Este problema, em sua aurora esboçativa, nasceu enquanto caminhava numa noitinha. Sentado na primeira mureta que vi, rabisquei seus prenúncios: tanto Conceito quanto Percepção, aqui concepto e percepto, são tríades cognitivas que interpolam um sujeito mais ou menos conhecedor e um objeto mais ou menos conhecido. Entre os dois pólos, no entanto, diferem radicalmente as terceiras presenças. Para o concepto, há, entre sujeito e objeto, uma interface. Para o percepto, um intercâmbio. Fechada a caderneta, zanzei por uns barzinhos, virei dois conhaques, tomei uma tônica e voltei. Desenvolvi um bocado a ideia no quadro, fotografei, e segui com minha vida. Hoje volto porque há um problema novo no quadro, e seu eu deixasse passar muito tempo, as coisas embolariam. Notar: havia resíduos de notas passadas. Na empolgação da epifania, não apaguei tudo. O que não estiver explicitamente relacionado ao problema, peço não levar em conta.

No quadro, sobreveio a ênfase do viés não cru, mas político, do problema. Ora, se o concepto, esta habilidade que carece de acesso referencial a uma interface (corpo exógeno construído, mais ou menos dinâmico, perecível, atualizável) foi inflado nos últimos, digamos, 300 anos, assim ocorreu em contraponto a certa deflação do percepto, para não dizer a certa estigmatização. Donde ‘conhecer’ por meio de intercâmbio (dois corpos em troca sensorial ativa, sendo a terceira presença não um corpo exógeno, mas um julgo harmônico) ter sofrido paulatina dilapidação ante a cognição em interface. A pergunta que segue é dupla: há perda agregada com o desequilíbrio de valor entre concepto e percepto? (lembrando que mesmo um concepto ligeiríssimo quase imediato não deixa de ser um concepto); se sim, que fazer para reequilibrá-los?

De modo a aprofundar-me, mas num tatear neblinoso, recontei as sagas díspares de concepto e percepto lançando mão dos modos de existência latourianos, por um lado, e matematizei, sofregamente, a Área Eventual da Presença, medida de influência e disponibilidade navegacional do sujeito cognoscitivo, fórmula em que pesam os quoeficientes derivados de concepto e percepto, do outro. Nenhum destes dois exercícios de desdobramento me levaram muito longe, ainda, mas pude suspeitar: quando ORG valeu-se de REL e de REF, não seria estranho (para ela) valer-se de FIC, e FIC seria o modo onde preponderasse o percepto; e, fará sentido convocar o décimo-sexto modo (conforme sugiro em meu longo ensaio, ainda inédito), MEM, para determinar o quoeficiente de intercâmbio, ou sua humorada potência perceptora, do sujeito cognoscitivo?

[em relação aos modos latourianos, ver]
––

lendo a crítica: euclidiana

Walnice Nogueira Galvão

(Companhia das Letras, 2009)

São três as qualidades mais notórias deste estudo. Íamos dizer deste apaixonado estudo, mas ocorreu-nos escapar ao pleonasmo. É que na entranha etimológico de ‘studium’ já fermenta, imemorial, imprescindível ‘passio’ — ou não se estudaria nada. A elas: o saboroso apanhado biográfico de Euclides da Cunha; um corte crítico original de Os Sertões; o cuidado rigoroso, de mãe ‘scholar’, ante a matéria textual, algo que inspira e faz crescer.

Em Euclidiana, graças ao empenho da pesquisadora no garimpo e na organização da epistolografia de Euclides, o leitor trava contato com faces e temperamentos variados do engenheiro escritor, além de aprender sobre o que o motivava e frustrava. Os traços biográficos espalham-se no livro e compõem-se, além das cartas, por itens curiosos como seu currículo na escola de engenharia, trechos dos autos do processo do seu assassinato, e alguns poemas da pena ainda adolescente do escritor:

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das asp’ras cachoeiras que irrompem do sertão…
E a minh’alma, cansada ao peso atroz das mágoas,
Silente adormecer no colo da soi’dão…

Rebelde errante e ativista republicano, Euclides foi expulso da Escola Militar em 1888 após tentar (e não conseguir) quebrar seu sabre em desacato a um superior; morou em diversas cidades do interior, a trabalho ou ansiando aventuras, mas sempre animado pelo resoluto desejo de conhecer o Brasil por dentro. Quando saiu Os Sertões, em 1902, Euclides teria ficado “exasperado pelo excesso de erros tipográficos” e corrigido a ponta de canivete e nanquim cada um dos mil exemplares da primeira edição.

Quando expõe sobre o gênero de Os Sertões, a professora sugere um hibridismo. É um épico “na medida em que se realiza como uma narrativa em prosa” e um drama, dado “o ‘pathos’ do livro em registro apreciável e em vários níveis de elaboração de conflito.” Ou,

Temos aí um épico que também é trágico, um livro cientificista que se realiza como obra de arte literária, um esquema determinista que mimetiza a Bíblia, um Apocalipse com Gênesis porém sem redenção, uma demanda em que o herói é o autor, um diálogo escrito pelo simposiarca de convivas ausentes, um canto de bode entoado pelo verdugo.

Foi Walnice quem ergueu, em nove anos de trabalho, a edição crítica de Os Sertões, publicada em 1985 pela Brasiliense. Para tanto, cotejou escrupulosamente diversos exemplares das sucessivas edições emendadas por Euclides. Vestígios deste trabalho hercúleo formam a parte final de Euclidiana, “menos interessante que minuciosa”. Há todo um subcapítulo dedicado, por exemplo, à troca da ênclise pela próclise; outra seção trata da eliminação “em mais de meia centena de suas ocorrências” do pronome relativo ‘cujo’; mais à frente, o oblíquo, “mais de centena e meia de ‘lhe’ são eliminados”; e a fim de reduzir “poderosamente o eco”, Euclides sai cortando o sufixo -ADO: faz ‘canhestro’ de ‘achamboado’, ‘aspérrimo’ de ‘esbraseado’, ‘Apesar das’ de ‘malgrado’, ‘esmoído’ de ‘triturado’, ‘agitante’ de ‘agitada’, ‘a prumo’ de ‘aprumada’, ‘caboclo’ de ‘acaboclado’ etc. Essa parte final parece mesmo menos interessante que minuciosa, e sua leitura por vezes prova-se uma luta. Mas o que fica, especialmente a quem é familiar ao termo ‘nerd’, é o elã insinuante de um trabalho detalhista e implacável.

Alto na lista de dez livros para ler antes de morrer de qualquer brasileiro, Os Sertões gerou e gera vasta, inumerável prole, criadora, crítica, comentadora, referencial, etnográfica, jornalística, plástica, musical, alusiva. Em Euclidiana, apenas mais um desses rebentos, saiba-se que estamos em ótimas mãos.

lendo a crítica: humildade, paixão e morte

Davi Arrigucci Jr.

(Companhia das Letras, 1990)

Humildade, Paixão e Morte tem três partes dedicadas a cada um dos três termos do título, mas a obra não evolui em fases, degraus ou etapas, e sim de modo fluido-espiralado. O dito no início será dito no meio e dito no fim, certo que a partir de vistas e situações sempre novas, mas sem a menor cerimônia de reaparecer. O fôlego atlético dos ensaios, maratonas intertextuais de articulação ligamentosa e cacoetes de infinitude (o sinal de reticências no desfecho do livro sugere um autor a escrevê-lo até hoje, décadas depois da primeira edição), daria, em mãos menos hábeis, num trabalho trevoso de longo e copiosamente redundante. O que ocorre em Humildade, Paixão e Morte, no entanto, é o exato contrário disso.

O livro de Arrigucci, esforço de dezessete anos de pesquisa para a livre-docência, parece um touro virtual, tridimensional e dinâmico cujos liames fatal e humildemente apaixonados pela obra do arquiteto frustrado e rasgador do modernismo em nossa poesia conjuram no crítico o reflexo ou a imitação ou o duplo inspirado do bandeirante estrelado objeto de análise e, em si, reprodutor arguto de touros incontroláveis. O que dissemos portanto de Gilda Mello e Souza em seu livro sobre Macunaíma, vale aqui.

A aula de Arrigucci é sobre a “lição de vida e de poesia” de Bandeira. Com efeito, por ocasião da abertura da Flip 2009, o professor arriscou dizer: um país que nos deu Manuel Bandeira, o homem e o poeta, não terá como dar errado.

Parte o professor de alertar-nos à necessidade constante de reinvenção para superarmos este mar de incertezas que pode ser a vida. “Seguro apenas da própria incerteza e de uma entrega apaixonada à busca”, o artífice criador que habita todos nós precisa, baixo seu próprio esforço, passar “de uma indeterminação máxima à extrema determinação”, ou, do caos da existência à forma pensada e conscientemente trabalhada do produto; no caso de Bandeira, da vida limitadamente livre ao verso esmerado.

Nesta lenta e obstinada operação de abrir-se à vida sem temor, recriá-la desde sã autonomia e a ela retorná-la novos e quem sabe desejados artefatos do gênio humano, narrativa basilar que a todos nos funda, “a difusa matéria do vivido penetra de algum modo na interioridade lírica do poema” ou do produto que for, ao mesmo tempo em que o fazedor ou produtor desentranha, depois de muito viver e aprender, “a matéria preciosa metida na ganga impura do mundo.” No processo, o homem se dá conta de que, sem trabalho, ele é

incapaz de discernir o sentido de uma vida originalmente marcada pelo sentimento de queda e inevitavelmente condenada à morte (…) estigmatizada pelo senso teológico do pecado original e minada pela melancolia, que só reconhece ruínas no palco de uma história gravada com os sinais da transitoriedade na face petrificada da natureza.

Se só a partir do esforço mais sincero, desinteressado e transparente do homem-poeta, ou do fazedor produtor, ele vê um horizonte contrário ao grande hotel abismo da finitude melancólica, resta aproveitarmos a leitura da vida e da obra de Bandeira, e sua ”luta diuturna e vã com as palavras”, como quem aproveitasse os pontos ensinados de uma simples prece secular, e nada vã porque exemplarmente inspiradora, de um longo, pacificamente aterrado e assim sereno aprendizado para a morte.

Os nove poemas de Manuel Bandeira lidos por Arrigucci são pretexto para que o autor repise:

1) a ponte levantada por Bandeira entre toda a lírica ocidental e o Modernismo brasileiro, com seu “verso livre rápido, elástico e certeiro” em que o simples não se confunde com o banal;

2) o “estilo humilde” ou natural de Bandeira, herança da tradição cristã que habilita o escritor a ocultar o sublime nas coisas chãs, “marca de fábrica do poeta e seu maior enigma”;

3) um mínimo de contexto literário da época de cada peça junto a pinceladas biográficas do poeta, da meninice pernambucana ao sanatório europeu, à boemia da Lapa carioca;

4) o artesanato minucioso e musical, rítmico e melódico, da complexa versificação de Bandeira (e aqui a arguição de Arrigucci atinge níveis subatômicos de especificidade sintática, semântica e morfológica, decerto cogitando os versos muito mais que o próprio Bandeira);

5) a “busca apaixonada” de Manuel Bandeira pelo “alvo errante” da poesia ao longo de uma vida inteira, valendo-se para tanto de repetidas alusões ao livro ‘Itinerário de Pasárgada’, “longa e lenta viagem em que o vivido, transmudado em poesia, se revela à luz da consciência que lhe deu forma”;

6) a iniludível vizinhança com a morte, que dá as caras via tuberculose ainda na adolescência para fantasmar-se em rediviva comunhão no cogito criador e exigir do poeta, sem mentir-se com promessas de além-túmulo, encará-la com coragem, pois aquilo que “o tempo impõe inexoravelmente mesmo ao que parecia inacabável como o mundo da infância” são as duras belezas de um arco de vida por nós desenhado e retesado para, um dia, conforme afirme-se em justo legado, concluir-se.

A crise por que passa a literatura, quando certas formas consagradas não convencem ou não interessam tanto, e novas, híbridas, reimaginadas e resgatadas formas vêm rompendo brechas insuspeitas de atenção, exigirá um chacoalhão na identificação, justificação e valoração daquilo que é atual e literário. Mas onde mirar, por referenciação e nortes, quando um trabalho outrora confinado (a crítica literária) liberta-se como ferramenta e atividade da ampla comunidade humana? Decerto em trabalhos de sincero artesanato, refinada atenção, e valiosa matéria. Humildade, Paixão e Morte é um desses trabalhos.

lendo a crítica: clarice lispector – uma poética do olhar

Regina Pontieri

(Ateliê Editorial, 2010)

Parecem dois os textos-chave para a boa leitura deste estudo, concentrado no menos querido talvez porque muito mal lido romance de Clarice, A Cidade Sitiada (se é lamentavelmente natural na democracia imatura povo e Estado sentirem-se apartados e desconfiados entre si a ponto de perpetuar-se como praxe a estupidez, a força bruta que faria ruborizar o menos político dos mamutes, a cultura noviça será também faltosa, em regra, na atribuição de mérito a seus produtos; ora por infantilismo xenófobo, ora por simples insuficiência referencial, ambos traços próprios dos zeladores de opinião de alas boas e parcas bagagens. Lembremos quão recente e desastrosa foi a recepção crítica do poema da pedra de Drummond, e do árduo trabalho acadêmico que se seguiu, necessário para desmontar preceitos obsoletos e práticas apequenadas de chancelaria), a saber, O Visível e o Invisível, de Merleau-Ponty, e A Destruição da Subjetividade na Filosofia Contemporânea, de Marilena Chauí, aos quais este resenhista adiciona um terceiro, Experiência do Pensamento, em que não por acaso Chauí lê Ponty e de onde tiro a ideia de “carne do pensamento”, bastante atinente com a tese de Regina Pontieri na medida em que procuram ambas afirmar certa superação do dualismo sujeito-objeto – o homem só será vidente quando for também visível – ao mesmo tempo em que instalam-se na tensão permanente e ambígua da existência anárquica cuja única porta de saída parece ser o rompimento criador da sufocante placenta do silêncio instituído (quem não falar será sempre “outro”). Fuga não a partir de um esforço exclusivo de individuação, pois isto seria deixar a outridade sem de fato achegar-se ao mundo, mas antes a partir de um esforço inclusivo, compartilhado, de universalização, quando o Eu faz-se indiferente ao que, a priori, o apartaria do “outro”. Ao encarnar seu pensamento em obra, o homem-criador olha para o mundo e nele se vê, ao mesmo tempo em que põe-se à vista. Assim, vence os muros quem sabe inexistentes de um mundo sitiado. Tal decantação filosófica existiria, segundo Regina, em estado de agito no romance de Clarice. Sua análise sustenta, desdobra e interliga três proposições principais sobre A Cidade Sitiada: 1) A Cidade Sitiada é “tempo espacializado”; 2) A Cidade Sitiada é “pintura e espelho”; 3) A Cidade Sitiada é “proliferação de enigmas”.

Em que pese a conhecida divisão da crítica estabelecida no trato do passar do tempo em Clarice, evocando a durée bergsoniana típica do fluxo de consciência de um lado, e o pontilhismo dos instantes fragmentários justapostos do outro, Regina de certa forma atualiza a discussão, examinando os dois lados para então superá-los noutros termos.

Menos interessada em definir se a passagem do tempo é contínua ou descontínua (ou se nossa percepção é a ilusão de um intrincado imbricamento das duas modalidades), a autora defende que, ao menos no universo ficcional de A Cidade Sitiada, o tempo acaba por perder a soberania na condução da leitura para submeter-se ao imperativo do visível: antes de fazer cair a noite e correr o dia, o tempo em Clarice constrói o espaço.

Tal operação só é possível quando pareada ao movimento duplo e paradoxal de “compartimentação e integração” que atravessa a obra. Os 12 capítulos, ou seus parágrafos, “cada qual monadicamente fechado sobre si, mas ao mesmo tempo reverberando nos outros” nos dão a impressão de não haver na obra qualquer vestígio de cronologia. A aparente autonomia das partes no todo seria produto da “fragilidade do fio narrativo” intencionada por Clarice. O que soa mais importante não é uma sequência de eventos encadeados, mas sim esta e aquela coisa, este e aquele lugar, conforme olhados e vividos pelos personagens e pela narradora.

Ainda em “proposital detrimento” à narração, Regina aponta a “forte tendência ao pictórico que realça a descrição”. Não que Clarice não conte uma história n’A Cidade Sitiada; mas ela o faz menos a partir do acontecido, e mais em cumplicidade com o olhado. Muitas vezes a personagem está simplesmente em casa contemplando os móveis ou passeando nas calçadas sem rumo. Rarefeito em eventos, o enredo literário será entretanto pródigo em poéticas e insuspeitas materializações. O que ocorre, no lugar de um desdobrar diacrônico tradicional, é o que Regina chama de cronometria, noção vinculada “a um tempo exterior, físico e cósmico, não individual nem social”, com figuras “enclausuradas num puro presente”, presente este percebido apenas quando se adere à “exterioridade das coisas visíveis”, ou, “tempo espacializado da cidade em estado de sítio.”

A “aventura feminina pelo espaço urbano” no romance é despertada por um “desejo sempre renovado de narradora e personagens que é exatamente: ver. Das mais diversas maneiras.” Do alto, de baixo, de lado, de frente, movendo-se, parada ou através (de outrem?); a esses tantos olhares

pessoas e coisas se oferecem, exteriorizadas, como pura visibilidade.

Tantas visões dão ao leitor “uma realidade cuja essência é a aparência”, e aproximam a ficção lispectoriana da arte da pintura. Uma pintura carregada de estranho e grotesco, porque contra o banal de um mundo em que os rótulos nos chegam pré-fabricados e a familiaridade não exige esforço nem coragem. Sutilmente, a personagem Lucrécia “se mira no que vê”, buscando quem sabe superar o temor do não reconhecimento. Tal procedimento, que pressupõe esforço renovado e coragem incansável, engajado em repetição indistinta com seres animados e ‘inanimados’, faz da alteridade a superfície de um confuso mas vencível espelho, deformador mas enfrentável plano reflexo. Segue, talvez como num lucro terapêutico, um gradual e reconfortante “apagamento da dicotomia entre sujeito e objeto de visão.” O estranho e o grotesco funcionam, ao contrário do que se poderia supor, não como fontes de repulsa a uma “individualidade fechada a um mundo sentido como hostil”, mas como propulsores de múltiplos reconhecimentos, mesmo que às vezes difíceis, até que a individualidade outrora lamentavelmente vulnerável,

abrindo-se em travessia agônica em direção ao mundo, transmuta-se em mundo ela também, momentaneamente anulando-se enquanto indivíduo.

Se o tempo vai para o espaço e a narração cede à descrição para virar pintura e espelho, a prosa corpóreo-poético-pelágica de A Cidade Sitiada se arrima quando o leitor depara com a “proliferação de enigmas” do “tecido lacunar” do livro, texto que “convida e mesmo só permite leituras que assumam o risco da invenção de um sentido.”

Trata-se da tão assuntada alegoria, figura retórica presente em Clarice como um ar que se respira. Senão, Clarice diz, certa altura:

sem pássaros, sem flores, seus chapéus pareciam feitos de chapéus.

Regina completa: ora, o chapéu é emblema de “um corpo de algum modo sitiado enquanto vivência sexual. E que na ilha dos cabelos desfeitos vai se entregar ao jogo.” Com significados sempre deslocados pela operação alegórica, cabe ao leitor tocar o texto como puder e tentar decifrá-lo. Clarice diz,
(enigmática?):

Enquanto sonhara, já se passara muito tempo sobre o rosto… Os lábios de pedra haviam-se crestado e a estátua jazia nas trevas do jardim.

E Regina nos convida a decifrar: jardim remete “aos tantos jardins que na ficção clariciana funcionam como espaço de anulação da lógica do cotidiano”, e cada jardim “faz aflorar a experiência onírica, o grande emblema do lado avesso em que se espelha e revê invertida a lógica diurna.” O lance de “dizer o outro”, e não o mesmo, algo que Regina chama de “promiscuidade sêmica”, confere um jogo permanente às significações, que ligam as palavras em “liames frouxos”, e nunca fixos. Tanto faz “circular o sentido” e manifesta,

no plano da escritura, aquele desejo de construir a relação de alteridade pautada pela reversibilidade,

quando se apagam “as diferenças excludentes” e “a exteriorização de coisas e pessoas se reverte em vínculo de intimidade e intersubjetividade.”

Regina realiza, além da análise literária de arejado pendor filosófico, bem-vinda apreciação da fortuna crítica d’A Cidade Sitiada, de Sérgio Milliet a Nádia Gotlib, citando Candido, Gilda, Benedito Nunes, José Américo Pessanha, Claire Varin, e outros. Numa sorte de capítulo bônus, ao final, a autora debruça no conto O Ovo e a Galinha (apresentado por Clarice no Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, em 1976), do qual não trataremos para poupar o leitor de apetitosos spoilers. Mas adiante-se que brota, ali, em agradável e elucidativa surpresa, o nome de Ludwig Wittgenstein. É comum ouvirmos que Clarice viajou dali pra cá, de cá pra lá, e que falava com desagradável sotaque. É comum vermos circular suas fotos, olhar agateado e elegância certeira. Bem menos comuns são no entanto as provocantes e acessíveis leituras de sua obra. Este livro é uma delas.

lendo a crítica: o tupi e o alaúde

Gilda de Mello e Souza

(Editora 34, 2003)

Este livro parece que transcria, nos limites de sua estirpe e competência, o caldo formal do livro que lê. Tal empresa, complexa e nem sempre possível ou conveniente, pois pede ao crítico deslindar e sustentar seu recorte em toada especular, faz-se tanto mais aguerrida quando a obra analisada provém de libérrima criação. No entanto, O tupi e o alaúde alcança, num desenho próprio e atinente às convenções da crítica, as vibrações originárias de Macunaíma. Tal e qual um filho que, seguindo carreira diversa do pai, fez questão de preservar seus modos de ser e visões mais profundas.

O estudo de Gilda oferta tráfego argumentativo em errância desbravadora e tem volteios, lembretes, digressões, rotas heteróclitas e partes díspares, mantendo duro, cristalino e convincente seu fundo, como fez Mário de Andrade em sua prosa original. A autora desenvolve três grandes movimentos: Macunaíma e o musicólogo Mário; Macunaíma e a tese de Haroldo; Macunaíma e a tradição literária.

1.
Num ato improvável mas feliz, Gilda usa os estudos de Mário sobre a música brasileira para estudar Macunaíma. Citando amiúde Danças dramáticas do Brasil, obra em que Mário descreve fandangos, cateretês, caboclinhos, cortejos, maracatus, cheganças e reisados, Gilda destaca os conceitos de suíte e variação, apontados por Mário tal modos comuns na estruturação de nossos ritmos. Para a autora, seriam a suíte e a variação as componentes estruturantes também de Macunaíma.

Na suíte, conforme a síntese de Gilda, o “compositor-bricoleur” vale-se do que tem à mão – a memória, o entorno, o acaso – e ajunta partes rapsódias num todo cujo sentido virá a posteriori. Na variação, fenômeno talvez datado em que há empréstimos bilaterais entre alta e baixa cultura, o criador popular assovia cantatas na cantiga e o acadêmico estetiza refrões da rua na sinfonia. Ora, se Mário dissolve “as frases populares no tecido elaborado de sua prosa” e mistura e liga anedotas tradicionais, biografia pessoal, registros etnográficos, crônicas coloniais, ready-mades e modismos da língua, associações de ideias e imagens, musicalidade verbal, processos retóricos em que “a canção de roda e o improviso do cantador nordestino” colaboram, seu ‘Macunaíma’, crê Gilda, será então uma suíte preenchida por variações. De tanto escarafunchar e tentar sistematizar os fenômenos musicais brasileiros, Mário teria sido, no intenso relaxo dos seis dias “de cigarros e cigarras” que levou para escrever Macunaíma, condicionado pela memória, e feito literatura guiada por seus estudos de música.

2.
A seguir, Gilda cuida de fazer reparos na Morfologia do Macunaíma, livro de Haroldo de Campos publicado seis anos antes, em 1973. Em miúdos bem miúdos, a tese de Haroldo diz que Macunaíma, à semelhança do conto russo de magia, é simples como uma fábula, coincidente em seu esquema com as lendas folclóricas em que “um grande movimento sintagmático” (Macunaíma X Piaimã) dá conta de narrar toda a história. Mas Gilda não vê assim. Macunaíma é trabalho literário de singular especificidade, e se nele há qualquer coisa como um “grande movimento sintagmático”, então são dois:

((Macunaíma X Piaimã) + (Macunaíma X Vei a Sol)),

e não um. Para refutar Morfologia…, ela se apoia num extenso rol de teóricos e rebate ponto por ponto as supostas fragilidades da pesquisa de Haroldo, “leitura unívoca” e redutora, diz, “que rejeitava os desvios da norma, para fazer a obra de arte caber à força no ‘modelo’ de que, fatalmente, teria de extravasar.” Haroldo teria simplificado por demais o “universo poderosamente ambivalente” de Macunaíma, livro nada simples porque “feito de muitas dúvidas e poucas certezas.” A autora argumenta graciosamente apoiada nos dois lemas que “atravessam o livro de ponta a ponta”:

“Ai! que preguiça!…”

e

“Muita saúva e pouca saúde os males do Brasil são.”

“Ora”, diz Gilda, “não é difícil verificar que as duas frases expressam conteúdos opostos”, sendo a primeira simétrica ao primeiro sintagma (Macunaíma-Brasil deve sair da rede para derrotar Piaimã-Europa ou vai acabar sem o tesouro-muiraquitã), e a segunda espelhada ao segundo sintagma (para ter a vida que quer, Macunaíma-Homem terá de trair Vei-a-Sol-Natureza, mas sua vingança será maligna). Além de dois sintagmas, e não um, como queria Haroldo, Gilda os mostra antagônicos e insolúveis, pelo amor de manter tensionado o encontro do Brasil com seu aporte europeu, restando o país, ao menos nos anos 1920, “dilacerado entre duas fidelidades”, fato que atormentava ou inspirava a reflexão do escritor.

3.
Gilda retorna então ao século XII para filiar Macunaíma à tradição literária do romance arturiano. Na Demanda do Graal, arquétipo narrativo identificado nas obras de Geoffrey de Monmouth, Chrétien de Troyes e Robert de Boron, o herói enfrenta provações em série e descasca a grande aventura com nobreza, coragem e desprendimento. Mas, lembra Gilda, como avançássemos Idade Média fora e Renascimento dentro, o formato foi assimilando traços da cultura cotidiana graças aos efeitos da popularização da leitura, sendo “totalmente deformado em seu espírito que o mito do Graal se instala na obra de Rebelais e, menos de um século mais tarde, no Dom Quixote de Cervantes.”

É a carnavalização fantasiada de literatura séria para renová-la, gênero novo iluminando a “semelhança dos contrários e alimentando-se de mistura e ambiguidade”. A temática heráldica e religiosa do medo e do sofrimento dá espaço à liberação do corpo e ao alívio cômico. Eis a linhagem de Macunaíma, romance arturiano carnavalizado, cavalaria amansada no riso e nos prazeres mundanos, a vida alegremente avessa “a tudo o que é acabado, imutável, eterno.”

O tupi e o alaúde é livro íntimo, colorido e façanhudo que indica caminhos não só à crítica em geral, ao conciliar rebolado sedutor e rodapé sisudo, mas às leituras vindouras do “discurso selvagem” de Macunaíma, obra forte e longeva, mesmo se

ambivalente e indeterminada, sendo antes o campo aberto e nevoento de um debate, que o marco definitivo de uma certeza.

A leitura da breve mas densa análise de Gilda deixa quase todas as 85 páginas grifadas.

lendo a crítica: ficção e confissão

Antonio Candido

(Ouro sobre Azul, 2012)

Ficção e Confissão é um desses sucessos típicos da empresa editorial indisposta a negociar sua fé no necessário. Reunião de quatro ensaios sobre a produção de Graciliano Ramos, complementares, aqui e ali imbricados, mas todos eles vítimas felizes da intuição, originalidade e destreza do mestre Candido, o volume se aproveita da enxuta produção do analisado e destrincha com nitidez a técnica e a visão de mundo do universalíssimo autor alagoano, em menos de um dedo de lombada.

De saída, Candido sugere ao leitor “aparelhar-se do espírito de jornada, dispondo-se a uma experiência que se desdobra em etapas”. Isto porque Graciliano, em sua jornada de escritor, vai da ficção mais enredada à autobiografia plena em apenas sete livros, sempre experimentando e nunca se repetindo: “para ele, uma experiência literária efetuada era uma experiência humana superada.”

Se os livros são entretanto diversos, Candido pede que atentemos para a “unidade na diversidade”, pois a obra traz a “clara geometria do estilo” e as “correntes profundas do desespero” que a tornam coesa. Com efeito, a panorâmica de Candido sobre a entrega de Graciliano nos faz enxergar, claro e irreversível, qualquer coisa como um épico poema de sete fases.

Caixa de areia estilística onde o autor faz “exercício de técnica literária”, o romance Caetés seria a primeira fase. Livro “apurado no estilo, sumário na psicologia”, donde insuficiente. Mas já brotam ali, mostra o crítico, o “desencanto seco” e o “humor algo cortante” do romancista “profundo e doloroso” das obras posteriores. Destaque para nota de Candido para a capa da primeira edição, desenhada e composta pelo artista e poeta alagoano Tomás Santa Rosa. O desenho “lê” o romance com precisão, pois sugere “não apenas o enredo, mas as ambiguidades do texto, vinculadas à ironia criadora de Graciliano Ramos”.

Na segunda fase, a obra-prima de Graciliano aos olhos de Candido, São Bernardo. Livro “curto, direto e bruto”. O crítico esquadrinha São Bernardo com gosto e vigor. Resume a vida de Paulo Honório numa análise sumária e rica que ultrapassa a radiografia da composição ou o discernimento dos “mecanismos da criação” para atingir seguro e arrojado os picos da especulação psicológica e da proposição filosófica. Sobre a desgraçada inclinação do protagonista ao jogo do capitalismo, por exemplo, Candido diz,

o sentimento de propriedade, mais do que simples instinto de posse, é uma disposição total do espírito, uma atitude geral diante das coisas. Por isso engloba todo o seu modo de ser, colorindo as próprias relações afetivas. Colorindo e deformando.

Angústia, na terceira fase, é livro “fuliginoso e opaco” em que o “leitor chega a respirar mal.” Como num truque de mágica, Candido tira da manga o poema ‘A mão suja‘, de Drummond, citando-o no meio da resenha (desconfio que esse tipo de procedimento de licenciosa comparação era incomum na crítica estabelecida), e de repente todo o drama do personagem de Graciliano, em oito exíguos versos de Drummond, ganha luz e relevo. Angústia, segue Candido, é “nojo, inércia e desespero” (a inércia, por sinal, é “amarela e invicta”), características do personagem mas que “se estendem por todo o livro”, pois Luís da Silva “assimila o mundo ao seu mundo interior”. Candido aproveita para expor uma “explicação sexual” para a “consciência estrangulada” de Luís da Silva. Três símbolos fálicos são pinçados do enredo (cobra, corda e cano) e jeitosamente amarrados ao elemento água, associando a “virilidade espezinhada” da personagem a seu “desejo bloqueado de viver.” Se Angústia não é para Candido o melhor livro de Graciliano, é o mais complexo. E é aqui que ele aproxima o alagoano dos dois autores que virariam lugares-comuns em sua vindoura fortuna crítica, Kafka e Dostoiévski.

Haveria uma quarta fase no volume de contos Insônia, desprezada por Candido. “Medíocres”, as narrativas breves não conseguiriam “afundar-se sinceramente numa situação limitada”. O próprio Graciliano, na dedicatória que faz a Candido num volume de Insônia, diz que os contos saíram “chinfrins”.

Quinta fase, Vidas Secas. Aqui a crítica de Candido chama a atenção por dois aspectos. É a que mais cita outros críticos (vale-se largamente de observações de Lúcia Miguel Pereira, Almir de Andrade e Otto Maria Carpeaux) e é também a mais poeticamente fresca e desimpedida, talvez espelhando um certo despudor, inorgânico e corajoso, na composição do próprio Vidas Secas. As imagens de Candido variam soltas e miram longe. Graciliano “esbateu-se no ramerrão das misérias diárias e o fez irremediavelmente doloroso”. O livro é feito de “polípticos medievais”, de “pequenas telas encaixilhadas”, é um “romance em rosácea” (imagem que empresta a Benjamim Crémieux). A história “não pressupõe refolhos, não devora”, e a

alma dos personagens, perquirida com amor e sugerida com desatavio, é apenas a câmara lenta do mesmo brilho que lhes vai nos olhos.

Num didatismo incansável, Candido resume novamente os três romances anteriores para deixar mais claras as escolhas do autor em sua jornada de maturação. Aponta a gradual supressão dos diálogos, que em Vidas Secas se extinguem, bem como a brusca mudança de registro de primeira, nos três livros anteriores, para a terceira pessoa em Vidas Secas. Quando refaz o rol de sofrimentos de Fabiano, o analista mostra poder absurdo de síntese e, usemos a palavra, de tans- ou recriação. Em novo lance de comparação insuspeita, Candido convoca Euclides da Cunha, e emprega citações elucidativas d’Os Sertões acerca dos “vínculos brutais entre homem e natureza no Nordeste árido.”

O livro Infância é a sexta fase do progresso de Graciliano Ramos, na qual o autor começa a abandonar a ficção para se apoiar nas memórias “da tenra haste da meninice”, e exibir sua aprendizagem desencontrada e progressiva num mundo não raro injusto, tirano ou simplesmente incompreensível. Mundo em que “humilhação”, “machucamento” e “machucaduras” (palavras de Candido) dão a tônica. “A consequência natural”, resolve Candido, “é o refúgio no mundo interior e o interesse pelos aspectos inofensivos da vida. Inofensivos e, portanto, inúteis. Sonhar, ler, imaginar o mundo na escala das baratas.” Aqui aprendemos sobre o “sistema literário pessimista” de Graciliano. O crítico sintetiza a filosofia do romancista ainda outra vez, e outra vez aprendemos: nada, ao menos para o Graciliano de Candido, “tem sentido, porque no fundo de tudo há uma semente corruptora, que contamina os atos e os desvirtua em meras aparências.”

Mas Graciliano vai preso. Na sétima fase do autor, lemos um livro póstumo sobre seu tempo de detento. Memórias do Cárcere apresenta, já sem qualquer ponta de ficção, o relato da “franja de inferno” a que o alagoano militante comunista foi relegado. Aviltamento, parasitismo, dissolução da integridade moral, medo, desespero, envenenamento das relações, promiscuidade, tortura física e formas repulsivas de perversão são alguns dos termos de Candido em sua leitura da obra final de Graciliano. O crítico acha o livro “desigual”, apesar de guardar “traços fundamentais da sua arte narrativa”, e tenta como que extrair, da barbaridade punitiva por que passou Graciliano, uma espécie de resolução redentora ao homem e ao escritor. A “teia de capitulações e desajustes sem saída” que ele via por toda parte do lado de fora das grades ganha nova perspectiva com a experiência da prisão. “Aumenta a capacidade de compreender e perdoar”, aposta Candido, e o “sujo viveiro do cárcere propicia, na obra desse pessimista, lampejos de confiança na vida.”

Foram muitas as análises de Graciliano desde Ficção e Confissão. A de Candido, porém, além de acessível, minuciosa, compacta e bela, divide com os livros de que trata a vibrante qualidade de melhorar e melhorar-nos a cada releitura.

Remanesce grave e guarda o leito.
Não fosse a História não girava

a Terra eslava ao Sol estagnado;
tão filhos num carrossel prateado.

Desperta a tez álacre, concentra.
Não fosse o corpo meu, não nasciam

a fome benedicta do orvalho
nas pétalas cisternas sapientes.

Saber será corrê-las, afásicas,
para longe deste lago lato.

Correr visco nos buracos largos,
comentá-los e plastificá-los.

Anoitece acalentado, sobra.
Deixa escorre o cálice transborda.

Na noite avanço, Eu, acalanto.
Afronto nu: fantasmal vingança.

Entretece maleável na seiva,
não fossem leiras não: fossem luras.

––

Saísse era topar o prejuízo
fábricas de alcantiladas britas

Fumasse era sacar-se fortuna
cantos de galos interrompidos

Jogasse era musgo na modorra
espelhos somos centelhas d’alvas

Caísse era noivar as chinelas
amalgamados jós & zé-ruelas

Levantasse era radiar a prece
cobre na volta zelo e mutismo

Calasse era ouvir chegar a justa
palavra ponte dobra qual sina

Comesse como um tatear contínuo
de mãos em mãos a sagrar tecidos

Sentasse eram colunas em pedras
– é com as costas que se respira –

Dormisse era dar no cume alívio
peito arado, campear o cacique

––

como será, o calor das costas
e a prática daquela cintura
os banhos na pedra escorregada e a lonjura
aonde chegam os olhos
como será a dobra, a guarda e a fronte adornada
da noite calada e confusa
o caldo de moqueca dela, como será
o canto quarto daquele sorriso, e quando
molhados os cabelos, como será
o sorriso
as cartas pedindo volta, amigo
como está indo a fábrica
de sonhos do seu dia; como será
quando rouca mas suave aquela voz
a cantar ainda assim linhas da lírica
brasileira ouvindo lee&eller&duncan&salmaso, como será
dormir no quente
daquele regaço
– –

uma écfrase

De arada e leve estada em rito círculo
cresceram francos signos três canoas.
Prima canoa de dentro, barca imagem;
serva da canoa-corpo, barca Eu.

Ambas resguardadas soltas no rés
da prisca barca Nossa, sala Gaia,
terceira canoa Casa & elementos
– parto de frutas, de água e de sal.

Dos sulcos de torneios concertantes,
trocadas em vez esta e aquela voz,
finos brotos e atuais, ressuscitados,

subiram Norte atrás, afins de luz.
E o codex pretendido questionado
mais firmes simples férteis desdobraram.

uma carta de recusa

Caro Sr. Carvalho,

não sabemos se dizer se si nas quartas
feiras sins se será sim
se dias sim se se nas
quintas será sim se
se nas sextas se se sim se sins se sins se se nas sim
se se se dias se seguindo será dias
se se sim se se nas víamos marcado
sim se se se sim se se nas vias
se se sim se sim nas li
das redigidas
se sem mede
se sem sim e se se
sim e sim e sim e sesses viewers viewers viewers
(3 no total) magi
náis
se se mendins
e se se
sim e se se sim e sim nas
sensas se sem sim
se se se sim se sim se sim se nas sas sins e se se sim semissionárias
sesse sinsso sinconcinhos sinsansaras
sesses brins se brins sem brios e sem sim
sansei sim se sins se sins se nas garcinhas
sansansim se na sem sim se se avacaias

assinado, #power

sin

aos homens a que devo versos,
porei versos
em ordem de importância
ou, da maior
para a menor dívida observada
no escaninho atado às noites
e aos dias desta campanha

faço antes de seguir sanar a dúvida
: que sorte de fato gera
dívidas de versos
quem como quando por quê
concede ao poeta o raio da duplicata

em primeiro lugar, as namoradas
são elas as piores culpadas da dor
das primeiras dedadas
depois somem, desligam o celular e corrompem
nossas devoções por western, paintball e mata-mata

em segundo lugar a sociedade
a sociedade é um homem difícil
um homem cabeçudo no cio cujo cabresto
vai no rosto e na mão de cada sócio
: somos sócios desse homem, sociedade
e agora? temperá-lo? jantá-lo?
fruí-lo num fim de tarde ao som
dos pagodes tempestades?
Platão tentou, e Kant e Rousseau, e Tocqueville e Arendt
falharam todos, já nada arde
como o império da lei e do valor de face

em terceiro lugar, gaia
gaia é homem, mas antes é estranha
fornecedora de céus
inhames e nabos
placas de gelo botos e águias
Gaia não tem caráter
traiçoeira, só confia nos calados
nos cantos indistintos das mancas
dos rubros galos
a fúria desse homem é um
pálio atado feérico poroso lacustre dado
lídimos seus débitos, inúteis suas falhas

a seguir, portanto, daqui, até ao menos
o ano de 2087
quando há este poeta de assumir os cargos altos
furtando lirismos fáceis
um a um pegarei
homens a que devo penadas, recapitulando
namoradas, sociedade, gaia
não é nada pessoal mas dívida é dívida
brava é a régua no espelho
senta areia
e nada

– – –

vimos nas aulas passadas
que o universo é um tubo
vimos que não há tempo
apenas a sequência
de uma clara colisão
em tudo a imitar as contingências
do espaço que formou
das células da vida geracional às moléculas de toda a vida
naquilo que ainda inocentes chamamos ‘movimento’
(pois nunca houve, nem fantasticamente
o não movimento. nada será ‘A’
se ‘não A’ não é pensável)
imitamos em tudo as contingências do espaço
porque nele somos
e porque ele, em realidade, somos
assim há sôma, num desabrochar contínuo de tangentes
nas virtudes nos cabíveis desvarios das elipses
antes de dizer ‘no início’
seu cérebro é esta miríade elíptica, tangencial
não exatamente livre de verbo
mas num verbo inacessível
faria diferença dizer ‘ainda’ inacessível?
faz. ela mostra, mas não conta, de quem é filha
: ela é filha do universo
ela é filha do universo de quem nada não é
filha como o bruno martelada
filha como o newton das maçãs
filha como o einstein das minas
aquele da estação dizendo amor,
pega os trem que o coiso chegou

¢§¢

por uma visão nevrálgica da ética

.
este ponto não tem
a dimensão do horror
na face da jangada
não sabe da cachoeira
rasgada nas costas
pelo peso molhado da bronca
jangada nas costas
uma face de horror e horror numa face nova
alheia só no papel
de que vive na prática só
na face da favela
.
este ponto é a chave da bronca
que molha, no oblivion à cachoeira
a face da jangada, e traz horror
à face nova e à face de horror
estufa seu peso
quando da queda
.
.
será entretando necessário
sair dessa veneza amarga
estripar o fraco da força
descarar o ouro de tolo
falir o fonema aberto que fere de longe
geme-geme, arremedos de free-shopping
nem o fraco não trabalha e não tem costas
nem a jangada não surfa ou toma sol
– – –

“Não faça aos outros o que não gostaria que te fosse feito”
–– Kong Fuzi

Sua terceira pessoa é aquela que vive impressa no outro. Como ele ou ela podem referir-se à sua primeira todos os outros, menos você. Mesmo se tentar fazê-lo, tudo de que cuidará é ainda mais substância dar para que componham-no. Algo mesmo fora do controle. Mas será isto importante? A depender da fase em que se vive, pode ser mais ou menos. Um bebê não metafórico não só não se importa com sua terceira pessoa como talvez, num movimento que lembrasse o pescoço a cheio antes da barriguinha, figurasse naturalmente improvável. Mas o reino da metáfora acaba quando o tino do self estala, isto é, a cada minúscula fração de segundo. Sim a apreensão de tão nova ideia acerca da mecânica do ser empodera. Mas não faz ninguém um super-herói além das geringonças diplomadas. Eu me refiro às causalidades da matéria não numa zat qualquer mas no cosmo, donde não se escapa, as mesmas às quais colhemos os frutos referenciais de partilha, no vasto e denso pomar este nosso pensar. Que a energia será então a multiplicação da massa pela multiplicação ensimesmada da luz pode ser um desses frutos, se assim determinarem sua maturidade os que lá colhem. Pode a geringonça diplomada referir-se a um simples código de duas cores a 4 metros da cabeça de pedestres e condutores, promovidos pelos cobres e elétrons às lâmpadas bastidores dos acrílicos tingidos, e então, portando ou não um bebê, calcula-se, estando verde a luz, melhor atravessar, ou não, posto que o carro ali a vir não deixa claro a entender que observou a vermelha dele. Está rápido. Pronto, é um encadeamento de geringonças, então. Não bastava mudar o mundo como nenhum outro animal. Teríamos que explicar, justificar, forçar ou garantir as mudanças. Por quê?

A mais típica das geringonças diplomadas é o Direito. Por que é tão primorosa naquele léxico a ideia de processo? Ali, inclusive, fala-se em diploma porque os homens teriam esquecido não os pesos de papel em casa, mas os pesos que acaso pode ter, um papel. Seria necessário, assim, ganhar tempo, evitar as conversas sérias (o Direito entende fora dele apenas se vai ou não chover, se estava a costelinha boa e outras coisas assim), complexificar a processualidade pois que ser bom em realidade não basta. Para operar o Direito, que não só não dispõe propriamente de vísceras, miocárdios, um lugar, enfim, onde nem sutura se faz, há que ser conhecedor daquelas anatomias da desconfiança. Todos os códigos começam com “se fulaninho fizer tal coisa, isso, isso e isso deve acontecer porque nossa sociedade não aguentaria de outro jeito”. Assim começam todas as leis de todos os códigos de todo o Direito de todo o mundo. Se você não acha este quadro um problema, considere quanta gente, do 1 bilhão que não é miserável no planete de 7 bilhões, apenas vive para não se ferrar no Direito. Exatamente a vida averiguando e relacionando seus passos com o que, na larga maioria de orelhada, conheceu fulaninho dos códigos civil e criminal. Quem diz “pagar meus boletos” esconde a mais profunda formulação do receio de ser processado, despejado, ter o nome sujo, pagar multa, ser preso.

Fartos de palavras e ses, os códigos roubaram ao mundo um sem número de poetas. Não resta tempo e quiçá vontade de acercar a imaginação do assovio no escuro se tanto dispõem as leis de massa de manejo, barros a esculpir, dedos onde abrir as brechas sem precedentes e toneladas de cal com que dignificar rotas de fuga. A organização policial e militar é uma consequência do Direito, e não poderiam existir se o Direito não existisse. Mas é complicado demais parar para conversar sobre um mundo sem Direito, e, assim, torna-se difícil a um pixo como “fuck the police” distinguir-se de um pixo como “fuck eruction”, ou ainda de um pixo como “fuck flatulence”. Um poema surrealista, sim, mas que deixa de obter da gente do meio a legitimação política que se espera do pixo. Na yoga, o yogui permanece numa mesma posição inusual e um diria imprática para realizar as tarefas do dia a dia por bastantes respirações. Por isso se chama exercício. Nosso círculo de afazeres biomecânicos será alterado por um evento fora de seu perímetro. Pensar o mundo sem Direito é um exercício que estabelece vetores angustiantemente longínquos e difíceis de manter sem firmeza de encadeamentos e lucidez lógica, de concepção conceitual e configuração sociopolítica. É chato, alguns podem dizer, como pode parecer chato surfar a quem não surfa. Então é inútil, podem contestar, o que não explicaria o sucesso dos estúdios de Yoga.

A célebre definição de Andy Wharol, arte é tudo you get away with, merece algumas críticas. Pulemos a do campo biográfico, o que tal frase diz Sobre Ele, e prestemos atenção aos poderes de confusão estética e política. Não que não seja importante esmiuçar o artista, posto servirem as personagens para tanto, dar prazer a seus fruidores. Mas correm nas linhas editoriais deste blog menos os pintassilgos do passatempo que os jaguares da urgência antropocênica. Eu venho da faculdade de Negócios, onde no primeiro semestre cuidam de que entenda a fisicalidade ontológica do conceito de Caixa, e a seguir a luminosidade regrada da Eficácia. Se este 1 bilhão vive problemas mais complexos, tratá-los em contextos de crise é conhecer a tristeza do dinheiro mal aplicado. Pergunte a homens de sucesso como Silvio Santos ou Guilherme Leal se o relatório de gestão do MinC ou do MEC estão razoáveis, junto às fotos das escolas e às sinopses dos roteiros rejeitados. Eu adoraria falar mais do Andy Wharol, ou de como sua célebre definição do que é arte conjuga-se a certo delírio principesco além do bem e do mal, a sua vanguarda de ressentimento ironizado em glamour e excessos, mas considero, sinceramente, Don Quixote mais rico. Se tampouco vou falar de Don Quixote, esse afastamento de personagens pode querer dizer algo Sobre Mim. Que será?

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Se arte fosse tudo you get away with, então os loops do 11 de setembro teriam sumido das galerias quando da captura do Obama. Se não sumiram, é porque arte é outra coisa. Ou então, arte é exatamente isso, basta adotarmos as lentes do consequencialismo material. Arte é tudo you get away with (you). Mais provavelmente acertada é esta alternativa, diga-se, em se tratando de Wharol, o que trai a linha editorial bla bla. Arte é então a mudada que sofremos daquilo que fazemos. Para o público, tal expectativa é drástica. Quando vou fruir o loop do 11 de setembro, quem está A Fazer (a fruir) sou Eu. Donde a arte estar sempre se dando, e nunca dada. Daí, saio da galeria e bum, sofro aquela mudada. Segundo Wharol, a essência da arte é este breve momento, mas que pode assemelhar-se ao não tempo, de reflexão nos espelhos hologromáticos da consciência pós-fruição de um objeto. É o que consigo longe com, ao pé da letra, ou o que faço do que levo, em livre. Eu poderia dizer que são suas contingências e limitações as que botam mãos a obra para fazer essa arte, mas prefiro dizer que são seu repertório e agilidade referencial a substância dos espelhos. Então pronto, a célebre definição é eficaz. Antes de ir correndo contar à mamãe que você também é artista, todavia, aceite este pequeno exercício:

que dizem de você os objetos? que dizem a você os obetos? que tipo de terceira pessoa te faz a moldura de um retrato? que suspeitam de sua vida secreta as nadadoras da seleção búlgara? como te veriam eastwood, mafalda, este meu lustre? Antes de não necessariamente responder, mas afundar nas perguntas, cogite por um instante o conceito Vida (desminta o senso biologicamente comum e tente reinaugurar a definição), cogite por um instante o conceito Inteligência (extrapole a redução verbal para incluir uma possível manifestação não verbal da inteligência, e o pulo do gato, aqui, não é defender o que a dona abelha quis dizer pousando acolá, mas colher como e por que aquela ação calórica pode ter transformado o mundo sensível e imediatamente disposto). por fim, embalsame vida e inteligência no cogito, também por um instante, do conceito de Comunicação (jogue fora a premissa da persuasão hercúlea, e agarre firme a poética alquímica)

A precariedade das escolas não muda porque as coisas têm de ser assim ou porque alternativas melhores e já formuladas não encontraram suas caixas e eficácias? Não estará a terceira pessoa do Estado longe de mais de nossas mãos, entrevada em Direito? E por isso apenas, por um sufoco constante de cálculos processuais ameaçadores que arruina o prazer de pensar grandes problemas, parece que as coisas têm de ser assim? As falas e gestos em cobrança, repressão e disciplinarização burocratizante bastam para que façamos dele uma figura razoavelmente próxima, leve, confiável? O niilismo anarquista do mercado financeiro será alterado desde certas estratégias de comunicação.

∞™∞

Porque a economia perdeu seu sentido primeiro, o da coesão, e destravou o agito molenga da submissão irrefletida ao autoritarismo, em detrimento da autoridade, vive-se hoje uma sorte de reconfiguração da corrida do ouro. Anomia, o nome que restou à vanguarda oficial, é pista e motor da aventura por assim dizer correta. O que muda é a perda, por parte de quem corre, desta habilidade crucial: distinguir, na matéria, o ouro. Vale estrume, entulho, ladainha, desde que se corra. Decerto aturdido, o dinheiro antigo mira e vê: bem antes do desgraçamento envergonhar a virtude, algo que sempre se observou na mitografia universal não raro em gêneses narrativas de mundos desfeitos e então refeitos, o problema acerca é este da falta de vontade de empenhar as mãos no ouro mesmo, quer porque não se o reconhece, quer porque não se o conhece. Mas qual será a consequência profunda e essencial de uma lógica necessariamente cerceada pelo lastro da escassez quando se deixa barbarizar o referencial duro das propriedades moleculares? O que é lastro de quê? A consequência, numa palavra, é a tensa dinâmica da queda.

–– Mas quem te contou que a economia perdeu o sentido de coesão e destravou a submissão irrefletida?

Eu digo que a economia perdeu o sentido de coesão e destravou a anomia agitadiça porém molenga da submissão irrefletida ao autoritarismo (haveria, se refletida?), porque as escolas são cárceres imbecilóides. Não queira o estado esperar, tampouco fornecer, os moldes do nurturing campeão nestas nações de infinitos lares. Aquilo que vem de berço, de modo algum é justo se interfere definitivamente em benefício de uns contra outros numa República que mereça o nome. Nela, porém, a escola não só não desafia as atribuições afetivas da paternidade como negocia, porosa e em igual, as articulações do que houver de comum ou relacional nessas duas ante-salas do mundo. De modo que se dissipem os embaraçosos maus tempos e atinem-se os anseios. Estado, com a escola pública de um lado, e os lares familiares do outro. A prova de que as escolas são imbecilóides é sua prática, no que decanta, mostrar a frustração sistemática do esforço da disciplina e a felicitação de mentirinha do ‘grading‘, este obsessivo ‘bottom line‘ das crianças.

A febre de avaliar é o véu envergonhado da anomia. Se a qualquer momento alguém pode estar certamente certo, tudo deverá ir bem. Não vai. Mas é também a febre uma grotesca brotoeja da hiperfinanceirização da economia, fato que a desiquilibrou psíquica e mecanicamente e a fez perder seu sentido primeiro, de coesão. Agora animalescamente dominadora e ameaçadora, já não lhe interessa a chance de coexistir ombro a ombro com valores conflitantes aos seus. Fizeram-se dela, apenas a título de exemplo, a absolutamente desacreditada política partidária dos estados modernos e a biotecnologia. Era ceder ou ceder, ou algo acabaria rebaixado. Antes que pergunte quem contou da hiperfinaceirização, eu digo ela é a mesma que faz fácil enriquecer e frequentar os simulacros da sofisticação o não saber e o não sabor. A mesma que desviou dos gestores a fé na produção para a fé no earning per share, assim que muito nos empurram qualquer desleixo não porque não mereçamos bons desenho e substância, mas porque “dá mais retorno”, no lingo antirreligioso dos yahupsters do verão impossível. A mesma que barbarizou gabinetes e palanques, trocando responsabilidade e eloquência por corrupção oceânica e fraude publicitária. A mesma hiperfinanceirização que sem mais nem menos excomungou da seita e fez prima pobre da economia a ecologia. Humilde, a ecologia tentou dizer que não fazia caso de ficar na dela, mas que preferia ser chamada prima índia. Erro? O nada nobre moto contínuo da comoditização da natureza a humilhou e a calou mais um pouquinho. E ela: prima pobre? Mas quem será a pobre? A prima que acumula a banda podre da petr4 ou aquela que guarda e nutre, lá meada em âmbares e cristais, a memória encarnada do próprio fóssil?

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Numa carta de 1916, em resposta a uma provocação saudável (mande nudes sim, mas quando der mande epístolas) Fernando Pessoa fala sobre a degeneração que sentia portar entretanto o artista português. É uma venda difícil, mas compreensível. O interlocutor não identificado que Pessoa trata por “prezado confrade”, de qualquer modo, talvez quisesse saber demais. “Não posso responder, mesmo sem sinceridade, a todas as perguntas do seu questionário. Afasto desde já a segunda, e as três últimas. A todas essas me é impossível responder. Não posso responder à segunda, porque não tem direito a falar na sua obra quem não tem obra publicada. Para as quarta e quinta perguntas também não tenho resposta. Elas referem-se ao Brasil, e do Brasil nada sei, nem sei se deva saber. Sociologicamente, não há Brasil. Há, por enquanto, um amálgama indiferenciado de raças várias subordinadas ao pecado original de falarem português. Mesmo quem saiba que o Brasil existe pode tirar daqui a conclusão de que ele não existe.”, evade. O poeta quer mesmo é vender o seu sensacionismo, que chama também morbidez para disfarçar que chamou também degeneração. A teoria de que o “génio é uma nevrose”, diz, “tem só o defeito de ser axiomática. Evidentemente que génio implica originalidade, desvio do tipo normal, desadaptação do aceite e do usual.” O que poderia passar por excentricidade estratégica, Pessoa chama taciturno de degeneração. Mas está mais adiante, o que interessa. A carta tenta purgar um incômodo familiar às vanguardas não oficiais daquele contexto, a baixa circulação. Ainda sem livro na praça e teimoso na zanga que pariu Orpheu, Pessoa só queria mais atenção. Era hora? Daí o impulso à autodepreciação. Se o carinho não chegou, melhor forjar orgulho por não tê-lo merecido. A assunção é tão infeliz e psicótica quanto deva talvez ser a vida numa grande guerra, mas Pessoa não se deixa abater e dobra o grito na análise. Para ele, três problemas mais importantes contribuíam para a invisibilidade dos sensacionistas. Previsivelmente, os problemas eram a crítica, os editores e o público. Grosso modo, a primeira seria desatenta, os segundos excessivamente conservadores, o terceiro desorientado (“só não é analfabeto porque sabe ler”). Que dizer dos problemas do Pessoa em 16? Eu digo, foram em grandessíssima medida superados. O bom dia da aranha, no entanto, é outro: Por que Roth, disto quase século quando escrevia ainda, diz estar em carne viva a circulsr num culto minúsculo? A resposta pode estar num título largamente póstumo e editorialmente embrulhado, além de impronunciável, publicado em 2014 em Portugal e aqui chamado ‘Últimos Escritos sobre a Filosofia da Psicologia’, de Ludwig Wittgenstein.

Digo pode estar porque não sei se está, mas também porque pode estar. Tão ou mais poeta que Nietzsche, Wittgenstein creía ser modo de olhar não forçado a um conceito a filosofia. Por não forçado se informado, potencialmente relevante no que sugere de novo. Generoso defrag de textos de quarenta e tantos a cinquenta e poucos, o Últimos Escritos é o autor em seu clássico, isto é, raciocínio encadeado em ritmo nítido e policromático, pouco ou nenhum apego ao objeto, que dista e gira como se num software de projeção arquitetônica, todo apego aos modos, que plasma em assinatura. Fala do que podem falar as palavras, mas delas tão cioso e em tão leal matrimônio com este seu gênio inovador, que fala em pequeno, muito em pouco, quase obcecado por um estilo que contudo equilibra no método. Antes da dita filosofia da linguagem, muito antes da dita filosofia da mente, muitíssimo antes das engrenagens de nudging e da consubstencialização do virtual, este homem que cheio de tudo foi ensinar matemática na zona rural tentaria defender que a singularidade expressiva, malgrado o mundaréu de planilhas a tentar preformatar o comportamento, pode, se forte no senso e nova na força, nada menos que fundar um ponto de vista impensado. Não só rompe-se, assim, o jogo de linguagem atado da não invenção, como imbrica-se, inevitavelmente, a outros jogos que o desarrumam, cabendo a autoria do desconforto ao homem que fala, não ao simplesmente adestrado por quem falam. Num jogo de linguagem em que a pobreza das palavras nomes próprios é compensada com a volúpia da velocidade, por exemplo, descredencia-se o espanto da apreensão original, e caduca-se a compreensão. A terapia wittgensteiniana está na busca pela atenção ao caso, ao evento leve e fundo de Badiou, agora e agora quem vê o quê, agora e agora quem vê o quê por quê? Um jogo de linguagem fechado para esta insistente surpresa teimará em acabar. Este quem, gerando os dados que for, é sujeito singular de experiência, deleite e vetor de incertezas. O ranço do Pessoa, quem sabe, e, como veremos, quase de todo curado, não poderia prever que pregar no deserto é demandar o mesmo pulso de quem especula em meio ao desconcerto de um mundo ou de uma cidade qualquer. Wittgenstein não se aproxima do relativismo tanto quanto do perspectivismo, conquanto a imagem de uma cabeça de coelho seja a imagem de uma cabeça de coelho, e quem diga ali uma cabeça de pato coelho aponte onde, no rol de contingências que viveu, atrapalha-se a premissa. E a natureza humana da sociedade decide o que faz disso. Expressar pede, no mínimo, tratar cada palavra como um rosto, “uma imagem de algo incorpóreo, que vivifica o rosto (como uma brisa poderosa)”, e tamanha preciosidade pede passos paulatinos de evocação e emprego. “O que é que torna a minha expressão numa expressão sobre ele? Nada que lhe seja próprio ou simultâneo (que esteja “por trás dele”). Se queres saber quem ele tinha em mente, pergunta-lhe!” A filosofia da psicologia nos quer humanos para comunicar e aprender, ou não nos quer.

“Faço-os calar: eu falo”, admite Ricardo Reis 19 anos depois daquela carta. Ele se refere aos muitos eus de si, “Há mais eus do que eu mesmo. / Existo todavia / Indiferente a todos”. Aqui o poeta é autoridade para calar e deixar falar suas plataformas de perspectivas, adivinhando quem sabe um magnetismo contrário às tentações do participar dos lugares já esboços da falência da técnica para a economia que agigantava e agigantava seu bem ou mal querer, ferindo a chance da poesia sem nada interessante oferecer em troca. No mesmo 1916, no entanto, encontramos um RR cujo solipsismo defensivo diluía-se num jardinzinho zen. Vale citar todo

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
de árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

§¢j¢§

entro agora sem as botas do arroio
na sombra em cerco luze um fio de mel
carece a estreiteza de algum sabor
vibra na estrela o sangue de um corcel

chamo por ela e desafogo a cinta
broa de milho, canjica, chá de ulmária
chamo por ela, lavo as mãos, as filhas
correm lá fora em cavalos de pau

não é fúria que sente o mundo vedado
não pode ser irônica a feiúra
não quero ouvir sou fábrica de falhas
sento sem máscara e porto a Aventura

riscos mil de pó rasgam o negrume
cuspa na minha cara antes de ter
sua falha projetada em meu clarume
o arroio me chama, de botas, sem ela

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1. Um artista no primeiro terço de carreira teve 80% de confusão, sendo dois desses terços desses 80% , na era da blogosfera, expressos no underground das listas e comentários digitalizados. Neste novo lugar vêm gestando as raias curvas das posturas políticas impensadas e possíveis os escritores montaigneanos e pós-wittigensteinianos

1.1. A blogosfera lusófona não tem mais de 15 anos de confusão sólida, donde assistirmos, nem sempre atônitos, a nada menos que o nascimento da primeira casta a concluir, porque dura 15 anos, um seu primeiro terço em vida. Uma avaliação ambígua faz-se entretanto necessária?

1.1.1 O inferno também é uma blogosfera. Ali, o artista aprende, viver é competir. Na blogosfera, que a competição é só com ele. Muitos logo voltam a ser dentistas. Restantes escrevem também para repudiar a extrema-direita ressentida que se lhos dobra cair em taxonomia os taxonomistas. Tal relincho, também um reflexo, perfaz um histórico injusto de mágoas

2. O escritor montaigneano o é pelo perdão à erudição, seu reencontro brisado, a léguas de qualquer complexo. O escritor pós-wittigensteiniano o é porque não é a posse o abrigo da inteligência, ainda que o seja do pensar. Posturas políticas têm ruias carvas, digo, raias curvas, porque entre elas não se dá papo reto (Latour). A atualização biomecânica da destranscedentalização potteriana da antropologia dos modernos indica outra vez o clichê impossível do fluxo. No entanto, não são poucos os feras ‘mappings’. Eles podem desejar não jogar a água do relógio com o pendólogo junto se o bebê ficar bravo

3. Não conferiremos troféus

4. Como descrever a dor que sentiu Pedro Mexia? Será possível pensar na ‘estrutura de um desamparo’? Questionar em torno ao gênero da escrita talvez cristalize uma ou duas piscadelas, se o embelezamento da biografia. Aqui dizemos biomecânica, muito antes para descartar a chance da autobiomecânica, viva a oximorite e um viva à economia

4.1. A dor que sentiu Pedro Mexia integra a estrutura de seu desamparo. Este é um processo de construção em lentos reflexos de cacos. Longo espatifar, longa jornada. Farrapos enlutados acordados em mãos ao círculo das cores quebradas do burning man. Questionar em torno ao gênero da escrita talvez descomplique a lealdade, os rasgos cavalheirescos dos marubos. Mas não descomplicará a atração que exercem cetros de ouro

4.2. Se é cedo para parar de transformar energia, processar e computar, processar e responder, é cedo para evitar a figura do organismo. Nunca é tarde para os modos. Com a união, falamos, por exemplo, em dragões invisíveis. Trindade para alguns, o Uno vestiu jaleco. Aprendeu a sentar e agora assombra o novo ranço. Organismo não refém da burocracia do estado, não refém do corretor gráfico, posto que denuncia a pleonasmotite o corretor ortográfico por icompetência econômica e, neste caso, também ecológica. Pense no poema do Tao, nele medite. Organismo cujas ‘esferas’ de controle carecem da noção de Direito Natural, como castigam as más escolhas

5. Que em sua última carta a Heinrich von Kleist, Henriette diz “Lembrem-se destas duas pessoas estranhas”. Que Bernanos disse que aprendeu a gostar do Brasil com as elites do Rio e com o povo de Minas Gerais. Que o facto dos banqueiros portugueses parecerem apostados em desacreditar a banca sugere às vezes uma estratégia anarquista. Que Sofia, que leu tudo o que Tolstoi escreveu, confessou uma vez que nunca o conheceu. Que fui eu, desde há muito, insultado em livros e folhetos por estes gandaieiros da vadiagem lisboeta

5.1. A tinta da china onde acabou no fim do seu primeiro terço de carreira Pedro Mexia por mexer na parte da poesia, que, de tanto animado lagarteia-se missionário nos alfarrabistas, propagandeia o autor de lutas acolhido, de lutas nunca isento, com colectâneas feitas originalmente para o mármore. Um livro sem gralhas mais graves é esta sua Biblioteca, que remete às bibliotecas

5.2. Engraçada, a fortuna deste inoportuno laboratório que foi a blogosfera às manias reaccionárias. Pedro Mexia não votou no Presidente Marcelo, mas foi mesmo assim convocado para consultá-lo em Cultura. Um cargo cuja influência pode transformar as vidas colectivas e individuais mais ou menos intensamente. Presidente Marcelo, antes de tudo um presidente pela mobilidade dos portugueses, mirou-se em Péricles e revelou antenas nessa escolha. Filho de blogosfera blogosferinha é

5.2.1. Em conformidade com as novas circunstâncias, o ideal poético, o ideal ficcional, mas não o ideal técnico, cedem e desinflam. É miar e espreguiçar o que interessa, já o latido não canino nada muda e perde em encanto para as calopsitas. Tal fatalidade perfaz um pequeno histórico de ressentimentos sem mágoa, isto é, novas curvas nas raias políticas, posturas em desafio a gôndolas, gondoleiros doleiros, a nova filiação dos amantes, restando Freud à Toy Art. Pedro Mexia pode ser contra o casamento, mas é seu corpo quem apaixona

6. Chamam o segundo terço Cada Anedota em Seu Lugar, Sei Jantar. O verde no que a oliva, amarelo é quente no que a manga. Esta primeira casta mais que tudo frustrou. Se Pedro é um dos menos piorezinhos, temos nós a culpar. Carregam espelhos dos sociologistas, dos close readers, dos psicadélicos e surrealistas, carregam bandeiras espelhos sismos dos classissismos modernos e carregam samplers das trompetas heralds dos exilados em bélgica. Negarão tudo isso pois arrogantes

6.1. Costumam calhar, segundo terço e fundação testada à desamparo. Um desgosto sempre possível expelir com a tática dos patamares. Vamos ver o que infiltra na Cultura socialista, as dobraduras dos seus readable vests

7. Carregam samplers das trompetas heralds dos temidos em paris

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quando queredor de um rastro
pergunte ao passo, embarco
no toar do rame-rame
sacro do peregrinar
às veredas menos tidas
bandeira um punho cerrado
lume azul na parnaíba
ou faço como quem ama
menos a si que ao dissenso
apartador dos rebanhos
dos sins e nãos amarrados
à incerta voz da medalha?

retorna ao húmus e sobe
as glândulas aflitivas
medicam paracidades
engavetam o plural
e cristalizam o caos
casco regrado chão inútil

levanta o sabre de luz
manto sábio e disponível
pacificar intestinos
exige a mediocridade
livre e impensada dos uivos
prática só, nova, nua

•¢•

você pode duvidar de quatro jovens
cordas a tocar, dois violinos, cello e viola,
por exemplo. não entregam, dirá, mais que uma

superfície de adesão

sim, como quatro quaisquer jovens a fazer coisa qualquer
impressionante no deserto

superfície de adesão é qualidade de objeto capaz
de te divertir, ou engajar-te
e cá não há valores, antes ou depois
que pudessem escolher, antes da hora, o depois
e tudo é sempre nada e nada morreu, nem o rock
mágoa alguma mais que sombra no pingente, pó
coisas bestas, janelas tijoladas
marreta contigo dentro e o azar
azar e o sempre juntos. isso é tudo

mas, ainda, certas ocasiões não param
na generosidade e vão além e
batem uma aposta
chance e capacidade de um lado
transmissão emocional e pensamento seu, controle
seres mais ou menos infrequentes num tubo do outro

deixa de ser o local
quando estamos a estudar

<< liberdade sem posse, lealdade estóica,
isolamento existencial >>

como tem usado esse poder,
perguntam diaramente os suados santos
os retardados do universo por que culpa
se só queríamos estudar

mas: e se eu quiser batata
e também quiser estudar

e se eu achar que o quarteto não é excepcional
que no caso do quarteto
melhor honrar urgências de regulação desde uma atitude
antes que seres, eficaz & elegante
capaz de circular livre crescer frutificar
o topos por que deitaremos pés, a lenha para o feijão e as geodésicas
como se não houvesse, na tipificação de consumista
que venceu nosso sujeito, enquadramentos
arquitetados por malícia não criminosa
pasteurizada malícia e baba das crenças
no melhor que nos tocou legar
a organização

esta é a voz do ressentimento
porque sentir é tão bom…

o caso do quarteto, além
da generosidade que estica a aderência de que se forma ou pode formar
bate também a aposta
faremos uma oferta?
nossa chance e capacidade
de transmissão deve tremer
pensamentos e emoções
em modo oferta, isto é, sem querer
aquilo que virá, mesmo o mais salutar
anseio

esta é uma configuração multiplataforma
sobe a largas maneiras e alternam-se
pêndulos e latão, espelho e gelo
baixam curvas a somar viés e sol
lídimos diálogos, serestas suaves
gritam também, contra a paz e o governo
que isto não pode seguir assim

ou a exceção é uma só, Deus
ou nenhuma exceção é possível

graças ao passo que dá da generasidade
à aposta, a experiência do quarteto mostra
um fio vermelho por onde retornar
à ruína original, e ver
é bonita, é bonita
a aposta pipocava em fados
mas ao menos te humilhou, mãos às malhas
da veraz polifonia

tudo é utilidade
quando a mão não pode mais, não pode agora pois agora
a mão balança um berço

qual não é nossa surpresa
percebemos a aposta do quarteto
fluindo assim do fardo à sorte grande, enfim ajudando
ainda rasgado, não é que você pode perder
isto é, não é que você pode aceitar
possuir dispensar o fardo é consequências
daquele impacto deveras
vantages e desvantagens nessa vida cuja clareza e cuja doçura
atendem a domicílios, seus palanques de justiça
vilipendiadas procurações do receio

pois pronto, ela está pronta
sem papel de embrulho tombam melhor
as figurinhas da copa

não há, na aposta
o comprometimento com o conteúdo
entretanto no modo oferta, misteriosamente
(adeptos, vejam *n(isso))
há, o comprometimento com o conteúdo

por quê?

impessoal, desinteressado do que escapa
do ato sem história, só assim
virá a mais de nós a História incomum espada de platão
sobre os comuns, aristotélicos depenados

este alerta não inviabiliza apenas hierarquias
ele inviabiliza o próprio desejo disso
afasta no que súbito realça, bamba no que fixa
posto que porte-se como for preciso
vá danar até vencer o marasmismo e a pilha morta
mas queira, queira logo respirar, muito
vai perder à vida, e respirar, isto
já não te tomam
e respirar era o mais importante
indiscutível primeiro lugar

que vícios de construções patetas
nossa energia de corpo nu
vale mais

que
quer
, dizer

aí, então, você
__________________________

∞ ¶ ∞

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praha, seis de septembre, M M X V I

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descida atrás de três farnéis de nove a dez palmos, estufados de não sei que tem, a dona roliça sorriu todinha baixa, do alto do grisalho trágico, despida enfim da espera que passava, ritmo de hortas, ritmo de espantalhos. praha clava, proferiu, falsa prenha erguendo o braço a ajeitar a alça de um saco, sem querer me saludando, soerguendo o que era seu, desatinando a fila da escada como se ali no plateau granítico quedasse a eindhoven dela, a oscura estação da kespta a phillips dela. saiam, raven, raven, nada menos que uma moisés a deitar sal na parva malta, seu credo um besta ou incrível mudar de lado, simplesmente. eu vi. foi trocando suas pernocas de polvilho seco e mármore, vias de mirtilho em expressas e marginais, cruzou e chegou, parou e sentou. lá do outro lado. vai voltar tudo, simplesmente. sem nada entregar, vender, trocar. vai

à saída do prédio gótico de kespta, corvos e neblina. assim ninguém apedreja, sustentou uma jovem rapariga-placa. compro ou roo, seu cartaz. além dos quatro metros, só queria ferir a parca húmida vista uns insanos trisnados de bordos prateados, folhas destacadas como jangadinhas de lemmings, embrulhos centrípetos que afundavam nossos túneis e luziam ali no sismo da cegueira. de mais a mais, escusões e licenças, topadas e peitadas em muros de murta. nada a ver. não achei a ciutat bella. não cheguei à ciutat vecchia. tive que parar cavar meus figos, dois, que acoplados no fundilho do estojo dos óculos reservas já queriam exalar rosados fungos. era uma galeria de aplicação e remoção de tatuagens biodinâmicas, moda em praha mas nem por isso genuína, tendo a praga profanante nascido em paris, sul do texas. mastiguei, se é que o verbo é esse quando uso não os dentes, mas língua e céu da boca, mastiguei o tempo figo

tudo é norte na cidade da paixão. praha escolheu, entre tantas, o escritor de livros javier marías. “poderia muito bem ir lá dormir em pamukale, ou numa plataforma do algarve. mistério é de toda parte, frango ou peixe, trepidação. ou mesmo no bunker dos primos meus por parte de madrasta, uma adega de recibos de distintos executivos industriais na bavária chilena. não. vim a praha e cá ovulo”, disse à reportagem Marías logo antes de amassar suas frésias bebés no fundo da champagne. “vale a pena”, concluiu, como se perguntássemos qualquer coisa do gênero ou mesmo nos coçasse o interesse. o escritor de livros dono de dois apartamentos decorados em negativo (tudo branco em um é preto no outro) no bairro alto da capital jurídica de madagascar, olivas, prepara aqui, entre banhos na ribeira do baixio e fungadas em disparo nos bosques de orfeu, seu quinto e último romance antes da trilogia maga. “será uma linda trilogia”, garante

afeita aos istmos socializantes da cacheta e da petanca, a gente prahense nega em tudo sua fama de objetificação alienada e afim das comódities da classe operária. muito antes e ao revés. ela aqui essa gente vai pagar a luz, como vai cobrir o fogo das pensões admite-se moças sem família, de olhos em caolha vigilância e braços dados, posto que são bons leitores das martins fontes. não param de louvar o cafezinho ruim tal se fosse itália não a obra sólida de um gaúcho, mas bruma de um sonho mau do napoleão ele mesmo. nunca existiu, gritam cabeça dentro, cogitando os tapetaços da azzura. pudera. foi só em 1984, num outono eternizado pelas páginas de proterus, pretéritas professas, de almak klabin, que tudo e nada desandou. “a rebeldia”, pontifica a tromba do gauche estatuado no cais, “não é um periscópio lavandisco”

que mais podem querer os partícipes? sula, 8, caçava pokebolas no leite leve a pairar sobre um laguinho de carpas quando abordou a reportagem. “praha? é muita zica? é, pá, veda crista”. para o morteiro cândido, 22, trata-se de outra coisa. “praha? pronto, praha é linhas, não exatas retas, tás a ver, as linhas que depois e depois fugindo à rotunda sansárica dessem em poeira. isso tudo é luz e bomba.” um suspiro e “não é,” afirma o advogado reformado silas, 67, “mais que um subterfúgio dublinense. isso é praha, sem ser praha outra coisa.” poliédrico também é o entendimento oficial. monarquia autoral semi-parlamentarista, a vila cede às preces vitalícias dos oligarcas das dura lexes (lê-se lékses), o conjunto de três leis em remontado hieróglifo obra nanquin do artista de rua Peg4sus. é uma constituição bem quista na exegese actual, e ponto. peca por não prever milhões de crimes. mas aguenta, posto que homens de leis são poetas, e não o contrário, toda a selva da jurisprudência com olhos na vista de motosserras de ouro, duas, às mãos. são três famílias que esgrimam os diplomas locais há 822 anos, idade da cámara. o povo, massa geral em cruza celto-moçárabe de narizes inexpressivos e frontes de compleição tragicómica em quinto exausto ato de opereta, lento, confuso e calado não pingassem balbucios, não se furta à chacota tipo língua na bochecha do fake tweedy quando se lhes é dado acesso às média para referir aos tipos da Casa de Rameiraças, apelido do amplamente pichado palácio parlamentar. “têm pacto com satanás e não sabem aplicar o nosso dinheiro, mas já ninguém tampouco não dá a falta deles. pã”, atesta o pescador e o marido da estivadora raquel, sandro, 33, corrobora. no poder é diferente, para nada mudar. o fidalgo dummont roncador e castro, superministro das cidades sombra e membro da comissão mista de transparência, num poema experimental de 88, remete praha aos “jogos de mastro para longe do cinza budapeste / celeiro e sela de zi(n)co, kafka e darwin”. o presidente das normas de destituição e bombardeiro reformado couto mesquita e alsouza, num discurso às velas da revolução do mais cruel dos meses cair na primavera aqui, mas não alhures, um speech chamado Bonde, Charrua e Lamparina, lembra que “ligou imensas cítaras na panela praha, albuquerque mo prometeu se lhe deu jurar à cavaleira, assinando um papelito, e quem não sabe do pior acredita, se lhe vingou lograr a prazo.” assim, plural, multimotívica, caixa de sapatos por loops em shake deformada, flutua sobre tenra barriguinha a invisível praha que imaginam. mas, a serviço do movimento este diário fala no minuto e entretanto não na poluta praha das gentes, poluta percebam no que, e cá não julgo sem refletir, de estrias e geodésicas portanto invasivas e virtualizantes se compõem em automático a geografia mnemônica dos não jornalistas, que nem devem nem ganham para manter a objetividade, mas antes e sobretudo da praha real

éverson palaplas, 55, guardinha do fluxo da rotunda onde jaz o pinel de grifo sobre a águia, não vê no principal problema cabalístico da municipalidade, desvendado e apontado por esta reportagem, motivo para descontrole. tás a ver a senhora do smart? ao que aceno sim. tás a ver a filha da senhora do smart? ao que aceno não pois que filha não havia alguma e lido aqui com a objetividade e não posso etc, ao que pal, el play-play, como é chamado no futebol, segurando um apito tal com nojo e apego, saudade e destarte alentado desprezo, tecnicamentee gritou, a-haaaa!, apontando-me da outra mão o dedo

radial e estrambólica, emplacada rudemente e sem pensar nas grutas, nos vulcões e nos sismos, por saias e sobressaias rajadas de pálio branco, lápis azul e lava antiga a furar ricas matrizes de tímus e cobalto holocênico, um pirocópetero a firmá-la deixaria o marco zero da cidade, a praça da traição de suzana, sua forca e nosso poço, numa elipse contrária ao labirinto para mostrar, muitas idades depois das picadas, o jardim das negritas na zona 1, o jardim dos salamancos na zona 2, o jardim dos impávidos nas zonas 3 e 4, o jardim das cobaias e do respeito nas zonas 5, 6 e 7, conforme encarece o metro, e o jardim das soldadas imaginárias na zona 8. as dunas aqui, algo de resto já demais de repisado pela national, sofreram a cataclisma maluca de 37. foram latas e mais latas de pêssego em calda, a gente toda linda nas janelas achando que as dunas dançavam pra elas. neste equinócio amargo, todavia, saíram de cena as devassáveis. “foram ovas e ovas de louva-deuses”, atesta o clínico geral e o cunhado de todos nós, álvaro, 22, e tobias, 44, corroboram. fato é que enquanto mastigavam, se é que etc, todo aquele pêssego, todas as incontáveis 117 dunas locatárias de playgrounds espicaçados pedras brutas e inteiriças se fizeram. tudo não demorou mais que o refrão de lonesome deli, dos creepies, versão uncut e unresleased de 26 com master de erik shfrooden e o imbatível mignho fabi nas baterias. um trauma fundador. eros e cripta

falar por fim de praha é não poder esquecer de falar de tristão de bege, um nobre que amordaçou a imprensa e foi festejado. replicado em 33 estátuas que vão da cerimônia do chá aos ashnas destemperados de mestre eurípedes (“antes esgotarão os minérios”, diz em chiste o pai prahense ao filho dele), duas em cada canto mais sete em dois patamares high-line e o resto identificado por computadores, aquela figura remete também ao mito de pégasus. e também ao de urano. e, não menos, ao lado b da de resto já salobra bagagem neptúnica, aquela escura e traseira face que nem por isso não é lua. num estio complicado pelos perrengues da febre dos morangos, nos conturbados mil novecentos e quatorze, deu-se na quitinete que sublocavam as filhas de tristão de bege aos criados do usurpador internacional ramirez, o mesmo dos infames papéis da antuérpia, um constrangimento no que tocava ao emprego das toalhas quando de feriados incomuns. um dia inteiro na caldeira é demais? e uma casa limpinha? não se falava de outra coisa, e todos já traziam uma inteira opinião e imprópria e quase nula, sobre se se deixar o mesmo e inteiro dia não na caldeira, mas num balde d’água tépida (“para ir adiantando”, conforme posterior e viral meme das mães de burka) as toalhas não valia mais. interveio, por caneta, a competência do nobre. 16 foram presos e a polícia, treinada e contratada para não temer, passou dos limites também 16 vezes. uma mancha? “um recomeço”, pondera almeida e almeida, dos armarinhos almeida e almeida, 57, solteiro de duas. carrega contigo esse fardo, praha….. de vinho doce, de canto

• § § •

não achei uma imagem decente na rede
da melhor pintura do museu coleção berardo
studio e paesaggio, pincel renato guttuso
tudo o que antecede, aquela arte toda
gritante ou idiotizante arte recente em diante
contra o tempo, portando, voltando
às ditas escolas do XX
escolas que só depois amalgamam
na forja da pedagogia
superpreocupada mas tarada em explicar
a suverção a rutura
a invenção o ready made
a experimentação o movimento
presos textos, presas amassadas em saletas
dilui o pratoganismo de paris o grupo CoBrA
emerge joan mitchel na esteira
do expressionismo abstrato
faz-se irredutível ad reinhart
pois morre o além na cega ultimate painting
rasga os cartazes raymond hains
e lourdes acorda ao pé dum saco de christo
plácidos ressoam os cítricos das sete cores da ironia
são as pop brit art e americana a dar fome
mas discretos cy twomby e jaques villeglé aparecem
antepastos do disciplinado espaço, seitas e claustros
até sorrir em paz o visitante, eremita imparável e lento
à mesa do italiano comunista, farta de simples a oficina
pêndulo fumante beckettiano, leitor hegeliano
juno artista amante de bequinhos e tortos telhados
espremem-se se tudo se coloca para nada mais caber
eis a vitória das gentes que sobem
agora posso ver a pluralidade do chumbo
as faces do ocre, do preto antepassados, terras e quintas magentas
arremates em destras brancuras
aval a desprezar loucuras
primárias, marcam ilhotas e pouco aparecem
pois nada do que vibram é em sério
carimbos de alegria forçada, esquecimento
assinados o verde, o amarelo, o azul clarinho e o vermelho

studio e paesaggio abre o súbito do reino peão
foca no seu alimento
sem vergonha esta dor, amplo este alento
não há jogar ali veneno, mãozadas de lixo
goste-se ou não de vento
é que tudo se compõe sem falha, e humildemente

a segunda e última peça que sem lágrimas resgataríamos
do de resto fatal incêndio
é a prisca e tenebrosa figura em bronze la mante
kafka e trash eretos, gaia e et a um tempo
mãos mulher germaine richier, sombra viva do giacomo
cria do guigues
dileta do bourdelle
imiga do bispo mas em verdade
benévola inseta, mansa replicante
nela as fases da lua cantam
se fásicas as luas dançam
carcassa mineral, ossos de lança
na cara igénua e branca
daquele querido e bel davi

== ¥ ==