dois poemas: gabriela wiener

Canción de cuna

sucumbo pequeno hijito
pero antes de hacerte dormir
en mi columpio del parque San José
sin niños sucios que empujen a traición
mis zapatos miran al sol

la canción que ahora no escuchas
la conozco bien
a mí logra dormirme
es el himno de mi casa
donde no tuve paz

paz la de tus párpados cansados
azules por sus juegos y caídas
en los patios
en los parques
aves de ensueño sobre ramas

mi paz era mentira
mamá me acostaba en pleno día
ocultaba en su casa amarilla
los patios de la noche
cerraba mis ojos con broches de muñeca
creía en esa manera de estar a salvo
pero nunca me avisó del pelligro:
puntapié, parque desierto, árbol pelado, niño muerto

ahora me mezo en tus manitas
y te veo y trato de cantar alguna canción cierta

no duermas pequeño con esas melodías
despierta si escuchas
un día de ahora o de mañana:
el arrurrú

– – –

Somos pobres

nuestra casa no tiene patio
ni exteriores
solo vivimos
al despertar
a la hora de la comida
al volver
en la noche
quietos
bajo las sábanas
cosidas de sombras
juntamos nuestros cuerpos
al frío de las paredes
hasta desaparecer

una casa es una planta carnívora

* * *
Do livro Ejercicios para el endurecimiento del espírito (2016)
* * *

dois poemas: lucas bonolo

A flor precária

Não desistir da flor precária
Ou atirar-se ao mar das camas
Despossuir bem a quem amas
Na doce aventura diária

Admirar os modos parcos
Conhecer da selva as ternuras
Talhando no homem usuras
Como aos planos se drena os charcos

Louvar o amor e o povo em chamas
Ainda que em via contrária
Escrever com a pena arbitrária
Em que o vento encena as tramas

E não viver de amarraduras
Nem de triunfos arcos
Mas voar em tantos barcos
Quantas do sol as posturas

– – –

Tais campos

Na cidade
Entre as casas
Pedras ficam
Pra contar a história
Todos já partiram
Por desgraça ou pandemia
O vinho estragou, não há memória
Ou rios santos

Mas são meus,
Que comprei ali
Ao tempo, sob a ponte
Os mais regados de pena,
Tais campos

* * *
do livro –Gaia primavera, o amor vai à guerra! (2018)
* * *

dois poemas: hilda hilst

Teus passos somem
Onde começam as armadilhas.
Curvo-me sobre a treva que me espia.

Ninguém ali. Nem humanos, nem feras.
De escuro e terra tua moradia?

Pegadas finas
Feitas a fogo e a espinho.
Teu passo queima se me aproximo.

Então me deito sobre as roseiras.
Hei de saber o amor à tua maneira.

Me queimo em sonhos, tocando estrelas.

* * *
Do livro Poemas malditos, gozosos e devotos (1984)
* * *

Hoje te canto e depois no pó que hei de ser
Te cantarei de novo. E tantas vidas terei
Quantas me darás para o meu outra vez amanhecer
Tentando te buscar. Porque vives de mim, Sem Nome,
Sutilíssimo amado, relincho do infinito, e vivo
Porque sei de ti a tua fome, tua noite de ferrugem
Teu pasto que é o meu verso orvalhado de tintas
E de um verde negro teu casco e os areais
Onde me pisas fundo. Hoje te canto
E depois emudeço se te alcanço. E juntos
Vamos tingir o espaço. De luzes. De sangue.
De escarlate.

* * *
Do livro Sobre a tua grande face (1986)
* * *

dois poemas: Paulo Henriques Britto

Pois era assim: o dia era mais dia,
diáfano, diíssimo, e entre um
e outro dia o luxo de uma noite.
E isso era tudo. Havia isso. E mais

a promessa de que após esse dia
viria uma noite, e, depois, mais um,
primícia da iguaria de uma noite.
Isso era vida. Isso era até demais,

e isso nenhum de nós nunca entendia,
e era dia claro, e isso nenhum
de nós via, como se fosse noite.
E isso bastava. Não havia mais

que a sucessão que não cessava: dia
se abrindo em noite a desabrochar num
dia em que sempre eclodia uma noite.
Isso era sempre. E agora, nunca mais.

* * *

HERACLITUS MEETS PASCAL

Ninguém se molha duas vezes
na mesma tempestade. Mudam
você, a água, nem é o mesmo,
na sua mão, o guarda-chuva;

muda o motivo pelo qual
você houve por bem molhar-se,
oferecendo ao temporal
— por assim dizer — a outra face;

não muda, porém, a consciência
de que os sapatos encharcados
e a calça manchada de lama

terão talvez efeito idêntico
ao que teria ter ficado
em casa, quietinho, na cama

* * *
Do livro Nenhum mistério (2018)
* * *

dois poemas: hilda hilst

Lenho, olaria, constróis
Tua casa no meu quintal.
E desde sempre te espio

Linhos e cal tua cara
Lenta tua casa

Nova crescendo agora
Nos meus cinquenta.
E madeirames e telhas
E escadas, tuas rijezas

Tuas costas altas

Vezenquando te volteias
Para que eu não me esqueça

Do instante cego

Quando me pedirás companhia.
Eu não me esqueço.
Te espio de hora em hora

Casa e começo, tua cara,
A qualquer tempo te reconheço.

* * *
Do livro Da morte. Odes mínimas (1980)
* * *

Ouvia:
Que não podia odiar
E nem temer
Porque tu eras eu.
E como seria
Odiar a mim mesma

E a mim mesma temer

Se eu caminhava, vivia
Colada a quem sou
E ao mesmo tempo ser
Dessa de mim, inimiga?

Que não podia te amar
Tão mais do que pretendia.
Pois como seria ser
Pessoa além do que me cabia?

Que pretensões de um sentir
Tão excedente, tão novo
São questões para o divino

E ao mesmo tempo um estorvo
Pra quem nasceu pequenino.
Tu e eu. Humanos. Limite mínimo.

* * *
Do livro Cantares de perda e predileção (1983)
* * *

dois poemas: hilda hilst

Épura, que translúcida
Se projeta.

Épura, feixe solar,
E de cristal. E ereta.

Épura, que a um só tempo
Se renova. E sem limite
Ou aresta

Toma corpo no Todo
E recomeça.

* * *
Do livro Exercícios para uma ideia (1967)
* * *

Túlio: há palavras escuras,
Guardadas, duros ramos
Dentro das arcas. Roxura
Por exemplo. É ânsia.
Convém lembrá-las
Porque me faço mordente
Nesta minha armadura,
Soberbosa, cansada
Do teu silêncio
E do laivoso das gentes.
Há palavras escuras.
Hederoso, por exemplo.
É abundante de heras.
Habena, que é chicote.
E há uma palavra rara
Em milenar repouso
No teu peito duro.
Convém lembrá-la, Túlio.
Do amor é que te falo.

Acorda a tua palavra.
Usa o chicote
Antes que eu me faça escura.

* * *
Do livro Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974)
* * *

dois poemas: valter hugo mãe

a virgindade de amélia
primeiro ano, curso de direito, univ. moderna,
porto, noventa

aceita este livro diria mais bonito
do que os outros encontrarás nele
imagens que talvez te surpreendam
mas não te assustes tantas vezes to peço
não te assustes repara na natureza das coisas
em como é tão comum depararmo-nos
com estas ideias e talvez entendas

há uma pornografia erudita feita para
gente como nós uma coisa entre o
querer fazer a aflição espiritual
e o amor eterno

depois vem cá ter juro-te
que às cinco em ponto da tarde não há
ninguém na casa dos meus pais

– – –

caxinas, um

as garças já não passam por
aqui o frio impede a rotação da
imagem um silvo enche os
ouvidos como o canto das
raparigas espalha a sobrevivência em
redor do peixe

os velhos morrem à
tardinha espevitados pelo sol
vejo-lhe as viúvas como
travessões largos nos passeios
enquanto os putos ameaçam as
ondas e quantas vezes os pais
irreconhecíveis de encontro às
rochas os corações convocados e o
sino a distribuir a morte severamente

gente do frio o cobertor
pelas costas no fundo do dia a
noite e a oração deus nos
perdoe a ferocidade a dor tão
profunda a comida mal servida e
desperdiçada o vocabulário dos
filhos a virtude e o cheiro
das raparigas o asseio da páscoa a
pressa do terço e a maldição do seu
nome

depois dormem pedras fechadas
tombadas no silêncio como em sustento
e juram que na fome dos lençóis
chegam virgens à luz do dia

por vezes a areia vem à estrada acordam
com o despiste dos forasteiros chamam as
ambulâncias e obreiras brotam das
portas a entristecer como
boca fora do peixe o fôlego o mata

gemem para dentro dos xailes à espera
que lhes digam que o mar está bravo
não haverá saída mais quentes as casas
mais fundo o estômago e tão impossível
a vida de sempre

os forasteiros mortos chegam ao
céu feitos de ruído à noite e certamente
não terão voz que a isso se sobreponha para
explicarem ao que vão é normal que
o céu não entenda nada do que se
passa numa terra tão alagada de
água onde pela morte se trocam
instintivos segredos uma recatada
robustez que dentro das portas de verdade
faz com que as viúvas segurem os telhados
mãos erguidas no ar

e os forasteiros não são ninguém senão
uma maior nave de areia que
bateu à porta no temporal e nada de novo
o frio a imagem de sempre

* * *
do livro Publicação da mortalidade (2018)
* * *

dois poemas: hilda hilst

Sem heroísmo nem queixa, ofereço-vos
Minha mão aberta. Agora vos pertence.
Queimada de uma luz tão viva
Como se ardesse viva sob o sol. Olhai se possível
A mão que se queimou de coisas limpas.
E se souberdes o que em vós é justiça
Podereis refazê-la como a vossa mão. E depois igualada
Aproveitá-la. A cada hora, a cada hora
E para vosso pão.

* * *
Do livro Iniciação do poeta (1963–1966)
* * *

Poeta, os homens manipulam a matéria.
Artífices do grande sonho dão-se as mãos
E é o meu canto o fruto dessa espera.
Canto como quem risca a pedra. Te celebro
Na mais alta metamorfose da minha época.

Não cantarei em vão.

* * *
Do livro Pequenos funerais cantantes ao poeta Carlos Maria de Araújo (1967)
* * *

dois poemas: hilda hilst

Eu nem soube falar do amor nos homens.
(Amor feito de júbilo aparente)
Nem soube replantar no que era terra
Uma mesma semente.
Tive no peito o mantra mais secreto
E não pude vibrá-lo, alento, lira
Corda divina no seu veio certo.

Elaborei em vão todos meus sonhos.
E súbito me tomas e me ordenas
A solidão mais funda:
Estes cantos agora, alguns poemas
Um amor tão perfeito e indizível
Porque não é tumulto nem tormento
(E se o homem na carne foi punido
O verbo diz melhor do sofrimento.)

Que nome te darei se em mim te fazes?
Se o teu batismo é o meu e eu só te soube
Quando soube de mim?

* * *
Do livro Sete cantos do poeta para o anjo (1962)
* * *

As aves eram brancas e corriam na brancura das lajes.
As aves eram tantas e sabiam do seu corpo de ave.

Esguias e vorazes consumiam
Os corpos que eram aves menos ágeis.
E as garras assombradas dividiam
As espessuras ínfimas da carne.

Na plumagem umas gotas de sangue
Dos corpos devorados se entrevia.
Mas da vida e do sangue não sabiam
As aves que eram tantas sobre as lajes.

O ritual sincopado das gargantas
Tinha o ruído oco de umas águas
Deitadas bem de leve em algum cântaro.
Todo o espaço se enchia desse canto
E atraía umas aves, outras tantas.

A face do meu Deus iluminou-se.
E sendo Um só, é múltiplo Seu rosto.
É uno em seus opostos, água e fogo
Têm a mesma matéria noutro rosto.
Alegrou-Se meu Deus.
Dessa morte que é vida, Se contenta.

* * *
Do livro Trajetória poética do ser (I) (1963–1966)
* * *

dois poemas: hilda hilst

Meus olhos
seguem o barco
E o arco
Dos horizontes
E os mares
E a flor e a fonte
Caminho
E caminha o monte.

Meus olhos
Seguem o barco
Mar alto
No fundo o peixe.
E a vós
Senhor excelente:
Corda prendida ao feixe.

* * *
Do livro Trovas de muito amor para um amado senhor (1960)
* * *

Era um vale.
De um lado
Seu verde, suas brancuras.
Do outro
Seus espaços de cor
Trigais e polpas
Azuladas de sol
Ensombradas de azul.

Era um vale.
Deveria
Ter pastores
E água

E à tarde umas canções
Alguns louvores.

* * *
Do livro Ode fragmentária (1961)
* * *

dois poemas: hilda hilst

O vocábulo se desprende
Em longas espirais de aço
Entre nós dois.
Ajustemos a mordaça
Porque no tempo presente
Além da carícia, é a farsa
Aquela que se insinua.
Faço parte da paisagem.
E há muito para se ver
Aquém e além da colina.
Há pouco para dizer
Quando a alma que é menina
Vê de um lado o que imagina,
Do outro o que todos veem:

O sol, a verdura fina
Algumas reses paradas
No molhado da campina.
Ventura a minha, a de ser
Poeta e podendo dizer
Calar o que mais me afeta.
Ventura ter o meu mundo
E resguardá-lo das cinzas
Das invasões e dos gestos.
Ah, poderiam ter sido
Encantados e secretos
Aqueles brandos colóquios
Que outrora se pareciam
Às doces falas do afeto.

* * *

A Aldous Huxley

Agora, meus senhores
É preciso dormir.
Embora muitos não saibam
É cada vez mais difícil
Sorrir.

Agora, meus senhores
É preciso dormir.
Minhas senhoras e mães:
É preciso esquecer
de parir.

Temos um mundo novo:
Traço, aço, espaço e cor.
E estruturas infantis
Garra e pupila
Para o amor.

Agora, meus senhores
É preciso dormir.
E que o sonho não tarde.
Azul e rosa e gaze
Repetindo comigo:

Azul
E rosa
E gaze.

* * *
ambos do livro Roteiro do silêncio (1959)
* * *

dois poemas: edimilson de almeida pereira

DA CERA

a proibição deu-se a ver escrita. antes era tudo conversa de inocentes. agora a escrita fala no corpo que ruiu sob os estrados. um livro se escreve agreste e quem o fala regressa do garimpo apenas com a garimpagem. a capanga em que recolheu o melhor do dia, rompeu-se; sobre ela o infortúnio atira seus mascates. a mina e a língua cultivam uma cabeça para habitar os corpos que maduram nas árvores.

* * *

JOÃO. DE DEUS

João de deus não vive
do seu.
Vive do alheio.
Para dar, em graça,

um assobio de barro,
um pião.
Seu ouro,
sem arca, é para os

pobres.
Ele diferente deles,
e dos ricos,
arca com o mistério.

Labor sem causa
de quem,
não tendo casa, vai
à caça

pelos outros:
um boi rosado, uma
linha
entre bordados.

João. De deus
se nutre
e sua forma não cessa.
Junta-se

à farsa da vida,
aos farsantes de cepa.
João, menos
que nome,

uma letra.
Faz-se em graça. Para
si retira
o último coringa.

* * *
do livro qvasi (2017)
* * *

dois poemas: hilda hilst

XIX

As mães não querem mais filhos poetas.

A esterilidade dos poemas.
A vida velha que vivemos.
Os homens que nos esperam sem versos.
O amor que não chega.
As horas que não dormimos.
A ilusão que não temos.

As mães não querem mais filhos poetas.

Deram o grito
desesperado
das mães do mundo.

* * *
do livro Presságio (1950)
* * *

XV

a Carlos Drummond de Andrade

A rosa do amor
perdi-a nas águas.

Manchei meus dedos de luta
naquela haste de espinho.
E no entanto a perdi.
Os tristes me perguntaram
se ela foi vida p’ra mim.
Os doidos nada disseram
pois sabiam que até hoje
os homens
dela jamais se apossaram.

Ficou um resto de queixa
na minha boca oprimida.
Ficou gemido de morte
na mão que a deixou cair.

A rosa do amor
perdi-a nas águas.
Depois me perdi
no coração de amigos.

* * *
do livro Balada de Alzira (1951)
* * *

dois poemas: caldas & maimona

não conseguimos nem tentamos

• não conseguimos nem tentamos •
• matar o senhor nem seus filhos •
• nem sua mulher nem seus cães •

• suas terras continuam intactas •
• todas molhadas por nosso suor •
• e continuamos dançando o fado •

• não conseguimos tomar as armas •
• nem as fabricas nem as maquinas •
• o salario engolimos assim mesmo •

• seu estado continua a ser perverso •
• nos tritura e zomba e suga mais •
• da nossa carne e ossos vencidos •

• não conseguimos mudar os rios •
• agora é preciso mudar os mares •
• reverter os ventos e a alegria •

• nossa vida continua sem a morte •
• do senhor entranhada em nos •
• enquanto isso não seremos nada •

* * *
Alberto Lins Caldas. Poema do livro de corpo presente. Rio de Janeiro, Ibis Libris, 2013
* * *

Festa de monarquia

não seria útil olhar de novo para o sol?
a mão que ofereci ao relevo do tempo
canta com as monarquias que dançam.
da música as sílabas fazem
imenso dezembro não anunciado.
na noite de ontem no centro
da lagoa entre dois barcos
estava um verde incêndio
anunciando a grande avenida
onde as palmeiras procuravam
saber se não seria útil
a pedra olhar ainda para o sol.
era a festa que se transformava
em festa.

* * *
João Maimona. Poema do livro Festa de Monarquia. Luanda, Kilombelombe, 2001
* * *

dois poemas: wei & chamie

RESPOSTA A MEU IRMÃO ZHANG WU

Minha humilde casa
   dá para as montanhas do sul.
Faz tempo que ninguém me visita,
   por isso a porta sempre fechada.
Sem preocupações ao longo do dia,
   aprecio meu longo repouso.
Pego minha vara de pescar
   e tranquilamente esvazio
   o odre de vinho.
Se quiser me visitar,
   venha, será um prazer.

* * *
Wang Wei (701–761), praticante do budismo chan. Poema reunido no volume Poemas clássicos chineses, com tradução e organização de Sérgio Capparelli e Sun Yuqi, L&PM, 2012
* * *

FOGO NO CÉU DA BOCA

Não faço o papel
de quem bate à porta
e espera a sua hora.
Esta é a palavra do profeta:
não troco os papéis
nem os rumos de vossa rota.
Vou por mim
sem a graxa da demora.
Caminho a pé no labirinto
que me ampara
e nem me escoro
na escora da memória.
Não forço as minhas rótulas
nesse passo.
Lentas, desfilo as cenas
do vosso agouro
em minha câmara.
Não faço o que disfarço.
Não corto os fios do telégrafo,
nem rompo os nervos
de nossa têmpera.
O que anuncio
no lacre desta mensagem
são os chifres do dilema
que faz de mim
outro profeta
entre o podre de vossa tâmara
e o mel de nossa abelha.
O que trago à tua porta,
nossa e vossa,
não são os frutos desta época.
São os ácidos
de meus açúcares
na palavra de teu déspota.

* * *
Mário Chamie (1933–2011), praticante da poesia-práxis. Poema do livro A Quinta Parede, Nova Fronteira, 1986
* * *

dois poemas: meireles & baq

APRESENTAÇÃO DO BOM PRESSÁGIO [trecho]

Olhando bem para o fundo da memória, vimos que éramos prisioneiros, e vimos que éramos também a prisão. E desejamos liberdade, como um último sorvo de ar para um resto de vida.

Foi quando reconhecemos no fundo de nós mesmos, depois de todos os desencantos e além de todas as misérias, aquele vulto gêmeo que ninguém pode ver, e que ninguém compreendeu nem amou. O que existiu por si, magoadamente. Que teve sempre glória: que foi arrependimento, que foi perdão, que foi um profundo suspiro para domínios mais puros e que, cercado de portas fechados, teve a forma com que as angústias limitam o tamanho das ansiedades.

* * *
Cecília Meireles (1901–1964). Poema em prosa do livro Episódio Humano, Editora Batel / Desiderata, 2007
* * *

Alguém sentado no escuro
sentiu a presença de Alguém.
Se um pintasse o outro,
os auto-retratos unidos
dariam meu rosto também.

* * *
bobby baq. Poema do livro Nébula, Riacho, 2016
* * *

dois poemas: penteado & naud

SOS

Deixei cair meu coração nas pedras
que chegam a gemer e a chorar o
cambalacho imposto ao inocente rio
por onde muitos hão passado,
por onde tantos vão passar!

Avezinhas tristes parecem murmurar
“Coitado! , pobre rio esquecido…” E
o instinto de sobrevivência as leva,
leva-as a brisa a outros ninhos.

Os peixes, ah! … Não têm saída.
Encontra-os a aflição e a morte e,
à tona bóiam suas feridas. Mas,

eis que alguém desperto vem
aos seres desta água poluída,
Ó seres desta água poluída!
Renovando a esperança,

SOS gritando aos ventos e,
entoando aos rios
a CANÇÃO DA VIDA!

* * *
– Marília Azevedo de Barros Penteado. Poema do livro Reconquista de um Oásis, João Scortecci Editora, 1992
* * *

CONTEMPLAÇÃO DA CIDADE

Por
um momento sinto nas tuas letras
a palavra indispensável. Entro
na sua pura significação, elastifico-me,
e te possuo tôda. Não toca a mim
surpreender-te gênero. Toca tanger tua
humanidade, cidade
onde tantos dramas se comprimem na solidão dos edifícios.
Sinto, um momento, a realidade das tuas pedras, de tua gente,
das tuas águas,
a confluência dos conceitos de Deus, de lei, de vida,
boiando em tua essência.
Mais um dia, mais outro, e outro,
não serás já uma cidade, um momento, a memória
de meu estreitamento a ti.
Serás uma lembrança a vogar o sem tempo,
um susto, no que, sem saber, te encontre transposta,
palavra integral no reino íntegro.
Por enquanto — foge o momento de tua captação cabal —
és fragmentada em mim, no dono do bar, no automóvel, no esmoleiro
parado na esquina. Por enquanto és um pouco das vozes,
das palavras guardadas para ocasião propícia, dos dejetos de hotel
farejados pelo cão ou pelo homem, no lixo.
E mais coisas ainda: a igreja aberta;
a noite morta; o pássaro e o gato;
os canos de esgôto,
surdos rios das casas no ventre das ruas.
Mas és,
para vires um dia sinal, despojada
de tudo o que não foi o momento essencial
em que te surpreendi, na palavra.

* * *
– José Santiago Naud. Poema do livro A geometria das águas, Editora Globo, 1963
* * *

dois poemas: pascoaes & hilst

AS PEGADAS (XVIII)

O caminho é uma pegada mais extensa, branquejando através dos panoramas. É o leito do rio por onde correm as ondas vivas do Tempo – as horas que têm figura: o peregrino de Jerusalém, o almocreve de Trás-os-Montes, o António que vai para o Brasil, o doido de Frariz, esse transviado do mundo que não sabe para onde vai, a Gravuna roendo pedras e imprimindo a sua pegada nos lajedos, o faminto, desde Camões àquele velho dos alforges, a Ana viúva, toda de preto, com dois filhinhos ao colo; o senhor padre-cura, nevrótico, transtornado, que passa na rua, como quem vai matar alguém ou deitar-se duma ponte abaixo… o criminoso que vai para o Desterro, o defunto para o cemitério: – sombra caída e levada por quatro sombras de pé…
Vede as horas andantes que deixam a sua pegada na poeira e a sua imagem no ar…

* * *
– Teixeira de Pascoaes (1877–1952). Poema de O Bailado, Assírio&Alvim, 1987
* * *

MEMÓRIA (8)

Ser terra
E cantar livremente
O que é finitude
E o que perdura.

Unir numa só fonte
O que souber ser vale
Sendo altura.

* * *
– Hilda Hilst (1930–2004). Poema de A trajetória poética do ser (I), reunido no volume Da poesia, Companhia das Letras, 2017
* * *

dois poemas: bopp & correia

COBRA NORATO – XVI

– Mar fica longe, compadre?
– Fica
São dez léguas de mato e mais dez léguas
– Então vamos

Está começando a escurecer
A tarde esticou a asa vermelha

Toiceiras de capim membeca
escrevem sombras longas nas areias usadas

Uma inhambu se assusta

Ecoa no fundo sem resposta
o grito cansado de um pixi-pixi

Encolhe-se a luz do dia
devagarzinho

– Vou ficar com os olhos entupidos de escuro
– Adeus marreca toicinho!
– Adeus garça morena da lagoa!

Apagam-se as cores Horizontes se afundam
num naufrágio lento

A noite encalhou com um carregamento de estrelas

* * *
– Raul Bopp (1898–1984). Poema reunido em Cobra Norato e outros poemas, Civilização Brasileira, 1976
* * *

O SACRIFÍCIO – VII

Medeia a Revolução fez outro aborto:
muda de nome o asco agora é vasco.
Fandanga a tropa é trampa é um desporto
de Moscovo que abriu um novo tasco.

Aqui até Otelo é laparoto,
a cantar de carrasco é um fiasco.
Do povo unido num gris de rato morto
Judas é presidente. É um engasgo.

O gáudio é de gadanho e de guedelha;
come-se merda só porque é vermelha.
O crime é curial se for esquerdo.

Está o tempo sentado na sentina.
Ó musa és de trapos de cozinha!
Peço-te amor. Dás-me um poema azedo.

* * *
– Natália Correia (1923–1993). Poema do livro Epístola aos lamitas, Publicações Dom Quixote, 1976
* * *

dois poemas: kehl & brandão

SAGITÁRIO

e esses homens aflitos
que habitam meu corpo
delgados e jovens como
cavalos
               bem sei o que querem de mim

esses rapazes roucos
povoam meus sonhos
que sonho acordada

à noite são anjos de asas caídas
me custam o sono
e as unhas roídas.

Maria Rita Kehl (1951). Poema do livro o amor é uma droga pesada, Vertente editora, 1983

––

FOME GORDA

Emas correndo, emas voando
Com o sol nas costas, com o sol nas patas.
O boi velho adora as moscas no atoleiro,
As baratas são tições no capinzal,

Os besouros têm sapatos pesados e sufocam.
O boi engole fogo pelas ventas,
O veado e a jaguatirica se equilibram no ar,
A anta em prece se ajoelha.

O mato queima, os bichos naufragam no rio gordo,
O rio gordo solta a cadela para cruzar com os bichos.
No meu tronco chamuscado as últimas fagulhas,

Uma brasa queima nos meus olhos e na minha língua.
O rio gordo, a cadela do rio gordo, os bichos,
A fome gorda dos bichos no crepúsculo do rio gordo.

José Carlos Mendes Brandão (1947). Poema do livro O sangue da terra – poemas telúricos, Tiprogresso Fortaleza, 2010

dois poemas: meireles & carlito

CRIANÇA

Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre – e resiste.

Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente…

Cabecinha boa de menino mudo
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.

Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.

Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuiria.

– Cecília Meireles. Poema do livro ‘Viagem’ (1939), reunido no volume Poesia Completa, Editora Nova Fronteira, 2001

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DRUMMOND

Sabe que nada mais agora
poderá mover sua poesia.

Cruza a avenida Rio Branco, o Aterro,
a enseada, o túnel do Pasmado

(do mundo caduco, é a parte
que mais lhe agrada).

Nem o vestido de flores da
filha do tipógrafo, nem os

pássaros de fogo que dele
partiam de vez em quando

(tudo perdido num antigo
crepúsculo itabirano).

Nem aquela vez,
quando pensou ouvir

o rumor do mundo percutindo
as paredes do Outeiro

(havia um melro no alto
do muro de cantaria negra).

Cerra as mãos como quem porta
um segredo, e ainda que ninguém

perceba, sente que sua revolução
está ocorrendo neste exato instante.

Se apenas uma dessas indecifráveis
palmeiras pousasse o rosto no peito

do aviador cansado, ouviria
as bombas da ilusão de

autossuficiência e as bombas
da ilusão de unidade absoluta

com a natureza reduzindo a
pó a ilha mínima do eu.

Mas ele mesmo só pode ouvir os
ônibus lotados que passam rumo à

periferia, soltando no ar
grossos rolos de fumaça negra,

ou as mãos de quem costura
vestidos de flores baratos.

Revoluções e filhos são mais
incontroláveis do que poéticos:

eis a quinta-essência do
aprendizado? Maria Julieta está morta.

Cruza o túnel do Pasmado, e mais outro.
Tudo somado, talvez esteja recitando:

“A Avenida Atlântica situa essas
coisas numa palidez de galáxias”.

Carlito Azevedo. Poema do livro Monodrama, 7Letras, 2009

dois poemas: drummond & saramago

CARTA

Há muito tempo, sim, que não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelheci: Olha, em relevo,
estes sinais em mim, não de carícias

(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que ao sol-posto
perde a sabedoria das crianças.

A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.

É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

– Carlos Drummond de Andrade. Poema do livro ‘Lição das coisas’ (1962), reunido no volume Poesia Completa, Nova Aguilar, 2001

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CORPO

Talvez atrás dos olhos, quando abertos,
Uma cinzenta luz de madrugada
Ou vago sol oculto entre névoa.

O resto é escuridão, onde se esconde,
Entre colunas de ossos e arcadas,
Como animais viscosos, palpitando,
A soturna cegueira das entranhas.

O resto se compõe de fundas grutas,
De abismos insondáveis que demonstram,
Ao compasso do sangue e da memória,
As medidas do tempo irrecusado.

Tudo tão pouco e tanto quando, lenta,
Na penumbra dos olhos se desenha
A lembrança dum corpo retirado.

– José Saramago. Poema reunido no volume Cinco séculos de Sonetos Portugueses, Cassa da Palavra, 2013