benjamin se preocupa sempre com o momento utópico encontrado no negativo – nas passagens encardidas e barulhentas, nas extravagâncias de grandville, na permuta de aforismos entre a moda e a morte, no papagaio barato de feuilletoniste, em baudelaire exclamando: “hélas! tout est abîme”. ninguém negaria que tudo isso faz parte do enredo. todo louvor a benjamin por trazer à luz esses fatos. mas, curiosamente, talvez tenhamos chegado a um momento da história em que é preciso reafirmar o outro lado da dialética do século XIX: não só os desejos e as potencialidades urdidos, contra as probabilidades, pelo negativo, mas antes de tudo aquilo que as formas de lucidez e positividade mais altivas do século (suas realizações efetivas) revelaram do terror – o verdadeiro abîme – entretecido ao sonho de liberdade da burguesia

se à noite viajamos de autocarro e ele faz uma curva e se olhamos nessa altura para a parte da frente dele (que não se move em relação aos passageiros), acreditamos que o ‘vemos’ fazer a curva. Sentimos, claro, que o veículo faz a curva e é possível também um sinal disso pela escuridão exterior, que ainda vemos, ainda que inconscientemente, pelo canto do olho. Mas queremos dizer que vemos a parte da frente do veículo descrever a curva e que ‘ao mesmo tempo’, naturalmente, não se move em relação a nós