dois poemas

estava atrasado, estava
perdido, estava espalhado
pelas ruas, pelo bairro
com nome engraçado, estava
em desgraça, estava inútil,
tenso, fugindo, deixando-se
pelo caminho, estava,
estava abandonado, lançado
no fluxo insuportável dos dias,
estava pensando em partir,
estava querendo mais, temendo
a trilha, o atalho, estava
perdendo o controle, sentia
o impulso da letra, no meio
da vida: estava

a lua espessa
e um sol vítreo eram tudo
o que vinha do céu

Tarso de Melo (1976). Poema do livro ‘Lugar algum’ (2007), reunido no volume Poemas, 1999-2014, Dobra Editorial, 2014

INVENTÁRIO DE TÍTERES

livro à prova d’água
espessura aquosa

inundações cataratas marujos
caramujas lancinantes

resmas polidas com alicate e arreio
cavalas com valas
nas coxas

riso casco grinalda

inventário alfabético dos mortos
adão susanah
livro de nascimento

páginas pulsam e sangram
designo léguas, libreto a pequenas estrelas

peixe-pêssego

rugir sulfúreo
(ferormônio)

dúctil exumação
dúctil esteio de manobras e ardis
persuadir com laços
e declivoso labor, campos
de inquirição dos beiços

lábios diletos

Érica Zíngano, Renata Huber, Roberta Ferraz. Poema do livro fio, fenda, falésia, 2010

dois poemas

O PRINCÍPIO DO POEMA

Uma mulher atravessou o rio comigo
na névoa e sob o luar,
atravessou o rio ao meu lado
e nem sei mesmo de quem se trata.

Subimos para as montanhas.
Seus cabelos longos e dourados,
coxas próximas ao caminhar.

Abandonamos leis e parentes,
olvidamos o aroma da mesa paterna,
abraçamo-nos de repente
e nem sei mesmo de quem se trata.

Não retornamos aos telhados da cidade,
vivemos entre estrelas na planície,
exércitos não nos encontrarão,
águias tampouco,
um gigante descerá entre nós
e deverá possuí-la
enquanto eu estiver caçando javalis.

E nossos filhos entoarão o princípio
desta tribo em longas canções
festejando fugitivos e deuses
que cruzaram o rio.

Miodrag Pávlovitch (Sérvia, 1928), traduzido por Aleksandar Jovanovic no livro Bosque da maldição, Editora UNB, 2003

Com o fogo não se brinca
porque o fogo queima
com o fogo que arde sem se ver
ainda se deve brincar menos
do que com o fogo com fumo
porque o fogo que arde sem se ver
é um fogo que queima
muito
e como queima muito
custa mais
a apagar
do que o fogo com fumo

Adília Lopes (Portugal, 1960), na Antologia da 7Letras, 2002

dois kästner por drummond

CARTA A MEU FILHO

Afinal, eu quisera ter um filho
Forte e inteligente como essas crianças de hoje.
Só uma coisa me falta para esse menino.
Falta-lhe apenas a mãe.

Não é qualquer moça que serve para esse fim.
Há longos anos eu a estou procurando.
A felicidade é mais rara que os feriados,
E tua mãe nada sabe ainda de nós, meu filho.

Mas um belo dia começas a existir,
E já me alegro por isso.
Aprendes a correr, aprendes a viver,
E o que daí resulta chama-se: uma existência.

A princípio, apenas gritas e gesticulas,
Até passares a outros atos,
Até que teu corpo e teus olhos cresçam
E compreendas o que é preciso compreender.

Quem começa a compreender já não entende mais nada
E olha estarrecido para o teatro do mundo.
No começo, criança necessita muito da mãe.
Mas quando ficares maior, precisarás de teu pai.

Quero levar-te às minas de carvão.
Quero mostrar-te os parques com palácios de mármore.
Tu me fitarás, sem compreender.
Mas eu vou te esclarecer, criança, e me calarei.

Quero ir contigo a Vaux e a Ypres
E lá olhar o mar de cruzes brancas.
Ficarei quieto, nada insinuando.
Mas quando chorares, meu filho, eu estarei de acordo.

Não quero te dizer como vão as coisas,
Quero te mostrar como a coisa é.
Pois a razão só pode vencer por si mesma.
Quero ser teu pai, e não um profeta.

Se entretanto fores um homem como a maioria,
Apesar de tudo que te fiz ver,
Um homem como qualquer outro, fabricado em série,
Então jamais serás o que deves ser: meu filho.

POR ASSIM DIZER, NO ESTRANGEIRO

Estava sentado na grande cidade de Berlim,
Junto à pequena mesa.
A cidade era grande, mesmo sem ele.
Não fazia falta à cidade, bem percebia.
E em seu redor havia veludo.

Pessoas amontoavam-se em cacho,
Apesar disso, estava só.
E no espelho, para onde olhava,
Todos se amontoavam outra vez,
Como se assim devesse ser.

A sala, pálida de tanta luz,
Cheirando a perfume e bolos.
Sério, fita rosto após rosto.
O que ele vê não lhe agrada,
E, triste, desvia o olhar.

Alisa a branca toalha,
Olha no fundo do copo.
Já meio farto da vida!
Que queria dessa cidade,
Ali, sentado, sozinho?

Então se levanta, na cidade de Berlim,
Daquela mesa pequena.
Ninguém o conhece,
Mas começa a tirar o chapéu para todos.
A necessidade nos torna inventivos.

Poemas de Erich Kästner traduzidos por Carlos Drummond de Andrade reunidos no livro Poesia Traduzida, Cosac Naify, 2011

dois poemas

estou aqui
a milhares de quilômetros
com um siso inflamado
e o corpo latejando
com um poema medonho de lindo
da Hilda Hilst na cabeça
e você pula na minha tela do Facebook
sem ser convidada
numa foto patética
seguindo o trio elétrico
da Ivete Sangalo em Salvador
agora te odeio muito mais
daria tudo pra tirar seu nome dos meus livros
e do meu cacete de 26 centímetros, mas isto é quase impossível
vai doer
vai sangrar
vou apenas excluir nosso amigo em comum
que trabalha restaurando
quadros falsificados do Van Gogh
num galpão fedorento em Pindamonhangaba

Diego Moraes (1982), em seu livro ‘Eu já fui aquele cara que comprava vinte fichas e falava Eu te amo no orelhão’, Corsário-Satã, 2015

JUST READ MY DIARY

Em nova York use óculos escuros
Lia avisou ao telefone
lá do queens disse:
use óculos escuros no metrô
no central p. na quinta av.
na B.H. em wall street
no moma na victoria’s secret
na casa do Cruz todo mundo usa óculos escuros
em Nova York pronuncie s=t=a=r b=u=c=k=s
sorria para os ratos da pen’station
e repita I’m so sorry
como o camarada Morrissey grunhindo
why ho-ho-ho ha-ha em fairmount
porque quase sem perceber
nós envelhecemos juntos
cantarolando suehead nas
manhãs geladas de um aeroporto
de nova York ou tanto faz
porque quanto vidro
tanto quanto lixo
atrás dos óculos vi o metrô apagar as luzes
e o cara num inglês bizarro
não como no termini em roma
– próxima fermata uscita lado sinistro –
a voz metálica
ah fellini ah Marcelo
ah você camarada morrissey
na banheira
você me olha melancólico enquanto
lê seu Byron de capa vermelha
e james dean jaz
ah mi nueva York você escureceu
sem mim
tão cedo às 4 da tarde
na esquina da “walk c/ a don’t walk”

Jussara Salazar (1959), poema publicado na revista escamandro #02, Editora Patuá, 2016

dois poemas

BENFICA

das guerras que sempre respiram
em algum lugar do mundo,
pousa aqui este
atrito
contra a tarde pronta para
esmurrar meu abraço
na lembrança de você dizendo caminhar
por uma cidade
desconhecida é tomar a vida
de alguém
emprestada,
contra a luz (e seu monólogo,
esta milonga), esta
bela infelicidade a jogar
ligue-os-pontos
com cumeeiras, árvores
e sombras do bairro
unidas sem voz
como em uma
língua
de estátuas

Diego Vinhas (n. 1980), em seu livro Nenhum nome onde morar, 7Letras, 2014

DIZ O AGENTE GENÉRICO ZUMBI DO SISTEMA

  % cidadão % atualize seu pacote germinal d dados móveis p/
novo recenseamento disponível tbm através d coleta sanguínea
em qqr % espaço nave médica % autorizada %
  ao descumprir-se % a pena é de ruptura da sequência (doutro
modo ininterrupta) d todas as suas etapas reprodutivas % e d
sua família % e de sua espécie tbm % involução compulsória
fulminante a ser induzida % % pela Paróqia do Extermínio %

Reuben da Rocha (n. 1984), fascículo 2 de 6 de Siga os sinais na brasa longa do haxixe

dois poemas

PEQUEÑO POEMA INFINITO

Equivocar el camino
es llegar a la nieve
y llegar a la nieve
es pacer durante varios siglos las hierbas de los cementerios.
Equivocar el camino
es llegar a la mujer
la mujer que no teme a la luz
la mujer que mata dos gallos en un segundo
la luz que no teme a los gallos
y los gallos que no saben cantar sobre la nieve.
Pero si la nieve se equivoca de corazón
puede llegar el viento Austro
y como el aire no hace caso de los gemidos
tendremos que pacer otra vez las hierbas de los cementerios.
Yo vi dos dolorosas espigas de cera
que enterraban un paisaje de volcanes
y vi dos niños locos
que empujaban llorando las pupilas de un asesino.
Pero el dos no ha sido nunca un número
porque es una angustia y su sombra
porque es la guitarra donde el amor se desespera
porque es la demostración del otro infinito que no es suyo
y es las murallas del muerto
y el castigo de la nueva resurrección sin finales.
Los muertos odian el número dos
pero el número dos adormece a las mujeres
y como la mujer teme la luz
la luz tiembla delante de los gallos
y los gallos sólo saben volar sobre la nieve
tendremos que pacer sin descanso las hierbas de los cementerios.

Federico García Lorca (1898 – 1936). Poema de Terra y Luna, escrito entre 1929 e 1930

 Mi Amado las montañas,
los valles solitarios nemerosos,
 las ínsulas estrañas,
 los ríos sonorosos,
el silvo de los ayres amorosos,

 la noche sosegada
en par de los levantes del aurora,
 la música callada,
 la soledad sonora,
la cena que recrea y enamora.

 Caçadnos las raposas,
questá ya florescida nuestra viña,
 en tanto que de rosas
 hazemos una piña,
y no parezca nadie en la montiña.

 Detente, cierço muerto;
ven, austro, que recuerdas los amores,
 aspira por mi huerto,
 y corran tus olores,
y pacerá el Amado entre las flores.

San Juan de la Cruz (1542 – 1591). Estrofes 14 a 17 do poema Cántico (~ Sevilla, 1703)

dois poemas

À CRÍTICA GENÉTICA

Houve Há mais camadas no porvir correr do texto,
que não se pode nunca compreender;
entender sua história é não saber
que o poeta poema nasceu no ano bissexto.

E a Assim cada papel que foi vai pro cesto
pouco significou significa a quem souber
a interpretação pro cateter que vier
enfiado no cu enlaçado nas malhas do intertexto.

E ainda sempre há gente que se esqueça não reconheça:
por mais que a linha se demonstre reta o pensamento seja reto,
não houve nunca houve nada dentro da cabeça.

Por isso sempre digo: não se meta me meto,
por mais canhestro palavroso e insosso que pareça,
com o que quis quer dizer o teu poeta meu soneto.

Guilherme Gontijo Flores (n. 1984)
poema do livro brasa enganosa, São Paulo : Editora Patuá, 2013

eu durmo comigo

eu durmo comigo/ deitada de bruços eu durmo
comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu
durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão
longa em que não durma comigo/ como um trovador
agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo
comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo
enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo
comigo às vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que
estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo
vai ter que dormir do lado.

Angélica Freitas (n. 1973)
poema do livro Um útero é do tamanho de um punho, São Paulo : Cosac Naify, 2012

dois poemas

Fotografia

As frutas quando caem
amadurecem vermes
nas nossas barrigas.

Como são tristes as horas
se não são janela
interrompendo o bairro.

Queria compor um poema
todo hiatos e risos
(todo infância, águas mudas).

Queria, irmã, compor-te luz
e não guardar essa noite.
Teimo, porém, e componho

mãos

de lenta lida de amor
que devagar irrigam
as nossas fotografias.

Rafael Zacca (1984)
(poema da coleção Kraft, Cozinha Experimental, 2014)

––

o erro

não, eles não podem me culpar se meu erro foi, apenas,
ter comido meu próprio uniforme
e ter rascunhado 54 vezes as arestas
de uma única saída para a praia

haver crido que éramos presos
tê-lo escrito com meu sangue
em lençóis azuis
e perseguido, em um sonho, uma cadeira sagrada
com etiqueta e um nome
e ter plantado o eterno em jardins suspensos
cujos mecanismos das sementes
eu mesmo parafusei

se meu erro foi, percebendo que saía leite de meu peito,
bebê-lo e me esquecer
das papoulas

Sarah Valle (1990)
(poema da coleção Kraft, Cozinha Experimental, 2014)

dois poemas

A partir das águas

No tempo em que
        o saber vivia à beira d’água
O homem estava bem,
        na indolência agradável de um prado
                com ensinamentos azuis-celestes.
Seu pensar seguia o voo dos pássaros.
Seu pulso batia com o pulso das árvores.
Ele seguia o tratado das papoulas.
As ondas da extensa correnteza
        batiam no abismo de suas palavras.
O homem
        adormecia
                no colo dos elementos.
Pouco antes do nascer do medo
                        ele despertou.

Mas às vezes
Ele transformava
        a estranha canção do crescer
                no pulso terno da alegria.
O joelho da ascensão
        afundava-se no pó.
Outrora
O dedo da evolução estava
                Só
                 Na exata geometria do sofrer.

– Sohrâb Sepehri, Irã (1928–1980), tradução Juliana P. Perez
(poema publicado na revista Poesia Sempre n. 32, FBN, 2009)

Passo um ninho de andorinhas
Duas ou três cosmogonias
Minhas pílulas contraceptivas
Não sei quantas obras-primas
Uma merencória mordida
Minha gravata minha camisa
Passo umas carícias esquisitas
Minha frota submarina
Uma viagem só de ida
Não sei quantas semanas de turista
Meu miligrama de ternura
Uma tarde só neblina
Aquela luz daquele dia
Aquela luz daquele dia
Aquela luz daquele dia

Danilo Bueno, Mauá, SP (1979)
(poema do livro ‘Para viver automaticamente’, Córrego, 2016)