tratado das três faces

Doria, Silvio Santos e Zé Celso entram numa sala de reunião. A força histórica do encontro é mais importante que as miudezas do assunto. Sentam à mesa o típico capitalista brasileiro, riqueza ciosa de si e de sua perspectiva inflexível porque veio de baixo; o típico poeta brasileiro, popularíssima erudição mais ou menos desperdiçada, mais ou menos desenganada; enquanto media ou não media o tempo o típico político brasileiro, capaz de pensar, a cada passo, na própria carreira antes de pensar na coisa pública. Um roteirista premiado seria incapaz de atribuir as falas, tempos e deixas melhor que o que de fato aconteceu. A cena, captada em vídeo digital, foi publicada na internet.

Por que a força histórica é mais importante que o assunto em si?

Bem, não bastasse a representatividade generosa, atual e precisamente encarnada de tipos nacionais protagonistas de nossa formação, o jogo de tensões representado, mas não encenado, ajuda a visualizarmos os credos de cada um. Melhor que um alentado estudo sociológico, as falas espontâneas de Doria, Silvio Santos e Zé Celso, apontam com depuração arquetípica e eficácia semiótica, às vezes num simples trejeito, num ato falho, no modo com que provocam, se deixam provocar ou respondem a uma provocação, no modo com que anunciam seus desejos e restrições, escondem ou revelam seus ressentimentos, diluem ou acentuam os conflitos, algumas das estruturas essenciais da dinâmica de poderes em certame no Brasil. O vídeo, amador, poderia desde já ser colocado ao lado de Casa Grande & Senzala, Raízes do Brasil e Os Donos do Poder, como um documento de acurada síntese de nossas forças e fraquezas, ameaças e oportunidades.

O poeta quer que todos sejamos poetas, e que troquemos a ganância particular por uma vida boa na cidade aberta. O capitalista não quer ver seu esforço desmerecido de repente e do nada, como se todo seu trabalho pudesse ser diluído da noite para o dia. O político não pode ser o anjo de que gostaríamos, pois crê ter altos planos para nosso futuro, planos que só ele será capaz de concretizar, e deve ser maquiavélico antes de esbanjar bom coração. O capitalista, a um só tempo, desmerece e idolatra o dinheiro, e mascara-se inúmeras vezes no eufemismo do clichê preconceituoso para contrastar a vida vadia, licenciosa e ‘mal sucedida’ do poeta. O poeta é leitor da cultura universal, e porque um capitalista resta há tempos decifrado e repisado, esquiva-se dos golpes baixos com facilidade, mas é incapaz de vestir-se nos termos do oponente, acentuando, na ingenuidade de suas demandas, o abismo irrevogável entre as duas visões de mundo. O político tem assuntos mais importantes para tratar antes de apaziguar um choque de vaidades entre senhores cujos legados estão para lá de concretos, de modo que responde mecânica e desapaixonadamente, entoando um ‘qualquer coisa’ para sair logo dali. A rigidez do capitalista, sua inabilidade em pensar fora do próprio bolso, a fragilidade declarada do poeta, a serviço de seu desprezo atávico pelos gananciosos, e a frieza do pragmatismo superficial do político, concentrado em expandir seu domínio sobre nós, custam aos habitantes e trabalhadores da cidade tempo e saúde irrecuperáveis. Perdemos todos, mas a lição é boa.

lendo os novos: sem vista para o mar

Nem maremática mnemografia matura assustadiça, nem ripanço febril da ortodoxia sintática em privilégio: o livro é nada tranquilo vem lido na garupa da motoneta, velha, engasopada.

Caminhoneira, nem tampouco em meimendro transgênero pueril faz desejar sexozinhos de anjos recém-quistos. Não desbasta sobrancelhas casimira a narradora rosiana?

Forma breve é susto cômico cinemático, trote casquicheio na ramela craniana do leitor arrebatado; num segundo instante, arrebitado, todo respeito.

Ela ordenha numa mão e a outra sufoca, ducta muito em peso lépido, concentra e sapateia, voz inseminada bucha olhos da pele. Tem calos na mão e shortinho de ginasta embaixo da saia. Desencantada, desenganada, amplo gesto coração sagaz.

À página 107:

O grito aciona o cordado a fazer o que sabe e voa reto pra fonte o buraco escuro da minha cara onde ainda perfuma o chocolate quente. Esguio pro lado mas o cabelo que não se penteia e mal se lava faz triscar a cartilagem da asinha em armadilha que não queria ser. Bate debate a minha orelha e uma pastilha mentol desce bombeira pela espinha dorsal. Respira cavado que a calma acalma ele.

Casos assim suscitam, logrará frevo tão prisco se na forma menos breve? Tornará a salsa rímica, einsensteiniana, em arrimo das estâncias do quedar menos bailoso, mais esticado? A ver.

* * *

Sem vista para o mar
de Carol Rodrigues
Edith, 2014
124 páginas
R$ 30,00

uma ideia para ‘minha casa, minha vida’

As fotos que vi dos projetos de habitação popular recendem o futum da imaginação pobre. Ninguém merece uma casa fria, insossa, em nada orgânica. Que dirá das famílias a habitar o bojo vasto do precariado, num país de patrícios insensíveis e políticagem espúria.

Nossa ideia para extorquir o programa Minha casa, minha vida de seu futum recendido via tristes imagens de esquadrias de alumínio por onde se passa um bebê e nada mais, cômodos minúsculos, profusão de paredes, porcelanatos horrendos, e frieza de cal e de morte, esboça-se a seguir:

É uma casa onde se toma juízo da arte da domesticidade essencial: a terra, o céu, a água, o fogo, o dia, a noite, e as plantas.

Num terreno de 9 por 9 metros, constroem-se 70 metros quadrados, sendo 50 (~7×7) no piso térreo, e 20 (~3×7) em patamar.

Ao centro, FOGO: forno a lenha, chapa e bocas, em adobe de radiação, e evacuação superior de fumaça.

Atrás, ÁGUA: pedras onde se lavam corpos, vestes e utensílios, com filtragem, reuso, e quedas em volumes vários.

Nas laterais, JANELÕES: enormes molduras de madeira a vidros em temperamento e difusão ótica, basculantes.

Em frente aos janelões, PLANTAS: espécimes da flora local em vasta jardineira modular de cerâmica.

À frente, PÓRTICO: enorme moldura de madeira a trabalho entalhado e único em madeira, em trilho.

À frente do pórtico, SOLEIRA: híbrido interior/exterior em pedra e madeira, ajardinado.

Entre água e fogo, CASA NOTURNA: espaço de ceia, leitura, jogos íntimos, meditação e sono. Piso de junco recolhível sobre concreto.

Entre fogo e pórtico, CASA DIURNA: espaço de trabalho, exercícios biomecânicos, atividades de manutenção e confraternização. Piso de concreto.

Sobre a casa noturna, SOLARIUM: mezanino amadeirado com cisterna, horta, ponto de energia e telecom e área livre.

No suporte, VIGAS MESTRAS: fortes toras a demarcar o limite da unidade, sustentar paredes, patamar e telhado.

12 unidades com ÁGUA voltada para dentro formam um amplo círculo, chamado “QUADRA”, em cujo centro arborizado há recanto para aves e insetos, micro-unidade de tratamento de descartes, e espaço para confraternização. Seis “quadras” unidas podem dar num quarteirão, servido enfim por vias por onde passa o transporte público e os veículos de serviço.

* * *
Para solicitações e perguntas, casa@tourobengala.com

sedição é chance: nota sobre a crise espanhola

Conforme escrevo, a gente catalã está fechada à vontade do Reino de Espanha. Acabo de assistir, num streaming em tempo real, a uma plácida e alegre caminhada dos bombeiros da Catalunha, em prol da autonomia indepedentista nacional. Trens, metrôs, ônibus, portos e estradas estão parados, num ato de represália à violência policial de Madri do domingo passado, quando o mundo quedou-se um tanto estarrecido ante as cenas de idosos e mulheres arremessados ao chão e chutados por enormes agentes da força espanhola. Numa das fotos mais belas, centenas de tratores, encaminhados das zonas rurais da Catalunha, fechavam as vias de acesso ao centro de Barcelona no domingo do referendo, de modo a impedir a chegada de novas tropas do batalhão do Reino.

Mas o que quer, afinal, a gente catalã? E por quê? E o que quer, por seu turno, o Reino de Espanha? E por quê? Ainda: por que tal evento, cujos desdobramentos restam imprevisíveis, é importante para nós, cá no Brasil?

Como toda gente, a gente catalã quer curtir a vida. Seria inacreditável se não fosse assim. Por seu turno, o Reino de Espanha não deseja desmembrar-se, desejo que tampouco chega a ser exorbitante a um organismo cuja identidade se expressa na união de suas partes. A crise atual acusa incompatibilidade entre os modos de propor os desejos de um e de outro lado.

Converse com um estudante catalão. Ele demonstrará, serena e lucidamente, que sua narrativa independentista está correta. Converse então com um agente do governo de Madri, ou mesmo com o editorialista do periódico El País, e eles demonstrarão, serena e lucidamente, que sua narrativa é legalista e, portanto, correta. No meio das conversas, uma e outra parte afirmarão o pacto democrático, a vontade popular, a soberania, o cristal teleológico do dínamo contratualista a reger a configuração política da convivência. Dois lados, nenhum deles errado. Como proceder?

A saída será uma de cálculo projetivo, estatístico e poético (posto que expresso em narrativas ansiadas), a partir do fio vermelho que teceu a nossa história. Numa leve e funcional distorção da fábula hercúlea do labirinto, seria o caso conjurarmos a prudência de Ariadne – não por retornar por onde entramos, mas para adivinhar e fazer o melhor dos mundos a seguir. O cálculo não é só estatístico: é também poético. Isto quer dizer: entre os vários cenários possíveis e queridos de desdobramento, a eleição se dará também em chave quente e apaixonada, sanguínea e vibrante, de uma confabulação de sonhos cruzados e ingenuidade imanente.

Leiamos por um instante o poema ‘Oda a Espanya’, do poeta catalão Joan Maragall (1860–1911), em tradução de Fábio Aristimunho Vargas:

Escuta, Espanha, a voz de um filho

que fala em língua não castelhana:
falo na língua que me legou
a terra áspera:
língua em que poucos já te falaram;
na outra, demais.

Mais te falaram dos saguntinos
e dos que pela pátria morrem;
das tuas glórias, tuas lembranças,
lembrança e glória de coisas mortas:
viveste triste.

Quero falar-te de outra maneira.
Por que verter o sangue inútil?
Dentro das veias o sangue é vida,
vida de agora e dos que virão;
vertido, é morte.

Muito pensavas em tua honra
e quase nada em tua vida:
teus filhos, trágica, à morte os davas,
te saciavas de honras mortais,
e os funerais eram-te festa,
ó triste Espanha!

Eu vi os barcos zarparem cheios
de filhos dados por ti à morte:
iam alegres a seu destino;
e tu cantavas à beira-mar
como uma louca.

Cadê os barcos? Cadê teus filhos?
Pergunta ao Poente e à onda brava:
perdeste tudo, não tens ninguém.
Espanha, Espanha, retorna a ti,
dá teu pranto de mãe!

Salva-te, oh! salva-te a tantos males;
faça-te o pranto fecunda, alegre e viva;
pensa na vida que te rodeia:
ergue a cabeça,
sorri às sete cores que há no arco-íris.

Não te vejo — onde estás, Espanha?
Não ouves minha voz tonitruante?
Não sabes esta língua que te fala entre riscos?
Desaprendeste de entender teus filhos?
Adeus, Espanha!

Agora, leiamos as estrofes 18, 19, 20 e 21 do ‘Cántico’ de San Juan de la Cruz (1542–1591):

  ¡O ninfas de Judea!,
en tanto que en las flores y rosales
  el ámbar perfumea,
  morá en los arrabales,
y no queráis tocar nuestros humblares.

  Escóndete, Carillo,
y mira con tu haz a las montañas,
  y no quieras dezillo;
  mas mira las compañas
de la que va por ínsulas estrañas.

  A las aves ligeras
leones, ciervos, gamos, saltadores,
  montes, valles, riberas,
  aguas, ayres, ardores,
y miedo de las noches veladores:

  Por las amenas liras,
y canto de serenas os conjuro
  que cessen vuestras yras
  y no toquéis al muro,
porque la esposa duerma más siguro.

Ora, o que temos aí? O que temos aí senão a celebração dialógica de uma cultura antiga e forte, tão radical quanto dinâmica? Nós, no Brasil, somos pelo menos 33% Ibéria, e a Ibéria é nada menos que o Brasil da Europa, tendo lá amalgamado, antes de nós, África, Roma, Arábia e Saxônia. No entardecer do Império brasileiro, Pedro II e seus conselheiros viam brotar no tabuleiro do território miríades de manifestações similares, revoltas carentes, sedições separatistas. Tanto nos faz pensar o que carrega de Recife, Barcelona. E como a força nacional foi capaz de superar os desejos de separação, impondo-se muitas vezes não como um pai responsável, mas como um irmão invejoso. Sempre que volto aos registros das revoltas que antecederam a República, penso, ao lado de Joan Maragall, que cabe ao governo central a postura paternal e responsável — olhar suas regiões como filhos, calando-lhes quando suas demandas são imaturas, sentando-lhes à mesa quando soarem persuasivos. Filhos que crescem, amadurecem e desenvolvem projetos de autonomia, mais dia, menos, dia, conversam de igual para igual. Se o Império Romano seguisse apenas seus anseios, não haveria Espanha. Espanha é filha de Roma, que soube crescer, desejar e falar por si.

Os Estados Nacionais nasceram graças a uma ruptura, mais ou menos pacífica, a depender do caso, dentro dos sistemas feudais e absolutistas. Hoje, no seio da globalização tecnológica, testemunhamos a expressão rediviva do orgulho local. As cidades, e não mais as nações, estão crescendo e se afirmando como pólos de inovação comercial e política. Em mais ou menos tempo, as culturas nacionais serão resíduos simbólicos, expressos e cultivados em seus mais honrados produtos. Nos lembraremos deveras do cinema espanhol de Buñuel e Almodóvar, da guitarra espanhola, flamejante e virtuosa, do queijo da Mancha e da paella de Valência, da cava, da pata negra e do tempranillo, mas não mais visitaremos um país, e suas antigas fronteiras serão meras curiosidades historiográficas. Visitaremos Córdoba, Madri, Barcelona e Oslo, ou nomes todavia insuspeitos, pois é alegremente amalucada a toponímia da quarta revolução industrial. Os países, cedo ou tarde, cederão à lei internacional, à licença autônoma das diversidades regionais, e à alegria dos fazedores dos primeiros dias dos muitos novos mundos. Assim aponta a maturação do Direito, e da expressão política popular.

Vejo a sedição catalã como uma oportunidade. Sob o topos amargo da desavença, dá-se à Espanha uma chance de ouro. Assumir as rédeas e tornar nobre o desenlace é o que se espera de uma cultura que legou ao mundo tamanha Arte, tamanho Ritmo, tamanha Política. Que mantenha-se altiva e imperiosa, e não ceda nem rebaixe-se aos queixumes tonitruantes de um filho sufocado e irritadiço. Há 40 anos talvez não fosse a hora; hoje, talvez, seja. Hora de sentar e ouvir a voz do filho que, enfim, se quer tão pai quanto.

Nada apagará da História as façanhas espanholas. Ao contrário: a cultura planetária dedicar-se-á a contemplá-la e a consumi-la, repetindo seu Nome em admiração e pesquisa, quanto mais motivos tiver de dela se orgulhar. Este orgulho hoje depende da condução augusta e serena, não ressentida nem orgulhosa, muitíssimo menos violenta, da crise que se desdobra em chance de ouro. Condução de quem raciocina junto a um filho bem nutrido e capaz, com ele arrazoando os novos termos de su desejada e nova autonomia, morrendo para não morrer, como pediu Santa Tereza, amando-o e bem querendo-o, con llama que consume y no da pena.

lendo os novos: noite dentro da noite

Se eu fosse um resenhista, batizaria-o com um nome brasileiro corriqueiro, de preferência associado às camadas mais populares da sociedade. Um resenhista, formado no arcabouço de humanas das poucas Universidades brasileiras, afinal, tende a ser mais respeitável conforme se alie às perspectivas esquerdizantes da crítica, contra os antigos donos do poder, pelo poder aos novos poderosos, quem sabe inexistentes.

Na minha coluna de hoje, iniciada no dia 2 de julho de 2017, diria, em nome de meu heterônimo carismático, que principiei o dia, um domingo fresco, quieto, digno, demorando-me na figura ‘Os jogos e os enigmas’, estampada à página 2 da Ilustríssima. Óleo de Maria Leontina (1917 – 1984), a tela anuncia exposição numa galeria da cidade. O sólido plano configurado por níveis ou camadas de tons quentes lembra um edifício, destacado e coeso, contra o fundo escuro, praticamente negro. Sua luz viaja de dentro das cores andares. Suas portas e paredes vazadas são cores.

Publicada com meu nome verdadeiro mas dita em nome do resenhista popular, o texto lembraria que a pintora realmente existiu, viveu, sofreu, superou, comungou, isolou-se, publicou, exibiu-se e exibiu, meditou e refreou, negou e resgatou, afastou e atraiu, um mundo de coisas. Ela associa-se involuntária e desesperançosamente a um movimento cujo nome mais correto me escapa, a nós, como o faz o Joca Terron neste livro ao grande romance de formação latino-americano – Jogo de Amarelinha e Detetives Selvagens. O autor não comenta, mas esta é uma tradição guardada pelas duas colunas da fantasia escrita na América ibérica, Jorge Luis Borges e Gabriel Garcia Márquez.

Sem muitos rodeios, lembraria que, ainda hoje, antes de submeter minha resenha à editora, viverei o importante evento de quem sabe cozinhar um inhame, cortá-lo em rodelas, refogá-lo na mesma frigideira de sempre, acompanhado de alho-poró, curry, quem sabe shoyo. Dizendo, ou, constatando a previsão, é como se eu já a vivesse, a experiência dita, recontada, imaginada presa quando todos fogem e se escondem. É como, também, eu já vivesse abrir o jornal na Ilustríssima há quase três meses, deparando-me com a composição concreta e harmoniosa, enxuta indecisa entre o solene e o lúdico, de Maria Leontina. E seguiria, com a licença do leitor, lembrando a ele e a mim que uma resenha não se alonga, ou só não mais que o necessário. Certas coisas, entretanto, a gente precisa contar. Pois quando conhecermos melhor o homem por trás dele, dele e do resenhista por trás da leitura do livro do Joca Terron, aproveitaremos melhor essa parte da vida que é ler a resenha por trás dos livros que leremos ou não leremos, a depender de um mundo de coisas.

O homem por trás do resenhista imagina o resenhista desinteressado pelo homem por trás de si. Não por desprezo, mas por impessoalidade analítica, desde que possa ele, quem sabe conosco, ao acessar este domingo, 2 de julho de 2017, ao acessar e remontar um hoje passado e redivivo, enterrado e ressurreto em reação, viver de um ponto de vantagem a utilidade simbólica, a utilidade significante, dos eventos ali iniciados, quando se inicia e se encerra, no cair da noite, a leitura de Noite dentro da noite, livro de autoria de Joca Terron cuja resenha empregará os sintomas por assim dizer originais do homem homem Eu, passivo e consequente manipulador da equivocidade da heteronímia produtiva, tratada e manifesta, recriadora e ativadora se mnemopropulsora dos dias de leitura que seguiram o início da leitura, aos 2 de julho de 2017, no cair da noite dentro da qual rasgará, e com efeito rasga, resenhista à frente, tal e qual fazem as luzes de Leontina, a forma edifício do óleo vibrante da pintora este homem num fundo negro praticamente escuro.

Ora, diz o resenhista, ao que o homem baixa o livro. Você, diz, do centro escondido de seu nome popular e resenhista, ora lembra de Jogos de Amarelinha, às vezes de Detetives Selvagens, mas devo intervir e alertar: não, não é correto, e você não há de diminuir a análise assim, aditando desbragado um referencial afetivo antes das citações canônicas, compartilhadas pelas fortunas correntes, criteriosas, depuradas em conjunto aberto e cotejado. Depois, ao comentar ou detalhar virtudes técnicas da criação, o leitor provavelmente desconfiará, sem deixar de amá-la, sua resenha de resto adorável, da adequação da exposição, da competência do resenhista, e logo da sua, e assim, por indução forçada, e desagradavelmente, da dele, ou minha, final e inicial leitor. Ele diz, perguntará o leitor, referindo-se a mim, portanto ao resenhista a cujo homem deve a pedra e a fonte, a terra e o passar das sombras, desde o umbigo ou desde um sólido manancial?

Como num jogo de sombras, dança de escuros delimitada por recortes e compostos da paleta leontina, algo de rico correrá em pressentimento neste embate tensionado entre corpos. Vez que outra, a depender das posições, os corpos, pelo indistinguível que abarcam em sua condição de sombras, perfazem novas, cronoenfermas e insuspeitas unidades. Corpos novos e assombrados sem embate. O resenhista, e isso dizemos agora porque já dissera, ele a mim e eu a ele, antes mesmo de se dar, seu nome pulular e a nossa rica relação ceder, eu a eu e a eu ninguém, ergue em baile alternativo um enquadrar, da Noite dentro da noite, dentro de um vivo movimento literário contemporâneo, internacional, gênero-hibridista, escola atual da produção romanesca capaz de adensar o papel velho da ficção compondo-a junto às fibras rejuvenescedoras da biografia de si e dos próximos, aos contextos, costumes e motivações e consequências políticas da reportagem histórica, ao desafio associativo e divertido do meta-discurso, político e não político. É menos intrusivo, diria, como dirá, ainda que mais profissional, menos presunçoso e mais didático. O relho na mão da crítica, pensa-se, é incapaz de idealizar senão à exaustão.

Mas sendo genealógico e orientado por camadas, Noite dentro da noite hierarquiza apenas o bastante para fazer despespegar a narração dum ethos unívoco, mantendo aberto e lépido o jogo de transmutações e enigmas narrativos (quem? depende para quem; o quê? depende de quem conta; por quê? depende do que vem antes; como? depende de quem quê; para onde? para onde mesmo quando? etc), não deixando clara uma sua heráldica. A cozinha onde já posso ver o inhame a descansar, encascado e bojudo nas marolas encriptadas do alguidar mineiro, é pequena, não passa dos seis metros quadrados, e disputam tamanha exiguidade a barulhenta geladeira do tempo de casado, talvez, a pia íntima dum rajado e praticamente negro granito, o fogão de duas bocas amigas, se pereclitantes, o pequeno mas amplamente útil gabinete suspenso, despensa e cristaleira sem cristais. Um nada. Pois mais vasta é nossa dúvida: que sabe o resenhista do que nos conta a impressão demorada neste óleo sobre tela, pintura de Maria Leontina, o homem por detrás da intenção da resenha, e assim do resenhista ele mesmo, sua voz ainda a fímbria imaginada do fio d’água, nascente, margem infanta do que sai mas não jorra nem estanca, à qual não nos furtaremos de abarcar, tratar, consumir e processar?

À página 382:

Ao ouvir a história que Hugo lhe contava, você lembrou do som de um trovão distante que bem poderia ter sido o estrondo de seu primeiro passo no interior de um pesadelo habitado por bugios que arremessavam bosta fervente de cima das árvores, enquanto atravessava um desfiladeiro vegetal, uma bosta que o despertava, deixando-o mais lúcido. Surgiu então, mas disso você já não tem tanta certeza, o vulto de um índio emoldurado pela janela, talvez o kadiwéu albino visto pela rata naquela noite de muitos anos atrás no hospital de Medianeira em que você se encontrava inconscientemente, ou quem sabe na viagem através do pântanos ao lado de Karl Reiners logo depois do sequestro fracassado do embaixador alemão.

Os arames da cerca eram uma pauta musical que o vento regia na campina lá fora, uma música poderosa como um furacão entortando palmeiras e varrendo o que estivesse sob a tempestade.

Você, lembra o dizer de si ao resenhista o leitor como quem atravessa um espelho apenas para desviar e concentrar a viatura do homem falante num percurso fecundo e incerto, autor e porventura resenhista, se lembra dos trabalhos de Joca Terron na Ciência do Acidente, pequena e admirável editora do início do século, e de poemas e postagens infernais, e despautérios ante às fraudes de autorias tantas, e das tantas e tão malemolentes resenhas, resenhistas à frente, cozinha por habitar, fogo e água num tubérculo falante, e tempos quantos nomes e tempos, heim, em ciclotímica, deveras enferma condição, atados, da curva proverbial dum rio sujíssimo, paisagens e breus suscitados, ociosidades venturosas ou prosaicas de um Brasil profundamente gaucho e impossivelmente gauche.

Hoje, um hoje deveras enfermo por que poroso e produto, recordante e realejo, pressagista e cartográfico, utópico e desabrido, Joca Terron emprega a imbricação multívoca, a pluralidade genética e cirandista do contar, a retidão elíptica ou este pacto na e pela memória da flor do equívoco ou da ficção, tempo este que é ora de um… e justo de tantos, latrina e sanatório dos lugares, scroll de estratos em rebuçadas retículas, ecoantes efeitos, reverberantes, dissonantes, outra vez e ainda inconclusivos efeitos, quem sabe, é difícil dizer, mas suspeito, suspeito que faz hoje assim por dar potência de verdade ao mar de vozes que abarca o crânio mesmo, crânio do mesmo, furor dáctil e motor de um maturado, túrgido escriba.

Ao campear o intercâmbio trapezista no desvelo de rico e quase insone e alguergado enredo, Joca Terron pinta e prove um largo e organizado Maria Leontina, decerto em fundo escuro, mas lídimo no que ecoa e reverbera, assunta e destempera o domingo quando tudo começou, fim e recomeço da memória bando, lá quando se se caía a noite, lido o jornal e consumida a sopa quente, seria seguir e dormitar as ausências, quente e forte de picante e termogênica, e seu quadro evoca o timbre e a virtude do incerto, caos que só se rende à poesia curada, ao enigma nem tão aberto quanto prenhe, tragado e urdido na solícita juventude dos números, à vida vivida e ao medo superado. Invadir com noite a noite é errar, quando ruma fonte nova ao fogo lento, no tempo brevíssimo que nos mostra ou faz erguer a outra casa do sol.

* * *

Noite dentro da noite
de Joca Reiners Terron
Companhia das Letras, 2017
464 páginas
R$ 53,90

lendo os novos: nunca houve tanto fim como agora

O poeta português Herberto Helder e a brasileira Hilda Hilst são alguns dos convivas do narrador. Salvo pela mais nova namorada, ele deixa o despautério do Relento e vem contar o que viveu. Na casa nova, tudo é avesso ao descaso. Há, por exemplo, uma quem sabe obsoleta estante de livros. Daí que, mesmo sem dispor de intimidade com a cultura letrada, o narrador imita a leitura de que gosta e arrisca escrever. Resultado? Fôlego breve, demasiado repetitivo. Adorno neobarroco, não raro. Mais enforma que informa, o narrador.

Mas que era a vida do narrador no Relento? Miríade de infortúnios. Vida orgânica, patética, sofrida, sem fim. Isso quando sorte. Quando azar, não era, seu corpo, menos que cátedra do desconsolo. Entre humilhação e ignomínia, sem posse sequer de um nome certo, o circuito afetivo mnemônico do principiante na escrita só não nos leva às lágrimas por ser demasiado repetitivo, num fôlego breve que remete à maneira neobarroca do fazer.

Faz rir? Às vezes, pela ingenuidade. Mas logo o leitor se policia. Recobra tratar o papel de um ortodoxo do abandono. A rua, vemos nós da elite, soergue-se, se tanto, em ranho e ramela. Constrange, o avatar consciente do desvalido. No entanto, isso ocorre na mesma cidade capaz de violentar a inteligência de seus rios. Rir? Menos e cada vez menos.

À página 144:

Se o amor fosse o que é a rosa, e eu fosse feito uma folha, as nossas vidas cresceriam juntas no tempo sombrio ou no tempo de uma canção, nos campos ventosos ou nos cercados floridos, no prazer verde ou na dor sombria. Se o amor fosse o que é a rosa e eu fosse como uma folha. Se eu fosse o que são as palavras e o amor fosse como uma melodia com um duplo som e um único deleite, confundir-se-iam os nossos lábios com alegres beijos como são os pássaros que procuram a suave chuva do meio-dia. Se eu fosse o que são as palavras e o amor fosse como uma melodia.

Fica clara a pena tacteante, neófita. O narrador, premido a escrever, acaba por se repetir em fôlegos curtos. Confunde amiúde função com enfeite. Neste trecho, não só se lança ao tema interditado na escrita séria como acusa, na candura da metáfora, fatura de bagagem diminuta. Ler a produção contemporânea, entretanto, é dispor-se, por serviçal dever, às vozes que contêm multidões. Depois dizem se presta.

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Nunca Houve Tanto Fim Como Agora

de Evandro Affonso Ferreira
Editora Record, 2017
158 páginas
R$ 37,90

brasil no limiar

É tempo de darmos espaço à urgência do resgate da dimensão política de nossas vidas. Parar um instante com os projetos e atribulações familiares ou profissionais, frear grandes viagens e investimentos. O solo está instável, os ventos confusos.

A dimensão política de nossas vidas amofinou, dissipada pela frustração. Resgatá-la é urgente porque só ela terá a força capaz de reequilibrar o jogo. Jogo que estamos perdendo, e de lavada, para nossa própria incapacidade de comoção diante da história recente.

A arte, a religião, a ciência, o direito, o império dos sentidos, as redes e a economia – tais modos de existir e ver o mundo são importantes, mas aceitar a pobreza da dimensão política de nossas vidas torna cada um desses modos consequentemente mais pobres. Paulatinamente, e sem que percebamos com clareza, viver torna-se mais enjoativo, a felicidade mais artificial, o amor mais cínico. Vamos fugindo de nós, de nossas potências e identidades, para abraçar paraísos inexistentes, fantasias de segregação e perseguição, violências que nada resolvem, gozos e consumos que nada satisfazem.

Resgatar a política é fazer um esforço para que o campo geral da vida volte a conspirar a nosso favor, frutificando nossos sonhos, celebrando nossos diferenciais e as potências de nossa gente.

Mas o que é, a dimensão política de nossas vidas? E por que estaria ela amofinada?

A dimensão política de nossas vidas é a forma com que organizamos e acessamos o poder. Poder para 1) decidir o que é importante, e 2) realizar o que foi decidido. Você é dono de seu corpo e, se tudo correu mais ou menos bem, de sua reserva doméstica, sua casa. Aí, é você quem preside e legisla. Você determina o que é importante, e você realiza o que foi decidido.

A vida, entretanto, acontece no encontro de muitos corpos e casas. Entre os corpos e as casas, existe tudo aquilo que é nosso, que sempre foi e sempre será nosso. As ruas e rios, o pôr e o nascer do sol, a brisa e a paixão. A faculdade de estender a mão a um irmão, de levantar uma festa, de lutar por direitos. O canto dos pássaros, a copaíba e o jatobá, o calor de um abraço, o sorriso de uma coincidência. A vida acontece feliz ou infelizmente graças à dimensão política com que nos ligamos e nos reconhecemos. Se deixarmos esta consciência esmorecer, murchar, enfraquecer, a alternativa será a estupidez nada confiável da lei do mais forte, dos espaços restritos e privados, do acesso à alegria da cidade reinventada apenas a poucos glutões.

Se a lei do mais forte não fosse estúpida, Homero, frágil e cego, jamais cantaria. A palavra de Jesus e de Confúcio jamais teria corrido o mundo e erguido milagres de fé e solidariedade. A escravidão jamais teria sido abolida. Os direitos trabalhistas jamais teriam sido criados e tornados lei. O Brasil jamais teria declarado independência.

Hoje, o poder está mal organizado, e nosso acesso ao poder é praticamente nulo. Tal situação, tensão que só faz aumentar, pede um redesenho republicano que torne os exercícios deliberativos e administrativos do poder mais atinentes às possibilidades e desejos atuais.

O Brasil é uma terra rica e abundante, mas somos um dos países mais desiguais do mundo. Quanto mais desigual o país, mais insignificante é curtir a vida. Eu pretendo curtir a vida. E você?

As urgências especificamente brasileiras, da União e de suas cidades, foram soterradas. Em seu lugar, opera-se nas câmaras legislativas e nos gabinetes executivos um teatro insosso de revezamento partidário, funcional até o momento em que o grande capital monopolista passou a ser ameaçado pela promotoria pública. Mas o grande capital, mesmo o monopolista, colocará sempre a razão na frente do orgulho. Já os partidos políticos, em tempos de convergência abundante e de superação das diferenças, tornaram-se repetidores intrinsicamente orgulhosos e incapazes de despertar confiança. É hora de ocupar o que é nosso, sem o ressentimento da máscara, sem a raiva do ofendido, mas com o orgulho e a força de quem conhece e zela e luta pelo lugar onde nasceu.

Em seu proveitoso livro de intervenção, Só mais um esforço, Vladimir Safatle diz:

Neste momento em que alguns se inclinam a uma posição melancólica diante dos descaminhos do país, há de se lembrar que podemos sempre falar em nome da primeira pessoa do plural, e esta será nossa maior força. Faz parte da lógica do poder produzir melancolia, nos levar a acreditar em nossa fraqueza e isolamento. Mas há muitos que foram, são e serão como nós. Quem chorou diante dos momentos de miséria política que este país viveu nos últimos tempos, que lembre que o Brasil sempre surpreendeu e surpreenderá.

esboço a uma teoria de estado, parlamento dinâmico, executivo tecnocrata

Vejo, à esquerda e à direita, oportuno campo comum de descrença na expressão oficial da política. De um e outro lado, irritam-nos as reações pouco pragmáticas e inerciais, afinadas a seus trejeitos históricos, e não à solução.

A esquerda poetiza ruturas vingativas, exibindo discurso irresponsável ou, no mínimo, tecnicamente falho. A direita aceita mudar a paisagem, pelo amor de suas filhinhas, desde que não perca nada no caminho, enojando assim a ampla população sofrida e trocando união por desconfiança. Fiquemos com a oportuna descrença de parte a parte e desprezemos seus vícios. Os vícios, afinal, não são, neste caso, tanto de personalidade quanto de lesão cognitiva por movimentos repetidos.

O futuro será diferente? Não resta dúvida. O que a gente às vezes esquece é que ninguém o fará diferente por nós. Que repetir um movimento ou tradição não necessariamente significa aproveitamento biomecânico otimista. E que a velocidade da mudança é função direta da força dos nossos compromissos, mesmo quando dizemos Não. Esta breve postagem tem por objeto levar a público um desenho novo de configuração democrática. Precário em sua simplicidade, mas possível mexer.

As repúblicas democráticas não são estágios definitivos da convivência. São um movimento. Hoje expressas em estados-nação, já foram reinos, feudos, guetos, ducados, pântanos, cidades-estado. Tais instrumentos de concreção política, ou de comunhão produtiva das diferenças, assumirão ainda muitas impensadas formas, melhores ou piores que as atuais.

Nossa vigilância e nosso debate servem para manter aquecida e alerta a preocupação com a evolução. Proponho, como plano de fundo a meu desenho, uma teoria bastante simples do Estado. Conquanto mudem as configurações da convivência, creio no Estado como uma ideia conceitual suficiente para restar qual ponto de fuga quase religiosamente permanente. Porto onde sempre voltar antes de amanhecer um novo traço no mar alto das paixões. Neste desenho, o plano de fundo do Estado é um bocado total.

Todos os seres expressam o Estado em sua instância primária, que coincide, não por acaso, com a simples presença. Devemos superar a noção, a meu ver retrógrada, do par insistência estatal / existência cidadã. Nem o Estado deve insistir, nem o cidadão existir. Mas todas as presenças são e dão a ver o Estado em seus bocados totais – favor fractal da vida insólita. Tranquilizadas da antiga tensão entre Organismo Insistente e Numéricos Existentes (não há dentro do Estado / fora do Estado), as presenças deixam de competir os privilégios da alocação, para confluir nos privilégios do estar. É como se não houvesse, mais, um lugar enfim onde chegar, mas apenas circuitos de tantos fluidos sabores.

Dito isso, e lembrando sempre da função de elo de todo desenho que se propõe evolutivo, há que retornar ao cenário atual e construir, paciente e coerentemente, sobre e desde as disposições legais e culturais dadas ou à vista, e nunca ‘do zero’.

Dos três poderes da teoria clássica do Estado, o Judiciário provou-se o mais autorregulável, parecendo hoje o menos adoentado. O Legislativo e o Executivo, fontes reais e mitológicas da presente aversão coletiva pela política oficial, encontram-se entre a sobrevida e a putrefação. Inúmeros intelectuais públicos e especialistas convidados têm se manifestado, pisando o sobredito campo comum da descrença, sobre quetais e senões da problemática da representação, este conceito-chave da república democrática. Comecemos, aproveitando a onda, pelo Legislativo.

Proponho a figura do Parlamento Dinâmico, e a troca dos prepostos ‘direto’ , ‘indireto’, ‘real’ e afins por ‘graus de separação’ no exercício do voto. Um parlamento dinâmico tem por ideia central a vacância permanente dos assentos. Seriam, a título de exemplo, 700 cadeiras completamente vazias. Um Congresso Nacional sem dúvida aberto, mas teimosamente vazio. Uma pauta, digamos, que trate de bioética, ganha o chão da casa: a edição genética dos descendentes feita por empresas particulares deve ser compartilhada com o banco de dados da União? Em alguns segundos, o Congresso Nacional é ocupado por 700 parlamentares credenciados previamente para assumir o grau zero ante esta pauta específica (gente cuja formação e trabalho assim a habilita). Ali, eles discutem, formam times, rivalizam cenários, aprofundam estudos, propõem emendas, vetos, restrições e revisões, criando uma dezena de tópicos passíveis de voto. Em seguida, abre-se a votação. Neste momento, todos os adultos emancipados residentes no território referente àquele Congresso podem e devem votar, resolvendo as eventuais ignorâncias pela guarda da trilha dos graus de separação a um dos 700 parlamentares. A depender de sua situação, você pode estar a um grau de separação de um legislador, o que dará a muitos de seus amigos, familiares e colegas que confiam em suas relações a possibilidade de um segundo grau. Assim por diante, até que todo o território se manifeste sobre o tema e exerça o voto. Em cada votação, registra-se não só a atribuição eleitor–voto, mas também a trilha que o levou ao voto. Por que você disse ‘sim’ a este tema? Porque minha esposa tem uma comadre cuja filha trabalha com o avô de um parlamentar que aconselhou o sim. Todas as trilhas são publicizadas.

Trata-se de uma figura, admito, ainda bastante crua, mas que parte da premissa de que parlamentares fixos, por mais ecléticos, honestos e voluntariosos, são atraso de vida ante as possibilidades atuais. Cada assunto específico merece, no grau zero do Congresso, as melhores cabeças disponíveis. Sem partidos que não os que aquele assunto mereça. Partidos cujos nomes e slogans se formam não previamente, mas em consequência dos dilemas tangíveis e tecnicamente defensáveis. Trocamos o circo do marketing insosso e as representações pétreas com orgulho de clã, pelas disputas concretas do dinamismo útil e do lastro universal da gnose comparada.

Já ao poder Executivo, proponho a configuração fria da tecnocracia meritocrática extrema, sem qualquer espaço para conversinhas, favores, arranjos. Um conselho formado por seis homens e seis mulheres nobelizáveis dos quatro cantos do território, todos entre 65 e infinitos anos – conselho por assim dizer ancião – escolhe, por meio de manhas próprias (que podem incluir mas não se resumir à magia), o Chefe do Executivo, um realizado Gestor, ilibado e disposto a dedicar um período de trabalho voluntário ao país, sem benesses nem privacidade. Este chefe responde pela escolha de quatro Diretores. É, ainda, porta-voz do Conselho Ancião e Secretário das reuniões deste. As quatro Diretorias do Executivo são: Ecologia, Economia, Redes e Educação. A cada uma, uma breve descrição a seguir.

Ecologia: aquilo que dizíamos Defesa, e antes Guerra. Os saberes profundos da casa, as visualizações de todo e cada curso e recurso, em todo e cada mapa imaginável. A cartografia da matéria no bojo e na composição do território. A garantia dos acessos e das liberdades acordadas. A guarda e o resgate, o cuidado e a recuperação. Uma diretoria com alma feminina.

Economia: Fazenda, Tesouro, Títulos, Reservas, Fluxo de capitais, trocas internacionais, bolsas de futuros, derivativos e Regulação. A hierarquia dos nomes da casa, para que não se trate o valoroso como o vagabundo, nem o caro, como barato. Os regimes de trabalho, e os regimes de compensação. As cobranças, e as cobranças das cobranças, pois não há nem deve haver jamais um almoço grátis, na medida mesma em que deve haver graça em toda e cada refeição. Nunca é só a economia, mas é ela a interface a impedir que nos tornemos estúpidos. Uma diretoria de mão masculina.

Redes: Aquilo a que outrora dissemos Infraestrutura, e antes disso Departamento de Obras Públicas. As viabilizações dos movimentos (engenhos), a viabilização das vias, do dado à energia, bem como suas manutenções e renovações. Os fundamentos práticos de toda e qualquer operação no território. Algo fora da rede é algo impraticável. Uma diretoria da ‘Inteligência Artificial’.

Escolas: A estratégia otimista dos saltos geracionais, no que torna a vida sempre melhor, e nunca pior. A escola é una e é pública, obrigatória e quase ditatorial em sua mania de excelência alegre e laboratorial, da tenra idade às pós-especializações. Uma diretoria jovem–anciã.

Eu espero com isso ter contribuído, um pouquinho, com a necessidade premente de novos desenhos a acudir, sem ressentimento, raiva, revanchismo nem malícia, o esgotamento amplamente observado da conjuntura ora disposta.

um diagnóstico: retorno

O texto de ontem [um diagnóstico] não gerou muito impacto de visitas. A geração predominante na internet (pós-gêneros 14 a 24) deu ao post a tag TLDR, abreviação em inglês para ‘Muito Longo, Não Li’, e preferiu passar o olho nas sinopses. Os leitores mais velhos, no entanto, acharam razoável, mas parte expressiva caiu na armadilha que armei bem armada.

Um deles, aposentado que descobriu a militância política tarde na vida mas nem por isso se deixa desmotivar, escreveu ecoando um cacoete bastante desagradável da esquerda formalista, que eu justamente pretendia ver sair da toca: “criticar a corrupção, no fundo, é meio cafona”, escreveu.

Esta esquerda, encantada numa insularidade duplamente antipática (diminuição moral do mercado, de um lado, e nojinho ante a vida comum do trabalhador naturalmente de direita (cioso de suas posses e das leis escritas), do outro), prefere ser conhecida como ainda acidulante a perder os charmes sessentistas missionários da boina preta e dar as mãos pra gente que trabalha e não fala nem faz questão de falar francês.

É uma pena, pois muitas nobres inteligências brasileiras hoje estão assim infectadas sem saber, desvirtuando jovens com pretensões intelectuais. Algo triste: ver um jovem que já foi pobre mas no segundo ano de uma faculdade pública de humanas qualquer se deixa levar pela figura do protótipo do reclamão teórico, quando o que ele deseja, em seus fundilhos, é não pegar no batente para se dedicar à ‘luta’ e aos ‘estudos’.

Pode ser natural, mas é muito irônico, que justo a produção de ideias da esquerda fique, ao fim e ao cabo, mais distante da realidade do trabalhador comum do que 5 minutos de palestra de um vendedor de esquemas pirâmide. Este fato, cujas consequências talvez nem tenhamos começado a ver, adormece o Brasil.

A cafonice de criticar a corrupção sempre existiu na crítica da esquerda. Afinal, a corrupção é, como gostam de dizer desde Rousseau, da hipocrisia da ’natureza humana’, e o importante é vencer o Capital. Mas ela foi exacerbada com os paneleiros canarinhos de 2013, os tais que supostamente derrubaram o PT. Compreensível?

Odiada por ter apenas coletâneas de MPB, e nunca os discos originais do Caymmi, a classe média deste país sofre injustamente na mão das crias da ciência política importada da Europa. Sempre atacada por sua estreiteza estética (o shopping da Barra, as casual fridays da Vila Olímpia, a festa de Barretos, dizer ‘eu fiz Itália, Grécia e Espanha’ e nunca ‘eu fui/estive/viajei a Itália, Grécia e Espanha’ etc), esta classe média tornou-se um alvo-joão bobo, quem sabe inexistente, e passou a constar nas cartilhas como pré-requisito nas manifestações públicas da redação engajada. Prova cabal de que a esquerda conversa entre si, cultivando piadas internas e pagando os dízimos à patrulha, e nunca conosco. Outra ironia: o discurso de transformação social, oriundo da Academia, e nunca das barricadas, hoje tem menos impacto prático do que a fala de qualquer pregador, de qualquer religião, dirigindo-se sinceramente a seus devotos sobre a bondade na vida.

Quando um termo como ‘corrupção’ ganha os holofotes, é importante não se enrolar nele. Uma das tarefas, para tanto, é praticar o distanciamento, saindo dos jornais diários e buscando sua longa duração na história. As duas raízes indo-europeias que o compõem (*kon-, ‘junto’, e *reup-, ‘ruir’) indicam a união para o estrago. Um trabalho coletivo de negação. Seu antônimo preciso é ‘construção’, um trabalho coletivo de afirmação.

Um exemplo bastante autoevidente de corrupção pode ser visto neste esquete dos irmãos Marx:

Ao observar a evolução do emprego dos dois termos, corrupção e construção, no corpus livresco da língua inglesa (não há, ainda, a tecnologia de aferição lusófona, infelizmente), notamos a curiosa figura:

Ora, a tendência parecia boa até 1977, quando morre o Groucho e estreia Star Wars. Daí em diante, ‘construção’ vem caindo e ‘corrupção’ subindo. Mas isto não indica, necessariamente, que a corrupção vem crescendo e a construção diminuindo. Talvez a sociedade, de quem os escritores de livros são antena, esteja mais acostumada, da morte do Elvis e da estreia dos Sex Pistols para cá, com a construção, e mais alerta para a corrupção, donde esta ocupar mais os livros que aquela. Pode ser. O que não explica, mais uma vez, o cacoete da esquerda brasileira a repetir que criticar a corrupção é pactuar com a cafonice dos muambeiros de Miami.

Como eu apontei no diagnóstico de ontem, o Governo deve ser uma empresa exemplar, e não existe absolutamente nada que distinga a gestão pública da gestão não pública. Orçamento é orçamento, custo é custo, recurso é recurso e retorno é retorno, seja ao vender iPhones, seja ao fazer uma ponte. Quando criticamos a corrupção, criticamos, sobretudo, o trabalho voluntariamente pior do que poderia ser. Não se trata, estritamente, do aspecto policialesco da corrupção. O crime de colarinho branco, aliás, é outro fetiche da esquerda intelectual que ela gosta de projetar na classe média trabalhadora, esta que só quer ficar em dia com os impostos, gerar empregos e curtir a vida honestamente. Se entre duas opções de contratação ou compra de materiais, a pior escolha é feita, deu-se corrupção da função gestora-executiva, importando menos se alguém desviou ou foi desviado.

O mercado, o dinheiro e a concorrência são inexpugnáveis da realidade, na medida mesma em que são melhoráveis, quanto menos e menos corrompidos forem a gestão e os processos. Tanto o Governo quanto uma empresa não pública são admitidas em nossa realidade mediante uma razão de ser e um contrato acessível. A integridade das pessoas jurídicas pressupõe a aceitação e o de acordo do organismo social, e toda corrupção é uma forma de traí-lo e sujeitar-se a boicotes, sanções e penas, das cármicas às judiciais.

Limpar a corrupção, para repetir o clichê, é um trabalho sem fim, mas começa cedinho, todo dia, em casa.

um diagnóstico

Aos 38 anos, tendo convivido, em âmbitos variados, do profissional ao festivo, com as gerações anterior e posterior à minha, com classes de ofício várias, das mais comprometidas com o estabelecimento, às mais sedentas pelo novo, e tendo passado por um treinamento razoável, ainda se autodidata, em coleta etnográfica e organização taxonômica, sinto-me livre e seguro para compartilhar com meus leitores um diagnóstico preocupante.

O diagnóstico diz respeito ao organismo social, corpo sem dono cuja inteligência compomos e compartilhamos a cada e todo instante, mediante cada e todo gesto e fala que produzimos. A inteligência do organismo social não é suprema nem infalível. Mas é tão alta quanto o mais alto de que formos capazes. E cresce, também, conforme crescemos. A viabilidade das conversas incessantes com os ruídos, da fluidez perspectivista, e da atualização ligeira no uso das gírias prova isso.

Não há nada de predestinado no organismo social. Nada fatalmente inscrito. Nosso livre-arbítrio, entretanto, é produto da rede histórica dos desejos de todos os homens. A rede histórica dos desejos de todos os homens, infelizmente, é invisível. Visíveis, graças às ferramentas de manipulação material, são os desenhos dos homens. No começo, éramos poucos. Multiplicamo-nos e formamos uma grande família planetária. Nossos desejos encarnam-se em desenhos, desenhos que hoje constituem e representam o organismo social.

Não há liberdade fora do organismo social, e o organismo social não tirará a liberdade de ninguém. Por que lutamos? Porque sofremos. Por que sofremos? Porque muitos dos desenhos, lá atrás fixados em instituições, em crenças, e em processos, são às vezes garranchos, rascunhos trepidantes, indevidamente aceitos como desenhos finais. Quando sofremos ao constatar uma falha sistêmica aqui e ali, não é, necessariamente, que alguém foi absolutamente malicioso. É que muito desenhamos conhecendo pouco. E a matéria, em sua miríade de durezas, seduz e engana.

Gosto de imaginar que, tal e qual guarda meu corpo um coração, meu bairro guarda minha casa, a cidade guarda meu bairro, e meu país guarda minha cidade. Não ligo para as unidades federativas, a não ser em concursos de sobremesas (um bom doce baiano, um notável doce mineiro etc). Mas sim, o diagnóstico é:

estamos rodeados por problemas reais, difíceis mas não raro gostosos de resolver, dispondo como dispomos destas tantas engenharias. Mas muita gente que encontro prefere desconhecer tais problemas, apenas para criar novos problemas. Muita gente que encontro prefere dar as costas a tais problemas, apenas para ‘jogar o jogo’, como dizem. Os primeiros muitas vezes se dizem revolucionários, quando agem, boa parte do tempo, e em que pese certa elegância tática, como autênticos tapados. Só um tapado para desconhecer um problema real, criar um problema imaginário e espalhar por aí que está mudando o mundo. Os segundos muitas vezes se dizem ‘da ordem e da lei’, quando agem boa parte do tempo, e em que pese certa transparência de raciocínio, como autênticos canalhas. Só um canalha para ignorar um problema real, criar o problema imaginário do medo e da insegurança e espalhar por aí que a ordem e a lei são crias exclusivas do medo e da insegurança.

Peço desculpas pela simplificação. A gente é bem mais variada e diferente do que isso, e decerto temos todos um bocadinho de revolucionário e de jogador da lei e da ordem dentro de nós. O diagnóstico, contudo, é importante. Continua sendo importante. E não deixará de ser importante. Ele pode ser resumido assim, o diagnóstico:

nossa lista de problemas reais, nossa lista de coisas importantes, e para não deixar nenhum querido de fora, vou chamar essa lista, ao menos por enquanto, de lista brasileira (quem estiver a ler desde outro território, sinta-se à vontade para fruir de nossa lista conosco sempre que viajar pra cá, temos ótimas praias e chapadas carregadas de vivacidade mineral), pois, nossa lista de problemas reais, nossa lista de coisas importantes, parece-me bastante atrapalhada. Ou há supostas listas conflitantes, o que seria logicamente incabível, posto que o território brasileiro é único. Prefiro acreditar que é uma lista atrapalhada. Negligenciada. Ou mofada, para usar um termo que ficou célebre na Constituinte de 88.

‘Buraco negro’ foi outro termo celebrizado na Constituinte de 88, a certidão de nascimento da Nova República. Era como apelidava-se uma pauta inalcançável aos dois lados politicamente organizados (‘sistematização’ e ‘centrão’, nomes psicodélicos a tanto revelar nossa falta de rigor categórico).

Os buracos negros de então (o conteúdo e o mérito não importam, pois a Constituição de 88 é formalmente uma lenga-lenga) eram zonas de tensão entre formas de pensar historicamente antagônicas. Naquela Constituinte, gestou-se a polarização que vivemos hoje, informada menos por cálculo que por testosterona de machinhos (entre os quase 600 constituintes de 88, havia míseras, vergonhosas e indesculpáveis 5 mulheres) que se queriam do lado certo e irremediável, sempre.

De uma parte, procurava-se garantir que as traumáticas marcas de uma colonização racista e economicamente ineficaz cedessem à razão da justiça igual e das oportunidades iguais para todos. De outra, procurava-se garantir que a aristocracia improdutiva da ameaça comunista não voltasse a bagunçar o país e ludibriar o povo.

Assim, sabendo-se o bastante de justiça e de bagunça apenas para arrumar desafetos e brigas (acreditem, havia constituinte andando armado), desenhou-se a Constituição de 88, cujo produto essencial é a Nova República.

A Nova República nos brindou com o fim da hiper-inflação, e com o abraço de inédita generosidade da União ao pobre. Mas foi incapaz de iluminar e tratar os vícios coloniais da corrupção e da exploração indevida, com suas muitas formas opressoras de coronelismo, compadrio, mandonismo e filhotismo (aberrações a nos brindar hoje em dia com o mimsafismo e o qualquercoisismo, tópicos de um post futuro).

Eu não quero falar da Constituição de 88 porque ela tenta me explicar e me sujeitar a termos estapafúrdios como o que eu posso ou não ingerir. Mais um pouco, ela tentaria me explicar o que é um pires. Eu não preciso, nem você, nem ninguém. A gente tem o google pra fazer inhame empanado na tapioca e biohacking, sinceramente.

Volto ao diagnóstico, e volto a pedir desculpas por perder nosso tempo com a Constituição de 88, da qual não quero e não pretendo voltar a falar. Outro dia me informaram que não tínhamos computadores na época da Constituição de 88, e que boa parte do pré-projeto foi feito na tesoura e na cola. Mas é mentira. Tínhamos computador sim, e não usamos, eis mais um triste índice do natimortismo da de resto ricamente intencionada Carta. O diagnóstico, se o leitor tiver paciência, eu gostaria, assim, de enunciá-lo:

hoje o brasileiro tem mais motivo de vergonha do que de orgulho de ser brasileiro. Quando um povo tem mais vergonha que orgulho da situação atual de seu território, a conversa política perde calor e cai no cinismo. O debate e a discussão essenciais para elucidarmos os problemas reais e concordarmos numa lista única de coisas importantes cede, de um lado, para lamúrias catastrofistas de uns poucos alarmados sinceros, e, de outro, para os niilismos egoístas e estabanados dos ditos players. No meio, sobram proto-samaritanos esclarecidos a convergir no desperdício triste do silêncio. Depois, os problemas reais, soterrados pelo cinismo e pelo egoísmo, vão piorando. E tudo piora para todos, mesmo para quem acha que está se dando bem. Em 2008, participei da produção desta pequena peça política, como redator e locutor:

Não ouvi falar, passados dez anos, que a qualidade do combustível melhorou. Alguém ouviu? Quem terá, portanto, motivo para celebrar qualquer coisa?

É triste conversar com um jovem hoje que, ao menor sinal de concatenação de um problema real, como a poluição dos dois grandes rios a cruzar a cidade, exibe, no escapismo de suas redes, o fato trágico de que a maioria da população brasileira não confia no Congresso Nacional, onde gestou-se a Constituição de 88. É triste conversar com um empreendedor hoje que, ao menor estímulo a seu orgulho nacional, exibe, no escapismo de suas redes, o fato trágico da desqualificação de nossa força de trabalho, do garrancho de nossas leis fiscais, dizendo não sentir culpa ao comprar tecnologia e fabricação asiáticas, ou exportar as melhores partes da colheita para os europeus.

Que fazer, diante de tal diagnóstico? Não sei ao certo, mas estou a investigar. Seria talvez salutar, a partir de um autoexame cauteloso, e com os dois pés no chão, praticarmos a leitura da história em sua longa duração, sem insistir na criancice de que cada dia é um novo mundo de zero a zero. Não é. Há pouco, éramos uma colônia escravagista de exploração latifundiária de monocultura. Por quase 400 anos fomos isso. E temos hoje pouco mais de 500 anos. Sabe o que isso significa? Que hoje, andar livre em roupas gostosas e consultar um smartphone comendo uma boa bisteca e tomando bons drinques é quase um milagre. Um milagre que devemos agradecer SEM PERDER A NOÇÃO do movimento histórico dificílimo que o viabilizou. E por fim entender: o trabalho de maturar a democracia brasileira não só não acabou, como está apenas começando. Neste começo, é crucial conhecer e valorizar cada pequena conquista, cada injustiça resolvida e iniquidade amenizada.

A Constituição de 88 tem muitos méritos. Nunca na história brasileira tanta gente foi ouvida, tanta proposta popular foi colhida dos quatro cantos do país. Houve, de fato, abertura, progresso e disposição positiva naquele Congresso. Formado que sou em Administração, acho que as empresas devem ser as primeiras a dar o exemplo. Toda empresa é um coletivo revolucionário em potencial. Se duas ou mais cabeças pensam e fazem pior do que uma, então era melhor não existir. Se somam inteligências, têm a obrigação de ser melhor que nós, de nos dar o exemplo.

No Brasil, a empresa mais importante é o Governo. Se ele não der o exemplo, uma longa e viciosa cadeia de jeitinhos e escusas seguirá. E teremos de ouvir a arengada, eis o Congresso que a gente merece, os jornais que a gente merece, as quitandas que a gente merece etc. É injusto forçar nossas crianças a escolher entre ‘jogar o jogo’ das planilhas egoístas ou tornar-se um rebelde que nega tudo isso que está aí. Justo seria trabalhar para que elas sentissem orgulho de nossa história e decidissem aqui ficar e estudar para desenhar nossas leis, nossos smartphones, nossos jipes.

Não haverá humanismo eficaz sem a participação lúcida e ativa, nossa, dos problemas brasileiros atuais e urgentes, e não haverá meritocracia sem vergonha, nossa, sem igualdade de oportunidades e de informação.

nota política

A cada nova geração de consumidores do noticiário político, renova-se a necessidade de revisitarmos os conceitos por trás do par esquerda–direita. Revisitar como quem dá uma passadinha, abre as janelas para deixar circular o ar, rega as plantas e tira o pó.

A premissa segue a mesma, a saber, temos TODOS a direita e a esquerda a compor nosso equilíbrio – e mais realizados seremos quanto mais firme e forte nos restar o equilíbrio.

O experimento da Nova República (1985–2017) submeteu ideias da esquerda e da direita às falhas de nosso sistema político, insuficiente em sua representatividade, vicioso em sua gestão. Nem o Legislativo falou por nós, mais interessado em assuntos particulares, nem o Executivo fez a contento, mais interessado em dar à máquina pública imprópria agência eleitoral.

Jovens cabeças boas que poderiam contribuir com a política, diante de um quadro que avexa idealismos sinceros e solidários, foram para a iniciativa privada, para as artes abstratas ou, no caso de cientistas e engenheiros de tecnologia, para o exterior.

Se até o final do século 20 entendia-se a direita como a preferência pelo Estado mínimo, e a esquerda como a esperança no Estado salvador, como estariam, hoje, suas formas?

Considerando as posições ultrapassadas de esquerda e direita como patologias capazes de normalizar a imaturidade institucional, o diagnóstico seria: a direita tinha vergonha do Estado como quem, diante de um parente negligenciado e ‘defeituoso’, preferia escondê-lo das visitas, fingir que não existia, tirar sarro etc; a esquerda era apaixonada pela imagem de um Estado papaizão, tão parrudo quanto possível, enfim capaz de tirar a gente desse sofrimento horrível, sofrimento que só a gente (nunca vocês) sabe que existe.

A direita diminuía o Estado porque, sem um competidor, ele seria um arremedo de gente, antro de preguiçosos, vagabundo que não merece dinheiro. A esquerda inflava o Estado porque, protegido único da traição da selva, só ele teria olhos para as injustiças históricas, para as compensações estruturais, para a saúde contra o consumo sem freio dos vampiros.

Mas eram visões infantis de si mesmas, encarnadas a sério por homens e mulheres poderosos que levaram o planeta à beira da exaustão ambiental e do abismo nuclear.

A atualização das virtudes discursivas da esquerda e da direita pressupõe o alisamento terapêutico destas arestas nostálgicas ou orgulhosas, da lida recalcada com o dinheiro e com a liberdade individual, bem como a cedição irrestrita diante dos ossos da desrazão separatista. Há, em qualquer território cuidado por nós, coisas e práticas a se conservar, e coisas e práticas a se eliminar, lembrando, sempre, da intocabilidade de tudo, pois tudo se transforma conquanto vivamos ao redor.

Nossa direita é mais pródiga em perceber os alvos da conservação, e nossa esquerda, da eliminação. Um governo ideal compõe-se de uma direita forte e de uma esquerda forte, não sendo casado com uma e amante eventual da outra ou vice-versa. Seus compromissos não serão herdados das conjecturas do apartheid irracional da guerra fria, e tampouco da futebolização que infantiliza assuntos importantes, trocando conquistas duradouras por triunfos efêmeros.

Por exemplo: os ativos da União, se sofrerem avaliações esquerdistas (não venda nada) ou direitistas (venda tudo) à moda antiga, darão na repetição lamentável do signo maior da Nova República, a saber, a superação dos interesses nacionais por ideologias pouco pragmáticas, fossem elas ingenuamente, ou maliciosamente, espúrias.

O império do caso a caso, a dureza da avaliação técnica transparente, a conversa pública com as várias instâncias de interesse constantemente acessíveis, um Executivo cujo organograma se assemelhe a uma empresa ágil, aberta, metódica e rigorosa, e um Legislativo que substitua o bem bom carreirista por um quadro apostólico das melhores cabeças disponíveis em nossa geração seriam o começo de uma nova conversa, uma capaz de nos lembrar que somos todos, sem exceção, donos de uma direita e uma esquerda a anunciar, a cada passo da história, o tino insuperável da necessidade.

lendo as gentes: marighella

Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo

Mário Magalhães, Companhia das Letras, 2012

Da profusão dos conteúdos digitalizados para cá, é de supor, lê-se cada vez menos, mas lê-se cada vez mais. Lê o leitor cada vez menos horas por semana, havendo como há, como nunca, oportunas variações à diversão intelectual, dos minecrafts da vida à realidade virtual. Mas graças aos métodos pedagógicos a engendrar precocidades de apreensão, e também à diversificação exponencial dos escritores, que desde díspares contingências e vivências despertam novos e nichados interesses, há, a cada semana, cada vez mais leitores.

Uma consequência desta cena, para o mercado de livros, assim enuncia-se: haverá cada vez mais títulos a esgotarem-se em tiragens em média mais e mais baixas. Ainda que restem, claro, vacas leiteiras aqui e ali. Esta posição, conforme observação das listas dos mais vendidos, se nos séculos passados era do romance, será neste século da reportagem e do ensaio de auto-ajuda. Dispondo de menos e menos tempo para ler um livro, lerá o leitor atento os títulos que maximizam a utilidade marginal da leitura – livros instrutivos e terapêuticos. E não se arrogue, a literatice, a reclamar elitismos abstratos de compensações místicas do contato ‘verdadeiro’ com a ‘verdadeira arte’, pois tal presunção, além de anti-literária, não tem lógica.

Cursei há pouco Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães. Diverti-me mais que em 90% das séries em audiovisual que vi este ano. Além da diversão, aprendi, sobre a história do Brasil, o equivalente ao que aprende um leigo em cosmologia vendo a série famosa do Carl Sagan. Alta vantagem. De tão animado, planejo encarar, em breve, a saga do Getúlio.

Magalhães entrevistou 256 pessoas nos nove anos de trabalho dedicado ao livro, cuja bibliografia perpassa seiscentos títulos. A redação e a edição do resultado final não logram nenhum assombro literário, e contam decerto com as licenças popularizastes do copidesquismo objetivo informativo, mas são exitosas ao aprontar a narrativa com ganchos, reviravoltas, tramas cruzadas, suspenses, romances e arcos dramáticos entre fatos e dados não raro entre o curiosíssimo e o engraçado, informações capazes de enriquecer nossas conversas de bar ou almoços de família, mas também de tornar lucidamente consciente o brasileiro desinformado.

Tal foi o impacto mais severo, em mim, da leitura. Deixou-me assustado e preocupado, e na dureza do encontro documental, amarrado ao país onde venho escrevendo a minha história. A sensação é um pouco aquela que temos quando vemos um corpo humano por dentro: a delicadeza complexa da máquina viva nos deixa, mais que com repulsa à morte, prenhes de vontade visceral de nos cuidarmos. Mesmo que a vontade passe na próxima esquina, ao acendermos, distraídos, um cigarro. O ponto é justo esse: a sensação de pertença a um país que é também uma obra coletiva em andamento há de ser, para não se esvair, cultivada permanentemente.

Uma chave capaz de apresentar-nos à séria discussão política distanciados do cinismo e das simplificações irresponsáveis é nos expormos, como consumidores de produtos da cultura, aos objetos que nos dão, com força e forma, orgulho ante à comunidade em que foi gerado. Pode-se pertencer a uma miríade de comunidades; mas aqui, uma delas, e pela lógica territorial inescapável grandiosamente açambarcante, será a brasileira. Não se trata de ser anti ou hiperpatriota, nem de ter um mote aclichezado na carteira sobre o ‘afeto’ à ideia nacional, mas de aceitar a informação: vivemos num mundo cheio de ideias, mas indiscutivelmente físico. O feijão, a abobrinha, o transporte coletivo, os tijolos do prédio, o que é aqui usado está aqui, num bairro, numa cidade, neste país. Complicado ignorar, em qualquer debate que tenha por missão hierarquizar ou priorizar os assuntos graves da política, que as mais longínquas diferenças devem, em último caso, encontrar-se na unidade nacional. Não é possível desprezar a existência do Estado quando se toma banho usando a água dos lençóis freáticos sob sua guarda.

Mariguella não foi um só. Foi tantos. Poeta, nerd, certinho, travesso, namorador, soldado, apaixonado, engenheiro, arquiteto, pedreiro, salvador, gestor, chefe, leitor, líder, humorista, detetive, editor, crítico, congressista, agitador, conservador, progressista, religioso, corintiano, administrador, baiano, cético, estrategista, missionário, abstêmio, atleta, marido, pai, preso, perseguido, perseguidor, idealista, iludido, inocente, vítima, revoltado, revoltante, obstinado, forte. No colégio, fez fama nacional ao responder uma prova de ciências inteira usando versos rimados. Escondido em Moema, levantou (antes do zap) uma greve de trezentos mil trabalhadores. Cuidou de publicações socialistas oficiais e clandestinas. Redigiu manuais de subversão urbana que rodaram o mundo. Tramou e viabilizou a excursão e a turnê, em plena repressão e censura militar, de dezenas de artistas e intelectuais à União Soviética e à China. Encantado com os sucessos da experiência cubana, julgou possível conquistar justiça social a fórceps num país tão vasto e populoso. Um erro infelizmente retroalimentado pela repressão.

Não foi a luta armada uma batalha da coragem contra a covardia, apenas, mas foi um caso vergonhoso e arrastado de desperdício de talentos e oportunidades de progresso. Nosso Estado respondeu a sanha daqueles jovens idealistas e mal amparados como um irmão violentamente invejoso, e não como a firmeza paterna e a preocupação materna. Piorou o soneto e rendeu-nos páginas horrorosas hoje tratadas em aulas de história. Saí do livro com a impressão de que foi, Marighella, um patriota solidário e teimoso, aqui e ali enfeitiçado, mas dono de muitas habilidades. Não posso imaginar com clareza o que foi viver no contexto em que viveu, entre credos exageradamente utópicos e um status quo à esquerda e à direita esbanjando imaturidade. Uma das desvantagens dos regimes autoritários talvez seja esta, tornar o impacto do ambiente na formação do homem mais relevante que o impacto da formação do homem no ambiente. No Brasil da ditadura, sendo o ambiente desigual, sôfrego, injusto, o autoritarismo paria inimigos poderosos em suas próprias universidades, onde jovens românticos e autônomos consideravam tal inversão absurda.

A leitura de Marighella não pesa, passa rápido, mas deixa a gente humilde por tapar tantas ignorâncias, e às vezes tenso, com medo que descuidem de um país tão judiado e potente. Sugeri à editora uma adaptação aos quadrinhos, um modo de ampliar o acesso a tão caprichada reportagem. Sugiro, aos cineastas, a adaptação para a telona do capítulo oito, ‘Bicão Siderúrgico’, que trata da prisão de Marighella em Fernando de Noronha. Numa mistura bizarra de rebeldes integralistas e socialistas no paraíso de Vespúcio e Darwin, todos presos mas todos soltos numa ilha, jogava-se vôlei, cultiva-se hortas, assava-se pescadas, montava-se bibliotecas, vendia-se artesanatos e ministrava-se oficinas de interesse geral.  Num cenário belíssimo, esta exceção prisional em Noronha, estranhamente humana, civilizada e dramática, foi, como diz o jargão, de cinema.

Em suas páginas mais cruciantes, o livro detalha a metodologia nada honrosa dos interrogatórios da polícia. São páginas diante das quais devemos atentar, por dever cidadão e zelo histórico, em modo menos ressentido que investigativo. Por penosa que seja a disciplina, é mais útil discutir desde quais configurações estruturais, nas leituras psicológica e filosófica, pôde normalizar-se a prática da tortura. Em seguida, acompanhar a evolução dessas configurações aos nossos dias, especulando a forma de seus novos e insuspeitos rebentos. Se a tortura não é hoje prática oficial da Defesa, o degredo e o vilipêndio, a estupidez e a crueldade preconceituosa são cacoetes a rondar os sonhos de nossas razões, fazendo feder o entulho sôfrego de muitos de nossos juízos mais apressados. Policiar é preciso, mas tal verbo se conjuga antes em casa, consigo, no mentar reflexivo do indivíduo diante do espelho.

Este problema, em sua aurora esboçativa, nasceu enquanto caminhava numa noitinha. Sentado na primeira mureta que vi, rabisquei seus prenúncios: tanto Conceito quanto Percepção, aqui concepto e percepto, são tríades cognitivas que interpolam um sujeito mais ou menos conhecedor e um objeto mais ou menos conhecido. Entre os dois pólos, no entanto, diferem radicalmente as terceiras presenças. Para o concepto, há, entre sujeito e objeto, uma interface. Para o percepto, um intercâmbio. Fechada a caderneta, zanzei por uns barzinhos, virei dois conhaques, tomei uma tônica e voltei. Desenvolvi um bocado a ideia no quadro, fotografei, e segui com minha vida. Hoje volto porque há um problema novo no quadro, e seu eu deixasse passar muito tempo, as coisas embolariam. Notar: havia resíduos de notas passadas. Na empolgação da epifania, não apaguei tudo. O que não estiver explicitamente relacionado ao problema, peço não levar em conta.

No quadro, sobreveio a ênfase do viés não cru, mas político, do problema. Ora, se o concepto, esta habilidade que carece de acesso referencial a uma interface (corpo exógeno construído, mais ou menos dinâmico, perecível, atualizável) foi inflado nos últimos, digamos, 300 anos, assim ocorreu em contraponto a certa deflação do percepto, para não dizer a certa estigmatização. Donde ‘conhecer’ por meio de intercâmbio (dois corpos em troca sensorial ativa, sendo a terceira presença não um corpo exógeno, mas um julgo harmônico) ter sofrido paulatina dilapidação ante a cognição em interface. A pergunta que segue é dupla: há perda agregada com o desequilíbrio de valor entre concepto e percepto? (lembrando que mesmo um concepto ligeiríssimo quase imediato não deixa de ser um concepto); se sim, que fazer para reequilibrá-los?

De modo a aprofundar-me, mas num tatear neblinoso, recontei as sagas díspares de concepto e percepto lançando mão dos modos de existência latourianos, por um lado, e matematizei, sofregamente, a Área Eventual da Presença, medida de influência e disponibilidade navegacional do sujeito cognoscitivo, fórmula em que pesam os quoeficientes derivados de concepto e percepto, do outro. Nenhum destes dois exercícios de desdobramento me levaram muito longe, ainda, mas pude suspeitar: quando ORG valeu-se de REL e de REF, não seria estranho (para ela) valer-se de FIC, e FIC seria o modo onde preponderasse o percepto; e, fará sentido convocar o décimo-sexto modo (conforme sugiro em meu longo ensaio, ainda inédito), MEM, para determinar o quoeficiente de intercâmbio, ou sua humorada potência perceptora, do sujeito cognoscitivo?

[em relação aos modos latourianos, ver]
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lendo a crítica: euclidiana

Walnice Nogueira Galvão

(Companhia das Letras, 2009)

São três as qualidades mais notórias deste estudo. Íamos dizer deste apaixonado estudo, mas ocorreu-nos escapar ao pleonasmo. É que na entranha etimológico de ‘studium’ já fermenta, imemorial, imprescindível ‘passio’ — ou não se estudaria nada. A elas: o saboroso apanhado biográfico de Euclides da Cunha; um corte crítico original de Os Sertões; o cuidado rigoroso, de mãe ‘scholar’, ante a matéria textual, algo que inspira e faz crescer.

Em Euclidiana, graças ao empenho da pesquisadora no garimpo e na organização da epistolografia de Euclides, o leitor trava contato com faces e temperamentos variados do engenheiro escritor, além de aprender sobre o que o motivava e frustrava. Os traços biográficos espalham-se no livro e compõem-se, além das cartas, por itens curiosos como seu currículo na escola de engenharia, trechos dos autos do processo do seu assassinato, e alguns poemas da pena ainda adolescente do escritor:

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das asp’ras cachoeiras que irrompem do sertão…
E a minh’alma, cansada ao peso atroz das mágoas,
Silente adormecer no colo da soi’dão…

Rebelde errante e ativista republicano, Euclides foi expulso da Escola Militar em 1888 após tentar (e não conseguir) quebrar seu sabre em desacato a um superior; morou em diversas cidades do interior, a trabalho ou ansiando aventuras, mas sempre animado pelo resoluto desejo de conhecer o Brasil por dentro. Quando saiu Os Sertões, em 1902, Euclides teria ficado “exasperado pelo excesso de erros tipográficos” e corrigido a ponta de canivete e nanquim cada um dos mil exemplares da primeira edição.

Quando expõe sobre o gênero de Os Sertões, a professora sugere um hibridismo. É um épico “na medida em que se realiza como uma narrativa em prosa” e um drama, dado “o ‘pathos’ do livro em registro apreciável e em vários níveis de elaboração de conflito.” Ou,

Temos aí um épico que também é trágico, um livro cientificista que se realiza como obra de arte literária, um esquema determinista que mimetiza a Bíblia, um Apocalipse com Gênesis porém sem redenção, uma demanda em que o herói é o autor, um diálogo escrito pelo simposiarca de convivas ausentes, um canto de bode entoado pelo verdugo.

Foi Walnice quem ergueu, em nove anos de trabalho, a edição crítica de Os Sertões, publicada em 1985 pela Brasiliense. Para tanto, cotejou escrupulosamente diversos exemplares das sucessivas edições emendadas por Euclides. Vestígios deste trabalho hercúleo formam a parte final de Euclidiana, “menos interessante que minuciosa”. Há todo um subcapítulo dedicado, por exemplo, à troca da ênclise pela próclise; outra seção trata da eliminação “em mais de meia centena de suas ocorrências” do pronome relativo ‘cujo’; mais à frente, o oblíquo, “mais de centena e meia de ‘lhe’ são eliminados”; e a fim de reduzir “poderosamente o eco”, Euclides sai cortando o sufixo -ADO: faz ‘canhestro’ de ‘achamboado’, ‘aspérrimo’ de ‘esbraseado’, ‘Apesar das’ de ‘malgrado’, ‘esmoído’ de ‘triturado’, ‘agitante’ de ‘agitada’, ‘a prumo’ de ‘aprumada’, ‘caboclo’ de ‘acaboclado’ etc. Essa parte final parece mesmo menos interessante que minuciosa, e sua leitura por vezes prova-se uma luta. Mas o que fica, especialmente a quem é familiar ao termo ‘nerd’, é o elã insinuante de um trabalho detalhista e implacável.

Alto na lista de dez livros para ler antes de morrer de qualquer brasileiro, Os Sertões gerou e gera vasta, inumerável prole, criadora, crítica, comentadora, referencial, etnográfica, jornalística, plástica, musical, alusiva. Em Euclidiana, apenas mais um desses rebentos, saiba-se que estamos em ótimas mãos.

lendo a crítica: humildade, paixão e morte

Davi Arrigucci Jr.

(Companhia das Letras, 1990)

Humildade, Paixão e Morte tem três partes dedicadas a cada um dos três termos do título, mas a obra não evolui em fases, degraus ou etapas, e sim de modo fluido-espiralado. O dito no início será dito no meio e dito no fim, certo que a partir de vistas e situações sempre novas, mas sem a menor cerimônia de reaparecer. O fôlego atlético dos ensaios, maratonas intertextuais de articulação ligamentosa e cacoetes de infinitude (o sinal de reticências no desfecho do livro sugere um autor a escrevê-lo até hoje, décadas depois da primeira edição), daria, em mãos menos hábeis, num trabalho trevoso de longo e copiosamente redundante. O que ocorre em Humildade, Paixão e Morte, no entanto, é o exato contrário disso.

O livro de Arrigucci, esforço de dezessete anos de pesquisa para a livre-docência, parece um touro virtual, tridimensional e dinâmico cujos liames fatal e humildemente apaixonados pela obra do arquiteto frustrado e rasgador do modernismo em nossa poesia conjuram no crítico o reflexo ou a imitação ou o duplo inspirado do bandeirante estrelado objeto de análise e, em si, reprodutor arguto de touros incontroláveis. O que dissemos portanto de Gilda Mello e Souza em seu livro sobre Macunaíma, vale aqui.

A aula de Arrigucci é sobre a “lição de vida e de poesia” de Bandeira. Com efeito, por ocasião da abertura da Flip 2009, o professor arriscou dizer: um país que nos deu Manuel Bandeira, o homem e o poeta, não terá como dar errado.

Parte o professor de alertar-nos à necessidade constante de reinvenção para superarmos este mar de incertezas que pode ser a vida. “Seguro apenas da própria incerteza e de uma entrega apaixonada à busca”, o artífice criador que habita todos nós precisa, baixo seu próprio esforço, passar “de uma indeterminação máxima à extrema determinação”, ou, do caos da existência à forma pensada e conscientemente trabalhada do produto; no caso de Bandeira, da vida limitadamente livre ao verso esmerado.

Nesta lenta e obstinada operação de abrir-se à vida sem temor, recriá-la desde sã autonomia e a ela retorná-la novos e quem sabe desejados artefatos do gênio humano, narrativa basilar que a todos nos funda, “a difusa matéria do vivido penetra de algum modo na interioridade lírica do poema” ou do produto que for, ao mesmo tempo em que o fazedor ou produtor desentranha, depois de muito viver e aprender, “a matéria preciosa metida na ganga impura do mundo.” No processo, o homem se dá conta de que, sem trabalho, ele é

incapaz de discernir o sentido de uma vida originalmente marcada pelo sentimento de queda e inevitavelmente condenada à morte (…) estigmatizada pelo senso teológico do pecado original e minada pela melancolia, que só reconhece ruínas no palco de uma história gravada com os sinais da transitoriedade na face petrificada da natureza.

Se só a partir do esforço mais sincero, desinteressado e transparente do homem-poeta, ou do fazedor produtor, ele vê um horizonte contrário ao grande hotel abismo da finitude melancólica, resta aproveitarmos a leitura da vida e da obra de Bandeira, e sua ”luta diuturna e vã com as palavras”, como quem aproveitasse os pontos ensinados de uma simples prece secular, e nada vã porque exemplarmente inspiradora, de um longo, pacificamente aterrado e assim sereno aprendizado para a morte.

Os nove poemas de Manuel Bandeira lidos por Arrigucci são pretexto para que o autor repise:

1) a ponte levantada por Bandeira entre toda a lírica ocidental e o Modernismo brasileiro, com seu “verso livre rápido, elástico e certeiro” em que o simples não se confunde com o banal;

2) o “estilo humilde” ou natural de Bandeira, herança da tradição cristã que habilita o escritor a ocultar o sublime nas coisas chãs, “marca de fábrica do poeta e seu maior enigma”;

3) um mínimo de contexto literário da época de cada peça junto a pinceladas biográficas do poeta, da meninice pernambucana ao sanatório europeu, à boemia da Lapa carioca;

4) o artesanato minucioso e musical, rítmico e melódico, da complexa versificação de Bandeira (e aqui a arguição de Arrigucci atinge níveis subatômicos de especificidade sintática, semântica e morfológica, decerto cogitando os versos muito mais que o próprio Bandeira);

5) a “busca apaixonada” de Manuel Bandeira pelo “alvo errante” da poesia ao longo de uma vida inteira, valendo-se para tanto de repetidas alusões ao livro ‘Itinerário de Pasárgada’, “longa e lenta viagem em que o vivido, transmudado em poesia, se revela à luz da consciência que lhe deu forma”;

6) a iniludível vizinhança com a morte, que dá as caras via tuberculose ainda na adolescência para fantasmar-se em rediviva comunhão no cogito criador e exigir do poeta, sem mentir-se com promessas de além-túmulo, encará-la com coragem, pois aquilo que “o tempo impõe inexoravelmente mesmo ao que parecia inacabável como o mundo da infância” são as duras belezas de um arco de vida por nós desenhado e retesado para, um dia, conforme afirme-se em justo legado, concluir-se.

A crise por que passa a literatura, quando certas formas consagradas não convencem ou não interessam tanto, e novas, híbridas, reimaginadas e resgatadas formas vêm rompendo brechas insuspeitas de atenção, exigirá um chacoalhão na identificação, justificação e valoração daquilo que é atual e literário. Mas onde mirar, por referenciação e nortes, quando um trabalho outrora confinado (a crítica literária) liberta-se como ferramenta e atividade da ampla comunidade humana? Decerto em trabalhos de sincero artesanato, refinada atenção, e valiosa matéria. Humildade, Paixão e Morte é um desses trabalhos.

lendo a crítica: clarice lispector – uma poética do olhar

Regina Pontieri

(Ateliê Editorial, 2010)

Parecem dois os textos-chave para a boa leitura deste estudo, concentrado no menos querido talvez porque muito mal lido romance de Clarice, A Cidade Sitiada (se é lamentavelmente natural na democracia imatura povo e Estado sentirem-se apartados e desconfiados entre si a ponto de perpetuar-se como praxe a estupidez, a força bruta que faria ruborizar o menos político dos mamutes, a cultura noviça será também faltosa, em regra, na atribuição de mérito a seus produtos; ora por infantilismo xenófobo, ora por simples insuficiência referencial, ambos traços próprios dos zeladores de opinião de alas boas e parcas bagagens. Lembremos quão recente e desastrosa foi a recepção crítica do poema da pedra de Drummond, e do árduo trabalho acadêmico que se seguiu, necessário para desmontar preceitos obsoletos e práticas apequenadas de chancelaria), a saber, O Visível e o Invisível, de Merleau-Ponty, e A Destruição da Subjetividade na Filosofia Contemporânea, de Marilena Chauí, aos quais este resenhista adiciona um terceiro, Experiência do Pensamento, em que não por acaso Chauí lê Ponty e de onde tiro a ideia de “carne do pensamento”, bastante atinente com a tese de Regina Pontieri na medida em que procuram ambas afirmar certa superação do dualismo sujeito-objeto – o homem só será vidente quando for também visível – ao mesmo tempo em que instalam-se na tensão permanente e ambígua da existência anárquica cuja única porta de saída parece ser o rompimento criador da sufocante placenta do silêncio instituído (quem não falar será sempre “outro”). Fuga não a partir de um esforço exclusivo de individuação, pois isto seria deixar a outridade sem de fato achegar-se ao mundo, mas antes a partir de um esforço inclusivo, compartilhado, de universalização, quando o Eu faz-se indiferente ao que, a priori, o apartaria do “outro”. Ao encarnar seu pensamento em obra, o homem-criador olha para o mundo e nele se vê, ao mesmo tempo em que põe-se à vista. Assim, vence os muros quem sabe inexistentes de um mundo sitiado. Tal decantação filosófica existiria, segundo Regina, em estado de agito no romance de Clarice. Sua análise sustenta, desdobra e interliga três proposições principais sobre A Cidade Sitiada: 1) A Cidade Sitiada é “tempo espacializado”; 2) A Cidade Sitiada é “pintura e espelho”; 3) A Cidade Sitiada é “proliferação de enigmas”.

Em que pese a conhecida divisão da crítica estabelecida no trato do passar do tempo em Clarice, evocando a durée bergsoniana típica do fluxo de consciência de um lado, e o pontilhismo dos instantes fragmentários justapostos do outro, Regina de certa forma atualiza a discussão, examinando os dois lados para então superá-los noutros termos.

Menos interessada em definir se a passagem do tempo é contínua ou descontínua (ou se nossa percepção é a ilusão de um intrincado imbricamento das duas modalidades), a autora defende que, ao menos no universo ficcional de A Cidade Sitiada, o tempo acaba por perder a soberania na condução da leitura para submeter-se ao imperativo do visível: antes de fazer cair a noite e correr o dia, o tempo em Clarice constrói o espaço.

Tal operação só é possível quando pareada ao movimento duplo e paradoxal de “compartimentação e integração” que atravessa a obra. Os 12 capítulos, ou seus parágrafos, “cada qual monadicamente fechado sobre si, mas ao mesmo tempo reverberando nos outros” nos dão a impressão de não haver na obra qualquer vestígio de cronologia. A aparente autonomia das partes no todo seria produto da “fragilidade do fio narrativo” intencionada por Clarice. O que soa mais importante não é uma sequência de eventos encadeados, mas sim esta e aquela coisa, este e aquele lugar, conforme olhados e vividos pelos personagens e pela narradora.

Ainda em “proposital detrimento” à narração, Regina aponta a “forte tendência ao pictórico que realça a descrição”. Não que Clarice não conte uma história n’A Cidade Sitiada; mas ela o faz menos a partir do acontecido, e mais em cumplicidade com o olhado. Muitas vezes a personagem está simplesmente em casa contemplando os móveis ou passeando nas calçadas sem rumo. Rarefeito em eventos, o enredo literário será entretanto pródigo em poéticas e insuspeitas materializações. O que ocorre, no lugar de um desdobrar diacrônico tradicional, é o que Regina chama de cronometria, noção vinculada “a um tempo exterior, físico e cósmico, não individual nem social”, com figuras “enclausuradas num puro presente”, presente este percebido apenas quando se adere à “exterioridade das coisas visíveis”, ou, “tempo espacializado da cidade em estado de sítio.”

A “aventura feminina pelo espaço urbano” no romance é despertada por um “desejo sempre renovado de narradora e personagens que é exatamente: ver. Das mais diversas maneiras.” Do alto, de baixo, de lado, de frente, movendo-se, parada ou através (de outrem?); a esses tantos olhares

pessoas e coisas se oferecem, exteriorizadas, como pura visibilidade.

Tantas visões dão ao leitor “uma realidade cuja essência é a aparência”, e aproximam a ficção lispectoriana da arte da pintura. Uma pintura carregada de estranho e grotesco, porque contra o banal de um mundo em que os rótulos nos chegam pré-fabricados e a familiaridade não exige esforço nem coragem. Sutilmente, a personagem Lucrécia “se mira no que vê”, buscando quem sabe superar o temor do não reconhecimento. Tal procedimento, que pressupõe esforço renovado e coragem incansável, engajado em repetição indistinta com seres animados e ‘inanimados’, faz da alteridade a superfície de um confuso mas vencível espelho, deformador mas enfrentável plano reflexo. Segue, talvez como num lucro terapêutico, um gradual e reconfortante “apagamento da dicotomia entre sujeito e objeto de visão.” O estranho e o grotesco funcionam, ao contrário do que se poderia supor, não como fontes de repulsa a uma “individualidade fechada a um mundo sentido como hostil”, mas como propulsores de múltiplos reconhecimentos, mesmo que às vezes difíceis, até que a individualidade outrora lamentavelmente vulnerável,

abrindo-se em travessia agônica em direção ao mundo, transmuta-se em mundo ela também, momentaneamente anulando-se enquanto indivíduo.

Se o tempo vai para o espaço e a narração cede à descrição para virar pintura e espelho, a prosa corpóreo-poético-pelágica de A Cidade Sitiada se arrima quando o leitor depara com a “proliferação de enigmas” do “tecido lacunar” do livro, texto que “convida e mesmo só permite leituras que assumam o risco da invenção de um sentido.”

Trata-se da tão assuntada alegoria, figura retórica presente em Clarice como um ar que se respira. Senão, Clarice diz, certa altura:

sem pássaros, sem flores, seus chapéus pareciam feitos de chapéus.

Regina completa: ora, o chapéu é emblema de “um corpo de algum modo sitiado enquanto vivência sexual. E que na ilha dos cabelos desfeitos vai se entregar ao jogo.” Com significados sempre deslocados pela operação alegórica, cabe ao leitor tocar o texto como puder e tentar decifrá-lo. Clarice diz,
(enigmática?):

Enquanto sonhara, já se passara muito tempo sobre o rosto… Os lábios de pedra haviam-se crestado e a estátua jazia nas trevas do jardim.

E Regina nos convida a decifrar: jardim remete “aos tantos jardins que na ficção clariciana funcionam como espaço de anulação da lógica do cotidiano”, e cada jardim “faz aflorar a experiência onírica, o grande emblema do lado avesso em que se espelha e revê invertida a lógica diurna.” O lance de “dizer o outro”, e não o mesmo, algo que Regina chama de “promiscuidade sêmica”, confere um jogo permanente às significações, que ligam as palavras em “liames frouxos”, e nunca fixos. Tanto faz “circular o sentido” e manifesta,

no plano da escritura, aquele desejo de construir a relação de alteridade pautada pela reversibilidade,

quando se apagam “as diferenças excludentes” e “a exteriorização de coisas e pessoas se reverte em vínculo de intimidade e intersubjetividade.”

Regina realiza, além da análise literária de arejado pendor filosófico, bem-vinda apreciação da fortuna crítica d’A Cidade Sitiada, de Sérgio Milliet a Nádia Gotlib, citando Candido, Gilda, Benedito Nunes, José Américo Pessanha, Claire Varin, e outros. Numa sorte de capítulo bônus, ao final, a autora debruça no conto O Ovo e a Galinha (apresentado por Clarice no Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, em 1976), do qual não trataremos para poupar o leitor de apetitosos spoilers. Mas adiante-se que brota, ali, em agradável e elucidativa surpresa, o nome de Ludwig Wittgenstein. É comum ouvirmos que Clarice viajou dali pra cá, de cá pra lá, e que falava com desagradável sotaque. É comum vermos circular suas fotos, olhar agateado e elegância certeira. Bem menos comuns são no entanto as provocantes e acessíveis leituras de sua obra. Este livro é uma delas.

lendo a crítica: o tupi e o alaúde

Gilda de Mello e Souza

(Editora 34, 2003)

Este livro parece que transcria, nos limites de sua estirpe e competência, o caldo formal do livro que lê. Tal empresa, complexa e nem sempre possível ou conveniente, pois pede ao crítico deslindar e sustentar seu recorte em toada especular, faz-se tanto mais aguerrida quando a obra analisada provém de libérrima criação. No entanto, O tupi e o alaúde alcança, num desenho próprio e atinente às convenções da crítica, as vibrações originárias de Macunaíma. Tal e qual um filho que, seguindo carreira diversa do pai, fez questão de preservar seus modos de ser e visões mais profundas.

O estudo de Gilda oferta tráfego argumentativo em errância desbravadora e tem volteios, lembretes, digressões, rotas heteróclitas e partes díspares, mantendo duro, cristalino e convincente seu fundo, como fez Mário de Andrade em sua prosa original. A autora desenvolve três grandes movimentos: Macunaíma e o musicólogo Mário; Macunaíma e a tese de Haroldo; Macunaíma e a tradição literária.

1.
Num ato improvável mas feliz, Gilda usa os estudos de Mário sobre a música brasileira para estudar Macunaíma. Citando amiúde Danças dramáticas do Brasil, obra em que Mário descreve fandangos, cateretês, caboclinhos, cortejos, maracatus, cheganças e reisados, Gilda destaca os conceitos de suíte e variação, apontados por Mário tal modos comuns na estruturação de nossos ritmos. Para a autora, seriam a suíte e a variação as componentes estruturantes também de Macunaíma.

Na suíte, conforme a síntese de Gilda, o “compositor-bricoleur” vale-se do que tem à mão – a memória, o entorno, o acaso – e ajunta partes rapsódias num todo cujo sentido virá a posteriori. Na variação, fenômeno talvez datado em que há empréstimos bilaterais entre alta e baixa cultura, o criador popular assovia cantatas na cantiga e o acadêmico estetiza refrões da rua na sinfonia. Ora, se Mário dissolve “as frases populares no tecido elaborado de sua prosa” e mistura e liga anedotas tradicionais, biografia pessoal, registros etnográficos, crônicas coloniais, ready-mades e modismos da língua, associações de ideias e imagens, musicalidade verbal, processos retóricos em que “a canção de roda e o improviso do cantador nordestino” colaboram, seu ‘Macunaíma’, crê Gilda, será então uma suíte preenchida por variações. De tanto escarafunchar e tentar sistematizar os fenômenos musicais brasileiros, Mário teria sido, no intenso relaxo dos seis dias “de cigarros e cigarras” que levou para escrever Macunaíma, condicionado pela memória, e feito literatura guiada por seus estudos de música.

2.
A seguir, Gilda cuida de fazer reparos na Morfologia do Macunaíma, livro de Haroldo de Campos publicado seis anos antes, em 1973. Em miúdos bem miúdos, a tese de Haroldo diz que Macunaíma, à semelhança do conto russo de magia, é simples como uma fábula, coincidente em seu esquema com as lendas folclóricas em que “um grande movimento sintagmático” (Macunaíma X Piaimã) dá conta de narrar toda a história. Mas Gilda não vê assim. Macunaíma é trabalho literário de singular especificidade, e se nele há qualquer coisa como um “grande movimento sintagmático”, então são dois:

((Macunaíma X Piaimã) + (Macunaíma X Vei a Sol)),

e não um. Para refutar Morfologia…, ela se apoia num extenso rol de teóricos e rebate ponto por ponto as supostas fragilidades da pesquisa de Haroldo, “leitura unívoca” e redutora, diz, “que rejeitava os desvios da norma, para fazer a obra de arte caber à força no ‘modelo’ de que, fatalmente, teria de extravasar.” Haroldo teria simplificado por demais o “universo poderosamente ambivalente” de Macunaíma, livro nada simples porque “feito de muitas dúvidas e poucas certezas.” A autora argumenta graciosamente apoiada nos dois lemas que “atravessam o livro de ponta a ponta”:

“Ai! que preguiça!…”

e

“Muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são.”

“Ora”, diz Gilda, “não é difícil verificar que as duas frases expressam conteúdos opostos”, sendo a primeira simétrica ao primeiro sintagma (Macunaíma-Brasil deve sair da rede para derrotar Piaimã-Europa ou vai acabar sem o tesouro-muiraquitã), e a segunda espelhada ao segundo sintagma (para ter a vida que quer, Macunaíma-Homem terá de trair Vei-a-Sol-Natureza, mas sua vingança será maligna). Além de dois sintagmas, e não um, como queria Haroldo, Gilda os mostra antagônicos e insolúveis, pelo amor de manter tensionado o encontro do Brasil com seu aporte europeu, restando o país, ao menos nos anos 1920, “dilacerado entre duas fidelidades”, fato que atormentava ou inspirava a reflexão do escritor.

3.
Gilda retorna então ao século XII para filiar Macunaíma à tradição literária do romance arturiano. Na Demanda do Graal, arquétipo narrativo identificado nas obras de Geoffrey de Monmouth, Chrétien de Troyes e Robert de Boron, o herói enfrenta provações em série e descasca a grande aventura com nobreza, coragem e desprendimento. Mas, lembra Gilda, como avançássemos Idade Média fora e Renascimento dentro, o formato foi assimilando traços da cultura cotidiana graças aos efeitos da popularização da leitura, sendo “totalmente deformado em seu espírito que o mito do Graal se instala na obra de Rebelais e, menos de um século mais tarde, no Dom Quixote de Cervantes.”

É a carnavalização fantasiada de literatura séria para renová-la, gênero novo iluminando a “semelhança dos contrários e alimentando-se de mistura e ambiguidade”. A temática heráldica e religiosa do medo e do sofrimento dá espaço à liberação do corpo e ao alívio cômico. Eis a linhagem de Macunaíma, romance arturiano carnavalizado, cavalaria amansada no riso e nos prazeres mundanos, a vida alegremente avessa “a tudo o que é acabado, imutável, eterno.”

O tupi e o alaúde é livro íntimo, colorido e façanhudo que indica caminhos não só à crítica em geral, ao conciliar rebolado sedutor e rodapé sisudo, mas às leituras vindouras do “discurso selvagem” de Macunaíma, obra forte e longeva, mesmo se

ambivalente e indeterminada, sendo antes o campo aberto e nevoento de um debate, que o marco definitivo de uma certeza.

A leitura da breve mas densa análise de Gilda deixa quase todas as 85 páginas grifadas.

lendo a crítica: ficção e confissão

Antonio Candido

(Ouro sobre Azul, 2012)

Ficção e Confissão é um desses sucessos típicos da empresa editorial indisposta a negociar sua fé no necessário. Reunião de quatro ensaios sobre a produção de Graciliano Ramos, complementares, aqui e ali imbricados, mas todos eles vítimas felizes da intuição, originalidade e destreza do mestre Candido, o volume se aproveita da enxuta produção do analisado e destrincha com nitidez a técnica e a visão de mundo do universalíssimo autor alagoano, em menos de um dedo de lombada.

De saída, Candido sugere ao leitor “aparelhar-se do espírito de jornada, dispondo-se a uma experiência que se desdobra em etapas”. Isto porque Graciliano, em sua jornada de escritor, vai da ficção mais enredada à autobiografia plena em apenas sete livros, sempre experimentando e nunca se repetindo: “para ele, uma experiência literária efetuada era uma experiência humana superada.”

Se os livros são entretanto diversos, Candido pede que atentemos para a “unidade na diversidade”, pois a obra traz a “clara geometria do estilo” e as “correntes profundas do desespero” que a tornam coesa. Com efeito, a panorâmica de Candido sobre a entrega de Graciliano nos faz enxergar, claro e irreversível, qualquer coisa como um épico poema de sete fases.

Caixa de areia estilística onde o autor faz “exercício de técnica literária”, o romance Caetés seria a primeira fase. Livro “apurado no estilo, sumário na psicologia”, donde insuficiente. Mas já brotam ali, mostra o crítico, o “desencanto seco” e o “humor algo cortante” do romancista “profundo e doloroso” das obras posteriores. Destaque para nota de Candido para a capa da primeira edição, desenhada e composta pelo artista e poeta alagoano Tomás Santa Rosa. O desenho “lê” o romance com precisão, pois sugere “não apenas o enredo, mas as ambiguidades do texto, vinculadas à ironia criadora de Graciliano Ramos”.

Na segunda fase, a obra-prima de Graciliano aos olhos de Candido, São Bernardo. Livro “curto, direto e bruto”. O crítico esquadrinha São Bernardo com gosto e vigor. Resume a vida de Paulo Honório numa análise sumária e rica que ultrapassa a radiografia da composição ou o discernimento dos “mecanismos da criação” para atingir seguro e arrojado os picos da especulação psicológica e da proposição filosófica. Sobre a desgraçada inclinação do protagonista ao jogo do capitalismo, por exemplo, Candido diz,

o sentimento de propriedade, mais do que simples instinto de posse, é uma disposição total do espírito, uma atitude geral diante das coisas. Por isso engloba todo o seu modo de ser, colorindo as próprias relações afetivas. Colorindo e deformando.

Angústia, na terceira fase, é livro “fuliginoso e opaco” em que o “leitor chega a respirar mal.” Como num truque de mágica, Candido tira da manga o poema ‘A mão suja‘, de Drummond, citando-o no meio da resenha (desconfio que esse tipo de procedimento de licenciosa comparação era incomum na crítica estabelecida), e de repente todo o drama do personagem de Graciliano, em oito exíguos versos de Drummond, ganha luz e relevo. Angústia, segue Candido, é “nojo, inércia e desespero” (a inércia, por sinal, é “amarela e invicta”), características do personagem mas que “se estendem por todo o livro”, pois Luís da Silva “assimila o mundo ao seu mundo interior”. Candido aproveita para expor uma “explicação sexual” para a “consciência estrangulada” de Luís da Silva. Três símbolos fálicos são pinçados do enredo (cobra, corda e cano) e jeitosamente amarrados ao elemento água, associando a “virilidade espezinhada” da personagem a seu “desejo bloqueado de viver.” Se Angústia não é para Candido o melhor livro de Graciliano, é o mais complexo. E é aqui que ele aproxima o alagoano dos dois autores que virariam lugares-comuns em sua vindoura fortuna crítica, Kafka e Dostoiévski.

Haveria uma quarta fase no volume de contos Insônia, desprezada por Candido. “Medíocres”, as narrativas breves não conseguiriam “afundar-se sinceramente numa situação limitada”. O próprio Graciliano, na dedicatória que faz a Candido num volume de Insônia, diz que os contos saíram “chinfrins”.

Quinta fase, Vidas Secas. Aqui a crítica de Candido chama a atenção por dois aspectos. É a que mais cita outros críticos (vale-se largamente de observações de Lúcia Miguel Pereira, Almir de Andrade e Otto Maria Carpeaux) e é também a mais poeticamente fresca e desimpedida, talvez espelhando um certo despudor, inorgânico e corajoso, na composição do próprio Vidas Secas. As imagens de Candido variam soltas e miram longe. Graciliano “esbateu-se no ramerrão das misérias diárias e o fez irremediavelmente doloroso”. O livro é feito de “polípticos medievais”, de “pequenas telas encaixilhadas”, é um “romance em rosácea” (imagem que empresta a Benjamim Crémieux). A história “não pressupõe refolhos, não devora”, e a

alma dos personagens, perquirida com amor e sugerida com desatavio, é apenas a câmara lenta do mesmo brilho que lhes vai nos olhos.

Num didatismo incansável, Candido resume novamente os três romances anteriores para deixar mais claras as escolhas do autor em sua jornada de maturação. Aponta a gradual supressão dos diálogos, que em Vidas Secas se extinguem, bem como a brusca mudança de registro de primeira, nos três livros anteriores, para a terceira pessoa em Vidas Secas. Quando refaz o rol de sofrimentos de Fabiano, o analista mostra poder absurdo de síntese e, usemos a palavra, de tans- ou recriação. Em novo lance de comparação insuspeita, Candido convoca Euclides da Cunha, e emprega citações elucidativas d’Os Sertões acerca dos “vínculos brutais entre homem e natureza no Nordeste árido.”

O livro Infância é a sexta fase do progresso de Graciliano Ramos, na qual o autor começa a abandonar a ficção para se apoiar nas memórias “da tenra haste da meninice”, e exibir sua aprendizagem desencontrada e progressiva num mundo não raro injusto, tirano ou simplesmente incompreensível. Mundo em que “humilhação”, “machucamento” e “machucaduras” (palavras de Candido) dão a tônica. “A consequência natural”, resolve Candido, “é o refúgio no mundo interior e o interesse pelos aspectos inofensivos da vida. Inofensivos e, portanto, inúteis. Sonhar, ler, imaginar o mundo na escala das baratas.” Aqui aprendemos sobre o “sistema literário pessimista” de Graciliano. O crítico sintetiza a filosofia do romancista ainda outra vez, e outra vez aprendemos: nada, ao menos para o Graciliano de Candido, “tem sentido, porque no fundo de tudo há uma semente corruptora, que contamina os atos e os desvirtua em meras aparências.”

Mas Graciliano vai preso. Na sétima fase do autor, lemos um livro póstumo sobre seu tempo de detento. Memórias do Cárcere apresenta, já sem qualquer ponta de ficção, o relato da “franja de inferno” a que o alagoano militante comunista foi relegado. Aviltamento, parasitismo, dissolução da integridade moral, medo, desespero, envenenamento das relações, promiscuidade, tortura física e formas repulsivas de perversão são alguns dos termos de Candido em sua leitura da obra final de Graciliano. O crítico acha o livro “desigual”, apesar de guardar “traços fundamentais da sua arte narrativa”, e tenta como que extrair, da barbaridade punitiva por que passou Graciliano, uma espécie de resolução redentora ao homem e ao escritor. A “teia de capitulações e desajustes sem saída” que ele via por toda parte do lado de fora das grades ganha nova perspectiva com a experiência da prisão. “Aumenta a capacidade de compreender e perdoar”, aposta Candido, e o “sujo viveiro do cárcere propicia, na obra desse pessimista, lampejos de confiança na vida.”

Foram muitas as análises de Graciliano desde Ficção e Confissão. A de Candido, porém, além de acessível, minuciosa, compacta e bela, divide com os livros de que trata a vibrante qualidade de melhorar e melhorar-nos a cada releitura.

Saísse era topar o prejuízo
fábricas de alcantiladas britas

Fumasse era sacar-se fortuna
cantos de galos interrompidos

Jogasse era musgo na modorra
espelhos somos centelhas d’alvas

Caísse era noivar as chinelas
amalgamados jós & zé-ruelas

Levantasse era radiar a prece
cobre na volta zelo e mutismo

Calasse era ouvir chegar a justa
palavra ponte dobra qual sina

Comesse como um tatear contínuo
de mãos em mãos a sagrar tecidos

Sentasse eram colunas em pedras
– é com as costas que se respira –

Dormisse era dar no cume alívio
peito arado, campear o cacique

––

não achei uma imagem decente na rede
da melhor pintura do museu coleção berardo
studio e paesaggio, pincel renato guttuso
tudo o que antecede, aquela arte toda
gritante ou idiotizante arte recente em diante
contra o tempo, portando, voltando
às ditas escolas do XX
escolas que só depois amalgamam
na forja da pedagogia
superpreocupada mas tarada em explicar
a suverção a rutura
a invenção o ready made
a experimentação o movimento
presos textos, presas amassadas em saletas
dilui o pratoganismo de paris o grupo CoBrA
emerge joan mitchel na esteira
do expressionismo abstrato
faz-se irredutível ad reinhart
pois morre o além na cega ultimate painting
rasga os cartazes raymond hains
e lourdes acorda ao pé dum saco de christo
plácidos ressoam os cítricos das sete cores da ironia
são as pop brit art e americana a dar fome
mas discretos cy twomby e jaques villeglé aparecem
antepastos do disciplinado espaço, seitas e claustros
até sorrir em paz o visitante, eremita imparável e lento
à mesa do italiano comunista, farta de simples a oficina
pêndulo fumante beckettiano, leitor hegeliano
juno artista amante de bequinhos e tortos telhados
espremem-se se tudo se coloca para nada mais caber
eis a vitória das gentes que sobem
agora posso ver a pluralidade do chumbo
as faces do ocre, do preto antepassados, terras e quintas magentas
arremates em destras brancuras
aval a desprezar loucuras
primárias, marcam ilhotas e pouco aparecem
pois nada do que vibram é em sério
carimbos de alegria forçada, esquecimento
assinados o verde, o amarelo, o azul clarinho e o vermelho

studio e paesaggio abre o súbito do reino peão
foca no seu alimento
sem vergonha esta dor, amplo este alento
não há jogar ali veneno, mãozadas de lixo
goste-se ou não de vento
é que tudo se compõe sem falha, e humildemente

a segunda e última peça que sem lágrimas resgataríamos
do de resto fatal incêndio
é a prisca e tenebrosa figura em bronze la mante
kafka e trash eretos, gaia e et a um tempo
mãos mulher germaine richier, sombra viva do giacomo
cria do guigues
dileta do bourdelle
imiga do bispo mas em verdade
benévola inseta, mansa replicante
nela as fases da lua cantam
se fásicas as luas dançam
carcassa mineral, ossos de lança
na cara igénua e branca
daquele querido e bel davi

== ¥ ==

lendo a crítica: A espiritualidade clandestina de José Saramago

No que diz respeito aos dois pecadilhos reiterados e felinos do de resto amplamente estimulante ensaio A espiritualidade clandestina de José Saramago, composto por Manuel Frias Martins e exibido em 2014, não será repisá-los aqui mais urgente que um breve apontá-los equipados acaso nós desde o robótico interesse dos bandeirinhas do futebol. Cabe anotar porém que se no campo são as partes do objeto interessado (o mais avançado jogador no campo de ataque) sob escrutínio escusadas não avançarem a linha limítrofe e imaginária do positivismo chamemos euclidiano do auxiliar, aqui serão gatilhos de acusação justamente o que se viu aquém da provada elasticidade do ensaísta, tanto mais ruidosas tais protuberâncias em potência suculenta mas em desenvolvimento atrofiadas soem-nos e soam conforme atravessasse-nos a dedicada e delicada construção. São mesmo dois, pois agora refizemos as contas.

O primeiro trata do desprezo superficial de Caim pelo instituo do Milagre no romance Caim. Ele o personagem saramaguiano cita, conforme excerto destacado, e mistura a seu sopão de maldades por que se persegue o autoritarismo divinoso, o milagre como mais um estratagema de persuasão encantatória apenas indireta, relatada e não vivida, desditosa empresa da conquista d’almas. Mas a raiva de Caim não resolve o problema do milagre, e tampouco Martins solidariza-se com a fértil e inexplorada frente de cultivo poético e epistêmico que a larga fenomenologia do invisto, do inaudito, mesmo do impensável e dos espantosos achados deste ponto onde entendemos a dinâmica quântica menos e menos como a suspeitada indiferença quântica.

Milagres podem ser as imagens das comunicações interdimensionais como podem ser índice de nossa vida virtual, isto é, subproduto da realidade inatingível mas ~manifestável, um jogo ou dança de sombra ao pé do fogo projeta-se à parede e deixa nela a gravação queimada de uma sua idêntica silhueta, da sombra em dança ou jogo, três lebres trespassam para trás um muro baixo enquanto ímpias sincronias assentes tão somente nas peculiaridades da dilatação de uma viga de madeira numa certa manhã mediterrânea tombam antes o vagão de pinhão e salvam a vida do jumentinho que salvará do afogamento na corrente do rio o filho do agricultor nove anos mais tarde, que quando Senador impedirá uma guerra estúpida e assim nove mil mortos inocentes. Pronunciasse simplesmente que por ali há modos de ir e que entretanto hoje não irei. Mas perde-se a oportunidade e nós seguimos em frente.

O segundo é exagerar a invocação dos mortos em nome de Deus, como se o problema da mortandade geral tivesse qualquer coisa que ver com Deus, seu nome ou qualquer coisa sua. Nós modernos simplesmente não conhecemos volumosas mortandades em nome de Deus, não de modo a torná-las fundamentos de um escárnio violento, de modo que o argumento pela subversão interpelativa das certezas do Senhor no bojo de uma luta maior contra a indignidade humana nada ganha de sustância se acusamos antes dos maus iogurtes, maus carros e maus ônibus em autoestradas amalucadas, a indústria da arma de fogo, o individualismo exclusivamente concorrencial das pressões no trabalho derretido na infusão do Capital no caldo da lógica, os crimes passionais, as disputas por petróleo e território, os distúrbios advindos de comércios ainda lamentavelmente relativizados como ilegais, a devassa de Gaia baixo a cruz do Antropoceno e a influência arquitetônico-cultural das potências imperialistas na Guerra Fria o ex-machina do Bebé Gigante. Sem tônus e ainda assim repetido, dóem como sofismáticas e ligeiras impressões tais articulações, e um chega a perder a concentração. O romance de Saramago é atual mas, hoje, não se mata em nome de Deus. Não adere, a suspeita. De que fala e o que trará de útil pois o canto deste grito?

Dito isso, devo recobrar, desdas margens onde pisaram Eulálio Carpeaux Gilda e Antonio tanto quanto Andrade e Andrade, margens daquela desgraçada mas conhecida periferia do iluminismo onde ecoávamos as modas francesas então norte-americanas então alemãs de operar a crítica, meu verdadeiro deslumbre ao devorar tão urgente e elegante trabalho de análise literária sobre o tema da espiritualidade, já que nada sei da crítica portuguesa, sua tradição, mas usei-me no novo capim novo da américa pobre a catar dentro do ensaísmo sem escola dos professores artistas que mantêm viva a ilusão de uma universidade brasileira preciosidades da mais singular marca da generosidade intelectual que é o exercício da análise sobre autores que por pouco passavam como loucos inúteis. Um livro por demais acessível e iluminado, humoroso e sério, ainda que chancelado pela fundação que leva o nome do autor estudado e Nobel ele mesmo, o que nos haveria de meter em sítio como que de pé atrás. Mas tudo passa bem e equilibra-se, e mesmo quando o crítico empilha em seu chapéu o chapéu chapéu do advogado para não dizer o chapéu chapéu chapéu do publicista, entedemos que por mais decantada, a paixão do analista pelo objeto seria o de novo e de novo eletrocutada, e isto pode dizer energizada, pela oportunidade política de ir além da descrição referenciada de procedimentos e escolhas estéticas até botar quem sabe os pingos nos is no nome de um artista desprezado e agredido em seu país, censurado em 1993, apontado como mero ateu preguiçoso e assim odiado e mais recentemente revogado da condição de baptista de uma praça na cidade do Porto. Certo catolicismo português, e talvez confluente aos espíritos da fruição literária nacional e sobre ela influente, não percebeu vantagem no engolir do Saramago e deu a insultar o escritor, e tal registro de recepção, se incomodou Martins, é porque passou do ponto da simples recusa para aquele da impostura. A história, entendeu o ensaísta, estava ainda mal contada, ou mal recontada, e empenhar um esforço extra por isso, por levantar quanto pudesse Saramago de seus limbos imerecidos, era unir-se a um combate necessário. Sobram chapéus mas eram seis quando paramos de contar.

Martins debruça no que apresenta tal “romances bíblicos” de Saramago, ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ e ‘Caim’, para tentar esboçar uma figura da espiritualidade do novelista português. Ele leva nossas mãos tão longe quanto estabelece que ela, a espiritualidade, dá-se ali onde Cria, o espírito, mas a floresta do que ser o espírito, essa Martins não anima conosco. Fato é a ação do livro apreciar a PRODUÇÃO de/em uma diversão (a espiritualidade), e não sua norma. Espiritualidade “enraizada na interrogação” atinente “ao amor e à compaixão, à tolerância e ao perdão, à responsabilidade e à harmonia” que incita o espírito motriz a vociferar dentro da possibilidade mesma do entendimento. Pintar de verde o céu como Tom Zé e USÁ-LO (caps nossas) para enxugar lágrimas. Comunicar, um seu ofício diuturno e dialógico, no que sai no salto e volta ao chão a base de perna e contraperna que move e sustenta um homem em meio a tantos, um nome de muitos, os muitos nomes de um.

Se toma tantas páginas o artifício romanesco da participação de um sujeito que o escreva, será bom tratar o tomo de grandes e complicadas coisas. Ou isso ou ler as tantas sagas dos moreiras dos anos oitenta ou qualquer coisa que o valha se quedaria impraticável. Mas tal lembra Martins que Saramago faz, pois deforma e testa as normatizações do estado disciplinador e de seus abusos o autor. É claro que um comunista daria num artista engajado, mas não era tão óbvio que miraria e arquearia setas duras de respeito contra tão fundamentalmente estruturais parcelas das culturas globais do ocidente, ao que parece com primazia na tática de falar por Jesus e ortogonalmente capaz seara romanesca fora, criando de mais a mais a “multiplicidade de mundos” que apenas espera-se.

A leitura-diagnóstico também da recepção como se indicou preocupadamente alarmante de Martins (no fundo era outra coisa, etc) aposta que um ateu declarado, desde que fale por mais si, chegará antes e mais que o crente perto de Deus se, por exemplo, renunciar aos erros da Igreja. Seria, numa tradução livre e rápida, encarnar a santidade que é viver longe dos pecados da autointitulada esposa de um profeta rebelde que a nunca em verdade conheceu, não custa lembrar. Claro que dá-se o rebuliço dizer isso em qui, cujas raízes de uma socialização clerical submetida ao Vaticano pimparam ou dificultaram os frutos dos encontros desde as artes da malícia e da perversidade. Aí um tentáculo da turba em seus escritórios arranja-se à velha moda da caça ao Hamellin e chora-se e nascem medalhas que fundam fundações que imprimem este atenorado grito de resgate à complexa e delicada meada de uma obra e de uma vida compatriotas, mas também de um fluido legado internacional de mais ou menos eloquentes leituras compartilhadas.

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Estruturalmente, olhamos para um arco cuja tese é vetor que paira nítido, enquanto atravessa, sobre catorze capítulos eles em si pílulas ensaísticas capazes de submergir rapidamente, em poucas páginas, funduras dentro vários elementos de preocupação do filósofo ficcionista. Se lembrar das famosas suítes de Frankfurt, centradas e abrangentes a um só tempo, tabuleiros de redes de parágrafos vincados e torcidos, o leitor terá somente a si a creditar. Um dos elementos a preocupar o filósofo ficcionista, por exemplo, é o sexo. Diz no capítulo dedicado ao sexo Martins que

“Recusar a morte e optar pela vida e pelo mundo humano também significa para o Jesus lawrenciano fruir finalmente os prazeres que o corpo tem para oferecer, e que o narrador enuncia deste modo:

‘Ressuscitados de entre os mortos, acabava de compreender que também havia no corpo a maior vida, para além da pequena vida. Era virgem para evitar a pequena vida, a vida cúpida do corpo. Mas ficava agora a saber que a virgindade é uma forma de cupidez, e quando o corpo volta a levantar-se, fá-lo para dar e obter, para obter e dar sem cupidez. Compreendia que tinha ressurgido para a mulher ou as mulheres que conhecem a maior vida do corpo, sem cupidez na dádiva, sem cupidez na obtenção, com as quais o seu corpo podia misturar-se.’

‘Era virgem para evitar a vida pequena, a vida cúpida do corpo’, diz-nos D. H. Lawrence. E virgem terá de ser Caim, filho de Adão e Eva, antes de partir para as intermitências temporais de errância terrena por que o romancista português o levará até aos prazeres do corpo de Lilith. Mas tal só acontecerá depois de Caim ter experimentado a surpresa da ereção, a significância do ímpeto lascivo e o fulgor do seu olhar masculino perante o seu próprio esperma nos rostos e nas bocas de algumas escravas que para isso aí foram colocadas pelo narrador saramaguiano numa espécie de espermodrama intempestivo:

‘Conduzidos por elas a um quarto separado, caim foi despido e logo lavado dos pés à cabeça com água tépida. O contacto insistente e minucioso das mãos das mulheres provocou-lhe uma ereção que não pôde reprimir, supondo que tal proeza seria possível. Elas riram e, em resposta, redobraram de atenção para com o órgão ereto, a que, entre novas risadas, chamavam flauta muda, o qual de repente havia saltado nas suas mãos com a elasticidade de uma cobra. O resultado, vistas as circunstâncias, era mais do que previsível, o homem ejaculou de repente, em jorros sucessivos que, ajoelhadas como estavam, as escravas receberam na cara e na boca. […] As escravas pareciam não ter pressa, concentradas agora em extrair as últimas gotas do pénis de caim que levavam à boca na ponta de um dedo, uma após a outra, com delícia.’

Jesus e Caim unidos pelos meandros da conversação artística entre dois escritores maiores. Jesus e Caim geminados pela sexualização da experiência do mundo oferecida a ambos como derradeira opção existencial.” Martins exalta o enfrentamento de tão poluta via do comportamento por Lawrence e Saramago, neste capítulo, por crer merecerem suas “atitudes criativas” nossa atenção, uma vez firmarem-se prenhes da coragem de “não querer separar a sexualidade do sagrado nem, ao mesmo tempo, do fundo mitológico de uma religião que dele parece estar cada vez mais carente.”

Assim faz Martins, observação equipada de muitas lentes, categorizador a lançar mão de um selecionado, contido ferramental idealógico disponível na biblioteca mundial contemporânea para enfim reafirmar, no que cedia à impressão centrípeta de aprofundamento, a fuga em mola firme ao rabo do vetor do arco original para dizer algo como

“É nesta teia de sexo e morte que o efeito espiritual do romance volta a confirmar-se. Através de Caim, o rancor contra Deus atinge aqui um paroxismo impressionante. Mas Caim é uma espécie de justiceiro que contraria a cegueira da procriação a qualquer preço, designadamente o preço da indiferença moral que é exigida por Deus. Contra ela Caim (e a humanidade com ele) ergue a plenitude erótica, o mistério, a experiência profunda da sexualidade, a vida e a morte, elevando moralmente todas elas a alturas dignas da verdade. Isso é feito através de ações insensatas, é certo, e de um modo brutal, violento, selvagem mesmo. Mas o Caim da ficção saramaguiana, lembremo-lo, é humano, demasiado humano.”

A “potencialidade subversiva” de um autor que “não tem medo de falar com Deus” será função da “diferença solitária” do escritor Saramago e atrairá mais e mais este público afeito às sensações associadas “ao inesperado, ao não familiar, ao estranho, ao indecidível, ao mitológico e, é claro, também ao espiritual”, confia Martins, apenas porque o romancista fincou bandeira nas próprias condições de condução de uma voz crítica e fez a contento seu trabalho de “impugnar aquela cisão entre ética, moral, política e literatura” onde os Modernos por destemperança e aflição especialista situaram-se. Viveremos, porém e agora, o que fizermos do momento da espiritualidade, qual seja, viveremos os modos de fazer de que são capazes os libertos modos de existir, ou não viveremos.