POLIGRADO

Tomem um esboço de aplicação de engenharia social.

O apelido é Poligrado, pois parte da visualização de um sólido de oito lados visualizável em capacitações de realidade aumentada e que almeja tocar, em mecânica progressiva de estágios (graus), as principais estâncias da vida.

A interface cidadã de avaliação holística pode ser instalada em governos eletrônicos com forte correlação, por exemplo, a descontos no Imposto de Renda. Modo transparente e seguro de nudging, que troca a generalização nominalista da legislação e a assombração das patrulhas coercivas pela sanidade lúdica e longeva do entendimento.

O usuário pode ser avaliado momento a momento, dia a dia, semana a semana etc, de acordo com parâmetros emprestados à expectativa social e às contingências individuais. Pontua de ZERO a UM, em cada um dos sete aspectos ou faces (realms da vida social) do poliedro, sendo reconhecido e/ou recompensado pela média simples e dinâmica.

Idade, ocupação, localização, índices fisiológicos, objetivos para o ano (por ex.: perder 30Kg, correr a São Silvestre etc) e situação socioeconômica indicam o regime aconselhável para o corpo. Não em alimentos específicos, mas em nutrientes, quantidades e frequências. O desafio é buscar o necessário sem abrir mão da aventura dos ingredientes, seus múltiplos preparos e funções bioenergéticas. Se come fora de casa, estabelecimentos cadastrados podem oferecer refeições montadas a partir da pontuação desejada pelo usuário. Se come em casa, busca na rede de usuários com a mesma biotipologia recomendações e dicas preciosas. Um sensor ingerido pelas manhãs pode monitorar a eficiência de cada alimentação e bocado em tempo real.

Idade, ocupação, localização, índices fisiológicos, objetivos para o ano (passar no vestibular, curar dores crônicas etc) indicam o trabalho aconselhável para o corpo. A rotina de exercícios para tonificação muscular, resistência cardiovascular, equilíbrio biodinâmico e qualidade de movimentos observada diária e semanalmente é constantemente atualizada a partir das respostas lidas e processadas pela programa. Além da ginástica propriamente, o usuário pode optar por ser lembrado, ao longo do dia, de oportunidades de ‘exercício fora de hora’ que o ajudarão a antecipar a meta de trabalho em ocasiões como a fila do banco (onde é possível ficar num pé só e recrutar a musculatura transversa), a demora de uma ligação ao telemarketing (em que é possível realizar diversas respirações com a contração do abdômen) etc.

Cuidar do corpo, íntimo habitat, leva o usuário a cuidar da casa, corpo do corpo, morada reclusa para restauros, fazeres domésticos, cultivos próprios. Neste pequeno zoneamento, aprende-se a reconhecer as vias da limpeza, do lugar das coisas, da fluidez e da harmonia espacial. Daí se expande, por apropriação parental, um saber afim do apropriado e do leve estar até outros, mais abrangentes perímetros: o condomínio, o bairro, a cidade, a nação, o planeta, o cosmo. Sob o imperativo da necessidade e a resolução da ordem, habitua-se. Trabalha-se em vigência contínua e irrevogável pela saúde dos corpos que nos contêm. Resíduos, descartes, pegada de carbono, economia energética, inovações pela longevidade da casa. Pontuar, em EKO, é entender-se extensão da matéria comum, uno com todos os corpos.

Sua por assim dizer ocupação profissional não é, nem deve ser, o fim do mundo, do dia, das forças, da sensibilidade. Ciente de que o homem do terceiro milênio não é filho de hippie com yuppie porque curte aprender e experimentar novidades, desfrutar do tempo livre para tocar o mundo com curiosidade ingênua e andar a esmo atrás de iluminações serendípicas, o usuário dedicará boa fatia do dia à geração de renda, mas tão boa quanto enxuta. Seu trabalho econômico, entretanto, é mais largo que o holerite. Incluirá as tantas outras trocas sem valor monetário explícito de que seus interesses e possibilidades são capazes. Aprender, ensinar, doar, compensar, realizar, voluntariar-se, projetar, cooperar, reformar, ceder, consertar. O objetivo de um contato menos dinheirista e mais virtuoso com a economia será domar a angústia em que o imaginário de um consumo exagerado e desnecessário aprisionou o trabalho e a ambição.

Partícipe, o usuário nunca está completamente satisfeito com seu círculo. Sobram contatos, faltam contatos. Discussões empacam em vícios circulares. Preconceitos se ossificam. O léxico perde o sabor. O que era festa vira deserto. Buscar novas redes, ainda que a partir da postura muda do etnógrafo, faz-se vital para manter ativo e vibrante o pulso relacional. Aprender, mudar, arriscar, transformar-se, fazer cada uma das significativas coisinhas que dão colorido à vida estimuladx pela adrenalina renovadora da pertença a novos grupos. Investigar tradições que lhe eram estranhas, familiarizar-se expandindo de novo e de novo seu círculo.

Não é porque se trata de um experimento imaturo que abandonaremos a democracia americana aos carreiristas resfriados e ao status quo insensível. Antes, o usuário Poligrado agarrará a política como a um filho perturbado, sempre próximo, cansado de bullying e de ser tirado como o boboca da vila. Trará a política ao plano achegado, no nível dos passos que se cruzam e se saúdam no passeio. E sobretudo falará. Exerce o direito à voz e toca os problemas que nos tocam, em discussões abertas e mediadas pela hierarquia dos saberes. Tomar partido é expressar confiança em quem merece confiança, mas é também publicar o pensar próprio na discussão, na redação, na ação. Votar a cada dois anos não rende ponto algum em POL.

Ligar os pontos, investigar os trabalhos que salientam e enobrecem o percurso de uma espécie capaz de recriar a experiência de mundo ao articular linguagem com técnica e ciência histórica. Mistério disponível, claro enigma, convites à percepção e à luz, à dúvida e ao assombro. Debruçar, dar tempo, se perder nos objetos de arte que atraem pelo que negam do mundo em si, pelas mentiras que expõem para desdobrarem-se verdadeiros e maleáveis, pelo fracasso que superam tecendo pontes abissais e desfiladeiros virtuais. Não é a arte papo só para especialistas ou obsessivos, mas para quem nutre o que de melhor é capaz seu Homo sapiens. Pontuar em FIC é curar um museu inteiro para si, ser crítico e poeta relacionado a outros tantos, demorar-se não no prazer que dão, mas na trajetória trabalhosa em que nos dispõem algumas obras, do arrepio inicial à análise refletida.

Se não é filho de hippie, o cidadão (CIT) tem certo afã por aperfeiçoar os modos, evoluir as técnicas, fruir ativo a máquina do mundo. Se não é filho de yuppie, encanta os corpos e objetos na nobreza simples do pé no chão, sem pressa nem botões apertados no gogó. Não pretende entregar completamente sua sensibilidade aos algoritmos na medida quase mesma em que não pode dar as cosas à novidade da inteligência artificial. Conquanto não despreze a priori nem abrace apenas a posteriori, jogará criticamente com o advento da performatividade ubíqua usando-a qual aliada leal e domada. Há valor no mérito, há beleza na recompensa justa dos esforços, e se a poesia da vida se abre aos números sem o prejuízo da ordem civil, todos podemos melhorar enquanto tudo melhoramos.

NEM ME LIXO

Porque:

1) São Paulo tem dificuldades de limpeza;

2) A contratação de “varrimento” (é muito mais que isso) está emperrada por desacordo entre poder público e pessoas jurídicas do direito privado;

3) O lixo acumulado obstrui a mobilidade e o bem-estar;

4) Está mais do que na hora de pensarmos, sociedade civil, num trato maduro com o lixo que nós mesmos produzimos (por que descartamos/aceitamos descartar o que descartamos, para onde vai tanto lixo, por que não tratamos no nível local, por que esperar que outras pessoas cuidem do descarte que é nosso etc)
5) Temos tecnologia de telecomunicação, mobilização, competição, performance, verificação e estímulo e difusão midiática;

6) As telecomunicação, mobilização, competição, performance, verificação e estímulo e difusão midiática da internet atual nos colocam ESTAGNADOS numa ‘caixa de areia’, jogando a versão degustação de sua potência instalada, beirando a neurose que resulta da frustração ou do déficit entre a potência instalada e os atos de transformação do mundo (tentando ‘resolver’ a ansiedade por meio de apelos de transgressão, como quem diz “olhem pra gente, pra nossa coragem, pro nosso tamanho” etc),

sugiro darmos o passo que NÃO SERÁ DADO POR NINGUÉM QUE NÃO NÓS:

DA CAIXA DE AREIA PARA A DEMOCRACIA.

— Como?

Operando a transição ativamente (sem esperar instruções e estímulos prontos, posto que muitas vezes aceitamos segui-los sem entender o sentido daquilo, e como aqiulo de fato colabora com a obra humana no planeta) mas começando devagarinho e docemente.

— Dá um exemplo.

Sim. Vamos crescer a ideia, aqui em sinopse, do jogo

NEM ME LIXO


• Consiste o jogo NEM ME LIXO, primeiramente,
na assunção do problema do lixo
como um problema importante e comum •

Se estivermos de acordo que
i) o problema do lixo é importante e comum,
ii) a situação emergencial justifica intervenção radicalmente inovadora, e
iii) o exercício pode ser um bom laboratório em grande escala da gradual transformação democrática (afinal, por que faríamos política à moda antiga com as ferramentas atuais?),

então, e considerando sempre
que o problema foi considerado comum e importante,
NEM ME LIXO pedirá em seguida que:

A) o contingente populacional interessado em participar se agrupa em categorias de SKILLS (por ex.: desenho e/ou fabrico de transportes leves e ferramentas de coleta; desenho e/ou fabrico de estações portáteis de tratamento (separação, adensamento, eliminação química, geração de material reciclado); desenho e/ou fabrico de objetos reciclados e soluções de reuso; mão na massa (todos));

B) o contingente populacional interessado em participar se agrupa demograficamente (distritos);

C) uma vez agrupado em uma ou mais skills, e pertencente a um distrito, você pode, na fase emergencial do jogo, ganhar preciosos pontos cósmicos (numa outra oportunidade eu revelo os detalhes dessa pontuação) conforme mostre VALOR REAL à comunidade humana e transforme visível e concretamente a situação da vida (o que de modo algum impede que a aliança mercado Estado premie as performances de modo mundano)

Atitude não será obedecer o que nos chega imposto ou pré-formatado. Isso seria tentar forçar virtude libertária em eventos cujos significados profundos, justificações públicas e consequências materiais restassem escondidos ou simplesmente ignorados.

Antes, faremos nós o desenho do jogo a partir da constatação evidente de compartilharmos uma cidade problemática, espaço público adoentado, pessoas jurídicas de direito privado essencialmente apartadas da preocupação humana, e um poder público sobrecarregado por prioridades múltiplas numa organização obsoleta.

NÃO DARÃO ESSE PASSO POR NÓS

Se não nos movermos antes, dignificando a alta potência da internet e sua genial arquitetura com um impacto de transformação em grande escala, concreto e estruturante, restaremos de novo e de novo atrofiando o cérebro na caixa de areia, falsamente livres, mas nas mãos condutoras de atores com interesses não necessariamente coincidentes com o bem comum.

Sendo esta apenas uma semente, sintam-se à vontade para crescer.

Quais os DEZ piores problemas brasileiros?

Em solidariedade à corrente, publico minha lista. A instrução é elencar a hierarquia e redigir um parágrafo a cada problema, com diagnóstico e prescrição.

1) SAÚDE

Problema ecológico central, a saúde é o maior agente econômico. Da saúde dependem a produtividade e a riqueza. O Brasil é vítima da medicina da doença, quando a medicina deve dar as coordenadas ao viço. Não se trata de uma medicina da prevenção, mas medicina do viço. Contra a medicina da doença, pela medicina do viço, está no SUS a principal empresa do Estado. Tecnologia da informação (sensores, inteligência artificial, nanorrobótica, edição genética) e revolução agronômica podem dar ao povo a mais concreta soberania da terra, a saúde do corpo. Para isso, o Estado deve antecipar, ou jogar junto a, a entrada das grandes corporações de serviços da nova medicina. Se não o fizer, apenas os mesmos 5% terão acesso às novidades. O resto terá de esperar as obsolescências dirimirem as margens de lucro e chegar, como sempre, atrasado.

2) EDUCAÇÃO

Azedo, o termo desperta pesadelos em adeptos das liberalidades da formação. Ideias como pós-schooling, self-schooling, e mesmo no-schooling, confundem-se com decisões desimportantes como escovar os dentes com cúrcuma e o movimento no-poo, que abre mão dos shampoos. Mas escola não é paranoia. É cerne estratégico do desenvolvimento, e dela dependem mão-de-obra, pesquisa, policiamento e refinamento humano e cultural. Prescrição à Nova Escola fiz neste livro. Faltou comentar a Universidade e a educação continuada. A Universidade fica, mas estritamente federal e para 30% da população (quem quer e consegue). O restante pode ser técnico, artista, desenhista, faz-tudo, roceiro, diarista, atleta e feliz longe das teses e arengadas. Além disso, imagino uma instância ainda inexistente, também pública e também excelente, responsável pela educação continuada. A escola perpétua, disponível a qualquer trabalhador afim de reciclar seus saberes e aprender, usando a novidade digital, novas artes e conceitos.

3) INFRAESTRUTURA

As redes brasileiras despencam, e a cada furo damos novos e seguros passos de submissão ao neo-colonialismo. O problema, antes de governança errática, é déficit de engenheiros e cientistas. A solução é formar profissionais de ponta no médio prazo. No curto, importar saber junto às concessões. Que as empresas que cá venham subir pontes, portos, estradas, esgotos e teles prestem-se a abrir os códigos e capacitar nosso humilde contingente.

4) ORGANIZAÇÃO DO ESTADO

Legislativo e executivo não respondem à premência de um corpo estatal forte e ágil. O Estado é letárgico e custoso, e a culpa é menos de seus ocupantes do que do desenho em que se apoia. Uma nova forma (ler postagens anteriores como esta e esta) implica usar a) o suprassumo da possibilidade digital para discussão, deliberação e efetivação parlamentar, e b) a moderna governança corporativa para um poder executivo impessoal e levíssimo, condutor de um orçamento e de um cronograma, auditável e transparente como qualquer empresa viva. O lastro restaria no Senado, reconfigurado como Conselho Administrativo eleito anualmente, com poder de veto e impeachment, ocupado por senhores e senhoras nos quais vemos nossos mais virtuosos pais e mães.

5) ECOLOGIA

Erramos no destrato ignorante e não raro cruel da natureza que Deus nos deu. É nosso maior pecado, e a cada dia em que se repete (resíduos, extração irresponsável, maus tratos, extermínios), nos afastamos do congraçamento cósmico. Toda a força militar de um país na nova era (pós-Singapura) pode ser direcionada à salvaguarda do santuário planetária do território. Cada bioma é um órgão sagrado e feliz do organismo nacional, e dele somos membros em unidade e gratidão. A chave para o reequilíbrio econômico (preços, taxa de lucro e salários) está no enaltecimento ecológico.

6) ECONOMIA

O Estado letárgico e custoso emperra a circulação de bens e valores num ponto distante demais do ótimo, mas a crítica chega invariavelmente tarde e aponta os sintomas linguísticos antes das causas fulcrais. Se é coluna gêmea à Ecologia, a Economia muda de roupa. Joga fora os trapos fedorentos (“crescimento do PIB”) e aprende a formular novas e mais interessantes métricas. Hoje, toda a teoria e comentário são escravos de métricas pensadas antes da primeira guerra. É tempo de cogitar modelos mais desafiadores da mesura do bem-estar, da alegria, do conforto, da satisfação, da realização, da vitória e do consumo.

7) CIDADES

Desde a Constituição de 1988, criar cidades tornou-se gincana de currais e coronéis. A atitude das câmaras de vereança nos rincões é um vexame avassalador. Também nas grandes cidades vê-se distância e esfriamento do povo ante as políticas locais, e as eleições às prefeituras são dramaturgia esquizofrênica. Mas a política será cada vez mais local. Urge plantar a semente do engajamento cidadão. Na esteira do clarão do SUS com a saúde do corpo, o corpo doméstico, do bairro e da cidade merecerão cuidado tátil e maternal. É vivendo e usando o espaço público que entendo entende na prática o que é o bem comum. Por dela me servir, cuido. A cidade deixa de ser de ninguém para ser de todos.

8) ENERGIA

Combustíveis fósseis e carvão matam. Hidrelétricas ferem e traumatizam. Linhas quilométricas de transmissão são tão inteligentes quanto pedir que passem o sal de lá do outro lado da rua. Saleiro é coisa pequena, melhor ter em casa ou pegar no vizinho. A energia está no ar, no sol, no vento e em todos os corpos e coisas. Linha de transmissão é incompreensão biofísica. Pagar por energia é ruborizar o Imposto de Renda, pois é tão grátis quanto um chumaço de cabelo. Aí, o caso é pensar novo bem novo, investindo em laboratórios avançados. Antes, fazer a lição básica e urgente: trocar tudo por geração fotovoltaica e eólica da forma mais local possível.

9) PESQUISA E DESENVOLVIMENTO

Onde está, e o que é, a vida? Água escorrendo num balde é vida? Estamos fora ou dentro do Universo? Somos que sorte de experimento? Como conversar com a inteligência cósmica? O que é o desejo? Como burilá-lo? Como transformar o desejo na mão que a luva do trabalho vestirá? Como faço para construir minha própria casa e ser feliz fazendo o que bem quero da vida? Onde está meu jet-pack propulsivo para um rolezinho em sobrevoo no vale do Paraíba? Ficamos de braços cruzados esperando alguém resolver?

10) AMÉRICA LATINA E LUSOFONIA

La Mancha e Bahia, Cervantes e Camões, Tamanduaré e Pastinha. Villa-Lobos é pura Nova Espanha, faz-se ótimo samba na Colômbia, Angola tem mestres poetas, e o portunhol é mais fácil e bonito do que muito paredão do BBB. Hoje numa livraria não há seção lusófona, não há ensaísmo da nova voz venezuelana. A política externa reserva-se a grandes tratados comerciais e eventos brocochôs. Quero ver minha filha de motocicleta cruzando o continente, ouvindo despreocupada um batuque moçambicano, parando para cozinhar frijoles, beber um mate, mordiscar uns milhos.

Ainda sobre a razão do Estado

Foram tantos os pedidos, e alguns até sinceros, que dominei o asco do sábado operoso e cá voltei disposto a polir atritos. Leitores engajados escrevem da impraticabilidade do exercício democrático sem partidos políticos, “porque é na expressão polarizada que as ideias amadurecem”. Quanto ao razoável reclame, tenho duas respostas:

1 – Na postagem de setembro de 2017, escrevo,

cada assunto específico merece, no grau zero do Congresso, as melhores cabeças disponíveis. Sem partidos que não os que aquele assunto mereça. Partidos cujos nomes e slogans se formam não previamente, mas em consequência dos dilemas tangíveis e tecnicamente defensáveis.

Partidos políticos costumam trazer ao chão do Congresso suas grandes decisões pré-fixadas. É por isso que, em 1997, a reforma da Previdência foi inviabilizada, e é por isso que, vinte anos depois, ela ainda não aconteceu. Ali, abrem-se os partidos apenas a negociação de minúcias, às vaidades dos ocupantes que confundem a fala política com uma carreira profissional, e, no comum dos casos, ao oportunismo. Mas entendo, ante a tenra idade da democracia brasileira, sua dentição infanta, incapaz de triturar desafios nervosos desde o empenho mandibular de um jaguar azul escuro. O que nos leva à segunda resposta, uma espécie de papinha de bebê a par a nossa realidade por assim dizer ‘gengivosa’, contando aí amplos setores da imprensa conservadora, das elites, e entre elas especialmente a paulista – fonte da cisão ilusória e ressentida que apartou PT e PSDB e atrasou o Brasil –, bem como os medrosos fracos em geral.

2 – E se cogitarmos um parlamento dinâmico desde que a realidade partidária fique como está? Possível, porque a extinção dos partidos é menos importante que a aceleração dos projetos consensualmente prioritários. Daí, um grande número de eleitores seria impelido à filiação. Isto é, em vez de extinguirem-se, os partidos são ocupados pelo povo. Em tantas castas de ofício quanto possível, contribuintes eleitores seriam encorajados à filiação partidária para, em seguida, habilitarem-se ao serviço de deputação. A saber, representar o povo nas pautas abertas do Congresso Nacional. As duas vantagens principais do parlamento dinâmico, ainda assim, permanecem, pois elas são, a) maior velocidade e objetividade na discussão, posto que tocada por especialistas; b) concomitância de mais de uma pauta, pois se é dinâmico e operacionalmente digital, diferentes discussões e votações podem se dar ao mesmo tempo. Para tanto, porém, reafirmo a importância de que o maior número de cidadãos escolham uma sigla e filiem-se. Assim, as 700 cadeiras do Congresso são ocupadas, a cada votação, por contingente proporcional às filiações. Se a pauta é, para mantermos o exemplo do texto de setembro, a bioética e a edição genética por empresas privadas, cada partido apresenta sua lista de deputados pré-qualificados para o assunto, a partir de um critério único de qualificação. Em seguida são sorteados, entre os pré-qualificados, os ocupantes das cadeiras. A discussão acontece via internet, e cada partido aponta seu redator-chefe. Juntos, têm a missão de conduzir o texto do projeto. É a assembleia documentada em todas as suas comunicações e acompanhada passo a passo pelos cidadãos.

Resta lembrar que o parlamento dinâmico resolve parte do problema da reforma política aqui imaginada. A outra estaria em mexer no executivo por meio de um drástico enxugamento organizacional. Um presidente e quatro diretores (Ecologia, Economia, Redes, Escolas) são subordinados ao Conselho de Administração, o novo Senado. Este deixa de existir como cancela arrastada da Câmara e assume a voz sábia do ancião nacional macho-fêmea. O time de cinco executivos, alocado com seus gerentes num prédio por exemplo da nova Faria Lima, daria conta de tocar o Orçamento e administrar os problemas da União. O que me leva à conclusão, provocativa mas a sério:

Por que não esvaziar Brasília da política, cedendo as edificações ora ocupadas pelo poder público para a iniciativa privada? Uma licitação de ocupação restrita à área de tecnologia pode fomentar, na cidade sobre solo tão próspero em minérios e de arquitetura idílico-futurista, uma espécie de vale do silício brasileiro, com Universidades, laboratórios da vida digital, da nova medicina, da realidade aumentada e da inteligência artificial, com amplo trânsito de start-ups, ted talkers, venture capitalists e anjos.

Declaração de eleitor: qual a razão de ser do Estado?

Não há, na hierarquia democrática, instância superior ao povo. Isto está implícito no radical ‘demos’. No entanto, a impressão é que tudo se passa ao largo de sua vontade, como se fosse o povo irrelevante ou mesmo inexistente. Prova disso é a abominação dos jovens e o cinismo dos mais velhos quando o assunto é a República. Ninguém, tirando políticos e jornalistas, parece levar a sério o assunto mais sério do país.

Diria que estamos cansados e chateados com a possibilidade de mais uma mera encenação eleitoral. Nela, partidos tentam colocar as forças carismáticas dos candidatos na frente do poder das ideias. Trocamos discussões sérias por slogans, pautas mecanizadas, e, o pior, por falsos conflitos que visam alimentar o embate meramente dramático, mas contraproducente, entre ‘oponentes históricos’.

No caso brasileiro, sabemos bem onde isso acaba: desperdício, arengada na tv, vitimização do executivo pela grotesca ideia de uma ‘governabilidade’ construída na base da chantagem, e um legislativo ocupado pela velhacaria, generalista em seus saberes mas muito específica no abocanhar dos privilégios.

Neste contexto, repito a pergunta do título, legítima a um eleitor preocupado: qual a razão de ser do Estado? A obra definidora de um povo reunido num perímetro territorial a comungar história, língua e Constituição, não deve ser compreendida como a obra das obras? A primeira? Mais importante? Donde todas as outras derivam e pela qual validam-se? Ora, como prestar atenção em qualquer trabalho quando olhamos para o retrato do Brasil, da redemocratização para cá, e percebemos a sinuca de bico de sua fundamental situação?

Antes de desesperar, jogar tudo na mão de um santo ou partir para o estrangeiro, arrisquemos um diagnóstico. Se os poderes da expressão do Estado funcionam tão mal e são tão mal avaliados por nós, o problema será exclusivamente das pessoas que ocupam seus cargos? Ou haverá algo de drasticamente obsoleto no desenho de seus mecanismos e processos? Defendo a segunda hipótese.

Acredito estarmos presos numa vala circular de desperdício, ineficácia e sucessivos simulacros e soluções tópicas, especialmente na relação mais impactante entre Executivo e Legislativo. Está aí, a meu ver, a raiz do problema que enfraquece o Estado e abre espaço para as muitas ameaças de anarquizações e neocolonizações. O motivo da prisão nesta vala nefasta e viciosa, eis um palpite, seriam os maus hábitos da política feita por partidos – e não por nós.

Como proceder? Se o palpite estiver certo, o próximo passo seria cogitar, seriamente, o fim dos partidos políticos, e a consequente reconquista da política pelo povo, maduro e informado como nunca. Por exemplo via plebiscito: os partidos políticos merecem viver ou devem ser extintos? Se a primeira opção ganha, seguimos participando como hoje. Talvez melhorando um pouquinho o Congresso a cada dezesseis anos, talvez entregando o executivo a uma aliança menos neurótica a cada vinte.

Caso a segunda opção vença, e julguemos possível renovar radicalmente o funcionamento do Legislativo e do Executivo sem a intermediação partidária, teríamos pela frente um trabalho novo e estimulante. Um trabalho capaz de reaproximar a política não de um povo que aparece uma vez a cada quatro anos para votar, mas que vive e influencia a política e seus assuntos diariamente. Não um povo ‘representado’ por políticos de carreira, mas o povo ele mesmo a sentar no Congresso e conduzir as discussões. O povo ele mesmo, e não uns jogadores de partidos, a cuidar do orçamento e dos cronogramas, da transparência e da cobrança.

É provável que os partidos tenham sido importantes para a maturação democrática em tempos passados, quando era larga a desconexão e irregulares as ilhas de acesso a informação. Hoje não é o caso. O acesso à informação quebrou barreiras e a teoria avançou. Quem estuda e articula sem cinismo nem má fé enxerga a dissolução ou união de antagonismos europeizantes e mofados em autoevidentes e urgentes prioridades. Em setembro do ano passado, esbocei as ideias do parlamento dinâmico e do executivo tecnocrata. Sigo acreditando. Contra o Brasil atrasado, pelo fim dos partidos.

Declaração de eleitor II

Porque:

1) Desde o impedimento parlamentar da Sra. Presidente Dilma Rousseff o governo federal assumiu viés centrista;

2) O viés centrista, por natureza, trabalha por transição impondo, antes de agendas, algum temperamento à ordem civil;

3) Usamos, cidadãos e empresas, ordem civil temperada para contrastar e discutir alternativas aos problemas centrais da Nação;

4) Tais alternativas serão, daqui em diante, desenvolvidas e apresentadas por quatro oposições ao centro atual, na forma de concorrentes planos de governo;

5) E porque não diremos situação versus oposição, mas oposição versus oposição,
eu, na qualidade de cidadão e livre pensador, proponho as seguintes chapas, além das duas já apresentadas, sendo elas quatro e apenas quatro para evitarmos o desperdício de tempo e paciência em desvios, delírios, falsos problemas e pequenezas:

Chapa SB: Marina Silva + Joaquim Barbosa

Chapa DB: Manuela D’Ávila + Guilherme Boulos


Porque:

1) Marina, além de mulher séria e de palavra, é sensível e elegante, qualidades que urgem num país em processo de embrutecimento. // Magistrado e herói nacional, Barbosa é capaz de espantar a desconfiança da direita pragmática aos “amigos da floresta” com sua aliança ao capitalismo solene. // A esquerda natural, não cooptada por militância de cartilha, compartilha com Marina o anseio pela viravolta ecológica da política, rigorosamente humana e igualitária. // Barbosa, à mesma esquerda difusa, não é motivo de repulsa, não sendo em si capitalista, mas antes homem de ofício com história de vida inspiradora, tal e qual Marina.

2) Manuela e Boulos, lideranças relevantes da nova esquerda teórica e prática, são os únicos entre os oito candidatos capazes de imaginar a renovação radical e abrangente da política. // Diz-se não teriam chances em 2018, mas sem eles o debate giraria em falso, extorquindo do eleitor o sonho e a chance de imaginar com sanidade e alegria o futuro de uma democracia agonizante. // Suficientemente corajosos e sem rabo preso com o passado vicioso das instituições, seriam capazes de abrir o governo ao redesenho do Estado, mais que tocar a passos de cágados uma agenda de reformas eufemísticas e praticar fisiologismo.

3) A chapa SB tem contra si alguns preconceitos obsoletos mas que ainda rondam certos setores das elites. Marina, por ser adepta de uma religião, não seria capaz de governar. Barbosa, por ser Magistrado, não teria competência para o Executivo. Os argumentos são frágeis, mas em tempos de fake news, podem frutificar. A favor, gozam de popularidade e confortável desconexão da cansada polaridade PT–PSDB. // A chapa DB tem contra si, i) o pendor às diatribes genéricas contra o mercado do qual todos dependemos; e ii) o ressentimento ainda carente de trabalho de superação por todos nós contra o fantasma “eles”, útil para atiçar beligerância aos convertidos mas inútil para persuadir indecisos. A favor, um insuspeito mas potente trunfo: sendo jovens atuais poderosos e atraentes, poderiam, salvando-lhes do relativismo epistêmico, seduzir à fé socialista ampla massa de seres inoculados na revolução digital, hoje ladeada ao mercado apenas por falta de melhor oferta. // De lado a lado, as duas oposições têm, dentro de si, seus piores inimigos. Quem os podem derrotar são suas próprias lacunas, teimosias, comunicação incompetente, falta de humildade e de autocrítica, promessas vãs ou fantasiosas, argumentação leviana e, do lado SB, excessivo apego às frescuras vigentes que nos atrapalham, equivalendo, do lado DB, excessivo desapego à ordenação transitória de uma República, num momento tão sensível quanto oportuno.

ideia de bandeira

Porque indignação e imaginação hão de juntas caminhar, mode que aquela não discrepe sem razão, e esta não fabrique parva, exercito, a par de propostas como a nova previdência (OZ), a nova escola mafaldina, o parlamento dinâmico, o poder executivo incorporado em quatro diretorias, e o regime de tributação efetiva, propostas tais encontradas em meu livro e neste sítio, a ideia também de uma nova bandeira nacional.

Entendi que a atual teve sua importância, e jamais deixou de ser bela, e se algures, qualquer infeliz tatambica, em arroubo de vilipêndio, tenha lha difamado, que leve a mão à consciência e deixe de brincar com as coisas da nação. Não somos, entretanto, local de antiquíssimo cultivo das folhas quadriculadas. Cá aprendeu e ministrou Anchieta nas areias da praia. Dos povos assim chamados ameríndios, avós da gente, leis, códigos e ritos eram jamais grafados ou cartoriados, e suas veras bandeiras, pintadas no corpo, faziam-nas ao olho nu, na simetria que cabe à perfeição endógena, e não exógena, da natureza da qual somos filhos.

O símbolo premente, motivo da ficada colonizadora, que queiramos ou não nos fez em povo vário, é a árvore da tintura brasílica, como bem se vê pelos dois espinhaços duros. Assim dispostos, creio aludem respeito ao losango pretérito. Pois está o símbolo primeiro da espoliação dos que não nos reconhecem e assim não nos respeitam (em seguida ludibriaram e adoeceram e exterminaram as nações nativas, cá trouxeram presos em escravidão irmãos da África, e urbanizamo-nos iníquos, desumanos, imersos em erros, feiúras, mais exploração e maus desenhos), limpando a terra da árvore sagrada e forte, para que jamais nos esqueçamos de que se trata participar da história desta obra chamada Brasil.

Resta o pau sobre a imagem pitoresca de uma praia? Pode ser. Aí é bom cabeças componham interpretações, melhorem a ideia, discutam. A moldura representa o perspectivismo, filosofia da baixa Amazônia que impinge todas as coisas de humanidade e pontos-de-vista igualmente válidos, convidando o simpósio da civilização deste novo mundo à constante diplomacia com a graça do cosmo.

sobre o sentido da vida

1 Coríntios 3 : 21

Não busque no do outro seu orgulho, é tudo nosso.

2 Coríntios 8 : 13

Não sofra se o outro se conforta, haja igualdade.

Parto destas expressões paulinas, por mim traduzidas em segunda mão, para entender melhor, via empenho poético, dois deveres fundamentais:

1) Renasço todos os dias da Jerusalém livre para, desde minha memória, colaborar a carne apurada na construção da Jerusalém cativa.

2) Trabalho na força dos corpos para cultivar e criar, na Jerusalém cativa, os sinais da Cidade de Deus, que as artes componham união na diversidade.

O tarô que oferta Santo Agostinho, dizendo haver profecias acima, de uma parte, e acima e abaixo juntas, de outra, conforta o cristão de ignorar o sentido da vida. Não havendo profecias reservadas exclusivamente abaixo (Jerusalém cativa), o tempo encarnado do Espírito, tempo salvo e crismado na Paixão, exime-se de confusão ontológica ou caos maligno: diz respeito ao aperfeiçoamento individual em voz e ofício, mas também à engenharia de uma adequação: que tudo seja nosso pois não há, em verdade, desigualdade.

Manifesto Comunista e República Popular da China

No aniversário de 170 anos do Manifesto Comunista, duas tarefas se impõem:

1) Reler e comentar o texto de Marx e Engels bem como as ideias por trás; e

2) Olhar para a China, que, após uma série de esforços de Mao para cá, anuncia hoje (25) via Comitê Central do Partido Comunista a possível inclusão do Pensamento de Xi Jinping sobre o Socialismo com Características Chinesas para a Nova Era na Constituição do País.

Pronunciando pelo Presidente Xi em 2017 no 19º Congresso do Partido, o Pensamento de Xi tem 14 pontos (adaptados aqui em segunda mão do inglês):

1) Liderança do Partido sobre todas as formas de trabalho da China
2) Interesse público centrado nas pessoas
3) Continuidade na agenda de reformas estruturais
4) Inovação com tecnologia, sustentabilidade e compartilhamento
5) Povo no poder
6) Governança nas regras da lei
7) Prática do Socialismo raiz comunista
8) Garantia e melhora da qualidade de vida via desenvolvimento
9) Harmonia entre humanos e natureza
10) Segurança nacional forte e holística
11) Exército do povo sob controle estrito do Partido
12) Promoção da reunificação nacional (Hong Kong e Macau)
13) Comunhão pacífica do povo chinês com o ambiente internacional
14) Exercício da disciplina e da governança

Olhar para a China não apenas pela direção que lhe confere o Manifesto 170 anos depois, mas por ser, hoje, aquela a mais interessante e forte economia do mundo. País que gerou ~ 126 GW de energia fotovoltaica em 2017 (o Brasil tropical, com 160 GW de capacidade instalada, promete 3,7 GW para 2020). País que acaba de incluir, no juramento que devem prestar todos os funcionários públicos, o tão politicamente infrequente termo “beleza”. Sim, pois a sentença final do juramento diz:

… e tornar a China um país socialista moderno próspero, forte, democrático, culturalmente avançado, harmonioso e belo, e rejuvenescer a nação.

Se a China, que forma centenas de milhares de engenheiros de ponta todos os anos, estiver a entender deveras de que se trata a nova era, e tudo indica que sim, os países em desenvolvimento têm um novo modelo onde inspirar sua política e suas aspirações.

CSC [beta]

E se o que entendemos por cidadania fosse produto de um esforço de localização entre seis modos? Bem estar, ou estar situado em equidistância aos seis modos indispensáveis à cidadania seria:

1) ser capaz de descrever, justificar e fruir seus valores e funções

2) participar ativamente de suas dinâmicas de adaptação e crescimento

Dois atos, como vemos, práticos discursivos, propositivos ou responsais, i) esfriados na busca abstrata da mera conceituação, ou ii) quentes porque em atrito numa discussão para resolver um problema.

Esforço de localização, jamais superável, seres móveis e instáveis que somos. Será preciso, a cada confusão, grande evento ou fim de jornada que prepara a próxima, rebuscar as coordenadas. Novamente situar-se num local fora de seus domínios (posto serem caprichosos e vaidosos, os modos) mas ao alcance de nossos comandos e devassas.

˚ ˚ ˚

Bem. A vida é muito mais que cidadania. Esta é uma redução necessária para que a civilidade não suma, engasgada, morta, amofinada, no interior da urbanidade esquecida de critérios e senso. Quando escalo a trilha deslizante que me leva à cachoeira, dou bananas à cidadania. Ali, quero a ficção do príncipe selvagem, alucinado devorador de cogumelos incapaz de preencher um formulário.

Eis que a vida na cidade complicou-se. Nossa culpa fez dela uma entrega desmedida à função socioeconômica da força. Quem tenta enquadrar nosso cada instante numa célula de aferição em bigdata de fato venceu. Mas a vitória só foi possível dado o charme irresistível de seu ponto fraco: juntar-se a quem quer que esteja bem na foto.

Recuperar a dignidade plural do emprego da força. Nutrição, potência, postura, ato e consequência não estão, apenas, a serviço de uma carreira de sucesso, de artigos comprados para a inveja do vizinho. Devemos a força sagrada dos corpos alimentados pelos frutos da terra, também, ao exercício eclesiástico (em sentido largo) da aventura. Aqui, não há ranking, mesmo que haja risco. Não há salário, mesmo que a recompensa seja linda. Não há, tampouco, comparação ou competição, ainda que gostemos de nos superar e combater o marasmo com ineditismo.

A dignidade plural do emprego da força, no entanto, não virá com a tradução literal dos sonhos. A tradução, antes e infelizmente, é anti-poética, mais difícil e indigesta que a tradução literal. Os grandes culpados eram bonecos de olinda pilotados por nós mesmos. Ficou, ao mesmo tempo, mais fácil e mais difícil remontar o paraíso nos termos da conciliação. O divórcio não era apenas um gozo irresponsável. Era também a ilusão de consertar um erro com outro erro.

A tradução anti-poética dos sonhos requer a união de muitas Artes. Organização (em sentido largo) e equilíbrio, ou cada coisa em seu lugar além de nada sobrando ou faltando. O carnaval e o despertar trágico eram só mais um sabor de picolé?

Agora, contudo, resta a busca negociada de um amplo, semprevacilante equilíbrio. Nele, enquanto se ature, será mais fácil conceituar, discutir e decidir. Muitas das decisões que nos aguardam são  difíceis. Mas não será pedindo esse favor a alguém que ficaremos satisfeitos.

Organização e equilíbrio começam na primeira casa, o corpo do indivíduo. Conforme a prática se repita, um costume frutificante, generativo, pode nascer em rede. Situar-se pois, em mão dupla e acesso livre aos seis modos, é ativar-se de forma ligada (em rede) e autônoma (capaz).

LEG, JUD, EXE

Respondem tais três modos pela condução do serviço estatal, comprado por nós em comum acordo. Somos o Estado, ocupamos o Legislativo, orientamos o Judiciário e verificamos o Executivo. De novo, não é um boneco de olinda. Somos nós, sempre seremos.

IMP, ESC, IGR

Tais três modos respondem pelos quarto e quinto poderes, Imprensa livre, e Escola da qual ninguém se livra, mas que, numa fase da vida, é locus específico de formação mais ou menos dirigida. Igreja ponho aqui em sentido largo por tratar-se de apropriação idiossincrática, inventiva, no mais das contas reduzida ao cosmos em suas formas de silêncio, atenção, cuidado, cultivo e edificação.

˚ ˚ ˚

Buscar o centro exato do Círculo Situante Cidadão será tão vão quanto belo saber-se melhor hoje do que ontem, isto é, mais próximo, ‘mais equidistante’ dos seis modos, sabendo melhor descrevê-los e melhor usá-los hoje do que ontem.

Sou artífice de minha Igreja, assim como sou do Judiciário do meu país. Se necessário, cancelo um barzinho para meditar a São Bento ou Cosminho. Se necessário, não faço janta, peço um japonês e elaboro uma crítica a uma decisão do Supremo. Se necessário, pulo o futebol para interpelar o MEC quanto ao vício do vestibular, e não atendo, se necessário, a namorada para sugerir uma denúncia ao wikileaks.

Este breve, ligeiro, quase irresponsável esboço de teoria social tem, para além de sua missão primeira (tirar da bagunça mental um improviso quem sabe útil e me forçar, redigindo, a entendê-lo ou quase), uma missão segunda: provocar no leitor o autoexame: estou em dia com o bem estar cidadão? Situado estou em equidistância dos seis modos? Considero-os inescapáveis ou estranhos? Sou capaz de descrever, justificar e fruir seus valores e funções? Participo ativamente em casa, na rua e na cidade deste estado do Brasil, de suas dinâmicas de adaptação e crescimento?

Declaração de eleitor

Porque:

1) Desde o impedimento popular da Sra. Presidente Dilma Rousseff o governo federal assumiu viés centrista;

2) O viés centrista, por natureza, trabalha pelo bem da transição, impondo, antes de agendas, o temperamento da ordem civil;

3) Usamos, cidadãos e empresas, o temperamento da ordem civil para contrastar e discutir alternativas aos problemas centrais da Nação;

4) Tais alternativas serão, daqui em diante, desenvolvidas e apresentadas, na forma de concorrentes planos de governo, por duas oposições ao centro atual;

5) E porque não diremos situação versus oposição, mas oposição versus oposição,

eu, na qualidade de cidadão e livre pensador, proponho as seguintes chapas, sendo elas duas e apenas duas para evitarmos o desperdício de tempo e paciência em desvios, delírios, falsos problemas e pequenezas:

Chapa AV: Geraldo Alckmin + Luislinda Valois

Chapa GH: Ciro Gomes + Fernando Haddad


Porque:

1) Alckmin é um gestor sério e provado, mas precisa, a seu lado, dalguém a lembrar-lhe do que foi feito o Brasil. // A história de Luislinda é mais bela que a de Lula. // O impedimento popular da Sra. Presidente Rousseff não foi bem aceito por uma minoria, entre ela as próprias mulheres e alguns adeptos do lulismo. // Estes talvez encontrem em Luislinda, assim que ela puder falar serena e sinceramente, o aconchego de uma representação autêntica, popular e sênior, no Executivo;

2) Ciro tem cacife para barganhar os votos de Lula no Nordeste (se Luislinda não o fizer antes). // Ele pode usar o fato de ser esfinge ideológica em favor de um discurso pragmático, tendência irreversível. // De pulso e fala firmes, compensa a hesitação preferia-não-ser-político do professor Haddad, que, por sua vez, tem charme e seduz a militância jovem. // Com ele a chapa evoca o novo e o vigoroso, e talvez construa num vazio ainda sem nome da expectativa nacional;

3) A chapa AV tem contra si o fantasma do continuísmo, o velho mais do mesmo capaz de unir o país em repulsa e escárnio. A favor, tem os cofres sãos de São Paulo e uma mulher negra juíza e neta de escravos. // A chapa GH tem contra si a verborragia sebosa que derrubou a esquerda quando esta trocou compromisso por cinismo. A favor, tem o sonho de refundação, em novos termos e cores, do projeto petista de dignificar a política brasileira e levar o povo ao poder. // De lado a lado, as duas oposições tem dentro de si seus piores inimigos. Quem os podem derrotar são suas próprias lacunas, teimosias, maquiagens marqueteiras, falta de humildade e de autocrítica, promessas vãs, argumentação leviana e mentiras deslavadas e ridículas que insistem em contar, deturpando a história e embelezando os fatos como se esta fosse a pátria da burrice e do esquecimento.

Da inteligência

Brotaram flores
nos meus pés.
E o quotidiano
na minha vida
complicou-se.

– Hilda Hilst

Nunca foi tão difícil driblar a inteligência, mas o motivo é simples. Nos séculos passados da era moderna, quando experimentamos a convivência plural com mobilidade social, a face impessoal da inteligência era irreconhecível. Misturavam-se os conceitos de habilidade e inteligência, e o clichê era dar àquela o nome desta. Alguns seriam mais, outros menos inteligentes, donde a inevitável desigualdade rancorosa, e não raro deturpada, no mercado dos méritos.

Corre o tempo em que descobrimos, ainda sem coordenar dignamente potência e produção, a inteligência em trama dinâmica e crescente, universalmente acessível e absolutamente impessoal. Os efeitos da descoberta poderão ajudar-nos a relaxar as falsas tensões da competição, reforçando as autênticas, e dissolver os falsos dilemas do desejo, tornando mais duros, múltiplos e coesos os autênticos.

Entender e determinar por que lutar e como curtir a vida, sem precisar reinventar a crise romântica diariamente, tornará a realização política da convivência, bem como a autonomia espiritual da vida leve, tarefas mais abertas à novidade e menos entulhadas das manhas pré-fixadas que, outrora, invocávamos para dirimir os riscos e aumentar a previsibilidade dos empenhos. Mais equilibrados e menos temerosos, faremos mais com menos.

Está em nossas discussões e mentes não mais saber qual lado ocupar antes da luta, nem tampouco saber onde balizar, fora de si, as manobras da vontade. Antes, a tarefa seria saber manter e contrastar, atender e coligar as prioridades eventuais. Livres das supernarrativas que cuidavam, a depender das contingências do indivíduo, de restringir suas potências a certos modelos de submissão ou contravenção.

Na prática, vive-se individualmente num corpo que se quer produtivo e singular. Tal corpo pertence a algumas jurisdições variáveis mas comunga, ainda e de forma crucial, a língua e os códigos de convivência de um território dito nacional. Atentar a esta premissa, por difícil que seja num momento de globalização digital e tentações anarquizantes, seria a língua franca da ética da transição. Não por orgulho ou saudosismo, mas por facilitar os processos e liberar tempo de rinha para invenções frutificantes, ócio alegre e a infinita descoberta de si.

Na prática, portanto, almeja-se convergir a energia despendida no acesso à face impessoal da inteligência para dar cabo de tarefas necessárias consideradas impensáveis nos séculos passados: reformar uma constituição nacional em poucos meses, redesenhar completamente a atuação da governança pública, tornar os cidadãos proprietários efetivos das cidades, revolucionar o ensino no espaço de uma geração, para ficarmos nalguns exemplos óbvios.

Está em nossas discussões e mentes não mais contrapor ideias fundamentais sobre para onde ir, mas escolher a velocidade com que queremos ir.

tratado das três faces

Doria, Silvio Santos e Zé Celso entram numa sala de reunião. A força histórica do encontro é mais importante que as miudezas do assunto. Sentam à mesa o típico capitalista brasileiro, riqueza ciosa de si e de sua perspectiva inflexível porque veio de baixo; o típico poeta brasileiro, popularíssima erudição mais ou menos desperdiçada, mais ou menos desenganada; enquanto media ou não media o tempo o típico político brasileiro, capaz de pensar, a cada passo, na própria carreira antes de pensar na coisa pública. Um roteirista premiado seria incapaz de atribuir as falas, tempos e deixas melhor que o que de fato aconteceu. A cena, captada em vídeo digital, foi publicada na internet.

Por que a força histórica é mais importante que o assunto em si?

Bem, não bastasse a representatividade generosa, atual e precisamente encarnada de tipos nacionais protagonistas de nossa formação, o jogo de tensões representado, mas não encenado, ajuda a visualizarmos os credos de cada um. Melhor que um alentado estudo sociológico, as falas espontâneas de Doria, Silvio Santos e Zé Celso, apontam com depuração arquetípica e eficácia semiótica, às vezes num simples trejeito, num ato falho, no modo com que provocam, se deixam provocar ou respondem a uma provocação, no modo com que anunciam seus desejos e restrições, escondem ou revelam seus ressentimentos, diluem ou acentuam os conflitos, algumas das estruturas essenciais da dinâmica de poderes em certame no Brasil. O vídeo, amador, poderia desde já ser colocado ao lado de Casa Grande & Senzala, Raízes do Brasil e Os Donos do Poder, como um documento de acurada síntese de nossas forças e fraquezas, ameaças e oportunidades.

O poeta quer que todos sejamos poetas, e que troquemos a ganância particular por uma vida boa na cidade aberta. O capitalista não quer ver seu esforço desmerecido de repente e do nada, como se todo seu trabalho pudesse ser diluído da noite para o dia. O político não pode ser o anjo de que gostaríamos, pois crê ter altos planos para nosso futuro, planos que só ele será capaz de concretizar, e deve ser maquiavélico antes de esbanjar bom coração. O capitalista, a um só tempo, desmerece e idolatra o dinheiro, e mascara-se inúmeras vezes no eufemismo do clichê preconceituoso para contrastar a vida vadia, licenciosa e ‘mal sucedida’ do poeta. O poeta é leitor da cultura universal, e porque um capitalista resta há tempos decifrado e repisado, esquiva-se dos golpes baixos com facilidade, mas é incapaz de vestir-se nos termos do oponente, acentuando, na ingenuidade de suas demandas, o abismo irrevogável entre as duas visões de mundo. O político tem assuntos mais importantes para tratar antes de apaziguar um choque de vaidades entre senhores cujos legados estão para lá de concretos, de modo que responde mecânica e desapaixonadamente, entoando um ‘qualquer coisa’ para sair logo dali. A rigidez do capitalista, sua inabilidade em pensar fora do próprio bolso, a fragilidade declarada do poeta, a serviço de seu desprezo atávico pelos gananciosos, e a frieza do pragmatismo superficial do político, concentrado em expandir seu domínio sobre nós, custam aos habitantes e trabalhadores da cidade tempo e saúde irrecuperáveis. Perdemos todos, mas a lição é boa.

uma ideia para ‘minha casa, minha vida’

As fotos que vi dos projetos de habitação popular recendem o futum da imaginação pobre. Ninguém merece uma casa fria, insossa, em nada orgânica. Que dirá das famílias a habitar o bojo vasto do precariado, num país de patrícios insensíveis e políticagem espúria.

Nossa ideia para extorquir o programa Minha casa, minha vida de seu futum recendido via tristes imagens de esquadrias de alumínio por onde se passa um bebê e nada mais, cômodos minúsculos, profusão de paredes, porcelanatos horrendos, e frieza de cal e de morte, esboça-se a seguir:

É uma casa onde se toma juízo da arte da domesticidade essencial: a terra, o céu, a água, o fogo, o dia, a noite, e as plantas.

Num terreno de 9 por 9 metros, constroem-se 70 metros quadrados, sendo 50 (~7×7) no piso térreo, e 20 (~3×7) em patamar.

Ao centro, FOGO: forno a lenha, chapa e bocas, em adobe de radiação, e evacuação superior de fumaça.

Atrás, ÁGUA: pedras onde se lavam corpos, vestes e utensílios, com filtragem, reuso, e quedas em volumes vários.

Nas laterais, JANELÕES: enormes molduras de madeira a vidros em temperamento e difusão ótica, basculantes.

Em frente aos janelões, PLANTAS: espécimes da flora local em vasta jardineira modular de cerâmica.

À frente, PÓRTICO: enorme moldura de madeira a trabalho entalhado e único em madeira, em trilho.

À frente do pórtico, SOLEIRA: híbrido interior/exterior em pedra e madeira, ajardinado.

Entre água e fogo, CASA NOTURNA: espaço de ceia, leitura, jogos íntimos, meditação e sono. Piso de junco recolhível sobre concreto.

Entre fogo e pórtico, CASA DIURNA: espaço de trabalho, exercícios biomecânicos, atividades de manutenção e confraternização. Piso de concreto.

Sobre a casa noturna, SOLARIUM: mezanino amadeirado com cisterna, horta, ponto de energia e telecom e área livre.

No suporte, VIGAS MESTRAS: fortes toras a demarcar o limite da unidade, sustentar paredes, patamar e telhado.

12 unidades com ÁGUA voltada para dentro formam um amplo círculo, chamado “QUADRA”, em cujo centro arborizado há recanto para aves e insetos, micro-unidade de tratamento de descartes, e espaço para confraternização. Seis “quadras” unidas podem dar num quarteirão, servido enfim por vias por onde passa o transporte público e os veículos de serviço.

* * *
Para solicitações e perguntas, casa@tourobengala.com

sedição é chance: nota sobre a crise espanhola

Conforme escrevo, a gente catalã está fechada à vontade do Reino de Espanha. Acabo de assistir, num streaming em tempo real, a uma plácida e alegre caminhada dos bombeiros da Catalunha, em prol da autonomia indepedentista nacional. Trens, metrôs, ônibus, portos e estradas estão parados, num ato de represália à violência policial de Madri do domingo passado, quando o mundo quedou-se um tanto estarrecido ante as cenas de idosos e mulheres arremessados ao chão e chutados por enormes agentes da força espanhola. Numa das fotos mais belas, centenas de tratores, encaminhados das zonas rurais da Catalunha, fechavam as vias de acesso ao centro de Barcelona no domingo do referendo, de modo a impedir a chegada de novas tropas do batalhão do Reino.

Mas o que quer, afinal, a gente catalã? E por quê? E o que quer, por seu turno, o Reino de Espanha? E por quê? Ainda: por que tal evento, cujos desdobramentos restam imprevisíveis, é importante para nós, cá no Brasil?

Como toda gente, a gente catalã quer curtir a vida. Seria inacreditável se não fosse assim. Por seu turno, o Reino de Espanha não deseja desmembrar-se, desejo que tampouco chega a ser exorbitante a um organismo cuja identidade se expressa na união de suas partes. A crise atual acusa incompatibilidade entre os modos de propor os desejos de um e de outro lado.

Converse com um estudante catalão. Ele demonstrará, serena e lucidamente, que sua narrativa independentista está correta. Converse então com um agente do governo de Madri, ou mesmo com o editorialista do periódico El País, e eles demonstrarão, serena e lucidamente, que sua narrativa é legalista e, portanto, correta. No meio das conversas, uma e outra parte afirmarão o pacto democrático, a vontade popular, a soberania, o cristal teleológico do dínamo contratualista a reger a configuração política da convivência. Dois lados, nenhum deles errado. Como proceder?

A saída será uma de cálculo projetivo, estatístico e poético (posto que expresso em narrativas ansiadas), a partir do fio vermelho que teceu a nossa história. Numa leve e funcional distorção da fábula hercúlea do labirinto, seria o caso conjurarmos a prudência de Ariadne – não por retornar por onde entramos, mas para adivinhar e fazer o melhor dos mundos a seguir. O cálculo não é só estatístico: é também poético. Isto quer dizer: entre os vários cenários possíveis e queridos de desdobramento, a eleição se dará também em chave quente e apaixonada, sanguínea e vibrante, de uma confabulação de sonhos cruzados e ingenuidade imanente.

Leiamos por um instante o poema ‘Oda a Espanya’, do poeta catalão Joan Maragall (1860–1911), em tradução de Fábio Aristimunho Vargas:

Escuta, Espanha, a voz de um filho
que fala em língua não castelhana:
falo na língua que me legou
a terra áspera:
língua em que poucos já te falaram;
na outra, demais.

Mais te falaram dos saguntinos
e dos que pela pátria morrem;
das tuas glórias, tuas lembranças,
lembrança e glória de coisas mortas:
viveste triste.

Quero falar-te de outra maneira.
Por que verter o sangue inútil?
Dentro das veias o sangue é vida,
vida de agora e dos que virão;
vertido, é morte.

Muito pensavas em tua honra
e quase nada em tua vida:
teus filhos, trágica, à morte os davas,
te saciavas de honras mortais,
e os funerais eram-te festa,
ó triste Espanha!

Eu vi os barcos zarparem cheios
de filhos dados por ti à morte:
iam alegres a seu destino;
e tu cantavas à beira-mar
como uma louca.

Cadê os barcos? Cadê teus filhos?
Pergunta ao Poente e à onda brava:
perdeste tudo, não tens ninguém.
Espanha, Espanha, retorna a ti,
dá teu pranto de mãe!

Salva-te, oh! salva-te a tantos males;
faça-te o pranto fecunda, alegre e viva;
pensa na vida que te rodeia:
ergue a cabeça,
sorri às sete cores que há no arco-íris.

Não te vejo — onde estás, Espanha?
Não ouves minha voz tonitruante?
Não sabes esta língua que te fala entre riscos?
Desaprendeste de entender teus filhos?
Adeus, Espanha!

Agora, leiamos as estrofes 18, 19, 20 e 21 do ‘Cántico’ de San Juan de la Cruz (1542–1591):

¡O ninfas de Judea!,
en tanto que en las flores y rosales
el ámbar perfumea,
morá en los arrabales,
y no queráis tocar nuestros humblares.

Escóndete, Carillo,
y mira con tu haz a las montañas,
y no quieras dezillo;
mas mira las compañas
de la que va por ínsulas estrañas.

A las aves ligeras
leones, ciervos, gamos, saltadores,
montes, valles, riberas,
aguas, ayres, ardores,
y miedo de las noches veladores:

Por las amenas liras,
y canto de serenas os conjuro
que cessen vuestras yras
y no toquéis al muro,
porque la esposa duerma más siguro.

Ora, o que temos aí? O que temos aí senão a celebração dialógica de uma cultura antiga e forte, tão radical quanto dinâmica? Nós, no Brasil, somos pelo menos 33% Ibéria, e a Ibéria é nada menos que o Brasil da Europa, tendo lá amalgamado, antes de nós, África, Roma, Arábia e Saxônia. No entardecer do Império brasileiro, Pedro II e seus conselheiros viam brotar no tabuleiro do território miríades de manifestações similares, revoltas carentes, sedições separatistas. Tanto nos faz pensar o que carrega de Recife, Barcelona. E como a força nacional foi capaz de superar os desejos de separação, impondo-se muitas vezes não como um pai responsável, mas como um irmão invejoso. Sempre que volto aos registros das revoltas que antecederam a República, penso, ao lado de Joan Maragall, que cabe ao governo central a postura paternal e responsável — olhar suas regiões como filhos, calando-lhes quando suas demandas são imaturas, sentando-lhes à mesa quando soarem persuasivos. Filhos que crescem, amadurecem e desenvolvem projetos de autonomia, mais dia, menos, dia, conversam de igual para igual. Se o Império Romano seguisse apenas seus anseios, não haveria Espanha. Espanha é filha de Roma, que soube crescer, desejar e falar por si.

Os Estados Nacionais nasceram graças a uma ruptura, mais ou menos pacífica, a depender do caso, dentro dos sistemas feudais e absolutistas. Hoje, no seio da globalização tecnológica, testemunhamos a expressão rediviva do orgulho local. As cidades, e não mais as nações, estão crescendo e se afirmando como pólos de inovação comercial e política. Em mais ou menos tempo, as culturas nacionais serão resíduos simbólicos, expressos e cultivados em seus mais honrados produtos. Nos lembraremos deveras do cinema espanhol de Buñuel e Almodóvar, da guitarra espanhola, flamejante e virtuosa, do queijo da Mancha e da paella de Valência, da cava, da pata negra e do tempranillo, mas não mais visitaremos um país, e suas antigas fronteiras serão meras curiosidades historiográficas. Visitaremos Córdoba, Madri, Barcelona e Oslo, ou nomes todavia insuspeitos, pois é alegremente amalucada a toponímia da quarta revolução industrial. Os países, cedo ou tarde, cederão à lei internacional, à licença autônoma das diversidades regionais, e à alegria dos fazedores dos primeiros dias dos muitos novos mundos. Assim aponta a maturação do Direito, e da expressão política popular.

Vejo a sedição catalã como uma oportunidade. Sob o topos amargo da desavença, dá-se à Espanha uma chance de ouro. Assumir as rédeas e tornar nobre o desenlace é o que se espera de uma cultura que legou ao mundo tamanha Arte, tamanho Ritmo, tamanha Política. Que mantenha-se altiva e imperiosa, e não ceda nem rebaixe-se aos queixumes tonitruantes de um filho sufocado e irritadiço. Há 40 anos talvez não fosse a hora; hoje, talvez, seja. Hora de sentar e ouvir a voz do filho que, enfim, se quer tão pai quanto.

Nada apagará da História as façanhas espanholas. Ao contrário: a cultura planetária dedicar-se-á a contemplá-la e a consumi-la, repetindo seu Nome em admiração e pesquisa, quanto mais motivos tiver de dela se orgulhar. Este orgulho hoje depende da condução augusta e serena, não ressentida nem orgulhosa, muitíssimo menos violenta, da crise que se desdobra em chance de ouro. Condução de quem raciocina junto a um filho bem nutrido e capaz, com ele arrazoando os novos termos de su desejada e nova autonomia, morrendo para não morrer, como pediu Santa Tereza, amando-o e bem querendo-o, con llama que consume y no da pena.

brasil no limiar

É tempo de darmos espaço à urgência do resgate da dimensão política de nossas vidas. Parar um instante com os projetos e atribulações familiares ou profissionais, frear grandes viagens e investimentos. O solo está instável, os ventos confusos.

A dimensão política de nossas vidas amofinou, dissipada pela frustração. Resgatá-la é urgente porque só ela terá a força capaz de reequilibrar o jogo. Jogo que estamos perdendo, e de lavada, para nossa própria incapacidade de comoção diante da história recente.

A arte, a religião, a ciência, o direito, o império dos sentidos, as redes e a economia – tais modos de existir e ver o mundo são importantes, mas aceitar a pobreza da dimensão política de nossas vidas torna cada um desses modos consequentemente mais pobres. Paulatinamente, e sem que percebamos com clareza, viver torna-se mais enjoativo, a felicidade mais artificial, o amor mais cínico. Vamos fugindo de nós, de nossas potências e identidades, para abraçar paraísos inexistentes, fantasias de segregação e perseguição, violências que nada resolvem, gozos e consumos que nada satisfazem.

Resgatar a política é fazer um esforço para que o campo geral da vida volte a conspirar a nosso favor, frutificando nossos sonhos, celebrando nossos diferenciais e as potências de nossa gente.

Mas o que é, a dimensão política de nossas vidas? E por que estaria ela amofinada?

A dimensão política de nossas vidas é a forma com que organizamos e acessamos o poder. Poder para 1) decidir o que é importante, e 2) realizar o que foi decidido. Você é dono de seu corpo e, se tudo correu mais ou menos bem, de sua reserva doméstica, sua casa. Aí, é você quem preside e legisla. Você determina o que é importante, e você realiza o que foi decidido.

A vida, entretanto, acontece no encontro de muitos corpos e casas. Entre os corpos e as casas, existe tudo aquilo que é nosso, que sempre foi e sempre será nosso. As ruas e rios, o pôr e o nascer do sol, a brisa e a paixão. A faculdade de estender a mão a um irmão, de levantar uma festa, de lutar por direitos. O canto dos pássaros, a copaíba e o jatobá, o calor de um abraço, o sorriso de uma coincidência. A vida acontece feliz ou infelizmente graças à dimensão política com que nos ligamos e nos reconhecemos. Se deixarmos esta consciência esmorecer, murchar, enfraquecer, a alternativa será a estupidez nada confiável da lei do mais forte, dos espaços restritos e privados, do acesso à alegria da cidade reinventada apenas a poucos glutões.

Se a lei do mais forte não fosse estúpida, Homero, frágil e cego, jamais cantaria. A palavra de Jesus e de Confúcio jamais teria corrido o mundo e erguido milagres de fé e solidariedade. A escravidão jamais teria sido abolida. Os direitos trabalhistas jamais teriam sido criados e tornados lei. O Brasil jamais teria declarado independência.

Hoje, o poder está mal organizado, e nosso acesso ao poder é praticamente nulo. Tal situação, tensão que só faz aumentar, pede um redesenho republicano que torne os exercícios deliberativos e administrativos do poder mais atinentes às possibilidades e desejos atuais.

O Brasil é uma terra rica e abundante, mas somos um dos países mais desiguais do mundo. Quanto mais desigual o país, mais insignificante é curtir a vida. Eu pretendo curtir a vida. E você?

As urgências especificamente brasileiras, da União e de suas cidades, foram soterradas. Em seu lugar, opera-se nas câmaras legislativas e nos gabinetes executivos um teatro insosso de revezamento partidário, funcional até o momento em que o grande capital monopolista passou a ser ameaçado pela promotoria pública. Mas o grande capital, mesmo o monopolista, colocará sempre a razão na frente do orgulho. Já os partidos políticos, em tempos de convergência abundante e de superação das diferenças, tornaram-se repetidores intrinsicamente orgulhosos e incapazes de despertar confiança. É hora de ocupar o que é nosso, sem o ressentimento da máscara, sem a raiva do ofendido, mas com o orgulho e a força de quem conhece e zela e luta pelo lugar onde nasceu.

Em seu proveitoso livro de intervenção, Só mais um esforço, Vladimir Safatle diz:

Neste momento em que alguns se inclinam a uma posição melancólica diante dos descaminhos do país, há de se lembrar que podemos sempre falar em nome da primeira pessoa do plural, e esta será nossa maior força. Faz parte da lógica do poder produzir melancolia, nos levar a acreditar em nossa fraqueza e isolamento. Mas há muitos que foram, são e serão como nós. Quem chorou diante dos momentos de miséria política que este país viveu nos últimos tempos, que lembre que o Brasil sempre surpreendeu e surpreenderá.

esboço a uma teoria de estado, parlamento dinâmico, executivo tecnocrata

Vejo, à esquerda e à direita, oportuno campo comum de descrença na expressão oficial da política. De um e outro lado, irritam-nos as reações pouco pragmáticas e inerciais, afinadas a seus trejeitos históricos, e não à solução.

A esquerda poetiza ruturas vingativas, exibindo discurso irresponsável ou, no mínimo, tecnicamente falho. A direita aceita mudar a paisagem, pelo amor de suas filhinhas, desde que não perca nada no caminho, enojando assim a ampla população sofrida e trocando união por desconfiança. Fiquemos com a oportuna descrença de parte a parte e desprezemos seus vícios. Os vícios, afinal, não são, neste caso, tanto de personalidade quanto de lesão cognitiva por movimentos repetidos.

O futuro será diferente? Não resta dúvida. O que a gente às vezes esquece é que ninguém o fará diferente por nós. Que repetir um movimento ou tradição não necessariamente significa aproveitamento biomecânico otimista. E que a velocidade da mudança é função direta da força dos nossos compromissos, mesmo quando dizemos Não. Esta breve postagem tem por objeto levar a público um desenho novo de configuração democrática. Precário em sua simplicidade, mas possível mexer.

As repúblicas democráticas não são estágios definitivos da convivência. São um movimento. Hoje expressas em estados-nação, já foram reinos, feudos, guetos, ducados, pântanos, cidades-estado. Tais instrumentos de concreção política, ou de comunhão produtiva das diferenças, assumirão ainda muitas impensadas formas, melhores ou piores que as atuais.

Nossa vigilância e nosso debate servem para manter aquecida e alerta a preocupação com a evolução. Proponho, como plano de fundo a meu desenho, uma teoria bastante simples do Estado. Conquanto mudem as configurações da convivência, creio no Estado como uma ideia conceitual suficiente para restar qual ponto de fuga quase religiosamente permanente. Porto onde sempre voltar antes de amanhecer um novo traço no mar alto das paixões. Neste desenho, o plano de fundo do Estado é um bocado total.

Todos os seres expressam o Estado em sua instância primária, que coincide, não por acaso, com a simples presença. Devemos superar a noção, a meu ver retrógrada, do par insistência estatal / existência cidadã. Nem o Estado deve insistir, nem o cidadão existir. Mas todas as presenças são e dão a ver o Estado em seus bocados totais – favor fractal da vida insólita. Tranquilizadas da antiga tensão entre Organismo Insistente e Numéricos Existentes (não há dentro do Estado / fora do Estado), as presenças deixam de competir os privilégios da alocação, para confluir nos privilégios do estar. É como se não houvesse, mais, um lugar enfim onde chegar, mas apenas circuitos de tantos fluidos sabores.

Dito isso, e lembrando sempre da função de elo de todo desenho que se propõe evolutivo, há que retornar ao cenário atual e construir, paciente e coerentemente, sobre e desde as disposições legais e culturais dadas ou à vista, e nunca ‘do zero’.

Dos três poderes da teoria clássica do Estado, o Judiciário provou-se o mais autorregulável, parecendo hoje o menos adoentado. O Legislativo e o Executivo, fontes reais e mitológicas da presente aversão coletiva pela política oficial, encontram-se entre a sobrevida e a putrefação. Inúmeros intelectuais públicos e especialistas convidados têm se manifestado, pisando o sobredito campo comum da descrença, sobre quetais e senões da problemática da representação, este conceito-chave da república democrática. Comecemos, aproveitando a onda, pelo Legislativo.

Proponho a figura do Parlamento Dinâmico, e a troca dos prepostos ‘direto’ , ‘indireto’, ‘real’ e afins por ‘graus de separação’ no exercício do voto. Um parlamento dinâmico tem por ideia central a vacância permanente dos assentos. Seriam, a título de exemplo, 700 cadeiras completamente vazias. Um Congresso Nacional sem dúvida aberto, mas teimosamente vazio. Uma pauta, digamos, que trate de bioética, ganha o chão da casa: a edição genética dos descendentes feita por empresas particulares deve ser compartilhada com o banco de dados da União? Em alguns segundos, o Congresso Nacional é ocupado por 700 parlamentares credenciados previamente para assumir o grau zero ante esta pauta específica (gente cuja formação e trabalho assim a habilita). Ali, eles discutem, formam times, rivalizam cenários, aprofundam estudos, propõem emendas, vetos, restrições e revisões, criando uma dezena de tópicos passíveis de voto. Em seguida, abre-se a votação. Neste momento, todos os adultos emancipados residentes no território referente àquele Congresso podem e devem votar, resolvendo as eventuais ignorâncias pela guarda da trilha dos graus de separação a um dos 700 parlamentares. A depender de sua situação, você pode estar a um grau de separação de um legislador, o que dará a muitos de seus amigos, familiares e colegas que confiam em suas relações a possibilidade de um segundo grau. Assim por diante, até que todo o território se manifeste sobre o tema e exerça o voto. Em cada votação, registra-se não só a atribuição eleitor–voto, mas também a trilha que o levou ao voto. Por que você disse ‘sim’ a este tema? Porque minha esposa tem uma comadre cuja filha trabalha com o avô de um parlamentar que aconselhou o sim. Todas as trilhas são publicizadas.

Trata-se de uma figura, admito, ainda bastante crua, mas que parte da premissa de que parlamentares fixos, por mais ecléticos, honestos e voluntariosos, são atraso de vida ante as possibilidades atuais. Cada assunto específico merece, no grau zero do Congresso, as melhores cabeças disponíveis. Sem partidos que não os que aquele assunto mereça. Partidos cujos nomes e slogans se formam não previamente, mas em consequência dos dilemas tangíveis e tecnicamente defensáveis. Trocamos o circo do marketing insosso e as representações pétreas com orgulho de clã, pelas disputas concretas do dinamismo útil e do lastro universal da gnose comparada.

Já ao poder Executivo, proponho a configuração fria da tecnocracia meritocrática extrema, sem qualquer espaço para conversinhas, favores, arranjos. Um conselho formado por seis homens e seis mulheres nobelizáveis dos quatro cantos do território, todos entre 65 e infinitos anos – conselho por assim dizer ancião – escolhe, por meio de manhas próprias (que podem incluir mas não se resumir à magia), o Chefe do Executivo, um realizado Gestor, ilibado e disposto a dedicar um período de trabalho voluntário ao país, sem benesses nem privacidade. Este chefe responde pela escolha de quatro Diretores. É, ainda, porta-voz do Conselho Ancião e Secretário das reuniões deste. As quatro Diretorias do Executivo são: Ecologia, Economia, Redes e Educação. A cada uma, uma breve descrição a seguir.

Ecologia: aquilo que dizíamos Defesa, e antes Guerra. Os saberes profundos da casa, as visualizações de todo e cada curso e recurso, em todo e cada mapa imaginável. A cartografia da matéria no bojo e na composição do território. A garantia dos acessos e das liberdades acordadas. A guarda e o resgate, o cuidado e a recuperação. Uma diretoria com alma feminina.

Economia: Fazenda, Tesouro, Títulos, Reservas, Fluxo de capitais, trocas internacionais, bolsas de futuros, derivativos e Regulação. A hierarquia dos nomes da casa, para que não se trate o valoroso como o vagabundo, nem o caro, como barato. Os regimes de trabalho, e os regimes de compensação. As cobranças, e as cobranças das cobranças, pois não há nem deve haver jamais um almoço grátis, na medida mesma em que deve haver graça em toda e cada refeição. Nunca é só a economia, mas é ela a interface a impedir que nos tornemos estúpidos. Uma diretoria de mão masculina.

Redes: Aquilo a que outrora dissemos Infraestrutura, e antes disso Departamento de Obras Públicas. As viabilizações dos movimentos (engenhos), a viabilização das vias, do dado à energia, bem como suas manutenções e renovações. Os fundamentos práticos de toda e qualquer operação no território. Algo fora da rede é algo impraticável. Uma diretoria da ‘Inteligência Artificial’.

Escolas: A estratégia otimista dos saltos geracionais, no que torna a vida sempre melhor, e nunca pior. A escola é una e é pública, obrigatória e quase ditatorial em sua mania de excelência alegre e laboratorial, da tenra idade às pós-especializações. Uma diretoria jovem–anciã.

Eu espero com isso ter contribuído, um pouquinho, com a necessidade premente de novos desenhos a acudir, sem ressentimento, raiva, revanchismo nem malícia, o esgotamento amplamente observado da conjuntura ora disposta.

um diagnóstico: retorno

O texto de ontem [um diagnóstico] não gerou muito impacto de visitas. A geração predominante na internet (pós-gêneros 14 a 24) deu ao post a tag TLDR, abreviação em inglês para ‘Muito Longo, Não Li’, e preferiu passar o olho nas sinopses. Os leitores mais velhos, no entanto, acharam razoável, mas parte expressiva caiu na armadilha que armei bem armada.

Um deles, aposentado que descobriu a militância política tarde na vida mas nem por isso se deixa desmotivar, escreveu ecoando um cacoete bastante desagradável da esquerda formalista, que eu justamente pretendia ver sair da toca: “criticar a corrupção, no fundo, é meio cafona”, escreveu.

Esta esquerda, encantada numa insularidade duplamente antipática (diminuição moral do mercado, de um lado, e nojinho ante a vida comum do trabalhador naturalmente de direita (cioso de suas posses e das leis escritas), do outro), prefere ser conhecida como ainda acidulante a perder os charmes sessentistas missionários da boina preta e dar as mãos pra gente que trabalha e não fala nem faz questão de falar francês.

É uma pena, pois muitas nobres inteligências brasileiras hoje estão assim infectadas sem saber, desvirtuando jovens com pretensões intelectuais. Algo triste: ver um jovem que já foi pobre mas no segundo ano de uma faculdade pública de humanas qualquer se deixa levar pela figura do protótipo do reclamão teórico, quando o que ele deseja, em seus fundilhos, é não pegar no batente para se dedicar à ‘luta’ e aos ‘estudos’.

Pode ser natural, mas é muito irônico, que justo a produção de ideias da esquerda fique, ao fim e ao cabo, mais distante da realidade do trabalhador comum do que 5 minutos de palestra de um vendedor de esquemas pirâmide. Este fato, cujas consequências talvez nem tenhamos começado a ver, adormece o Brasil.

A cafonice de criticar a corrupção sempre existiu na crítica da esquerda. Afinal, a corrupção é, como gostam de dizer desde Rousseau, da hipocrisia da ’natureza humana’, e o importante é vencer o Capital. Mas ela foi exacerbada com os paneleiros canarinhos de 2013, os tais que supostamente derrubaram o PT. Compreensível?

Odiada por ter apenas coletâneas de MPB, e nunca os discos originais do Caymmi, a classe média deste país sofre injustamente na mão das crias da ciência política importada da Europa. Sempre atacada por sua estreiteza estética (o shopping da Barra, as casual fridays da Vila Olímpia, a festa de Barretos, dizer ‘eu fiz Itália, Grécia e Espanha’ e nunca ‘eu fui/estive/viajei a Itália, Grécia e Espanha’ etc), esta classe média tornou-se um alvo-joão bobo, quem sabe inexistente, e passou a constar nas cartilhas como pré-requisito nas manifestações públicas da redação engajada. Prova cabal de que a esquerda conversa entre si, cultivando piadas internas e pagando os dízimos à patrulha, e nunca conosco. Outra ironia: o discurso de transformação social, oriundo da Academia, e nunca das barricadas, hoje tem menos impacto prático do que a fala de qualquer pregador, de qualquer religião, dirigindo-se sinceramente a seus devotos sobre a bondade na vida.

Quando um termo como ‘corrupção’ ganha os holofotes, é importante não se enrolar nele. Uma das tarefas, para tanto, é praticar o distanciamento, saindo dos jornais diários e buscando sua longa duração na história. As duas raízes indo-europeias que o compõem (*kon-, ‘junto’, e *reup-, ‘ruir’) indicam a união para o estrago. Um trabalho coletivo de negação. Seu antônimo preciso é ‘construção’, um trabalho coletivo de afirmação.

Um exemplo bastante autoevidente de corrupção pode ser visto neste esquete dos irmãos Marx:

Ao observar a evolução do emprego dos dois termos, corrupção e construção, no corpus livresco da língua inglesa (não há, ainda, a tecnologia de aferição lusófona, infelizmente), notamos a curiosa figura:

Ora, a tendência parecia boa até 1977, quando morre o Groucho e estreia Star Wars. Daí em diante, ‘construção’ vem caindo e ‘corrupção’ subindo. Mas isto não indica, necessariamente, que a corrupção vem crescendo e a construção diminuindo. Talvez a sociedade, de quem os escritores de livros são antena, esteja mais acostumada, da morte do Elvis e da estreia dos Sex Pistols para cá, com a construção, e mais alerta para a corrupção, donde esta ocupar mais os livros que aquela. Pode ser. O que não explica, mais uma vez, o cacoete da esquerda brasileira a repetir que criticar a corrupção é pactuar com a cafonice dos muambeiros de Miami.

Como eu apontei no diagnóstico de ontem, o Governo deve ser uma empresa exemplar, e não existe absolutamente nada que distinga a gestão pública da gestão não pública. Orçamento é orçamento, custo é custo, recurso é recurso e retorno é retorno, seja ao vender iPhones, seja ao fazer uma ponte. Quando criticamos a corrupção, criticamos, sobretudo, o trabalho voluntariamente pior do que poderia ser. Não se trata, estritamente, do aspecto policialesco da corrupção. O crime de colarinho branco, aliás, é outro fetiche da esquerda intelectual que ela gosta de projetar na classe média trabalhadora, esta que só quer ficar em dia com os impostos, gerar empregos e curtir a vida honestamente. Se entre duas opções de contratação ou compra de materiais, a pior escolha é feita, deu-se corrupção da função gestora-executiva, importando menos se alguém desviou ou foi desviado.

O mercado, o dinheiro e a concorrência são inexpugnáveis da realidade, na medida mesma em que são melhoráveis, quanto menos e menos corrompidos forem a gestão e os processos. Tanto o Governo quanto uma empresa não pública são admitidas em nossa realidade mediante uma razão de ser e um contrato acessível. A integridade das pessoas jurídicas pressupõe a aceitação e o de acordo do organismo social, e toda corrupção é uma forma de traí-lo e sujeitar-se a boicotes, sanções e penas, das cármicas às judiciais.

Limpar a corrupção, para repetir o clichê, é um trabalho sem fim, mas começa cedinho, todo dia, em casa.

um diagnóstico

Aos 38 anos, tendo convivido, em âmbitos variados, do profissional ao festivo, com as gerações anterior e posterior à minha, com classes de ofício várias, das mais comprometidas com o estabelecimento, às mais sedentas pelo novo, e tendo passado por um treinamento razoável, ainda se autodidata, em coleta etnográfica e organização taxonômica, sinto-me livre e seguro para compartilhar com meus leitores um diagnóstico preocupante.

O diagnóstico diz respeito ao organismo social, corpo sem dono cuja inteligência compomos e compartilhamos a cada e todo instante, mediante cada e todo gesto e fala que produzimos. A inteligência do organismo social não é suprema nem infalível. Mas é tão alta quanto o mais alto de que formos capazes. E cresce, também, conforme crescemos. A viabilidade das conversas incessantes com os ruídos, da fluidez perspectivista, e da atualização ligeira no uso das gírias prova isso.

Não há nada de predestinado no organismo social. Nada fatalmente inscrito. Nosso livre-arbítrio, entretanto, é produto da rede histórica dos desejos de todos os homens. A rede histórica dos desejos de todos os homens, infelizmente, é invisível. Visíveis, graças às ferramentas de manipulação material, são os desenhos dos homens. No começo, éramos poucos. Multiplicamo-nos e formamos uma grande família planetária. Nossos desejos encarnam-se em desenhos, desenhos que hoje constituem e representam o organismo social.

Não há liberdade fora do organismo social, e o organismo social não tirará a liberdade de ninguém. Por que lutamos? Porque sofremos. Por que sofremos? Porque muitos dos desenhos, lá atrás fixados em instituições, em crenças, e em processos, são às vezes garranchos, rascunhos trepidantes, indevidamente aceitos como desenhos finais. Quando sofremos ao constatar uma falha sistêmica aqui e ali, não é, necessariamente, que alguém foi absolutamente malicioso. É que muito desenhamos conhecendo pouco. E a matéria, em sua miríade de durezas, seduz e engana.

Gosto de imaginar que, tal e qual guarda meu corpo um coração, meu bairro guarda minha casa, a cidade guarda meu bairro, e meu país guarda minha cidade. Não ligo para as unidades federativas, a não ser em concursos de sobremesas (um bom doce baiano, um notável doce mineiro etc). Mas sim, o diagnóstico é:

estamos rodeados por problemas reais, difíceis mas não raro gostosos de resolver, dispondo como dispomos destas tantas engenharias. Mas muita gente que encontro prefere desconhecer tais problemas, apenas para criar novos problemas. Muita gente que encontro prefere dar as costas a tais problemas, apenas para ‘jogar o jogo’, como dizem. Os primeiros muitas vezes se dizem revolucionários, quando agem, boa parte do tempo, e em que pese certa elegância tática, como autênticos tapados. Só um tapado para desconhecer um problema real, criar um problema imaginário e espalhar por aí que está mudando o mundo. Os segundos muitas vezes se dizem ‘da ordem e da lei’, quando agem boa parte do tempo, e em que pese certa transparência de raciocínio, como autênticos canalhas. Só um canalha para ignorar um problema real, criar o problema imaginário do medo e da insegurança e espalhar por aí que a ordem e a lei são crias exclusivas do medo e da insegurança.

Peço desculpas pela simplificação. A gente é bem mais variada e diferente do que isso, e decerto temos todos um bocadinho de revolucionário e de jogador da lei e da ordem dentro de nós. O diagnóstico, contudo, é importante. Continua sendo importante. E não deixará de ser importante. Ele pode ser resumido assim, o diagnóstico:

nossa lista de problemas reais, nossa lista de coisas importantes, e para não deixar nenhum querido de fora, vou chamar essa lista, ao menos por enquanto, de lista brasileira (quem estiver a ler desde outro território, sinta-se à vontade para fruir de nossa lista conosco sempre que viajar pra cá, temos ótimas praias e chapadas carregadas de vivacidade mineral), pois, nossa lista de problemas reais, nossa lista de coisas importantes, parece-me bastante atrapalhada. Ou há supostas listas conflitantes, o que seria logicamente incabível, posto que o território brasileiro é único. Prefiro acreditar que é uma lista atrapalhada. Negligenciada. Ou mofada, para usar um termo que ficou célebre na Constituinte de 88.

‘Buraco negro’ foi outro termo celebrizado na Constituinte de 88, a certidão de nascimento da Nova República. Era como apelidava-se uma pauta inalcançável aos dois lados politicamente organizados (‘sistematização’ e ‘centrão’, nomes psicodélicos a tanto revelar nossa falta de rigor categórico).

Os buracos negros de então (o conteúdo e o mérito não importam, pois a Constituição de 88 é formalmente uma lenga-lenga) eram zonas de tensão entre formas de pensar historicamente antagônicas. Naquela Constituinte, gestou-se a polarização que vivemos hoje, informada menos por cálculo que por testosterona de machinhos (entre os quase 600 constituintes de 88, havia míseras, vergonhosas e indesculpáveis 5 mulheres) que se queriam do lado certo e irremediável, sempre.

De uma parte, procurava-se garantir que as traumáticas marcas de uma colonização racista e economicamente ineficaz cedessem à razão da justiça igual e das oportunidades iguais para todos. De outra, procurava-se garantir que a aristocracia improdutiva da ameaça comunista não voltasse a bagunçar o país e ludibriar o povo.

Assim, sabendo-se o bastante de justiça e de bagunça apenas para arrumar desafetos e brigas (acreditem, havia constituinte andando armado), desenhou-se a Constituição de 88, cujo produto essencial é a Nova República.

A Nova República nos brindou com o fim da hiper-inflação, e com o abraço de inédita generosidade da União ao pobre. Mas foi incapaz de iluminar e tratar os vícios coloniais da corrupção e da exploração indevida, com suas muitas formas opressoras de coronelismo, compadrio, mandonismo e filhotismo (aberrações a nos brindar hoje em dia com o mimsafismo e o qualquercoisismo, tópicos de um post futuro).

Eu não quero falar da Constituição de 88 porque ela tenta me explicar e me sujeitar a termos estapafúrdios como o que eu posso ou não ingerir. Mais um pouco, ela tentaria me explicar o que é um pires. Eu não preciso, nem você, nem ninguém. A gente tem o google pra fazer inhame empanado na tapioca e biohacking, sinceramente.

Volto ao diagnóstico, e volto a pedir desculpas por perder nosso tempo com a Constituição de 88, da qual não quero e não pretendo voltar a falar. Outro dia me informaram que não tínhamos computadores na época da Constituição de 88, e que boa parte do pré-projeto foi feito na tesoura e na cola. Mas é mentira. Tínhamos computador sim, e não usamos, eis mais um triste índice do natimortismo da de resto ricamente intencionada Carta. O diagnóstico, se o leitor tiver paciência, eu gostaria, assim, de enunciá-lo:

hoje o brasileiro tem mais motivo de vergonha do que de orgulho de ser brasileiro. Quando um povo tem mais vergonha que orgulho da situação atual de seu território, a conversa política perde calor e cai no cinismo. O debate e a discussão essenciais para elucidarmos os problemas reais e concordarmos numa lista única de coisas importantes cede, de um lado, para lamúrias catastrofistas de uns poucos alarmados sinceros, e, de outro, para os niilismos egoístas e estabanados dos ditos players. No meio, sobram proto-samaritanos esclarecidos a convergir no desperdício triste do silêncio. Depois, os problemas reais, soterrados pelo cinismo e pelo egoísmo, vão piorando. E tudo piora para todos, mesmo para quem acha que está se dando bem. Em 2008, participei da produção desta pequena peça política, como redator e locutor:

Não ouvi falar, passados dez anos, que a qualidade do combustível melhorou. Alguém ouviu? Quem terá, portanto, motivo para celebrar qualquer coisa?

É triste conversar com um jovem hoje que, ao menor sinal de concatenação de um problema real, como a poluição dos dois grandes rios a cruzar a cidade, exibe, no escapismo de suas redes, o fato trágico de que a maioria da população brasileira não confia no Congresso Nacional, onde gestou-se a Constituição de 88. É triste conversar com um empreendedor hoje que, ao menor estímulo a seu orgulho nacional, exibe, no escapismo de suas redes, o fato trágico da desqualificação de nossa força de trabalho, do garrancho de nossas leis fiscais, dizendo não sentir culpa ao comprar tecnologia e fabricação asiáticas, ou exportar as melhores partes da colheita para os europeus.

Que fazer, diante de tal diagnóstico? Não sei ao certo, mas estou a investigar. Seria talvez salutar, a partir de um autoexame cauteloso, e com os dois pés no chão, praticarmos a leitura da história em sua longa duração, sem insistir na criancice de que cada dia é um novo mundo de zero a zero. Não é. Há pouco, éramos uma colônia escravagista de exploração latifundiária de monocultura. Por quase 400 anos fomos isso. E temos hoje pouco mais de 500 anos. Sabe o que isso significa? Que hoje, andar livre em roupas gostosas e consultar um smartphone comendo uma boa bisteca e tomando bons drinques é quase um milagre. Um milagre que devemos agradecer SEM PERDER A NOÇÃO do movimento histórico dificílimo que o viabilizou. E por fim entender: o trabalho de maturar a democracia brasileira não só não acabou, como está apenas começando. Neste começo, é crucial conhecer e valorizar cada pequena conquista, cada injustiça resolvida e iniquidade amenizada.

A Constituição de 88 tem muitos méritos. Nunca na história brasileira tanta gente foi ouvida, tanta proposta popular foi colhida dos quatro cantos do país. Houve, de fato, abertura, progresso e disposição positiva naquele Congresso. Formado que sou em Administração, acho que as empresas devem ser as primeiras a dar o exemplo. Toda empresa é um coletivo revolucionário em potencial. Se duas ou mais cabeças pensam e fazem pior do que uma, então era melhor não existir. Se somam inteligências, têm a obrigação de ser melhor que nós, de nos dar o exemplo.

No Brasil, a empresa mais importante é o Governo. Se ele não der o exemplo, uma longa e viciosa cadeia de jeitinhos e escusas seguirá. E teremos de ouvir a arengada, eis o Congresso que a gente merece, os jornais que a gente merece, as quitandas que a gente merece etc. É injusto forçar nossas crianças a escolher entre ‘jogar o jogo’ das planilhas egoístas ou tornar-se um rebelde que nega tudo isso que está aí. Justo seria trabalhar para que elas sentissem orgulho de nossa história e decidissem aqui ficar e estudar para desenhar nossas leis, nossos smartphones, nossos jipes.

Não haverá humanismo eficaz sem a participação lúcida e ativa, nossa, dos problemas brasileiros atuais e urgentes, e não haverá meritocracia sem vergonha, nossa, sem igualdade de oportunidades e de informação.

nota política

A cada nova geração de consumidores do noticiário político, renova-se a necessidade de revisitarmos os conceitos por trás do par esquerda–direita. Revisitar como quem dá uma passadinha, abre as janelas para deixar circular o ar, rega as plantas e tira o pó.

A premissa segue a mesma, a saber, temos TODOS a direita e a esquerda a compor nosso equilíbrio – e mais realizados seremos quanto mais firme e forte nos restar o equilíbrio.

O experimento da Nova República (1985–2017) submeteu ideias da esquerda e da direita às falhas de nosso sistema político, insuficiente em sua representatividade, vicioso em sua gestão. Nem o Legislativo falou por nós, mais interessado em assuntos particulares, nem o Executivo fez a contento, mais interessado em dar à máquina pública imprópria agência eleitoral.

Jovens cabeças boas que poderiam contribuir com a política, diante de um quadro que avexa idealismos sinceros e solidários, foram para a iniciativa privada, para as artes abstratas ou, no caso de cientistas e engenheiros de tecnologia, para o exterior.

Se até o final do século 20 entendia-se a direita como a preferência pelo Estado mínimo, e a esquerda como a esperança no Estado salvador, como estariam, hoje, suas formas?

Considerando as posições ultrapassadas de esquerda e direita como patologias capazes de normalizar a imaturidade institucional, o diagnóstico seria: a direita tinha vergonha do Estado como quem, diante de um parente negligenciado e ‘defeituoso’, preferia escondê-lo das visitas, fingir que não existia, tirar sarro etc; a esquerda era apaixonada pela imagem de um Estado papaizão, tão parrudo quanto possível, enfim capaz de tirar a gente desse sofrimento horrível, sofrimento que só a gente (nunca vocês) sabe que existe.

A direita diminuía o Estado porque, sem um competidor, ele seria um arremedo de gente, antro de preguiçosos, vagabundo que não merece dinheiro. A esquerda inflava o Estado porque, protegido único da traição da selva, só ele teria olhos para as injustiças históricas, para as compensações estruturais, para a saúde contra o consumo sem freio dos vampiros.

Mas eram visões infantis de si mesmas, encarnadas a sério por homens e mulheres poderosos que levaram o planeta à beira da exaustão ambiental e do abismo nuclear.

A atualização das virtudes discursivas da esquerda e da direita pressupõe o alisamento terapêutico destas arestas nostálgicas ou orgulhosas, da lida recalcada com o dinheiro e com a liberdade individual, bem como a cedição irrestrita diante dos ossos da desrazão separatista. Há, em qualquer território cuidado por nós, coisas e práticas a se conservar, e coisas e práticas a se eliminar, lembrando, sempre, da intocabilidade de tudo, pois tudo se transforma conquanto vivamos ao redor.

Nossa direita é mais pródiga em perceber os alvos da conservação, e nossa esquerda, da eliminação. Um governo ideal compõe-se de uma direita forte e de uma esquerda forte, não sendo casado com uma e amante eventual da outra ou vice-versa. Seus compromissos não serão herdados das conjecturas do apartheid irracional da guerra fria, e tampouco da futebolização que infantiliza assuntos importantes, trocando conquistas duradouras por triunfos efêmeros.

Por exemplo: os ativos da União, se sofrerem avaliações esquerdistas (não venda nada) ou direitistas (venda tudo) à moda antiga, darão na repetição lamentável do signo maior da Nova República, a saber, a superação dos interesses nacionais por ideologias pouco pragmáticas, fossem elas ingenuamente, ou maliciosamente, espúrias.

O império do caso a caso, a dureza da avaliação técnica transparente, a conversa pública com as várias instâncias de interesse constantemente acessíveis, um Executivo cujo organograma se assemelhe a uma empresa ágil, aberta, metódica e rigorosa, e um Legislativo que substitua o bem bom carreirista por um quadro apostólico das melhores cabeças disponíveis em nossa geração seriam o começo de uma nova conversa, uma capaz de nos lembrar que somos todos, sem exceção, donos de uma direita e uma esquerda a anunciar, a cada passo da história, o tino insuperável da necessidade.