Carpe diem

Por tanto tempo julguei besteira adolescente a expressão ‘carpe diem’, aquilo que separava homens de meninos: debandar-se do privilégio da vida às palafitas vulneráveis do subterfúgio egoísta da diversão irresponsável, seja porque trapaceira, seja porque viciosamente cínica.

Até topar com Horácio, ou melhor, com a ode 11 do livro primeiro, em cujo arremate lemos:

carpe diem, quam minimum credula postero

O poema parece o conselho chato do poeta à irmã mais nova, sugerindo-lhe afastar-se da ganância antecipadora da cabala. Biográfica ou não, a peça carrega um tanto da ambiguidade dissuasória dos mestres. Tem cunho epistolar mas mais enfático é o empenho moralista.

Imagino se a amiga, outra pessoa a Horácio uma versão imatura de si, fantasiava progredir quando em verdade traía o ofício da poesia, aprendizado de sucessivas etapas, originais ou transfiguradas, mas não ao arrepio dos elos, estes em harmonia difícil com a bênção natural. Somos o que desejamos, mas cobra o clima por aquilo que poderíamos desejar.

A interlocutora horaciana recebe o acre bilhete do sinédrio mais antigo, mais atual, ontológico compromisso não contra o carnaval, mas contra o escapismo do falso testemunho e da retórica sem persuasão.

A ode perpassa impaciência, a dura de um bedel com mais o que fazer além de alertar a via equívoca do desprezo à comunidade, morada em que a liberdade se faz a desenho, e não a desdém.

Não será exagero atinar com o momento por que volta e meia se nos lembra a imprensa viver o país. Querer enricar, ganhar dinheiro, não é um erro absoluto. Mas desvirtuar-se para tanto cancelará a legitimidade da busca. Se não suspeitamos da justiça cósmica, a civil justiça é encarregada hoje de assegurar o bom nome das trocas, do comércio, da ferramenta monetária.

Num estudo sobre o helenismo estoico, corrente nutritiva a todo poeta em formação, A.A. Long diz:

Virtude e riqueza estão de acordo com a Natureza, mas de modos diferentes. A virtude concorda porque é a função especial ou objetivo do ser racional ser virtuoso (D.L. vii 94). Tal afirmação não é circunstancial. Aplica-se absoluta e inequivocamente a todos os humanos maduros. A riqueza concorda com a Natureza porque o ser racional está naturalmente predisposto a preferir a riqueza à pobreza se está ao seu alcance escolher uma delas. Riqueza é um estado objetivamente preferível à pobreza, mas a riqueza não é a função especial que distingue o ser racional. O valor da riqueza aparece em relação à pobreza, mas a riqueza não tem valor algum em relação à virtude. Moralmente, riqueza e pobreza são indiferentes.

Para os estoicos, o bom, o vantajoso, o útil, são marcas linguísticas usadas para separar virtude e vício. Para nós modernos, o bom, o vantajoso e o útil sofreram as relativizações da competição proprietária, confundindo a justa busca da estima com a configuração nem sempre escrupulosa dos intentos.

À dúvida reflexiva, à hesitação caridosa, e à humildade sapiente, subimos tampões onde grudamos os cartazes de um qualquer empoderamento. Mas este, no lugar de libertar, poderá podar gestos e atos e falas prematuramente, quando a vontade obtusa do ‘dar-se bem e mostrar’ sucumbe à indistinção da virtude, acusa preventivamente o remorso e o arrependimento de má consciência, a paciência de derrota ou vitimismo, e troca a maturação dos frutos pela ganância das marquinhas de performance.

Carpe diem, assim, não recomenda trocar esforço civil pela bestialidade fajuta que nos apartaria dos saberes, natural e social. Fruir no dia os frutos e as tramas plantadas e tecidas, enquanto tecemos e plantamos, desperta o ser ao trabalho desinteressado ou concentrado. Se a lição do amor é invisível demais para nos tocar, acreditemos pelas obras em si mesmas (parafraseando o evangelista João).

Colhe o dia, o mínimo antecipa.

Assim traduzi o arremate da ode. Se ora sua morada é mais aprender, coloque-se. Se mais é fazer, ajuste-se ao que cobra o clima, e assim coloque-se. Colher o dia é gozo e esforço unos, tributo à força e leite à sensibilidade. Talhe a imagem sua, enfeite a proa, e siga.

Em Memórias da casa da China e outras visitas, Manuel Afonso Costa escreve:

A leira paira
o vento por cima inclina
e o estrume irriga
a veia fértil
no seu gesto iam as sementes
e uma agonia
que a manhã vazava;
nessa corrente espessa
e viscosa
só as palavras eram raras

Em cada uma de suas produções,

meu jovem e brilhante professor, novos signaes vejo de qualidades, menos vulgares e mais uteis nas duas provincias do saber, a que as feições de sua condição intellectual o propendem: a historia e a philologia.

Para essas duas altas especialidades o talharam as prendas que lhe são nativas, de uma vocação benedictina: a paciencia investigativa, a pertinacia no estudo, a abstracção de interesses, o amor e senso de verdade, a intuição critica, o faro e adivinhação das fontes, dos veios de mina, dos thezoiros soterrados, ignotos ou esquecidos, a isenção de espirito, a franqueza da palavra, a coragem das realidades malvistas á rotina da sciencia de compilações e convenções.

* * *
Ruy Barbosa, em carta a um colega, fevereiro de 1921
* * *

sobre o sentido da vida

1 Coríntios 3 : 21

Não busque no do outro seu orgulho, é tudo nosso.

2 Coríntios 8 : 13

Não sofra se o outro se conforta, haja igualdade.

Parto destas expressões paulinas, por mim traduzidas em segunda mão, para entender melhor, via empenho poético, dois deveres fundamentais:

1) Renasço todos os dias da Jerusalém livre para, desde minha memória, colaborar a carne apurada na construção da Jerusalém cativa.

2) Trabalho na força dos corpos para cultivar e criar, na Jerusalém cativa, os sinais da Cidade de Deus, que as artes componham união na diversidade.

O tarô que oferta Santo Agostinho, dizendo haver profecias acima, de uma parte, e acima e abaixo juntas, de outra, conforta o cristão de ignorar o sentido da vida. Não havendo profecias reservadas exclusivamente abaixo (Jerusalém cativa), o tempo encarnado do Espírito, tempo salvo e crismado na Paixão, exime-se de confusão ontológica ou caos maligno: diz respeito ao aperfeiçoamento individual em voz e ofício, mas também à engenharia de uma adequação: que tudo seja nosso pois não há, em verdade, desigualdade.

Anri Sala no IMS-SP

Se puder criticar a novidade digital por uma perversidade retardante, não de todo isenta de paradoxal conforto, assim o faria: cedo meu juízo ao império da referenciabilidade exógena desde que as facilidades advindas não me desanimem nem me afastem do eventual cavocar poético do entendimento. Abra-se alas para tanto!

Vamos formando craques gerações em obediência. No entanto, de um modo ainda pouco descrito e examinado, o exercício incerto da apreciação singular chega-nos não apenas ingrato, mas mesmo estigmatizado. Que sorte de vítima ou otário pretende, hoje, pensar por si, ou ao menos agregar insuspeito valor ao pensamento coletivo?

A tarefa, primordial para a publicação da voz própria que nos carimba a maioridade do estar, incrementa a inteligência universal, mas encontra-se hoje em vexaminosa estagnação, quando não baixo a perseguição tácita e aflita do custo de oportunidade, ou de um utilitarismo entre aspas, que anuncia um mundo de mais amplos e frequentes consensos sem dar, com a outra mão, o estímulo e o respeito aos antigos saberes e fazeres.

Resta a generosidade dos que se formaram pensando na realidade analógica e a resistência alcoviteira de alguns protégés dos establishments no meio de um regulado deus-nos-acuda a compensar o charme da disciplina em pleno acato com o desdém por qualquer coisa que tenha história.

O prejuízo é óbvio porque a inovação a valer é produto das tradições assumidas com integridade, incertezas junto. As vantagens, quando saímos dos previsíveis vaivéns diários, tornam-se exercício complicado de aceitação, malabarismo gregário de regeneração positiva num organismo em pacto agudo de anti-faustos.

A arte contemporânea, além do viver melhor o melhor possível e falar disso, tem, em sua vertente isolada e exibicionista que engendra o mercado de objetos exclusivos mas impacta o pensamento atual tanto ou menos que um bloco de titio-vovô, escusada sobrevivência entre nós não artistas nem marchantes. Ela perdura a duras e estrambólicas penas sob os pretextos nem sempre compráveis das ‘exposições das diferenças’, das ’exibições curiosamente plurais’, das ’coletivas de jovens do mundo’. Ocupam espaços consagrados ao público da cidade e são devidamente amaciadas pela tutela de ‘pedagogos’, a ponte-pano entre a idiossincrasia de um criador que poderia ser um pasteleiro mas não é, e nós, cuja fome por arte não é a fome por novos objetos (se nem meu Goya eu digeri), mas uma fome de pensar. E hoje, mais que nunca, fome de pensar num paralelo construtivo ao festival da referenciação exógena das prateleiras, que sinalizam o gostável sem reflexão em troca de obediência.

Seu produto nos parece estranho porque não compõe nenhuma das facetas práticas do lazer, este que compramos nas mídias, nos serviços e nas reuniões. É a diversão culpada de quem não quer parecer habitante da ralé ignara, das elites formadoras que não querem parecer simplórias, dos intelectuais que carecem de afirmar sua diferença amarga falando bem ou mal do que já não interessa a ninguém.

• •

Instalados no prédio do InstitutoMoreiraSalles até 25 de março estão oito trabalhos de Anri Sala (n. 1974), artista albanês presente nas bienais paulistanas de 2002 e 2010.

Dá uma aflição não ser apresentado a coisas que já estão acontecendo, sem título, sem sinalização, sem a indicação inequívoca da comédia ou da tragédia, sem a clareza sociodemográfica de um público alvo. Aquilo é para mim? Eu posso…? Como eu faço para saber se entendo aquilo, e assim, se gosto ou não gosto? Por que me dar ao trabalho de sofrer incertezas, ainda mais incertezas, justo hoje, quando tudo ficou claro como um raio, quando tudo enfim vem mastigado, explicado, em colaboração imediata com os aplicativos de orientação? O sentido do vale do silício não era esse? Um dia de domingo é uma imersão azeda na anomia do século 20? Consumo de diversão não é perda de tempo! É para ser um sorvete gostoso, um evidente sor-ve-te, e não um quasi sorvete, um meta-sorvete, um alter-sorvete, um pós-sorvete, mas um sorvete sorvete! (titio vovô !!), de preferência no sabor que eu sei que eu gosto? Por que, enfim, acreditar que, à exceção de turmas escolares involuntariamente presentes, alguém além de um infeliz solitário perdido no mundo sem amigos nem parentes importantes perderá tempo expondo-se, no horário de lazer, a algo sem título, sem evidente sinalização, começo meio e fim, nem bandeira de filiação? Aquilo, afinal, era coisa do Corinthians?

A aridez da montagem, a falta de coragem para admoestar o público com um mínimo de sensacionalismo, faz mais difícil o trabalho. O aventureiro que arrisca perder um trecho do dia ali e sair sem ter o que postar pode, no entanto, apegar-se à forma explorada por Sala em transparente eleição: a música. É da estética maravilhosa do som, feito por e para humanos via instrumentos variados, e de sua vitória sobre um mundo em Morte renovada, de que trata a exposição.

Se atentarmos, perceberemos muitos modos musicais por trás das situações estranhas a que somos submetidos. Vale perguntar: se queria expor que curte músicas, por que não fez um playlist e pôs no face? Por que todo esse trabalho?

Difícil responder com facilidade. Parte do interesse nessa sorte de evento é entrarmos num aguçado espírito de aventura e saírmos provocados a pensar. São muitas lojas, vitrines e sinais ao redor, mas frequentar o desconhecido faz o cérebro crescer forte. A arte é enigmática, propõe jogos de interpretação e pontos-de-vista, convida a cogitar e existir nas motivações do artista, nas vidas secretas dos objetos, bem como nas motivações institucionais e assim políticas que os acolheu e curou. Quais as mensagens possíveis, e por que elas importariam urgentemente hoje?

O desconforto situacional incomoda. Tudo na Avenida Paulista é tão claro. Ninguém atravessa fora da faixa sem pesar as consequências. E ali, nas duas galerias de um prédio novo, o que poderia ser fácil descrever e facilmente gostoso de frequentar, atordoa, constrange, falta, me faz prestar atenção nas roupas das pessoas.

O aventureiro tem como ferramenta multívoca a generosidade, abertura alerta, o fio dos sentidos desencapado, e a oportunidade de co-criar, alongar os objetos, tornar-se ele também o artista, fruindo da parte boa de uma aventura que começou na Albânia. Na minha exibição de Anri Sala, o momento presente simplesmente não existe. A prova do tiro no pé do albanês, doravante meu colega faltoso, é a de que a música, querida, é a gravação de um tempo sem pausa, a evidência maior da pura ausência do presente: tudo na música já foi, ou está vindo. Eu entendo, pensando um pouco mais, que o título é irônico.

A música quer dizer sem palavras, logar sem logos. É timbre do afeto do instrumentista depurado pela prática, documentado em vídeo, reexibido como a oferenda de um pensador. O pensador não quer texto, que julga destemperado, elitista, arrogante, cronológico, datado, sintoma dos sábios. Para Sala, colega humano de difícil sensibilidade, toda compreensão é duvidosa, e nada está isento do filtro contingencial da tradução variegada e corrompível. Você percebe apenas o que bate numa tabela referencial e volta liso? Quando um lado do telão ganha lúmens a mais na intensidade do volume do saxofone, o que Sala faz é pedir para usar o telefone e anunciar, eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer.

O que é grande em Anri Sala? Seu respeito pelo músico treinado, símbolo do operário em sua beatitude sindical e sofrimento existencial, e pela infinita variedade da música ou da expressão da vida. O sexteto em nada ansioso faz música conturbadamente angelical, os tambores fantasmais são signo de que algo invisível e mágico perpassa o artesão e a ferramenta, será o amor, o saxofonista em Berlim mostra como é arriscada a vida entregue à arte, e solitária, e longamente insuficiente, porque inconclusa e variabilíssima.

O casal de namorados não renuncia nem abraça o desprezo mútuo. Pede que atentemos aos ofícios do grego e do judeu (emprestando a São Paulo sua figuração do yin e yang), presente em todo ser. Há conciliação sugerida na silhueta unida, mas não de todo confirmada. O que restou, para mim, foram os dois semblantes, atenção obstinada no baterista, caridade dialogal na mulher.

O punk do The Clash não foi exatamente ridicularizado, mas a experiência propõe que melodia é inscrição mnemônica nos nervos da tribo; somos elos de lembranças; aquilo que do sol nos protege também há de encantar e unir.

Pensam, as mariposas, aonde ir, ou somente em transmitir cifradas, benevolentes mensagens desde o profícuo, fincado reino de-entre os dias?

Ao fim de uma serpente escura, num cubículo apartado, simulam-se aulas entre gerações, palavras simples em contraste repetidas em respeito ao duro frio do aprendizado resistente, às matizes do saber e à escuridão do não saber, fragilidade capaz de acusar a diferença insuportável e nos tornar ao pó de onde viemos.

Mania e má consciência dão os tons de ‘Trama fantasma’

Quando vai começando, em seu terceiro ato, a bifurcar a vereda central de seu enredo, a irmã governanta pergunta ao herói: devo mandá-la embora? O herói nega. A forma (interpretação e direção) é entretanto complexa o bastante para não esclarecer se ele hesita porque quer, ou hesita porque não quer.

Cada nova musa, entende a irmã, é despachada quando o herói, casado com a obra, pretende a companheira exaurida, embora bela e quase perfeita. Só não faça dela um fantasma, reclama a gestora. Ele silencia.

Imaginamos sucessivas, as mui afins modelos consortes do artista tombando, recusadas, contra tão solene e amarga muralha. Por que não param?

“Tanto a salvação quanto a punição do homem”, diz Tolstoi, “jaz no fato de que se ele viver no erro, pode iludir-se a fim de não ver a miséria de sua própria posição.”

Posição. Um passinho à direita? Um passinho para trás? Três dedos menos de barra? Situação, postura e navegação são os temas da fita velazquiana na forma e machadiana no conteúdo Trama fantasma, escrita, dirigida e co-fotografada por Paul Thomas Anderson (Punch Drunk Love).

Na tocante e deslumbrante peça de câmara, Daniel Day-Lewis (Sr. Woodcock) e Vicky Krieps (Alma) encenam a agrura do equilíbrio no espaço do cinema. O casal tombará, outra vez, em extrativismo e abandono? Ou para em pé e dá frutos?

Discreto nos gestos e ciclópico na psicologia, o drama remete aos pares românticos da literatura do XIX, e aos avós e à tradição da elegância difícil. Difícil porque costurada, nas fímbrias da nobreza e da decadência, à Arte e à fragilidade em estado de polida maioridade.

††

Quem lembra Tolstoi é José Luiz Passos em seu Romance com pessoas, fértil investigação, e de muitas faces, sobre a obra de Machado. O ganho de consciência do homem no erro do russo pode nunca vir, tornando sua “denegação ruinosa” colapso contundente, seja na ilusão do poder sobre o outro, seja na ilusão da submissão a alguém. Do objeto do romance do XIX para o XX, diz Passos que

parece ter sido a formação e a deformação da pessoa moral, que delibera, evoca, julga e acaba por compor, diante do leitor, um retrato complexo da relação que o sujeito mantém consigo e com a comunidade. Oferecer, pela linguagem, o rumo de uma experiência humana particular e cambiante, no momento mesmo em que ela acontece, é a contribuição mais fundamental deste gênero.

Alma e Woodcock, quando encontram-se, vivem a inércia de um encaixe fortuito. Vinham de sítios e em dinâmicas distintas mas suficientemente compatíveis para encetar dança passageira. À perda do torque, aponta e preocupa o desequilíbrio que martelará caso os corpos não despertem para a nova situação. Novas posturas e táticas de navegação haverão de seguir se o sentido for o fruto.

Na sintaxe fílmica, a graça e a destreza com que se dá tal ajuste é mérito de uma direção que tira do jogo de cena sugestivo e lacônico, da direção de arte de pintura acadêmica, e das atuações transparentes e livres de imperfeições, a boa e velha, mas sempre refrescante, fatura dos clássicos. Faz Anderson em Trama… cinema contido, discreto – mesmo tratando da pujante moda milionária – belo e de sagaz humor.

Perceber Machado de Assis num filme de 2017 que se passa na Inglaterra dos anos 1950 não deixa de ser curioso. Para isso também serve nossa exposição aos objetos de arte: ligá-los de modo insuspeito e aprender com surpresa sobre a vida no mundo. “Na literatura brasileira”, segue Passos,

a consciência moderna nasce quando o primeiro dos seus heróis [Brás Cubas] é incapaz de solucionar a dúvida sobre os motivos da conduta alheia. Se não prestarmos atenção a esse estratagema, perdemos de vista o veio mais sutil da nossa primeira modernidade literária. E para tentar responder à minha própria pergunta sobre como podemos, e às vezes devemos, tratar personagens de ficção como pessoas, proponho que voltemos a um tema que marca sua produção como romancista desde o início: a representação da consciência atribulada pela desconfiança, ou melhor, o herói ameaçado pela própria imaginação da malícia. Aqui se encontra a desunião da pessoa consigo.

O ponto alto da literatura de Anderson é incutir, indo além de Machado, a mania e a má consciência, em doses e expressões variadas, tanto no herói quanto em sua musa-coluna. Este herói, moderno porque concentrado num ofício, seguirá consertando o mundo conquanto seja consertado. Woodcock e Alma superam a desconfiança ao ficarem fiéis a suas substâncias essenciais ou vetores de contingência mas cederem, em impulsos aparentes porque maquinados de provocação e redenção, naquilo que os poderia desunir mas não desune: ele e ela amam, apesar de se usar pouco, nada menos que um leão.

Nota sobre o novo do del Toro

And hide not thy face from thy servant; for I am in trouble: hear me speedily.
(Salmo 69, 17, AKJV)

Perto do clímax da bela fita vencedora do Leão de Ouro (Veneza, 2017), The Shape of Water, o militar Strickland (Michael Shannon) vive uma anagnórisis: a súbita revelação de que o Homem Anfíbio (Doug Jones) é, na verdade, um Deus.

Cai o mundo de Strickland e ele nos dá a entender, olhos estupefatos diante do falso inimigo, que todo esse tempo defendera um mero simulacro, um castelo de areia, e não a verdade.

A verdade – a divindade, e assim a intocabilidade do Homem Anfíbio – quem a defende na narrativa do diretor de O Labirinto do Fauno (Hugo Award, 2007), Guillermo del Toro (n. 1964) é Elisa Esposito (Sally Hawkins), órfã, muda, solteira e faxineira de um laboratório secreto do governo Norte Americano.

O ano é 1962. Em plena Guerra Fria, Esposito desafia a segurança para resgatar o Homem Anfíbio, alvo de um experimento obscuro, e devolvê-lo às águas. O faz por amor, obstinada e ingênua, mas antes que o pior aconteça.

Não quer Esposito trair os EUA em proveito da União Soviética. O infantilismo geopolítico sequer habita a cabeça da simplória. No entendimento da funcionária, a humanidade do suposto monstro apenas supera a ambição exclusivista do experimento. Ou: aquilo que haveria de aprender a ciência com a destruição do Homem Anfíbio importa menos que sua graça em vida: lições de força e cura, sensibilidade e juízo.

Quem é Homem Anfíbio? Ou, nos termos sulcados no escudo do Arcanjo Miguel, QVIS VT DEVS? A referência religiosa não está lá. Mas não se trata de uma aproximação forçada. The Shape of Water atualiza o mito do herói que aniquila a besta interior e afirma: ninguém será mestre de um escravo outro. Quem é Deus? Eu, no fio da minha espada, contra o medo e a servidão.

Na cena do pôster estamos num instante após o clímax, bela e fera afundam, salvas, e Esposito perde um dos sapatos antes de aprender a respirar na novidade aquosa. Quem notou ali a alusão ao episódio dos argonautas acertou.

No início da famosa aventura grega, quando um barco aparece pela primeira vez na história da ficção literária, o comandante perde uma das sandálias para o mar antes de reunir a trupe e singrar as águas. Sua missão é recuperar o velocino dourado – alegoria da fé, ensinada por Esposito ao Homem Anfíbio quando leva a mão ao coração do monstro assustado.

fala e água: ao chocarem-se
em continentes de carência,
o conteúdo dita a forma.

diz o apropriado poema Carta aos anfíbios. Esposito e H.A., abraçados afundando, são a perfeita aliança da estrutura helicoidal dos cromossomos da jornada heroica do homem e da mulher no cosmo. Sem fala, a faxineira dá ao mundo o testemunho do alicerce volúvel mas de firme sentido quando escolhe rejeitar a crueldade desentranhada de razão.

The Shape reafirma a destreza original de del Toro para efeitos in camera, esforços formais teimosamente artesanais, à semelhança do colega contemporâneo Michel Gondry (n. 1963). Nos dois casos, faturas maestras excêntricas e atuais da arte, a teimosia perderia o porquê amparada não fosse por tão trabalhado argumento: a potência mercurial da mensagem, órgão pleno e certeiro da construção do mundo, perene através de ricas reinvenções do mito, prescreve o talhe do objeto, e sopra vida à imaginação.

Da inteligência

Brotaram flores
nos meus pés.
E o quotidiano
na minha vida
complicou-se.

– Hilda Hilst

Nunca foi tão difícil driblar a inteligência, mas o motivo é simples. Nos séculos passados da era moderna, quando experimentamos a convivência plural com mobilidade social, a face impessoal da inteligência era irreconhecível. Misturavam-se os conceitos de habilidade e inteligência, e o clichê era dar àquela o nome desta. Alguns seriam mais, outros menos inteligentes, donde a inevitável desigualdade rancorosa, e não raro deturpada, no mercado dos méritos.

Corre o tempo em que descobrimos, ainda sem coordenar dignamente potência e produção, a inteligência em trama dinâmica e crescente, universalmente acessível e absolutamente impessoal. Os efeitos da descoberta poderão ajudar-nos a relaxar as falsas tensões da competição, reforçando as autênticas, e dissolver os falsos dilemas do desejo, tornando mais duros, múltiplos e coesos os autênticos.

Entender e determinar por que lutar e como curtir a vida, sem precisar reinventar a crise romântica diariamente, tornará a realização política da convivência, bem como a autonomia espiritual da vida leve, tarefas mais abertas à novidade e menos entulhadas das manhas pré-fixadas que, outrora, invocávamos para dirimir os riscos e aumentar a previsibilidade dos empenhos. Mais equilibrados e menos temerosos, faremos mais com menos.

Está em nossas discussões e mentes não mais saber qual lado ocupar antes da luta, nem tampouco saber onde balizar, fora de si, as manobras da vontade. Antes, a tarefa seria saber manter e contrastar, atender e coligar as prioridades eventuais. Livres das supernarrativas que cuidavam, a depender das contingências do indivíduo, de restringir suas potências a certos modelos de submissão ou contravenção.

Na prática, vive-se individualmente num corpo que se quer produtivo e singular. Tal corpo pertence a algumas jurisdições variáveis mas comunga, ainda e de forma crucial, a língua e os códigos de convivência de um território dito nacional. Atentar a esta premissa, por difícil que seja num momento de globalização digital e tentações anarquizantes, seria a língua franca da ética da transição. Não por orgulho ou saudosismo, mas por facilitar os processos e liberar tempo de rinha para invenções frutificantes, ócio alegre e a infinita descoberta de si.

Na prática, portanto, almeja-se convergir a energia despendida no acesso à face impessoal da inteligência para dar cabo de tarefas necessárias consideradas impensáveis nos séculos passados: reformar uma constituição nacional em poucos meses, redesenhar completamente a atuação da governança pública, tornar os cidadãos proprietários efetivos das cidades, revolucionar o ensino no espaço de uma geração, para ficarmos nalguns exemplos óbvios.

Está em nossas discussões e mentes não mais contrapor ideias fundamentais sobre para onde ir, mas escolher a velocidade com que queremos ir.

QUAL SERÁ MEU FIM?

OFERTA

Se sua editora atua no mercado jovem ou do ensino médio, este autor informa ter bem encaminhado um livro de filosofia com o título Qual será meu fim? – O desejo e a cidade. Para obter mais informações, tratar em casa@tourobengala.com.

SINOPSE

Sem encostar na história da filosofia, nem tratar de teorias disso ou daquilo, mas citando o exemplo de homens inspiradores como Sócrates e Jesus Cristo, o opúsculo pretende apascentar as práticas do autoexame e da crítica social a partir de problemas atuais, levando em conta a novidade digital e a exaustão das grandes cidades.

As narrativas de Sócrates e Jesus como epítomes do homem político bastam para uma apreensão filosófica sólida. Formam, através de um alicerce ético descomplicado, o patamar da independência e da voz ativa singular. Daí, se busca e se cria, administrada a sismografia do constrangimento psicológico e da incompletude mal aceita, as novas, necessárias e importantes possibilidades de autodescrição e felicidade.

uma tradução: Wallace Stevens

Ave negra treze vezes


Nos tantos montes claros
Nada se movia
Só um olho da ave negra

••
Eram eu três almas
Como a árvore
Na qual três aves negras

•••
Ventava a ave negra era setembro
Era um trecho da pantomima

••••
São um, homem e mulher
Homem, mulher e ave negra
São um

•••••
Não sei o que prefiro
Se o belo dos desvios
Ou o belo das alegorias
Se da ave negra o canto
Ou seu descanso

••••••
Brincos de suor enchiam
A janela de um visco esquisito
Da ave negra a sombra
Cruzava, indo e vindo
Num traçado cujo humor
Nos escapava

•••••••
Ó magruço de Goiânia
Por que vês amarela
A ave negra ao pé
Da mulher que te rodeia?

••••••••
Sei bem dos nobres gestos
Dos lúcidos, chicletosos ritmos
Mas sei também que
Mete-se a ave negra
Em tudo o que sei

•••••••••
Ao voar para longe, a ave negra
Riscou a beirada
De um de muitos círculos

••••••••••
Era ver a ave negra
Voando na luz verde
Que a própria musa do tom
Desafinava

•••••••••••
Viajou Goiás afora
Num longo carro de vidro
Uma vez, pinçou-lhe um frio
Assim que confundiu
A sombra da bagagem
Com aves negras

••••••••••••
Corre o rio, corre o rio…
Só pode estar voando, a ave negra

•••••••••••••
Era tarde demais
Estava nevando e
Ainda ia nevar
Sentava a ave negra
No espinhaço do angelim

* * *

Thirteen Ways Of Looking At A Blackbird

I
Among twenty snowy mountains,
The only moving thing
Was the eye of the blackbird.

II
I was of three minds,
Like a tree
In which there are three blackbirds.

III
The blackbird whirled in the autumn winds.
It was a small part of the pantomime.

IV
A man and a woman
Are one.
A man and a woman and a blackbird
Are one.

V
I do not know which to prefer,
The beauty of inflections
Or the beauty of innuendoes,
The blackbird whistling
Or just after.

VI
Icicles filled the long window
With barbaric glass.
The shadow of the blackbird
Crossed it, to and fro.
The mood
Traced in the shadow
An indecipherable cause.

VII
O thin men of Haddam,
Why do you imagine golden birds?
Do you not see how the blackbird
Walks around the feet
Of the women about you?

VIII
I know noble accents
And lucid, inescapable rhythms;
But I know, too,
That the blackbird is involved
In what I know.

IX
When the blackbird flew out of sight,
It marked the edge
Of one of many circles.

X
At the sight of blackbirds
Flying in a green light,
Even the bawds of euphony
Would cry out sharply.

XI
He rode over Connecticut
In a glass coach.
Once, a fear pierced him,
In that he mistook
The shadow of his equipage
For blackbirds.

XII
The river is moving.
The blackbird must be flying.

XIII
It was evening all afternoon.
It was snowing
And it was going to snow.
The blackbird sat
In the cedar-limbs.

DESTAQUES DO ANO

DISCOS, DISCOS POR TODA PARTE

1

PRÉMIO ÂNCORA FORTONA \\ Violas caipiras, sanfona, flautins, batuques e rimas sertanejas, mais a voz densa e doce da Salmaso fazem deste o disco do ano em âmbito planetário. O repertório pode ser específico, de um tipo brasileiro estudado e representado, mas a temática é pra lá de famosa, tratando de beijos, saudade, sol, luar e bicharada.

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2

PRÉMIO RAIOSO \\ André e Antonio estarem entre os mais competentes instrumentistas do país não é novidade para ninguém. O que surpreende, aqui, é a narrativa. Contra spoilers, deixaremos o leitor ouvir a intrincada, em tudo planejada, rota cartográfica do álbum. Ao fim da audição, sentimos ter ouvido uma só, e longa e saborosa música em dueto.

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3

PRÉMIO TELEFONE ENCARNADO \\ A gente não se cansa desta inspirada trupe. E não é para menos. Os meninos e meninas que entoam sopros e guitarras como pouca gente faz no pop-rock obram um disco a um tempo coeso e repleto de singularidades. Difícil não dançar, difícil não cantar junto, difícil não dar risada e querer ouvir de novo, mais um pouquinho. Absolutamente uma das mais grandes bandas do mundo.

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LIVROS, LIVROS POR TODA PARTE

1

PRÉMIO CALOR HUMANO \\ Hilda é superior a Drummond e Bandeira, não sendo superior a João Cabral por questões meramente técnicas. Isso, no entanto, pouco se comenta. Pouco lida, pouco dada em sala de aula, e muito confundida em sua atitude reacionária (pornografia etc), é, do lado da recepção, uma pedra praticamente bruta. Ao trabalho, portanto. A reunião aqui é um mínimo, e o resto resta em nossa mão. Este poema, fácil de decorar, é uma aula de ética: “Ser terra / E cantar livremente / O que é finitude / E o que perdura. // Unir numa só fonte / O que souber ser vale / Sendo altura.”

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2

PRÉMIO CÓFIUM \\ Poucas vezes na literatura universal um futuro metade utópico, metade distópico, foi tão minuciosa e sensatamente imaginado (leia o primeiro capítulo). Num mundo drasticamente dividido entre os que têm muito e os que nada querem ter senão fazer, porque tudo não é senão nosso, a ética do conflito de classes é representada com atualíssima destreza, sendo a tecnologia e a virtude zen empenhadas com complexidade, num enredo tenso e original de cenários absurdos e afetos urgentemente verdadeiros, em prosa fluida e saborosa.

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3

PRÉMIO CENOURA DURA \\ Profilaxia de estilo e concentração artesanal induzem ao transe. Depois de algumas páginas, o leitor começa a crer um livro escrito inteiro numa só e mesma frase, repetida sem cessar até o sono. (Resenhei em setembro.) Não se engane. O neobarroco é o alto mar numa cumbuca. Em que pesem descalabro e abandono.

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FRNKNSTN: update

Leitores perguntam quais concertos para violino do repertório romântico eu recomendaria, já que passei horas ouvindo-os enquanto fazia Frankenstein Revisitado.

Não tenho favoritos absolutos, e se algo aprendi ouvindo música é que, tirando as obras primas, ou mesmo elas, as outras nos tocarão variadamente a depender do humor da ocasião.

Rememorando os dias dedicados a este trabalho, porém, elencaria as seguintes peças mais marcantes, todas concertos para violino compostas no século XIX:

• Opus 61 de Beethoven
• Opus 64 de Mendelssohn
• Opus 53 de Dvorák
• Opus 35 de Tchaikovsky
• Concertos 1 a 6 de Paganini
• Opus 26 de Bruch
• Opus 47 de Sibelius
• Opus 77 de Brahms

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Aproveito a postagem para dividir questões, a partir da contagem de palavras do romance de Mary Shelley.

Em Frankenstein, a autora usa o termo ‘mind’ (mente) 98 vezes; ‘head’ (cabeça) 26 vezes; ‘brain’ (cérebro), uma vez.

Ao consultar o corpus textual da ficção em inglês no nGram, a relação entre mente/cabeça de Frankenstein respeita a relação indicada na varredura do software quando da publicação, em 1818. Passados 200 anos, no entanto, a relação se inverteu. Por quê?

Suspeito a explicação na aderência do discurso da prosa ficcional aos achados das investigações científicas. Neste tempo, a Ciência desprezou ‘mente’ para favorecer os mais materialmente corretos termos ‘cabeça’ e ‘cérebro’.

Note-se, entretanto, na virada da revolução digital, inflexão negativa em ‘cabeça’, e positiva em ‘mente’, mantendo-se ‘cérebro’ em lenta mas positiva evolução. As viravoltas podem ser apenas soluço, mas podem não ser, o que acusaria reversão da tendência observada nos dois séculos passados.

Intrigante, o fenômeno atualizaria nosso momento à luz do momento de Mary Shelley.

Ora, se for este o caso, resta perguntar: o que explicaria, hoje, tal guinada a repriorização de ‘mente’?

FRNKNSTN

FRANKENSTEIN REVISITADO

–– um poema colagem do romance de Mary Shelley ––

Só há pouco fui ler Frankenstein, um dos marcos fundadores da ficção científica. Encantado com passagens do lirismo depurado da Sra. Shelley, passei a recortá-las (de um original barato), como quem colecionasse versos soltos, achados nos rios, chuvas e ventos.

Fui guardando as linhas na ordem da leitura.

Terminado o livro, fiz da prosa picotada um poema colagem. Ficou assim:

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Em seguida, e sempre a ouvir concertos para violino do repertório sinfônico romântico, dediquei-me à traduzir o poema recém-montado. A nova criatura ora se publica na plaqueta Frankenstein revisitado – poema colagem do romance de Mary Shelley.

Leitores queridos receberão a plaqueta em casa.

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tese

Sendo verdade apenas quatro Novelas existirem, apesar de tantas escritas, resta entabular suas propriedades, à guisa de verificação genética.

1400

Nasce a Novela. Decameron (Bocaccio) é uma imagem do mundo composta por imagens sistemicamente entrelaçadas, emoldurada e socialmente sã, nem final, nem exclusiva.

1600

Se Decameron é o Moderno em Novela, Quixote (Cervantes) inventa a comicidade do pós-modernismo. Daqui em diante, o metadiscurso não se apartará da obra. O lugar cativo da inovação, sem que se percam fábula e exemplum, será o lugar narrativo.

1800

Frankenstein (Sra. Shelley) é escrito com Quixote à direita e A Peregrinação de Childe Harold à esquerda. Sobre as colunas da tradição e da intimidade, sopra o vento irônico da fala cientificista.

2000

Viva e macerada, a demanda do cálice é absorvida pelo Homem Literato. Um poema sem palavras num deserto de sons. Eis Detetives Selvagens (Bolaño), a quarta Novela não apenas escrita, mas jamais existente.

* oportunidade *

A Touro Bengala contrata revisor(a) de texto para um projeto editorial um tanto monstruoso e desafiador. O livro, primeiro título de uma tetralogia de Guilherme Coube, editor-chefe da casa, é um Longo Ensaio Imaginativo com o tema da Formação, ou do amadurecimento exemplar, e mistura diversos gêneros literários conhecidos e outros nem tanto, além de mudar amiúde de tom, de estilo, de lugar de fala e de contexto sociolinguístico. Tais premissas pedem um trabalho de revisão não mecânico e com certo rebolado.

Envie seu currículo para nosso e-mail.

Obrigado!

Este problema, em sua aurora esboçativa, nasceu enquanto caminhava numa noitinha. Sentado na primeira mureta que vi, rabisquei seus prenúncios: tanto Conceito quanto Percepção, aqui concepto e percepto, são tríades cognitivas que interpolam um sujeito mais ou menos conhecedor e um objeto mais ou menos conhecido. Entre os dois pólos, no entanto, diferem radicalmente as terceiras presenças. Para o concepto, há, entre sujeito e objeto, uma interface. Para o percepto, um intercâmbio. Fechada a caderneta, zanzei por uns barzinhos, virei dois conhaques, tomei uma tônica e voltei. Desenvolvi um bocado a ideia no quadro, fotografei, e segui com minha vida. Hoje volto porque há um problema novo no quadro, e seu eu deixasse passar muito tempo, as coisas embolariam. Notar: havia resíduos de notas passadas. Na empolgação da epifania, não apaguei tudo. O que não estiver explicitamente relacionado ao problema, peço não levar em conta.

No quadro, sobreveio a ênfase do viés não cru, mas político, do problema. Ora, se o concepto, esta habilidade que carece de acesso referencial a uma interface (corpo exógeno construído, mais ou menos dinâmico, perecível, atualizável) foi inflado nos últimos, digamos, 300 anos, assim ocorreu em contraponto a certa deflação do percepto, para não dizer a certa estigmatização. Donde ‘conhecer’ por meio de intercâmbio (dois corpos em troca sensorial ativa, sendo a terceira presença não um corpo exógeno, mas um julgo harmônico) ter sofrido paulatina dilapidação ante a cognição em interface. A pergunta que segue é dupla: há perda agregada com o desequilíbrio de valor entre concepto e percepto? (lembrando que mesmo um concepto ligeiríssimo quase imediato não deixa de ser um concepto); se sim, que fazer para reequilibrá-los?

De modo a aprofundar-me, mas num tatear neblinoso, recontei as sagas díspares de concepto e percepto lançando mão dos modos de existência latourianos, por um lado, e matematizei, sofregamente, a Área Eventual da Presença, medida de influência e disponibilidade navegacional do sujeito cognoscitivo, fórmula em que pesam os quoeficientes derivados de concepto e percepto, do outro. Nenhum destes dois exercícios de desdobramento me levaram muito longe, ainda, mas pude suspeitar: quando ORG valeu-se de REL e de REF, não seria estranho (para ela) valer-se de FIC, e FIC seria o modo onde preponderasse o percepto; e, fará sentido convocar o décimo-sexto modo (conforme sugiro em meu longo ensaio, ainda inédito), MEM, para determinar o quoeficiente de intercâmbio, ou sua humorada potência perceptora, do sujeito cognoscitivo?

[em relação aos modos latourianos, ver]
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querido diário

Fica no 33 da antiga Rua São José a redação e a oficina do ‘Farol Paulistano’, primeiro jornal de São Paulo impresso em tipografia. Sai aos 7 de fevereiro de 1827. Antes, aos 22 de setembro de 1823, nascia ‘O Paulista’, manuscrito, redigido por Mestrinho, Antônio Marques, paulistano professor desde os quinze anos. Mestrinho é mais velho Juiz de paz, vereador, deputado provincial e vice-presidente da província. Aos 8 de janeiro de 1823, portaria do Ministro da Fazenda pede que se envie, em nome do Imperador, um prelo antigo da Imprensa Nacional até São Paulo, decisão revogada ante o bafafá da Constituinte. O ‘Farol’ circula até 1833, sendo acusado de abuso em 1829 (sem procedência). Sai, em 31x21cm, duas vezes por semana até 1829, e então três. No editorial de lançamento do farol, outro mestre, José da Costa Carvalho, Chefe dos Ministros do Império quando da promulgação da Lei 581 de 1850 que extingue a importação de escravos e Marquês de Monte Alegre em 1854, chama, em primeira do plural, “tão árdua quanto perigosa” a tarefa nossa da imprensa. Em 1988, sem interesse por diversas atividades, uni-me a outras três crianças e redigimos ‘O Paiolino’, jornal daquela temporada do acampamento montanhês Paiol Grande, para o qual realizei uma reportagem sobre a humilhação de quem deixava, no refeitório, a bandeja cair. Também desenhei um logotipo recusado pelos colegas e liderei o encadernamento e a grampeagem. Conforme vivemos, os jornais estão em servidores vários na internet, e replicamos suas páginas em nossos aparelhos. A redação está difusa: centenas de milhões de jornalistas publicam informação, análise, comentário, arte visual e humor várias vezes ao dia, e são diversos os métodos e ferramentas de que dispõe o leitor para organizar e regular, no tempo, seu consumo. Cada um lê um jornal, que pode sempre mudar, mas pode sempre melhorar. Lemos o que queremos, e lemos o que outros leem. Hoje mais cedo, participando de um seminário sobre ‘fake news’, percebi a ideia ainda pequenina mas, intuo, potente, de que vivemos a necessidade de pensar a descrença e a normalização do cinismo trabalhando junto à, e não duvidando da, inteligência artificial, enxugando e lapidando seus termos fortes (no que ligam e fazem perdurar os objetos caros) e neles insistindo em viva discussão.

uma resenha de resenha

Publicada na revista Quatro cinco um de maio, ‘O’Hara é o cara’, de Sérgio Alcides, merece nossa atenção por conseguir, na meia página em que resenha Frank O’Hara. Meu coração está no bolso, apresentar o autor em suas facetas histórica e artística, relacionar a obra com a sensibilidade do tempo e o autor com produtores contemporâneos em diálogo explícito ou implícito. A “figura” de O’Hara, capaz de ser percebida na “amostra pequena, mas primorosa” da coletânea poética editada pela Luna Parque, tem, para o resenhista, produção “ágil como um ciclista, terna como um bate-papo na hora do almoço, muito urbana e altiva (…) que vai a pé até os grandes temas, como o amor, o desejo e o luto.” Alcides tece com transparência um breve curso biográfico de O’Hara que dá a segura sensação de reconhecimento familiar, e exalta a jornada autônoma do poeta num modernismo que condenaria tanto o isolamento desinformado quanto a filiação obtusa, citando uma observação de John Ashbery, outro epítome da geração da Escola de Nova York dos anos 1950: “Para Ashbery, O’Hara era a síntese daquele momento, por ser ‘muito descolado para os quadrados e muito quadrado para os descolados.'” O poeta nascido em Baltimore em 1926 seria proprietário de referências não necessariamente canônicas, sem entretanto deixar de incorporar o lingo atual e espontâneo “da gíria e dos temas ‘baixos’ de uma cultura industrial”. Para o professor de Letras da UFMG e doutor em História pela USP, O’Hara é “whitmaniano e torrencial”, acena tanto a Rimbaud quanto a Mallarmé, ecoa Pollock na multiplicidade sem amarras do fazer num plano quase infinito, e pode ser lido como “parente próximo de Ana Cristina Cesar ou Francisco Alvim.” ‘O’Hara é o cara’ é uma resenha a um tempo leve e rigorosa, detalhada e acessível, que deixa patente no leitor a vontade de ler mais.

 

um trecho de lima barreto

Toda a gente que lidou com qualquer espécie de administração, se não nos altos pastos, mas simplesmente em lugares convenientes de altas situações, sabe bem que pendor extraordinário para essa sabença de regulamentos têm os homens medíocres e as mulheres.

A primeira coisa que faz um amanuense de vocação é aprender todas as disposições do regulamento de sua secretaria, das demais repartições, não só os regulamentos, mas também os avisos explicativos e outros atos referentes.

A sua inteligência, sentindo-se por si mesma fraca, não quer ser de surpresa colhida no estudo ou na informação de um caso que, de antemão, não tenha para resolvê-lo três linhazinhas impressas, promulgadas, publicadas, adotadas pelas autoridades competentes.

Não se fia a sua inteligência nela mesma; quer o apoio de outras que, valendo tanto ou menos que a dele, têm entretanto o prestígio sobre-humano do Estado.

É dessa natureza intelectual que me parece ser o famoso general Lundendorff.

É ler-lhe um trecho ao acaso de suas Reminiscências, para se sentir logo o burocrata guerreiro, exato, meticuloso, sabendo bem todos os regulamentos, o de ligação, o de retaguarda, o de vanguarda, não esquecendo sequer nenhuma das abreviaturas consagradas e estabelecidas. Vejam só este pedacinho, como denuncia bem essa singular mentalidade de guerreiro moderno, metade amanuense, metade chefe de horda bárbara do século V da nossa era. Ei-lo:

A ordem de batalha era a seguinte: XI C.E., imediatamente ao nordeste de Cracóvia; Corpo de Reserva da Guarda, X C.E., XVII C.E., 35 D.R., entre Kaptowitz e Kareuzburg; 8º D. Ca., D. Lwd. Conde von Bredow, entre Kempem Kalisch.

O engraçado é que, com toda essa meticulosidade burocrática, procurando tudo prover e prever, empregando automóvel, aeroplano, telefone e telégrafo, as suas batalhas, se não começam por uma grande confusão, um entrevero, como dizem os nossos vizinhos, acabam nisso.

A tal famosa vitória dos lagos masurianos, no dizer dele mesmo, terminou numa baralhada com batalhões e magotes de alemães. Se houvesse mesmo ódio entre uns e outros, se a guerra não fosse uma coisa político-capitalista, a coisa tinha desandado em um tumulto de rua, em uma bagarre a que deviam atender, para restabelecer a ordem, simples agentes de polícia e guardas-civis armados de São Benedito.

Está aí em que dá a famosa preparação para a guerra que os doutores militares tanto preconizam e nós estamos fazendo com os indispensáveis discursos e chás dançantes.

[…]

Em todo o caso, o exemplo de Joffre é elucidativo de que, tanto cá como lá, o que imperou foi o acaso, a serviço da mediocridade; a vitória coube às forças obscuras da sociedade e da natureza que, desencadeadas, nenhum homem soube captar em seu próprio proveito ou dos homens de sua e das futuras gerações. Todos tateiam nas trevas e apalpam os regulamentos com medo de se perderem neles.

Houve um único que se lançou ousadamente pelo “Mar Tenebroso” em fora; e este foi Lênine. É este o grande homem do tempo, que preside, com toda a audácia, uma grande transformação social da época, enquanto Joffre, o êmulo de Alexandre, César e Napoleão, vai presidir partidas de futebol…

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Excerto de ‘Memórias da Guerra’, de 17/4/1920, reunida no volume Lima Barreto – A crônica militante, Expressão Popular, 2016

General Ludendorff e Papa Joffre

mentolado&remelento

Querido roteiro,

nossa vida é um tecido, comungado com a idade da Terra. Nossa escolha não tem pressa, pois é carro da vontade justa. Não é ilusão que a solicitude está entre o grátis e o barato, mas também não é ilusão que o ‘caro’ indica o bem quisto, o graças a nós ficante. A revolta pode ser justa e alegre, como pode ser um baque de derrota a ver navios de expulsão, exclusão, extinção. Entre a revolução e a reforma, conspira e aflige a Alma Mãe (a casa grande que nos guarda é ela, mas nem viagens para Marte são capazes de ser o que não são) o típico trepidar do fraco.