DESTAQUES DO ANO

DISCOS, DISCOS POR TODA PARTE

1

PRÉMIO ÂNCORA FORTONA \\ Violas caipiras, sanfona, flautins, batuques e rimas sertanejas, mais a voz densa e doce da Salmaso fazem deste o disco do ano em âmbito planetário. O repertório pode ser específico, de um tipo brasileiro estudado e representado, mas a temática é pra lá de famosa, tratando de beijos, saudade, sol, luar e bicharada.

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2

PRÉMIO RAIOSO \\ André e Antonio estarem entre os mais competentes instrumentistas do país não é novidade para ninguém. O que surpreende, aqui, é a narrativa. Contra spoilers, deixaremos o leitor ouvir a intrincada, em tudo planejada, rota cartográfica do álbum. Ao fim da audição, sentimos ter ouvido uma só, e longa e saborosa música em dueto.

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3

PRÉMIO TELEFONE ENCARNADO \\ A gente não se cansa desta inspirada trupe. E não é para menos. Os meninos e meninas que entoam sopros e guitarras como pouca gente faz no pop-rock obram um disco a um tempo coeso e repleto de singularidades. Difícil não dançar, difícil não cantar junto, difícil não dar risada e querer ouvir de novo, mais um pouquinho. Absolutamente uma das mais grandes bandas do mundo.

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LIVROS, LIVROS POR TODA PARTE

1

PRÉMIO CALOR HUMANO \\ Hilda é superior a Drummond e Bandeira, não sendo superior a João Cabral por questões meramente técnicas. Isso, no entanto, pouco se comenta. Pouco lida, pouco dada em sala de aula, e muito confundida em sua atitude reacionária (pornografia etc), é, do lado da recepção, uma pedra praticamente bruta. Ao trabalho, portanto. A reunião aqui é um mínimo, e o resto resta em nossa mão. Este poema, fácil de decorar, é uma aula de ética: “Ser terra / E cantar livremente / O que é finitude / E o que perdura. // Unir numa só fonte / O que souber ser vale / Sendo altura.”

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2

PRÉMIO CÓFIUM \\ Poucas vezes na literatura universal um futuro metade utópico, metade distópico, foi tão minuciosa e sensatamente imaginado (leia o primeiro capítulo). Num mundo drasticamente dividido entre os que têm muito e os que nada querem ter senão fazer, porque tudo não é senão nosso, a ética do conflito de classes é representada com atualíssima destreza, sendo a tecnologia e a virtude zen empenhadas com complexidade, num enredo tenso e original de cenários absurdos e afetos urgentemente verdadeiros, em prosa fluida e saborosa.

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3

PRÉMIO CENOURA DURA \\ Profilaxia de estilo e concentração artesanal induzem ao transe. Depois de algumas páginas, o leitor começa a crer um livro escrito inteiro numa só e mesma frase, repetida sem cessar até o sono. (Resenhei em setembro.) Não se engane. O neobarroco é o alto mar numa cumbuca. Em que pesem descalabro e abandono.

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FRNKNSTN: update

Leitores perguntam quais concertos para violino do repertório romântico eu recomendaria, já que passei horas ouvindo-os enquanto fazia Frankenstein Revisitado.

Não tenho favoritos absolutos, e se algo aprendi ouvindo música é que, tirando as obras primas, ou mesmo elas, as outras nos tocarão variadamente a depender do humor da ocasião.

Rememorando os dias dedicados a este trabalho, porém, elencaria as seguintes peças mais marcantes, todas concertos para violino compostas no século XIX:

• Opus 61 de Beethoven
• Opus 64 de Mendelssohn
• Opus 53 de Dvorák
• Opus 35 de Tchaikovsky
• Concertos 1 a 6 de Paganini
• Opus 26 de Bruch
• Opus 47 de Sibelius
• Opus 77 de Brahms

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Aproveito a postagem para dividir questões, a partir da contagem de palavras do romance de Mary Shelley.

Em Frankenstein, a autora usa o termo ‘mind’ (mente) 98 vezes; ‘head’ (cabeça) 26 vezes; ‘brain’ (cérebro), uma vez.

Ao consultar o corpus textual da ficção em inglês no nGram, a relação entre mente/cabeça de Frankenstein respeita a relação indicada na varredura do software quando da publicação, em 1818. Passados 200 anos, no entanto, a relação se inverteu. Por quê?

Suspeito a explicação na aderência do discurso da prosa ficcional aos achados das investigações científicas. Neste tempo, a Ciência desprezou ‘mente’ para favorecer os mais materialmente corretos termos ‘cabeça’ e ‘cérebro’.

Note-se, entretanto, na virada da revolução digital, inflexão negativa em ‘cabeça’, e positiva em ‘mente’, mantendo-se ‘cérebro’ em lenta mas positiva evolução. As viravoltas podem ser apenas soluço, mas podem não ser, o que acusaria reversão da tendência observada nos dois séculos passados.

Intrigante, o fenômeno atualizaria nosso momento à luz do momento de Mary Shelley.

Ora, se for este o caso, resta perguntar: o que explicaria, hoje, tal guinada a repriorização de ‘mente’?

FRNKNSTN

FRANKENSTEIN REVISITADO

–– um poema colagem do romance de Mary Shelley ––

Só há pouco fui ler Frankenstein, um dos marcos fundadores da ficção científica. Encantado com passagens do lirismo depurado da Sra. Shelley, passei a recortá-las (de um original barato), como quem colecionasse versos soltos, achados nos rios, chuvas e ventos.

Fui guardando as linhas na ordem da leitura.

Terminado o livro, fiz da prosa picotada um poema colagem. Ficou assim:

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Em seguida, e sempre a ouvir concertos para violino do repertório sinfônico romântico, dediquei-me à traduzir o poema recém-montado. A nova criatura ora se publica na plaqueta Frankenstein revisitado – poema colagem do romance de Mary Shelley.

Leitores queridos receberão a plaqueta em casa.

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tese

Sendo verdade apenas quatro Novelas existirem, apesar de tantas escritas, resta entabular suas propriedades, à guisa de verificação genética.

1400

Nasce a Novela. Decameron (Bocaccio) é uma imagem do mundo composta por imagens sistemicamente entrelaçadas, emoldurada e socialmente sã, nem final, nem exclusiva.

1600

Se Decameron é o Moderno em Novela, Quixote (Cervantes) inventa a comicidade do pós-modernismo. Daqui em diante, o metadiscurso não se apartará da obra. O lugar cativo da inovação, sem que se percam fábula e exemplum, será o lugar narrativo.

1800

Frankenstein (Sra. Shelley) é escrito com Quixote à direita e A Peregrinação de Childe Harold à esquerda. Sobre as colunas da tradição e da intimidade, sopra o vento irônico da fala cientificista.

2000

Viva e macerada, a demanda do cálice é absorvida pelo Homem Literato. Um poema sem palavras num deserto de sons. Eis Detetives Selvagens (Bolaño), a quarta Novela não apenas escrita, mas jamais existente.

* oportunidade *

A Touro Bengala contrata revisor(a) de texto para um projeto editorial um tanto monstruoso e desafiador. O livro, primeiro título de uma tetralogia de Guilherme Coube, editor-chefe da casa, é um Longo Ensaio Imaginativo com o tema da Formação, ou do amadurecimento exemplar, e mistura diversos gêneros literários conhecidos e outros nem tanto, além de mudar amiúde de tom, de estilo, de lugar de fala e de contexto sociolinguístico. Tais premissas pedem um trabalho de revisão não mecânico e com certo rebolado.

Envie seu currículo para nosso e-mail.

Obrigado!

Este problema, em sua aurora esboçativa, nasceu enquanto caminhava numa noitinha. Sentado na primeira mureta que vi, rabisquei seus prenúncios: tanto Conceito quanto Percepção, aqui concepto e percepto, são tríades cognitivas que interpolam um sujeito mais ou menos conhecedor e um objeto mais ou menos conhecido. Entre os dois pólos, no entanto, diferem radicalmente as terceiras presenças. Para o concepto, há, entre sujeito e objeto, uma interface. Para o percepto, um intercâmbio. Fechada a caderneta, zanzei por uns barzinhos, virei dois conhaques, tomei uma tônica e voltei. Desenvolvi um bocado a ideia no quadro, fotografei, e segui com minha vida. Hoje volto porque há um problema novo no quadro, e seu eu deixasse passar muito tempo, as coisas embolariam. Notar: havia resíduos de notas passadas. Na empolgação da epifania, não apaguei tudo. O que não estiver explicitamente relacionado ao problema, peço não levar em conta.

No quadro, sobreveio a ênfase do viés não cru, mas político, do problema. Ora, se o concepto, esta habilidade que carece de acesso referencial a uma interface (corpo exógeno construído, mais ou menos dinâmico, perecível, atualizável) foi inflado nos últimos, digamos, 300 anos, assim ocorreu em contraponto a certa deflação do percepto, para não dizer a certa estigmatização. Donde ‘conhecer’ por meio de intercâmbio (dois corpos em troca sensorial ativa, sendo a terceira presença não um corpo exógeno, mas um julgo harmônico) ter sofrido paulatina dilapidação ante a cognição em interface. A pergunta que segue é dupla: há perda agregada com o desequilíbrio de valor entre concepto e percepto? (lembrando que mesmo um concepto ligeiríssimo quase imediato não deixa de ser um concepto); se sim, que fazer para reequilibrá-los?

De modo a aprofundar-me, mas num tatear neblinoso, recontei as sagas díspares de concepto e percepto lançando mão dos modos de existência latourianos, por um lado, e matematizei, sofregamente, a Área Eventual da Presença, medida de influência e disponibilidade navegacional do sujeito cognoscitivo, fórmula em que pesam os quoeficientes derivados de concepto e percepto, do outro. Nenhum destes dois exercícios de desdobramento me levaram muito longe, ainda, mas pude suspeitar: quando ORG valeu-se de REL e de REF, não seria estranho (para ela) valer-se de FIC, e FIC seria o modo onde preponderasse o percepto; e, fará sentido convocar o décimo-sexto modo (conforme sugiro em meu longo ensaio, ainda inédito), MEM, para determinar o quoeficiente de intercâmbio, ou sua humorada potência perceptora, do sujeito cognoscitivo?

[em relação aos modos latourianos, ver]
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querido diário

Fica no 33 da antiga Rua São José a redação e a oficina do ‘Farol Paulistano’, primeiro jornal de São Paulo impresso em tipografia. Sai aos 7 de fevereiro de 1827. Antes, aos 22 de setembro de 1823, nascia ‘O Paulista’, manuscrito, redigido por Mestrinho, Antônio Marques, paulistano professor desde os quinze anos. Mestrinho é mais velho Juiz de paz, vereador, deputado provincial e vice-presidente da província. Aos 8 de janeiro de 1823, portaria do Ministro da Fazenda pede que se envie, em nome do Imperador, um prelo antigo da Imprensa Nacional até São Paulo, decisão revogada ante o bafafá da Constituinte. O ‘Farol’ circula até 1833, sendo acusado de abuso em 1829 (sem procedência). Sai, em 31x21cm, duas vezes por semana até 1829, e então três. No editorial de lançamento do farol, outro mestre, José da Costa Carvalho, Chefe dos Ministros do Império quando da promulgação da Lei 581 de 1850 que extingue a importação de escravos e Marquês de Monte Alegre em 1854, chama, em primeira do plural, “tão árdua quanto perigosa” a tarefa nossa da imprensa. Em 1988, sem interesse por diversas atividades, uni-me a outras três crianças e redigimos ‘O Paiolino’, jornal daquela temporada do acampamento montanhês Paiol Grande, para o qual realizei uma reportagem sobre a humilhação de quem deixava, no refeitório, a bandeja cair. Também desenhei um logotipo recusado pelos colegas e liderei o encadernamento e a grampeagem. Conforme vivemos, os jornais estão em servidores vários na internet, e replicamos suas páginas em nossos aparelhos. A redação está difusa: centenas de milhões de jornalistas publicam informação, análise, comentário, arte visual e humor várias vezes ao dia, e são diversos os métodos e ferramentas de que dispõe o leitor para organizar e regular, no tempo, seu consumo. Cada um lê um jornal, que pode sempre mudar, mas pode sempre melhorar. Lemos o que queremos, e lemos o que outros leem. Hoje mais cedo, participando de um seminário sobre ‘fake news’, percebi a ideia ainda pequenina mas, intuo, potente, de que vivemos a necessidade de pensar a descrença e a normalização do cinismo trabalhando junto à, e não duvidando da, inteligência artificial, enxugando e lapidando seus termos fortes (no que ligam e fazem perdurar os objetos caros) e neles insistindo em viva discussão.

uma resenha de resenha

Publicada na revista Quatro cinco um de maio, ‘O’Hara é o cara’, de Sérgio Alcides, merece nossa atenção por conseguir, na meia página em que resenha Frank O’Hara. Meu coração está no bolso, apresentar o autor em suas facetas histórica e artística, relacionar a obra com a sensibilidade do tempo e o autor com produtores contemporâneos em diálogo explícito ou implícito. A “figura” de O’Hara, capaz de ser percebida na “amostra pequena, mas primorosa” da coletânea poética editada pela Luna Parque, tem, para o resenhista, produção “ágil como um ciclista, terna como um bate-papo na hora do almoço, muito urbana e altiva (…) que vai a pé até os grandes temas, como o amor, o desejo e o luto.” Alcides tece com transparência um breve curso biográfico de O’Hara que dá a segura sensação de reconhecimento familiar, e exalta a jornada autônoma do poeta num modernismo que condenaria tanto o isolamento desinformado quanto a filiação obtusa, citando uma observação de John Ashbery, outro epítome da geração da Escola de Nova York dos anos 1950: “Para Ashbery, O’Hara era a síntese daquele momento, por ser ‘muito descolado para os quadrados e muito quadrado para os descolados.'” O poeta nascido em Baltimore em 1926 seria proprietário de referências não necessariamente canônicas, sem entretanto deixar de incorporar o lingo atual e espontâneo “da gíria e dos temas ‘baixos’ de uma cultura industrial”. Para o professor de Letras da UFMG e doutor em História pela USP, O’Hara é “whitmaniano e torrencial”, acena tanto a Rimbaud quanto a Mallarmé, ecoa Pollock na multiplicidade sem amarras do fazer num plano quase infinito, e pode ser lido como “parente próximo de Ana Cristina Cesar ou Francisco Alvim.” ‘O’Hara é o cara’ é uma resenha a um tempo leve e rigorosa, detalhada e acessível, que deixa patente no leitor a vontade de ler mais.

 

um trecho de lima barreto

Toda a gente que lidou com qualquer espécie de administração, se não nos altos pastos, mas simplesmente em lugares convenientes de altas situações, sabe bem que pendor extraordinário para essa sabença de regulamentos têm os homens medíocres e as mulheres.

A primeira coisa que faz um amanuense de vocação é aprender todas as disposições do regulamento de sua secretaria, das demais repartições, não só os regulamentos, mas também os avisos explicativos e outros atos referentes.

A sua inteligência, sentindo-se por si mesma fraca, não quer ser de surpresa colhida no estudo ou na informação de um caso que, de antemão, não tenha para resolvê-lo três linhazinhas impressas, promulgadas, publicadas, adotadas pelas autoridades competentes.

Não se fia a sua inteligência nela mesma; quer o apoio de outras que, valendo tanto ou menos que a dele, têm entretanto o prestígio sobre-humano do Estado.

É dessa natureza intelectual que me parece ser o famoso general Lundendorff.

É ler-lhe um trecho ao acaso de suas Reminiscências, para se sentir logo o burocrata guerreiro, exato, meticuloso, sabendo bem todos os regulamentos, o de ligação, o de retaguarda, o de vanguarda, não esquecendo sequer nenhuma das abreviaturas consagradas e estabelecidas. Vejam só este pedacinho, como denuncia bem essa singular mentalidade de guerreiro moderno, metade amanuense, metade chefe de horda bárbara do século V da nossa era. Ei-lo:

A ordem de batalha era a seguinte: XI C.E., imediatamente ao nordeste de Cracóvia; Corpo de Reserva da Guarda, X C.E., XVII C.E., 35 D.R., entre Kaptowitz e Kareuzburg; 8º D. Ca., D. Lwd. Conde von Bredow, entre Kempem Kalisch.

O engraçado é que, com toda essa meticulosidade burocrática, procurando tudo prover e prever, empregando automóvel, aeroplano, telefone e telégrafo, as suas batalhas, se não começam por uma grande confusão, um entrevero, como dizem os nossos vizinhos, acabam nisso.

A tal famosa vitória dos lagos masurianos, no dizer dele mesmo, terminou numa baralhada com batalhões e magotes de alemães. Se houvesse mesmo ódio entre uns e outros, se a guerra não fosse uma coisa político-capitalista, a coisa tinha desandado em um tumulto de rua, em uma bagarre a que deviam atender, para restabelecer a ordem, simples agentes de polícia e guardas-civis armados de São Benedito.

Está aí em que dá a famosa preparação para a guerra que os doutores militares tanto preconizam e nós estamos fazendo com os indispensáveis discursos e chás dançantes.

[…]

Em todo o caso, o exemplo de Joffre é elucidativo de que, tanto cá como lá, o que imperou foi o acaso, a serviço da mediocridade; a vitória coube às forças obscuras da sociedade e da natureza que, desencadeadas, nenhum homem soube captar em seu próprio proveito ou dos homens de sua e das futuras gerações. Todos tateiam nas trevas e apalpam os regulamentos com medo de se perderem neles.

Houve um único que se lançou ousadamente pelo “Mar Tenebroso” em fora; e este foi Lênine. É este o grande homem do tempo, que preside, com toda a audácia, uma grande transformação social da época, enquanto Joffre, o êmulo de Alexandre, César e Napoleão, vai presidir partidas de futebol…

––

Excerto de ‘Memórias da Guerra’, de 17/4/1920, reunida no volume Lima Barreto – A crônica militante, Expressão Popular, 2016

General Ludendorff e Papa Joffre

mentolado&remelento

Querido roteiro,

nossa vida é um tecido, comungado com a idade da Terra. Nossa escolha não tem pressa, pois é carro da vontade justa. Não é ilusão que a solicitude está entre o grátis e o barato, mas também não é ilusão que o ‘caro’ indica o bem quisto, o graças a nós ficante. A revolta pode ser justa e alegre, como pode ser um baque de derrota a ver navios de expulsão, exclusão, extinção. Entre a revolução e a reforma, conspira e aflige a Alma Mãe (a casa grande que nos guarda é ela, mas nem viagens para Marte são capazes de ser o que não são) o típico trepidar do fraco.

Kkkk

Bom dia.

Por questões técnicas, essa foto preparada para o Facebook transferi para o sítio online da editora. Não que o Facebook seja incompetente tecnicamente, pelo contrário, são bons em muita coisa, mas como player de cores vetorizadas não prestam. Mesmo a função ‘álbum’, onde seria possível aceitar mais pixels por polegada, não interessa tanto ao repórter cidadão a colher muitas vezes pautas no calor do momento, sem a preocupação da “fruição familiar”: nem todo conteúdo se enquadra como tal. De resto, a compactação em PNG, propalada como corretora, não é. Ao menos não a ponto de quem cuida da própria por amor de persuadir e não marcar ponto sem dar o endereço pras crianças, concordar. O wordpress também comprime. Mas muito menos que lá. Nem seria para tanto, a foto resultou medíocre. Mas como acabei memeficando (com saturação ideal-contínua), parte da graça iria embora porque a aplicação emporcalha. Em nota, a editor da editora pronunciou na rede de microblogs Twitter que o Facebook, “se não pode pagar ninguém que forneça conteúdo”, pode achar modos de gerir a angústia de haver tanto upload concomitante à necessidade da editorialização ou cura humano-algorítmica. E deu uma ideia: “que publicadores de sucesso ganhem privilégios como o de, por exemplo, estar isento da compactação a que se sujeita o usuário médio”. Não houve retorno da Incorporação.

um jogo

No Mundaparede™ v1, o objetivo é transportar um seu mundo para a parede perto do sono
no Mundaparede™ v1, vence quem plasmar o lúdico-prático deste um mundo na parede perto do sono


Atenção, pois as regras a seguir são importantes:
as regras a seguir são tudo o que temos

Será que posso ver a evolução da correção
as quase perfeitas massas atmosféricas sopradas
se por nada por diferenças de pressão; você sabia
que não existe um exato instante em que a atmosfera acaba
e o espaço sideral começa?
o que existe, todavia, é uma convenção
graças a elas, cosmólogos e engenheiros podem
trocar e revisar papéis uns dos outros

um lar chegado ao chão, água e fogo dentro
quem não quer?

quero e vou salvaguardar o luxo
de poder olhar em tantas nossas caras
visitas às casas da rua

no Mundaparede™ v1, perde quem não perde
por esperar

duas falas* do piva

O ritmo do jazz é inseparável da minha poesia. Aliás, agora que está na moda badalar o Chet Baker, você observa que em 1963 eu já falo dele em um verso meu. Agora ele está na moda, descobriram o cara quando ele está em uma ruína, quando está em franca decadência, está democrático, convidando uns caras do Rio de Janeiro, um pessoal que não sabe nem o que diz nem o que toca, para tocar com ele. Ele democratizou essa sua energia, e daí perdeu todo o pique. Atualmente ele é um cara totalmente sem aquele pique, aquela genialidade, sem aquela energia de transformação e de invenção que ele tinha, a ponto de influenciar a nossa bossa nova. E todo esse balanço da bossa é o balanço da minha poesia. Uma poesia sem música, sem jogo de cintura, é uma poesia rígida, dos comunistas, dos marxistas, uma poesia absolutamente trancada dentro de um túmulo que é o túmulo do leninismo, que já está fedendo. É claro que o rock também me influenciou, mas não teve a mesma importância que o jazz, o cool jazz. Mas há evidentemente alguma influência do rock, uma vez que pessoas como Jim Morrison, Bob Dylan, Frank Zappa são excelentes poetas. Então o rock me influenciou também, e até mesmo antes do jazz. Eu fui, por exemplo, um dos caras que em 1957 foi receber o Bill Haley, com um grupo de jovens, lá na Praça do Patriarca, onde ele se hospedou. Fomos fazer uma manifestação de carinho, de afeto. Posteriormente o jazz me influenciou e, logo em seguida, a bossa nova. Eu fui apaixonado pela bossa nova. Então essas três correntes – o rock, a bossa nova e principalmente o jazz – são uma constante da influência musical na minha obra.

– em entrevista a Floriano Martins, publicada em O começo da busca, Escrituras, 2001

Poesia=xamanismo=técnicas arcaicas do êxtase. Xamã: sacerdote-poeta inspirado que, em transe extático, percorre o inframundo, florestas, mares, montanhas e sobe aos céus em “viagens”. Dante foi um xamã cabalista que conheceu, em sua viagem pelos três mundos, os orixás travessos da sombra. Deixe a visão chegar. É a hora da despedida dos deuses do deserto & da chegada dos deuses da vegetação. Minha poesia é magmática, de magma: como Dante, sou exilado em minha própria pátria. Como Dante, sou monarquista e reacionário. Como diria Pasolini, sou uma força arcaica, um bárbaro. & não sou um homem normal, isto é, um racista, um colonialista. Ecologia da linguagem: os poetas brasileiros têm que deixar de ser broxas para serem bruxos. Estados alterados de consciência. Há quem disseca os versos, mas não conhece o êxtase, que é a alma dos versos (Mckenna / Gordon Wasson). O caminho do poeta/xamã é o caminho do coração. “e parve di costoro / quelli che vince, nos colui che perde.” Dante, Inferno, canto XV.

– em depoimento à revista Poesia Sempre, FBN, 1997

* ambas coletadas no volume Encontros | Roberto Piva, Azougue, 2009

dois pensares

Outra nudez já tinha surgido no horizonte cultural da Europa, com o aparecimento do homem americano. E se houve um ponto de encontro entre a Renascença e o Humanismo, esse se deu no entusiasmo comum pela natureza que a Idade Média difamava.

Era, porém, tão terrível e grosseiro o preconceito que aureolava o mundo helênico que, quando com as Cartas de Vespúcio e pelas Utopias se divulgou a existência de uma super-humanidade perdida do outro lado da terra, se perguntava a respeito dessa gente: – Serão gregos? Ou pelo menos mediterrâneos? O cristianismo dólico-louro trabalha e deforma tudo. Petrarca protesta contra a ideia de que Cícero pudesse ter ido para o inferno, pelo desconhecimento do Cristo. Ele e Sócrates são tidos como “colaborantes do cristianismo”.

A Cícero e a Sócrates, que são considerados deístas, incorpora-se então uma legião de sub-humanistas católicos que têm, hoje, nomes inteiramente esquecidos. É tão grave a deformação cristianizante que a mitologia pagã passa a ser uma teologia velada, as Metamorfoses de Ovídio são a Gênese. Até Homero é um pronunciador de mistérios católicos.

(…)

A Renascença modela e disciplina grandes assuntos. Sempre o seu triunfo técnico se sobrepõe ao tema, à inspiração e ao sentimento. Enquanto isso, o Humanismo dá o estofo das Utopias futuras. Ele cria o Direito Natural. Ele produz, na longínqua América, a primeira experiência de uma sociedade nova – a República Comunista Cristã do Paraguai. No século XVIII, ele dá os fundamentos da Filosofia das Luzes e realiza a Revolução Francesa. No século XIX consegue o abalo sísmico das agitações liberais. E hoje, mais do que nunca, é no Humanismo e na sua tradição revolucionária que se fundamenta a conquista de uma vida melhor para todos os povos.

Oswald de Andrade, no artigo A marcha das Utopias I, publicado n’O Estado de São Paulo aos 5/7/1953, e reunido no volume A utopia antropofágica, Globo, 2001

Alguém é um pai apenas porque existe outrem de quem ele é o pai: a paternidade é uma relação, ao passo que a peixidade ou a serpentitude é uma propriedade intrínseca dos peixes e cobras. O que sucede no perspectivismo, entretanto, é que algo também só é peixe porque existe alguém de quem este algo é o peixe.

Mas se dizer que os grilos são os peixes dos mortos ou que os lameiros são a rede das antas é realmente como dizer que Nina, filha de minha irmã Isabel, é minha sobrinha, então, de fato, não há nenhum relativismo envolvido. Isabel não é uma mãe para Nina, do ponto de vista de Nina, no sentido usual, subjetivista, da expressão. Ela é a mãe de Nina, ela é real e objetivamente sua mãe, e eu sou de fato seu tio. A relação é interna e genitiva – minha irmã é a mãe de alguém, de quem sou tio, exato como os grilo dos vivos são os peixes dos mortos –, e não uma conexão externa, representacional, do tipo “X é peixe para alguém”, que implica que X é apenas representado como peixe, seja lá o que for “em si mesmo”. Seria absurdo dizer que, desde que Nina é filha de Isabel mas não minha, então ela não é uma “filha” para mim – pois de fato ela o é, filha de minha irmã, precisamente. Em Process and reality, Whitehead observa: “a expressão ‘mundo real’ é como ‘ontem’ ou ‘amanhã’ – ela muda de sentido conforme o ponto de vista” (apud Latour 1994). Assim, um ponto de vista não é uma opinião subjetiva; não há nada de subjetivo nos conceitos de “ontem” e “amanhã”, como não há nos de “minha mãe” ou “teu irmão”. O mundo real das diferentes espécies depende de seus pontos de vista, porque o “mundo” é composto das diferentes espécies, é o espaço abstrato de divergência entre elas enquanto pontos de vista: não há pontos de vista sobre as coisas – as coisas e os seres é que são pontos de vista (Deleuze 1969). A questão aqui, portanto, não é saber “como os macacos veem o mundo” (Cheney; Seyfarth 1990), mas que mundo se exprime através dos macacos, de que mundo eles são o ponto de vista.

(…)

O sangue dos humanos é o cauim do jaguar exatamente como minha irmã é a esposa do meu cunhado, e pelas mesmas razões. Os numerosos mitos ameríndios que põem em cena casamentos interespecíficos, demorando-se nas difíceis relações entre os genros ou cunhados humanos e seus sogros ou cunhados animais, não fazem senão combinar as duas analogias em uma só. Vemos assim que o perspectivismo tem uma relação estreita com a troca. Ele não apenas pode ser tomado como uma modalidade de troca, mas a troca mesma deve ser definida nestes termos – como troca de perspectivas.

Eduardo Viveiros de Castro, no ensaio-fundição Perspectivismo e Multinaturalismo na América Indígena, reunido no volume A inconstância da alma selvagem, Cosac Naify, 2001; Ubu, 2017

um protótipo de dispositivo móvel de bolso

funções: telecomunicação (sic, posto que eu não vou ficar te encostando de língua se eu quero te falar, vou sempre manter uma distância respeitosa, do grego, tele), pagamentos (swipe cash), lista de contatos (swipe biz card), multimedia mash&play (acompanha oclinhos e feijões auriculares), gravação cidadã (deixem a ‘fotografia’ para os fotógrafos, lesks), doutor íntimo (você engole sensores e ele te mantém postado sobre os índices), navegador (que onde quando), chaves (entre onde quer que você possa).

Por que circular? Por causa do universo. Fica melhor na mão, na vista, no bolso, pendurado, na pochetinha (acompanha pochetinha).

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dois recortes de coluna

A economia internacional modernizou o agronegócio brasileiro obrigando-o a respeitar padrões de qualidade. Contudo, quando operam no mundo do poder brasileiro, os empresários fogem do século 21 e aninham-se na primeira metade do 20, quando seus antecessores administravam matadouros.

A Operação Carne Fraca começou com um lastimável grau de amadorismo megalômano e espetaculoso da Polícia Federal, mas isso não convida empresários, mandarins e ministros a adotarem a postura arrogante dos empreiteiros no nascedouro da Lava Jato. Como ensina um velho provérbio napolitano, “seja honesto, até mesmo por esperteza”.

– Elio Gaspari hoje na FSP

PLANA 17 | sacola

É difícil dizer se o mix da sacola nossa será deveras representativo, pois a pergunta a seguir seria: representativo de quê? Ora, de um nosso rolê, se tanto, pelas frestas de tempinho n’algazarra do market. Foi o que deu para fazer, no entanto, seria dizer pouco. Digamos assim: nossa, nossa sacola trouxe as marcas de gravuras quasi-orgânicas, trouxe essa questão do simulacro-game, trouxe o simulacro meta-metá da (na/por/pela/sob/sobre/entre/em) filosofia dos filósofos, muito humor, remixed literature, o neo-portrait cptm, brindes e delírios. Valeu.
plana_17 sacola

uma portaria

PORTARIA Nº 886, DE 20 DE ABRIL DE 2010

Institui a Farmácia Viva no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

O MINISTRO DE ESTADO DA SAÚDE, no uso das atribuições que lhe confere o inciso I, parágrafo único, do art. 87, da Constituição, e

Considerando a Portaria nº 971/GM/MS, de 3 de maio de 2006, que aprova a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde (SUS);

Considerando o Decreto nº 5.813, de 22 de junho de 2006, que aprova a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e dá outras providências;

Considerando a Portaria Interministerial nº 2.960, de 9 de dezembro de 2008, que a prova o Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e cria o Comitê Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos;

Considerando que compete à direção nacional do SUS identificar os serviços estaduais e municipais de referência nacional para o estabelecimento de padrões técnicos de assistência à saúde, conforme disposto no inciso XI do art. 16 da Lei nº 8.080, de 19 de setembro de 1990;

Considerando a Resolução nº 338, do Conselho Nacional de Saúde, de 6 de maio de 2004, que aprova a Política Nacional de Assistência Farmacêutica; e

Considerando a necessidade de ampliação da oferta de fitoterápicos e de plantas medicinais que atenda à demanda e às necessidades locais, respeitando a legislação pertinente às necessidades do SUS na área, resolve:

Art. 1º Fica instituída, no âmbito do Sistema Único de Saúde -SUS, sob gestão estadual, municipal ou do Distrito Federal, a Farmácia Viva.

§ 1º A Farmácia viva, no contexto da Política Nacional de Assistência Farmacêutica, deverá realizar todas as etapas, desde o cultivo, a coleta, o processamento, o armazenamento de plantas medicinais, a manipulação e a dispensação de preparações magistrais e oficinais de plantas medicinais e fitoterápicos.

§ 2º Fica vedada a comercialização de plantas medicinais e fitoterápicos elaborados a partir das etapas mencionadas no parágrafo primeiro.

Art. 2º A Farmácia Viva fica sujeita ao disposto em regulamentação sanitária e ambiental específicas, a serem emanadas pelos órgãos regulamentadores afins.

Art. 3º Esta Portaria entra em vigor na data de sua publicação.