três pérolas da elizeth

Elizeth Cardoso parou de estudar no terceiro ano primário para começar a trabalhar. Foi balconista, cabeleireira, porta-bandeira de rancho, dançarina, crooner, até que cantou, meio que por acaso, numa festinha frequentada por altos bambas cariocas. Jacob do Bandolim ouviu e levou-a para o programa Suburbano, na Rádio Guanabara. Não parou mais, e tornou-se uma das maiores gravadoras de discos do Brasil.

Rigoroso, seu pai chegou a lhe bater uma só vez, com vara de marmelo, ao saber que a filha namorava o craque Leônidas. Colecionadora de apelidos, Divina foi também Noiva do Samba-canção, Machado de Assis da Seresta, Magnífica, Enluarada, Saliente do São Jorge, Feiticeira da Vila, 1a Dama da MPB, Faxineira das Canções, Mulata Maior, Lady do Samba, Rainha dos Músicos. Unha e carne com Grande Otelo, chegou a fazer black face em apresentações de comédia com o ator, antes da carreira de cantora engatar. Estrelou a estreia de Tom e Vinicius em disco, aprendeu a batida da bossa com João Gilberto e nos apresentou Paulinho da Viola.

Portelense e flamenguista, Elizeth percorreu todos os gêneros do cancioneiro brasileiro, mas é lembrada principalmente como alta fadista do samba-canção. Por quê?

Dois motivos explicam: primeiro, samba-canção era o que estava saindo, na época.

Sua predisposição, entretanto, que encantava os músicos e maestros, vinha da época de dançarina. No clube onde trabalhava, ela e suas colegas faziam as vezes de acompanhantes, na pista, a cavalheiros solitários, traídos, viúvos, esquecidos, desejosos de uma dança. Ganhava mil e quinhentos cruzeiros por dança. Certa feita, descobriram que ela cantava. Encantados, os cavalheiros passaram então a furar o bilhete da Elizeth como se com ela tivessem dançado, uma, duas, três vezes, mas abriam mão da vez em troca de ouvir seus dotes, junto à orquestra, e pediam aquela música, aquela e aquela — todas do repertório meloso e romântico da era de ouro. Para bem servir, ela decidiu decorar as canções mais solicitadas pelos pobres senhores. Quando deixou para trás a vida de táxi-dancing e foi para as rádios, parecia conhecer com a própria alma a dor daqueles homens. Vivera de perto o abandono deles, tão frágeis, saudosos e dependentes.

É difícil escolher, entre tantas, três pérolas da Elizeth. Depois perca tempo na internet investigando a vasta e rica trilha desta artista tão singular.

da música do nordeste

As características da música nordestina conforme anotadas na musicologia, de Mario de Andrade em diante, tendem a dois enraizamentos fundamentais, a saber, os modos pré-temperamento de fulgor arabeizante dos cantos sacros medievos peninsulares (Ibéria), e os moldes aborígenes que os teriam resguardado no binário assimétrico do hoje famoso baião.

Com efeito, resta bastante clara a figura do sertanejo, para além de sua música, fortemente gravada numa sorte de tábua misturada entre a sabedoria nativa e a espiritualidade eremítica importada. O sucesso em Portugal das chamadas ordens Mendicantes (Franciscana e Dominicana) a partir do século XII, calcadas no desapego contemplativo e no “afeto à obra do Criador”, conforme explica, neste fascinante estudo, a historiadora Maria de Lurdes Rosa, achou nos primeiros descendentes do encontro entre os indígenas fugidos do litoral para o interior e seus outrora colonizadores a predisposição tecnológica de quem comungava amiúde os segredos da natureza.

gravura de Poty para Sagarana

O sertanejo nasce, assim, além de forte (porque saudável e trabalhador inveterado), poeta nato, no senso primaz de imitador dos estímulos sensoriais do entorno. Chamo atenção, nesta breve e insuficiente nota, à figura da Ave enquanto possível fonte maior de inspiração criadora e ideal simbólico de liberdade do poeta do sertão. Este trabalho chega a sugerir a figura rítmica do baião derivada do canto da rolinha cascavel. Arrisco apontar, além, a popularização do sopro agudo da flauta como significado de forte reminiscência do índio brasileiro em sua conversa constante com os pássaros, amigos que choravam no pio todas as suas mágoas, sortes e vontades, melhor talvez que qualquer palavra viria cantar. Outra suspeita, esta com relação à ligeireza do ritmo galope. O galope, tão comum na música nordestina, é, evidentemente, um transporte figurativo do cavaleiro em desabrida carreira, mas o motivo desta, por sua vez, seria, antes de qualquer pressa ou corrida contra o tempo, outra forma de imitar a velocidade empolgante e tranquilizante, vento no rosto e nada no pensar, dos gaviões, urubus, corujas e açus daquela terra nossa.

Outro dia compartilhei este disco no Facebook, por achar emblemático da sonoridade aqui em questão. Hoje, publico o primeiro trabalho de estúdio do Quinteto Violado, conjunto pernambucano de competentes músicos cantadores, pesquisadores e professores, lançado em 1972. É disco feliz e sensível, de ouvir na íntegra, mas destaco a ‘Marcha Nativa dos Índios Quiriris’, faixa sugestiva da faceta nativa, mais que portuguesa, do poeta sertanejo.

dois álbuns indispensáveis

‘Marinheiro só’ (1973), da Clementina de Jesus, e ‘Samba de roda’ (1975), do Candeia, salvaguardam a completude do que gostamos chamar samba, das cruezas indigestas às altas cocções, do humor mais salpicante à doçura chorada numa bochecha gordinha. Estilisticamente, as duas obras-primas cobrem o campo do batuque melódico brasileiro com sobra de alguns palmos, dando berimbas, dolências, hinários, cantigas, pontos, marchas, partidos, breques, delongas, cirandas, dilemas, ladainhas, preces, imprecações, romances, mintiras, improntus, pagodes, risos, broncas, sodades, sais, gritos, xingos, loas, dengos, lençóis, muxoxos, tramas, mandingas e repentes. Trinta anos passados e ajustado no simples o samba, como nos álbuns a seguir provam o samba disse mais do que disseram do samba, vergonha a qual não serve tanto de remorso quanto de empuxo. Isto porque a crítica não faz samba só da vida, como faz o samba; antes, faz a crítica samba da vida e do samba, donde o leve atraso.

dois sambas do adoniran

Epítome do caipira paulista clownesco a desafiar a civilização urbana, Adoniran Barbosa, pseudônimo de João Rubinato (1910-1982), filho de italianos natural de Valinhos, começa a carreira artística, depois de inumeráveis fracassos, graças à voz, potente e versátil, e à habilidade autodidata de cronista. Consegue emprego na rádio, com que citava e dava voz aos muitos tipos paulistanos em suas aflições afetivas e infortúnios materiais. Quando nota que cantar por acaso daria ainda mais ibope que a comédia, resolve compor suas próprias canções, e emenda uma centena de pérolas que o firmariam como um dos patrões do samba paulista, famoso pela dicção estampa de uma cidade que reiventava o português brasileiro. Adoniran canta e conta dos sabores e das durezas da vida do caipira presa ao que Antonio Candido diz “mínimos sociais e vitais”, os mínimos de quem perde padrões europeus para improvisar táticas de sobrevivência de forma rústica e não raro primitiva numa São Paulo de pobres indignos. A seguir, ‘Conselho de mulher’ e, numa roda com Elis, ‘Iracema’.

dois sambas do salgueiro

A seguir, duas belas faturas da escola tijucana e xangoniana Acadêmicos do Salgueiro: Bahia de todos os deuses (1967), e Do Yorubá à luz, a aurora dos deuses (1978), tendo este brindado a escola com o Estandarte de Ouro. O Salgueiro, que nos anos 1970 e 1980 ficou conhecido por resgatar e difundir a cultura afro-brasileira, teve, segundo a pesquisa de Mussa e Simas, “papel fundamental na popularização do samba de enredo”, sendo suas composições rapidamente assimiladas, memorizadas e cantadas pelas gentes nos morros e ruas do Rio.

Me agradam nestes dois exemplos, o andamento, cadenciado entre 130 e 140 bpm, as melodias, emocionantes sem pieguice, alegres sem melação, e sofisticadas sem maluquice, e, principalmente, as imagens e histórias que invocam seus textos, por despertarem minha curiosidade e fazerem-me aprender uma tantinho a mais da formação cultural do país.

dois sambas de sinhô


José Barbosa da Silva (1888 – 1930), mulato magro, regular em gafieiras, pianista e flautista, foi uma das pontes entre a pompa europeizada das valsas e polcas harmônicas e a simpleza rueira do choro logo samba, nascendo este graças à informação melódica daquele mais o ímpeto percussivo afro e ameríndio e as agruras comuns da urbe precária, num movimento que seguiria em novas maneiras de usar os instrumentos do velho mundo mais o improviso marcador da cozinha nossa. Sinhô foi poeta encaixador e moteteiro, criador de verdadeiros hinos da primeira geração do samba, com Pixinguinha, Donga, China e outros. Narigudo e desdentado, diz o pesquisador Jair Severiano, “compensava a feiúra com uma lábia prodigiosa”. Namorador, teve cinco esposas e problemas com dinheiro. Abaixo, Mario Reis (seu aluno de violão) canta ‘Sabiá’ e Dorival Caymmi ‘Gosto que me enrosco’.

dois sambas de escola de silas de oliveira

Ele esteve na fundação da Império Serrano, escola advinda da ocupação negra, após a Abolição, da Serra da Misericórdia, região do Rio ao norte da Tijuca e a oeste de Guanabara. Batizada antes Prazer da Serrinha, a escola ali criada na primeira metade do século 20 era frequentada por um Silas ainda criança, às escondidas do pai evangélico. Por ali ele aprendeu as artes dos mais velhos e se divertiu nas conversas e nas rodas de jongo. Fez-se mestre do gênero samba de escola e venceu 14 concursos com peças de sua autoria. Faleceu em 1972, data que, para muitos, aponta o início da decadência do gênero.

A seguir, ‘Aquarela brasileira’, que a Império desfilou em 1964, e ‘Heróis da liberdade’, de 1969, em duas gravações: uma a evocar a catarse plena do rancho, outra que exalta o lirismo nem tão doce mas coeso da obra, difícil de achar nos dias de hoje.

dois sambas de dona ivone lara

Informa o manual Samba de enredo – história e arte:

Filha de um violonista do Bloco dos Africanos e de uma pastora do Rancho Flor de Abacate, Dona Ivone Lara começou a aprender música no colégio Orsina da Fonseca, na Tijuca, onde estudou como interna após a morte dos pais. Foi aluna de Lucília Villa-Lobos, esposa do grande maestro.

Prima de Mestre Fuleiro, começou a frequentar as rodas de samba da escola Prazer da Serrinha e, posteriormente, do Império Serrano. Ali passou a compor seus primeiros sambas de terreiro, enquanto vivia profissionalmente como enfermeira e assistente social (trabalhou no Serviço Nacional de Doenças Mentais, com a doutora Nise da Silveira).

certa genealogia de ‘Ponteio’

em1967, com Marilia Medalha e Edu Lobo

em 1967, com Quarteto Novo

em 1968, com Sérgio Mendes

em 1968, com Paul Mauriat

em 1969, com a Woody Herman Orchestra

em 1969, com Pat Williams

em 1970, com Edu Lobo

em 1971, com Astrud Gilberto e Stanley Turrentine

em 1972, com Elis Regina

em 1973, com Sivuca

em 1977, com Edu Lobo

em 1992, com Zizi Possi

em 1995, com Alceu Valença

em 2003, com Da Lata

em 2007, com Silvana Malta

em 2009, com Leila Pinheiro

em 2009, com sexteto Caraivana

em 2010, com Ulisses Rocha

em 2011, com San Juan Coral

em 2012, com Coral Parthenon

em 2013, com Grooveria

em 2014, com Jessica Davey e Ben Modley

em 2014, com Mauro Senise

em 2014, com Trio Baru

em 2015, com Renato e Adriana Godoy e Sérgio Belo

uma resposta à imprensa

PERGUNTA: Falaí, senhor Nepomuceno, parece que o senhor não conhece muito bem música brasileira, hein, senhor Nepomuceno, hein? Falaí. Parece que não, hein? Parece que o senhor não é moderno não, hein, Nepomuceno? É antigo, hein? És chatola europa, não? Não sabe a música, hein?

RESPOSTA: Em geral a nota característica da musica popular brazileira são as indicativas de suas origens ethnicas – indigena, africana e peninsular – tal como na poesia popular foi verificado pelos nossos folkloristas, como Sylvio Romero, Mello Moraes Filho e outros. E’ de notar que no elemento peninsular são factores de importancia o mouro e o cigano. Infelizmente a parte musical nos estudos do folklore brazileiro ainda não foi estudada, provavelmente por ser a technica musical uma disciplina que escapa ao conhecimento dos investigadores do assumpto.

Nunca me dediquei a esses estudos, mas possúo, como diletante, uma colleção de uns oitenta cantos populares, e danças, e procuro sempre augmental-a. Acham-se quasi todos estudados e classificados, e, nesse trabalho, verifiquei uma modalidade que não é regional, pois que se encontra em cantos recolhidos no Pará, no Ceará e no interior do E. do Rio e que – parece-me não tem ligação com nenhum dos elementos ethnicos acima citados. Essa modalidade, de ordem melodica e harmonica, é produzida pelo abaixamento do setimo gráo sempre que o canto tenda para o sexto, como funcção do 2° ou do 4° gráos.

Outra modalidade caracteristica verificada em grande numero de cantos é a nota final ser o 3° gráo e por vezes, o 5°, ou o 2° como função do 5° o que da logar, na harmonisação desses cantos, ao emprego das cadencias finaes do terceiro e setimo modos gregorianos, respectivamente. Não é esta a unica afinidade que encontrei com o canto-chão. Nos aboiados – cantos tristes que os vaqueiros entôam á frente do gado para reunil-o – o vaqueiro, segundo as circumstancias, amplia o seu aboiar com vocalizes que lembram os do canto-chão. Os aboiados são usados em todos os Estados criadores do Nordeste, e segundo estou informado, em Minas e Goyaz.

Esses elementos ainda não estão incorporados ao patrimonio artistico dos nossos compositores. Sera por culpa da nossa educação musical européa, refinada, que impede a aproximação do artista-flôr de civilisação – e a alma simples dos sertanejos, que ate hoje – por criminosa culpa dos governos – não passam de retardatarios, segundo a classificação justa de Euclydes da Cunha; ou será por não ter ainda apparecido um genio musical sertanejo, imbuido de sentimentos regionalistas, que, segregando-se de toda influencia estrangeira, consiga crear a musica brazileira por excellencia, sincera, simples, mystica, violenta, tenaz e humanamente soffredora, como são a alma e o povo do sertão.

Verdade que tanto a modernidade quanto a “verdadeira” brasilidade de Nepomuceno foram questionadas. A resposta acima, de 1917, também é verdade. Nada menos que um dos muitos inventores do samba, Alberto foi quem levou seu conterrâneo Catulo da Paixão Cearense para mostrar à elite carioca o que fazia um violão nacional. Foi quem abriu as portas para Ernesto Nazareth, quem divulgou um ainda jovem Villa-Lobos, quem forjou o belo canto não mais em italiano, mas em português brasileiro (para horror da crítica). Com efeito, todo o mergulho não só do Villa, mas também do Mario de Andrade, nas raízes da alma brasileira, existiram porque, antes, existiu Nepomuceno, que por sua vez percebeu a ideia da valorização da música de um país na gente do país com os franceses da Société Nationale. Natural do Ceará mas vivido, dos oito aos vinte, em Recife, na época de ouro da Faculdade de Direito e dos batutas dos ’70, Nepomuceno pode privar com a Princesa mesmo sendo republicano e abolicionista (como?).

Para curtir Nepomuceno, duas opções colhidas en passant no youtube.

um trecho de análise de partitura

A inspirada e perspicaz brasilidade de Villa-Lobos manifesta-se através de figurações rítmicas baseadas em danças populares e em ostinatos que ajudam a criar um ambiente sonoro denso e dinâmico que permeia toda a obra e sustenta o discurso musical, unificando as seções.

Nos Choros nº. 5, o suporte rítmico baseia-se em duas estruturas simples (Ex.5) e contrastantes que criam tanto uma atmosfera de embalo, de suave balanço, na seção A e na seção B, quanto de intenso dinamismo, no Desenvolvimento. Estas estruturas rítmicas são constituídas pela célula 3 + 3 + 2, e por uma figuração que Mário de Andrade vê como marcha: “A marchinha central … foi criticada por não ser brasileira. Quero só saber o porquê”. (ANDRADE, 1939/91, p.25)

A respeito da postura de Villa-Lobos em relação à grafia de ritmos, torna-se interessante transcrever um trecho de um delicioso diálogo ocorrido entre Mário de Andrade e Elsie Houston, em 10 de Junho de 1943:

– Mas qual é a teoria do Villa?
– Ele lá tem teoria! Mas garante que o cantador se move estritamente dentro do compasso.
– Eu sei. Já ouvi ele dizer isso, jurando que é possível grafar todo e qualquer ritmo. Veja os Choros nº 5.
– Não seja idiota, Mário. Então você acha que a execução estrita da grafia rítmica do Villa pode dar o movimento – eu falo movimento, hein! – da alma brasileira? (apud COLI, 1998, p.44, 229)

O aspecto mais interessante da obra reside justamente nessa necessidade de grafar a espontaneidade da defasagem que ocorre entre melodia e acompanhamento, tão comum na música cantada. Assim, a complexidade que Villa-Lobos estabelece ao mesclar o ritmo sincopado da primeira seção com a melodia em tercinas do primeiro tema, estabelecendo diferentes planos sonoros, torna a execução deste trecho particularmente difícil do ponto de vista técnico. Além disso, a figura se expande e cria uma aceleração na seção de Desenvolvimento, num ritmo que lembra o maracatu, o samba, o batuque e até o cateretê, imprimindo dinamismo e vigor a toda a estrutura.

– do artigo Fatores de coerência nos Choros nº 5 (“Alma brasileira”), de H. Villa-Lobos, de Carlos Alberto Assis, publicado em 2009

três sambas de escola de 1972

1. Martim Cererê – Imperatriz Leopoldinense

Foi um ano marcante para a Imperatriz Leopoldinense, e de carnavalesca fortuna. Era a chamada época de ouro dos sambas de escola no regime militar. Zé Katimba emplacou com Gibi um enredo simpático e nacionalista, baseado na epopeia cosmogônica ingênua ‘Martim Cererê’, do modernista de direita Cassiano Ricardo. A melodia é uma das mais belas do samba brasileiro, e o andamento fica no rancho confortável, isto é, abaixo dos 130 bpm. Só assim é possível curtir os timbres da bateria. Acima dos 130, eles se embolam e o charme escorre. A cadência deste samba típico de escola (otimista, de fácil decorado, canônico na apresentação dos elementos atabaque, cavaco, surdo e coro) dá vontade de marchar em sua beleza continente. Acontece que a Rede Globo de Televisão adotou a música, e, pela primeira vez na história, um samba de escola virava trilha oficial de novela. No caso, a novela das 10 ‘Bandeira 2’, escrita por Dias Gomes e dirigida por Daniel Filho e Walter Campos. A trama sobre jogo-do-bicho se passa no bairro de Ramos, zona norte do Rio e nascedouro da escola Imperatriz. No elenco, Paulo ‘Gracindão’ Gracindo em memorável interpretação, Grande Otelo (no papel do próprio Katimba), Ary Fontoura, e os jovens Marília Pêra e José Wilker, que se casam ao fim da gravação.

2. Ilu Ayê – Portela

É um dos primeiros sambas de escola cujo enredo trata poética e etnograficamente a presença negra no Brasil. A letra é primorosa em seus enxertos nagôs e na delicadeza da história que conta. Depois de chorar lamento na senzala, o tempo passa e, “no terreirão da casa grande / negro diz tudo o que pode dizer”

é samba, é batuque, é reza
é dança, é ladainha
negro joga capoeira
e faz louvação à rainha

Clara Nunes gravou o samba Ilu Ayê, mas ficou muito rápido e assim difícil de gostar. Mônica Salmaso gravou com mais vagar no álbum ‘Voadeira’, e resultou elegante.

3. Onde o Brasil aprendeu a liberdade – Unidos de Vila Isabel

Quem sabe é este, o refrão mais bonito dos sambas de escola. Assinado por Martinho da Vila, o enredo presta aceno à Festa da Pitomba, comemoração pernambucana da vitória sobre os invasores holandeses nas batalhas travadas no Morro dos Guararapes. Diz o refrão:

Cirandeiro, cirandeiro ó
a pedra do seu anel
brilha mais do que o sol

É empolgante, justo quando a questão da ciranda (o que é, como faz para entrar/sair) frequenta as dinâmicas dos dispositivos sociolinguísticos em seus contextos variáveis hoje. Martinho da Vila regravou o samba em outras ocasiões e cadências, sendo a mais conhecida em parceria com Beth Carvalho.

TRANSFUSÃO & LETARGIA

Será o homem o último animal capaz de fabricar toda uma indústria em redor desta ideia simples, a melodia.

Hoje temos isso, músicos apaixonados ou resignados com a rabeira do colapsado processo radiofônico/discos de platina, ou aos cantos de viés, vestidos de preto e portadores de meta- arroubos assim ninguém os entenda.

Por que tal estado, música desinteressada à beira, músicos atrás do mel da música e de um colchão excentricizados à maneira do zoo?

Feitio e circulação são o nervo do produto. As escolhas que tomaram os homens e mulheres da indústria fonográfica visaram ganhos de capital antes de riqueza cultural. Foram más escolhas que encadearam em processo maus desenhos de curadoria, reconhecimento, promoção e produção musical e executiva. Maus desenhos só perduram porque homens e mulheres obstinados não entendem más suas escolhas, mas naturais quando é a indústria quem fala. Correto. Não se trata de culpabilizar, apesar de sim tratar-se de imputá-lo, o mau desenho, pois que muito mais urgente venha santa nossa vontade para seguir em frente simplesmente sem repeti-los. Queremos falar mal do grosso do pop porque ele é pobre e feio. Tal é um ato de lógica, ainda que ofenda, construtiva. Posso falar à vontade pelo Brasil, onde Guerra-Peixe é um zé ninguém e abominações incitáveis frequentam a grade da globo e consequentemente as lajes e salões das gentes. Tampouco repiso a passada de pano da preguiça sociológica da esperança a qualqer preço, pia de que num ato de bondade jogará no lixo o compêndio da Estética. Não devia, pois. Nossa música hoje, a mais vivaz pernambucana, paraense, carioca e paulista, ensaia suas frinchas de beleza com a ousadia que cabe a um rato acuado, descrente, magro, enlameado na entulhagem ignóbil de um entorno absolutamente não música, ou pior, um entorno em que dela música foi feito o gato e o sapato da futilidade comercial, valor fugaz e apreensão de mentirinha. Suicidam-se desde os anos 1960 e antes, os músicos.

Infelizmente, a pobreza é tendência maior, mais arcaica mesmo, que a indústria. O que esta fez foi se tanto calcular, corretamente desde sua perigosa ética, os porquês da obsessão formulaica e da exploração artística e intelectual dos outros. Dava lucro e deu. Mas vejamos, antes de pintar a indústria um dragão tão cruel, se não havia no temperamento ocidental a semente mesma de sua letargia, se não nos deixamos encaixotar, adoradores infantilóides de “gêneros”, neles vendo e deles tirando riquezas apenas virtuais, num esquema essencialmente restritivo e estupidamente hierárquico de aceitar tal e tal som como música, tal e tal como não.

Se o som fruído naturalmente por nós nunca deixará de ser o ar em movimento, atente para a hipótese da pergunta, desde um também hipotético pianista Evarildo à cantora imaginada Dorotéia, Dorotéia, você quer ‘Chega de Saudade’ trans… posta em lá menor?’

Falemos um bocado sobre este salto.

Como a simples habilidade de deslocar a massa ubíqua que nos engolfa foi dar em tão específico, ainda que por demais corriqueiro, momento do encontro da prática musical numa randômica e ainda por cima suposta pizzaria imaginada? Artur, o titular, acamado da gripe porcina não pôde vir. Evarildo, amigo de um amigo, vende esparsas aulas de harmonia a iniciantes, despreza sem argumentos convincentes a gastronomia e, no litígio, garfou a quitinete da Mariza, mas nem por um átimo imaginou declinar cobrir a noite de outro músico. O termo do acordo, ainda que o cachê integral de 150 reais caia limpo no colo de Evarildo, foi, de Artur para Evarildo, Quebra essa pra mim. Claro, irmão, Evarildo para Artur. MPB leve, uns oitentas, umas bossas? Risos. Na pasta preta puída de envelopes plásticos, semelhante demais à do próprio Evarildo, ruínas baralhadas daquilo que a gente do meio tem tão carinhosamente por The Real Book. Nem tanto, pois deu como quem visse um desconhecido pelado Evarildo numa ostensiva invasão de Jobins, Linses, Djavans. Já está na ordem, apressa a Téia, vamos indo até o último cliente, aquela cara inevitável gig sucker cansadaça mas em pé de quem quer logo cantar para acabar logo com isso. Abre Evarildo a pasta no primeiro plástico e lê, inclinado em cursiva de canetinha verde do punho do Artur, Téia quer tr p/ Am.

Ora, aquele Korg, aquele microfone, aqueles amplificadores da época ainda do cassino, as louças e talheres e janelas e botões de camisa onde chocar-se-iam cíclicas as miríades de frequências da canção antes do tato estéreo com ouvidos não fosse tudo uma hipótese sequer suspeitam de que há um Lá. Que dirá um Lá menor. Que possam 440 ciclos quaisquer dotarem-se como faraós da hierarquia harmônica deste solar e disciplinado predicado, tônica, vai já uma ciência que aquele Korg, aquele microfone etc, etc, talvez nem mesmo devam perceber. O mesmo todavia não se atribui a nós. Tão blissful ignorance, aqui, já nem como romantismo hauseriano passa mais. Horse? Depende, você precisa de um?

Assim vamos pois, categóricos a dar com pau. Tudo muda entretanto se Evarildo, distraído ou preguiçoso, simplesmente não pergunta e dá azar. Não pergunta e escolhe tendo, no caso, 50% de chance de acertar. Aqui, a Téia já quis transpor, foi logo quando voltou arrependida do Chile, pois lá gastou o arisco dinheiro turista e o namorado já a deixou pela novinha, Periguete para quem, disse o homem no último zap. Isso deu raiva nela, talvez, mas na canção o que se deu foi depressão. Desceu um tom e meio e assim ficou setembro todo, as quatro noites. Em casa, por ter problemas diante dad funcionalidades do Windows 10, sentia frustração e ansiedade quando deparava com as fotos da viagem era certo que as havia deletado. Todo esse tempo, porém, Dulcinéia deletava os anexos, anexos criados na letal confusão que tantos pais e mães e tios e tias nublou, a breve porém marcante vida do clique no botão direito, ou seja, tudo meio sem querer em quatro pastas diferentes nomeadas baixo a turbulência da imperícia de uma não nativa digital em seus quertys tão inúteis ou até inimigos quando o sistema operacional conspira e caçoa dessa gente, jh56.., 2lhj77 e ttttt5.

Claro, as fotos voltavam sempre, e nas piores ocasiões. Ao anexar um ppt para a mãe, ao mandar um currículo porque a gente nunca sabe o dia de amanhã, ao trocar a testeira do face afinal a Dora, a Pati, todas trocaram e parecem felizes. Fantasma ponto jpeg podiam todas se chamar, as fotos, o Otávio rindo, brindando um vinho, braços abertos na bike, paisagem qualquer ao fundo. Eu tinha apagado!

Claro que tinha, Téia.

Hoje à noite não havia quase ninguém, se houvesse a noite. Duas famílias que você bate o olho e percebe a estirpe pelo primogênito. Barbas feitas ambos, tendo um nítida vantagem de desmelanização, isto é, afeitara-se não tem muito mas já há algumas horas, provável assim vivesse longe. Mais ainda, provável que a visita timbrasse as raias da decepção ou derrota. Um recuo? Uma rendição? O pai não  olhava de volta e bebia. Uma família, digamos, feliz a sua maneira, equipada e podendo parcelar camisas polo, talvez calando agora ante a perda da bolsa de estudos do filho mais velho que, egresso do ônibus que o viajou desde São Carlos, talvez cogite,  se o pai der confiança, tocar no assunto daqueles terreninhos em Ourinhos, aqueles que certa feita o velho pai dele mencionou. Lembra? Há, afinal, liquidez? Laços e nós da vida, pizzaria é para isso mesmo. Coisa de três ou quatro meses além, o primogênito acusa leveza ao manter baixos os ombros apesar do incorreto arco cervical e compartilhar imediatamente o motivo de um riso quando dá scroll na telinha. Haha, solta, vocês viram que não sei quem não sei que tem não se que lá, e mostra a telinha, ao que todos também riem e já mudam de assunto. Uma pequena mas certeira amostra do estado de equilíbrio em que se encontra junto ao núcleo sanguíneo, afeitando-se muito provavelmente assim porque assim o bem quer e entende, e não porque clama o protocolo desta ou daquela barganha ou sujeição.

Mas tudo isso pouco ou nada muda nossa tese, ficando aí mais pelo amor de imaginar o índice da insalubridade que é jogar Ialta com uma família sem antes averiguar se se dispõe de outra para que a prática conte com um mínimo jogo de perspectivas que seja.

Téia enfim diz, Não, e coça o nariz. Ao que Evarildo faz OK, e eles tocam e é como se não tocassem, digo, mesmo dentro da absurda realidade que carrega a mera hipótese, mesmo ali onde tudo de melhor pode vir e ser, é como se não tocassem. O pesadelo de Schoenberg, aquele de que ninguém ausculte mais e nunca mais porcaria nenhuma, é uma presença mais e mais totalizante? Um cataclisma sem dúvida, mas também o reflexo espontâneo das first e second lives? A música foi para os fundos de vez? Dizer, Ah, na pizzaria pode, vá, é compactuar com o desprezo. É o mesmo que dizer, Ah, sei lá, tava errada. Se o Korg não desconfia das travas de seus meio-tons, ou de como pode haver tolhimentos tão marcantes e personalistas contrabandeados aos prados de alegria numérica e isenta da física mecânica, também não pode a Téia e se é para dizer todos os nomes também não pode Evarildo e não poderia Artur, estando onde estiver Otávio porque neste ponto ele não se implica, desconfiar que apreço inerte não machuca, mas tem o proverbial poder do lampião suburbano, aceso e sozinho a apagar milhões de estrelas. Mastigam as duas famílias suas pizzas enquanto corre ‘Chega de Saudade’ como um segundo e substituível plano. Areia colorida entre os dedos, pôr-do-sol às costas ou mesmo aquela rápida ida ao banheiro quando passa um meteoro. Acontece.

E nada estranham, e das erucções esquivam, e as contas respectivas acertam aceitando o esforço extra de doar o cpf ao estado em troca de um punhado de reais ao fim do ano. Um agrado por saber um bocadinho mais de nossas vidas. Se são felizes cada uma a sua maneira, também ninguém seria preso se as tomasse, as famílias, por exemplares.

É findo o show. Microfonia e estalos, normal, são da época ainda do cassino. Um chopp para cada músico e o cachê quase completo. O gerente pede o senhor entenda, Evaristo, É Evarildo, Sim, Evarildo, Gomes o gerente pede que o senhor entenda o contexto de crise e a noite fraca hoje teve jogo mais tarde por causa da novela. Evarildo não torce ou tem TV, mas agora tem um problema. O vale de 20 reais a completar os 130 em espécie não chegam para uma brotinho. Ademais, e as palavras são dele, Estou parando com o leite, o queijo. Nossa abobrinha não vai queijo… Mas sai por quanto? 32. Pronto.

Evarildo dá o vale a Dorotéia e vai embora. Talvez ainda hoje veja um western bem enquadrado no mudo, como tanto fez e faz quando está, assim, neutro, nem triste nem feliz, e bota Gênesis em cima. Gênesis sua banda de sempre, a banda que acompanha westerns bem enquadrados no mudo, ainda que se perca um Moriconi aqui outro ali. Compensa.

É importante entretanto lembrar, se a neutralidade de Evarildo é função de uma hipótese, de pouco ou nada serve que você fique neutro com, por, via, desde, para, contra, ante, sob ou sobre ele. Falamos aqui da trivialização criminosa e pasteurizante empreendida por homens e mulhers mau desenhistas, e não, nunca, jamais, do que sente ou deixa de sentir o pobre músico que tampouco achou guarida matinal no que ao que tudo indica bem intencionado iogurte de soja. Deixa mole igual, o cocô, diz, cabisbaixo mas não sem transmitir certa neutralidade. Tal é a neutralidade que não temos mais momento para ceder a muitas indústrias. Queremos nossas crianças extremamente crackers, a medir com as próprias mãos a febre da Origem. Tapas e pisões, balanço de olhos fechados nas aulas-terreiro para depois, em casa, acordarem os mais velhos dos rincões da mitografia do pulso. É muito mais que aprender com a selvageria, é dar se quisermos à disciplina da Linguagem o meio fértil que ela merece. Quando o século 20 estacou, buscou-se a ironia, a paródia, a desconstrução radical. Foi bom? Foi surpreendente. O que são as cantigas do fauno, do pássaro de fogo, da lulu? Mas e então? Não serão simular um computador, de um lado, e romper com o significado, do outro, saídas sem dúvida sonoras mas poeticamente fatigantes? Não virá quem sabe a inovação forte daquilo que supomos pré-música, já que a música per se a dita música centrifugou-se em motores especulativos vítimas do pêndulo cinismo e transgressão, para não dizer cinismo e agressão? Isto é, dos quandos e ondes da música, dos comos e dos porquês, dos quens da música, suas cúpulas e halls reimaginados mesmo no claustro, mesmo na pobreza, no fundo do mar e na guerra? Ou mesmo na vitória tácita de uma gente sem motivo para celebrar, na conquista de uma minúscula variável no enorme código dos choques estelares? Seu alaúde vertido do entulho, seu oboé roubado a um encanamento precário, seu tamborim o berço inorgânico de uma lasanha veggie processada pela indústria? Por que dançar tornou-se exótico? E agora, números a coletar números, pois é a tal configuração civilizacional que chegamos, ou se dança ou não se dança, e, quem dançar, é melhor que dance bem? Como assim? Somos enfim especialistas e profissionais, mas a que custo? Quanto valeu, afinal, o show?

Já li de músicos sérios (gente, os sérios também transam e sabem troçar, não há que ter receio de se aproximar ou credo cruzes de tentar ser um, e seus salários tendem a ser maiores, se isso acaso interessar) que o bom mesmo seria desaprendermos Bach, pois que foi Bach quem nos engaiolou a todos e ainda não se obteve notícia de fuga.

Foi uma maldição, disse o músico.

Eu concordo em partes. Bach sim foi quem nos engaiolou, e sim se se obteve notícia de fuga ela foi amordaçada pela Grande Imprensa, isto é, tornou-se lenda grímmica, lenda fabulosa. Portanto não houve. Mas discordo que o desaprendamos. Seria demais o esforço para perder três ou quatro objetos que já levaríamos à lua de todo modo.

Um de tais objetos reconhece-se pela missa Paixão de S. Mateus, escrita em vida pelo artesão mestre capeleiro e filho de artesão afinador o cervejeiro não porque anti-itália (inclusive os copiava muito) mas porque sim alemão, solícito pai de muitos, dedicado luterano de fé e atacado pelo mundo nas dores sempre anverso das delícias, muito bem por isso, basta ler diários, cartas e biografias, empoderado desde certa neutralidade, o Bach pai do Christian, viúvo da pequena Ana Magdalena. Não é tanto o caso de jogar fora, mas imbricar e ladear a música que herdamos de Bach, essa toda que se ouve hoje cristalinamente bachiana seja doce ou odiosamente previsível a ocasião, por muitas outras novas e insuspeitas músicas. Da mecânica do som à transposição ao Lá menor, eu preferia que Evarildo amarrasse um fio de cânhamo no dente e apertasse os tornozelos da Dorotéia antes de perguntar isso ou aquilo.

Destaco a ária Erbarme dicht de uma gravação que não é a de Gardiner, da qual peguei gosto, tampouco a de von Karajan, lenta sem ser herege, pois o caso aqui não é a peça tanto quanto a transfusão melódica incólume 400 anos dentro até um produto pop oriental, no seio de um dos mais capazes cinemas plásticos que é o de Kar Wai, prova da gaiola, sim, mas também do limite da beleza dentro dela, e de como tudo necessário nesse mundo estava posto, mas foi reposto e reposto, e não se diz se madrugava já o mundo em que fazíamos e fazíamos, sem por que ou por quem, ou nem se faziam por nós.

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