metro de água mataria quem tentasse caminhar por dentro dela. Mas a chuva de Noé foi a uma taxa de 750 pés a cada vinte e quatro horas, ou 31 1/2 pés por hora. Foi uma baita chuva.

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eliot

Há muitas posturas perante o Natal,
Algumas das quais podemos ignorar:
Social, apática, puramente comercial,
Estróina (os bares só fecham mais tarde),
E a infantil – não a da criança,
Que acha que a vela é uma estrela e o anjo
Abrindo as asas brilhantes no alto da árvore
Não é só um enfeite, mas é mesmo um anjo.
A criança se maravilha diante da árvore de Natal:
Deixe que fique o espírito de quem se maravilha
Durante a Festa como um acontecimento e não como um pretexto;
E assim esse sonho reluzente, esse alumbramento
Da primeira Árvore de Natal de que nos lembramos,
Assim as surpresas, delícia dos novos presentes
(Cada um com seu cheiro peculiar e excitante),
A espera da comida, da galinha ou do peru
E o esperado oh! com sua aparência quando chega,
E que assim a reverência e a alegria
Não sejam esquecidas na experiência futura,
No hábito aborrecido, no cansaço, no tédio,
Na certeza da morte, na consciência do fracasso,
Ou na atitude piedosa de um convertido
Que pode sofrer a tentação de ser convencido,
O que desagrada a Deus e desrespeita as crianças
(E aqui me lembro, obrigado
Santa Lucia, por seu hino, e sua coroa de fogo):
Que assim antes do fim, no octogésimo Natal
(Por 80o querendo dizer talvez o último)
As memórias acumuladas das emoções do ano
Se concentrem numa grande felicidade
Que deve ser também um grande medo, como quando
Todo mundo sentiu medo:
Porque o começo deve nos lembrar do fim
E o Natal do Dia do Juízo final.

Sobre COSMA

A história começa pelo título; COSMA, um plural latino estropiado de COSMOS, porque, como se veria ao final, múltiplos universos eram criados a partir da clonagem do sangue da pomba que invadia uma espécie de bunker onde vivia um Noé pós-apocalipse com um acervo do material genético das espécies.

A conseqüência lógica, o desdobramento natural desse começo nos fez empacar por anos a fio: do desgaste desse material genético, haveriam fatalmente de surgir outros universos idênticos mas gradativamente menos semelhantes ao primeiro. No fim do mundo, no último universo as essências, por assim dizer, já estariam gastas e começam a surgir desequilíbrios que levam todo esse universo a se extingüir. Devido à súbita desaparição desse último universo, o penúltimo acaba indo pelo mesmo caminho – como que sugado pelo buraco formado pelo último – e assim sucessivamente até que a desaparição dos universos chegasse enfim ao nosso universo conhecido, tal como nós hoje o conhecemos.

Tínhamos um final que era novamente a mesma pomba se espatifando no microscópio do Noé do bunker e a visão do Aleph, do que seria algo como o DNA de Deus. Mas e quanto a todos os acontecimentos significativos, indicativos dessa perda de inspiração, do entusiasmo divino dos anjos, dos santos, visionários? Ensaiamos começar, listando episódios representativos dessa nova versão da Queda arquetípica, da expulsão do velho Paraíso, dos homens dos universos bizarros paralelos extintos.

Um deles era uma versão má de cada personagem bíblico, culminando com uma versão má de Jesus que meio se arrependia no final e acabava não ressuscitando mais, deixando sua versão da humanidade na dúvida sobre todo o Evangelho até ali. Reforçando o escopo patrístico, tínhamos também a moldura narrativa: o narrador era descendente de outro filho de Adão, Cam, que dera origem aos camitas, amaldiçoados através das gerações da tribo familiar.

O problema dessas transposições era que a analogia que servia de base era toda canônica, não entravam anônimos.

Quando tivemos que inventar esses anônimos todos, éramos nós mesmos e vimos que não fazia sentido escrever toda uma saga cósmica se fosse para acabar contando uma história de nós mesmos, uma prosa de ficção que não fosse nem científica, nem realista demais, que acabaria virando mais um amontoado de palavras em seqüência.

Uma opção era manter apenas personagens lendários em versões bizarras, o que nos levaria à fantasia. Não poderíamos jamais sucumbir à fantasia, o rock progressivo da literatura.

Pode-se dizer que fomos vítimas do próprio realismo ou que essa história, pelo menos, foi: jamais a concluíamos, nunca escrevemos nada dela além destas poucas linhas que buscam, se não rastrear seu paradeiro, apurar os motivos de sua protogênese, as causas de sua procrastinação.

A idéia inicial era juntar na mesma história todos, ou muitos temas obscuros, mitológicos, bíblicos, com uma atmosfera futurista; uma leitura irônica de textos sagrados em chave de ficção científica.

– – –

Capas de ‘Cosma’ respetivamente em Rússia e Suécia

dias melhores

Vamos falar de outras coisas. Contar depois que abre e abre espaço para dar em incrementos e ventila nossos campos. Atar quando roer é ato-semba se se olha para dentro e dentro fica, por causas, formas, casa&construção.

Em junho, o blog da Touro apresenta Alexandre Barbosa de Souza (São Paulo, 1972) como co-editor da categoria dias melhores. Tradutor no Brasil de Moby Dick, Alice através do espelho, Só garotos, entre outros, e autor de Livro de poemas (Giordano, 1992), Viagem a Cuba (Hedra, 1999), XXX (Dolle Hond, Amsterdã, 2003), Azul escuro (Hedra, 2004), Livro geral (Cia. das Letras, 2013), Vinagre (Laranja original, 2016) e do infantojuvenil Autobiografia de um super-herói (Hedra, 2003), foi editor literário na Editora 34, Cosac Naify e Biblioteca Azul. Nas próximas quatro semanas, Alê tratará por aqui principalmente do assunto ‘livro’. Valendo!

Miró da Muribeca, jogador de palavras

Miró, de Mirobaldo, craque da pelota do Santa Cruz Futebol Clube do Recife.
No tempo em que o maior talento de João era o futebol, os seus amigos o apelidaram de Miró,
forma reduzida de Mirobaldo, que se pronuncia com a vogal aberta na fala nordestina.
Muribeca do Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco.

O poema precisa do poeta, mais precisamente do corpo do poeta, de seu movimento.
Miró é imagem, é corpo, é cantor de rap sem microfone. Sua superfície é a cena,
as ruas, a farmácia, o boteco, o banco de trás de um carro.

Caretas, olhos esbugalhados, abre e fecha sem parar, grita,
chora, aponta seus versos com o dedo,
segue.

A poesia é armadura e armada para compor vida – acontecimento – que se reinventa a cada segundo e que freneticamente aparece como convulsão e como fala. Difícil saber, em sua fala, o que ele pensa, o que é poesia, o que é cena. Seu pensamento grava tudo ao redor como uma filmadora que passa compondo cenas com palavras. O corpo é instrumento de trabalho e de re-atualização, ritualização do mundo que o cerca.

Miró da Muribeca é corpo em poesia.

Pulsa, grita, chora, recita, pula, contorce-se, cospe.
É performance pura – movimento/pensamento/sentimento – acontecimento,
ou performance de quem se faz de bobo da corte.
E, não para…
Miró até agora

A poesia é pré-articulação, eventos que acontecem no fazer. O corpo é lugar de passagem, que se relaciona a todo instante com e no ambiente. O corpo se move a todo instante. Ele sente. Tudo ao mesmo tempo. A poesia é incorporação, movimento/pensamento/sentimento. Um corpo é mais que signos e significações, mais do que vemos ou olhamos, mais que pele, carne e osso. (Brian Massumi)

obra:

2012 – dizCriação
2010 – Quase Crônico
2007 – Tu tás aonde?
2006 – Onde estará Norma?
2004 – Pra não dizer que não falei de flúor
2002 – Poemas para sentir tesão ou não
1999 – Quebra a direita, segue a esquerda e vai em frente
1998 – Flagrante deleito
1995 – Ilusão de ética
1987 – São Paulo é fogo
1985 – Quem descobriu o azul anil?

QUASE CRÔNICO

a questão não é se há uma luz no fim do túnel:
a questão é você não entrar no túnel

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DE FLÚOR

tem certas coisas que até hoje
não entendo:
notícias da bolsa
e essa enchente de políticos
visitando a miséria de perto

ÚLTIMO ATO

mesmo que tivéssemos uma enorme luneta
a viajar em nossas veias
nunca nos enxergaríamos a olho nu
logo nós
seres tão vestidos

mas um dia o pano cai

Passo horas
Pensando porque tanto penso
Em algo que não é nem tanto.
Ser humano:
Saco de coisas.
Uma pá de sentimentos.
Tijolo por tijolo

Até virar cimento.

Diz Jomard

Retomando o debate sobre literatura e performance em Recife, quero declarar que meu propósito caminha em direção totalmente contrária a qualquer ideia de regionalidade frequente na crítica literária. De que modo poderia eu, uma paulistana, falar de um poeta pernambucano e principalmente de uma literatura que conheço instrumentalmente como a literatura de cordel, como fiz no primeiro post?

Por isso, meu olhar indica, denuncia ou apenas revela a curiosidade de falar sobre esses escritores a partir desse primeiro encontro, despretensioso, no qual reconheço descaradamente a literatura como performance.

O eixo norteador ou provocador parte da proposta de dançar com a palavra

A proposta de uma Literatura como Performance trata de pensar o mundo como espaço de composição, em que a palavra e o movimento se fazem na escrita, na poesia. O que importa não é a imagem, mas o que acontece entre as imagens, o que se passa entre os movimentos, da palavra e de sua localização como acontecimento. Não no movimento em si – sua duração –, mas nas virtualidades que entre eles escoam.

A performance é a escrita e o próprio pensamento em movimento. O que move o pensamento é a sensação e o pensamento tenta fixar. A palavra cria a imagem para tal sensação em movimento. No pensar/sentir, a linguagem é criativamente encerrada dentro de tonalidades afetivamente referenciadas, transformando-se em significados co-imputados pelo receptor. É quando novos territórios e paisagens podem nascer a partir do experienciado, do vivido.

Esta é a catalisação que encontramos em Jomard Muniz de Britto, cuja escrita transita por diferentes áreas: filosofia, poesia, teatro, cinema e música. Dentre suas inúmeras publicações estão os “atentados poéticos” (poemas em glosa) que nos interessam pelo caráter claramente performático. O atentado de Jomard é visual, auditivo, tátil e principalmente intervencionista.

Não se assustem leitores

Entre o sim e outros sinais,
o carnaval não pertence a ninguém.
Porque tudo – até mesmo o Bloco do NADA –
atravessa redemoinhos nas ladeiras de
Olinda ao Marco Zero reciferido por nossos
des-go-ver-nos!?
Imposs;ivel oficializar nossos desejos
Desrecalcados na folia.
Porisso escrevemos desgovernos: de 0 a 10
Ainda apostando no fervor
Dos empoderamentos foliões.
Viva o Bar do Sebastião com nosso
paganismo saudável, não saudosista.
Um telefonema de Amin Stepie para nós
Ultrapassa qualquer propaganda.
AMAR SEM TEMER NEM TERROR.
Brincar com fome de amorosidades.
Porisso a Sociedade Internacional de Economia
Ecológica arrebenta pré-conceitos
das ruas aos divãs.
Carnavalizar sem ignorar as
TRAMAS da VIDA do folião Abel Menezes.
Nossa paixão é um sábado ou domingo
que não tem fins de-ter-mi-nis-tas.
Beijar, abraçar, dançar, suspirar.
Com o retorno da pipoca moderna
entre suspenses e surpresas.
Rimas de tudo no Galo da Madrugada.
Ritmos de avenida devassadas.
Estrelas reinventando a beleza fugaz
de nossas tristes cidades.
Tempo folião de Carlos Fernando.
Mares, mangues, magias, alegrias.
Para nada salvar sem oitentação nem
Ostentação. Será possível?
Carnaval em clímax de trans-fi-gu-ra-ção
No cotidiano de todos, cada um de NÓS.

Recifevereiro 2017-05-17

Atentadospoeticos@yahoo.com.br

Jomard, não somente nos “atentados poéticos”, mas também em outras escritas pretende de forma alguma alcançar um pensamento puro e tampouco parece confiar que uma sensação pura existe. O que acontece é que na escrita eles estão juntos, o pensar está unido ao sentir ao mesmo tempo e são eles que imprimem movimento à escrita. É uma inclusão mútua, como sustenta Brian Massumi. A escrita é um corpo sem imagem, na qual está presente a força virtual do corpo, um corpo em passagem. Passagem que Jomard percorre nas ruas do Recife, na interação com os acontecimentos, com o carnaval, com as manifestações, com pessoas que sua escrita pretende evidenciar. Uma dobra do que um corpo na cidade pode tornar-se. Essa é a dimensão da performance “um corpo virtual e do não-ainda que o movimento incorpora através do movimento da escrita.” (MASSUMI)

Assim, é na captura do evento que temos o ponto convergente entre performance e literatura, onde Jomard através dos recortes das palavras e do ambiente que lhe é próprio se expressa no acontecimento-escrita, seja na composição de afetos e perceptos, seja no simples manejo das palavras e suas reverberações corpóreas.

Performance e literatura na cidade do Recife

O que existe entre?
Nada e muita coisa.
Os limiares sob os limites.
Esse nada, talvez, tão importante e crucial.
– Kuniichi Uno

A ideia de falar um pouco sobre literatura e performance germinava, antes mesmo do convite de Guilherme Coube para os dias melhores do blog da Touro Bengala. Desde que cheguei à cidade de Recife, há apenas 5 meses, a poesia pernambucana em sua performatividade já me atravessava, sem que eu a procurasse.

Fui assaltada, quando assistia a minha primeira sessão no maravilhoso cine São Luiz, pelos Atentados Poéticos de Jonard Muniz de Britto, cujo caráter de performance foi o que mais me surpreendeu. Era poesia, era filosofia, mas antes de tudo era performance. E antes mesmo de fazer qualquer investigação, anotando todas as referências, Bruna Rafaella Ferrer me apresenta o poeta performer do Recife: Miró da Muribeca.

Com tudo isso em mãos, ou melhor, no pensamento, Guilherme me traz o fio que faltava ao comentar sobre os ‘romances de barbante’ que chegavam no interior de Pernambuco, e onde um dos poucos da vila que soubesse ler, lia-os para todos os moradores, em voz alta, interpretando os cordéis com gestos.

Em seu poema ‘Descoberta da literatura’, do livro Escola das facas (1975-1980), João Cabral apresenta, entre 44 poemas que falam de Pernambuco e suas paisagens de coqueiros e canaviais, engenhos, personagens políticos e figuras históricas, não somente os temas consagrados em sua poesia – o rio, o sertão, o povo e o canavial – mas sobretudo antigas memórias de criança, colocando-se pela primeira vez como personagem.

Descoberta da literatura

No dia-a-dia do engenho,
toda a semana, durante,
cochichavam-me em segredo:
saiu um novo romance.
E da feira do domingo
me traziam conspirantes
para que os lesse e explicasse
um romance de barbante.
Sentados na roda morta
de um carro de boi, sem jante,
ouviam o folheto guenzo,
a seu leitor semelhante,
com as peripécias de espanto
preditas pelos feirantes.
Embora as coisas contadas
e todo o mirabolante
em nada ou pouco variassem
nos crimes, no amor, nos lances,
e soassem como sabidas
de outros folhetos migrantes,
a tensão era tão densa,
subia tão alarmante,
que o leitor que lia aquilo
como puro alto-falante,
e, sem querer, imantara
todos ali, circunstantes,
receava que confundissem
o de perto com o distante,
o ali com o espaço mágico,
seu franzino com o gigante,
e que o acabassem tomando
pelo autor imaginante
ou tivesse que afrontar
as brabezas do brigante.
(E acabariam, não fossem
contar tudo à Casa-grade:
na moita morta do engenho,
um filho-engenho, perante
cassacos do eito e de tudo,
se estava dando ao desplante
de ler letra analfabeta
de corumba, no caçanje
próprio dos cegos de feira,
muitas vezes meliantes.)

‘Descoberta da literatura’ fala de seu contato com a literatura de cordel, ainda menino, quando lia as histórias em voz alta aos empregados do engenho. Cabral nesse caso não é somente o personagem, mas desde o começo, o performer, aquele que desenrola os “romances de barbante”. O performer da palavra.

Nesse poema, o poeta não apenas dança com as palavras, mas parece pegar com a mão a palavra tecendo movimento puro. O “nobre artesanato” que João Cabral cria com as palavras não se faz a partir da melodia, mas do ritmo. Ritmo sintático. Um ritmo visual, intelectual, que é um ritmo sintático.

João cria paisagens afetivas em movimento:

“o de perto com o distante

o ali com o espaço mágico,

seu franzino com o gigante”

É nessa captura do acontecimento, no ponto convergente entre literatura e performance, onde cada qual através das linguagens (corporal e escrita) que lhes são próprias deixará se expressar em acontecimento, seja na composição de emoções e percepções, seja na criação de lugares e paisagens para as palavras.

A Performance por si só, inúmeras vezes, se constitui como esse corpo em ação, em função do pensar ou no caso da literatura, da escrita. Richard Schechner, um teórico da performance, aponta que a performance não se limita a nenhuma linguagem em especial, pois ela se constitui como:

um “amplo espectro” ou “contínuo” de ações humanas que são variações de rituais, jogos… da representação do social, profissional, gênero, raça, classe e papéis, e para a cura (do xamanismo à cirurgia), a mídia e a internet.

Sendo assim, podemos pensar que a performance é a escrita e o próprio pensamento em movimento, nem mais, nem menos. No qual o cruzamento entre performance e literatura nos revela inquietações estéticas, éticas e de linguagem, isto é, filosóficas.

Dentre as questões envolvidas podemos apontar: presença, agência, incorporação e evento.

Em Diferença e Repetição (1994), Deleuze e Guatarri (D&G) localizam as origens do teatro sem representação em uma tradição interna à história da filosofia, exemplificada por autores como Nietzsche e Kierkegaard: ao dar corpo e movimento à metafísica, fizeram dela ação, e esta existe ao propor atos imediatos. Trata-se de produzir, dentro do trabalho, um movimento capaz de afetar a mente fora de toda a representação, de inventar vibrações, rotações, turbilhões, gravitações, danças ou saltos que tocam diretamente a mente.

Tal cruzamento pretende assim dar conta da relação entre representação e presença; corpo e linguagem; a noção de movimento, ou variação, como um processo político e ontológico.

Contudo, a questão que realmente nos interessa ao ler a literatura como performance é a possibilidade de encarar a performatividade da linguagem como um fazer, mais do que uma representação, e as palavras, se quisermos, podem ser compreendidas como expressão de puro movimento.

Aqui a distinção entre língua e fala sugere que há um conjunto de regras ou constantes em relação às quais enunciados específicos são compreendidos como desvios ou anormalidades. Para D&G, qualquer linguagem dada deve ser compreendida como ‘uma multiplicidade de mundos semânticos’, nos quais todas as diferenças possíveis de sentido estarão virtualmente presentes.

Assim se a performance, de um modo geral, englobará tão diferentes artes, por que evitaria a literatura?

Desafio posto, me proponho a, neste mês de maio, falar sobre performance e literatura. E a perguntar, de que modo a poesia de João Cabral, Jonard e Miró será capaz de conciliar, integrar e fazer dançar linguagem e fala em puro movimento? Ou como a escrita, o pensar, a performance, são a fala em movimento.

dias melhores

Vamos falar de outras coisas. Contar depois que abre e abre espaço para dar em incrementos e ventila nossos campos. Atar quando roer é ato-semba se se olha para dentro e dentro fica, por causas, formas, casa&construção.

Em maio, o blog da Touro apresenta Carol Marim como co-editora da categoria dias melhores. Filósofa e bailarina praticante de butô e outros contatos, Carol nasceu em São Paulo, viveu em Florianópolis e hoje leciona Estética na Universidade Federal de Pernambuco. O foco de sua atual pesquisa são os encontros entre a pauta filosófica e as emoções humanas, à luz da performance. Valendo!

dias melhores marim

Aula (Mostra Maio Fotografia no MIS 2017)

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Imperdível a mostra Maio Fotografia no MIS 2017. Como sempre, tem de tudo um pouco, com as inevitáveis coisas “corporativas”, mas no geral, como diz o título acima, uma aula de história da fotografia, desde a primeira foto tirada até os ensaios em celular.

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folha de contato de Robert Frank

 

Das 7 micro-macro exposições dentro da mostra destacam-se 3:

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Logo térreo temos as fotos do projeto Nova Fotografia, que apresenta a série Paisagens da Inocência, de Giullia Paulinelli. Apesar de particularmente não gostar da montagem, o que realmente importa, as fotos, encontram um mix entre a tal inocência (do corpo) e a força (do espaço). É simples mas impactante.

 

mauricio

Na contramão desse universo idílico uma das salas traz a exposição Farida, Um Conto Sírio, do fotógrafo ganhador do Pullitzer, Mauricio Lima. Ali vemos a saga dos refugiados atravessando a zona de guerra em busca de asilo na Europa. O observador desatento vai achar que já viu tudo aquilo antes, o que tem sua verdade, mas há uma diferença marcante entre uma foto isolada numa página de jornal e dezenas de fotos em grande formato criando um universo.

 

koudelka

Josef Koudelka

 

E por fim, o filé mignon da Mostra; a coleção de Allan Porter, que foi editor da mais importante revista de fotografia de todos os tempos, a Camera (1966-1981). Boa parte dos ícones da fotografia estão ali, dos mais populares aos semi-desconhecidos, todos representados por fotografias que marcaram época. (é até sacanagem deixar muitos de fora nas fotos abaixo, mas vamos lá)

diane

Diane Arbus

 

leskrims

Les Krims

 

duane

Duane Michals

 

rod

Alexander Rodchenko

 
MIS
Av. Europa 158
Até 28 de maio
3 (meia) e 6 reais

filosofia fotográfica

No meu primeiro post aqui citei como herói da teoria fotográfica o artista Joan Fontcuberta, autor, entre muitos outros, dos livros no Brasil editados, O Beijo de Judas e A Câmera de Pandora. Neles Fontcuberta trata do seu tema principal, a mentira (ou a verdade) na fotografia.

Mas os heróis da filosofia na fotografia são muitos, assim como muitos são os títulos sobre o assunto. Buscando apenas na minha biblioteca particular, selecionei alguns títulos, uns mais, outros menos óbvios, para trazer um tanto extra de luz (uma superexposição!) para reflexão. Vamos a eles:

01_susansontag

Sobre a Fotografia, Susan Sontag, 1977 (Companhia das Letras)
Um clássico do gênero. Nos seis ensaios do livro, a autora trata do mundo em que as relações humanas passaram a ser mediadas por imagens, dissertando não só sobre a história da fotografia como também pela história vista pela fotografia.
“Sofrer é uma coisa; outra é viver com as imagens fotografadas do sofrimento, que não necessariamente fortalecem a consciência e a habilidade de ter compaixão. Isso também pode corromper. Uma vez que alguém vê esse tipo de imagem, surge a vontade de ver mais – e mais. Imagens hipnotizam. Imagens anestesiam.”

 

02_A-Camara-Clara

A Câmera Clara (Notas sobre a Fotografia), Roland Barthes, 1980 (Edições 70)
Outro clássico, onde Barthes vai além da reflexão sobre a imagem, meditando sobre a vida e a morte.
“Por fim – ou no limite – para se ver bem uma fotografia, é melhor desviar o olhar ou fechar os olhos. ‘A condição necessária para uma imagem é a visão,’ Janouch disse para Kafka; e Kafka sorriu e respondeu: ’Nós fotografamos coisas para tirá-las de nossas mentes. Minhas estórias são uma forma de fechar meus olhos.”

 

03_ENSAIO_SOBRE_A_FOTOGRAFIA

Ensaio Sobre a Fotografia (Para Uma Filosofia da Técnica), Vilém Flusser, 1983 (Relógio D’Água)
Nesse resumo de aulas e conferências, Flusser metaforicamente abre a câmera fotográfica para relatar duas revoluções, a escrita, em meados do segundo milênio a.C., e a atual, imagética.
“… A fotografia não é instrumento, como a máquina, mas ‘brinquedo’ como as cartas do baralho. No momento em que a fotografia passa a ser um modelo de pensamento, muda a própria estrutura da existência, do mundo e da sociedade. Não se trata, nesta revolução fundamental, de substituir um modelo por outro. Trata-se de saltar de um tipo de modelo para outro (de paradigma em paradigma). Sem circunlocuções: a filosofia da fotografia trata de recolocar o problema da liberdade em parâmetros inteiramente novos.”

 

04_rosalind

O Fotográfico, Rosalind Krauss, 1990 (Editorial Gustavo Gili)
A professora de história de arte moderna da Universidade de Columbia “ataca” a maneira de se escrever sobre fotografia, e particularmente, a sua história.
“Hoje, em todo lugar, tenta-se desmantelar o arquivo fotográfico, quer dizer, o conjunto das práticas, instituições, relações de onde surgiu inicialmente a fotografia do século XIX, para reconstruí-lo no quadro das categorias já constituídas pela arte e pela história. Não é difícil imaginar quais os motivos de semelhante operação, mas o que é mais difícil de entender é a indulgência para com o tipo de incoerência que isso produz.”

 

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O Ato Fotográfico e Outros Ensaios, Philippe Dubois, 1990 (Papirus Editora)
Mais um grande tratado filosófico sobre a fotografia além da imagem.
“Como a intenção de Baraduc é apenas apreender melhor a própria essência das forças ‘invisíveis’, tudo o que se refere às condições de visibilidade ‘normal’ vai desaparecer aos poucos de seu trabalho. Em primeiro lugar, ele aprende a dispensar a luz do dia. por exemplo, após os histéricos e as crianças, pôs-se a fotografar um abade. Fotografou-o durante o sono, no escuro, colocando o aparelho acima da cabeça. Resultado: uma ‘nuvem negra’ complexa, um fantasma da noite, que interpretou com seus critérios como ‘aura de um pesadelo’. Seguiram-se outros fantasmas auraculares noturnos, que assinalam o recolhimento (branco horizontal), a vontade (cintilação perolada) etc.”

 

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Proust e a Fotografia, Brassaï, 1997 (Jorge Zahar Editor)
O fotógrafo traça um paralelo do livro Em Busca do Tempo Perdido com a grande paixão do seu autor, a fotografia.
“Mas é definitivamente a cena do beijo que fornece as chaves da inspiração do relativismo proustiano: ‘As últimas aplicações da fotografia – que deitam aos pés de uma catedral todas as casas que nos parecem tão frequentemente de perto, quase tão altas quanto as torres,… e num fundo pálido e dégradé são capazes de encaixar um horizonte imenso sob o arco de uma ponte… – não vejo como isso possa, assim como o beijo, fazer surgirem, do que acreditamos uma coisa de aspecto definido, as cem outras coisas que ela não deixa de ser, já que cada uma delas é relativa a uma perspectiva não menos legítima.’”

 

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The Ongoing Moment, Geoff Dyer, 2005 (Vintage Books)
O autor escreve romances e ensaios, além de ser um dos editores de John Berger, que por não tratar especificamente de fotografia não se encontra nessa lista. (mas estará no rodapé 🙂
Nesse livro, Geoff afirma que os fotógrafos consagrados (Walker Evans, André Kertész, Dorothea Lange, Diane Arbus, entre outros) se “encontram constantemente” através dos assuntos similares fotografados por eles: barbearias, mãos, ruas.
“Na fotografia não há o enquanto. Há apenas aquele momento e agora este momento e entre eles não há nada. A fotografia, de certa forma, é a negação da cronologia.”

 

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Photography After Frank, Philip Gefter, 2009 (Aperture)
O editor de fotografia do New York Times apresenta ensaios sobre a fotografia contemporânea após o lançamento do livro The Americans, de Robert Frank, um marco na história, mostrando de onde a fotografia veio e para onde ela está caminhando.
“No final, uma foto pode gravar um fato, mas sem estrutura os fatos não são mais que evidências. O que eu procuro são evidências com observação.”

 

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Bending The Frame (photojournalism, documentary and the citizen), Fred Ritchin, 2013 (Aperture)
Ritchin
é professor do Departamento de Fotografia e Imagem da Tisch School of Arts da Universidade de Nova Iorque, e também co-diretor do Programa de Fotografia e Direitos Humanos. Nesse livro ele examina os usos históricos e contemporâneos da fotografia e mídias relacionadas para inspirar mudanças sociais.
“Se o último século foi o século da Fotografia, este é o da Imagem – nas marcas, na vigilância, na monitoração, no posicionamento geográfico, no sexo (manda nudes), nos selfies, no jornalismo do cidadão, nas imagens médicas, video games, snapchat e, dentro de tudo isso, a fotografia.”

 

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Como Ler Uma Fotografia , Richard Salked, 2014 (Editorial Gustavo Gili)
(em inglês; Reading Photographs – An Introduction to the Theory and Meaning of Images)
Apesar do título simplório na versão em português, este é o livro mais didático de todos. Cada capítulo (leitura de sinais – verdades e mentiras – identidade – estética, etc) traz exemplos fotográficos (de fotógrafos consagrados) que dão suporte para as explicações. Sem dúvida a melhor maneira de se passar de iniciante a estudioso.

 

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Photography Speaks – 150 photographers on their art, Brooks Johnson, 2004 (Aperture)
Aqui uma raridade. Como o título diz, o livro traz uma micro biografia, uma foto e um texto dos próprios fotógrafos, desde o início da fotografia (1800 e tantos – Talbot, Nadar, etc) até os dias de hoje (Mary Ellen Mark, Cindy Sherman, Christian Boltanski, a lista é imensa). Pra ficar na cabeceira.

PS: alguns desses livros podem ser encontrados online em formato pdf.

PS2: Para ir além no objeto olhar, é importante ler ao menos dois livros do historiador e crítico de arte John Berger: Modos de Ver, 1972 (Rocco) e Sobre o Olhar, 1980 (Editorial Gustavo Gili). No Youtube também encontramos a série Modos de Ver em vídeo.

longa vida à longa exposição

No dia 3 de fevereiro de 2015 o Esquadrão Anti Bombas de Atlanta explodiu uma caixa selada com fita adesiva colocada na ponte da 14th Ave. Ela era uma das 19 caixas de pinhole espalhadas pela cidade que faziam parte de um projeto artístico de solargrafia da Universidade Estadual da Georgia.

Solargrafia é um processo onde uma câmera pinhole expõe o papel fotográfico por dias ou até meses, tendo como característica as marcas deixadas pelo movimento do sol.

Justin-Quinnell_Solargraphsolargrafia de Justin Quinnell – exposição de 6 meses (entre dezembro de 2007 e junho de 2008)

Mas a fotografia em longa exposição não é um hype dos anos 2000, muito pelo contrário, e como ratifica o fotógrafo Marcos Vilas Boas, um pesquisador desses processos desde 1995, “a fotografia nasceu na longa exposição”.

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retrato de Andy Warhol, Duane Michals

Além da paisagem* como objeto de desejo; profissionais, artistas e fotógrafos amadores “brincam” com a longa exposição em retratos e cenas do cotidiano e fantasias**.

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Light painting de Troy Paiva na série Lost America, Pearsonville, 2008

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Michael Wesely constrói/desconstrói o urbano

Afim de demonstrar a variedade nesse campo, escolhi para encorpar esse texto imagens de duas vertentes opostas; nas “luzes lentas” do cineasta Marco Del Fiol, que tem na fotografia em longa exposição um hobby que certamente o leva a refletir sobre outras questões, e na série Meio-Dia (que vai na contramão do padrão longa exposição = noite) do supracitado Marcos Vilas Boas. Ambos falaram sobre o assunto. (clicar nas fotos para ver os detalhes)

1. Quando você começou a fotografar com longa exposição? Por que?
MVB : Por volta de 1994, 1995… fotografando natureza morta em estúdio, experienciando diferentes fontes artificiais de luz e usando longa exposição na maior parte do tempo, já que se tinha uma mania louca de fotografar com diafragma F45 para ter foco em tudo. Muito parecido com essa patologia do sharpen nos dias de hoje. Essas experiências se juntaram às derivas noturnas e solitárias em frente ao mar e pelos lugares vazios à beira mar.
MDF : Minha sogra tem uma casa no sul de Minas, bem no meio do mato. À noite as estrelas aparecem com tudo. Fica aquela coisa desmesurada de grande sobre a cabeça. Achei que dariam boas fotos.

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Marcos Vilas Boas, meio-dia, 2015

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Marco Del Fiol, noite

2. Qual é o seu ritual para fotografar com longa exposição?
MVB : Sempre que possível gosto de enquadrar a cena durante o dia, avaliar algumas questões, grau de periculosidade, e se der fazer uma marcação para as pernas do tripé.
MDF : Tem um silêncio interno que vai se encontrando com a paisagem. Quando eu fui para o Fish River Canyon na Namíbia senti que o lugar era muito forte e veio uma vontade de conhecer o “síndico” dali. Acredito que cada espaço tem uma espécie de entidade responsável pela sua manutenção. À noite veio uma tempestade elétrica impressionante, e foi lindo porque chovia em toda a volta, mas não onde estávamos.

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3. Existe ansiedade/expectativa no processo? Você imagina qual vai ser o resultado?
MVB : Resposta na questão abaixo!
MDF : O mais legal é a expectativa porque mesmo fazendo testes com o ISO mais alto pra ver o quadro, não dá pra saber qual vai ser o resultado final com o ISO baixo e a exposição mais longa.

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3. Além do equipamento, do tempo de preparação e da exposição em si, o que difere a fotografia de longa exposição da fotografia normal?
MVB : Acho que o tal do “Instante Certo” não existe nesse tipo de experiência fotográfica, o que pode tornar a coisa muito interessante porque você fica com a imagem processando no cérebro por bastante tempo, até olhar as folhas de contato no laboratório.
MDF : O mistério. De noite é o momento que o visível se recolhe e o invisível vai passear.

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4. Como você escolhe o seu assunto?
MVB : Existe ali algo interessante e com uma luz particular.
MDF : Gosto de paisagem, do lugar como personagem. Com o tempo comecei a brincar de mexer a câmera, fazer tilts, pans, zooms durante a exposição. De certa forma me libertei do plano fixo do Sugimoto e fui para o Kentridge, no sentido de manter o rastro do movimento. É como se cada foto fosse a somatória de um filminho de 1 minuto.

5. O que mais lhe atrai no resultado final?
MVB : Somente após repetir muitas vezes, fotografando em situações parecidas com variáveis semelhantes, percebi que estava resumindo em 1 único frame, um filme que assisti de 5, 10, 20 minutos de duração.
Voltar pra casa após algumas horas com apenas 3,4 ou 5 fotogramas, é um pacificador de ansiedade.
MDF : A luz da noite sobre a paisagem é sempre muito mágica.

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6. Quando fotografando à noite, que diferenças as luas (ou a falta dela no campo de visão) proporcionam às imagens?
MVB : A Luz da lua cheia se assemelha à de um sol de verão, é tão dura quanto, ajuda a ressaltar o contraste e as cores, se essa for a intensão. Além de ajudar para ter enquadramento mais preciso, diminui drasticamente o tempo de exposição necessário.
MDF : A lua cheia brilha tanto que esconde as estrelas, mas dá volume às nuvens. A crescente tem luz mais delicada. Cada fase tem suas graça, tem que aproveitar o que elas oferecem.

7. O clichê diz que nas fotografias de longa exposição a gente vê o mundo como a gente não o enxerga. Então o que a gente vê?
MVB : A intensidade de luz noturna às 19:00h é bem maior do que às 24h numa noite normal sem lua; sol vai se distanciando cada vez mais e a noite já escura vai ficando cada vez mais escura. Talvez se tivéssemos a pupila de um felino, qua dilata algumas vezes mais que a nossa, perceberíamos que o breu absoluto não existe.
Agora, quem pode definir o que é longa exposição e o que não é? Quanto tempo? Qualquer foto com mais de 1 segundo? 1 minuto?
MDF : O tempo.

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Curiosamente, ao solicitar referências bibliográficas aos fotógrafos, entre outros, ambos sugeriram o trabalho do artista Hiroshi Sugimoto. E não é que mais tarde, ao chegar na casa de uma amiga, de cara encontrei o poster acima. Sei lá, tem mesmo alguma coisa no ar 🙂

Site Marcos Vilas Boas

Tumblr Marco Del Fiol

* Para maiores reflexões filosóficas e estéticas sobre a paisagem, ler A Invenção da Paisagem, Anne Cauquelin

** site sobre light painting

uma resposta fotográfica para a vigilância

“Que direito têm os governos, corporações e indivíduos de coletar e reter informações sobre suas comunicações diárias? Que ferramentas – tanto hoje como no passado – foram usadas para monitorar suas atividades? Quais são os efeitos imediatos e de longo alcance? Como governos e corporações em todo o mundo expandem seus esforços para rastrear as comunicações e atividades de milhões de pessoas, isso não só ameaça o nosso direito à privacidade, mas também abre a porta para a informação ser recolhida e utilizada de forma repressiva, discriminatória e que ameaça o direito e a liberdade de expressão.”
(introdução de matéria da revista photography-now)(que inspirou o post)

A exposição itinerante Moving Walls 22/Watching You, Watching Me faz parte de um projeto da Open Society Foundations e atualmente se encontra em Berlim (até 2 de julho), trazendo uma compilação inspiradora (às vezes deprimente) do uso da fotografia como instrumento de vigilância.
São 10 artistas tratando do assunto através de visões e mídias das mais ecléticas, seja do ponto de vista governamental, corporativo ou individual.
Abaixo um resumo do que há de mais atual em termos de mundo atual.

Edu Bayer fotografou interiores abandonados do Centro de Vigilância da Internet e da Sede de inteligência do Coronel Muammar al-Qaddafi em Tripoli (agosto de 2011)

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edu-bayer

 

Simon Menner apresenta a série “What does Big Brother see, while he is watching?”, que apresenta uma fração das imagens pesquisadas no arquivo secreto da Stasi (Alemanha Oriental). As fotos de manuais de procedimentos têm títulos como “como dar sinais secretos” ou “como colar um bigode falso”.

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simonmenner3Disguise-Seminar(Seminário de Disfarces)

simonmenner1(Cerimônia de Reconhecimento da Unidade de Vigilância Telefônica)

Josh Begley junta fotografias, mapas e textos de documentos produzidos pela Unidade Demográfica de Departamento de Polícia da Cidade de Nova York na série “Plain Sight Visual Vernacular NYPD Surveillance”.

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(Information of Note, 2014)

Na série “Mission and Task”, Julian Roeder adota a linguagem visual da publicidade para chamar a atenção para as pessoas e máquinas por trás do sistema de vigilância fronteiriça do EUROSUR, que conecta todos os sistemas de controle fronteiriço na União Europeia.

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(Monitoring Zeppelin, 2013)

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(Border Fortification Facilities, Melilla, 2012)

Já em “It’s Nothing Personal”, Mari Bastashevski faz uma instalação combinando suas próprias fotografias com materiais promocionais e documentação corporativa da indústria de vigilância eletrônica.

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(CyberGym Camp, Israel, 2014)

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(colagem com brochuras coletadas pela ONG Privacidade Internacional, onde a artista trabalhou)

Tomas van Houtryve relembra o ataque americano ao Paquistão em 2012, usando um drone para fotografar diferentes localidades nos Estados Unidos na série “Blue Sky Days”.

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(Parque em São Francisco, Califórnia)

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(Carro de bombeiros no Gila River Indian Community, Arizona)

Acessando uma câmera de CCTV desprotegida, Andrew Hammerand destaca a invasão de privacidade que já está em andamento na instalação com 21 fotografias “The New Town”.

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(detalhes de The New Town, 2013)

Na série “Street Ghosts” (2013) Paolo Cirio faz instalações de rua que reinserem as pessoas capturadas pelo Google Street View de volta ao espaço público.

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Em “Dutch Landscapes”, Mishka Henner interfere na paisagem visual do Google Earth na Holanda, destacando com pixels coloridos os locais políticos, militares e econômicos censurados pelo governo.

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Em 2002 o artista e pesquisador Hasan Elahi foi colocado erroneamente em uma lista de observação do FBI. Desde então, Elahi fotografou mais de 70.000 detalhes mundanos de sua vida diária, e enviou semanalmente imagens para o FBI. As fotos se transformaram na série em andamento “A Thousand Little Brothers”, de 2014.

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(A Thousand Little Brothers, com aproximadamente 32 mil fotos)

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(detalhe de A Thousand Little Brothers)

Para saber mais detalhes sobre as obras, os artistas e a exposição, clique nos nomes (vale muito a pena) e também aqui.

Fotografo, logo existo *

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Faz nem um mês visitei a casa de um amigo recém falecido. Quando lá cheguei encontrei a família, entre lágrimas e risos e silêncios, selecionando as fotografias que continuariam a fazer parte da memória particular de cada um. Como esse amigo era um idoso, eram fotos e mais fotos de épocas diferentes: retratos retocados coloridos em cores impossíveis, os bons e velhos pretos e brancos e cinzas, polaroids, 3x4s e as clássicas dos anos 70, mais desbotadas ou mais contrastadas. Duas curiosidades: o desprendimento com que os familiares se desfaziam do “material” e o fato de que logo perguntaram se eu queria algumas daquelas fotos. Naquele momento meus olhos brilharam.

IMG_7213(foto 1: casa da tia Paulina e tia Nené – foto 2: desconhecido)

“Toda fotografia constitui uma promessa de eternidade, ao custo de nos revelar como futuros cadáveres: a imagem permanece enquanto o corpo desvanece. E, se para Barthes a fotografia mata, para Kracauer o que ela realmente pretende é desterrar a lembrança da morte.” (Joan Fontcuberta, em A Câmera de Pandora)

Há algum tempo coleciono fotografias “encontradas”. Tudo começou num mercado de pulgas europeu, quando comprei mais de mil slides visando achar caminhos para o desenvolvimento do meu próprio trabalho. E de certa forma encontrei uma saída. As fotos dos velhinhos em viagem pela Suiça nos anos 50/60 serviram de suporte para um evento que participei em 92 e até hoje procuro tempo para ir além nessa pesquisa. Já prometi parar de fotografar e virar um curador das imagens existentes. Sem sucesso.

old1(uma das fotos originais dos velhinhos)

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(fotos da série Spoiler, 2016)

Se no começo dos anos 90, sem internet, eu achava que havia descoberto a roda, hoje sei que a fotografia encontrada é objeto de culto já faz um tempo. Só pesquisando para aprofundar – um pouco – esse texto descobri um ensaio instigante  (The Found Photograph and the Limits of Meaning, Barry Mauer) e grupos de colecionadores; um deles, na Argentina, com mais de 22 mil integrantes (negativos encontrados – facebook). Também descobri a existência de um documentário sobre o assunto, Other People’s Pictures, de 2004.

Mas é no campo das artes que as coisas se confundem (bem, o que não se confunde nas artes?). Ali, com a presença da imagem digital, teóricos e artistas debatem se a fotografia é arte (isso é bem mais antigo), se coisas encontradas são arte (isso também) e, pelo andar da carruagem, se a arte é arte. Novamente, autores mais estudados discorrem sobre o assunto, o que não é a pretensão desse texto, até porque assunto infinito.

Hans-Peter Feldmann

(Hans-Peter Feldmann)

Joan Fontcuberta (nosso herói aqui hoje), conclui que o artista Joachim Schmid “condena a sacralização excessiva da história e de seus vestígios; nem a memória deveria ser um grande cemitério nem os museus deveriam funcionar como mausoléus que só glorificam o passado. Pelo contrário, a história deve poder regenerar o presente e incentivar o futuro.”

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(Joachim Schmid)

Schmid é radical, seu lema é “fotógrafos do mundo, uni-vos e detende vossa produção excessiva e insensata, reciclai o que já existe!”

Fica a dica.

PS: para saber mais desse e outros assuntos sobre a fotografia contemporânea é fundamental ler os dois livros de Joan Fontcuberta: O Beijo de Judas e A Câmera de Pandora.

Outros links
– trabalho dos fotógrafos italianos Arianna Arcara e Luca Santese, do grupo Cesura.
– curta Negativos Encontrados

* título roubado de um capítulo do livro A Câmera de Pandora, de Joan Fontcuberta, Editora G. Gili, 2010

dias melhores

Vamos falar de outras coisas. Contar depois que abre e abre espaço para dar em incrementos e ventila nossos campos. Atar quando roer é ato-semba se se olha para dentro e dentro fica, por causas, formas, casa&construção.

A partir de abril, nosso blog da Touro Bengala abrigará co-editores, que farão que bem entendam na categoria dias melhores. A estreia é do fotógrafo, videomaker, reformado produtor do quarto andar da MTV Brasil (safra 1994), professor, pai e divertido redator Ronaldo Miranda. Valendo!

dias melhores abril 17