[CIT•MEM]

Cidadania e Memória entram num bairro.

CIT
Agora quero ver se chover.

MEM
O que há?

CIT
Onde?

MEM
Se chover.

CIT
Que que tem?

MEM
O que ver se chover?

CIT
Se chover?

MEM
Se. Chover.

CIT
Pois quero ver. Essa é de ver.

MEM
E o que há?

CIT
Pois se chover?

MEM
Se.

CIT
Olhe ali, você deve estar careca daquilo numa boca de lobo.

MEM
Reformulando…

CIT
Que tem?

MEM
Se fosse reformular isso que você acabou de dizer.

CIT
Reformular?

MEM
Sua frase estranha sobre boca de lobo.

CIT
Olhe aquilo, empenhado, se a gente se aproximar pode ser um veja: entalado. Coco. Um inteiro.

MEM
E se chover entope. Aí você quer ver.

CIT
Então por que um buraco, quadrado, e uns papéis jogados?

MEM
Onde?

CIT
Ali.

MEM
Vi. E aí você quer ver o quê?

CIT
Esta é você, mas se esta não é você.

MEM
Quando?

CIT
Típica!

MEM
Antecipando, escrutinando… Compensando as ligeirezas.

CIT
Bota ligeireza porque você ia estar parada lá no ponto que chegamos. “Lembra” ou?

MEM
Sem aspas com dedo… Eu te expliquei sobre ironizar no tom. É como explicar a piada…

CIT
Quando! O cheiro das fornadas! Nossas poesias! E andar?

MEM
É gostoso andar se for para te acompanhar. Gosto de gente envolvida.

CIT
Então vamos andar e venha logo porque existe, duas quadras em diante, ali, um cheiro de semblantes.

MEM
Você (rindo) não entendeu o cheiro, ainda. Mas vamos.

CIT
Então aquilo.

MEM
A praça. Veja, um pequeno anfiteatro.

CIT
Uma grade!

MEM
Como está cosmopolita, o bairro.

CIT
De um tamanho meio rude! Pintam de verde e é como se diluísse? É uma arte isso que você me explica?

MEM
Teria que ver o histórico de…

CIT
Ah! Teria as aspas as que ver dos chandeliers! Você muitíssimo você agora. Típica.

MEM
Eu te expliquei o “típico” e você não acreditou. Fez pouco. Só do ponto para cá já usou duas vezes.

CIT
Como usei?

MEM
Você me predicou se vendo em mim. Mas diga por que os semblantes não se indignaram?

CIT
Você notou os semblantes!

MEM
Notei alguns semblantes, variadas setas uns focos, nenhum me choramingando da grade.

CIT
Então eu tenho que dar a volta para entrar!

MEM
Passam perto, trocam, não carecem entrar, seguem de certo modo desenganadas mas resistem a desencantarem-se.

CIT
Então olha lixo imundo ali se a gente chegar perto. Verá enormes porcalhadas no chão!

Nota sobre o cinema do XXI

Onde está o lugar do cinema no bastão da virada do século? Dele, a próxima forma nascerá todos os dias quando engajados caminham os paráclitos do Espírito?

Assistimos a muita coisa.

Ainda assim, seria preciso provar a falsa decadência de uma forma apenas residual, aposentada pela vanguarda, exibindo o fenômeno que a consumou, a saber, a mimese da crítica, bastão esta (um endobastão) do cinema de autor.

Plantada pelos famosos franceses da novelle vague, a tendência concretiza-se na tríade de sumo arquetípico Michel Gondry (1963), Charlie Kaufman (1958) e Spike Jonze (1969).

Serão os três respectivamente i) a atitude do clown, ii) o sopro do ministro, iii) a coragem do repórter. Suas escolas, o experimentalismo vaudevillesco, o judaísmo cosmopolita, o videoclip. Bastam para satisfazer o truco desta completude categórica de avanço universalista no que resta e interessa do cinema dos 2000 para cá.

Gondry cruzou as platitudes suburbanas exigindo mágica da imagem em movimento. Observá-lo como o coach deste vigor mais fresco e original, remando contra a corrente das ‘facilitações’ digitais depõe com brilho a favor do pressuposto mecânico e material da forma expressiva em sua consequência de verdade e duração.

Quem nunca experimentou a construção do cinema em sua concreção analógica não está desautorizado a tentá-lo. Mas porque nasceu como nasceu, o cinema será para sempre avaliado, como experiência estética, a partir do que tenta e consegue em sua essência procedural mínima e comum. Gondry eventualmente não ceder ao truque resfriado da computação gráfica lembrará seus fãs de que contra um mundo desencantado, só o autêntico encanto da arte – os truques quentes da técnica tradicional – salva.

Procedimento e matéria, o enxágue luminário do mundo, serão importantes a ponto de Bergman não alugar ou arrendar, mas definitivamente habitar a ilha que será sua locação. A ponto de Hitchcock dizer que não, não é um pedaço da vida, o cinema. É um pedaço de bolo. A ponto de Tarkovsky esperar meses e meses o trigo plantado pela equipe num prado crescer para, só então, rodar a cena.

Em O Bebê de Rosemary, famosa resta a cena de bastidor, disponível no making of, quando Polanski de novo e de novo rearranja o braço de Mia Farrow sobre a mesa. Não raro atrizes que anos mais tarde afirmarão em entrevistas tocantes a indisponibilidade definitiva de trabalhar com Lars Von Triers.

Teimosias por assim dizer herzoguianas, navios sobre montanhas amazônicas, atiçaram estúdios a enquadrar, encapsular intimoratos artistas em soluções de prateleiras e focus groups de ‘entendimento’ de diálogos e sequências. Não a toa, os filmes daqueles que não se deixam domar são os que seguiremos assistindo e colecionando.

Quando vai tratar a inflação autoral intimorata instituindo o filme da produção executiva, Hollywood trola o talento, num mecanismo perverso de descarte premiado. O assunto é muito bem contado por Lynch no obsessivo “this is the girl” que antecede o empastelamento de um carro de luxo pelo taco de golf do diretor em Mulholland Drive.

É trolagem e descarte premiado porque o cinema de autor norte-americano nasce a um tempo viabilizando e negando o trono da produção executiva. Tubarão, de Spielberg, é o emblema deste tempo novo anunciado na missão renovada, um pouquinho mais complicada, a demandar do artesão, além de técnica, habilidade para calar a boca de quem se faz de mandachuva mas não manja do metiê.

A onda autoral norte-americana de Coppola, Lucas e Scorcese vai dar, graças a uma porção de eventos felizes, no seio de um paradoxo explícito: o mais novo e famoso cinema é dos homens de negócio, estes que não são mais homens de negócio apenas porque não morreram na praia da indiferenciação.

Homens que internalizam o sal tutor de um pai como Akira Kurosawa sem deixar dormir o touro indomável da criação.

Testemunhar a afirmação relevante do discurso post-mortem de uma expressão artística é vê-la florir a despeito de teses e movimentos.

Discurso post-mortem ou sobrevida, posto que o divórcio da vanguarda de modo algum totaliza a negação da tradição. Apenas a põe de lado, bibelô querido num altar, e toca em frente suas aflições, desimpedindo a antiga aliança aos gozos renovados das latências em timbre de homenagem, comemoração, autorreferenciação e metalinguagens pedagógicas.

A crítica do cinema, aqui, é a embocadura mesma deste oroborismo de resto antecipado desde os boons dos franceses aparecendo. Sua evolução, entretanto, extrai a confusão e reforça a essência poética do dizer do cinema. O cinema não é tudo isso, diziam os carriers, porque não vale a pena deixar de brincar. Não vale a pena deixar de brincar, disseram na antessala de Star Wars, mas burlar também é uma arte.

De modo que Kaufmann, leitor de romances, imaginador do teatro e trickster das rádios, manipulará dobras frescas na tradição lastreando-as em seu tronco originário – o texto. Só então albergará o sonho nas limitações brincantes e burlativas das gravações de luz e som e na montagem.

Kaufman faz sem sensacionalismo o bastante para ruborizar um quartel de surrealistas, e perguntamo-nos de onde, de um claro azul de céu sobre a topografia, a crítica hospedada na forma, signo de sua sobrevida cultista, nasce tal sorte de esquematismo virtuoso aliado a inventividade em tal potência que altíssimos investimentos em desenho de produção também restariam constrangidos.

O fenômeno, para variar, não é teoricamente lógico. É, antes, contingência solidária ao estágio tecnológica (no sentido vegetativo) das especificidades do longametragem.

Dos rascunhos à exibição, o cinema imaginativo de Kaufman operará para compensar a culpa da vida insuficiente numa ressurreição paternal. Olhará a tradição como sua filha; proverá o que ela não soube, infelizmente, alcançar. Por isso é crítica, não mais cinema apenas.

Antes da onda francesa, no entanto, houve a Segunda Grande Guerra. Dela, cinematógrafos de pulso semi-suicida retornaram para chutar a porta da gramática temerosa, gravar som diretamente e elencar pescadores para protagonizar falas antes delegadas a atores ‘profissionais’.

Desta estirpe nasce a câmera na mão, a luz natural (coragem que amalgamou o Dogma mas, de forma estupenda, é adotada em 2018 por Eastwood em A Mula), o não ator, o imbricamento dos modos documentais e imaginativos, e logra em seu rebento lúdico, amadoríssimo e hiperdemocrático, a handycam de fatura VHS, o desafio aos realizadores de declararem-se diante de um teto baixo ou de, por que não, de um chão alto.

O videoclip de Praise You, música de Fatboy Slim, ainda não foi superado por flashmob digital nenhuma, e são bilhões tentando diariamente. Por quê?

Spike Jonze, parceiro de Kaufman em Quero ser John Malkovich (1999), aliará a lealdade convicta do truque quente da manobra da gravação à visada etnográfica de quem roda o mundo urbano leve, discreto em sua BMX, reconhecendo das tribos seus códigos mais íntimos e então reproduzindo-os como bem entende ou pode, caindo de pé e adensando o repertório de um tarô deveras singular, mas esponjoso o bastante para torná-lo tesouro da diversidade.

O brilho eterno de uma mente sem lembrança‘ (2004), comédia romântica que une lirismo folk e neurosciência num dos casais mais saudosos do cinema recente, é parceria de Kaufman e Gondry sobre mácula, decepção e fé.

O esquecimento de si, nem em Malkovich, nem em Brilho eterno, resultam condignos de uma humanidade dissipada pelas traições da modernidade.

Clown, ministro e repórter montam nesses dois mundos de invejável simplicidade e sofisticação técnica o adro e senda de um pessimismo alegre, aparentemente labiríntico se o sujeito indispõe da chave-mestra da poesia, cruel se ele a joga fora.

Ser moderno, dificuldade que pressupõe diplomacia cósmica e um querer fundador – carpir ontologias sem deixar de habitar múltiplos objetos – será o dilema filosófico comum às duas peripécias, tão drasticamente diversas na superfície graças às mãos de Jonze e Gondry.

Kaufman coloca a questão da subjetividade esvaziada pela decepção, súbito largada numa beira de estrada, sem ter aonde ir quando cessa o simulacro (comprar isto ou aquilo, ser outro por um tempo, abandonar, mentir, trair, trocar responsabilidade por coletivos etc). Pior: propõe a institucionalização do esquecimento, manobra ardilosa, infelizmente profética, contra a confusão patente entre ‘virar a página’ e ‘não lavar a louça’, síndrome atualíssima entre vídeos que duram cinco segundos e trastes quase humanos que fingem não responder por si.

explicação em germe

Aceitar um tempo filosófico não será sofrê-lo entre o arbítrio da invenção e o diluir-se da entrega como se tais polos já não passassem de inflexões de certo isocronismo pendular.

Desenhei, para entender melhor, o comum de um alumbramento, decerto auxiliado por algum paráclito. Ele diz que a produção do real é consequência de uma transcri(a)ção; esta, de uma situação de paralelismo. Na outra folha de vidro corre um código.

Este código fica onde está, informado por inteligências interessadas, divinizando as divinações dos homens. Este produz um real em verdade função, porque premido pelo desejo e estabanado no desenho, em vez de origem.

O espaço para a fé neste princípio: nem se leitura não bastasse, a gravidez constante da influência acelerada ao afã especular.

SQ6

Uma seta que se finca no ponto tenro e nevrálgico da palavra. Meu corpo incógnito te diz: dinossauros, ictiossauros e plessiossauros, com sentido apenas auditivo, sem que por isso se tornem palha seca, e sim úmida.

Assim conta Clarice de seu estado quando abre Água Viva. É engraçado, num livro deste nome, ouvir mais ode ao ar e ao fogo que à agua. E qual é o movimento?

Antes que o afastamento querúbico hilstiano, a atitude é a disciplina da atração: atiçar, escrevendo e atravessando, o escorpião mercurial de volta aos leitos. Demonstra a resolução de um problema? Assoma.

– Parem de sufocar suas avós.

A pista foi tomada pelo regozijo.

As ancas sobejaram, rebuçadas em chocalhos.

Exalavam: ardor, bundas e sovacos.

Anná levou a voz feminina ao ótimo mesmo de uma tradição difícil. Dos rueiros guaranizantes de Teko Porã rastilharam no tablado a alma irriquieta e a senda alumbrada das aves em chama. Drusa transfundiu raízes em hastes de exaltação e controle.

Chuva, constância inumerável, e também peitos.

uma tradução: samuel beckett

cascando

por que você não foi meu simples desespero
um ocaso de palavras
melhor abortar ou ser infértil?

depois que você foi, as horas se arrastaram
desde cedo
garras fincando cegas a cama do ardor
os ossos que o velho gosta exaltando
choças que seus olhos já ocuparam
sempre tudo melhor cedo do que nunca
pardo desejo espalhado nas caras
dizendo de novo nunca aboiaram nove dias os amados
nem nove meses
nem nove vidas

dizendo de novo
se você não me ensinar eu não aprendo
dizendo de novo há uma última
última das últimas
chances de começar
chance de amar
de fingir não saber não saber
das últimas a última das últimas chances de dizer
se não me amar não serei amado
se eu não te amar nada amarei

a chusma das velhas palavras outra vez no coração
amor amor amor o tranco do velhaco
pilando o inalterável
canto das palavras

de novo é apavorante não amar
de amar mas não você
de ser não mais amado mas por outro
de fingir saber não saber
fingindo

eu e os outros todos que amaremos
você
se eles te amarem

* * *

cascando

why were you not simply what I despaired for
an occasion of wordshed
is it better to abort than be barren

The hours after you are gone are so leaden
they will always start dragging too soon
the grapples clawing blindly the bed of want
bringing up the bones the old loves
sockets once filled with eyes like yours
all always better too soon than never
the black want splashing their faces
saying again nine days never floated the loved
nor nine months
nor nine lives

saying again
if you do not teach me I shall not learn
saying again there is a last
even of last times
last times of begging
last time of loving
of not knowing not knowing pretending
a last even of last times of saying
if you do not love me I shall not be loved
if I do not love you I shall not love

the churn of old words in the heart again
love love love thud of the old plunger
pestling the unalterable
whey of words

terrified again of not loving
of loving and not you
of being unloved and not by you
of knowing not knowing pretending
pretending

I and all the others that will love you
if they love you


* * *
Conforme versão remetida a Seuman O’Sullivan em julho de 1936
publicada em The Letters of Samuel Beckett 1929–1940
* * *

uma tradução: T. S. Eliot

O hipopótamo

O hipopótamo grandão
Descansa a pança na lama
Se parece assim, firmão
Não passa de carne e sangue

Carne e sangue é fraco e frágil
Ataques de nervos medram
Já a Igreja não falha
Pois é feita sobre pedra

Erra o bicho às vezes débil
Prejuízos remoendo
Já a Igreja é indelével
Somando seus dividendos

O bichano nunca alcança
Na mangueira a manga alta
Mas pêssegos e romãs
Vêm à Igreja do além-mar

A voz do bicho excitado
Trai-se rude e desafina
Mas ouvimos, extasiada
A Igreja, a Deus unida

De dia dorme, o hipopótamo
Só à noite é que ele caça
Deus faz certo em linhas tortas
Dorme e caça a Igreja em Graça

O bichano bateu asas
Ascendendo das savanas
Em redor, anjos cantavam
Glória a Deus, altas hosanas

Sangue do Cordeiro o lave
Braços celestes o tenham
Entre os santos colocado
Harpa dourada tecendo

Branco o lavem como a neve
Virgens mártires ao lado
Ficando a Igreja na terra
Em fumos velhos rodeada

* * *

The hippopotamus

The broad-backed hippopotamus
Rests on his belly in the mud;
Although he seems so firm to us
He is merely flesh and blood.

Flesh-and-blood is weak and frail,
Susceptible to nervous shock;
While the True Church can never fail
For it is based upon a rock.

The hippo’s feeble steps may err
In compassing material ends,
While the True Church need never stir
To gather in its dividends.

The ‘potamus can never reach
The mango on the mango-tree;
But fruits of pomegranate and peach
Refresh the Church from over sea.

At mating time the hippo’s voice
Betrays inflexions hoarse and odd,
But every week we hear rejoice
The Church, at being one with God.

The hippopotamus’s day
Is passed in sleep; at night he hunts;
God works in a mysterious way–
The Church can sleep and feed at once.

I saw the ‘potamus take wing
Ascending from the damp savannas,
And quiring angels round him sing
The praise of God, in loud hosannas.

Blood of the Lamb shall wash him clean
And him shall heavenly arms enfold,
Among the saints he shall be seen
Performing on a harp of gold.

He shall be washed as white as snow,
By all the martyr’d virgins kist,
While the True Church remains below
Wrapt in the old miasmal mist.

Se houvesse três regras para um fruir mais fluido…

Coisa de quatro anos atrás, teria tuitado três sentenças, à moda dos saquinhos do açúcar União. Não queria doutrinar meus subalternos, mas esclarecer, a mim mesmo, caso tudo me faltasse súbito, o mar sertão virasse e canivetes nada menos que chovessem, e por sorte achando guarida numa marquise de comércio encerrado, de que modo manteria a sanidade limpa e firme, o prumo reto e o corpo livre de atravancos, dédalos circunlófilos e outras pragas da estagnação. Ei-las:

1 – MASTER ZERO
Masterizar o zero compete à prática psíquica da concentração absurda. No frio absurdo você dispersa de frio e bate os dentes e diz coisas como ai pqp q frio nees prrr, assim como num absurdaço calor você sua a sunga já repleta de areia senta na canga que cobre um gravetinho dá risada mole baba olha os corpos fala hein? depois de horas do companheiro ao lado achar que te contava um troço. Não é disso. Masterizar o zero é você em temperatura ambiente sem exageradas cedições termodinâmicas ir ao ponto, ponto de que fala Krishna em seu garboso cardo conselhudo ao príncipe da carruagem. Transformar TODA a sua existência mental num único e minúsculo pontinho. Eis o zero. Desconectar de tudo para, centrado, a tudo reconectar-se em plenitude emocionante – ser de tudo o centro.

2 – CULTIVE A HISTÓRIA
De nada adiantará masterizar o ZER0 se você restar insensível à GRANDE CONVERSA DA HISTÓRIA. Sim, porque o que acontece hoje é produto do que vem acontecendo em marcha polimórfica dinâmica e caprichosa em sua equivocidade aparente, prenhe de interpretações divergentes a grandes movimentos que a todos nos tocam como trama tecido que tramamos e tecemos mais ou menos conscientes. Se quero assumir uma bandeira, uma cor, um time, um legado, preciso SABER ESCOLHER o que jogar fora e resistir às tentações gracejantes dos mini-cinismos acríticos que nos deglutem pontos do grande ranking universal. A saída é uma só: ingressar na irmandade tão fortuita mas também tão frutuosa dos que lêem a história. Pois é uma artimanha: você escolhe um momento, um trecho do mundo, um personagem, afunda-se ali (livros, filmes, docs, simpósios etc) e uaaaau, o entorno começa a mudar, seus modos de ligar os pontos se diversificam e suas raízes se aprofundam nessa terra. Sei onde ando, você dirá. Se cada um de nós tivesse de conhecer a história toda, bastaria um homem viver. Mas somos muitos para sermos complementares. Só não vale não participar.

3 — ESPERE UMA TERCEIRA PRESENÇA
Numa passagem muito bonita da Bíblia Jesus diz algo como ué, por que que eu vou acender uma luz e colocar essa luz embaixo da cama? A frase dá margem a discussão. Eu entendo que ele usou a voz do Pai, de quem senta à direita, para indicar que Deus não permitiria sigilo absoluto sobre nada em momento algum, ou não haveria porque existirmos, humana espécie tão por acaso criadora inquisidora inventora continuadora da mais bela jornada. Talvez não fosse esperado que tirássemos da cartola gutural umas tão ricas linguagens. Mas! Acabamos inventando, ó tão linda ferramenta de encaixes múltiplos e proposições tropeiras. E agora? Pandora! Eterno compromisso: partilhar na íntegra (tudo para sempre) nossa programação… Se somos pensadores, se nosso cérebro literalmente se ilumina quando pensamos desejamos planejamos sentimos, não haverá, no entender de Jesus, por que esconder um intento sequer. Seria, talvez, conspurcação cognitiva, ou mero erro de compreensão. Se pensamos desejamos planejamos sentimos será para somar à multitude de esforços mais um pouquinho, nossa humilde e pequena parte, feita com serenidade e sabedoria, alegria equilibrada e senso de pertença a uma obra muito maior. Nossos fazeres e agires, sentires e pensares, integralmente acompanhados pela TERCEIRA PRESENÇA a que culturas e vocabulários diferentes darão nomes diferentes, mas que antes de nos assustar ou restringir, nos dará força, a cada pessoinha, para escrever história própria, singular E integrada à família.

O que será a Memória?

Leituras recentes me fazem pensar nas especificidades do modo de existência MEMÓRIA. Objeto de conexão entre os modos da superestrutura (Política, Organização, Ficção, Religião, Redes, Direito etc) e a singularidade do Ser (entidade subjetiva, mental e persistente que possibilita o agir e o experimentar o mundo a partir de uma personalidade), é aludido sem propriedade.

Se quisermos observar a Memória em termos que superem os termos da religião (e.g. Espírito Santo ou Espírito do Mundo), os da ficção (e.g. metáforas advindas da tecnologia computacional), e os da ciência (rol referencial biofísico da processualidade neuroquímica), falaremos da experiência do reconhecimento (MEM) em termos próprios.

Sugiro três abordagens cá rascunhadas à investigação: fenomenológica, ontológica, metafísica. Não para defini-las, mas para buscar.

Fenomenológica: Germinados no evento de um acesso, os atos de MEM são parturientes do campo comum. A total experiência material proscrita é manancial cediço (mesmo se numérico) à elegância dos saberes familiares ou terranos, ativada por acaso e intenção mais ou menos misturados. Mana, pois, da gravação cósmica às aplicações da consciência, amalgamando a inteligência.

Ontológica: Mana, pois, da gravação cósmica, para habitar o Ser que habita os corpos mediadores. Habitante de um habitante, MEM é procuradora de um sentido. Sua fatura é orientar, mas sua explicitação só se faz visível no fazer humano (e.g. MEM•FIC, MEM•POL) comparado, em jornada de reflexão.

Metafísica: Além dos corpos conhecidos haverá, de novo e de novo, novos corpos. O limite à intelectualização dos objetos, portanto, será ferramental antes de concreto. Porém, se MEM é habitante do habitante Ser (procuração), ligado este aos modos da superestrutura (proteção) graças à mediação dos corpos (provação), não será estranho imaginar um corpo real mas processualmente exorbitante, conosco em contato e uso, mas ditoso de fortuna alheia. Se vive em especulação procuradora-protetora-provadora dos fazeres e agires terranos, germinará, alhures e enquanto nos informa, estância outra de experiência.

– –

haiku em quadrinhos

Um dos exercícios tradicionais da evolução da escrita em versos está em fabricar, a partir de uma imagem, um poema. Este exercício funciona em salas de aula porque estimula a turma a praticar os esforços da versificação (ritmo, figuração, concisão etc) dando um passo de tradução, passo este que pode voltar à ancoragem referencial, ponto de partida comum e estimulante em sua potência sugestiva amplamente indefinida, para fazer das discussões comparativas ainda um terceiro produto, aberto, dialógico, novamente enriquecedor.

um sonho

outra noite sonhei que visitava o imf. assim chamavam a universidade brasileira, enfim a primeira. uma garota me conduziu brevemente a visita, depois me soltou foi cuidar de… disse tratamos aqui basicamente de desenho cremos ser o desenho a força complementar do desígnio desse modo ao formarmos melhor desenhadores deles nascerão mais ricos frutos. então conforme andei, sozinho pelo edifício, vi turmas batucando disciplinas, orientadas por projetos de muitos lugares chegadas, chegando de mansinho quem sabe às virtudes naturais, universais e específicas dum desenho brasileiro. não sei dizer tratar a sigla imf de instituto millôr fernandes. revendo seus textos, suas falas e desenhos, entretanto, achei ué. será se…

política distrital; alucinações parciais; parrésia

1 •]

acredito nas unidades federativas como guardas da cultura regional. um tempero paraense, um vatapá capixaba, uma moda de viola paulista e assim por diante. mas cada estado ter assembleia legislativa própria, polícia própria, receita própria, judiciário próprio, parece confusão e desperdício. nem cidade nem união, os estados estão mais para entidades inalcançáveis, entrepostos, lugares de burocracia dobrada, redundante, atrapalhada, irrelevante. ou os costumes da civilidade mineira seriam assim tão específicos a ponto de uma força policial e um judiciário mineiros serem necessários? as escolas públicas estaduais não seriam melhor geridas se unificadas às municipais? e as universidades estaduais não dariam menos vergonha se unificadas às federais? resta, ao fim e ao cabo, uma sorte de escada para governadores alçarem voos maiores, para partidos montarem feudos e seguirem seus jogos de conquista. o impacto dos estados, quebrados quase todos, acaba sendo o de uma guerra fiscal abandonada, atabalhoando a tributação e claudicando o custo brasil; de instituições distanciadas, carentes da força nacional e do orgulho e da presença locais. a desejada competitividade entre estados tão particulares em suas histórias que pudessem mostrar uma quase-nacionalidade, como aconteceu mais ou menos nos eua, nunca se deu por aqui. basta lembrar. das treze capitanias que inauguraram o país, duas, se tanto, vingaram. somos calmos, misturados e gerais o bastante para estarmos fadados a uma brasilidade amalgamante, solidária às regras em uníssono e às especificidades localíssimas. isso implica: união alerta, enxuta e simples, mais municipalidades bravias na condução dos assuntos dos dias. vejo ainda mais específico: gestão distrital dos assuntos assentados no cotidiano comum. mobilidade, postos de saúde, educação, litígios, urbanismo, meio ambiente. se a união fornece a constituição e os códigos, paga a infraestrutura, os funcionários, e os repasses, proporcionais à arrecadação da atividade econômica e da renda distrital, daí em diante a deliberação das prioridades pode ocorrer no mais local local possível, em assembleias presenciais e fóruns digitais. o dia a dia da política se resume a uma discussão na internet, e nela uma lista de coisas importantes, cuidadas pelo dinheiro dos impostos e pela força pública, acontece no seu bairro.

se você mora num distrito e trabalha em outro, há algo de errado na cidade. alguém mora no méxico e trabalha na bélgica? pois. para a política distrital prosperar, o município deve ter igualdade regional. emprego, renda, equipamentos, estrutura, negócios etc. quantos bairros de são paulo não têm sala de cinema? quantas pessoas moram e trabalham no mesmo distrito? a reconstrução passa, necessariamente, por mapeamento das carências e investimento no desenvolvimento policêntrico. as consequências podem ser belíssimas para o bem estar. o turismo distrital, por exemplo. saio num domingo para visitar o adorável sacomã com a família. conheço a igreja, o mercadão, o centro cultural, como no restaurante de uma família tradicional do bairro, vou a uma peça, compro um artesanato e volto para casa como se tivesse viajado a outro país.

2•]

é o equivalente a um cometa, visível de pertinho e sem a ajuda de aparelhos, a atual programação do instituto tomie ohtake. o carro chefe é a exibição-escola alucinações parciais, em parceria com o centro cultural pompidou. a esperta curadoria mostra considerável elasticidade em poucas obras, e a seleção brasileira é tenaz a ponto de não nos tocar com vira-latismo, exotismo ou favor. o ponto alto, no entanto, é a justaposição destes dois pedaços de mau caminho:

obras atribuídas a um kandinsky e a um picasso distando tão pouco mas tão largamente distintos é coisa que a história da europa explica, no que a consultemos, sem pressa, por que sobre reflexão.

a seguir, o instituto apresenta, nas galerias frente a frente ao fundo do segundo piso, paulo pasta e cecily brown, num dueto que faz revigorar a crença nesta mídia tão antiga. em dimensões mais próprias à pintura que sobrevive, e também na desfiguração com que usamos perder tempo, em tempo de imagens tão fracas e ligeireza de likes. pasta é conhecido nosso, e suas composições de retilíneos estudos cromáticos frequentam inúmeros blogs e arquivos digitais. vê-las em pessoa, no entanto, muda a experiência e digo mesmo que transfigura a pessoa. é um baque, previsto talvez nos idos da teórica bauhaus, sobre a influência das cores nos humores. coloque-se o visitante na sala, abra-se à luz que bate e volta e reste ali o homem, sem onde chegar e sem querer sair. certa altura, as cores falam umas com as outras, e as telas entre si brincam de empurra, pega e esconde. se puder, use fones. brown faz grandes anti-guernicas em camadas abusivas de falsa abstração. trabalha com humor jovial, sorte ancestral, hiperssaturação em prol da narrativa, animismo terrano e sensualidade entre o escatológico elegante e o parturiente pulsante. cada tela é uma excelsa, quase interminável expedição de aventura elementar, imemorial e híper-dinâmica. se pasta tem masculino e feminino equilibrados, brow tem feminino e masculino assim também, no que eles não casam por recato e precaução civil, falta de exagero, e para quem sabe sentarem gostosos numa mesa para quatro.

3•]

é de março a exortação ‘gaudete et exsultate’. a leitura valeria pela dicção agradável e erudição instigante. resta porém em recomendação mais urgente a pais, pedagogos, professores e cidadãos ligados em geral graças à cativante atualidade com que aborda problemas comportamentais e relacionais em voga. toca o tema da santidade para tecer alertas, recomendar coragem, atentar-nos à vigilância hoje, à alegria, e insistir nas razões do discernimento. o ingresso, em via teológica, do conceito de história, é particularmente interessante, e nos faz pensar se a memória universal pode ser um nome alternativo e adequado ao espírito santo. tão útil é o ensinamento do termo parrésia, “a santidade é parrésia: é ousadia, é impulso evangelizador que deixa uma marca neste mundo.” ano de eleições, ouviremos candidatos ao legislativo e ao executivo falando em campanha por nós. será imperioso distinguirmos, entre as calculadas atitudes, candidatos capazes de incorporar a integridade e a sinceridade quando contrastam os problemas brasileiros com seus programas. a fala sem parrésia é a fala sem vontade sincera e sem ardor, algo impossível de falsear porque é “selo do Espírito, testemunho da autenticidade do anúncio.” no âmbito eleitoral, parrésia pressupõe não só a comunicação clara de programas e ações corajosos face o tamanho da crise política e fiscal. pede também a atitude de não manter marginalizadas, por medo ou falta de compromisso, as lacunaridades brotadas na história das negligências e confusões do estado brasileiro.

Saúde Ibeji!

Tenho em casa um tambor de estudante. Busquei na Vila Madalena, perto da Cardeal Arcoverde. Apresento este registro para assegurar a meu parceiro taurino um estatuto civil reconhecível. Nome, data de ingresso na vida nova, ocupação.

Vê-se que o menino aparece ingresso na escolinha Yoga&Study, bilíngue, em cuja missão perpassa o anseio de forjar as bases da ginástica-rímica yogangola. Mistura preceitos do receituário prático por trás da espiritualidade hindu e da Capoeira de Angola. É começo. Cedo pra dizer se vou virar percussionista. Mas posso adiantar: tirar uns minutos do dia para desenhar figuras rítmicas, repetindo-as até tornarem-se padrões: taí um jeito em conta e útil de unir concentração engajada e divertida com reboot cerebral.

Aleijadinho no MASP

“A cidade deve ser um órgão do amor”, disse Lewis Mumford, “e a maior riqueza das cidades é cuidar da cultura e das pessoas.”

Para o autor de A cidade na história, é função da urbe nutrir e promover a vida. Missão famosa desde o livro Gênesis, quando é dada a Adão a tarefa de “cultivar e guardar” (Gn 2:15) o Éden da terra.

Hoje, o imperativo é comum à cidadania e às instituições que nos servem. O homem político aprende, com as quedas da história, o que preservar. Mumford vê na cidade um receptáculo de receptáculos. A cidade guarda corpos que guardam corpos.

Da cultura, expressões são acolhidas em regime de seleção e exclusão a partir de critérios escolados e comparados, justificados e democráticos. Centros culturais e museus mantêm-se lugares deste acolhimento. Na vida em trânsito da cidade moderna, parece imperar a economia da distração. A reboque, embotam-se a percepção da beleza (e consequentemente da justiça) e o senso crítico (e consequentemente o respeito à história).

Perder tempo em centros culturais e museus, entre as sugestões e pedagogias curatoriais. Recriar uma rota livremente e ser, você também, um artista que experimenta a arte, alongando e desdobrando os objetos na imaginação. Estar aberto não só à informação do catálogo, mas aos mistérios da criação. Atividades que tornam menos desumana a vida numa capital feia e sofrida.

Da administração Haddad e das jornadas de 2013 para cá, o paulistano vem usando com mais alegria a principal avenida da cidade. É na Paulista, alto espigão e aproximada bissetriz de nossa mesopotâmia, que a rua se frui, misturando e libertando os corpos, destravando e enlevando os humores. É lá também que estão InstitutoMoreiraSalles, Conjunto Nacional, MASP, Sesc Paulista, Casa das Rosas, Itaú Cultural e Japan House.

Sendo como foi São Paulo, destratada e abandonada, fechada e loteada, desmioladamente ocupada e retraçada, tais instituições, de guarda e cultivo da obra e da presença humana, merecem nossa graça e atenção disciplinada.

A exposição Imagens do Aleijadinho, montada no primeiro andar do MASP até três de junho, mostra 37 peças atribuídas ao escultor mineiro. É um presente impagável. Hoje espalhadas em coleções variadas, as obras sacras pertenceriam originalmente a igrejas.

Trata-se de um estágio definidor da arte brasileira, realizada pelo gênio intuitivo e singular, capaz de impor assinatura sem submeter-se integralmente (tanto melhor quanto involuntariamente) às gramáticas e ciente de um entorno pouco polido. As consequências são algumas obras-primas como Sant’Anna Mestra e Santo Antônio. A tensão entre as vestes engruvinhadas e o rosto liso contam do árduo trabalho do talho resolvido na graça de uma expressão devota. Arrematam a beleza o perecimento da pintura e o desgaste do material, inigualáveis em outros meios.

A caracterização católica oscila entre a paixão e o dever, a penitência e a humildade. Não porque as vidas dos nomes por trás fossem santas, mas porque as madeiras conquistaram presenças, encantadas ambiguamente pelo conjunto talho, pintura, caracterização, escritura, manuseios, e pelas forças de quem as quis e as olhou de perto. Corpo e contingência, histórias vivas e ainda pulsantes, em ativa conversação.

Este blog recomenda a visita. O museu afirma estar todo afro-inclinado esse ano, de modo que não faltarão bons motivos a idas fecundas no largo bardiano. Esta do Aleijadinho, no entanto, pela raridade da reunião, e pela mão de um artista patriarca mor em cuja linhagem nascem Villa-Lobos rudepoema e Millôr Fernandes chargista, tem motivação escolar a todas as idades e credos.

Depois dê um pulo no acervo e reste um instante em frente ao par Volpi–Valentim. Lado a lado em azul e amarelo, ótimos Cosme e Damião de um possível minimalismo à brasileira, este que se quer rigoroso no feng-shui semiótico, mas sem deixar ver derruir o orgulho mestiço, apaixonado e forçudo, e ora lúdico, que Mestre Aleijadim ensinou.

Ambíguo, Ex-Pajé dá sono e assombra

Numa das mais belas imagens de Padre Vieira, o jesuíta compara a riqueza oculta na terra que os portugueses pretendiam retirar com outra, aquela que habita e permeia a alma dos índios. Escrevendo e assinando aos 20 de abril de 1657 da capitania do Maranhão, diz António, na carta ao Rei D. Afonso VI, a respeito de uma frustrada Entrada do Ouro no Paraná, em que morreram, vítimas de fome e exaustão, quarenta colonos e duzentos nativos da nação Pacajá,

Estas, Senhor, são as minas certas deste Estado, que a fama das de ouro e prata sempre foi pretexto com que daqui se iam buscar as outras minas, que se acham nas veias dos índios, e nunca as houve nas da terra.

É sabido que as missões americanas da Companhia de Jesus, ordem fundada na segunda metade do século XVI por Inácio de Loyola, obedeciam, conforme arquivo epistolar dos primeiros padres, o cristianismo potencial dos nativos, jamais os julgando indignos ou escravizáveis. Ao contrário, reconheciam, nas pequenas mas significativas semelhanças, num dito famoso de Nóbrega, motivo de amor. Tais semelhanças seriam a entrega íntegra ao trabalho comunitário e solidário, um epítome do serviço cristão, e, ainda que difusa, crença e temor a um único e soberano Criador.

Graças às tão notáveis, aos olhos dos jesuítas, semelhanças, houve rápido e frutífero entrosamento, e as missões, enquanto funcionaram, produziram felizes convertidos, e intenso intercâmbio entre os conhecimentos das artes e utensílios europeus, e entidades e sensibilidades da floresta. Em verdade, para os jesuítas, o maior obstáculo às missões não seria a distância dos nativos dos conceitos da ordem e da fé, mas a inconstância da ordem e da fé dos assim ditos cristãos que cá chegavam para tentar enriquecer e apenas isso. Eram estes os que ignoravam o sentido da harmonia em expansão, o amor de Cristo em Cristo na unidade do Espírito Santo, e assim atrasavam, como afirmam as mesmas cartas jesuítas, o progresso do projeto brasileiro.

As missões foram fechadas pela ganância desmedida, e o projeto brasileiro tornou-se um mal disfarçado projeto de espoliação e segunda classe. Nele, um pequeno contingente teria acesso aos excedentes, o governo seria um simulacro de contenção popular, e nós seguiríamos proibidos de produzir tecnologia e conhecimento de vanguarda. Esta situação nos levou à dedicação absurda de solos às pastagens e à construção de Belo Monte. Pouco mudou até então. Nesse interregno, expressões culturais de monta valiosíssima, capazes de fazer triunfar no tabuleiro global do jogo das nações a diferença brasileira como algo além do sensualismo fácil dos corpos, expressões essas relacionadas à difícil cognição relacional não alfabética com a matéria e os espíritos, foram perdidas ou desperdiçadas.

Deste assim chamado, apud Pierre Clastres, etnocídio, isto é, extermínio das formas de um povo produzir sentido e relacionar-se com o mundo, trata o filme silencioso e perturbador Ex-Pajé, em cartaz no circuito comercial. Documento duradouro sobre a postura diante da perda, a fita escava no público a vala funda da complexa culpa brasileira.

Apreender o valor do registro é jogar damas com narratividade lacunar, demasiado ambígua. Ora as cenas querem dizer nada além de um valor de face prosaico, quiçá tardo-antropológico, mas ora sentidos de alta densidade ética subjazem em detalhes de bruta esquivança. Estar atento, ou desatento de um norte dado pela montagem e cioso dos frágeis, efêmeros sinais, será como andar, tal e qual a humilde equipe de cinco produtores, em solo onde abundam jararacas, sob uns céus em que espreitam araras os gaviões, saltam vítimas da fome macaquinhos, e anunciam, a quem trilha o caminho do adepto e está aberto, as razões e motivos do porvir.

Perpera é o xamã protagonista, provocativamente chamado ex-pajé, quando sabemos tal titulação impraticável, tanto quanto uma idade ex-idade é impossível. Sob a regência evangélica, advento que transforma a aldeia Paiter Suruí num psicologicamente conturbado hibridismo entre o colapso hodierno brasileiro e sua esquecida ancestralidade, Perpera alerta contra a distração da tribo mediante as coisas dos brancos, principalmente a comida. Perpera refere-se ao branco não como um inimigo, mas como um irmão mais novo, amável via de regra ignorante.

Entre sequências de perseverante espontaneidade e outras graciosamente posadas, o protagonista mais marcante acaba sendo a banda sonora. Aves variadas, águas, ventos, cantos, rezas, choros, sermões, ladainhas, conversas e percussões induzem o público à confusão e à sonolência, aos marasmos e assombros e, consequentemente, à reflexão. A ausência de narração em texto falado, ou de qualquer preparação historiográfica, a não ser inicial cenografia de arquivo da mesma tribo no anos 1960, ainda pouco aculturada, faz o percurso menos fácil e quem sabe por isso dubiamente cativante. Os arcos narrativos não são completados, os personagens não expõe seus conflitos de forma dramática, e a estrutura da história estira-se num não roteiro de parca poesia cênica, dadas a abundância à mão e as facilidades do sensacionalismo.

Restam a quem assiste o gosto amargo de ver perder o Brasil este importante jogo contra sua própria formação, e a missão de assegurar, em si, o fogo original e a melhor estratégia, para a melhor vontade, e ventura e faculdades do Reino.

‘A cidade do futuro’ seduz, encanta com pouco

Da retomada para cá, resta isento de mistério a partição da produção comercial do cinema brasileiro em dois polos. Num, faz-se com muito, noutro, com pouco. Dois exemplos recentes seriam a franquia Tropa de elite, de um lado, e O Som ao redor, do outro. Outros seriam Cidade de Deus, de um lado, e Cinema, Aspirinas e Urubus, de outro.

Com mais dinheiro, explora-se as possibilidades absurdas do movimento e do tempo descontínuo, das plásticas inumanas e dos pontos de vista interessantes e incomuns, logrando não raro forte aderência do espectador sem necessariamente pauperizar texto e caracterização.

Com menos dinheiro, o esforço é outro, sem ser menor. Concentra-se na árdua tarefa de narrar no lugar hoje híper-dinâmico do audiovisual, quando o deslize mal administrado à lacunar contemplação pode ser multado com a desconexão. Conta com o pequeno da dramaturgia clássica e com as limitações da fotografia sensível, carente das sonháticas riquezas cênicas e da computação gráfica, mas podendo contar com os estranhos revelares do real.

Deste pequeno e destas limitações, transformados em qualidade via competência e originalidade, nascem os bons filmes feitos com pouco. Recém-lançado no circuito nacional, A cidade do futuro, vide boa carreira em festivais mas não só, é o caso.

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O filme conta de três jovens unidos em amizade a enfrentar facetas ora tradicionais, ora ignorantes, de um conservadorismo quase sufocante no interior da Bahia. O pano de fundo é a memória dos cidadãos removidos décadas atrás para a construção da barragem de Sobradinho, quando regia a expropriação e os abusos uma ditadura militar.

A professora de teatro é jeitosa e namoradeira. O professor de história é maternal e sereno. O que ainda não se achou é valente e obstinado. Juntos, divertem-se com pouco, ensinam os mais novos, enfrentam más vontades e inventam, do jeito deles, uma família nova, em triângulo.

Fazem um filho, habitam a mesma cama, sofrem na escola e na rua nem menos nem mais que qualquer jovem interessado em dar um passo de verdade vida adentro. Logram perseverar, e conter a alagação das vontades respectivas, pois que informadas elas são por delicadeza e inocência.

A direção equilibrada se arrisca, e tira dos atores, iniciantes no cinema, os resquícios de teatralidade, leitura e pose, expondo algo perto de suas auras, e nos encantam seus suspiros, vacilos, sorrisos. Pródigas atuações complementa trabalho de câmera discreto mas magnetizado à beleza descansada das coisas, à luz que houver no caso, e ao trato sutil das peles.

Há muitas maneiras de ver o Brasil, mas se só vemos o que conhecemos, há que concentrar em conhecê-lo, antes mesmo de assumi-lo ou de nele enfraldar-se. Se os livros têm muitas letras, se o turismo da pressa é avesso à experiência cognitiva, e se não há tempo para imersões alentadas nos rincões, resta no cinema, e tanto mais neste feito de gentes e lugares, boa alternativa para ganhar o contato do país.

Quando muito se especula sobre o que precisamos ou não precisamos, e a conversa esquenta, e o que vai a jogo se complica, chegar aos brasis dos criadores pode ser ótima tática para evitarmos perder discussões. No cinema, trabalho de muitos, a vantagem é maior. O cinema feito com pouco, por ter menos cenouras, deslumbres, distrações e subterfúgios, pode acabar revelando ao público trechos autênticos do Brasil, mais densos e firmes que o Brasil dos grupos de zap, novelas e jornais.

Carpe diem

Por tanto tempo julguei besteira adolescente a expressão ‘carpe diem’, aquilo que separava homens de meninos: debandar-se do privilégio da vida às palafitas vulneráveis do subterfúgio egoísta da diversão irresponsável, seja porque trapaceira, seja porque viciosamente cínica.

Até topar com Horácio, ou melhor, com a ode 11 do livro primeiro, em cujo arremate lemos:

carpe diem, quam minimum credula postero

O poema parece o conselho chato do poeta à irmã mais nova, sugerindo-lhe afastar-se da ganância antecipadora da cabala. Biográfica ou não, a peça carrega um tanto da ambiguidade dissuasória dos mestres. Tem cunho epistolar mas mais enfático é o empenho moralista.

Imagino se a amiga, outra pessoa a Horácio uma versão imatura de si, fantasiava progredir quando em verdade traía o ofício da poesia, aprendizado de sucessivas etapas, originais ou transfiguradas, mas não ao arrepio dos elos, estes em harmonia difícil com a bênção natural. Somos o que desejamos, mas cobra o clima por aquilo que poderíamos desejar.

A interlocutora horaciana recebe o acre bilhete do sinédrio mais antigo, mais atual, ontológico compromisso não contra o carnaval, mas contra o escapismo do falso testemunho e da retórica sem persuasão.

A ode perpassa impaciência, a dura de um bedel com mais o que fazer além de alertar a via equívoca do desprezo à comunidade, morada em que a liberdade se faz a desenho, e não a desdém.

Não será exagero atinar com o momento por que volta e meia se nos lembra a imprensa viver o país. Querer enricar, ganhar dinheiro, não é um erro absoluto. Mas desvirtuar-se para tanto cancelará a legitimidade da busca. Se não suspeitamos da justiça cósmica, a civil justiça é encarregada hoje de assegurar o bom nome das trocas, do comércio, da ferramenta monetária.

Num estudo sobre o helenismo estoico, corrente nutritiva a todo poeta em formação, A.A. Long diz:

Virtude e riqueza estão de acordo com a Natureza, mas de modos diferentes. A virtude concorda porque é a função especial ou objetivo do ser racional ser virtuoso (D.L. vii 94). Tal afirmação não é circunstancial. Aplica-se absoluta e inequivocamente a todos os humanos maduros. A riqueza concorda com a Natureza porque o ser racional está naturalmente predisposto a preferir a riqueza à pobreza se está ao seu alcance escolher uma delas. Riqueza é um estado objetivamente preferível à pobreza, mas a riqueza não é a função especial que distingue o ser racional. O valor da riqueza aparece em relação à pobreza, mas a riqueza não tem valor algum em relação à virtude. Moralmente, riqueza e pobreza são indiferentes.

Para os estoicos, o bom, o vantajoso, o útil, são marcas linguísticas usadas para separar virtude e vício. Para nós modernos, o bom, o vantajoso e o útil sofreram as relativizações da competição proprietária, confundindo a justa busca da estima com a configuração nem sempre escrupulosa dos intentos.

À dúvida reflexiva, à hesitação caridosa, e à humildade sapiente, subimos tampões onde grudamos os cartazes de um qualquer empoderamento. Mas este, no lugar de libertar, poderá podar gestos e atos e falas prematuramente, quando a vontade obtusa do ‘dar-se bem e mostrar’ sucumbe à indistinção da virtude, acusa preventivamente o remorso e o arrependimento de má consciência, a paciência de derrota ou vitimismo, e troca a maturação dos frutos pela ganância das marquinhas de performance.

Carpe diem, assim, não recomenda trocar esforço civil pela bestialidade fajuta que nos apartaria dos saberes, natural e social. Fruir no dia os frutos e as tramas plantadas e tecidas, enquanto tecemos e plantamos, desperta o ser ao trabalho desinteressado ou concentrado. Se a lição do amor é invisível demais para nos tocar, acreditemos pelas obras em si mesmas (parafraseando o evangelista João).

Colhe o dia, o mínimo antecipa.

Assim traduzi o arremate da ode. Se ora sua morada é mais aprender, coloque-se. Se mais é fazer, ajuste-se ao que cobra o clima, e assim coloque-se. Colher o dia é gozo e esforço unos, tributo à força e leite à sensibilidade. Talhe a imagem sua, enfeite a proa, e siga.

Em Memórias da casa da China e outras visitas, Manuel Afonso Costa escreve:

A leira paira
o vento por cima inclina
e o estrume irriga
a veia fértil
no seu gesto iam as sementes
e uma agonia
que a manhã vazava;
nessa corrente espessa
e viscosa
só as palavras eram raras

Em cada uma de suas produções,

meu jovem e brilhante professor, novos signaes vejo de qualidades, menos vulgares e mais uteis nas duas provincias do saber, a que as feições de sua condição intellectual o propendem: a historia e a philologia.

Para essas duas altas especialidades o talharam as prendas que lhe são nativas, de uma vocação benedictina: a paciencia investigativa, a pertinacia no estudo, a abstracção de interesses, o amor e senso de verdade, a intuição critica, o faro e adivinhação das fontes, dos veios de mina, dos thezoiros soterrados, ignotos ou esquecidos, a isenção de espirito, a franqueza da palavra, a coragem das realidades malvistas á rotina da sciencia de compilações e convenções.

* * *
Ruy Barbosa, em carta a um colega, fevereiro de 1921
* * *

sobre o sentido da vida

1 Coríntios 3 : 21

Não busque no do outro seu orgulho, é tudo nosso.

2 Coríntios 8 : 13

Não sofra se o outro se conforta, haja igualdade.

Parto destas expressões paulinas, por mim traduzidas em segunda mão, para entender melhor, via empenho poético, dois deveres fundamentais:

1) Renasço todos os dias da Jerusalém livre para, desde minha memória, colaborar a carne apurada na construção da Jerusalém cativa.

2) Trabalho na força dos corpos para cultivar e criar, na Jerusalém cativa, os sinais da Cidade de Deus, que as artes componham união na diversidade.

O tarô que oferta Santo Agostinho, dizendo haver profecias acima, de uma parte, e acima e abaixo juntas, de outra, conforta o cristão de ignorar o sentido da vida. Não havendo profecias reservadas exclusivamente abaixo (Jerusalém cativa), o tempo encarnado do Espírito, tempo salvo e crismado na Paixão, exime-se de confusão ontológica ou caos maligno: diz respeito ao aperfeiçoamento individual em voz e ofício, mas também à engenharia de uma adequação: que tudo seja nosso pois não há, em verdade, desigualdade.