um sonho

outra noite sonhei que visitava o imf. assim chamavam a universidade brasileira, enfim a primeira. uma garota me conduziu brevemente a visita, depois me soltou foi cuidar de… disse tratamos aqui basicamente de desenho cremos ser o desenho a força complementar do desígnio desse modo ao formarmos melhor desenhadores deles nascerão mais ricos frutos. então conforme andei, sozinho pelo edifício, vi turmas batucando disciplinas, orientadas por projetos de muitos lugares chegadas, chegando de mansinho quem sabe às virtudes naturais, universais e específicas dum desenho brasileiro. não sei dizer tratar a sigla imf de instituto millôr fernandes. revendo seus textos, suas falas e desenhos, entretanto, achei ué. será se…

política distrital; alucinações parciais; parrésia

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acredito nas unidades federativas como guardas da cultura regional. um tempero paraense, um vatapá capixaba, uma moda de viola paulista e assim por diante. mas cada estado ter assembleia legislativa própria, polícia própria, receita própria, judiciário próprio, parece confusão e desperdício. nem cidade nem união, os estados estão mais para entidades inalcançáveis, entrepostos, lugares de burocracia dobrada, redundante, atrapalhada, irrelevante. ou os costumes da civilidade mineira seriam assim tão específicos a ponto de uma força policial e um judiciário mineiros serem necessários? as escolas públicas estaduais não seriam melhor geridas se unificadas às municipais? e as universidades estaduais não dariam menos vergonha se unificadas às federais? resta, ao fim e ao cabo, uma sorte de escada para governadores alçarem voos maiores, para partidos montarem feudos e seguirem seus jogos de conquista. o impacto dos estados, quebrados quase todos, acaba sendo o de uma guerra fiscal abandonada, atabalhoando a tributação e claudicando o custo brasil; de instituições distanciadas, carentes da força nacional e do orgulho e da presença locais. a desejada competitividade entre estados tão particulares em suas histórias que pudessem mostrar uma quase-nacionalidade, como aconteceu mais ou menos nos eua, nunca se deu por aqui. basta lembrar. das treze capitanias que inauguraram o país, duas, se tanto, vingaram. somos calmos, misturados e gerais o bastante para estarmos fadados a uma brasilidade amalgamante, solidária às regras em uníssono e às especificidades localíssimas. isso implica: união alerta, enxuta e simples, mais municipalidades bravias na condução dos assuntos dos dias. vejo ainda mais específico: gestão distrital dos assuntos assentados no cotidiano comum. mobilidade, postos de saúde, educação, litígios, urbanismo, meio ambiente. se a união fornece a constituição e os códigos, paga a infraestrutura, os funcionários, e os repasses, proporcionais à arrecadação da atividade econômica e da renda distrital, daí em diante a deliberação das prioridades pode ocorrer no mais local local possível, em assembleias presenciais e fóruns digitais. o dia a dia da política se resume a uma discussão na internet, e nela uma lista de coisas importantes, cuidadas pelo dinheiro dos impostos e pela força pública, acontece no seu bairro.

se você mora num distrito e trabalha em outro, há algo de errado na cidade. alguém mora no méxico e trabalha na bélgica? pois. para a política distrital prosperar, o município deve ter igualdade regional. emprego, renda, equipamentos, estrutura, negócios etc. quantos bairros de são paulo não têm sala de cinema? quantas pessoas moram e trabalham no mesmo distrito? a reconstrução passa, necessariamente, por mapeamento das carências e investimento no desenvolvimento policêntrico. as consequências podem ser belíssimas para o bem estar. o turismo distrital, por exemplo. saio num domingo para visitar o adorável sacomã com a família. conheço a igreja, o mercadão, o centro cultural, como no restaurante de uma família tradicional do bairro, vou a uma peça, compro um artesanato e volto para casa como se tivesse viajado a outro país.

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é o equivalente a um cometa, visível de pertinho e sem a ajuda de aparelhos, a atual programação do instituto tomie ohtake. o carro chefe é a exibição-escola alucinações parciais, em parceria com o centro cultural pompidou. a esperta curadoria mostra considerável elasticidade em poucas obras, e a seleção brasileira é tenaz a ponto de não nos tocar com vira-latismo, exotismo ou favor. o ponto alto, no entanto, é a justaposição destes dois pedaços de mau caminho:

obras atribuídas a um kandinsky e a um picasso distando tão pouco mas tão largamente distintos é coisa que a história da europa explica, no que a consultemos, sem pressa, por que sobre reflexão.

a seguir, o instituto apresenta, nas galerias frente a frente ao fundo do segundo piso, paulo pasta e cecily brown, num dueto que faz revigorar a crença nesta mídia tão antiga. em dimensões mais próprias à pintura que sobrevive, e também na desfiguração com que usamos perder tempo, em tempo de imagens tão fracas e ligeireza de likes. pasta é conhecido nosso, e suas composições de retilíneos estudos cromáticos frequentam inúmeros blogs e arquivos digitais. vê-las em pessoa, no entanto, muda a experiência e digo mesmo que transfigura a pessoa. é um baque, previsto talvez nos idos da teórica bauhaus, sobre a influência das cores nos humores. coloque-se o visitante na sala, abra-se à luz que bate e volta e reste ali o homem, sem onde chegar e sem querer sair. certa altura, as cores falam umas com as outras, e as telas entre si brincam de empurra, pega e esconde. se puder, use fones. brown faz grandes anti-guernicas em camadas abusivas de falsa abstração. trabalha com humor jovial, sorte ancestral, hiperssaturação em prol da narrativa, animismo terrano e sensualidade entre o escatológico elegante e o parturiente pulsante. cada tela é uma excelsa, quase interminável expedição de aventura elementar, imemorial e híper-dinâmica. se pasta tem masculino e feminino equilibrados, brow tem feminino e masculino assim também, no que eles não casam por recato e precaução civil, falta de exagero, e para quem sabe sentarem gostosos numa mesa para quatro.

3•]

é de março a exortação ‘gaudete et exsultate’. a leitura valeria pela dicção agradável e erudição instigante. resta porém em recomendação mais urgente a pais, pedagogos, professores e cidadãos ligados em geral graças à cativante atualidade com que aborda problemas comportamentais e relacionais em voga. toca o tema da santidade para tecer alertas, recomendar coragem, atentar-nos à vigilância hoje, à alegria, e insistir nas razões do discernimento. o ingresso, em via teológica, do conceito de história, é particularmente interessante, e nos faz pensar se a memória universal pode ser um nome alternativo e adequado ao espírito santo. tão útil é o ensinamento do termo parrésia, “a santidade é parrésia: é ousadia, é impulso evangelizador que deixa uma marca neste mundo.” ano de eleições, ouviremos candidatos ao legislativo e ao executivo falando em campanha por nós. será imperioso distinguirmos, entre as calculadas atitudes, candidatos capazes de incorporar a integridade e a sinceridade quando contrastam os problemas brasileiros com seus programas. a fala sem parrésia é a fala sem vontade sincera e sem ardor, algo impossível de falsear porque é “selo do Espírito, testemunho da autenticidade do anúncio.” no âmbito eleitoral, parrésia pressupõe não só a comunicação clara de programas e ações corajosos face o tamanho da crise política e fiscal. pede também a atitude de não manter marginalizadas, por medo ou falta de compromisso, as lacunaridades brotadas na história das negligências e confusões do estado brasileiro.

Saúde Ibeji!

Tenho em casa um tambor de estudante. Busquei na Vila Madalena, perto da Cardeal Arcoverde. Apresento este registro para assegurar a meu parceiro taurino um estatuto civil reconhecível. Nome, data de ingresso na vida nova, ocupação.

Vê-se que o menino aparece ingresso na escolinha Yoga&Study, bilíngue, em cuja missão perpassa o anseio de forjar as bases da ginástica-rímica yogangola. Mistura preceitos do receituário prático por trás da espiritualidade hindu e da Capoeira de Angola. É começo. Cedo pra dizer se vou virar percussionista. Mas posso adiantar: tirar uns minutos do dia para desenhar figuras rítmicas, repetindo-as até tornarem-se padrões: taí um jeito em conta e útil de unir concentração engajada e divertida com reboot cerebral.

Aleijadinho no MASP

“A cidade deve ser um órgão do amor”, disse Lewis Mumford, “e a maior riqueza das cidades é cuidar da cultura e das pessoas.”

Para o autor de A cidade na história, é função da urbe nutrir e promover a vida. Missão famosa desde o livro Gênesis, quando é dada a Adão a tarefa de “cultivar e guardar” (Gn 2:15) o Éden da terra.

Hoje, o imperativo é comum à cidadania e às instituições que nos servem. O homem político aprende, com as quedas da história, o que preservar. Mumford vê na cidade um receptáculo de receptáculos. A cidade guarda corpos que guardam corpos.

Da cultura, expressões são acolhidas em regime de seleção e exclusão a partir de critérios escolados e comparados, justificados e democráticos. Centros culturais e museus mantêm-se lugares deste acolhimento. Na vida em trânsito da cidade moderna, parece imperar a economia da distração. A reboque, embotam-se a percepção da beleza (e consequentemente da justiça) e o senso crítico (e consequentemente o respeito à história).

Perder tempo em centros culturais e museus, entre as sugestões e pedagogias curatoriais. Recriar uma rota livremente e ser, você também, um artista que experimenta a arte, alongando e desdobrando os objetos na imaginação. Estar aberto não só à informação do catálogo, mas aos mistérios da criação. Atividades que tornam menos desumana a vida numa capital feia e sofrida.

Da administração Haddad e das jornadas de 2013 para cá, o paulistano vem usando com mais alegria a principal avenida da cidade. É na Paulista, alto espigão e aproximada bissetriz de nossa mesopotâmia, que a rua se frui, misturando e libertando os corpos, destravando e enlevando os humores. É lá também que estão InstitutoMoreiraSalles, Conjunto Nacional, MASP, Sesc Paulista, Casa das Rosas, Itaú Cultural e Japan House.

Sendo como foi São Paulo, destratada e abandonada, fechada e loteada, desmioladamente ocupada e retraçada, tais instituições, de guarda e cultivo da obra e da presença humana, merecem nossa graça e atenção disciplinada.

A exposição Imagens do Aleijadinho, montada no primeiro andar do MASP até três de junho, mostra 37 peças atribuídas ao escultor mineiro. É um presente impagável. Hoje espalhadas em coleções variadas, as obras sacras pertenceriam originalmente a igrejas.

Trata-se de um estágio definidor da arte brasileira, realizada pelo gênio intuitivo e singular, capaz de impor assinatura sem submeter-se integralmente (tanto melhor quanto involuntariamente) às gramáticas e ciente de um entorno pouco polido. As consequências são algumas obras-primas como Sant’Anna Mestra e Santo Antônio. A tensão entre as vestes engruvinhadas e o rosto liso contam do árduo trabalho do talho resolvido na graça de uma expressão devota. Arrematam a beleza o perecimento da pintura e o desgaste do material, inigualáveis em outros meios.

A caracterização católica oscila entre a paixão e o dever, a penitência e a humildade. Não porque as vidas dos nomes por trás fossem santas, mas porque as madeiras conquistaram presenças, encantadas ambiguamente pelo conjunto talho, pintura, caracterização, escritura, manuseios, e pelas forças de quem as quis e as olhou de perto. Corpo e contingência, histórias vivas e ainda pulsantes, em ativa conversação.

Este blog recomenda a visita. O museu afirma estar todo afro-inclinado esse ano, de modo que não faltarão bons motivos a idas fecundas no largo bardiano. Esta do Aleijadinho, no entanto, pela raridade da reunião, e pela mão de um artista patriarca mor em cuja linhagem nascem Villa-Lobos rudepoema e Millôr Fernandes chargista, tem motivação escolar a todas as idades e credos.

Depois dê um pulo no acervo e reste um instante em frente ao par Volpi–Valentim. Lado a lado em azul e amarelo, ótimos Cosme e Damião de um possível minimalismo à brasileira, este que se quer rigoroso no feng-shui semiótico, mas sem deixar ver derruir o orgulho mestiço, apaixonado e forçudo, e ora lúdico, que Mestre Aleijadim ensinou.

Ambíguo, Ex-Pajé dá sono e assombra

Numa das mais belas imagens de Padre Vieira, o jesuíta compara a riqueza oculta na terra que os portugueses pretendiam retirar com outra, aquela que habita e permeia a alma dos índios. Escrevendo e assinando aos 20 de abril de 1657 da capitania do Maranhão, diz António, na carta ao Rei D. Afonso VI, a respeito de uma frustrada Entrada do Ouro no Paraná, em que morreram, vítimas de fome e exaustão, quarenta colonos e duzentos nativos da nação Pacajá,

Estas, Senhor, são as minas certas deste Estado, que a fama das de ouro e prata sempre foi pretexto com que daqui se iam buscar as outras minas, que se acham nas veias dos índios, e nunca as houve nas da terra.

É sabido que as missões americanas da Companhia de Jesus, ordem fundada na segunda metade do século XVI por Inácio de Loyola, obedeciam, conforme arquivo epistolar dos primeiros padres, o cristianismo potencial dos nativos, jamais os julgando indignos ou escravizáveis. Ao contrário, reconheciam, nas pequenas mas significativas semelhanças, num dito famoso de Nóbrega, motivo de amor. Tais semelhanças seriam a entrega íntegra ao trabalho comunitário e solidário, um epítome do serviço cristão, e, ainda que difusa, crença e temor a um único e soberano Criador.

Graças às tão notáveis, aos olhos dos jesuítas, semelhanças, houve rápido e frutífero entrosamento, e as missões, enquanto funcionaram, produziram felizes convertidos, e intenso intercâmbio entre os conhecimentos das artes e utensílios europeus, e entidades e sensibilidades da floresta. Em verdade, para os jesuítas, o maior obstáculo às missões não seria a distância dos nativos dos conceitos da ordem e da fé, mas a inconstância da ordem e da fé dos assim ditos cristãos que cá chegavam para tentar enriquecer e apenas isso. Eram estes os que ignoravam o sentido da harmonia em expansão, o amor de Cristo em Cristo na unidade do Espírito Santo, e assim atrasavam, como afirmam as mesmas cartas jesuítas, o progresso do projeto brasileiro.

As missões foram fechadas pela ganância desmedida, e o projeto brasileiro tornou-se um mal disfarçado projeto de espoliação e segunda classe. Nele, um pequeno contingente teria acesso aos excedentes, o governo seria um simulacro de contenção popular, e nós seguiríamos proibidos de produzir tecnologia e conhecimento de vanguarda. Esta situação nos levou à dedicação absurda de solos às pastagens e à construção de Belo Monte. Pouco mudou até então. Nesse interregno, expressões culturais de monta valiosíssima, capazes de fazer triunfar no tabuleiro global do jogo das nações a diferença brasileira como algo além do sensualismo fácil dos corpos, expressões essas relacionadas à difícil cognição relacional não alfabética com a matéria e os espíritos, foram perdidas ou desperdiçadas.

Deste assim chamado, apud Pierre Clastres, etnocídio, isto é, extermínio das formas de um povo produzir sentido e relacionar-se com o mundo, trata o filme silencioso e perturbador Ex-Pajé, em cartaz no circuito comercial. Documento duradouro sobre a postura diante da perda, a fita escava no público a vala funda da complexa culpa brasileira.

Apreender o valor do registro é jogar damas com narratividade lacunar, demasiado ambígua. Ora as cenas querem dizer nada além de um valor de face prosaico, quiçá tardo-antropológico, mas ora sentidos de alta densidade ética subjazem em detalhes de bruta esquivança. Estar atento, ou desatento de um norte dado pela montagem e cioso dos frágeis, efêmeros sinais, será como andar, tal e qual a humilde equipe de cinco produtores, em solo onde abundam jararacas, sob uns céus em que espreitam araras os gaviões, saltam vítimas da fome macaquinhos, e anunciam, a quem trilha o caminho do adepto e está aberto, as razões e motivos do porvir.

Perpera é o xamã protagonista, provocativamente chamado ex-pajé, quando sabemos tal titulação impraticável, tanto quanto uma idade ex-idade é impossível. Sob a regência evangélica, advento que transforma a aldeia Paiter Suruí num psicologicamente conturbado hibridismo entre o colapso hodierno brasileiro e sua esquecida ancestralidade, Perpera alerta contra a distração da tribo mediante as coisas dos brancos, principalmente a comida. Perpera refere-se ao branco não como um inimigo, mas como um irmão mais novo, amável via de regra ignorante.

Entre sequências de perseverante espontaneidade e outras graciosamente posadas, o protagonista mais marcante acaba sendo a banda sonora. Aves variadas, águas, ventos, cantos, rezas, choros, sermões, ladainhas, conversas e percussões induzem o público à confusão e à sonolência, aos marasmos e assombros e, consequentemente, à reflexão. A ausência de narração em texto falado, ou de qualquer preparação historiográfica, a não ser inicial cenografia de arquivo da mesma tribo no anos 1960, ainda pouco aculturada, faz o percurso menos fácil e quem sabe por isso dubiamente cativante. Os arcos narrativos não são completados, os personagens não expõe seus conflitos de forma dramática, e a estrutura da história estira-se num não roteiro de parca poesia cênica, dadas a abundância à mão e as facilidades do sensacionalismo.

Restam a quem assiste o gosto amargo de ver perder o Brasil este importante jogo contra sua própria formação, e a missão de assegurar, em si, o fogo original e a melhor estratégia, para a melhor vontade, e ventura e faculdades do Reino.

‘A cidade do futuro’ seduz, encanta com pouco

Da retomada para cá, resta isento de mistério a partição da produção comercial do cinema brasileiro em dois polos. Num, faz-se com muito, noutro, com pouco. Dois exemplos recentes seriam a franquia Tropa de elite, de um lado, e O Som ao redor, do outro. Outros seriam Cidade de Deus, de um lado, e Cinema, Aspirinas e Urubus, de outro.

Com mais dinheiro, explora-se as possibilidades absurdas do movimento e do tempo descontínuo, das plásticas inumanas e dos pontos de vista interessantes e incomuns, logrando não raro forte aderência do espectador sem necessariamente pauperizar texto e caracterização.

Com menos dinheiro, o esforço é outro, sem ser menor. Concentra-se na árdua tarefa de narrar no lugar hoje híper-dinâmico do audiovisual, quando o deslize mal administrado à lacunar contemplação pode ser multado com a desconexão. Conta com o pequeno da dramaturgia clássica e com as limitações da fotografia sensível, carente das sonháticas riquezas cênicas e da computação gráfica, mas podendo contar com os estranhos revelares do real.

Deste pequeno e destas limitações, transformados em qualidade via competência e originalidade, nascem os bons filmes feitos com pouco. Recém-lançado no circuito nacional, A cidade do futuro, vide boa carreira em festivais mas não só, é o caso.

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O filme conta de três jovens unidos em amizade a enfrentar facetas ora tradicionais, ora ignorantes, de um conservadorismo quase sufocante no interior da Bahia. O pano de fundo é a memória dos cidadãos removidos décadas atrás para a construção da barragem de Sobradinho, quando regia a expropriação e os abusos uma ditadura militar.

A professora de teatro é jeitosa e namoradeira. O professor de história é maternal e sereno. O que ainda não se achou é valente e obstinado. Juntos, divertem-se com pouco, ensinam os mais novos, enfrentam más vontades e inventam, do jeito deles, uma família nova, em triângulo.

Fazem um filho, habitam a mesma cama, sofrem na escola e na rua nem menos nem mais que qualquer jovem interessado em dar um passo de verdade vida adentro. Logram perseverar, e conter a alagação das vontades respectivas, pois que informadas elas são por delicadeza e inocência.

A direção equilibrada se arrisca, e tira dos atores, iniciantes no cinema, os resquícios de teatralidade, leitura e pose, expondo algo perto de suas auras, e nos encantam seus suspiros, vacilos, sorrisos. Pródigas atuações complementa trabalho de câmera discreto mas magnetizado à beleza descansada das coisas, à luz que houver no caso, e ao trato sutil das peles.

Há muitas maneiras de ver o Brasil, mas se só vemos o que conhecemos, há que concentrar em conhecê-lo, antes mesmo de assumi-lo ou de nele enfraldar-se. Se os livros têm muitas letras, se o turismo da pressa é avesso à experiência cognitiva, e se não há tempo para imersões alentadas nos rincões, resta no cinema, e tanto mais neste feito de gentes e lugares, boa alternativa para ganhar o contato do país.

Quando muito se especula sobre o que precisamos ou não precisamos, e a conversa esquenta, e o que vai a jogo se complica, chegar aos brasis dos criadores pode ser ótima tática para evitarmos perder discussões. No cinema, trabalho de muitos, a vantagem é maior. O cinema feito com pouco, por ter menos cenouras, deslumbres, distrações e subterfúgios, pode acabar revelando ao público trechos autênticos do Brasil, mais densos e firmes que o Brasil dos grupos de zap, novelas e jornais.

Carpe diem

Por tanto tempo julguei besteira adolescente a expressão ‘carpe diem’, aquilo que separava homens de meninos: debandar-se do privilégio da vida às palafitas vulneráveis do subterfúgio egoísta da diversão irresponsável, seja porque trapaceira, seja porque viciosamente cínica.

Até topar com Horácio, ou melhor, com a ode 11 do livro primeiro, em cujo arremate lemos:

carpe diem, quam minimum credula postero

O poema parece o conselho chato do poeta à irmã mais nova, sugerindo-lhe afastar-se da ganância antecipadora da cabala. Biográfica ou não, a peça carrega um tanto da ambiguidade dissuasória dos mestres. Tem cunho epistolar mas mais enfático é o empenho moralista.

Imagino se a amiga, outra pessoa a Horácio uma versão imatura de si, fantasiava progredir quando em verdade traía o ofício da poesia, aprendizado de sucessivas etapas, originais ou transfiguradas, mas não ao arrepio dos elos, estes em harmonia difícil com a bênção natural. Somos o que desejamos, mas cobra o clima por aquilo que poderíamos desejar.

A interlocutora horaciana recebe o acre bilhete do sinédrio mais antigo, mais atual, ontológico compromisso não contra o carnaval, mas contra o escapismo do falso testemunho e da retórica sem persuasão.

A ode perpassa impaciência, a dura de um bedel com mais o que fazer além de alertar a via equívoca do desprezo à comunidade, morada em que a liberdade se faz a desenho, e não a desdém.

Não será exagero atinar com o momento por que volta e meia se nos lembra a imprensa viver o país. Querer enricar, ganhar dinheiro, não é um erro absoluto. Mas desvirtuar-se para tanto cancelará a legitimidade da busca. Se não suspeitamos da justiça cósmica, a civil justiça é encarregada hoje de assegurar o bom nome das trocas, do comércio, da ferramenta monetária.

Num estudo sobre o helenismo estoico, corrente nutritiva a todo poeta em formação, A.A. Long diz:

Virtude e riqueza estão de acordo com a Natureza, mas de modos diferentes. A virtude concorda porque é a função especial ou objetivo do ser racional ser virtuoso (D.L. vii 94). Tal afirmação não é circunstancial. Aplica-se absoluta e inequivocamente a todos os humanos maduros. A riqueza concorda com a Natureza porque o ser racional está naturalmente predisposto a preferir a riqueza à pobreza se está ao seu alcance escolher uma delas. Riqueza é um estado objetivamente preferível à pobreza, mas a riqueza não é a função especial que distingue o ser racional. O valor da riqueza aparece em relação à pobreza, mas a riqueza não tem valor algum em relação à virtude. Moralmente, riqueza e pobreza são indiferentes.

Para os estoicos, o bom, o vantajoso, o útil, são marcas linguísticas usadas para separar virtude e vício. Para nós modernos, o bom, o vantajoso e o útil sofreram as relativizações da competição proprietária, confundindo a justa busca da estima com a configuração nem sempre escrupulosa dos intentos.

À dúvida reflexiva, à hesitação caridosa, e à humildade sapiente, subimos tampões onde grudamos os cartazes de um qualquer empoderamento. Mas este, no lugar de libertar, poderá podar gestos e atos e falas prematuramente, quando a vontade obtusa do ‘dar-se bem e mostrar’ sucumbe à indistinção da virtude, acusa preventivamente o remorso e o arrependimento de má consciência, a paciência de derrota ou vitimismo, e troca a maturação dos frutos pela ganância das marquinhas de performance.

Carpe diem, assim, não recomenda trocar esforço civil pela bestialidade fajuta que nos apartaria dos saberes, natural e social. Fruir no dia os frutos e as tramas plantadas e tecidas, enquanto tecemos e plantamos, desperta o ser ao trabalho desinteressado ou concentrado. Se a lição do amor é invisível demais para nos tocar, acreditemos pelas obras em si mesmas (parafraseando o evangelista João).

Colhe o dia, o mínimo antecipa.

Assim traduzi o arremate da ode. Se ora sua morada é mais aprender, coloque-se. Se mais é fazer, ajuste-se ao que cobra o clima, e assim coloque-se. Colher o dia é gozo e esforço unos, tributo à força e leite à sensibilidade. Talhe a imagem sua, enfeite a proa, e siga.

Em Memórias da casa da China e outras visitas, Manuel Afonso Costa escreve:

A leira paira
o vento por cima inclina
e o estrume irriga
a veia fértil
no seu gesto iam as sementes
e uma agonia
que a manhã vazava;
nessa corrente espessa
e viscosa
só as palavras eram raras

Em cada uma de suas produções,

meu jovem e brilhante professor, novos signaes vejo de qualidades, menos vulgares e mais uteis nas duas provincias do saber, a que as feições de sua condição intellectual o propendem: a historia e a philologia.

Para essas duas altas especialidades o talharam as prendas que lhe são nativas, de uma vocação benedictina: a paciencia investigativa, a pertinacia no estudo, a abstracção de interesses, o amor e senso de verdade, a intuição critica, o faro e adivinhação das fontes, dos veios de mina, dos thezoiros soterrados, ignotos ou esquecidos, a isenção de espirito, a franqueza da palavra, a coragem das realidades malvistas á rotina da sciencia de compilações e convenções.

* * *
Ruy Barbosa, em carta a um colega, fevereiro de 1921
* * *

sobre o sentido da vida

1 Coríntios 3 : 21

Não busque no do outro seu orgulho, é tudo nosso.

2 Coríntios 8 : 13

Não sofra se o outro se conforta, haja igualdade.

Parto destas expressões paulinas, por mim traduzidas em segunda mão, para entender melhor, via empenho poético, dois deveres fundamentais:

1) Renasço todos os dias da Jerusalém livre para, desde minha memória, colaborar a carne apurada na construção da Jerusalém cativa.

2) Trabalho na força dos corpos para cultivar e criar, na Jerusalém cativa, os sinais da Cidade de Deus, que as artes componham união na diversidade.

O tarô que oferta Santo Agostinho, dizendo haver profecias acima, de uma parte, e acima e abaixo juntas, de outra, conforta o cristão de ignorar o sentido da vida. Não havendo profecias reservadas exclusivamente abaixo (Jerusalém cativa), o tempo encarnado do Espírito, tempo salvo e crismado na Paixão, exime-se de confusão ontológica ou caos maligno: diz respeito ao aperfeiçoamento individual em voz e ofício, mas também à engenharia de uma adequação: que tudo seja nosso pois não há, em verdade, desigualdade.

Anri Sala no IMS-SP

Se puder criticar a novidade digital por uma perversidade retardante, não de todo isenta de paradoxal conforto, assim o faria: cedo meu juízo ao império da referenciabilidade exógena desde que as facilidades advindas não me desanimem nem me afastem do eventual cavocar poético do entendimento. Abra-se alas para tanto!

Vamos formando craques gerações em obediência. No entanto, de um modo ainda pouco descrito e examinado, o exercício incerto da apreciação singular chega-nos não apenas ingrato, mas mesmo estigmatizado. Que sorte de vítima ou otário pretende, hoje, pensar por si, ou ao menos agregar insuspeito valor ao pensamento coletivo?

A tarefa, primordial para a publicação da voz própria que nos carimba a maioridade do estar, incrementa a inteligência universal, mas encontra-se hoje em vexaminosa estagnação, quando não baixo a perseguição tácita e aflita do custo de oportunidade, ou de um utilitarismo entre aspas, que anuncia um mundo de mais amplos e frequentes consensos sem dar, com a outra mão, o estímulo e o respeito aos antigos saberes e fazeres.

Resta a generosidade dos que se formaram pensando na realidade analógica e a resistência alcoviteira de alguns protégés dos establishments no meio de um regulado deus-nos-acuda a compensar o charme da disciplina em pleno acato com o desdém por qualquer coisa que tenha história.

O prejuízo é óbvio porque a inovação a valer é produto das tradições assumidas com integridade, incertezas junto. As vantagens, quando saímos dos previsíveis vaivéns diários, tornam-se exercício complicado de aceitação, malabarismo gregário de regeneração positiva num organismo em pacto agudo de anti-faustos.

A arte contemporânea, além do viver melhor o melhor possível e falar disso, tem, em sua vertente isolada e exibicionista que engendra o mercado de objetos exclusivos mas impacta o pensamento atual tanto ou menos que um bloco de titio-vovô, escusada sobrevivência entre nós não artistas nem marchantes. Ela perdura a duras e estrambólicas penas sob os pretextos nem sempre compráveis das ‘exposições das diferenças’, das ’exibições curiosamente plurais’, das ’coletivas de jovens do mundo’. Ocupam espaços consagrados ao público da cidade e são devidamente amaciadas pela tutela de ‘pedagogos’, a ponte-pano entre a idiossincrasia de um criador que poderia ser um pasteleiro mas não é, e nós, cuja fome por arte não é a fome por novos objetos (se nem meu Goya eu digeri), mas uma fome de pensar. E hoje, mais que nunca, fome de pensar num paralelo construtivo ao festival da referenciação exógena das prateleiras, que sinalizam o gostável sem reflexão em troca de obediência.

Seu produto nos parece estranho porque não compõe nenhuma das facetas práticas do lazer, este que compramos nas mídias, nos serviços e nas reuniões. É a diversão culpada de quem não quer parecer habitante da ralé ignara, das elites formadoras que não querem parecer simplórias, dos intelectuais que carecem de afirmar sua diferença amarga falando bem ou mal do que já não interessa a ninguém.

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Instalados no prédio do InstitutoMoreiraSalles até 25 de março estão oito trabalhos de Anri Sala (n. 1974), artista albanês presente nas bienais paulistanas de 2002 e 2010.

Dá uma aflição não ser apresentado a coisas que já estão acontecendo, sem título, sem sinalização, sem a indicação inequívoca da comédia ou da tragédia, sem a clareza sociodemográfica de um público alvo. Aquilo é para mim? Eu posso…? Como eu faço para saber se entendo aquilo, e assim, se gosto ou não gosto? Por que me dar ao trabalho de sofrer incertezas, ainda mais incertezas, justo hoje, quando tudo ficou claro como um raio, quando tudo enfim vem mastigado, explicado, em colaboração imediata com os aplicativos de orientação? O sentido do vale do silício não era esse? Um dia de domingo é uma imersão azeda na anomia do século 20? Consumo de diversão não é perda de tempo! É para ser um sorvete gostoso, um evidente sor-ve-te, e não um quasi sorvete, um meta-sorvete, um alter-sorvete, um pós-sorvete, mas um sorvete sorvete! (titio vovô !!), de preferência no sabor que eu sei que eu gosto? Por que, enfim, acreditar que, à exceção de turmas escolares involuntariamente presentes, alguém além de um infeliz solitário perdido no mundo sem amigos nem parentes importantes perderá tempo expondo-se, no horário de lazer, a algo sem título, sem evidente sinalização, começo meio e fim, nem bandeira de filiação? Aquilo, afinal, era coisa do Corinthians?

A aridez da montagem, a falta de coragem para admoestar o público com um mínimo de sensacionalismo, faz mais difícil o trabalho. O aventureiro que arrisca perder um trecho do dia ali e sair sem ter o que postar pode, no entanto, apegar-se à forma explorada por Sala em transparente eleição: a música. É da estética maravilhosa do som, feito por e para humanos via instrumentos variados, e de sua vitória sobre um mundo em Morte renovada, de que trata a exposição.

Se atentarmos, perceberemos muitos modos musicais por trás das situações estranhas a que somos submetidos. Vale perguntar: se queria expor que curte músicas, por que não fez um playlist e pôs no face? Por que todo esse trabalho?

Difícil responder com facilidade. Parte do interesse nessa sorte de evento é entrarmos num aguçado espírito de aventura e saírmos provocados a pensar. São muitas lojas, vitrines e sinais ao redor, mas frequentar o desconhecido faz o cérebro crescer forte. A arte é enigmática, propõe jogos de interpretação e pontos-de-vista, convida a cogitar e existir nas motivações do artista, nas vidas secretas dos objetos, bem como nas motivações institucionais e assim políticas que os acolheu e curou. Quais as mensagens possíveis, e por que elas importariam urgentemente hoje?

O desconforto situacional incomoda. Tudo na Avenida Paulista é tão claro. Ninguém atravessa fora da faixa sem pesar as consequências. E ali, nas duas galerias de um prédio novo, o que poderia ser fácil descrever e facilmente gostoso de frequentar, atordoa, constrange, falta, me faz prestar atenção nas roupas das pessoas.

O aventureiro tem como ferramenta multívoca a generosidade, abertura alerta, o fio dos sentidos desencapado, e a oportunidade de co-criar, alongar os objetos, tornar-se ele também o artista, fruindo da parte boa de uma aventura que começou na Albânia. Na minha exibição de Anri Sala, o momento presente simplesmente não existe. A prova do tiro no pé do albanês, doravante meu colega faltoso, é a de que a música, querida, é a gravação de um tempo sem pausa, a evidência maior da pura ausência do presente: tudo na música já foi, ou está vindo. Eu entendo, pensando um pouco mais, que o título é irônico.

A música quer dizer sem palavras, logar sem logos. É timbre do afeto do instrumentista depurado pela prática, documentado em vídeo, reexibido como a oferenda de um pensador. O pensador não quer texto, que julga destemperado, elitista, arrogante, cronológico, datado, sintoma dos sábios. Para Sala, colega humano de difícil sensibilidade, toda compreensão é duvidosa, e nada está isento do filtro contingencial da tradução variegada e corrompível. Você percebe apenas o que bate numa tabela referencial e volta liso? Quando um lado do telão ganha lúmens a mais na intensidade do volume do saxofone, o que Sala faz é pedir para usar o telefone e anunciar, eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer.

O que é grande em Anri Sala? Seu respeito pelo músico treinado, símbolo do operário em sua beatitude sindical e sofrimento existencial, e pela infinita variedade da música ou da expressão da vida. O sexteto em nada ansioso faz música conturbadamente angelical, os tambores fantasmais são signo de que algo invisível e mágico perpassa o artesão e a ferramenta, será o amor, o saxofonista em Berlim mostra como é arriscada a vida entregue à arte, e solitária, e longamente insuficiente, porque inconclusa e variabilíssima.

O casal de namorados não renuncia nem abraça o desprezo mútuo. Pede que atentemos aos ofícios do grego e do judeu (emprestando a São Paulo sua figuração do yin e yang), presente em todo ser. Há conciliação sugerida na silhueta unida, mas não de todo confirmada. O que restou, para mim, foram os dois semblantes, atenção obstinada no baterista, caridade dialogal na mulher.

O punk do The Clash não foi exatamente ridicularizado, mas a experiência propõe que melodia é inscrição mnemônica nos nervos da tribo; somos elos de lembranças; aquilo que do sol nos protege também há de encantar e unir.

Pensam, as mariposas, aonde ir, ou somente em transmitir cifradas, benevolentes mensagens desde o profícuo, fincado reino de-entre os dias?

Ao fim de uma serpente escura, num cubículo apartado, simulam-se aulas entre gerações, palavras simples em contraste repetidas em respeito ao duro frio do aprendizado resistente, às matizes do saber e à escuridão do não saber, fragilidade capaz de acusar a diferença insuportável e nos tornar ao pó de onde viemos.

Mania e má consciência dão os tons de ‘Trama fantasma’

Quando vai começando, em seu terceiro ato, a bifurcar a vereda central de seu enredo, a irmã governanta pergunta ao herói: devo mandá-la embora? O herói nega. A forma (interpretação e direção) é entretanto complexa o bastante para não esclarecer se ele hesita porque quer, ou hesita porque não quer.

Cada nova musa, entende a irmã, é despachada quando o herói, casado com a obra, pretende a companheira exaurida, embora bela e quase perfeita. Só não faça dela um fantasma, reclama a gestora. Ele silencia.

Imaginamos sucessivas, as mui afins modelos consortes do artista tombando, recusadas, contra tão solene e amarga muralha. Por que não param?

“Tanto a salvação quanto a punição do homem”, diz Tolstoi, “jaz no fato de que se ele viver no erro, pode iludir-se a fim de não ver a miséria de sua própria posição.”

Posição. Um passinho à direita? Um passinho para trás? Três dedos menos de barra? Situação, postura e navegação são os temas da fita velazquiana na forma e machadiana no conteúdo Trama fantasma, escrita, dirigida e co-fotografada por Paul Thomas Anderson (Punch Drunk Love).

Na tocante e deslumbrante peça de câmara, Daniel Day-Lewis (Sr. Woodcock) e Vicky Krieps (Alma) encenam a agrura do equilíbrio no espaço do cinema. O casal tombará, outra vez, em extrativismo e abandono? Ou para em pé e dá frutos?

Discreto nos gestos e ciclópico na psicologia, o drama remete aos pares românticos da literatura do XIX, e aos avós e à tradição da elegância difícil. Difícil porque costurada, nas fímbrias da nobreza e da decadência, à Arte e à fragilidade em estado de polida maioridade.

††

Quem lembra Tolstoi é José Luiz Passos em seu Romance com pessoas, fértil investigação, e de muitas faces, sobre a obra de Machado. O ganho de consciência do homem no erro do russo pode nunca vir, tornando sua “denegação ruinosa” colapso contundente, seja na ilusão do poder sobre o outro, seja na ilusão da submissão a alguém. Do objeto do romance do XIX para o XX, diz Passos que

parece ter sido a formação e a deformação da pessoa moral, que delibera, evoca, julga e acaba por compor, diante do leitor, um retrato complexo da relação que o sujeito mantém consigo e com a comunidade. Oferecer, pela linguagem, o rumo de uma experiência humana particular e cambiante, no momento mesmo em que ela acontece, é a contribuição mais fundamental deste gênero.

Alma e Woodcock, quando encontram-se, vivem a inércia de um encaixe fortuito. Vinham de sítios e em dinâmicas distintas mas suficientemente compatíveis para encetar dança passageira. À perda do torque, aponta e preocupa o desequilíbrio que martelará caso os corpos não despertem para a nova situação. Novas posturas e táticas de navegação haverão de seguir se o sentido for o fruto.

Na sintaxe fílmica, a graça e a destreza com que se dá tal ajuste é mérito de uma direção que tira do jogo de cena sugestivo e lacônico, da direção de arte de pintura acadêmica, e das atuações transparentes e livres de imperfeições, a boa e velha, mas sempre refrescante, fatura dos clássicos. Faz Anderson em Trama… cinema contido, discreto – mesmo tratando da pujante moda milionária – belo e de sagaz humor.

Perceber Machado de Assis num filme de 2017 que se passa na Inglaterra dos anos 1950 não deixa de ser curioso. Para isso também serve nossa exposição aos objetos de arte: ligá-los de modo insuspeito e aprender com surpresa sobre a vida no mundo. “Na literatura brasileira”, segue Passos,

a consciência moderna nasce quando o primeiro dos seus heróis [Brás Cubas] é incapaz de solucionar a dúvida sobre os motivos da conduta alheia. Se não prestarmos atenção a esse estratagema, perdemos de vista o veio mais sutil da nossa primeira modernidade literária. E para tentar responder à minha própria pergunta sobre como podemos, e às vezes devemos, tratar personagens de ficção como pessoas, proponho que voltemos a um tema que marca sua produção como romancista desde o início: a representação da consciência atribulada pela desconfiança, ou melhor, o herói ameaçado pela própria imaginação da malícia. Aqui se encontra a desunião da pessoa consigo.

O ponto alto da literatura de Anderson é incutir, indo além de Machado, a mania e a má consciência, em doses e expressões variadas, tanto no herói quanto em sua musa-coluna. Este herói, moderno porque concentrado num ofício, seguirá consertando o mundo conquanto seja consertado. Woodcock e Alma superam a desconfiança ao ficarem fiéis a suas substâncias essenciais ou vetores de contingência mas cederem, em impulsos aparentes porque maquinados de provocação e redenção, naquilo que os poderia desunir mas não desune: ele e ela amam, apesar de se usar pouco, nada menos que um leão.

Nota sobre o novo do del Toro

And hide not thy face from thy servant; for I am in trouble: hear me speedily.
(Salmo 69, 17, AKJV)

Perto do clímax da bela fita vencedora do Leão de Ouro (Veneza, 2017), The Shape of Water, o militar Strickland (Michael Shannon) vive uma anagnórisis: a súbita revelação de que o Homem Anfíbio (Doug Jones) é, na verdade, um Deus.

Cai o mundo de Strickland e ele nos dá a entender, olhos estupefatos diante do falso inimigo, que todo esse tempo defendera um mero simulacro, um castelo de areia, e não a verdade.

A verdade – a divindade, e assim a intocabilidade do Homem Anfíbio – quem a defende na narrativa do diretor de O Labirinto do Fauno (Hugo Award, 2007), Guillermo del Toro (n. 1964) é Elisa Esposito (Sally Hawkins), órfã, muda, solteira e faxineira de um laboratório secreto do governo Norte Americano.

O ano é 1962. Em plena Guerra Fria, Esposito desafia a segurança para resgatar o Homem Anfíbio, alvo de um experimento obscuro, e devolvê-lo às águas. O faz por amor, obstinada e ingênua, mas antes que o pior aconteça.

Não quer Esposito trair os EUA em proveito da União Soviética. O infantilismo geopolítico sequer habita a cabeça da simplória. No entendimento da funcionária, a humanidade do suposto monstro apenas supera a ambição exclusivista do experimento. Ou: aquilo que haveria de aprender a ciência com a destruição do Homem Anfíbio importa menos que sua graça em vida: lições de força e cura, sensibilidade e juízo.

Quem é Homem Anfíbio? Ou, nos termos sulcados no escudo do Arcanjo Miguel, QVIS VT DEVS? A referência religiosa não está lá. Mas não se trata de uma aproximação forçada. The Shape of Water atualiza o mito do herói que aniquila a besta interior e afirma: ninguém será mestre de um escravo outro. Quem é Deus? Eu, no fio da minha espada, contra o medo e a servidão.

Na cena do pôster estamos num instante após o clímax, bela e fera afundam, salvas, e Esposito perde um dos sapatos antes de aprender a respirar na novidade aquosa. Quem notou ali a alusão ao episódio dos argonautas acertou.

No início da famosa aventura grega, quando um barco aparece pela primeira vez na história da ficção literária, o comandante perde uma das sandálias para o mar antes de reunir a trupe e singrar as águas. Sua missão é recuperar o velocino dourado – alegoria da fé, ensinada por Esposito ao Homem Anfíbio quando leva a mão ao coração do monstro assustado.

fala e água: ao chocarem-se
em continentes de carência,
o conteúdo dita a forma.

diz o apropriado poema Carta aos anfíbios. Esposito e H.A., abraçados afundando, são a perfeita aliança da estrutura helicoidal dos cromossomos da jornada heroica do homem e da mulher no cosmo. Sem fala, a faxineira dá ao mundo o testemunho do alicerce volúvel mas de firme sentido quando escolhe rejeitar a crueldade desentranhada de razão.

The Shape reafirma a destreza original de del Toro para efeitos in camera, esforços formais teimosamente artesanais, à semelhança do colega contemporâneo Michel Gondry (n. 1963). Nos dois casos, faturas maestras excêntricas e atuais da arte, a teimosia perderia o porquê amparada não fosse por tão trabalhado argumento: a potência mercurial da mensagem, órgão pleno e certeiro da construção do mundo, perene através de ricas reinvenções do mito, prescreve o talhe do objeto, e sopra vida à imaginação.

Da inteligência

Brotaram flores
nos meus pés.
E o quotidiano
na minha vida
complicou-se.

– Hilda Hilst

Nunca foi tão difícil driblar a inteligência, mas o motivo é simples. Nos séculos passados da era moderna, quando experimentamos a convivência plural com mobilidade social, a face impessoal da inteligência era irreconhecível. Misturavam-se os conceitos de habilidade e inteligência, e o clichê era dar àquela o nome desta. Alguns seriam mais, outros menos inteligentes, donde a inevitável desigualdade rancorosa, e não raro deturpada, no mercado dos méritos.

Corre o tempo em que descobrimos, ainda sem coordenar dignamente potência e produção, a inteligência em trama dinâmica e crescente, universalmente acessível e absolutamente impessoal. Os efeitos da descoberta poderão ajudar-nos a relaxar as falsas tensões da competição, reforçando as autênticas, e dissolver os falsos dilemas do desejo, tornando mais duros, múltiplos e coesos os autênticos.

Entender e determinar por que lutar e como curtir a vida, sem precisar reinventar a crise romântica diariamente, tornará a realização política da convivência, bem como a autonomia espiritual da vida leve, tarefas mais abertas à novidade e menos entulhadas das manhas pré-fixadas que, outrora, invocávamos para dirimir os riscos e aumentar a previsibilidade dos empenhos. Mais equilibrados e menos temerosos, faremos mais com menos.

Está em nossas discussões e mentes não mais saber qual lado ocupar antes da luta, nem tampouco saber onde balizar, fora de si, as manobras da vontade. Antes, a tarefa seria saber manter e contrastar, atender e coligar as prioridades eventuais. Livres das supernarrativas que cuidavam, a depender das contingências do indivíduo, de restringir suas potências a certos modelos de submissão ou contravenção.

Na prática, vive-se individualmente num corpo que se quer produtivo e singular. Tal corpo pertence a algumas jurisdições variáveis mas comunga, ainda e de forma crucial, a língua e os códigos de convivência de um território dito nacional. Atentar a esta premissa, por difícil que seja num momento de globalização digital e tentações anarquizantes, seria a língua franca da ética da transição. Não por orgulho ou saudosismo, mas por facilitar os processos e liberar tempo de rinha para invenções frutificantes, ócio alegre e a infinita descoberta de si.

Na prática, portanto, almeja-se convergir a energia despendida no acesso à face impessoal da inteligência para dar cabo de tarefas necessárias consideradas impensáveis nos séculos passados: reformar uma constituição nacional em poucos meses, redesenhar completamente a atuação da governança pública, tornar os cidadãos proprietários efetivos das cidades, revolucionar o ensino no espaço de uma geração, para ficarmos nalguns exemplos óbvios.

Está em nossas discussões e mentes não mais contrapor ideias fundamentais sobre para onde ir, mas escolher a velocidade com que queremos ir.

QUAL SERÁ MEU FIM?

OFERTA

Se sua editora atua no mercado jovem ou do ensino médio, este autor informa ter bem encaminhado um livro de filosofia com o título Qual será meu fim? – O desejo e a cidade. Para obter mais informações, tratar em casa@tourobengala.com.

SINOPSE

Sem encostar na história da filosofia, nem tratar de teorias disso ou daquilo, mas citando o exemplo de homens inspiradores como Sócrates e Jesus Cristo, o opúsculo pretende apascentar as práticas do autoexame e da crítica social a partir de problemas atuais, levando em conta a novidade digital e a exaustão das grandes cidades.

As narrativas de Sócrates e Jesus como epítomes do homem político bastam para uma apreensão filosófica sólida. Formam, através de um alicerce ético descomplicado, o patamar da independência e da voz ativa singular. Daí, se busca e se cria, administrada a sismografia do constrangimento psicológico e da incompletude mal aceita, as novas, necessárias e importantes possibilidades de autodescrição e felicidade.

uma tradução: Wallace Stevens

Ave negra treze vezes


Nos tantos montes claros
Nada se movia
Só um olho da ave negra

••
Eram eu três almas
Como a árvore
Na qual três aves negras

•••
Ventava a ave negra era setembro
Era um trecho da pantomima

••••
São um, homem e mulher
Homem, mulher e ave negra
São um

•••••
Não sei o que prefiro
Se o belo dos desvios
Ou o belo das alegorias
Se da ave negra o canto
Ou seu descanso

••••••
Brincos de suor enchiam
A janela de um visco esquisito
Da ave negra a sombra
Cruzava, indo e vindo
Num traçado cujo humor
Nos escapava

•••••••
Ó magruço de Goiânia
Por que vês amarela
A ave negra ao pé
Da mulher que te rodeia?

••••••••
Sei bem dos nobres gestos
Dos lúcidos, chicletosos ritmos
Mas sei também que
Mete-se a ave negra
Em tudo o que sei

•••••••••
Ao voar para longe, a ave negra
Riscou a beirada
De um de muitos círculos

••••••••••
Era ver a ave negra
Voando na luz verde
Que a própria musa do tom
Desafinava

•••••••••••
Viajou Goiás afora
Num longo carro de vidro
Uma vez, pinçou-lhe um frio
Assim que confundiu
A sombra da bagagem
Com aves negras

••••••••••••
Corre o rio, corre o rio…
Só pode estar voando, a ave negra

•••••••••••••
Era tarde demais
Estava nevando e
Ainda ia nevar
Sentava a ave negra
No espinhaço do angelim

* * *

Thirteen Ways Of Looking At A Blackbird

I
Among twenty snowy mountains,
The only moving thing
Was the eye of the blackbird.

II
I was of three minds,
Like a tree
In which there are three blackbirds.

III
The blackbird whirled in the autumn winds.
It was a small part of the pantomime.

IV
A man and a woman
Are one.
A man and a woman and a blackbird
Are one.

V
I do not know which to prefer,
The beauty of inflections
Or the beauty of innuendoes,
The blackbird whistling
Or just after.

VI
Icicles filled the long window
With barbaric glass.
The shadow of the blackbird
Crossed it, to and fro.
The mood
Traced in the shadow
An indecipherable cause.

VII
O thin men of Haddam,
Why do you imagine golden birds?
Do you not see how the blackbird
Walks around the feet
Of the women about you?

VIII
I know noble accents
And lucid, inescapable rhythms;
But I know, too,
That the blackbird is involved
In what I know.

IX
When the blackbird flew out of sight,
It marked the edge
Of one of many circles.

X
At the sight of blackbirds
Flying in a green light,
Even the bawds of euphony
Would cry out sharply.

XI
He rode over Connecticut
In a glass coach.
Once, a fear pierced him,
In that he mistook
The shadow of his equipage
For blackbirds.

XII
The river is moving.
The blackbird must be flying.

XIII
It was evening all afternoon.
It was snowing
And it was going to snow.
The blackbird sat
In the cedar-limbs.

DESTAQUES DO ANO

DISCOS, DISCOS POR TODA PARTE

1

PRÉMIO ÂNCORA FORTONA \\ Violas caipiras, sanfona, flautins, batuques e rimas sertanejas, mais a voz densa e doce da Salmaso fazem deste o disco do ano em âmbito planetário. O repertório pode ser específico, de um tipo brasileiro estudado e representado, mas a temática é pra lá de famosa, tratando de beijos, saudade, sol, luar e bicharada.

• • •

2

PRÉMIO RAIOSO \\ André e Antonio estarem entre os mais competentes instrumentistas do país não é novidade para ninguém. O que surpreende, aqui, é a narrativa. Contra spoilers, deixaremos o leitor ouvir a intrincada, em tudo planejada, rota cartográfica do álbum. Ao fim da audição, sentimos ter ouvido uma só, e longa e saborosa música em dueto.

• • •

3

PRÉMIO TELEFONE ENCARNADO \\ A gente não se cansa desta inspirada trupe. E não é para menos. Os meninos e meninas que entoam sopros e guitarras como pouca gente faz no pop-rock obram um disco a um tempo coeso e repleto de singularidades. Difícil não dançar, difícil não cantar junto, difícil não dar risada e querer ouvir de novo, mais um pouquinho. Absolutamente uma das mais grandes bandas do mundo.

• • •

LIVROS, LIVROS POR TODA PARTE

1

PRÉMIO CALOR HUMANO \\ Hilda é superior a Drummond e Bandeira, não sendo superior a João Cabral por questões meramente técnicas. Isso, no entanto, pouco se comenta. Pouco lida, pouco dada em sala de aula, e muito confundida em sua atitude reacionária (pornografia etc), é, do lado da recepção, uma pedra praticamente bruta. Ao trabalho, portanto. A reunião aqui é um mínimo, e o resto resta em nossa mão. Este poema, fácil de decorar, é uma aula de ética: “Ser terra / E cantar livremente / O que é finitude / E o que perdura. // Unir numa só fonte / O que souber ser vale / Sendo altura.”

• • •

2

PRÉMIO CÓFIUM \\ Poucas vezes na literatura universal um futuro metade utópico, metade distópico, foi tão minuciosa e sensatamente imaginado (leia o primeiro capítulo). Num mundo drasticamente dividido entre os que têm muito e os que nada querem ter senão fazer, porque tudo não é senão nosso, a ética do conflito de classes é representada com atualíssima destreza, sendo a tecnologia e a virtude zen empenhadas com complexidade, num enredo tenso e original de cenários absurdos e afetos urgentemente verdadeiros, em prosa fluida e saborosa.

• • •

3

PRÉMIO CENOURA DURA \\ Profilaxia de estilo e concentração artesanal induzem ao transe. Depois de algumas páginas, o leitor começa a crer um livro escrito inteiro numa só e mesma frase, repetida sem cessar até o sono. (Resenhei em setembro.) Não se engane. O neobarroco é o alto mar numa cumbuca. Em que pesem descalabro e abandono.

• • •

FRNKNSTN: update

Leitores perguntam quais concertos para violino do repertório romântico eu recomendaria, já que passei horas ouvindo-os enquanto fazia Frankenstein Revisitado.

Não tenho favoritos absolutos, e se algo aprendi ouvindo música é que, tirando as obras primas, ou mesmo elas, as outras nos tocarão variadamente a depender do humor da ocasião.

Rememorando os dias dedicados a este trabalho, porém, elencaria as seguintes peças mais marcantes, todas concertos para violino compostas no século XIX:

• Opus 61 de Beethoven
• Opus 64 de Mendelssohn
• Opus 53 de Dvorák
• Opus 35 de Tchaikovsky
• Concertos 1 a 6 de Paganini
• Opus 26 de Bruch
• Opus 47 de Sibelius
• Opus 77 de Brahms

–––

Aproveito a postagem para dividir questões, a partir da contagem de palavras do romance de Mary Shelley.

Em Frankenstein, a autora usa o termo ‘mind’ (mente) 98 vezes; ‘head’ (cabeça) 26 vezes; ‘brain’ (cérebro), uma vez.

Ao consultar o corpus textual da ficção em inglês no nGram, a relação entre mente/cabeça de Frankenstein respeita a relação indicada na varredura do software quando da publicação, em 1818. Passados 200 anos, no entanto, a relação se inverteu. Por quê?

Suspeito a explicação na aderência do discurso da prosa ficcional aos achados das investigações científicas. Neste tempo, a Ciência desprezou ‘mente’ para favorecer os mais materialmente corretos termos ‘cabeça’ e ‘cérebro’.

Note-se, entretanto, na virada da revolução digital, inflexão negativa em ‘cabeça’, e positiva em ‘mente’, mantendo-se ‘cérebro’ em lenta mas positiva evolução. As viravoltas podem ser apenas soluço, mas podem não ser, o que acusaria reversão da tendência observada nos dois séculos passados.

Intrigante, o fenômeno atualizaria nosso momento à luz do momento de Mary Shelley.

Ora, se for este o caso, resta perguntar: o que explicaria, hoje, tal guinada a repriorização de ‘mente’?

FRNKNSTN

FRANKENSTEIN REVISITADO

–– um poema colagem do romance de Mary Shelley ––

Só há pouco fui ler Frankenstein, um dos marcos fundadores da ficção científica. Encantado com passagens do lirismo depurado da Sra. Shelley, passei a recortá-las (de um original barato), como quem colecionasse versos soltos, achados nos rios, chuvas e ventos.

Fui guardando as linhas na ordem da leitura.

Terminado o livro, fiz da prosa picotada um poema colagem. Ficou assim:

• • •

Em seguida, e sempre a ouvir concertos para violino do repertório sinfônico romântico, dediquei-me à traduzir o poema recém-montado. A nova criatura ora se publica na plaqueta Frankenstein revisitado – poema colagem do romance de Mary Shelley.

Leitores queridos receberão a plaqueta em casa.

• • •

tese

Sendo verdade apenas quatro Novelas existirem, apesar de tantas escritas, resta entabular suas propriedades, à guisa de verificação genética.

1400

Nasce a Novela. Decameron (Bocaccio) é uma imagem do mundo composta por imagens sistemicamente entrelaçadas, emoldurada e socialmente sã, nem final, nem exclusiva.

1600

Se Decameron é o Moderno em Novela, Quixote (Cervantes) inventa a comicidade do pós-modernismo. Daqui em diante, o metadiscurso não se apartará da obra. O lugar cativo da inovação, sem que se percam fábula e exemplum, será o lugar narrativo.

1800

Frankenstein (Sra. Shelley) é escrito com Quixote à direita e A Peregrinação de Childe Harold à esquerda. Sobre as colunas da tradição e da intimidade, sopra o vento irônico da fala cientificista.

2000

Viva e macerada, a demanda do cálice é absorvida pelo Homem Literato. Um poema sem palavras num deserto de sons. Eis Detetives Selvagens (Bolaño), a quarta Novela não apenas escrita, mas jamais existente.

* oportunidade *

A Touro Bengala contrata revisor(a) de texto para um projeto editorial um tanto monstruoso e desafiador. O livro, primeiro título de uma tetralogia de Guilherme Coube, editor-chefe da casa, é um Longo Ensaio Imaginativo com o tema da Formação, ou do amadurecimento exemplar, e mistura diversos gêneros literários conhecidos e outros nem tanto, além de mudar amiúde de tom, de estilo, de lugar de fala e de contexto sociolinguístico. Tais premissas pedem um trabalho de revisão não mecânico e com certo rebolado.

Envie seu currículo para nosso e-mail.

Obrigado!

Este problema, em sua aurora esboçativa, nasceu enquanto caminhava numa noitinha. Sentado na primeira mureta que vi, rabisquei seus prenúncios: tanto Conceito quanto Percepção, aqui concepto e percepto, são tríades cognitivas que interpolam um sujeito mais ou menos conhecedor e um objeto mais ou menos conhecido. Entre os dois pólos, no entanto, diferem radicalmente as terceiras presenças. Para o concepto, há, entre sujeito e objeto, uma interface. Para o percepto, um intercâmbio. Fechada a caderneta, zanzei por uns barzinhos, virei dois conhaques, tomei uma tônica e voltei. Desenvolvi um bocado a ideia no quadro, fotografei, e segui com minha vida. Hoje volto porque há um problema novo no quadro, e seu eu deixasse passar muito tempo, as coisas embolariam. Notar: havia resíduos de notas passadas. Na empolgação da epifania, não apaguei tudo. O que não estiver explicitamente relacionado ao problema, peço não levar em conta.

No quadro, sobreveio a ênfase do viés não cru, mas político, do problema. Ora, se o concepto, esta habilidade que carece de acesso referencial a uma interface (corpo exógeno construído, mais ou menos dinâmico, perecível, atualizável) foi inflado nos últimos, digamos, 300 anos, assim ocorreu em contraponto a certa deflação do percepto, para não dizer a certa estigmatização. Donde ‘conhecer’ por meio de intercâmbio (dois corpos em troca sensorial ativa, sendo a terceira presença não um corpo exógeno, mas um julgo harmônico) ter sofrido paulatina dilapidação ante a cognição em interface. A pergunta que segue é dupla: há perda agregada com o desequilíbrio de valor entre concepto e percepto? (lembrando que mesmo um concepto ligeiríssimo quase imediato não deixa de ser um concepto); se sim, que fazer para reequilibrá-los?

De modo a aprofundar-me, mas num tatear neblinoso, recontei as sagas díspares de concepto e percepto lançando mão dos modos de existência latourianos, por um lado, e matematizei, sofregamente, a Área Eventual da Presença, medida de influência e disponibilidade navegacional do sujeito cognoscitivo, fórmula em que pesam os quoeficientes derivados de concepto e percepto, do outro. Nenhum destes dois exercícios de desdobramento me levaram muito longe, ainda, mas pude suspeitar: quando ORG valeu-se de REL e de REF, não seria estranho (para ela) valer-se de FIC, e FIC seria o modo onde preponderasse o percepto; e, fará sentido convocar o décimo-sexto modo (conforme sugiro em meu longo ensaio, ainda inédito), MEM, para determinar o quoeficiente de intercâmbio, ou sua humorada potência perceptora, do sujeito cognoscitivo?

[em relação aos modos latourianos, ver]
––