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FRANKENSTEIN REVISITADO

–– um poema colagem do romance de Mary Shelley ––

Só há pouco fui ler Frankenstein, um dos marcos fundadores da ficção científica. Encantado com passagens do lirismo depurado da Sra. Shelley, passei a recortá-las (de um original barato), como quem colecionasse versos soltos, achados nos rios, chuvas e ventos.

Fui guardando as linhas na ordem da leitura.

Terminado o livro, fiz da prosa picotada um poema colagem. Ficou assim:

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Em seguida, e sempre a ouvir concertos para violino do repertório sinfônico romântico, dediquei-me à traduzir o poema recém-montado. A nova criatura ora se publica na plaqueta Frankenstein revisitado – poema colagem do romance de Mary Shelley.

Leitores queridos receberão a plaqueta em casa.

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‘DA FAMÍLIA: UM LONGO ENSAIO IMAGINATIVO’ em pré-venda por R$ 40,90

Nosso principal lançamento de 2017, o livro Da família: um longo ensaio imaginativo, de Guilherme Coube de Carvalho, está em pré-venda pelo preço promocional de R$ 40,90.

Reserve seu exemplar autografado e receba-o em casa, com frete grátis, a partir de 18/12.

O livro é um romance de formação com vinte personagens multifacetados, e a prosa se aproxima da tradição do ensaio familiar brasileiro. Há, além de trechos gostosos de autoficção, dramaturgia e ficção científica, traduções de Anne Carson e John Keats, uma releitura do processo condenatório de Frei Caneca, e a síntese da trajetória de Johann Sebastian Bach como artesão exemplar e um dos pais da nossa música. O livro mira na grande filosofia da maturação para entregar um tarô divertido, híbrido e aqui e ali sortílego, acerca dos possíveis da paz aos espíritos modernos.

Leia abaixo oito páginas de Da família e faça aqui sua reserva.

dezasete

Hoje em nossa página EPUBS (sigla convencionada para indicar ‘publicação eletrônica’), um novidade: o livro Dezasete, cujos 50 exemplares impressos em 2013 logo evaporaram. A publicação é um pequeno exercício de rememoração levado a cabo em fevereiro de 2013 por Guilherme Coube. A compõem 10 sextetos em redondilha maior (donde o título, dez-a-sete) a tratar de algumas das mais fortes lembranças da infância do autor em Bauru, onde viveu, entre o campo e a cidade, de 1987 a 1997. Na sequência dos poemas, lê-se uma sua inicial tarefa ensaística, em que o autor compara duas leituras da novela Campo Geral, de João Guimarães Rosa, a primeira naquela infância, a segunda no fazer do exercício, 20 anos depois.

>> Em ePub ou PDF

da rise and fall of da tower

O primeiro livro do Bruno Galan, Da Rise and Fall of da Tower (2011), narra as psico-elipses de eneagá, um interiorano salvo pelo roque na noite paulistana. Pequena pérola da escrita urbana em repente poético apurado na cultura pop e na filosofia comum que viria, nas obras posteriores, Taco da Lôca (2016) e O meme é a mensagem (2017), reforçada por verve crítica da política, a obra vem envelhecendo bastante bem.

Trata-se de uma prosa de formação com astutos tratamentos dispensados à sequência cronológica, tomada por idas e vindas em ritmo de incansáveis recomeços, e ao cenário, que descreve jornadas e teletransportes entre as mentalizações e virtualizações pessoais do autor-personagem, a Augusta, a Vila Madá, a praça ‘rúzivel’, e a locação principal, a antiga Torre do Dr. Zero. Os tipos da noite são descritos na linguagem inacessível aos escritores de gabinete, que escrevem sem viver, e impensável aos passantes distraídos, que vivem sem se ver. Ao final, como um brinde, a história é recontada ainda outra vez, mas como o roteiro dum filme de final feliz.

As músicas que fazem parte da formação de eneagá foram reunidas pelo autor nesta playlist, para você ler ouvindo:

Para ler o livro em PDF, eiqui: DARISE 2017

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Gente lida, viajada e estudada desse brasilzão, assuntíneos, contratíneos, familiares e festeiros, pessoal do bairro e das muitas casas do caralho espalhadas à vontade nesta densa são-rio, é prazer receber as suas graças sorrisos pratas sábado agora dia 8 próximo neste simpático café-restô da Vila Buarque. Os autores os saúdam e dizem que não desadoram adorar, adoram não desadorar, vocês mesmos suas testas mãos e línguas de leitores de tão quentes livros. Sábado agora! dia 8 próximo!

Dispare os cartazes abaixo em seus grupos de zap valeu [submergir] ♥

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gala POSTER LANCA

Handy Zine n.1

Está inaugurada a série The Handy Zines, livretos de 12 lâminas em papel kraft com dimensões de 11 x 14 cm. São peças únicas montadas manualmente, interessadas em tocar o ‘hoje’ com alta eficácia semiótica e populismo sensorial. O idealizador do projeto e autor da primeira edição, Guilherme Coube, afirma em nota esperar um leve quem sabe rebuliço no mercado, apesar do preço “praticamente inacessível”. Novos artistas serão chamados a manufaturar as edições subsequentes, “desde que entreguem alta eficácia semiótica e populismo sensorial, isto é, desde que toquem, com denso e matador minimalismo, os discursos tópicos correntes e fabulem uma assembleia fruível com delícia”, explica. A presente edição, intitulada ‘O So Con & Troub’, fala segundo Coube das “dualidades inseparáveis do fazer e do poder”.

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PLANA 17

Ao fim do mundo, diz-se no escritório da editora Touro Bengala Livros Fictícia. Para 2017, dois trabalhos literários serão lançados em livro nos dias 17, 18 e 19 de março, na Plana Festival Internacional de Publicações de São Paulo.

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NEM SOFÁ, NEM CULPA
por Luisa Cretella Micheletti

‘Nem Sofá, Nem Culpa’ é uma seleção de sete contos criados a partir de experiências de Luisa como atriz, repórter e mulher, mas marcados sobretudo por alto poder inventivo e inusual pendor literário. 

De um gato siamês narrador que teria sido neto do gato do famoso ladrão inglês dos comboios de Glasgow a Londres refugiado no Brasil a conversas de sedutora densidade psicanalítica da atriz L. com a personagem shakespeariana Lavínia num parque de diversões aparentemente nonsense, vemos a estreia de Micheletti com surpresa, tanto pela rica paleta figurativa, alusiva, simbólica e arquetípica, quanto pela sobriedade do compromisso narrativo com os assombros epifânicos que se espera das formas breves.

Ela sempre concordou: a colher intimida mais que a faca. Se fosse fazer um filme de terror, seu assassino usaria colheres para assombrar e eventualmente executar as vítimas. É mais seco e inapropriado, diria. No entanto, nossa memória sensorial, bagagem de abacate, cural de milho, papaya e mingau, não costuma relacionar colher com violência. E se alguém afirma o contrário, a etiqueta sugere silenciar e respeitar: a pessoa deve ter, infelizmente, sofrido horrores na mão da pobre colher, e agora, num impulso de expurgação do trauma, sai apontando por aí, tão ameaçadora quanto um escargot cansado. Tampouco vem daí o caso dela. Isso que botou na cabeça, tudo indica que sem mais nem menos, até poderia ter sido uma lição empírica, memorizada na dura submissão aos anéis da experiência. Mas não. Aqui o caso lembra desde sempre uma crença esdrúxula que, escondida no bolso de dentro do genérico trench coat plagiado da Burberry, logrou engodar fronteira adentro os oficiais de imigração de Heathrow. Na cabeça dela, uma excitante vitória do terrorismo.

O MEME É A MENSAGEM
por Bruno Galan

Em sua terceira colaboração conosco, Galan entrega seu mais virulento e engraçado manifesto ou repente político-filosófico até a data. Depois da alucinação caipira-under de ‘Da rise and fall of da tower’ e a semana atabalhoada do trabalhador paulistano em ‘Taco da Lôka’, o primeiro esgotado e o segundo quase, em ‘O meme é a mensagem’ o ativíssimo carteiro de Facebook e draga e composteira mêmica reitera seu apetite por colher na superfície agitadiça da fala das redes a sustância mais possível de desdobrar-se em crítica cultural e alerta jocoso a mim, você, ele, elas, nós e eles. Featuring Neide Spears, Gretchen e a Grávida de Taubaté, confusão e graça é o que não vai faltar aos leitores deste clássico galânico.

o massacre do carandiru sendo esquecido e começa o ano com massacre no amazonas, paraíba e roraima. na xanadu do capitalismo, exclusão e punitivismo. de dentro da bolha parece tudo limpinho, fresquinho e organizado, não é? pois é. não dá pra prender e matar todo mundo, uma hora vai estourar sua bolha, bubble boy. uma família de comunista em cada banheiro, é isso que escuto desde pequeno. o comunismo não só não chegou como a produção capitalista e a inclusão dos mais pobres nesse sistema é que aqueceu a economia e subiu um grau a mais na terra. se há consumo, há de ter inclusão, apesar de parecer paradoxal. isso que é inaceitável pra muita gente. esse é o motivo do grande ódio. ódio gera ódio. exclusão gera violência. aí nego fica puto mesmo. te arranca os svarovski da cara, pegam seu celú onde vc, dani, pati e carol mandam uma aécia, catam seu ecosport, pisam na sua barbie. então é bom pensar melhor antes de excluir o amiguinho. por que todo mundo quer sentir o quentinho e úmido do capitalismo.

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bruno galan diz

Ficar sem rede social é como estar no mundo não invertido, sem uma parede / janela que dê para o outro mundo, o bizarro, onde as pesoas brigam por ideias ditas pelo fígado e sem realmente acreditar naquilo, onde se treta por shift-maçã-4, desentendidos no inbox por delay na resposta. Agora que os piratas e góticos da web standart não podem mais se expressar sem cadastrar o celular, no more fake account, ordens do Demoraes.

Sendo não nerd, amante do ócio, baiano na casa da Louco, Harriet Andersson da buceta dele, jogando com a morte um xadrêz melancólico e cômico como Von Sydow, sem jamais perder a elegância sueca cearense e o rosto anguloso na selfie da vida. Twitter é uma redação de jornal fria da Bielorrússia onde se caça como em Serra-Pelada uma pepita viral que o faça mitar por 4 a 5 dias, caindo no ostracismo posteriormente ou sendo acusado de plágio ou fascismo por esquerdieitistas patrulheiros do ciberespaço, os nazi a gente nem vê, relaxa. Não alimente. Não me tague, não me toque. Printa a mãe pra ver se quica. Não me tague não, não, não, não, não.

Por favor, não me provoque.

Um nude de Duane Michals despretensioso causou um rebuliço em alguma mente pura. Ou será um robô que não passou pela catraca do captcha e está a denunciar e stalkear quem faz crossmidia e tuíta no Face o caminho do caveirão rumo à casa do ilegítimo? Vai Sabatth. Se dando muita importância, ein. Sipan. pode bem ser. ‘Ou não’, o filho de Canô haveria de dizer. Em todo caso, a abstinência remete à dependencia, junto com o ‘showroom dummies’ da coisa e o quentinho do Like. Magina na ditadura, ter face. Céloko dano bandera ae, se fecha. Já colocaram um mané do Geraldo até no Tinder. A vida corre lá fora como um casal em slow em qualquer praia near Garujá.

Se cuidem, Little Monsters, o barato tá loko.
Da ponte prá cá, as coisa é diferente.
A instagrama do vizinho é sempre mais verde.
A Lei, com seus braços de estivador do porto de Santos, não é para todos.
Rua e vias imateriais estão comprometidas.

Repassem.

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ninguém luta pela esquerda garantista pois são todos punitivistas.

preciso urgentemente encotrar um amigo. na pompéia quatrocentã, uns bem nascidos entoavam seus riffs, como diziam os jovens. criminalizar a burguesia me parece otário, infanto-político-cabaço esquerdo dumb. o que fica é o discurso ingerido, digerido e vomitado. derby suave, vem verão, indie institucional com piano e beat. bitch, please. reclame que muda o sistema, comercial que emociona, filme de dove que bate de frente com a figura do esquerdomacho, mas sem sinalizar à direita. saca? não. pfv, meu pão na champa com ovo, poco sal, vitamina sem mamão. dá pra por na gazeta? bob fernandes já dizia, o alvo é o lula. e niti. ah. esse. diria como marx manero: os B.O. começa como tragédia, depois como farsa. gil já dizia. vai fazer mais que isso?

quem nunca disse? qual canção não se encaixa?

chaves acozel. a combinar com o zelador. vai descê, motô.

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Apresentando Luisa Micheletti

Luisa Micheletti nasceu em 1983 em São Paulo e trabalhou de 2003 a 2010 na MTV Brasil, onde foi produtora, editora e apresentadora. Atriz, integrou montagens de Ibsen, Jean Genet e Roberto Alvim. Tocou baixo por dois anos no femme trio de dance-metal Fantasmina. Nem sofá nem culpa, seleta de contos a ganhar por este selo as falanges do público, sai no primeiro semestre de 2017 e marca a estreia de Micheletti em livro desde predicados próximos de maturidade, ouvido musical, íntegra abertura mística. O trecho a seguir, pinçado de um dos contos, casa bem com a série Mãe,

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Luisa Micheletti diz: Mãe,

Aos treze graus de Sagitário, dilatava rumo aos limites do círculo, claro insulto aos astros mais distantes das orgânicas córneas. Absteve-se de escolher. Determinara que faria parte de tudo e de propósito cravou-se, limiar da primeira, cúspide da segunda; assim, seria ambas. A estreita oposição mercurial em mortífera oito, perspectiva que mais tarde ensinaria a integrar valores ao que é dito, submeteria a fala do bebê vermelho às mais limpas verdades sempre, nesta infinita linhagem de matrioskas honesticidas. O inverno ameno o suficiente para que pudesse descer nua e com três jóias douradas empedradas de Vênus: era assim que posaria no momento de se consumar o retrato da carta nascente.

[…]

Sônia foi mãe três vezes. Dois vingaram. Pioneira em desquite, sol em leão, acelerada, válvula mecânica. Tinta dourada no cabelo, Aldemir Martins na parede, homens do PSDB e suas malas de dinheiro. A praia, ela viu, a novela, o mar. Ter tido um neto médico. Ter sido Shirley Temple. Ria. Ensinou não correr atrás de homem, escolher entre os que vêm e permanecem. Memória em molho netuniano que perpassa carne, bolognesa, sangue. Por dentro as que já foram, encuba, guarda, estão por vir. Em Uberlândia nasceu avó Sônia, lua da minha mãe, caçula de Antonieta poeta, neta de Leopoldina, filha de todas as filhas das matrioskas lunares honesticidas.

Inédito de Bruno Galan

Resta cerca de meia dúzia do livro Taco da lôca,  de Bruno Galan, diário repente político-filosófico de um pai e trabalhador em São Paulo que esta Touro deu à luz pública em papel em janeiro passado nas manhãs do Museu da Imagem e do Som quando da Feira Plana agora. Do livro disse a jornalista Vivian Whiteman Muniz que é “câmera-olho vertoviana, cine-olho parado no congestionamento ou gastando solinha de All Star.  O viajante é narrador da guerrilha urbana de memes, desbravador do concreto, um Bilhete Único na mão e uma ideia na cabeça. Chegando em casa, é papai manêro cheio de história pra contar”. O cartunista Adão Iturrusgarai deu like e lembrou o autor é “the king of vila madá, rei de pinheiros, do largo, da batata, teodoro, beatnik da augusta. noites bem vividas e mal dormidas. manhãs ressaquentas. estrelando
o ‘maldito passarinho madrugador dos infernos assoviando o melô do fim do mundo'”. Hoje, publica-se de Galan um inédito para abrir a série autoexplicativa Mãe, novidade aqui do blog que albergará novos inéditos. Aos fãs, adianta-se o autor vem fazendo “testes remotos” para um terceiro livro, Na Bahia todas as sílabas são tônicas.

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Bruno Galan diz: Mãe,

Não conheci Dolores. Foi uma mulher que estudou, cantava, tinha cultura. Ela gostava era de Antônio, mas a obrigaram a casar com José. Fugiram da guerra da Espanha para o Brasil. Já veio casada. José e ela tinham um comércio em São Manuel. Ela tocava a parte do contato com os clientes, homens. José às vezes tomava umas e tentava matar a esposa com uma arma. Analfabeto e machista, morria de ciúmes da esposa por ela tratar com os homens, já que era a culta da relação. Morria de inveja de ela ser culta. Contam que meu avô Mário, de cueca tirou a arma da mão do sogro e salvou a vida da sogra. Um belo dia José se matou, enquanto Dolores conversava com uma turma de homens no armazém. Dolores agarrou um jesus lascado, que passou para sua filha Maria, esposa de Mário, que salvou Dolores de José. Mário, sujeito tranquilo com os demais, mas autoritário e machista como José, teve muitas filhas. A caçula temporã, Maria Ignez, foi a espoleta da família. Não era muito chegada aos dogmas, mais apta ao hedonismo e ao questionamento mesmo. Rompeu com a igreja por volta dos 30 anos, causando grande rebú, estrondo e alvoroço naquela pacata formação familiar casta, culpada e temente ao senhor. Ignez teve dois filhos com João, com quem se divorciou em 1982, causando grande rebuliço, alvoroço e conversinhas de canto de boca por parte das maiores fofoqueiras que o mundo produziu, que são as carolas hipócritas do interior paulista. Saía para dançar e se divertir com as amigas que fumavam aquele cigarro de filtro branco lascado. Ela, a não cristã que acolheu o pai autoritário e repressor em casa, ele que ainda queria reprimir por comprimento da saia depois de adulta e divorciada. Mas isso não a impediu de romper com paradigmas e viver a vida, tocando um foda-se pro machismo e pros dogmas hipócritas da igreja católica. E conseguiu viver sua vida finalmente depois dos 50 anos, sem marido pra mandar, sem pai pra obedecer.

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Mântica é um livro de poemas escrito pela Tatiane Vesch, que toca com o João Maia a produtora camaleão. Ano passado, o casal fez a curadoria de um projeto transdisciplinar refletindo obra e processo em Hilda Hilst chamado Antrohh.

A Tati escreve desde uma antiguidade diante da qual é difícil não abrir as mãos.

Há uns meses, ela pariu a Viola; agora, Tatiane e João cuidam da filha e vivem a vivaz mitorritmia do milênio. Isso quer dizer entre outras coisas fazer a comida e não desesperar.

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A esta poeta não nos parece faltar tanto o que aprender quanto o que simples esperar. Disturba um pouco o monte de poesia que ali acabou aportando. Agora é ondas, voos de vegetação e passos dados trabalhando sem esforço.

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Muito natural e colorido, um hábito sócio-literário sem fronteiras com outras práticas, isto é, imiscuído no fruir atento (ela suporta a biomecânica circense) em que permeiam a mãe e a poeta em modo contínuo, é ela contar os sonhos, complexas psicodelias sem mudar o tom de voz. A admissão não exotizante do onírico acusa alcances irreversíveis de percepção.

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É da beleza de um canto espontâneo que salva e encena e planta o que resta por remar de que fala a Tati.

Neste almoço, em momento algum Viola deixou o contato do corpo da mãe. A filha muitas vezes fixada nas cores, ruídos, aromas à frente: todos os tatos da panela. E a poeta firme operou os fogos; usou mais de quatro panelas e bastantes temperos em compartimentos diferentes (exigindo assim diferentes modos de abrir e fechar), conchas, colheres, garfos, facas, tábuas, pegadores, escorreu a água fervendo e migrou molhos de lá para cá, misturou, misturou e serviu, pedindo desculpa aos convivas porque todas as cumbucas menos uma não existiam mais.

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No poema ‘kort de amuzas’, Tati faz uma graça nas delicadeza e efeito que os críticos costumam atribuir às poetas velhas. Como se vê, um erro:

autre-même
autre-même
autre-même
muita gente no balanço

7

Você consegue um exemplar de Mântica na Feira Plana ou escrevendo para casa@tourobengala.com

marque isso: um brinde pra feira

entre tudo o que pode acontecer
ao marcador
notamos no escritório os nossos
aos poucos perdendo espaço
regredindo a pedaços
menores e menores
quem nasceu
para evitar orelhas livros
de bruço for
çando a espinha
quando some é que aprendeu
a viver mais
de uma vida sem capricho
que a defina
os nossos sumindo
invariavelmente sumindo e terminando
comigo calhou, disse um
do marcador acabar junto com o livro
rá, dissemos, o marcador acabou
junto com o livro, nunca mais
que caso difícil
significa que o livro exigiu na leitura o exato
número de piteiras
disponíveis no marcador

§

Na Feira Plana, os livros da Touro Bengala acompanham um marcador que traz em si a marca, a sugestão processual e diríamos a rota mesma de seu próprio fim. Um marcador para tempos que não passam conforme pensamos.

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fotolivro: yui 393

Mais um xamã acessível (lembrando que o xamã, de fato, não há tanto quanto grupos fortuitos onde, do eventual, um ou mais esforços acessam o xamanismo em processo, que virá comunicar e administrar perspectivas cruzadas) na Frei Caneca lá embaixo, aonde vou bastante.

Avaro veio de Córdoba, Argentina, formado nas artes do DJing e da fotografia. Por vários motivos instalou-se em São Paulo onde vive e trabalha há cinco anos.

Não raro, Avaro deixa escapar indignações e desejos utópicos que poderiam ser ditos, sem tirar nem por, por mim mesmo. É um tanto espantoso o quanto, às vezes quando encontramos, as falas das bocas orbitam conceitos e percepções que não podemos chamar de próprias, mas de plenamente compartilhadas.

Isso, é claro, quando se pode a mínima complexidade na articulação (para excluir eventos ~meramente catárticos, por exemplo), ou seja, quando é possível abrir espaço para a produção de novos ou para a visita crítica de conhecidas percepções e conceitos não interessadas senão na direção da Verdade.

Há pouco, por uns quatro ou cinco dias, Avaro foi visitado pela enorme mariposa Canthela, nome de trabalho. Não há dúvida, Canthela não era só uma mariposa. Avaro diz que ela o seguia, que se aquietavam ambos quando queriam, e também que se agitavam concomitantes, passando da cozinha à sala e da sala ao banheiro. Eu disse: Avaro,

há pesquisa entre as mariposas, elas levam pranchetas mentais e ali esquadrinham sua ciência. Ela só queria uns dados. Rimos, mas sabemos: sob a máscara animal de Canthela, há, de fato, uma forma humana capaz de ver Avaro como um deslocado rinoceronte de cativeiro ou, mesmo, como uma mera mariposa.

“Vendo os seres não humanos como estes se veem (como humanos)”, diz Eduardo Viveiros de Castro em seu famoso ensaio, “os xamãs são capazes de assumir o papel de interlocutores ativos no diálogo transespecífico; sobretudo, eles são capazes de voltar para contar a história, algo que os leigos dificilmente podem fazer. O encontro ou o intercâmbio de perspectivas é um processo perigoso, uma arte política – uma diplomacia.”

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Avaro é apurado compositor, cioso das decisões que chamaríamos clássicas da operação harmônica. Regras de ouro, a forma clara, a beleza fora do grito, o ruído sequestrado pelo esquadro tanto quanto a dor pelo algorítimo luz, e ainda assim um pórtico, uma ponte entre estranhezas, uma sólida passagem para o espanto.

Em tempos de fotolivros ligeiríssimos, de tutoriais de fast-linguagem, de repetições de errinhos estetizados um tanto além do ponto naquela ociosa chave da frouxidão casual hipster, é salutar apresentar YUI 393, um fotolivro canônico. A seguir, um spread:

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Canônico, atenção, quando as “”rupturas”” disponíveis nos aportam tal qual filtros corretivos pré-programados, enjauladas por muitas e muitas aspas.

Avaro há muito frequentava o ?Parque? Augusta. Milita um tanto discreto, mais no silêncio da reza. No canto da sala do pequeno apê que divide com Gábi, há duas dúzias de vasos de onde sobem os verdes em galhos e folhas variadas. Na parede atrás, uma plaquinha diz: Parque Augusta.

Avaro é também muito grato. Nunca o visitei sem notar, às vezes simplesmente do nada, gestos e falas de gratidão genérica ao planeta e a tudo. É bonito ver.

Aqui você pode ouvir o set musical mais recente de Avaro:

YUI 393 estará na mesa da Touro Bengala na Feira Plana, de 15 a 17 agora.

todos soltos

À página 66 do livro Todos soltos, o leitor depara com as dezenove linhas de um poema que, nas palavras do poeta,

eu não lembro exatamente o sermão do Vieira que no Carnaval de 2014 eu lia. Mas lá ele dizia, no sermão de que não lembro, das tenças claramente; eu não lembro se eram necessariamente as tenças da segunda; e eu não lembro, também, se eram ou não grossas as tais tenças. Muito hip-hop eu ouvia, muita canção advinda da dor blues apenas quase subjugando a marcha eu consumia nas horas vazias daquela desalmada Brigadeiro, confusa na razão, até que como exatamente, muita confissão eu lia dos tuberculosos, os chamados góticos eu lia, os advindos da dor

. Sem dúvida um poema estranho porém marcado por negação e desamparo. Depois, pessimista. Seu fim, “já não imagina”, é também o bordão do desistente, daquele de quem os sonhos e os ossos pegaram no sono. Assim, numa transmutação goyana, produz-se monstruosidades

e eu acrescentaria ainda que não, parte-se uma bolha de sabão, com sorte, com um dedo, e assim nascem duas menores, duas bolhas menores completamente desinteressadas. Não é o caso neste poema. Aqui há tão somente uma bacia de latão carcomida em parte, demasiado amassada pois vê-se quedas, quinas, dedadas e martelos, toda sorte de pedra se vê e mais chapisco, lascas, resinas, ferrugens e metais e um geral estrago alma da segunda, se assim acreditarmos, ou desde uma compreensão tolerante diante das cruezas da situação. Quem gostaria de ser “infensa por decreto”? Cadê a transparência, ela gritava; “tripas na vitrina”, concluía.

A página não revela outra coisa, apesar de fazer pouca ou nenhuma diferença

pg-TS-blog

Há um problema na depressão, bastante sintomática no poema, quando dá-se o que a psicanálise chama de “cansaço em expressar a si mesmo”. Ora, nós não podemos esperar nada de sujeitos cuja trajetória de autocriação e reconhecimento tenham sido por esta ou aquela contingência guilhotinada. As últimas linhas são brutais quando aniquilam os trapinhos de autoestima e convocam a guarida da melancolia for good.

Tal seria um problema menor. Acontece que há, na modernidade vigente, uma série de arapucas camufladas de estradas, gaiolas camufladas de automóveis. Não é fácil perceber. Eles dizem: você não precisa articular suas vivências em linguagem compartilhada e tecnologicamente desperta, basta render-se à “hiperexcitação contínua da festa”, e sair correndo, e abraçar a cisma superegóica da promessa do gozo. Vem assim, não por acaso, prescrito o descaso com a ansiedade via quem? ele mesmo: o consumo; do qual, aliás, poucos de nós (os monges, bichos) estaríamos livres ou soltos. O que o mundo tal como o erguemos nos parece pedir, sem vergonha, então, é: anule sua voz e viva o tempo morto de quem trabalha para comprar arapuca por estrada.

É mais difícil do que parece, pois os seres da Organização estão à solta e são gigantes. Um deles, inclusive, pretende “cuidar” de nós os depressivos. E cuidariam, talvez, não fosse um detalhe: quando fazem circular inibidores disto ou daquilo (testados baixo o domínio do Earning Per Share), o que circulam, em verdade, é o discurso mal acabado do “fim da era dos conflitos”, quando nada muito drástico, em esfera alguma, e por mais contraditória, pode ou deve ser incitado. Pare eles, estaria “tudo certo”.

TS-tease-blog

Reunindo dois anos de produção, Todos soltos é o primeiro cujo nome do autor, Guilherme Coube, vai à capa. Por quê?

Talvez eu tenha amadurecido. Talvez, agora, eu sinta mais firmeza na ideia de fazer circular um livro apenas mais um, sem que o nome do autor tenha medo de aparecer. Mas eu não mandaria ninguém embora se este ninguém dissesse assim mesmo: o que houve foi que regrediu, você, você regrediu. Antes era contido na forma mínima que programa o desterro da autoria, morriam longe tantas influências prosaicas, e víamos ali algo que não se dói desprezar. Agora? Agora você tão somente deseja ser um e só mais um, mais um comum. Você voltou atrás, quando muito…

Todos soltos foi distribuído em residências aleatórias do bairro Bela Vista na semana que passou, infelizmente sem registro fotográfico. Mesmo assim, será lançado entre 15 e 17 de janeiro no Museu da Imagem e do Som de São Paulo por sintonia da edição preto e branco da Feira Plana.

taco da lôca

Um caso a ser seguido em nossa prosa, musicada e imaginada durante uma semana em que o narrador e protagonista insiste no que talvez chamássemos singularidade não constrangedora, isto é, aquela que respeita a platitude segundo a qual o seu desejo tem duas e apenas duas opções: realizar-se sem restringir o desejo do outro OU realizar-se para provar que o desejo do outro, na verdade, não compensa ou até mesmo não existe. Neste livro, os desejos de grandes conglomerados corporativos e políticos profissionais, por exemplo, são atacáveis porque são inválidos, não humanos.  Insiste-se: o autor é paciente com o mau desenho social sem ser acrítico.

a coisa do eu. até as lamas na questão do si. mesmo, no caso. no caos. sobrevivendo no inferno. umbigo, 2 bigo. taxista ouvindo pan, no programa da tarde o ex bbb bam bam. humanista agressivo. os que sentam no corredor e dão meia licença, os que pedem info na porta do busão sem dar uma nesga pra quem quer entrar.

os direitos dizimados um a um, dia a dia. a real humanitik q regaça como todo mundo o xingú e posta brum.
mata uma aldeia a cada carregada do aifone 5. quem nunca? as mortes por selfie, que ultrapassam ataques de tubarão.

o ex de anita. a publicação do tico.
o meme da vez.
prêmio hídrico, jornalismo wando. você não me avisou, amor. podemos tirar se achar melhor. todos estão surdos, todos estão soltos.

ins-galan

Ao contrário, Bruno Galan apresenta, como no trecho acima, a descrição nevrálgica do romancista decantado de mãos dadas com a crítica. Engaja-se, pois. Não abre mão de ser e pensar o político dentro do experimento e entende que um sujeito nunca se esvaziará o suficiente para pronunciar abobrinhas do tipo “não ligo para política”.

No posfácio da presente edição, o editor Guilherme Coube arrisca hipóteses:

Não é só o desejo de ‘ser escritor original’ no pátio de reproduções majoritariamente insossas e inconsequentes do Facebook, mas é, sobretudo, a coragem de ‘mostrar como escrevo’ aquilo que você não perde por esperar.

Isso ou não, o livro passa fincado em nossa época, na forma e no fundo.

Taco da lôca é lançado 15 de janeiro na Feira Plana com esperadas aparições do sr. Galan.