Vigor Vestibular e Progresso

É preciso perguntar se a mais marcante expressão da geração nascida com a República foi seu compromisso com o autoritarismo do Estado Novo. A pressão, que não deixa dormir esta pequena pulga, diz respeito ao que chamaríamos jocosamente propedêutica euclidiana. Simplesmente: teoria dos conjuntos.

Houve esta ambição: generalizar em plano federal os melhores experimentos da inovação escolar dos anos 1920 (citados aqui e criticados aqui).

Quando dissemos, há pouco, “substrato continuado em interesse estético”, procuramos atentar o leitor à causalidade tradicional a unir substrato e floração. Ou dizer que não há erro neste silogismo: de mais ricos solos, mais ricas florações.

Quando o assunto é teoria do ensino, perscruta-se entretanto a compreensão do termo ‘rico solo’ baixo muito mais suor.

Por que teoria dos conjuntos? Porque ‘constitucionalismo’ não está contido em ‘progresso’, mas ‘carro na frente dos bois’ está muito menos. O bem comum não está quando alguns estão praticamente excluídos. Mas o bem comum está muito menos quando alguns estão arbitrariamente excluídos.

Ora, que os paulistas chorassem porque ‘nós que gostamos do povo de verdade’ saberemos o que é melhor não é senão colocar o carro na frente dos bois. Mas o que o choro paulista representa é um conjunto menor a tentar conter um maior: irracionalidade.

Cremos na indução e praticamos a dedução, mas sedução tem limites que sua própria essência brinca de brumar. E por quê? Porque não é de si a procriação, e sim e antes um ganho privado. O princípio da sedução contraria absolutamente a εῖδος República. Demonstra-se, assim, que a expressão mais marcante da geração nascida com a República foi seu compromisso com o autoritarismo do Estado Novo.

Quando entretemos pares de oposição dialética, a primeira e talvez única regra é não entrar comprado no jogo. Não vale, como fez o quase pragmático socialismo brasileiro dos anos 1930, dicotomizar Tradicional–Moderno sem que ambos os termos estivessem considerados integralmente. Num mundo reduzido de saída, a dialética descansa e manda a campo seu simulacro – a velha rinha entre o galo branco e o preto onde um é o bom mas o malvado e perverso é o outro.

O sujeito político é livre para consumir em méthexis aditiva E subtrativa porque interesse estético está contido em ambiência ética. Daí, coincidentemente, diremos não só que estética está contida em ética, mas que interesse está contido em ambiência. Isto porque a εῖδος interesse pressupõe o ‘interesse’ de boa parte dum real que não nos cabe, physis em ὕλη impredicável. Só sabemos de ‘interesse’ o que à limitada humana cultura interessa, enquanto de ‘ambiência’ sabemos com segurança que há muito mais que nós.

Ambiência é amb-ire, sorte complicada de redundância etimológica que se traduziria como ‘ir por aqui como por ali porque vou ir’, ou, talvez melhor, ‘tantas veredas, eu só um’.

Deste adorável prefixo, ‘amb-‘, não é tão curioso apontar seu préstimo a outro termo, ambição.

Ambicionar é mão dupla
Encontro do seu querer
Com outro, meio biruta
Querer do mundo a correr

Nesta pílula ética, Lao Tsé alerta a posteridade dalgo como: ‘seu pai e sua mãe voltarão para puxar seu pé se e apenas se de dentro de si você os livrar’.

Interesse estético a guiar consumo cidadão em meio à variegada floração porque Estado Contínuo é physis*; isto é, a jogo comprado há de tornar jogo comprado*.

An innate and irrepressible desire to judge before he understands (KUNDERA, The Art of the Novel, apud RORTY)

Mas se o labor da physis, sua prática poética diuturna, é passar-nos ὕλη (matéria “cujo ser é outro que não o de cada uma das coisas que se predicam” – Met. Ζ3, 1029 a.) em εῖδος (objeto ontologicamente orientado), cabe perguntar: qual o labor social?

Voltemo-nos ao εῖδος República brasileira.

Foi teimosia sua cesária, erupta na Questão Militar em meio ao seio do segundo Império? Se sim, por que se traça o Mapa Astral do Brasil desde os não menos atribulados eventos de setembro de 1822 em solo paulista, isto é, sessenta e sete anos antes daquele 15 de novembro em solo carioca?

A polêmica nos acompanhará, acampada nas bordas da compreensão, a missões realizar quando de uns transes nasçam cresçam florações – substrato continuado em interesse estético.

A dia-gnose deste jovem projeto democrático categoriza golpes, abusos, fracassos, conspirações e impaciência para que aprendamos a recomeçar com aprendizado e cura ou para que a tentação da exceção se renove?

Cultivar o espírito constituinte, eis uma das marcas políticas mais antigas. E por que, lendo a história, aprendemos que o estado constitucional samba amiúde em negação, quando a exceção é “o horizonte sempre dilatado da normalidade institucional, que por sua vez se expressa na ordem estatal, ela mesma composta por essa coabitação entre Constituição e sua anulação rotineira?” (ARANTES, P. Extinção. São Paulo, Boitempo, 2007)

Se a realidade dual do Estar parece εῖδος inarredável, o desafio será este de não ambular retoricamente dentro da caverna protopolítica. Labor social é compor a Política – sem jamais esquecer de que a alma tende à participação nas e pelas florações. Estudando-as, oferecendo-as e consumindo-as em méthexis aditiva E subtrativa.

Qual o labor social? Resposta: ir buscar, na εῖδος talvez mais distante, a psykhé, sua feição de contragolpe: materializar. É que em Nosso mundo, nada será Não predicável. A via láctea estará “celeste”, o olimpo “extremo”, e os astros a ter “calor”, em termos aqui de Parmênides. Porque celeste, extremo e calor, segue o bardo eleata, “têm o ímpeto a tornar-se”. Emergência do impensado, prática poética diuturna do corpo social, este que rima “o que está por vir e aquele que pensa” (SAFATLE, V. Dar corpo ao impossível. Belo Horizonte, Autêntica, 2019).

Operar Cria e primor é responder physis com physis*. Porque o mais distante aonde vamos, εῖδος psykhé, é lá de onde se vê as outras muitas ideias, libérrimas em nexos, forças e solicitudes, antes que as reconheçamos em physis* e, governantes-governados, as consumamos.

Finito e Ocupado

Ser em Estar – eis a famosa questão pré-socrática (ser ou não ser) atualizada pela física moderna. Com efeito, da ontogênese parmenidiana (eón > noûs > tó eón (dóxa) > kínesis > lógos > eón* (alétheia?) > noûs* >…) à relatividade einsteniana (Tempo está contido no Espaço), crescemos duma questão em negação maiêutica a uma afirmação prescritiva implicada. Será um câmbio mais culinário que dietético ou mais dietético que culinário? Como for, puxará a seu reboque e exemplo, a sua tração e luz, inumeráveis maneiras novas de fabrico e análise?

O dado fundamental deste estágio (estágio que, apesar de todo nosso divinal desejo dum saber imediato, será, como cada passo firme da ciência, apenas literário) é a hipótese forte (praticamente tácita) do continuum quarto-dimensional.

Perceber sua Forma tem sofrido todavia desserviço, infelizmente, graças às distrações que tornam a mesma física – ou o discurso Referencialista  específica. A saber, i) seu pueril cosmologismo axiomático da representação; e ii) sua falta de musculatura, que a não sustenta em paridade aos contumazes inquilinos financeiros e mais ou menos políticos.

Nossa opinião: o continuum quarto-dimensional é indicial e não etéreo (não ocupa nem preenche, mas perpassa). E, arriscaríamos, não é – mas está. Indicial porque faz mídia consequente. Está porque implica-se – não com nada mas especificamente conosco (poderia entretanto persistir ante nossa extinção, e servir-se de coisa vária e melhor). Faz mídia consequente porque foi cativado pela tecnologia psíquica. A inteligência humana, quando buscou nomear, usar e alterar o inteligível, passou a gravar neste continuum. Fenômeno tátil e lógico-construtivo. De certa forma adotados, seríamos componentes Responsáveis e operadores de Cria e primor.

Até a física moderna, portanto, a preocupação filosófica cuidava da ética do Ser. O projeto enriqueceu-nos mas meio que frustrou-se quando realizou seu único rebento: a nada desprezível mas verticalíssima psicanálise do espírito (trauma, pedagogia, reconhecimento…). Do mundo quântico em diante, o pensamento ocidental passa a cogitar não mais a praxe ‘logo será’, mas este estranho ‘já está’.

As consequências desta visão podem robustecer o caminho da ciência (tratada aqui em seu sentido estrito de infanta de 300 anos), mostrando a ela que o sabor do saber é incontornavelmente poético, e que é bom que seja assim. Pode também, porém, conferir à premência política a transição dietética capaz de enfrentar a tensão colocada entre localismo e globalismo. Por exemplo, na organização democrática atual.

região de Campos Elísios em São Paulo | @tourobengala

Em quase absoluta estase e vítima das quarentenas categóricas da conivência do Direito e da ganância, da gestão despudorada e das particularizações exageradas, a organização democrática atual gira em falso, geração trás geração, desperdiçando dínamo em técnica ossificada. Se, contudo, tomada filosoficamente como realidade psíquica do Estado Contínuo, pensar e fazer hão de operar em simbiose à boa e velha maneira ‘oriental’ (aqui no largo sentido ‘orientalista’ das religiões meditativas e minimalistas e ainda assim totalizantes, desprendidas e não dogmáticas e ainda assim disciplinadas) ao compor um desejo político em que a importante Conquista será mais estar do que ser. Já estará, mais do que logo virá a ser.

Pergunta-se: além do alvorecer da delicadeza conectada, a Cidade buscará mais eficiência a partir de menos efetividade?

RAM

Eis que entre plúmbeos, capitosos nhenhenhéns perante as óbvias providências de labor quando de um monstro não sabemos mais que a vida normal nas alemanhas, os trilhões americanos, & as arruaças das baladas italianas, exsurge e prepondera um fato estranho: a força, que força julgávamos, mas força por quiçá talvez não seja – procura nos dizer a virose aquariana –  é – queiramos ou não – ela mesma: a luz elétrica. oo Um governo forte conciliaria os desânimos portanto se convocasse, sem demora, às casas domésticas de famílias, a voluntariedade, por ufana e cidadã, patriótica e solidária, dum curfew irrestrito. Mas sim, das luzes elétricas – este fogo, se nada, fátuo quando oscuro do que o paga.

Por essa, diga você mesmo, pouquíssimas esperávamos. Que das vagas anti-horárias dum frutículo bosquídeo ventosiano convidados fôssemos a retomar, e humildemente, se mais luz elétrica que o arrazoado juízo prudencia vamos lá lançando mão; e, se sim, quanto mais, e – precisamente –, se ainda sim, por quê.

Susanne Ussing | via @saatchi_gallery

Ela desapareceu ia nua – diz no verso quinto de sua ‘Estrela da manhã’ Manuel Bandeira. Não pode ser, lido hoje, que trate doutra coisa que não da luz elétrica, exclamação em si para que a gula de ver quando nem deuses ousariam – e nós, baixíssimos, mortalíssimos, jogando caixeta à luz elétrica, à luz elétrica groselhando polititicas sem ter as Cartas a Lucílio em boa, corada conta –, e daquela sua pseudoengenhosa lâmpada a esturricar mansardas, objeto que com tantos pecou e se objeta hoje em procura: substituir-me ou fazer outras coisas? Uma delas – dormir – pressuporia rombos orçamentários em frascos Weleda – pois que é tua, a parca saúde; outra, cozer às destras mãos que tudo veem, violões dedilhar e trovar à luz da lua, até que alternativas nativas exsurjam e possamos, os notívagos ou todos os em dupla jornada, vagar contrários nos eirados quando o sistema pede silêncio e espera.

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Habacuc é um poeta singular. Escriba a serviço de YHWH no século 6 antes da era Cristã, integra o antigo testamento com três petardos que iriam, na opinião do tradutor, contra a maré profética deuteronomística (esta que prega que a má sorte judaica é castigo), exortando os que às abjeções babilônias sofriam, o aguerrido duma fé praticamente mística:

O Santo virá de uma montanha arborizada, de boa sombra.

Ou ainda (ao Senhor):

Leva-me a escalar as alturas
Para vencer com a Sua canção

Em Habacuc, tudo se passa como se o ékstasis da perseverança trouxesse a força que habilita as próprias alturas escalar, ganhando da negativíssima experiência da maturação a cabeça partida dos poderosos, e dela um tremor nos ossos, horizonte estuporado agilizando, e carruagens apropriassem para que o ir fosse este ir como o dos justos, o ir como o dos necessários.

 

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Flâmeo e cardinal – energizado e transido –, regido pela forja da luta Marte, Áries é o signo do ano 2020, no outonal equinócio iniciado. O fazer originário e entusiasmado ocupará a fronte dos projetos de vida com afinco tocados. Porque traz 2020 todavia Saturno em Capricórnio, este fazer será desviado da livre-iniciativa libertária e empurrado à premência das problemáticas nacionais. Isto porque o cansaço saturnino, animado no torque caprino, torna o fogo ariano (saturninamente) não a sobra que enfeitiçará a messe, mas a salvação da lavoura que houver. Num contexto de sobrepujante internacionalização, sobe a bandeira da mirada interior. O Brasil é pobre de espírito comunitário, o que faz tantos astrólogos pisarem a atenção dum tal #saturno2020:  Cronos – Saturno – antiquíssima entidade e pai primevo, provou tanto dos segredos agrícolas quanto dos vícios das vilas; hoje, empenha a foice como quem sabe escolher. Dignificá-lo será dar ao estandarte ariano o empenho dum juízo desperto, discernido à primeira paixão – esta República.

Se Vênus, por que Diana?

Numa falta de teatralidade típica simplista, a comitiva do Planalto mirou no zen, mas acertou a reunião de pais e mestres sem mestres. Ato inócuo senão pelo homogêneo do efeito, pela saudosa perseverança em orientar, sem ser só isto pois que dando a entender que o filhotismo estatal sumiria e entretanto ambicionando cuidar, como pagens. A resposta à pergunta em pauta, ‘O que quer conosco a Covid.19?’ resumiu-se à manipulação orçamentária, sem grandes surpresas além dum marasmo redundante que deixará em maus lençóis a reputação liberal do governo caso seu corpo não tome o quanto antes prumo felídeo, resguardo canário, crueza d’água e pátina de mordomo. Por que tantos ministros numa simulação de resgate se o senso de resgate há de estar mecanicamente estruturado numa república nova e fragilizada, desigual e débil? Um porta-voz e o relógio voltado à sociedade, sem aceitar perguntas, fariam o trabalho.

‘Ser-lhes vacina’ – a resposta da Covid.19 – pressupõe da população este entendimento: a inteligência simbiótica não será, por finitude tautológica, propriedade de uma espécie, e não da natureza. Antes ao contrário. Caídos ainda do excepcionalismo antropomórfico ao formular a próxima pergunta flexionando os joelhos (pois levantávamos?), seguiremos à brumosa, culposa cláusula que arde e preme o andamento do certame: ‘Mas onde, caro vírus, achávamos ser fortes e não somos?’ (continua)

‘Diana caçadora’ | The Frick Collection

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Num poema dedicado ao fundador do português brasileiro Padre José de Anchieta, Haroldo de Campos ninguém sabe como se imita, melhor que si, e se apresenta, excelentemente, sem por milímetro deixar de carregar o que no corre do poema vai juntando. Instala-se e cresce ciosa do que disse, a peça que versa sobre o vertical encantatório da linguagem e o horizontal da história que à poesia pede explicações. A satisfação é brisante como em suas melhores traduções. Impressionam no transe das cinco partes o cuidado sistêmico dum João Cabral e certo orientalismo taoísta dos hippies giroflex. O conjunto, estância em canárias, está no livro Crisantempo – no espaço curvo nasce um, de 2004.

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Às vezes é a fase que a pessoa está passando mas você não pode potrar sem dúvida diante dos filmes e livros que circulam por causa da uberização, achar que ela é sinônimo apenas de precarização quando ela tensiona, num movimento histórico, à direção saudável da emulsão capital–trabalho. Quando afinco e me sinto afiada numa certeza, ela deve enganar certas sombras donde funciona meu círculo, não enganando outras. Por mais certa, você pode perder a discussão a depender de onde vai e com quem fala. Das duas, uma: ou você topa circular um mundo diminuído, ou você cresce e larga a mão de não andar com as mãos para trás quando tocarem-lhe os tinos do saber revelador. Melhor assim, ganhando assim um mundo do tamanho do mundo. Nasce toda discussão dessa e nessa forma de aprendizado, e nasce assim também a discussão da uberização. Pergunta: a uberização esconde em agilidade jurídica sua mesmice organizacional? A situação estar desqualificada do ponto de vista da seguridade social não me deixa ser desonesta em vão em não notar quando se eleva, o trabalhador que nada tinha, que tudo perdera, que pouco daquele desejado emancipar-se conseguiria, à digna jornada dum dia ganho honestamente na dureza paulistana? O diabo é que nossa normalidade econômica por muito foi troada na displicência patronal, no ocaso jurisprudencial. Cá o capital vingou bancando a burocracia conivente, menos que consciente, e resultou daí a pouca eficácia da musculatura econômica. O jeito é organizarem-se, trabalhadores de aplicativo, num movimento de sindicalização.

Exame de convivência

Do século 20 ao 17 antes da era cristã seriam as edubbas esta instituição escolar na Babilônia Antiga. O que a pesquisa arqueológica traz é pobre, fragmentos que incluem cartas de advertência (não vá o aluno zanzar quando deve estudar), um mestre a tachar um discípulo de incompetente, súplicas à deusa Nisaba que a redação fique boa etc. Não é fácil nem rápido compor a suposta mecânica escolástica de um dos mais antigos berços da prática, do cultivo e do ensino da escrita, mas não é errado supor que muito material soterrado ainda virá à tona.

O assunto da escola babilônica causa febre no meio dos grafólogos. Parece contudo aliado inconteste de uma resfriada frustração, tão antiga quanto a busca. Uma equipe é destacada, incentivada, equipada, vai a campo e passa anos no labor minucioso de sondar e desentranhar os membros de uma família narrativa que não nos supôs e não nos suporá deveras; mas quiçá saibamos nela perceber um veio direcional da grande cultura – eis a mão na massa da história. A frustração documentada é: o time acredita ter achado uma escola, faz o cartaz, a notícia cativa interessados, mas não se confirma. Não era uma escola.

Um caso famoso está numa sala do Palácio de Mari. A presença de bancos paralelos bastaram para que o arqueólogo anunciasse o achado de mais uma edubba. Mas bancos paralelos para o estudo seriam novidade na tradição referencial do que indica ou não indica uma escola babilônica. Além do que, o espaço entre um banco e outro seria demasiado estreito, e aos alunos caberia mais o contorcionismo que a leitura e a escrita.

Conhecido como a pseudo-escola de Mari, o sítio ganhou a atribuição mais provável de depósito de vinhos. Entre o que seriam bancos, guardava-se jarros largos da bebida. As poucas tábuas encontradas não exibiam diálogos entre mestre e aprendiz, exercícios ou lições, mas um monótono controle de estoque. Pode ser, como a frustração de Mari ensinou, que escolas nunca houve em palácios babilônicos. Mesmo as edubbas, pensadas institucionalmente, talvez sejam wishful thinking modernizante, e os achados se restringissem a casas de escribas a ensinar o ofício a pupilos capazes interessados nos poderes de exorcismo, da divinação e da influência régia.

O caso consta em Lire et Écrire à Babylone, uma das muitas fontes que nos botam a pensar na virtude do vírus da escrita. Se a língua é viva, se ainda grafamos o latim transmutado e colecionador, se a profecia é tão atraente quanto a planilha apesar de indisponível às máquinas, por que não escrevemos para a Covid-19, perguntamos o que quer ela compor conosco, em vez de brindá-la com o medo da pandemia?

Inti Samba

Era absurdo zoar o estilo popular de Lula. Porque vinha de onde vinha, isto é, de um dos mais importantes movimentos progressistas do século 20, o sindicalismo, e por coparir o primeiro Partido brasileiro genuinamente trabalhista, o PT, a gente esclarecida policiava a gente mais espontânea quando esta tossia sua frustração pequeno-burguesa projetando-a num homem supostamente sem preparo, sem elegância, sem noção, improvisador, aquém da altura, enfim, do cargo que ocupava. A gente esclarecida enquadrava qualquer opinião ofensiva à imagem de Lula como ignorância histórica e cegueira social duma classe médiazinha branco-sulista que se confunde com o próprio atraso do país. 

Mas não se tratava de ir ou não ir com a cara do Presidente. Sim de aceitar que, aos trancos e barrancos, Lula dava sequência mais ou menos meritosa à atualização republicana de Itamar e FHC. Se gambiarras imediatistas marcaram algumas das transformações mais importantes de seus dois mandatos, não foi diferente nos anos do PSDB. A própria estabilização da moeda foi (ou não foi?) um ajuste inusitado e arriscado cujo sucesso é esta sorte de alvorada rediviva a nos querer mais maduros do que, até aqui, a história ela mesma nos permite.

Incompetência, pressa, afasia teleológica, rabo preso, orgulho partidário e corrupção repetem-se amiúde baixo os mais neuróticos disfarces. A lição zero um da administração pública, a de que gastamos, nós o Estado, nem muito nem pouco, mas mal, é a mais resfriada das platitudes políticas deste falso paraíso, e bamboleia, clichê mofado ou peça sem encaixe, ao largo dos diagnósticos críticos da situação. Confundimos estratégia e visão de longo prazo com vontade de subir nas pesquisas, vencer discussões, rebater jornalismos, mostrar pra eles como se faz – porque o estágio desta infanta democracia assim requer, ou assim permite. (Mas quem permitirá mesmo não seremos nós, o Estado, quando o emprestamos ao despreparo e ao assalto em nome da governabilidade – este vício medonho que leiloa a razão e envergonha as gerações futuras?)

O mundo deu lá suas voltas, e hoje a gente esclarecida precisa zoar o estilo popular de Bolsonaro contra o absurdo de sua falta de preparo, de elegância, de noção, seus improvisos e sua altura, enfim, aquém do cargo que ocupa. Não zoá-lo é enquadrado como ignorância histórica e cegueira social da classe médiazinha branco-sulista que se confunde com o próprio atraso do país. 

Bolsonaro vem no entanto de um dos mais importantes movimentos republicanos do Brasil, este que, antes mesmo de 1889, acordava cedo, acampava, exercitava o corpo, enfrentava intempéries e temeridades para salvar um rascunho pátrio – nem que a golpes (ou não foi?). Que um dia, garantidas substância e extensão, firmar-se-iam as gerações capazes de vingar a dor, a exploração, o mando perdulário dos que aqui aportavam para tirar para si e para fora sem comungar com parceiros colonos a devoção pela terra. Somos filhos de Lula, este tipo que se vê em quase cada esquina brasileira, o quanto o somos de Bolsonaro, este tipo que em quase cada esquina brasileira se vê.

Retórica filosófica rende mais no Direito

A modernidade, período entre a revolução da Idade Média e a internet caracterizado pela cessão, da Religião à Organização, da fábrica dominante de vocabulários e valorações, pôs três desafios à filosofia: tratar da saúde mental com a psicanálise, desmistificar a política com a sociologia, simplificar o Direito.

As duas primeiras tarefas estão resolvidas. Muito do que era problema mental passou à materialidade da terapêutica preventiva. Paralelo, muito do entulho ideológico rendeu-se à organização empresarial da agência pública.

O desafio diante de nós, desde as profundas raízes filosóficas até seus duvidosos semblantes, agora, é a codificação da vida comum.

Vale a pena ler, em Cinco Nomes Brasileiros, a visão da personagem Gonçalves Ledo sobre a evolução jurídica. Não vou me repetir, mas numa casca de noz sua tese é a de que um Direito que nasce belicoso, adensa-se natural e matura contratualista, pode rumar, tecnologicamente, ao lugar novo do ‘universalismo estimulante’.

Cansado das ineficiências do prestidigitacionismo e do punitivismo (as fraquezas da fala que teme muitos erros e fantasia punições), esta importante ferramenta que garante a prosperidade na complexidade pode exercitar a possibilidade de, sem deixar de balizar, estimular em primeiro lugar.

É importante entretanto que a ânsia não se imponha à espera aplicada.

Pendularmente falando, será ora mais da ponta escolástica da exegese católica que a cadência virá. Ou, mais natureza e ecologia, menos cidade e economia.

A retórica, produto citadino, é um dos objetos que saem perdendo para viver.

O que era um desafio, assim (largar os vícios da psicanálise e da sociologia), viram dois (largar os vícios da psicanálise e da sociologia + fazer sucesso com o filho do Homer Simpson). Não porque de repente ele é capaz de ameaçar, mas pela oportunidade aceleracionista inoculável conforme aproximações felizes aos fluxos hipertextuais.

A perda maior da fala filosófica é a ironia. Toda e cada ambiguidade inoperante assim as acusam bandeiradas graças à prevalência da maior inteligência nas redes neurais.

A segunda perda advém da intolerância deste Espírito Santo que se tornou a inteligência nas redes neurais. Está castrador viver fora do camelô, numa casca de noz.

Então, quando anunciam coordenação de espelhos no espaço para mensurar a massa escura, ou quando pousam robôs em cometas, cada homem e mulher questiona à noite em sua solidão tremenda e bela no milagre da vida o que o camelô teve que ver com tais façanhas.

Nosso poder tocaria projetos tão difíceis? Influenciar estudos de décadas e bilhões nas mãos de poucos, é coisa nossa?

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A fixação pelo poder de não morrer e prosperar (grandes achados da psicanálise e da sociologia) fez a gente confundir, graças ao Direito defensivo demais de um mundo que cresceu, no temor das diferenças, conquistando, soberania do sujeito com chance de submeter: será pela decadência do outro que restarei eu contente.

A culpa é da fala do Direito, cuja maturação em má postura talhou a transgressão à imagem do desejo.

Não é segredo para ninguém que num país como o Brasil, ou se segue as leis certinho, ou se tem muito dinheiro. Nenhuma das duas coisas não dá.

Tal clichê é sintoma da inoperância (erro, excesso, ou bug) deste incesto: as leis são a sala de espera do mercado.
De tudo o que a cultura inventou, o mercado escolheu a menos imaginativa das falas para desenhar seu círculo de giz. Dentro, pode brincar conosco. Fora, vença-nos. Por quê?

Porque quando herdou o mundo religioso, a organização econômica comprou, na lebre da influência, o gato do militarismo.

Este ‘fora’, enquanto ‘fora da lei’, não raro sucede, em nosso imaginário, no ferramental militar da execução, da sujeição e da conquista.

O Direito, guarita da vida na cidade, dá forma aos sofrimentos do medo radical de morrer e de ser passado para trás na tensão reta e binária, hierárquica e sumária, entre gozo e transgressão.

Fecha-se, assim, a tríade marmórea, ou material da arte filosófica moderna.

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Dissociar o Direito de seu quadrado romano, porém, não será apenas regredir a conversa ao encantamento da intelectualidade mística, por mais voga que essa contracultura hoje cultue. Será, inclusive, ler nas utopias contemporâneas os futurismos esforçados em fazer mais com menos.

Método, disciplina, mensuração, controle, eclodem dos mosteiros à burguesia mas aqui esmaecem. Por quê? Porque vulgarizam-se quando associados às ansiedades?

O romance, quando equivalente ao Netflix, nasceu didático e não resistiu à decadência e à autoimplosão. Sua jornada tão rica pode ser lida também como sintoma: a tristeza do poeta (o espírito do tempo) diante da apropriação econômica da nobreza das campanhas de conquista de mercados e aculturação via consumo era uma traição militar. Por isso recolheu-se à símile da loucura e do abandono, o romance, até sumir.

O que nem os poetas, no entanto, poderiam imaginar naquela altura, é que a nobreza do Cruzado se safava naquilo tudo o que, em verdade, precedia as campanhas mas nunca as acompanhava. Aquilo tudo que São Inácio vê quando pendura as armas e vai à obra: proceder é

com ordem e concerto, e com a faculdade íntegra para fazermos constituições entre nós, segundo nosso modo de viver julgar mais conveniente

Para que entendamos a importância de se aplicar hierarquia não nas distrações, mas naquilo que importa, leiamos com calma o que diz São Inácio.

Ordem e concerto são o princípio desta recomendação, recolhida de correspondência pessoal datada de 1539, quando nascia a Companhia de Jesus. Conceitos indisputáveis a qualquer razão, ordem e concerto frequentam os cumes da relevância ocidental e também eurasiática e oriental — prova de um universalismo, pretendido ou não, real.

Em seguida, predicado e verbo indicam as duas colunas do engenho civilizacional: apenas o discernimento ideal tirará da ação o bom fruto.

Por fim, um misterioso açular, também confundido, mas sem inoperância, com a facilitação ou o estímulo: nem final, nem teórico, o moralismo do dia a dia é sobretudo contextual.

Lembremos: apontar um sítio não é chegar lá. Jornada é gozo contínuo, mas confronto tende ao elogio da burla.

A espera a que nos guardará a revolução do Direito na era da internet será esta de passos rumo à bioconstrução dos códigos universais, termo a termo, linha a linha, Estado nacional a Estado nacional.

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Da família: capítulo II.3

Na seção II, dedicada ao arquétipo da Mãe, o terceiro capítulo (Mãe Bahia) traz um texto dramático sobre a Insurreição Praieira. Como introito e pano de fundo, comentários sobre o poema Auto do frade, de João Cabral de Melo Neto.

LEIA AQUI O CAPÍTULO II.3 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo

Da família: capítulo III.5

Neste capítulo, a ideia da escola é retomada com a ajuda do filósofo e educador norte-americano John Dewey. O elemento central, no entanto, não é a Escola, mas a Previdência. Questão longe de resolução no Brasil e no mundo, a perspectiva pública a uma sociedade que aos poucos envelhece merece novas e mais arejadas formas de ser discutida. Proponho, num breve conto de ficção científica, a criação de uma estatal (OZ) que irá empregar os mais experimentados cérebros da sociedade na função objetiva de regulação econômica.

LEIA AQUI O CAPÍTULO III.5 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo

Da família: capítulo I.2

Aproveito o clima de transição, em que os assuntos circulam tensionados nas prioridades evidentes, para alimentar a discussão de uma prioridade implícita e não raro carente da devida atenção: a Escola.

No link abaixo, o capítulo I.2 de meu livro-ensaio publicado em 2017 pode ser lido na íntegra. Entre outros assuntos, começo a esboçar a ideia de uma escola pública, a meu ver, atual e possível.

LEIA AQUI O CAPÍTULO I.2 do livro Da família: um longo ensaio imaginativo

POLIGRADO

Tomem um esboço de aplicação de engenharia social.

O apelido é Poligrado, pois parte da visualização de um sólido de oito lados visualizável em capacitações de realidade aumentada e que almeja tocar, em mecânica progressiva de estágios (graus), as principais estâncias da vida.

A interface cidadã de avaliação holística pode ser instalada em governos eletrônicos com forte correlação, por exemplo, a descontos no Imposto de Renda. Modo transparente e seguro de nudging, que troca a generalização nominalista da legislação e a assombração das patrulhas coercivas pela sanidade lúdica e longeva do entendimento.

O usuário pode ser avaliado momento a momento, dia a dia, semana a semana etc, de acordo com parâmetros emprestados à expectativa social e às contingências individuais. Pontua de ZERO a UM, em cada um dos sete aspectos ou faces (realms da vida social) do poliedro, sendo reconhecido e/ou recompensado pela média simples e dinâmica.

Idade, ocupação, localização, índices fisiológicos, objetivos para o ano (por ex.: perder 30Kg, correr a São Silvestre etc) e situação socioeconômica indicam o regime aconselhável para o corpo. Não em alimentos específicos, mas em nutrientes, quantidades e frequências. O desafio é buscar o necessário sem abrir mão da aventura dos ingredientes, seus múltiplos preparos e funções bioenergéticas. Se come fora de casa, estabelecimentos cadastrados podem oferecer refeições montadas a partir da pontuação desejada pelo usuário. Se come em casa, busca na rede de usuários com a mesma biotipologia recomendações e dicas preciosas. Um sensor ingerido pelas manhãs pode monitorar a eficiência de cada alimentação e bocado em tempo real.

Idade, ocupação, localização, índices fisiológicos, objetivos para o ano (passar no vestibular, curar dores crônicas etc) indicam o trabalho aconselhável para o corpo. A rotina de exercícios para tonificação muscular, resistência cardiovascular, equilíbrio biodinâmico e qualidade de movimentos observada diária e semanalmente é constantemente atualizada a partir das respostas lidas e processadas pela programa. Além da ginástica propriamente, o usuário pode optar por ser lembrado, ao longo do dia, de oportunidades de ‘exercício fora de hora’ que o ajudarão a antecipar a meta de trabalho em ocasiões como a fila do banco (onde é possível ficar num pé só e recrutar a musculatura transversa), a demora de uma ligação ao telemarketing (em que é possível realizar diversas respirações com a contração do abdômen) etc.

Cuidar do corpo, íntimo habitat, leva o usuário a cuidar da casa, corpo do corpo, morada reclusa para restauros, fazeres domésticos, cultivos próprios. Neste pequeno zoneamento, aprende-se a reconhecer as vias da limpeza, do lugar das coisas, da fluidez e da harmonia espacial. Daí se expande, por apropriação parental, um saber afim do apropriado e do leve estar até outros, mais abrangentes perímetros: o condomínio, o bairro, a cidade, a nação, o planeta, o cosmo. Sob o imperativo da necessidade e a resolução da ordem, habitua-se. Trabalha-se em vigência contínua e irrevogável pela saúde dos corpos que nos contêm. Resíduos, descartes, pegada de carbono, economia energética, inovações pela longevidade da casa. Pontuar, em EKO, é entender-se extensão da matéria comum, uno com todos os corpos.

Sua por assim dizer ocupação profissional não é, nem deve ser, o fim do mundo, do dia, das forças, da sensibilidade. Ciente de que o homem do terceiro milênio não é filho de hippie com yuppie porque curte aprender e experimentar novidades, desfrutar do tempo livre para tocar o mundo com curiosidade ingênua e andar a esmo atrás de iluminações serendípicas, o usuário dedicará boa fatia do dia à geração de renda, mas tão boa quanto enxuta. Seu trabalho econômico, entretanto, é mais largo que o holerite. Incluirá as tantas outras trocas sem valor monetário explícito de que seus interesses e possibilidades são capazes. Aprender, ensinar, doar, compensar, realizar, voluntariar-se, projetar, cooperar, reformar, ceder, consertar. O objetivo de um contato menos dinheirista e mais virtuoso com a economia será domar a angústia em que o imaginário de um consumo exagerado e desnecessário aprisionou o trabalho e a ambição.

Partícipe, o usuário nunca está completamente satisfeito com seu círculo. Sobram contatos, faltam contatos. Discussões empacam em vícios circulares. Preconceitos se ossificam. O léxico perde o sabor. O que era festa vira deserto. Buscar novas redes, ainda que a partir da postura muda do etnógrafo, faz-se vital para manter ativo e vibrante o pulso relacional. Aprender, mudar, arriscar, transformar-se, fazer cada uma das significativas coisinhas que dão colorido à vida estimuladx pela adrenalina renovadora da pertença a novos grupos. Investigar tradições que lhe eram estranhas, familiarizar-se expandindo de novo e de novo seu círculo.

Não é porque se trata de um experimento imaturo que abandonaremos a democracia americana aos carreiristas resfriados e ao status quo insensível. Antes, o usuário Poligrado agarrará a política como a um filho perturbado, sempre próximo, cansado de bullying e de ser tirado como o boboca da vila. Trará a política ao plano achegado, no nível dos passos que se cruzam e se saúdam no passeio. E sobretudo falará. Exerce o direito à voz e toca os problemas que nos tocam, em discussões abertas e mediadas pela hierarquia dos saberes. Tomar partido é expressar confiança em quem merece confiança, mas é também publicar o pensar próprio na discussão, na redação, na ação. Votar a cada dois anos não rende ponto algum em POL.

Ligar os pontos, investigar os trabalhos que salientam e enobrecem o percurso de uma espécie capaz de recriar a experiência de mundo ao articular linguagem com técnica e ciência histórica. Mistério disponível, claro enigma, convites à percepção e à luz, à dúvida e ao assombro. Debruçar, dar tempo, se perder nos objetos de arte que atraem pelo que negam do mundo em si, pelas mentiras que expõem para desdobrarem-se verdadeiros e maleáveis, pelo fracasso que superam tecendo pontes abissais e desfiladeiros virtuais. Não é a arte papo só para especialistas ou obsessivos, mas para quem nutre o que de melhor é capaz seu Homo sapiens. Pontuar em FIC é curar um museu inteiro para si, ser crítico e poeta relacionado a outros tantos, demorar-se não no prazer que dão, mas na trajetória trabalhosa em que nos dispõem algumas obras, do arrepio inicial à análise refletida.

Se não é filho de hippie, o cidadão (CIT) tem certo afã por aperfeiçoar os modos, evoluir as técnicas, fruir ativo a máquina do mundo. Se não é filho de yuppie, encanta os corpos e objetos na nobreza simples do pé no chão, sem pressa nem botões apertados no gogó. Não pretende entregar completamente sua sensibilidade aos algoritmos na medida quase mesma em que não pode dar as cosas à novidade da inteligência artificial. Conquanto não despreze a priori nem abrace apenas a posteriori, jogará criticamente com o advento da performatividade ubíqua usando-a qual aliada leal e domada. Há valor no mérito, há beleza na recompensa justa dos esforços, e se a poesia da vida se abre aos números sem o prejuízo da ordem civil, todos podemos melhorar enquanto tudo melhoramos.

NEM ME LIXO

Porque:

1) São Paulo tem dificuldades de limpeza;

2) A contratação de “varrimento” (é muito mais que isso) está emperrada por desacordo entre poder público e pessoas jurídicas do direito privado;

3) O lixo acumulado obstrui a mobilidade e o bem-estar;

4) Está mais do que na hora de pensarmos, sociedade civil, num trato maduro com o lixo que nós mesmos produzimos (por que descartamos/aceitamos descartar o que descartamos, para onde vai tanto lixo, por que não tratamos no nível local, por que esperar que outras pessoas cuidem do descarte que é nosso etc)
5) Temos tecnologia de telecomunicação, mobilização, competição, performance, verificação e estímulo e difusão midiática;

6) As telecomunicação, mobilização, competição, performance, verificação e estímulo e difusão midiática da internet atual nos colocam ESTAGNADOS numa ‘caixa de areia’, jogando a versão degustação de sua potência instalada, beirando a neurose que resulta da frustração ou do déficit entre a potência instalada e os atos de transformação do mundo (tentando ‘resolver’ a ansiedade por meio de apelos de transgressão, como quem diz “olhem pra gente, pra nossa coragem, pro nosso tamanho” etc),

sugiro darmos o passo que NÃO SERÁ DADO POR NINGUÉM QUE NÃO NÓS:

DA CAIXA DE AREIA PARA A DEMOCRACIA.

— Como?

Operando a transição ativamente (sem esperar instruções e estímulos prontos, posto que muitas vezes aceitamos segui-los sem entender o sentido daquilo, e como aqiulo de fato colabora com a obra humana no planeta) mas começando devagarinho e docemente.

— Dá um exemplo.

Sim. Vamos crescer a ideia, aqui em sinopse, do jogo

NEM ME LIXO


• Consiste o jogo NEM ME LIXO, primeiramente,
na assunção do problema do lixo
como um problema importante e comum •

Se estivermos de acordo que
i) o problema do lixo é importante e comum,
ii) a situação emergencial justifica intervenção radicalmente inovadora, e
iii) o exercício pode ser um bom laboratório em grande escala da gradual transformação democrática (afinal, por que faríamos política à moda antiga com as ferramentas atuais?),

então, e considerando sempre
que o problema foi considerado comum e importante,
NEM ME LIXO pedirá em seguida que:

A) o contingente populacional interessado em participar se agrupa em categorias de SKILLS (por ex.: desenho e/ou fabrico de transportes leves e ferramentas de coleta; desenho e/ou fabrico de estações portáteis de tratamento (separação, adensamento, eliminação química, geração de material reciclado); desenho e/ou fabrico de objetos reciclados e soluções de reuso; mão na massa (todos));

B) o contingente populacional interessado em participar se agrupa demograficamente (distritos);

C) uma vez agrupado em uma ou mais skills, e pertencente a um distrito, você pode, na fase emergencial do jogo, ganhar preciosos pontos cósmicos (numa outra oportunidade eu revelo os detalhes dessa pontuação) conforme mostre VALOR REAL à comunidade humana e transforme visível e concretamente a situação da vida (o que de modo algum impede que a aliança mercado Estado premie as performances de modo mundano)

Atitude não será obedecer o que nos chega imposto ou pré-formatado. Isso seria tentar forçar virtude libertária em eventos cujos significados profundos, justificações públicas e consequências materiais restassem escondidos ou simplesmente ignorados.

Antes, faremos nós o desenho do jogo a partir da constatação evidente de compartilharmos uma cidade problemática, espaço público adoentado, pessoas jurídicas de direito privado essencialmente apartadas da preocupação humana, e um poder público sobrecarregado por prioridades múltiplas numa organização obsoleta.

NÃO DARÃO ESSE PASSO POR NÓS

Se não nos movermos antes, dignificando a alta potência da internet e sua genial arquitetura com um impacto de transformação em grande escala, concreto e estruturante, restaremos de novo e de novo atrofiando o cérebro na caixa de areia, falsamente livres, mas nas mãos condutoras de atores com interesses não necessariamente coincidentes com o bem comum.

Sendo esta apenas uma semente, sintam-se à vontade para crescer.

Quais os DEZ piores problemas brasileiros?

Em solidariedade à corrente, publico minha lista. A instrução é elencar a hierarquia e redigir um parágrafo a cada problema, com diagnóstico e prescrição.

1) SAÚDE

Problema ecológico central, a saúde é o maior agente econômico. Da saúde dependem a produtividade e a riqueza. O Brasil é vítima da medicina da doença, quando a medicina deve dar as coordenadas ao viço. Não se trata de uma medicina da prevenção, mas medicina do viço. Contra a medicina da doença, pela medicina do viço, está no SUS a principal empresa do Estado. Tecnologia da informação (sensores, inteligência artificial, nanorrobótica, edição genética) e revolução agronômica podem dar ao povo a mais concreta soberania da terra, a saúde do corpo. Para isso, o Estado deve antecipar, ou jogar junto a, a entrada das grandes corporações de serviços da nova medicina. Se não o fizer, apenas os mesmos 5% terão acesso às novidades. O resto terá de esperar as obsolescências dirimirem as margens de lucro e chegar, como sempre, atrasado.

2) EDUCAÇÃO

Azedo, o termo desperta pesadelos em adeptos das liberalidades da formação. Ideias como pós-schooling, self-schooling, e mesmo no-schooling, confundem-se com decisões desimportantes como escovar os dentes com cúrcuma e o movimento no-poo, que abre mão dos shampoos. Mas escola não é paranoia. É cerne estratégico do desenvolvimento, e dela dependem mão-de-obra, pesquisa, policiamento e refinamento humano e cultural. Prescrição à Nova Escola fiz neste livro. Faltou comentar a Universidade e a educação continuada. A Universidade fica, mas estritamente federal e para 30% da população (quem quer e consegue). O restante pode ser técnico, artista, desenhista, faz-tudo, roceiro, diarista, atleta e feliz longe das teses e arengadas. Além disso, imagino uma instância ainda inexistente, também pública e também excelente, responsável pela educação continuada. A escola perpétua, disponível a qualquer trabalhador afim de reciclar seus saberes e aprender, usando a novidade digital, novas artes e conceitos.

3) INFRAESTRUTURA

As redes brasileiras despencam, e a cada furo damos novos e seguros passos de submissão ao neo-colonialismo. O problema, antes de governança errática, é déficit de engenheiros e cientistas. A solução é formar profissionais de ponta no médio prazo. No curto, importar saber junto às concessões. Que as empresas que cá venham subir pontes, portos, estradas, esgotos e teles prestem-se a abrir os códigos e capacitar nosso humilde contingente.

4) ORGANIZAÇÃO DO ESTADO

Legislativo e executivo não respondem à premência de um corpo estatal forte e ágil. O Estado é letárgico e custoso, e a culpa é menos de seus ocupantes do que do desenho em que se apoia. Uma nova forma (ler postagens anteriores como esta e esta) implica usar a) o suprassumo da possibilidade digital para discussão, deliberação e efetivação parlamentar, e b) a moderna governança corporativa para um poder executivo impessoal e levíssimo, condutor de um orçamento e de um cronograma, auditável e transparente como qualquer empresa viva. O lastro restaria no Senado, reconfigurado como Conselho Administrativo eleito anualmente, com poder de veto e impeachment, ocupado por senhores e senhoras nos quais vemos nossos mais virtuosos pais e mães.

5) ECOLOGIA

Erramos no destrato ignorante e não raro cruel da natureza que Deus nos deu. É nosso maior pecado, e a cada dia em que se repete (resíduos, extração irresponsável, maus tratos, extermínios), nos afastamos do congraçamento cósmico. Toda a força militar de um país na nova era (pós-Singapura) pode ser direcionada à salvaguarda do santuário planetária do território. Cada bioma é um órgão sagrado e feliz do organismo nacional, e dele somos membros em unidade e gratidão. A chave para o reequilíbrio econômico (preços, taxa de lucro e salários) está no enaltecimento ecológico.

6) ECONOMIA

O Estado letárgico e custoso emperra a circulação de bens e valores num ponto distante demais do ótimo, mas a crítica chega invariavelmente tarde e aponta os sintomas linguísticos antes das causas fulcrais. Se é coluna gêmea à Ecologia, a Economia muda de roupa. Joga fora os trapos fedorentos (“crescimento do PIB”) e aprende a formular novas e mais interessantes métricas. Hoje, toda a teoria e comentário são escravos de métricas pensadas antes da primeira guerra. É tempo de cogitar modelos mais desafiadores da mesura do bem-estar, da alegria, do conforto, da satisfação, da realização, da vitória e do consumo.

7) CIDADES

Desde a Constituição de 1988, criar cidades tornou-se gincana de currais e coronéis. A atitude das câmaras de vereança nos rincões é um vexame avassalador. Também nas grandes cidades vê-se distância e esfriamento do povo ante as políticas locais, e as eleições às prefeituras são dramaturgia esquizofrênica. Mas a política será cada vez mais local. Urge plantar a semente do engajamento cidadão. Na esteira do clarão do SUS com a saúde do corpo, o corpo doméstico, do bairro e da cidade merecerão cuidado tátil e maternal. É vivendo e usando o espaço público que entendo entende na prática o que é o bem comum. Por dela me servir, cuido. A cidade deixa de ser de ninguém para ser de todos.

8) ENERGIA

Combustíveis fósseis e carvão matam. Hidrelétricas ferem e traumatizam. Linhas quilométricas de transmissão são tão inteligentes quanto pedir que passem o sal de lá do outro lado da rua. Saleiro é coisa pequena, melhor ter em casa ou pegar no vizinho. A energia está no ar, no sol, no vento e em todos os corpos e coisas. Linha de transmissão é incompreensão biofísica. Pagar por energia é ruborizar o Imposto de Renda, pois é tão grátis quanto um chumaço de cabelo. Aí, o caso é pensar novo bem novo, investindo em laboratórios avançados. Antes, fazer a lição básica e urgente: trocar tudo por geração fotovoltaica e eólica da forma mais local possível.

9) PESQUISA E DESENVOLVIMENTO

Onde está, e o que é, a vida? Água escorrendo num balde é vida? Estamos fora ou dentro do Universo? Somos que sorte de experimento? Como conversar com a inteligência cósmica? O que é o desejo? Como burilá-lo? Como transformar o desejo na mão que a luva do trabalho vestirá? Como faço para construir minha própria casa e ser feliz fazendo o que bem quero da vida? Onde está meu jet-pack propulsivo para um rolezinho em sobrevoo no vale do Paraíba? Ficamos de braços cruzados esperando alguém resolver?

10) AMÉRICA LATINA E LUSOFONIA

La Mancha e Bahia, Cervantes e Camões, Tamanduaré e Pastinha. Villa-Lobos é pura Nova Espanha, faz-se ótimo samba na Colômbia, Angola tem mestres poetas, e o portunhol é mais fácil e bonito do que muito paredão do BBB. Hoje numa livraria não há seção lusófona, não há ensaísmo da nova voz venezuelana. A política externa reserva-se a grandes tratados comerciais e eventos brocochôs. Quero ver minha filha de motocicleta cruzando o continente, ouvindo despreocupada um batuque moçambicano, parando para cozinhar frijoles, beber um mate, mordiscar uns milhos.

Ainda sobre a razão do Estado

Foram tantos os pedidos, e alguns até sinceros, que dominei o asco do sábado operoso e cá voltei disposto a polir atritos. Leitores engajados escrevem da impraticabilidade do exercício democrático sem partidos políticos, “porque é na expressão polarizada que as ideias amadurecem”. Quanto ao razoável reclame, tenho duas respostas:

1 – Na postagem de setembro de 2017, escrevo,

cada assunto específico merece, no grau zero do Congresso, as melhores cabeças disponíveis. Sem partidos que não os que aquele assunto mereça. Partidos cujos nomes e slogans se formam não previamente, mas em consequência dos dilemas tangíveis e tecnicamente defensáveis.

Partidos políticos costumam trazer ao chão do Congresso suas grandes decisões pré-fixadas. É por isso que, em 1997, a reforma da Previdência foi inviabilizada, e é por isso que, vinte anos depois, ela ainda não aconteceu. Ali, abrem-se os partidos apenas a negociação de minúcias, às vaidades dos ocupantes que confundem a fala política com uma carreira profissional, e, no comum dos casos, ao oportunismo. Mas entendo, ante a tenra idade da democracia brasileira, sua dentição infanta, incapaz de triturar desafios nervosos desde o empenho mandibular de um jaguar azul escuro. O que nos leva à segunda resposta, uma espécie de papinha de bebê a par a nossa realidade por assim dizer ‘gengivosa’, contando aí amplos setores da imprensa conservadora, das elites, e entre elas especialmente a paulista – fonte da cisão ilusória e ressentida que apartou PT e PSDB e atrasou o Brasil –, bem como os medrosos fracos em geral.

2 – E se cogitarmos um parlamento dinâmico desde que a realidade partidária fique como está? Possível, porque a extinção dos partidos é menos importante que a aceleração dos projetos consensualmente prioritários. Daí, um grande número de eleitores seria impelido à filiação. Isto é, em vez de extinguirem-se, os partidos são ocupados pelo povo. Em tantas castas de ofício quanto possível, contribuintes eleitores seriam encorajados à filiação partidária para, em seguida, habilitarem-se ao serviço de deputação. A saber, representar o povo nas pautas abertas do Congresso Nacional. As duas vantagens principais do parlamento dinâmico, ainda assim, permanecem, pois elas são, a) maior velocidade e objetividade na discussão, posto que tocada por especialistas; b) concomitância de mais de uma pauta, pois se é dinâmico e operacionalmente digital, diferentes discussões e votações podem se dar ao mesmo tempo. Para tanto, porém, reafirmo a importância de que o maior número de cidadãos escolham uma sigla e filiem-se. Assim, as 700 cadeiras do Congresso são ocupadas, a cada votação, por contingente proporcional às filiações. Se a pauta é, para mantermos o exemplo do texto de setembro, a bioética e a edição genética por empresas privadas, cada partido apresenta sua lista de deputados pré-qualificados para o assunto, a partir de um critério único de qualificação. Em seguida são sorteados, entre os pré-qualificados, os ocupantes das cadeiras. A discussão acontece via internet, e cada partido aponta seu redator-chefe. Juntos, têm a missão de conduzir o texto do projeto. É a assembleia documentada em todas as suas comunicações e acompanhada passo a passo pelos cidadãos.

Resta lembrar que o parlamento dinâmico resolve parte do problema da reforma política aqui imaginada. A outra estaria em mexer no executivo por meio de um drástico enxugamento organizacional. Um presidente e quatro diretores (Ecologia, Economia, Redes, Escolas) são subordinados ao Conselho de Administração, o novo Senado. Este deixa de existir como cancela arrastada da Câmara e assume a voz sábia do ancião nacional macho-fêmea. O time de cinco executivos, alocado com seus gerentes num prédio por exemplo da nova Faria Lima, daria conta de tocar o Orçamento e administrar os problemas da União. O que me leva à conclusão, provocativa mas a sério:

Por que não esvaziar Brasília da política, cedendo as edificações ora ocupadas pelo poder público para a iniciativa privada? Uma licitação de ocupação restrita à área de tecnologia pode fomentar, na cidade sobre solo tão próspero em minérios e de arquitetura idílico-futurista, uma espécie de vale do silício brasileiro, com Universidades, laboratórios da vida digital, da nova medicina, da realidade aumentada e da inteligência artificial, com amplo trânsito de start-ups, ted talkers, venture capitalists e anjos.

Declaração de eleitor: qual a razão de ser do Estado?

Não há, na hierarquia democrática, instância superior ao povo. Isto está implícito no radical ‘demos’. No entanto, a impressão é que tudo se passa ao largo de sua vontade, como se fosse o povo irrelevante ou mesmo inexistente. Prova disso é a abominação dos jovens e o cinismo dos mais velhos quando o assunto é a República. Ninguém, tirando políticos e jornalistas, parece levar a sério o assunto mais sério do país.

Diria que estamos cansados e chateados com a possibilidade de mais uma mera encenação eleitoral. Nela, partidos tentam colocar as forças carismáticas dos candidatos na frente do poder das ideias. Trocamos discussões sérias por slogans, pautas mecanizadas, e, o pior, por falsos conflitos que visam alimentar o embate meramente dramático, mas contraproducente, entre ‘oponentes históricos’.

No caso brasileiro, sabemos bem onde isso acaba: desperdício, arengada na tv, vitimização do executivo pela grotesca ideia de uma ‘governabilidade’ construída na base da chantagem, e um legislativo ocupado pela velhacaria, generalista em seus saberes mas muito específica no abocanhar dos privilégios.

Neste contexto, repito a pergunta do título, legítima a um eleitor preocupado: qual a razão de ser do Estado? A obra definidora de um povo reunido num perímetro territorial a comungar história, língua e Constituição, não deve ser compreendida como a obra das obras? A primeira? Mais importante? Donde todas as outras derivam e pela qual validam-se? Ora, como prestar atenção em qualquer trabalho quando olhamos para o retrato do Brasil, da redemocratização para cá, e percebemos a sinuca de bico de sua fundamental situação?

Antes de desesperar, jogar tudo na mão de um santo ou partir para o estrangeiro, arrisquemos um diagnóstico. Se os poderes da expressão do Estado funcionam tão mal e são tão mal avaliados por nós, o problema será exclusivamente das pessoas que ocupam seus cargos? Ou haverá algo de drasticamente obsoleto no desenho de seus mecanismos e processos? Defendo a segunda hipótese.

Acredito estarmos presos numa vala circular de desperdício, ineficácia e sucessivos simulacros e soluções tópicas, especialmente na relação mais impactante entre Executivo e Legislativo. Está aí, a meu ver, a raiz do problema que enfraquece o Estado e abre espaço para as muitas ameaças de anarquizações e neocolonizações. O motivo da prisão nesta vala nefasta e viciosa, eis um palpite, seriam os maus hábitos da política feita por partidos – e não por nós.

Como proceder? Se o palpite estiver certo, o próximo passo seria cogitar, seriamente, o fim dos partidos políticos, e a consequente reconquista da política pelo povo, maduro e informado como nunca. Por exemplo via plebiscito: os partidos políticos merecem viver ou devem ser extintos? Se a primeira opção ganha, seguimos participando como hoje. Talvez melhorando um pouquinho o Congresso a cada dezesseis anos, talvez entregando o executivo a uma aliança menos neurótica a cada vinte.

Caso a segunda opção vença, e julguemos possível renovar radicalmente o funcionamento do Legislativo e do Executivo sem a intermediação partidária, teríamos pela frente um trabalho novo e estimulante. Um trabalho capaz de reaproximar a política não de um povo que aparece uma vez a cada quatro anos para votar, mas que vive e influencia a política e seus assuntos diariamente. Não um povo ‘representado’ por políticos de carreira, mas o povo ele mesmo a sentar no Congresso e conduzir as discussões. O povo ele mesmo, e não uns jogadores de partidos, a cuidar do orçamento e dos cronogramas, da transparência e da cobrança.

É provável que os partidos tenham sido importantes para a maturação democrática em tempos passados, quando era larga a desconexão e irregulares as ilhas de acesso a informação. Hoje não é o caso. O acesso à informação quebrou barreiras e a teoria avançou. Quem estuda e articula sem cinismo nem má fé enxerga a dissolução ou união de antagonismos europeizantes e mofados em autoevidentes e urgentes prioridades. Em setembro do ano passado, esbocei as ideias do parlamento dinâmico e do executivo tecnocrata. Sigo acreditando. Contra o Brasil atrasado, pelo fim dos partidos.

Declaração de eleitor II

Porque:

1) Desde o impedimento parlamentar da Sra. Presidente Dilma Rousseff o governo federal assumiu viés centrista;

2) O viés centrista, por natureza, trabalha por transição impondo, antes de agendas, algum temperamento à ordem civil;

3) Usamos, cidadãos e empresas, ordem civil temperada para contrastar e discutir alternativas aos problemas centrais da Nação;

4) Tais alternativas serão, daqui em diante, desenvolvidas e apresentadas por quatro oposições ao centro atual, na forma de concorrentes planos de governo;

5) E porque não diremos situação versus oposição, mas oposição versus oposição,
eu, na qualidade de cidadão e livre pensador, proponho as seguintes chapas, além das duas já apresentadas, sendo elas quatro e apenas quatro para evitarmos o desperdício de tempo e paciência em desvios, delírios, falsos problemas e pequenezas:

Chapa SB: Marina Silva + Joaquim Barbosa

Chapa DB: Manuela D’Ávila + Guilherme Boulos


Porque:

1) Marina, além de mulher séria e de palavra, é sensível e elegante, qualidades que urgem num país em processo de embrutecimento. // Magistrado e herói nacional, Barbosa é capaz de espantar a desconfiança da direita pragmática aos “amigos da floresta” com sua aliança ao capitalismo solene. // A esquerda natural, não cooptada por militância de cartilha, compartilha com Marina o anseio pela viravolta ecológica da política, rigorosamente humana e igualitária. // Barbosa, à mesma esquerda difusa, não é motivo de repulsa, não sendo em si capitalista, mas antes homem de ofício com história de vida inspiradora, tal e qual Marina.

2) Manuela e Boulos, lideranças relevantes da nova esquerda teórica e prática, são os únicos entre os oito candidatos capazes de imaginar a renovação radical e abrangente da política. // Diz-se não teriam chances em 2018, mas sem eles o debate giraria em falso, extorquindo do eleitor o sonho e a chance de imaginar com sanidade e alegria o futuro de uma democracia agonizante. // Suficientemente corajosos e sem rabo preso com o passado vicioso das instituições, seriam capazes de abrir o governo ao redesenho do Estado, mais que tocar a passos de cágados uma agenda de reformas eufemísticas e praticar fisiologismo.

3) A chapa SB tem contra si alguns preconceitos obsoletos mas que ainda rondam certos setores das elites. Marina, por ser adepta de uma religião, não seria capaz de governar. Barbosa, por ser Magistrado, não teria competência para o Executivo. Os argumentos são frágeis, mas em tempos de fake news, podem frutificar. A favor, gozam de popularidade e confortável desconexão da cansada polaridade PT–PSDB. // A chapa DB tem contra si, i) o pendor às diatribes genéricas contra o mercado do qual todos dependemos; e ii) o ressentimento ainda carente de trabalho de superação por todos nós contra o fantasma “eles”, útil para atiçar beligerância aos convertidos mas inútil para persuadir indecisos. A favor, um insuspeito mas potente trunfo: sendo jovens atuais poderosos e atraentes, poderiam, salvando-lhes do relativismo epistêmico, seduzir à fé socialista ampla massa de seres inoculados na revolução digital, hoje ladeada ao mercado apenas por falta de melhor oferta. // De lado a lado, as duas oposições têm, dentro de si, seus piores inimigos. Quem os podem derrotar são suas próprias lacunas, teimosias, comunicação incompetente, falta de humildade e de autocrítica, promessas vãs ou fantasiosas, argumentação leviana e, do lado SB, excessivo apego às frescuras vigentes que nos atrapalham, equivalendo, do lado DB, excessivo desapego à ordenação transitória de uma República, num momento tão sensível quanto oportuno.

ideia de bandeira

Porque indignação e imaginação hão de juntas caminhar, mode que aquela não discrepe sem razão, e esta não fabrique parva, exercito, a par de propostas como a nova previdência (OZ), a nova escola mafaldina, o parlamento dinâmico, o poder executivo incorporado em quatro diretorias, e o regime de tributação efetiva, propostas tais encontradas em meu livro e neste sítio, a ideia também de uma nova bandeira nacional.

Entendi que a atual teve sua importância, e jamais deixou de ser bela, e se algures, qualquer infeliz tatambica, em arroubo de vilipêndio, tenha lha difamado, que leve a mão à consciência e deixe de brincar com as coisas da nação. Não somos, entretanto, local de antiquíssimo cultivo das folhas quadriculadas. Cá aprendeu e ministrou Anchieta nas areias da praia. Dos povos assim chamados ameríndios, avós da gente, leis, códigos e ritos eram jamais grafados ou cartoriados, e suas veras bandeiras, pintadas no corpo, faziam-nas ao olho nu, na simetria que cabe à perfeição endógena, e não exógena, da natureza da qual somos filhos.

O símbolo premente, motivo da ficada colonizadora, que queiramos ou não nos fez em povo vário, é a árvore da tintura brasílica, como bem se vê pelos dois espinhaços duros. Assim dispostos, creio aludem respeito ao losango pretérito. Pois está o símbolo primeiro da espoliação dos que não nos reconhecem e assim não nos respeitam (em seguida ludibriaram e adoeceram e exterminaram as nações nativas, cá trouxeram presos em escravidão irmãos da África, e urbanizamo-nos iníquos, desumanos, imersos em erros, feiúras, mais exploração e maus desenhos), limpando a terra da árvore sagrada e forte, para que jamais nos esqueçamos de que se trata participar da história desta obra chamada Brasil.

Resta o pau sobre a imagem pitoresca de uma praia? Pode ser. Aí é bom cabeças componham interpretações, melhorem a ideia, discutam. A moldura representa o perspectivismo, filosofia da baixa Amazônia que impinge todas as coisas de humanidade e pontos-de-vista igualmente válidos, convidando o simpósio da civilização deste novo mundo à constante diplomacia com a graça do cosmo.

sobre o sentido da vida

1 Coríntios 3 : 21

Não busque no do outro seu orgulho, é tudo nosso.

2 Coríntios 8 : 13

Não sofra se o outro se conforta, haja igualdade.

Parto destas expressões paulinas, por mim traduzidas em segunda mão, para entender melhor, via empenho poético, dois deveres fundamentais:

1) Renasço todos os dias da Jerusalém livre para, desde minha memória, colaborar a carne apurada na construção da Jerusalém cativa.

2) Trabalho na força dos corpos para cultivar e criar, na Jerusalém cativa, os sinais da Cidade de Deus, que as artes componham união na diversidade.

O tarô que oferta Santo Agostinho, dizendo haver profecias acima, de uma parte, e acima e abaixo juntas, de outra, conforta o cristão de ignorar o sentido da vida. Não havendo profecias reservadas exclusivamente abaixo (Jerusalém cativa), o tempo encarnado do Espírito, tempo salvo e crismado na Paixão, exime-se de confusão ontológica ou caos maligno: diz respeito ao aperfeiçoamento individual em voz e ofício, mas também à engenharia de uma adequação: que tudo seja nosso pois não há, em verdade, desigualdade.

Manifesto Comunista e República Popular da China

No aniversário de 170 anos do Manifesto Comunista, duas tarefas se impõem:

1) Reler e comentar o texto de Marx e Engels bem como as ideias por trás; e

2) Olhar para a China, que, após uma série de esforços de Mao para cá, anuncia hoje (25) via Comitê Central do Partido Comunista a possível inclusão do Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para a Nova Era na Constituição do País.

Pronunciando pelo Presidente Xi em 2017 no 19º Congresso do Partido, o Pensamento de Xi tem 14 pontos (adaptados aqui em segunda mão do inglês):

1) Liderança do Partido sobre todas as formas de trabalho da China
2) Interesse público centrado nas pessoas
3) Continuidade na agenda de reformas estruturais
4) Inovação com tecnologia, sustentabilidade e compartilhamento
5) Povo no poder
6) Governança nas regras da lei
7) Prática do Socialismo raiz comunista
8) Garantia e melhora da qualidade de vida via desenvolvimento
9) Harmonia entre humanos e natureza
10) Segurança nacional forte e holística
11) Exército do povo sob controle estrito do Partido
12) Promoção da reunificação nacional (Hong Kong e Macau)
13) Comunhão pacífica do povo chinês com o ambiente internacional
14) Exercício da disciplina e da governança

Olhar para a China não apenas pela direção que lhe confere o Manifesto 170 anos depois, mas por ser, hoje, aquela a mais interessante e forte economia do mundo. País que gerou ~ 126 GW de energia fotovoltaica em 2017 (o Brasil tropical, com 160 GW de capacidade instalada, promete 3,7 GW para 2020). País que acaba de incluir, no juramento que devem prestar todos os funcionários públicos, o tão politicamente infrequente termo “beleza”. Sim, pois a sentença final do juramento diz:

… e tornar a China um país socialista moderno próspero, forte, democrático, culturalmente avançado, harmonioso e belo, e rejuvenescer a nação.

Se a China, que forma centenas de milhares de engenheiros de ponta todos os anos, estiver a entender deveras de que se trata a nova era, e tudo indica que sim, os países em desenvolvimento têm um novo modelo onde inspirar sua política e suas aspirações.

CSC [beta]

E se o que entendemos por cidadania fosse produto de um esforço de localização entre seis modos? Bem estar, ou estar situado em equidistância aos seis modos indispensáveis à cidadania seria:

1) ser capaz de descrever, justificar e fruir seus valores e funções

2) participar ativamente de suas dinâmicas de adaptação e crescimento

Dois atos, como vemos, práticos discursivos, propositivos ou responsais, i) esfriados na busca abstrata da mera conceituação, ou ii) quentes porque em atrito numa discussão para resolver um problema.

Esforço de localização, jamais superável, seres móveis e instáveis que somos. Será preciso, a cada confusão, grande evento ou fim de jornada que prepara a próxima, rebuscar as coordenadas. Novamente situar-se num local fora de seus domínios (posto serem caprichosos e vaidosos, os modos) mas ao alcance de nossos comandos e devassas.

˚ ˚ ˚

Bem. A vida é muito mais que cidadania. Esta é uma redução necessária para que a civilidade não suma, engasgada, morta, amofinada, no interior da urbanidade esquecida de critérios e senso. Quando escalo a trilha deslizante que me leva à cachoeira, dou bananas à cidadania. Ali, quero a ficção do príncipe selvagem, alucinado devorador de cogumelos incapaz de preencher um formulário.

Eis que a vida na cidade complicou-se. Nossa culpa fez dela uma entrega desmedida à função socioeconômica da força. Quem tenta enquadrar nosso cada instante numa célula de aferição em bigdata de fato venceu. Mas a vitória só foi possível dado o charme irresistível de seu ponto fraco: juntar-se a quem quer que esteja bem na foto.

Recuperar a dignidade plural do emprego da força. Nutrição, potência, postura, ato e consequência não estão, apenas, a serviço de uma carreira de sucesso, de artigos comprados para a inveja do vizinho. Devemos a força sagrada dos corpos alimentados pelos frutos da terra, também, ao exercício eclesiástico (em sentido largo) da aventura. Aqui, não há ranking, mesmo que haja risco. Não há salário, mesmo que a recompensa seja linda. Não há, tampouco, comparação ou competição, ainda que gostemos de nos superar e combater o marasmo com ineditismo.

A dignidade plural do emprego da força, no entanto, não virá com a tradução literal dos sonhos. A tradução, antes e infelizmente, é anti-poética, mais difícil e indigesta que a tradução literal. Os grandes culpados eram bonecos de olinda pilotados por nós mesmos. Ficou, ao mesmo tempo, mais fácil e mais difícil remontar o paraíso nos termos da conciliação. O divórcio não era apenas um gozo irresponsável. Era também a ilusão de consertar um erro com outro erro.

A tradução anti-poética dos sonhos requer a união de muitas Artes. Organização (em sentido largo) e equilíbrio, ou cada coisa em seu lugar além de nada sobrando ou faltando. O carnaval e o despertar trágico eram só mais um sabor de picolé?

Agora, contudo, resta a busca negociada de um amplo, semprevacilante equilíbrio. Nele, enquanto se ature, será mais fácil conceituar, discutir e decidir. Muitas das decisões que nos aguardam são  difíceis. Mas não será pedindo esse favor a alguém que ficaremos satisfeitos.

Organização e equilíbrio começam na primeira casa, o corpo do indivíduo. Conforme a prática se repita, um costume frutificante, generativo, pode nascer em rede. Situar-se pois, em mão dupla e acesso livre aos seis modos, é ativar-se de forma ligada (em rede) e autônoma (capaz).

LEG, JUD, EXE

Respondem tais três modos pela condução do serviço estatal, comprado por nós em comum acordo. Somos o Estado, ocupamos o Legislativo, orientamos o Judiciário e verificamos o Executivo. De novo, não é um boneco de olinda. Somos nós, sempre seremos.

IMP, ESC, IGR

Tais três modos respondem pelos quarto e quinto poderes, Imprensa livre, e Escola da qual ninguém se livra, mas que, numa fase da vida, é locus específico de formação mais ou menos dirigida. Igreja ponho aqui em sentido largo por tratar-se de apropriação idiossincrática, inventiva, no mais das contas reduzida ao cosmos em suas formas de silêncio, atenção, cuidado, cultivo e edificação.

˚ ˚ ˚

Buscar o centro exato do Círculo Situante Cidadão será tão vão quanto belo saber-se melhor hoje do que ontem, isto é, mais próximo, ‘mais equidistante’ dos seis modos, sabendo melhor descrevê-los e melhor usá-los hoje do que ontem.

Sou artífice de minha Igreja, assim como sou do Judiciário do meu país. Se necessário, cancelo um barzinho para meditar a São Bento ou Cosminho. Se necessário, não faço janta, peço um japonês e elaboro uma crítica a uma decisão do Supremo. Se necessário, pulo o futebol para interpelar o MEC quanto ao vício do vestibular, e não atendo, se necessário, a namorada para sugerir uma denúncia ao wikileaks.

Este breve, ligeiro, quase irresponsável esboço de teoria social tem, para além de sua missão primeira (tirar da bagunça mental um improviso quem sabe útil e me forçar, redigindo, a entendê-lo ou quase), uma missão segunda: provocar no leitor o autoexame: estou em dia com o bem estar cidadão? Situado estou em equidistância dos seis modos? Considero-os inescapáveis ou estranhos? Sou capaz de descrever, justificar e fruir seus valores e funções? Participo ativamente em casa, na rua e na cidade deste estado do Brasil, de suas dinâmicas de adaptação e crescimento?