Mania e má consciência dão os tons de ‘Trama fantasma’

Quando vai começando, em seu terceiro ato, a bifurcar a vereda central de seu enredo, a irmã governanta pergunta ao herói: devo mandá-la embora? O herói nega. A forma (interpretação e direção) é entretanto complexa o bastante para não esclarecer se ele hesita porque quer, ou hesita porque não quer.

Cada nova musa, entende a irmã, é despachada quando o herói, casado com a obra, pretende a companheira exaurida, embora bela e quase perfeita. Só não faça dela um fantasma, reclama a gestora. Ele silencia.

Imaginamos sucessivas, as mui afins modelos consortes do artista tombando, recusadas, contra tão solene e amarga muralha. Por que não param?

“Tanto a salvação quanto a punição do homem”, diz Tolstoi, “jaz no fato de que se ele viver no erro, pode iludir-se a fim de não ver a miséria de sua própria posição.”

Posição. Um passinho à direita? Um passinho para trás? Três dedos menos de barra? Situação, postura e navegação são os temas da fita velazquiana na forma e machadiana no conteúdo Trama fantasma, escrita, dirigida e co-fotografada por Paul Thomas Anderson (Punch Drunk Love).

Na tocante e deslumbrante peça de câmara, Daniel Day-Lewis (Sr. Woodcock) e Vicky Krieps (Alma) encenam a agrura do equilíbrio no espaço do cinema. O casal tombará, outra vez, em extrativismo e abandono? Ou para em pé e dá frutos?

Discreto nos gestos e ciclópico na psicologia, o drama remete aos pares românticos da literatura do XIX, e aos avós e à tradição da elegância difícil. Difícil porque costurada, nas fímbrias da nobreza e da decadência, à Arte e à fragilidade em estado de polida maioridade.

††

Quem lembra Tolstoi é José Luiz Passos em seu Romance com pessoas, fértil investigação, e de muitas faces, sobre a obra de Machado. O ganho de consciência do homem no erro do russo pode nunca vir, tornando sua “denegação ruinosa” colapso contundente, seja na ilusão do poder sobre o outro, seja na ilusão da submissão a alguém. Do objeto do romance do XIX para o XX, diz Passos que

parece ter sido a formação e a deformação da pessoa moral, que delibera, evoca, julga e acaba por compor, diante do leitor, um retrato complexo da relação que o sujeito mantém consigo e com a comunidade. Oferecer, pela linguagem, o rumo de uma experiência humana particular e cambiante, no momento mesmo em que ela acontece, é a contribuição mais fundamental deste gênero.

Alma e Woodcock, quando encontram-se, vivem a inércia de um encaixe fortuito. Vinham de sítios e em dinâmicas distintas mas suficientemente compatíveis para encetar dança passageira. À perda do torque, aponta e preocupa o desequilíbrio que martelará caso os corpos não despertem para a nova situação. Novas posturas e táticas de navegação haverão de seguir se o sentido for o fruto.

Na sintaxe fílmica, a graça e a destreza com que se dá tal ajuste é mérito de uma direção que tira do jogo de cena sugestivo e lacônico, da direção de arte de pintura acadêmica, e das atuações transparentes e livres de imperfeições, a boa e velha, mas sempre refrescante, fatura dos clássicos. Faz Anderson em Trama… cinema contido, discreto – mesmo tratando da pujante moda milionária – belo e de sagaz humor.

Perceber Machado de Assis num filme de 2017 que se passa na Inglaterra dos anos 1950 não deixa de ser curioso. Para isso também serve nossa exposição aos objetos de arte: ligá-los de modo insuspeito e aprender com surpresa sobre a vida no mundo. “Na literatura brasileira”, segue Passos,

a consciência moderna nasce quando o primeiro dos seus heróis [Brás Cubas] é incapaz de solucionar a dúvida sobre os motivos da conduta alheia. Se não prestarmos atenção a esse estratagema, perdemos de vista o veio mais sutil da nossa primeira modernidade literária. E para tentar responder à minha própria pergunta sobre como podemos, e às vezes devemos, tratar personagens de ficção como pessoas, proponho que voltemos a um tema que marca sua produção como romancista desde o início: a representação da consciência atribulada pela desconfiança, ou melhor, o herói ameaçado pela própria imaginação da malícia. Aqui se encontra a desunião da pessoa consigo.

O ponto alto da literatura de Anderson é incutir, indo além de Machado, a mania e a má consciência, em doses e expressões variadas, tanto no herói quanto em sua musa-coluna. Este herói, moderno porque concentrado num ofício, seguirá consertando o mundo conquanto seja consertado. Woodcock e Alma superam a desconfiança ao ficarem fiéis a suas substâncias essenciais ou vetores de contingência mas cederem, em impulsos aparentes porque maquinados de provocação e redenção, naquilo que os poderia desunir mas não desune: ele e ela amam, apesar de se usar pouco, nada menos que um leão.

Nota sobre o novo do del Toro

And hide not thy face from thy servant; for I am in trouble: hear me speedily.
(Salmo 69, 17, AKJV)

Perto do clímax da bela fita vencedora do Leão de Ouro (Veneza, 2017), The Shape of Water, o militar Strickland (Michael Shannon) vive uma anagnórisis: a súbita revelação de que o Homem Anfíbio (Doug Jones) é, na verdade, um Deus.

Cai o mundo de Strickland e ele nos dá a entender, olhos estupefatos diante do falso inimigo, que todo esse tempo defendera um mero simulacro, um castelo de areia, e não a verdade.

A verdade – a divindade, e assim a intocabilidade do Homem Anfíbio – quem a defende na narrativa do diretor de O Labirinto do Fauno (Hugo Award, 2007), Guillermo del Toro (n. 1964) é Elisa Esposito (Sally Hawkins), órfã, muda, solteira e faxineira de um laboratório secreto do governo Norte Americano.

O ano é 1962. Em plena Guerra Fria, Esposito desafia a segurança para resgatar o Homem Anfíbio, alvo de um experimento obscuro, e devolvê-lo às águas. O faz por amor, obstinada e ingênua, mas antes que o pior aconteça.

Não quer Esposito trair os EUA em proveito da União Soviética. O infantilismo geopolítico sequer habita a cabeça da simplória. No entendimento da funcionária, a humanidade do suposto monstro apenas supera a ambição exclusivista do experimento. Ou: aquilo que haveria de aprender a ciência com a destruição do Homem Anfíbio importa menos que sua graça em vida: lições de força e cura, sensibilidade e juízo.

Quem é Homem Anfíbio? Ou, nos termos sulcados no escudo do Arcanjo Miguel, QVIS VT DEVS? A referência religiosa não está lá. Mas não se trata de uma aproximação forçada. The Shape of Water atualiza o mito do herói que aniquila a besta interior e afirma: ninguém será mestre de um escravo outro. Quem é Deus? Eu, no fio da minha espada, contra o medo e a servidão.

Na cena do pôster estamos num instante após o clímax, bela e fera afundam, salvas, e Esposito perde um dos sapatos antes de aprender a respirar na novidade aquosa. Quem notou ali a alusão ao episódio dos argonautas acertou.

No início da famosa aventura grega, quando um barco aparece pela primeira vez na história da ficção literária, o comandante perde uma das sandálias para o mar antes de reunir a trupe e singrar as águas. Sua missão é recuperar o velocino dourado – alegoria da fé, ensinada por Esposito ao Homem Anfíbio quando leva a mão ao coração do monstro assustado.

fala e água: ao chocarem-se
em continentes de carência,
o conteúdo dita a forma.

diz o apropriado poema Carta aos anfíbios. Esposito e H.A., abraçados afundando, são a perfeita aliança da estrutura helicoidal dos cromossomos da jornada heroica do homem e da mulher no cosmo. Sem fala, a faxineira dá ao mundo o testemunho do alicerce volúvel mas de firme sentido quando escolhe rejeitar a crueldade desentranhada de razão.

The Shape reafirma a destreza original de del Toro para efeitos in camera, esforços formais teimosamente artesanais, à semelhança do colega contemporâneo Michel Gondry (n. 1963). Nos dois casos, faturas maestras excêntricas e atuais da arte, a teimosia perderia o porquê amparada não fosse por tão trabalhado argumento: a potência mercurial da mensagem, órgão pleno e certeiro da construção do mundo, perene através de ricas reinvenções do mito, prescreve o talhe do objeto, e sopra vida à imaginação.

lendo os novos: inferno provisório

A edição definitiva de Inferno Provisório, publicado em 2016, destoa do padrão comercial da editora por três motivos: as dimensões licenciosas, em 16 por 23 centímetros, o corpo diminuto da tipografia, que na página mais larga torna as linhas um bocado alongadas, e a capa, uma capa ruim para qualquer livro, e especialmente ruim para Inferno Provisório. Por diversão, fiz três opções de capas mais condignas.

Luiz Ruffato trabalhou quase vinte anos nos cinco volumes que compõem, agora revisados, delicioso catatau. O livro versa a vida dura de umas gentes, sempre as mesmas, desensofrendo entre os derredores de Rodeiro e o beco do Zé Pinto, em Cataguases, cidadezinhas brasileiras em Minas Gerais.

Trata-se de um experimento formal de meticulosa urdidura, um cuja análise, aqui apenas superficial e de ocasião, consumirá deveras e para muitos frutos as novas mentes das comparações acadêmicas, por anos e anos além. Cá, nossa tese abrupta achegaria a trama fina de Ruffato ao empenho táctil contra a linguagem, propondo: Ruffato predispõe a escritura de uma língua brasileira buscada na víscera mas desenformada na harpa.

Deixemos a questão sociológica para estudos mais cumpridores. Antes calar que pecar no leviano, ou se o tempo não é de vigília e processinhos… Cumpro aqui contudo um constatar em nada oblíquo, pois sentido no físico mesmo após descaprichada a trilha sucosa e chicletosa da leitura: é Inferno Provisório um daqueles estágios da arte literária, por mais que condescendamos e façamos rememoradíssimas listas de escritores, inclusive obscuros, com suas dezenas e dezenas dezenas de livros cada um, inclusive os obscuros, pois é um daqueles estágios da arte literária em que a substância se equilibra, reinaugurando a língua, entre matéria alfabética e figuração virtual. Perseguição moderna, tal é um cânone mais estreito que o buraco de uma agulha. Costuma ser cruzado por poetas campeões de longeva consistência, e, na prosa imaginativa, reconhecível por aqui, para ficarmos no casal maior, em Rosa e Lispector.

A substância equilibrada, buscada na víscera mas desenformada na beleza culta e complexa, apta e sutil, da harpa sinfônica, persegue-a todo autor que escreve do que viveu, transformando a experiência fenomenal em arte sensorial. Ela é tanto mais saborida em Inferno Provisório, porém, porque materializa a fala incomum do brasileiro marginal comum, isto é, pobre e familiar, lutador e decente apesar dos muitos sofrimentos e irregularidades de caráter, figurando, junto a essa fala – difícil de fazer mas fácil de ler –, uma virtualização a um tempo seminal e delicada, de cinematógrafo atento afeito a close-ups, deselegâncias discretas das coisas, beatitudes insuspeitas dos soslaios, montagem atualíssima que sobrepõe sugestões e deixas às surpresas enredistas e às  pespeguices do plot.

Eu tinha dezoito, dezenove anos, a roça não dava mais sustento pra todo mundo, a gente estava passando um aperto danado, aí meu irmão mais velho, o Valentim, mudou pra Ubá, conseguiu emprego numa fábrica de móveis e acabou me carregando com ele. A gente morava nos fundos da casa da dona Maria Bettio, de uma família conhecida nossa lá de Rodeiro. Eu arrumei trabalho numa oficina de lanternagem, aprendiz de pintor, e as coisas iam caminhando bem. Aí comecei a sair com a filha caçula da dona Maria. A Arlete andava com todo mundo, tinha uns quinze anos, mas era muito avançada, ela, assim, facilitava bastante, não sei se entende… E vai que um dia ela apareceu grávida e começou a me pressionar pra assumir o filho. Sinceramente não sei se era verdade ou não, mas meu irmão me convenceu de não casar com ela de jeito nenhum, ele falava que ela era uma vagabunda e que ia me botar chifre com a cidade inteira, e que toda a gente ia rir da minha cara, porque eu era um ingênuo, um capiau… Eu fiquei intimidado, outra época, outros costumes, isso dava cadeia, dava morte… Aí a Arlete amarrou uns panos na cintura e escondeu o inchaço até não poder mais. E no dia que ela desmaiou na rua, e descobriram tudo, fugi pro Rio de Janeiro. Fiquei lá um ano, morrendo de medo, sem contato com ninguém… Achava que logo-logo o episódio ia ser esquecido, e as coisas voltariam aos eixos. Mas…

O tempo de trabalho dedicado, o volume de texto (se diagramado com generosidade, o catatau suplantaria as 800 páginas), a consistência de estilo e a satisfação arquitetônica – sentimental e temática – do projeto, somados à marcante novela de curtas Eles eram muitos cavalos (2004), indicam, ou asseguram, nessas páginas, escolha de artífice, consciente e refletida. A invocação da letra é experimental mas firme, e metódica, reapresentando-se de novo e de novo nos micromotivos, torneios desenhísticos, distrações voluntárias, vinhetas, molduras, pórticos e mesmo ruídos e chapiscos. Elegante na concentração e nos inúmeros negaceios às meras possibilidades, a obra logra a vastidão sólida da arte ativa, eticamente implicada.

O caminho da singularidade artística, e logo da resistência no tempo, lemos para aprender, estará menos na opção por esta ou aquela solução, contra ou a favor de uma ou outra corrente formal, mas na medida em que a fatura ela mesma se nos deixa adivinhar, sem prefácios, a pré-ponderação e o discernimento que caminharam o escritor à solução com que depara o leitor, este com ela em mãos, remoendo-a, ruminando-a, depurando-a, para então predicá-la, tomá-la para si, misturá-la aos outros molhos e usá-la contra o mundo.

Ler Inferno Provisório confere a nós, além da satisfação de colidir obra madura, e o consequente orgulho de partilhar uma língua vivíssima no léxico, na semântica, na gramática e no discurso, façanhuda caixa de ferramentas para compreender e trafegar melhor no amosaicado Brasil atual.

Da inteligência

Brotaram flores
nos meus pés.
E o quotidiano
na minha vida
complicou-se.

– Hilda Hilst

Nunca foi tão difícil driblar a inteligência, mas o motivo é simples. Nos séculos passados da era moderna, quando experimentamos a convivência plural com mobilidade social, a face impessoal da inteligência era irreconhecível. Misturavam-se os conceitos de habilidade e inteligência, e o clichê era dar àquela o nome desta. Alguns seriam mais, outros menos inteligentes, donde a inevitável desigualdade rancorosa, e não raro deturpada, no mercado dos méritos.

Corre o tempo em que descobrimos, ainda sem coordenar dignamente potência e produção, a inteligência em trama dinâmica e crescente, universalmente acessível e absolutamente impessoal. Os efeitos da descoberta poderão ajudar-nos a relaxar as falsas tensões da competição, reforçando as autênticas, e dissolver os falsos dilemas do desejo, tornando mais duros, múltiplos e coesos os autênticos.

Entender e determinar por que lutar e como curtir a vida, sem precisar reinventar a crise romântica diariamente, tornará a realização política da convivência, bem como a autonomia espiritual da vida leve, tarefas mais abertas à novidade e menos entulhadas das manhas pré-fixadas que, outrora, invocávamos para dirimir os riscos e aumentar a previsibilidade dos empenhos. Mais equilibrados e menos temerosos, faremos mais com menos.

Está em nossas discussões e mentes não mais saber qual lado ocupar antes da luta, nem tampouco saber onde balizar, fora de si, as manobras da vontade. Antes, a tarefa seria saber manter e contrastar, atender e coligar as prioridades eventuais. Livres das supernarrativas que cuidavam, a depender das contingências do indivíduo, de restringir suas potências a certos modelos de submissão ou contravenção.

Na prática, vive-se individualmente num corpo que se quer produtivo e singular. Tal corpo pertence a algumas jurisdições variáveis mas comunga, ainda e de forma crucial, a língua e os códigos de convivência de um território dito nacional. Atentar a esta premissa, por difícil que seja num momento de globalização digital e tentações anarquizantes, seria a língua franca da ética da transição. Não por orgulho ou saudosismo, mas por facilitar os processos e liberar tempo de rinha para invenções frutificantes, ócio alegre e a infinita descoberta de si.

Na prática, portanto, almeja-se convergir a energia despendida no acesso à face impessoal da inteligência para dar cabo de tarefas necessárias consideradas impensáveis nos séculos passados: reformar uma constituição nacional em poucos meses, redesenhar completamente a atuação da governança pública, tornar os cidadãos proprietários efetivos das cidades, revolucionar o ensino no espaço de uma geração, para ficarmos nalguns exemplos óbvios.

Está em nossas discussões e mentes não mais contrapor ideias fundamentais sobre para onde ir, mas escolher a velocidade com que queremos ir.

QUAL SERÁ MEU FIM?

OFERTA

Se sua editora atua no mercado jovem ou do ensino médio, este autor informa ter bem encaminhado um livro de filosofia com o título Qual será meu fim? – O desejo e a cidade. Para obter mais informações, tratar em casa@tourobengala.com.

SINOPSE

Sem encostar na história da filosofia, nem tratar de teorias disso ou daquilo, mas citando o exemplo de homens inspiradores como Sócrates e Jesus Cristo, o opúsculo pretende apascentar as práticas do autoexame e da crítica social a partir de problemas atuais, levando em conta a novidade digital e a exaustão das grandes cidades.

As narrativas de Sócrates e Jesus como epítomes do homem político bastam para uma apreensão filosófica sólida. Formam, através de um alicerce ético descomplicado, o patamar da independência e da voz ativa singular. Daí, se busca e se cria, administrada a sismografia do constrangimento psicológico e da incompletude mal aceita, as novas, necessárias e importantes possibilidades de autodescrição e felicidade.

uma tradução: Wallace Stevens

Ave negra treze vezes


Nos tantos montes claros
Nada se movia
Só um olho da ave negra

••
Eram eu três almas
Como a árvore
Na qual três aves negras

•••
Ventava a ave negra era setembro
Era um trecho da pantomima

••••
São um, homem e mulher
Homem, mulher e ave negra
São um

•••••
Não sei o que prefiro
Se o belo dos desvios
Ou o belo das alegorias
Se da ave negra o canto
Ou seu descanso

••••••
Brincos de suor enchiam
A janela de um visco esquisito
Da ave negra a sombra
Cruzava, indo e vindo
Num traçado cujo humor
Nos escapava

•••••••
Ó magruço de Goiânia
Por que vês amarela
A ave negra ao pé
Da mulher que te rodeia?

••••••••
Sei bem dos nobres gestos
Dos lúcidos, chicletosos ritmos
Mas sei também que
Mete-se a ave negra
Em tudo o que sei

•••••••••
Ao voar para longe, a ave negra
Riscou a beirada
De um de muitos círculos

••••••••••
Era ver a ave negra
Voando na luz verde
Que a própria musa do tom
Desafinava

•••••••••••
Viajou Goiás afora
Num longo carro de vidro
Uma vez, pinçou-lhe um frio
Assim que confundiu
A sombra da bagagem
Com aves negras

••••••••••••
Corre o rio, corre o rio…
Só pode estar voando, a ave negra

•••••••••••••
Era tarde demais
Estava nevando e
Ainda ia nevar
Sentava a ave negra
No espinhaço do angelim

* * *

Thirteen Ways Of Looking At A Blackbird

I
Among twenty snowy mountains,
The only moving thing
Was the eye of the blackbird.

II
I was of three minds,
Like a tree
In which there are three blackbirds.

III
The blackbird whirled in the autumn winds.
It was a small part of the pantomime.

IV
A man and a woman
Are one.
A man and a woman and a blackbird
Are one.

V
I do not know which to prefer,
The beauty of inflections
Or the beauty of innuendoes,
The blackbird whistling
Or just after.

VI
Icicles filled the long window
With barbaric glass.
The shadow of the blackbird
Crossed it, to and fro.
The mood
Traced in the shadow
An indecipherable cause.

VII
O thin men of Haddam,
Why do you imagine golden birds?
Do you not see how the blackbird
Walks around the feet
Of the women about you?

VIII
I know noble accents
And lucid, inescapable rhythms;
But I know, too,
That the blackbird is involved
In what I know.

IX
When the blackbird flew out of sight,
It marked the edge
Of one of many circles.

X
At the sight of blackbirds
Flying in a green light,
Even the bawds of euphony
Would cry out sharply.

XI
He rode over Connecticut
In a glass coach.
Once, a fear pierced him,
In that he mistook
The shadow of his equipage
For blackbirds.

XII
The river is moving.
The blackbird must be flying.

XIII
It was evening all afternoon.
It was snowing
And it was going to snow.
The blackbird sat
In the cedar-limbs.

FRNKNSTN: update

Leitores perguntam quais concertos para violino do repertório romântico eu recomendaria, já que passei horas ouvindo-os enquanto fazia Frankenstein Revisitado.

Não tenho favoritos absolutos, e se algo aprendi ouvindo música é que, tirando as obras primas, ou mesmo elas, as outras nos tocarão variadamente a depender do humor da ocasião.

Rememorando os dias dedicados a este trabalho, porém, elencaria as seguintes peças mais marcantes, todas concertos para violino compostas no século XIX:

• Opus 61 de Beethoven
• Opus 64 de Mendelssohn
• Opus 53 de Dvorák
• Opus 35 de Tchaikovsky
• Concertos 1 a 6 de Paganini
• Opus 26 de Bruch
• Opus 47 de Sibelius
• Opus 77 de Brahms

–––

Aproveito a postagem para dividir questões, a partir da contagem de palavras do romance de Mary Shelley.

Em Frankenstein, a autora usa o termo ‘mind’ (mente) 98 vezes; ‘head’ (cabeça) 26 vezes; ‘brain’ (cérebro), uma vez.

Ao consultar o corpus textual da ficção em inglês no nGram, a relação entre mente/cabeça de Frankenstein respeita a relação indicada na varredura do software quando da publicação, em 1818. Passados 200 anos, no entanto, a relação se inverteu. Por quê?

Suspeito a explicação na aderência do discurso da prosa ficcional aos achados das investigações científicas. Neste tempo, a Ciência desprezou ‘mente’ para favorecer os mais materialmente corretos termos ‘cabeça’ e ‘cérebro’.

Note-se, entretanto, na virada da revolução digital, inflexão negativa em ‘cabeça’, e positiva em ‘mente’, mantendo-se ‘cérebro’ em lenta mas positiva evolução. As viravoltas podem ser apenas soluço, mas podem não ser, o que acusaria reversão da tendência observada nos dois séculos passados.

Intrigante, o fenômeno atualizaria nosso momento à luz do momento de Mary Shelley.

Ora, se for este o caso, resta perguntar: o que explicaria, hoje, tal guinada a repriorização de ‘mente’?

tratado das três faces

Doria, Silvio Santos e Zé Celso entram numa sala de reunião. A força histórica do encontro é mais importante que as miudezas do assunto. Sentam à mesa o típico capitalista brasileiro, riqueza ciosa de si e de sua perspectiva inflexível porque veio de baixo; o típico poeta brasileiro, popularíssima erudição mais ou menos desperdiçada, mais ou menos desenganada; enquanto media ou não media o tempo o típico político brasileiro, capaz de pensar, a cada passo, na própria carreira antes de pensar na coisa pública. Um roteirista premiado seria incapaz de atribuir as falas, tempos e deixas melhor que o que de fato aconteceu. A cena, captada em vídeo digital, foi publicada na internet.

Por que a força histórica é mais importante que o assunto em si?

Bem, não bastasse a representatividade generosa, atual e precisamente encarnada de tipos nacionais protagonistas de nossa formação, o jogo de tensões representado, mas não encenado, ajuda a visualizarmos os credos de cada um. Melhor que um alentado estudo sociológico, as falas espontâneas de Doria, Silvio Santos e Zé Celso, apontam com depuração arquetípica e eficácia semiótica, às vezes num simples trejeito, num ato falho, no modo com que provocam, se deixam provocar ou respondem a uma provocação, no modo com que anunciam seus desejos e restrições, escondem ou revelam seus ressentimentos, diluem ou acentuam os conflitos, algumas das estruturas essenciais da dinâmica de poderes em certame no Brasil. O vídeo, amador, poderia desde já ser colocado ao lado de Casa Grande & Senzala, Raízes do Brasil e Os Donos do Poder, como um documento de acurada síntese de nossas forças e fraquezas, ameaças e oportunidades.

O poeta quer que todos sejamos poetas, e que troquemos a ganância particular por uma vida boa na cidade aberta. O capitalista não quer ver seu esforço desmerecido de repente e do nada, como se todo seu trabalho pudesse ser diluído da noite para o dia. O político não pode ser o anjo de que gostaríamos, pois crê ter altos planos para nosso futuro, planos que só ele será capaz de concretizar, e deve ser maquiavélico antes de esbanjar bom coração. O capitalista, a um só tempo, desmerece e idolatra o dinheiro, e mascara-se inúmeras vezes no eufemismo do clichê preconceituoso para contrastar a vida vadia, licenciosa e ‘mal sucedida’ do poeta. O poeta é leitor da cultura universal, e porque um capitalista resta há tempos decifrado e repisado, esquiva-se dos golpes baixos com facilidade, mas é incapaz de vestir-se nos termos do oponente, acentuando, na ingenuidade de suas demandas, o abismo irrevogável entre as duas visões de mundo. O político tem assuntos mais importantes para tratar antes de apaziguar um choque de vaidades entre senhores cujos legados estão para lá de concretos, de modo que responde mecânica e desapaixonadamente, entoando um ‘qualquer coisa’ para sair logo dali. A rigidez do capitalista, sua inabilidade em pensar fora do próprio bolso, a fragilidade declarada do poeta, a serviço de seu desprezo atávico pelos gananciosos, e a frieza do pragmatismo superficial do político, concentrado em expandir seu domínio sobre nós, custam aos habitantes e trabalhadores da cidade tempo e saúde irrecuperáveis. Perdemos todos, mas a lição é boa.

lendo os novos: sem vista para o mar

Nem maremática mnemografia matura assustadiça, nem ripanço febril da ortodoxia sintática em privilégio: o livro é nada tranquilo vem lido na garupa da motoneta, velha, engasopada.

Caminhoneira, nem tampouco em meimendro transgênero pueril faz desejar sexozinhos de anjos recém-quistos. Não desbasta sobrancelhas casimira a narradora rosiana?

Forma breve é susto cômico cinemático, trote casquicheio na ramela craniana do leitor arrebatado; num segundo instante, arrebitado, todo respeito.

Ela ordenha numa mão e a outra sufoca, ducta muito em peso lépido, concentra e sapateia, voz inseminada bucha olhos da pele. Tem calos na mão e shortinho de ginasta embaixo da saia. Desencantada, desenganada, amplo gesto coração sagaz.

À página 107:

O grito aciona o cordado a fazer o que sabe e voa reto pra fonte o buraco escuro da minha cara onde ainda perfuma o chocolate quente. Esguio pro lado mas o cabelo que não se penteia e mal se lava faz triscar a cartilagem da asinha em armadilha que não queria ser. Bate debate a minha orelha e uma pastilha mentol desce bombeira pela espinha dorsal. Respira cavado que a calma acalma ele.

Casos assim suscitam, logrará frevo tão prisco se na forma menos breve? Tornará a salsa rímica, einsensteiniana, em arrimo das estâncias do quedar menos bailoso, mais esticado? A ver.

* * *

Sem vista para o mar
de Carol Rodrigues
Edith, 2014
124 páginas
R$ 30,00

tese

Sendo verdade apenas quatro Novelas existirem, apesar de tantas escritas, resta entabular suas propriedades, à guisa de verificação genética.

1400

Nasce a Novela. Decameron (Bocaccio) é uma imagem do mundo composta por imagens sistemicamente entrelaçadas, emoldurada e socialmente sã, nem final, nem exclusiva.

1600

Se Decameron é o Moderno em Novela, Quixote (Cervantes) inventa a comicidade do pós-modernismo. Daqui em diante, o metadiscurso não se apartará da obra. O lugar cativo da inovação, sem que se percam fábula e exemplum, será o lugar narrativo.

1800

Frankenstein (Sra. Shelley) é escrito com Quixote à direita e A Peregrinação de Childe Harold à esquerda. Sobre as colunas da tradição e da intimidade, sopra o vento irônico da fala cientificista.

2000

Viva e macerada, a demanda do cálice é absorvida pelo Homem Literato. Um poema sem palavras num deserto de sons. Eis Detetives Selvagens (Bolaño), a quarta Novela não apenas escrita, mas jamais existente.

uma ideia para ‘minha casa, minha vida’

As fotos que vi dos projetos de habitação popular recendem o futum da imaginação pobre. Ninguém merece uma casa fria, insossa, em nada orgânica. Que dirá das famílias a habitar o bojo vasto do precariado, num país de patrícios insensíveis e políticagem espúria.

Nossa ideia para extorquir o programa Minha casa, minha vida de seu futum recendido via tristes imagens de esquadrias de alumínio por onde se passa um bebê e nada mais, cômodos minúsculos, profusão de paredes, porcelanatos horrendos, e frieza de cal e de morte, esboça-se a seguir:

É uma casa onde se toma juízo da arte da domesticidade essencial: a terra, o céu, a água, o fogo, o dia, a noite, e as plantas.

Num terreno de 9 por 9 metros, constroem-se 70 metros quadrados, sendo 50 (~7×7) no piso térreo, e 20 (~3×7) em patamar.

Ao centro, FOGO: forno a lenha, chapa e bocas, em adobe de radiação, e evacuação superior de fumaça.

Atrás, ÁGUA: pedras onde se lavam corpos, vestes e utensílios, com filtragem, reuso, e quedas em volumes vários.

Nas laterais, JANELÕES: enormes molduras de madeira a vidros em temperamento e difusão ótica, basculantes.

Em frente aos janelões, PLANTAS: espécimes da flora local em vasta jardineira modular de cerâmica.

À frente, PÓRTICO: enorme moldura de madeira a trabalho entalhado e único em madeira, em trilho.

À frente do pórtico, SOLEIRA: híbrido interior/exterior em pedra e madeira, ajardinado.

Entre água e fogo, CASA NOTURNA: espaço de ceia, leitura, jogos íntimos, meditação e sono. Piso de junco recolhível sobre concreto.

Entre fogo e pórtico, CASA DIURNA: espaço de trabalho, exercícios biomecânicos, atividades de manutenção e confraternização. Piso de concreto.

Sobre a casa noturna, SOLARIUM: mezanino amadeirado com cisterna, horta, ponto de energia e telecom e área livre.

No suporte, VIGAS MESTRAS: fortes toras a demarcar o limite da unidade, sustentar paredes, patamar e telhado.

12 unidades com ÁGUA voltada para dentro formam um amplo círculo, chamado “QUADRA”, em cujo centro arborizado há recanto para aves e insetos, micro-unidade de tratamento de descartes, e espaço para confraternização. Seis “quadras” unidas podem dar num quarteirão, servido enfim por vias por onde passa o transporte público e os veículos de serviço.

* * *
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sedição é chance: nota sobre a crise espanhola

Conforme escrevo, a gente catalã está fechada à vontade do Reino de Espanha. Acabo de assistir, num streaming em tempo real, a uma plácida e alegre caminhada dos bombeiros da Catalunha, em prol da autonomia indepedentista nacional. Trens, metrôs, ônibus, portos e estradas estão parados, num ato de represália à violência policial de Madri do domingo passado, quando o mundo quedou-se um tanto estarrecido ante as cenas de idosos e mulheres arremessados ao chão e chutados por enormes agentes da força espanhola. Numa das fotos mais belas, centenas de tratores, encaminhados das zonas rurais da Catalunha, fechavam as vias de acesso ao centro de Barcelona no domingo do referendo, de modo a impedir a chegada de novas tropas do batalhão do Reino.

Mas o que quer, afinal, a gente catalã? E por quê? E o que quer, por seu turno, o Reino de Espanha? E por quê? Ainda: por que tal evento, cujos desdobramentos restam imprevisíveis, é importante para nós, cá no Brasil?

Como toda gente, a gente catalã quer curtir a vida. Seria inacreditável se não fosse assim. Por seu turno, o Reino de Espanha não deseja desmembrar-se, desejo que tampouco chega a ser exorbitante a um organismo cuja identidade se expressa na união de suas partes. A crise atual acusa incompatibilidade entre os modos de propor os desejos de um e de outro lado.

Converse com um estudante catalão. Ele demonstrará, serena e lucidamente, que sua narrativa independentista está correta. Converse então com um agente do governo de Madri, ou mesmo com o editorialista do periódico El País, e eles demonstrarão, serena e lucidamente, que sua narrativa é legalista e, portanto, correta. No meio das conversas, uma e outra parte afirmarão o pacto democrático, a vontade popular, a soberania, o cristal teleológico do dínamo contratualista a reger a configuração política da convivência. Dois lados, nenhum deles errado. Como proceder?

A saída será uma de cálculo projetivo, estatístico e poético (posto que expresso em narrativas ansiadas), a partir do fio vermelho que teceu a nossa história. Numa leve e funcional distorção da fábula hercúlea do labirinto, seria o caso conjurarmos a prudência de Ariadne – não por retornar por onde entramos, mas para adivinhar e fazer o melhor dos mundos a seguir. O cálculo não é só estatístico: é também poético. Isto quer dizer: entre os vários cenários possíveis e queridos de desdobramento, a eleição se dará também em chave quente e apaixonada, sanguínea e vibrante, de uma confabulação de sonhos cruzados e ingenuidade imanente.

Leiamos por um instante o poema ‘Oda a Espanya’, do poeta catalão Joan Maragall (1860–1911), em tradução de Fábio Aristimunho Vargas:

Escuta, Espanha, a voz de um filho

que fala em língua não castelhana:
falo na língua que me legou
a terra áspera:
língua em que poucos já te falaram;
na outra, demais.

Mais te falaram dos saguntinos
e dos que pela pátria morrem;
das tuas glórias, tuas lembranças,
lembrança e glória de coisas mortas:
viveste triste.

Quero falar-te de outra maneira.
Por que verter o sangue inútil?
Dentro das veias o sangue é vida,
vida de agora e dos que virão;
vertido, é morte.

Muito pensavas em tua honra
e quase nada em tua vida:
teus filhos, trágica, à morte os davas,
te saciavas de honras mortais,
e os funerais eram-te festa,
ó triste Espanha!

Eu vi os barcos zarparem cheios
de filhos dados por ti à morte:
iam alegres a seu destino;
e tu cantavas à beira-mar
como uma louca.

Cadê os barcos? Cadê teus filhos?
Pergunta ao Poente e à onda brava:
perdeste tudo, não tens ninguém.
Espanha, Espanha, retorna a ti,
dá teu pranto de mãe!

Salva-te, oh! salva-te a tantos males;
faça-te o pranto fecunda, alegre e viva;
pensa na vida que te rodeia:
ergue a cabeça,
sorri às sete cores que há no arco-íris.

Não te vejo — onde estás, Espanha?
Não ouves minha voz tonitruante?
Não sabes esta língua que te fala entre riscos?
Desaprendeste de entender teus filhos?
Adeus, Espanha!

Agora, leiamos as estrofes 18, 19, 20 e 21 do ‘Cántico’ de San Juan de la Cruz (1542–1591):

  ¡O ninfas de Judea!,
en tanto que en las flores y rosales
  el ámbar perfumea,
  morá en los arrabales,
y no queráis tocar nuestros humblares.

  Escóndete, Carillo,
y mira con tu haz a las montañas,
  y no quieras dezillo;
  mas mira las compañas
de la que va por ínsulas estrañas.

  A las aves ligeras
leones, ciervos, gamos, saltadores,
  montes, valles, riberas,
  aguas, ayres, ardores,
y miedo de las noches veladores:

  Por las amenas liras,
y canto de serenas os conjuro
  que cessen vuestras yras
  y no toquéis al muro,
porque la esposa duerma más siguro.

Ora, o que temos aí? O que temos aí senão a celebração dialógica de uma cultura antiga e forte, tão radical quanto dinâmica? Nós, no Brasil, somos pelo menos 33% Ibéria, e a Ibéria é nada menos que o Brasil da Europa, tendo lá amalgamado, antes de nós, África, Roma, Arábia e Saxônia. No entardecer do Império brasileiro, Pedro II e seus conselheiros viam brotar no tabuleiro do território miríades de manifestações similares, revoltas carentes, sedições separatistas. Tanto nos faz pensar o que carrega de Recife, Barcelona. E como a força nacional foi capaz de superar os desejos de separação, impondo-se muitas vezes não como um pai responsável, mas como um irmão invejoso. Sempre que volto aos registros das revoltas que antecederam a República, penso, ao lado de Joan Maragall, que cabe ao governo central a postura paternal e responsável — olhar suas regiões como filhos, calando-lhes quando suas demandas são imaturas, sentando-lhes à mesa quando soarem persuasivos. Filhos que crescem, amadurecem e desenvolvem projetos de autonomia, mais dia, menos, dia, conversam de igual para igual. Se o Império Romano seguisse apenas seus anseios, não haveria Espanha. Espanha é filha de Roma, que soube crescer, desejar e falar por si.

Os Estados Nacionais nasceram graças a uma ruptura, mais ou menos pacífica, a depender do caso, dentro dos sistemas feudais e absolutistas. Hoje, no seio da globalização tecnológica, testemunhamos a expressão rediviva do orgulho local. As cidades, e não mais as nações, estão crescendo e se afirmando como pólos de inovação comercial e política. Em mais ou menos tempo, as culturas nacionais serão resíduos simbólicos, expressos e cultivados em seus mais honrados produtos. Nos lembraremos deveras do cinema espanhol de Buñuel e Almodóvar, da guitarra espanhola, flamejante e virtuosa, do queijo da Mancha e da paella de Valência, da cava, da pata negra e do tempranillo, mas não mais visitaremos um país, e suas antigas fronteiras serão meras curiosidades historiográficas. Visitaremos Córdoba, Madri, Barcelona e Oslo, ou nomes todavia insuspeitos, pois é alegremente amalucada a toponímia da quarta revolução industrial. Os países, cedo ou tarde, cederão à lei internacional, à licença autônoma das diversidades regionais, e à alegria dos fazedores dos primeiros dias dos muitos novos mundos. Assim aponta a maturação do Direito, e da expressão política popular.

Vejo a sedição catalã como uma oportunidade. Sob o topos amargo da desavença, dá-se à Espanha uma chance de ouro. Assumir as rédeas e tornar nobre o desenlace é o que se espera de uma cultura que legou ao mundo tamanha Arte, tamanho Ritmo, tamanha Política. Que mantenha-se altiva e imperiosa, e não ceda nem rebaixe-se aos queixumes tonitruantes de um filho sufocado e irritadiço. Há 40 anos talvez não fosse a hora; hoje, talvez, seja. Hora de sentar e ouvir a voz do filho que, enfim, se quer tão pai quanto.

Nada apagará da História as façanhas espanholas. Ao contrário: a cultura planetária dedicar-se-á a contemplá-la e a consumi-la, repetindo seu Nome em admiração e pesquisa, quanto mais motivos tiver de dela se orgulhar. Este orgulho hoje depende da condução augusta e serena, não ressentida nem orgulhosa, muitíssimo menos violenta, da crise que se desdobra em chance de ouro. Condução de quem raciocina junto a um filho bem nutrido e capaz, com ele arrazoando os novos termos de su desejada e nova autonomia, morrendo para não morrer, como pediu Santa Tereza, amando-o e bem querendo-o, con llama que consume y no da pena.

lendo os novos: noite dentro da noite

Se eu fosse um resenhista, batizaria-o com um nome brasileiro corriqueiro, de preferência associado às camadas mais populares da sociedade. Um resenhista, formado no arcabouço de humanas das poucas Universidades brasileiras, afinal, tende a ser mais respeitável conforme se alie às perspectivas esquerdizantes da crítica, contra os antigos donos do poder, pelo poder aos novos poderosos, quem sabe inexistentes.

Na minha coluna de hoje, iniciada no dia 2 de julho de 2017, diria, em nome de meu heterônimo carismático, que principiei o dia, um domingo fresco, quieto, digno, demorando-me na figura ‘Os jogos e os enigmas’, estampada à página 2 da Ilustríssima. Óleo de Maria Leontina (1917 – 1984), a tela anuncia exposição numa galeria da cidade. O sólido plano configurado por níveis ou camadas de tons quentes lembra um edifício, destacado e coeso, contra o fundo escuro, praticamente negro. Sua luz viaja de dentro das cores andares. Suas portas e paredes vazadas são cores.

Publicada com meu nome verdadeiro mas dita em nome do resenhista popular, o texto lembraria que a pintora realmente existiu, viveu, sofreu, superou, comungou, isolou-se, publicou, exibiu-se e exibiu, meditou e refreou, negou e resgatou, afastou e atraiu, um mundo de coisas. Ela associa-se involuntária e desesperançosamente a um movimento cujo nome mais correto me escapa, a nós, como o faz o Joca Terron neste livro ao grande romance de formação latino-americano – Jogo de Amarelinha e Detetives Selvagens. O autor não comenta, mas esta é uma tradição guardada pelas duas colunas da fantasia escrita na América ibérica, Jorge Luis Borges e Gabriel Garcia Márquez.

Sem muitos rodeios, lembraria que, ainda hoje, antes de submeter minha resenha à editora, viverei o importante evento de quem sabe cozinhar um inhame, cortá-lo em rodelas, refogá-lo na mesma frigideira de sempre, acompanhado de alho-poró, curry, quem sabe shoyo. Dizendo, ou, constatando a previsão, é como se eu já a vivesse, a experiência dita, recontada, imaginada presa quando todos fogem e se escondem. É como, também, eu já vivesse abrir o jornal na Ilustríssima há quase três meses, deparando-me com a composição concreta e harmoniosa, enxuta indecisa entre o solene e o lúdico, de Maria Leontina. E seguiria, com a licença do leitor, lembrando a ele e a mim que uma resenha não se alonga, ou só não mais que o necessário. Certas coisas, entretanto, a gente precisa contar. Pois quando conhecermos melhor o homem por trás dele, dele e do resenhista por trás da leitura do livro do Joca Terron, aproveitaremos melhor essa parte da vida que é ler a resenha por trás dos livros que leremos ou não leremos, a depender de um mundo de coisas.

O homem por trás do resenhista imagina o resenhista desinteressado pelo homem por trás de si. Não por desprezo, mas por impessoalidade analítica, desde que possa ele, quem sabe conosco, ao acessar este domingo, 2 de julho de 2017, ao acessar e remontar um hoje passado e redivivo, enterrado e ressurreto em reação, viver de um ponto de vantagem a utilidade simbólica, a utilidade significante, dos eventos ali iniciados, quando se inicia e se encerra, no cair da noite, a leitura de Noite dentro da noite, livro de autoria de Joca Terron cuja resenha empregará os sintomas por assim dizer originais do homem homem Eu, passivo e consequente manipulador da equivocidade da heteronímia produtiva, tratada e manifesta, recriadora e ativadora se mnemopropulsora dos dias de leitura que seguiram o início da leitura, aos 2 de julho de 2017, no cair da noite dentro da qual rasgará, e com efeito rasga, resenhista à frente, tal e qual fazem as luzes de Leontina, a forma edifício do óleo vibrante da pintora este homem num fundo negro praticamente escuro.

Ora, diz o resenhista, ao que o homem baixa o livro. Você, diz, do centro escondido de seu nome popular e resenhista, ora lembra de Jogos de Amarelinha, às vezes de Detetives Selvagens, mas devo intervir e alertar: não, não é correto, e você não há de diminuir a análise assim, aditando desbragado um referencial afetivo antes das citações canônicas, compartilhadas pelas fortunas correntes, criteriosas, depuradas em conjunto aberto e cotejado. Depois, ao comentar ou detalhar virtudes técnicas da criação, o leitor provavelmente desconfiará, sem deixar de amá-la, sua resenha de resto adorável, da adequação da exposição, da competência do resenhista, e logo da sua, e assim, por indução forçada, e desagradavelmente, da dele, ou minha, final e inicial leitor. Ele diz, perguntará o leitor, referindo-se a mim, portanto ao resenhista a cujo homem deve a pedra e a fonte, a terra e o passar das sombras, desde o umbigo ou desde um sólido manancial?

Como num jogo de sombras, dança de escuros delimitada por recortes e compostos da paleta leontina, algo de rico correrá em pressentimento neste embate tensionado entre corpos. Vez que outra, a depender das posições, os corpos, pelo indistinguível que abarcam em sua condição de sombras, perfazem novas, cronoenfermas e insuspeitas unidades. Corpos novos e assombrados sem embate. O resenhista, e isso dizemos agora porque já dissera, ele a mim e eu a ele, antes mesmo de se dar, seu nome pulular e a nossa rica relação ceder, eu a eu e a eu ninguém, ergue em baile alternativo um enquadrar, da Noite dentro da noite, dentro de um vivo movimento literário contemporâneo, internacional, gênero-hibridista, escola atual da produção romanesca capaz de adensar o papel velho da ficção compondo-a junto às fibras rejuvenescedoras da biografia de si e dos próximos, aos contextos, costumes e motivações e consequências políticas da reportagem histórica, ao desafio associativo e divertido do meta-discurso, político e não político. É menos intrusivo, diria, como dirá, ainda que mais profissional, menos presunçoso e mais didático. O relho na mão da crítica, pensa-se, é incapaz de idealizar senão à exaustão.

Mas sendo genealógico e orientado por camadas, Noite dentro da noite hierarquiza apenas o bastante para fazer despespegar a narração dum ethos unívoco, mantendo aberto e lépido o jogo de transmutações e enigmas narrativos (quem? depende para quem; o quê? depende de quem conta; por quê? depende do que vem antes; como? depende de quem quê; para onde? para onde mesmo quando? etc), não deixando clara uma sua heráldica. A cozinha onde já posso ver o inhame a descansar, encascado e bojudo nas marolas encriptadas do alguidar mineiro, é pequena, não passa dos seis metros quadrados, e disputam tamanha exiguidade a barulhenta geladeira do tempo de casado, talvez, a pia íntima dum rajado e praticamente negro granito, o fogão de duas bocas amigas, se pereclitantes, o pequeno mas amplamente útil gabinete suspenso, despensa e cristaleira sem cristais. Um nada. Pois mais vasta é nossa dúvida: que sabe o resenhista do que nos conta a impressão demorada neste óleo sobre tela, pintura de Maria Leontina, o homem por detrás da intenção da resenha, e assim do resenhista ele mesmo, sua voz ainda a fímbria imaginada do fio d’água, nascente, margem infanta do que sai mas não jorra nem estanca, à qual não nos furtaremos de abarcar, tratar, consumir e processar?

À página 382:

Ao ouvir a história que Hugo lhe contava, você lembrou do som de um trovão distante que bem poderia ter sido o estrondo de seu primeiro passo no interior de um pesadelo habitado por bugios que arremessavam bosta fervente de cima das árvores, enquanto atravessava um desfiladeiro vegetal, uma bosta que o despertava, deixando-o mais lúcido. Surgiu então, mas disso você já não tem tanta certeza, o vulto de um índio emoldurado pela janela, talvez o kadiwéu albino visto pela rata naquela noite de muitos anos atrás no hospital de Medianeira em que você se encontrava inconscientemente, ou quem sabe na viagem através do pântanos ao lado de Karl Reiners logo depois do sequestro fracassado do embaixador alemão.

Os arames da cerca eram uma pauta musical que o vento regia na campina lá fora, uma música poderosa como um furacão entortando palmeiras e varrendo o que estivesse sob a tempestade.

Você, lembra o dizer de si ao resenhista o leitor como quem atravessa um espelho apenas para desviar e concentrar a viatura do homem falante num percurso fecundo e incerto, autor e porventura resenhista, se lembra dos trabalhos de Joca Terron na Ciência do Acidente, pequena e admirável editora do início do século, e de poemas e postagens infernais, e despautérios ante às fraudes de autorias tantas, e das tantas e tão malemolentes resenhas, resenhistas à frente, cozinha por habitar, fogo e água num tubérculo falante, e tempos quantos nomes e tempos, heim, em ciclotímica, deveras enferma condição, atados, da curva proverbial dum rio sujíssimo, paisagens e breus suscitados, ociosidades venturosas ou prosaicas de um Brasil profundamente gaucho e impossivelmente gauche.

Hoje, um hoje deveras enfermo por que poroso e produto, recordante e realejo, pressagista e cartográfico, utópico e desabrido, Joca Terron emprega a imbricação multívoca, a pluralidade genética e cirandista do contar, a retidão elíptica ou este pacto na e pela memória da flor do equívoco ou da ficção, tempo este que é ora de um… e justo de tantos, latrina e sanatório dos lugares, scroll de estratos em rebuçadas retículas, ecoantes efeitos, reverberantes, dissonantes, outra vez e ainda inconclusivos efeitos, quem sabe, é difícil dizer, mas suspeito, suspeito que faz hoje assim por dar potência de verdade ao mar de vozes que abarca o crânio mesmo, crânio do mesmo, furor dáctil e motor de um maturado, túrgido escriba.

Ao campear o intercâmbio trapezista no desvelo de rico e quase insone e alguergado enredo, Joca Terron pinta e prove um largo e organizado Maria Leontina, decerto em fundo escuro, mas lídimo no que ecoa e reverbera, assunta e destempera o domingo quando tudo começou, fim e recomeço da memória bando, lá quando se se caía a noite, lido o jornal e consumida a sopa quente, seria seguir e dormitar as ausências, quente e forte de picante e termogênica, e seu quadro evoca o timbre e a virtude do incerto, caos que só se rende à poesia curada, ao enigma nem tão aberto quanto prenhe, tragado e urdido na solícita juventude dos números, à vida vivida e ao medo superado. Invadir com noite a noite é errar, quando ruma fonte nova ao fogo lento, no tempo brevíssimo que nos mostra ou faz erguer a outra casa do sol.

* * *

Noite dentro da noite
de Joca Reiners Terron
Companhia das Letras, 2017
464 páginas
R$ 53,90

lendo os novos: nunca houve tanto fim como agora

O poeta português Herberto Helder e a brasileira Hilda Hilst são alguns dos convivas do narrador. Salvo pela mais nova namorada, ele deixa o despautério do Relento e vem contar o que viveu. Na casa nova, tudo é avesso ao descaso. Há, por exemplo, uma quem sabe obsoleta estante de livros. Daí que, mesmo sem dispor de intimidade com a cultura letrada, o narrador imita a leitura de que gosta e arrisca escrever. Resultado? Fôlego breve, demasiado repetitivo. Adorno neobarroco, não raro. Mais enforma que informa, o narrador.

Mas que era a vida do narrador no Relento? Miríade de infortúnios. Vida orgânica, patética, sofrida, sem fim. Isso quando sorte. Quando azar, não era, seu corpo, menos que cátedra do desconsolo. Entre humilhação e ignomínia, sem posse sequer de um nome certo, o circuito afetivo mnemônico do principiante na escrita só não nos leva às lágrimas por ser demasiado repetitivo, num fôlego breve que remete à maneira neobarroca do fazer.

Faz rir? Às vezes, pela ingenuidade. Mas logo o leitor se policia. Recobra tratar o papel de um ortodoxo do abandono. A rua, vemos nós da elite, soergue-se, se tanto, em ranho e ramela. Constrange, o avatar consciente do desvalido. No entanto, isso ocorre na mesma cidade capaz de violentar a inteligência de seus rios. Rir? Menos e cada vez menos.

À página 144:

Se o amor fosse o que é a rosa, e eu fosse feito uma folha, as nossas vidas cresceriam juntas no tempo sombrio ou no tempo de uma canção, nos campos ventosos ou nos cercados floridos, no prazer verde ou na dor sombria. Se o amor fosse o que é a rosa e eu fosse como uma folha. Se eu fosse o que são as palavras e o amor fosse como uma melodia com um duplo som e um único deleite, confundir-se-iam os nossos lábios com alegres beijos como são os pássaros que procuram a suave chuva do meio-dia. Se eu fosse o que são as palavras e o amor fosse como uma melodia.

Fica clara a pena tacteante, neófita. O narrador, premido a escrever, acaba por se repetir em fôlegos curtos. Confunde amiúde função com enfeite. Neste trecho, não só se lança ao tema interditado na escrita séria como acusa, na candura da metáfora, fatura de bagagem diminuta. Ler a produção contemporânea, entretanto, é dispor-se, por serviçal dever, às vozes que contêm multidões. Depois dizem se presta.

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Nunca Houve Tanto Fim Como Agora

de Evandro Affonso Ferreira
Editora Record, 2017
158 páginas
R$ 37,90

um diagnóstico: retorno

O texto de ontem [um diagnóstico] não gerou muito impacto de visitas. A geração predominante na internet (pós-gêneros 14 a 24) deu ao post a tag TLDR, abreviação em inglês para ‘Muito Longo, Não Li’, e preferiu passar o olho nas sinopses. Os leitores mais velhos, no entanto, acharam razoável, mas parte expressiva caiu na armadilha que armei bem armada.

Um deles, aposentado que descobriu a militância política tarde na vida mas nem por isso se deixa desmotivar, escreveu ecoando um cacoete bastante desagradável da esquerda formalista, que eu justamente pretendia ver sair da toca: “criticar a corrupção, no fundo, é meio cafona”, escreveu.

Esta esquerda, encantada numa insularidade duplamente antipática (diminuição moral do mercado, de um lado, e nojinho ante a vida comum do trabalhador naturalmente de direita (cioso de suas posses e das leis escritas), do outro), prefere ser conhecida como ainda acidulante a perder os charmes sessentistas missionários da boina preta e dar as mãos pra gente que trabalha e não fala nem faz questão de falar francês.

É uma pena, pois muitas nobres inteligências brasileiras hoje estão assim infectadas sem saber, desvirtuando jovens com pretensões intelectuais. Algo triste: ver um jovem que já foi pobre mas no segundo ano de uma faculdade pública de humanas qualquer se deixa levar pela figura do protótipo do reclamão teórico, quando o que ele deseja, em seus fundilhos, é não pegar no batente para se dedicar à ‘luta’ e aos ‘estudos’.

Pode ser natural, mas é muito irônico, que justo a produção de ideias da esquerda fique, ao fim e ao cabo, mais distante da realidade do trabalhador comum do que 5 minutos de palestra de um vendedor de esquemas pirâmide. Este fato, cujas consequências talvez nem tenhamos começado a ver, adormece o Brasil.

A cafonice de criticar a corrupção sempre existiu na crítica da esquerda. Afinal, a corrupção é, como gostam de dizer desde Rousseau, da hipocrisia da ’natureza humana’, e o importante é vencer o Capital. Mas ela foi exacerbada com os paneleiros canarinhos de 2013, os tais que supostamente derrubaram o PT. Compreensível?

Odiada por ter apenas coletâneas de MPB, e nunca os discos originais do Caymmi, a classe média deste país sofre injustamente na mão das crias da ciência política importada da Europa. Sempre atacada por sua estreiteza estética (o shopping da Barra, as casual fridays da Vila Olímpia, a festa de Barretos, dizer ‘eu fiz Itália, Grécia e Espanha’ e nunca ‘eu fui/estive/viajei a Itália, Grécia e Espanha’ etc), esta classe média tornou-se um alvo-joão bobo, quem sabe inexistente, e passou a constar nas cartilhas como pré-requisito nas manifestações públicas da redação engajada. Prova cabal de que a esquerda conversa entre si, cultivando piadas internas e pagando os dízimos à patrulha, e nunca conosco. Outra ironia: o discurso de transformação social, oriundo da Academia, e nunca das barricadas, hoje tem menos impacto prático do que a fala de qualquer pregador, de qualquer religião, dirigindo-se sinceramente a seus devotos sobre a bondade na vida.

Quando um termo como ‘corrupção’ ganha os holofotes, é importante não se enrolar nele. Uma das tarefas, para tanto, é praticar o distanciamento, saindo dos jornais diários e buscando sua longa duração na história. As duas raízes indo-europeias que o compõem (*kon-, ‘junto’, e *reup-, ‘ruir’) indicam a união para o estrago. Um trabalho coletivo de negação. Seu antônimo preciso é ‘construção’, um trabalho coletivo de afirmação.

Um exemplo bastante autoevidente de corrupção pode ser visto neste esquete dos irmãos Marx:

Ao observar a evolução do emprego dos dois termos, corrupção e construção, no corpus livresco da língua inglesa (não há, ainda, a tecnologia de aferição lusófona, infelizmente), notamos a curiosa figura:

Ora, a tendência parecia boa até 1977, quando morre o Groucho e estreia Star Wars. Daí em diante, ‘construção’ vem caindo e ‘corrupção’ subindo. Mas isto não indica, necessariamente, que a corrupção vem crescendo e a construção diminuindo. Talvez a sociedade, de quem os escritores de livros são antena, esteja mais acostumada, da morte do Elvis e da estreia dos Sex Pistols para cá, com a construção, e mais alerta para a corrupção, donde esta ocupar mais os livros que aquela. Pode ser. O que não explica, mais uma vez, o cacoete da esquerda brasileira a repetir que criticar a corrupção é pactuar com a cafonice dos muambeiros de Miami.

Como eu apontei no diagnóstico de ontem, o Governo deve ser uma empresa exemplar, e não existe absolutamente nada que distinga a gestão pública da gestão não pública. Orçamento é orçamento, custo é custo, recurso é recurso e retorno é retorno, seja ao vender iPhones, seja ao fazer uma ponte. Quando criticamos a corrupção, criticamos, sobretudo, o trabalho voluntariamente pior do que poderia ser. Não se trata, estritamente, do aspecto policialesco da corrupção. O crime de colarinho branco, aliás, é outro fetiche da esquerda intelectual que ela gosta de projetar na classe média trabalhadora, esta que só quer ficar em dia com os impostos, gerar empregos e curtir a vida honestamente. Se entre duas opções de contratação ou compra de materiais, a pior escolha é feita, deu-se corrupção da função gestora-executiva, importando menos se alguém desviou ou foi desviado.

O mercado, o dinheiro e a concorrência são inexpugnáveis da realidade, na medida mesma em que são melhoráveis, quanto menos e menos corrompidos forem a gestão e os processos. Tanto o Governo quanto uma empresa não pública são admitidas em nossa realidade mediante uma razão de ser e um contrato acessível. A integridade das pessoas jurídicas pressupõe a aceitação e o de acordo do organismo social, e toda corrupção é uma forma de traí-lo e sujeitar-se a boicotes, sanções e penas, das cármicas às judiciais.

Limpar a corrupção, para repetir o clichê, é um trabalho sem fim, mas começa cedinho, todo dia, em casa.

um diagnóstico

Aos 38 anos, tendo convivido, em âmbitos variados, do profissional ao festivo, com as gerações anterior e posterior à minha, com classes de ofício várias, das mais comprometidas com o estabelecimento, às mais sedentas pelo novo, e tendo passado por um treinamento razoável, ainda se autodidata, em coleta etnográfica e organização taxonômica, sinto-me livre e seguro para compartilhar com meus leitores um diagnóstico preocupante.

O diagnóstico diz respeito ao organismo social, corpo sem dono cuja inteligência compomos e compartilhamos a cada e todo instante, mediante cada e todo gesto e fala que produzimos. A inteligência do organismo social não é suprema nem infalível. Mas é tão alta quanto o mais alto de que formos capazes. E cresce, também, conforme crescemos. A viabilidade das conversas incessantes com os ruídos, da fluidez perspectivista, e da atualização ligeira no uso das gírias prova isso.

Não há nada de predestinado no organismo social. Nada fatalmente inscrito. Nosso livre-arbítrio, entretanto, é produto da rede histórica dos desejos de todos os homens. A rede histórica dos desejos de todos os homens, infelizmente, é invisível. Visíveis, graças às ferramentas de manipulação material, são os desenhos dos homens. No começo, éramos poucos. Multiplicamo-nos e formamos uma grande família planetária. Nossos desejos encarnam-se em desenhos, desenhos que hoje constituem e representam o organismo social.

Não há liberdade fora do organismo social, e o organismo social não tirará a liberdade de ninguém. Por que lutamos? Porque sofremos. Por que sofremos? Porque muitos dos desenhos, lá atrás fixados em instituições, em crenças, e em processos, são às vezes garranchos, rascunhos trepidantes, indevidamente aceitos como desenhos finais. Quando sofremos ao constatar uma falha sistêmica aqui e ali, não é, necessariamente, que alguém foi absolutamente malicioso. É que muito desenhamos conhecendo pouco. E a matéria, em sua miríade de durezas, seduz e engana.

Gosto de imaginar que, tal e qual guarda meu corpo um coração, meu bairro guarda minha casa, a cidade guarda meu bairro, e meu país guarda minha cidade. Não ligo para as unidades federativas, a não ser em concursos de sobremesas (um bom doce baiano, um notável doce mineiro etc). Mas sim, o diagnóstico é:

estamos rodeados por problemas reais, difíceis mas não raro gostosos de resolver, dispondo como dispomos destas tantas engenharias. Mas muita gente que encontro prefere desconhecer tais problemas, apenas para criar novos problemas. Muita gente que encontro prefere dar as costas a tais problemas, apenas para ‘jogar o jogo’, como dizem. Os primeiros muitas vezes se dizem revolucionários, quando agem, boa parte do tempo, e em que pese certa elegância tática, como autênticos tapados. Só um tapado para desconhecer um problema real, criar um problema imaginário e espalhar por aí que está mudando o mundo. Os segundos muitas vezes se dizem ‘da ordem e da lei’, quando agem boa parte do tempo, e em que pese certa transparência de raciocínio, como autênticos canalhas. Só um canalha para ignorar um problema real, criar o problema imaginário do medo e da insegurança e espalhar por aí que a ordem e a lei são crias exclusivas do medo e da insegurança.

Peço desculpas pela simplificação. A gente é bem mais variada e diferente do que isso, e decerto temos todos um bocadinho de revolucionário e de jogador da lei e da ordem dentro de nós. O diagnóstico, contudo, é importante. Continua sendo importante. E não deixará de ser importante. Ele pode ser resumido assim, o diagnóstico:

nossa lista de problemas reais, nossa lista de coisas importantes, e para não deixar nenhum querido de fora, vou chamar essa lista, ao menos por enquanto, de lista brasileira (quem estiver a ler desde outro território, sinta-se à vontade para fruir de nossa lista conosco sempre que viajar pra cá, temos ótimas praias e chapadas carregadas de vivacidade mineral), pois, nossa lista de problemas reais, nossa lista de coisas importantes, parece-me bastante atrapalhada. Ou há supostas listas conflitantes, o que seria logicamente incabível, posto que o território brasileiro é único. Prefiro acreditar que é uma lista atrapalhada. Negligenciada. Ou mofada, para usar um termo que ficou célebre na Constituinte de 88.

‘Buraco negro’ foi outro termo celebrizado na Constituinte de 88, a certidão de nascimento da Nova República. Era como apelidava-se uma pauta inalcançável aos dois lados politicamente organizados (‘sistematização’ e ‘centrão’, nomes psicodélicos a tanto revelar nossa falta de rigor categórico).

Os buracos negros de então (o conteúdo e o mérito não importam, pois a Constituição de 88 é formalmente uma lenga-lenga) eram zonas de tensão entre formas de pensar historicamente antagônicas. Naquela Constituinte, gestou-se a polarização que vivemos hoje, informada menos por cálculo que por testosterona de machinhos (entre os quase 600 constituintes de 88, havia míseras, vergonhosas e indesculpáveis 5 mulheres) que se queriam do lado certo e irremediável, sempre.

De uma parte, procurava-se garantir que as traumáticas marcas de uma colonização racista e economicamente ineficaz cedessem à razão da justiça igual e das oportunidades iguais para todos. De outra, procurava-se garantir que a aristocracia improdutiva da ameaça comunista não voltasse a bagunçar o país e ludibriar o povo.

Assim, sabendo-se o bastante de justiça e de bagunça apenas para arrumar desafetos e brigas (acreditem, havia constituinte andando armado), desenhou-se a Constituição de 88, cujo produto essencial é a Nova República.

A Nova República nos brindou com o fim da hiper-inflação, e com o abraço de inédita generosidade da União ao pobre. Mas foi incapaz de iluminar e tratar os vícios coloniais da corrupção e da exploração indevida, com suas muitas formas opressoras de coronelismo, compadrio, mandonismo e filhotismo (aberrações a nos brindar hoje em dia com o mimsafismo e o qualquercoisismo, tópicos de um post futuro).

Eu não quero falar da Constituição de 88 porque ela tenta me explicar e me sujeitar a termos estapafúrdios como o que eu posso ou não ingerir. Mais um pouco, ela tentaria me explicar o que é um pires. Eu não preciso, nem você, nem ninguém. A gente tem o google pra fazer inhame empanado na tapioca e biohacking, sinceramente.

Volto ao diagnóstico, e volto a pedir desculpas por perder nosso tempo com a Constituição de 88, da qual não quero e não pretendo voltar a falar. Outro dia me informaram que não tínhamos computadores na época da Constituição de 88, e que boa parte do pré-projeto foi feito na tesoura e na cola. Mas é mentira. Tínhamos computador sim, e não usamos, eis mais um triste índice do natimortismo da de resto ricamente intencionada Carta. O diagnóstico, se o leitor tiver paciência, eu gostaria, assim, de enunciá-lo:

hoje o brasileiro tem mais motivo de vergonha do que de orgulho de ser brasileiro. Quando um povo tem mais vergonha que orgulho da situação atual de seu território, a conversa política perde calor e cai no cinismo. O debate e a discussão essenciais para elucidarmos os problemas reais e concordarmos numa lista única de coisas importantes cede, de um lado, para lamúrias catastrofistas de uns poucos alarmados sinceros, e, de outro, para os niilismos egoístas e estabanados dos ditos players. No meio, sobram proto-samaritanos esclarecidos a convergir no desperdício triste do silêncio. Depois, os problemas reais, soterrados pelo cinismo e pelo egoísmo, vão piorando. E tudo piora para todos, mesmo para quem acha que está se dando bem. Em 2008, participei da produção desta pequena peça política, como redator e locutor:

Não ouvi falar, passados dez anos, que a qualidade do combustível melhorou. Alguém ouviu? Quem terá, portanto, motivo para celebrar qualquer coisa?

É triste conversar com um jovem hoje que, ao menor sinal de concatenação de um problema real, como a poluição dos dois grandes rios a cruzar a cidade, exibe, no escapismo de suas redes, o fato trágico de que a maioria da população brasileira não confia no Congresso Nacional, onde gestou-se a Constituição de 88. É triste conversar com um empreendedor hoje que, ao menor estímulo a seu orgulho nacional, exibe, no escapismo de suas redes, o fato trágico da desqualificação de nossa força de trabalho, do garrancho de nossas leis fiscais, dizendo não sentir culpa ao comprar tecnologia e fabricação asiáticas, ou exportar as melhores partes da colheita para os europeus.

Que fazer, diante de tal diagnóstico? Não sei ao certo, mas estou a investigar. Seria talvez salutar, a partir de um autoexame cauteloso, e com os dois pés no chão, praticarmos a leitura da história em sua longa duração, sem insistir na criancice de que cada dia é um novo mundo de zero a zero. Não é. Há pouco, éramos uma colônia escravagista de exploração latifundiária de monocultura. Por quase 400 anos fomos isso. E temos hoje pouco mais de 500 anos. Sabe o que isso significa? Que hoje, andar livre em roupas gostosas e consultar um smartphone comendo uma boa bisteca e tomando bons drinques é quase um milagre. Um milagre que devemos agradecer SEM PERDER A NOÇÃO do movimento histórico dificílimo que o viabilizou. E por fim entender: o trabalho de maturar a democracia brasileira não só não acabou, como está apenas começando. Neste começo, é crucial conhecer e valorizar cada pequena conquista, cada injustiça resolvida e iniquidade amenizada.

A Constituição de 88 tem muitos méritos. Nunca na história brasileira tanta gente foi ouvida, tanta proposta popular foi colhida dos quatro cantos do país. Houve, de fato, abertura, progresso e disposição positiva naquele Congresso. Formado que sou em Administração, acho que as empresas devem ser as primeiras a dar o exemplo. Toda empresa é um coletivo revolucionário em potencial. Se duas ou mais cabeças pensam e fazem pior do que uma, então era melhor não existir. Se somam inteligências, têm a obrigação de ser melhor que nós, de nos dar o exemplo.

No Brasil, a empresa mais importante é o Governo. Se ele não der o exemplo, uma longa e viciosa cadeia de jeitinhos e escusas seguirá. E teremos de ouvir a arengada, eis o Congresso que a gente merece, os jornais que a gente merece, as quitandas que a gente merece etc. É injusto forçar nossas crianças a escolher entre ‘jogar o jogo’ das planilhas egoístas ou tornar-se um rebelde que nega tudo isso que está aí. Justo seria trabalhar para que elas sentissem orgulho de nossa história e decidissem aqui ficar e estudar para desenhar nossas leis, nossos smartphones, nossos jipes.

Não haverá humanismo eficaz sem a participação lúcida e ativa, nossa, dos problemas brasileiros atuais e urgentes, e não haverá meritocracia sem vergonha, nossa, sem igualdade de oportunidades e de informação.

nota política

A cada nova geração de consumidores do noticiário político, renova-se a necessidade de revisitarmos os conceitos por trás do par esquerda–direita. Revisitar como quem dá uma passadinha, abre as janelas para deixar circular o ar, rega as plantas e tira o pó.

A premissa segue a mesma, a saber, temos TODOS a direita e a esquerda a compor nosso equilíbrio – e mais realizados seremos quanto mais firme e forte nos restar o equilíbrio.

O experimento da Nova República (1985–2017) submeteu ideias da esquerda e da direita às falhas de nosso sistema político, insuficiente em sua representatividade, vicioso em sua gestão. Nem o Legislativo falou por nós, mais interessado em assuntos particulares, nem o Executivo fez a contento, mais interessado em dar à máquina pública imprópria agência eleitoral.

Jovens cabeças boas que poderiam contribuir com a política, diante de um quadro que avexa idealismos sinceros e solidários, foram para a iniciativa privada, para as artes abstratas ou, no caso de cientistas e engenheiros de tecnologia, para o exterior.

Se até o final do século 20 entendia-se a direita como a preferência pelo Estado mínimo, e a esquerda como a esperança no Estado salvador, como estariam, hoje, suas formas?

Considerando as posições ultrapassadas de esquerda e direita como patologias capazes de normalizar a imaturidade institucional, o diagnóstico seria: a direita tinha vergonha do Estado como quem, diante de um parente negligenciado e ‘defeituoso’, preferia escondê-lo das visitas, fingir que não existia, tirar sarro etc; a esquerda era apaixonada pela imagem de um Estado papaizão, tão parrudo quanto possível, enfim capaz de tirar a gente desse sofrimento horrível, sofrimento que só a gente (nunca vocês) sabe que existe.

A direita diminuía o Estado porque, sem um competidor, ele seria um arremedo de gente, antro de preguiçosos, vagabundo que não merece dinheiro. A esquerda inflava o Estado porque, protegido único da traição da selva, só ele teria olhos para as injustiças históricas, para as compensações estruturais, para a saúde contra o consumo sem freio dos vampiros.

Mas eram visões infantis de si mesmas, encarnadas a sério por homens e mulheres poderosos que levaram o planeta à beira da exaustão ambiental e do abismo nuclear.

A atualização das virtudes discursivas da esquerda e da direita pressupõe o alisamento terapêutico destas arestas nostálgicas ou orgulhosas, da lida recalcada com o dinheiro e com a liberdade individual, bem como a cedição irrestrita diante dos ossos da desrazão separatista. Há, em qualquer território cuidado por nós, coisas e práticas a se conservar, e coisas e práticas a se eliminar, lembrando, sempre, da intocabilidade de tudo, pois tudo se transforma conquanto vivamos ao redor.

Nossa direita é mais pródiga em perceber os alvos da conservação, e nossa esquerda, da eliminação. Um governo ideal compõe-se de uma direita forte e de uma esquerda forte, não sendo casado com uma e amante eventual da outra ou vice-versa. Seus compromissos não serão herdados das conjecturas do apartheid irracional da guerra fria, e tampouco da futebolização que infantiliza assuntos importantes, trocando conquistas duradouras por triunfos efêmeros.

Por exemplo: os ativos da União, se sofrerem avaliações esquerdistas (não venda nada) ou direitistas (venda tudo) à moda antiga, darão na repetição lamentável do signo maior da Nova República, a saber, a superação dos interesses nacionais por ideologias pouco pragmáticas, fossem elas ingenuamente, ou maliciosamente, espúrias.

O império do caso a caso, a dureza da avaliação técnica transparente, a conversa pública com as várias instâncias de interesse constantemente acessíveis, um Executivo cujo organograma se assemelhe a uma empresa ágil, aberta, metódica e rigorosa, e um Legislativo que substitua o bem bom carreirista por um quadro apostólico das melhores cabeças disponíveis em nossa geração seriam o começo de uma nova conversa, uma capaz de nos lembrar que somos todos, sem exceção, donos de uma direita e uma esquerda a anunciar, a cada passo da história, o tino insuperável da necessidade.

lendo as gentes: marighella

Marighella – O guerrilheiro que incendiou o mundo

Mário Magalhães, Companhia das Letras, 2012

Da profusão dos conteúdos digitalizados para cá, é de supor, lê-se cada vez menos, mas lê-se cada vez mais. Lê o leitor cada vez menos horas por semana, havendo como há, como nunca, oportunas variações à diversão intelectual, dos minecrafts da vida à realidade virtual. Mas graças aos métodos pedagógicos a engendrar precocidades de apreensão, e também à diversificação exponencial dos escritores, que desde díspares contingências e vivências despertam novos e nichados interesses, há, a cada semana, cada vez mais leitores.

Uma consequência desta cena, para o mercado de livros, assim enuncia-se: haverá cada vez mais títulos a esgotarem-se em tiragens em média mais e mais baixas. Ainda que restem, claro, vacas leiteiras aqui e ali. Esta posição, conforme observação das listas dos mais vendidos, se nos séculos passados era do romance, será neste século da reportagem e do ensaio de auto-ajuda. Dispondo de menos e menos tempo para ler um livro, lerá o leitor atento os títulos que maximizam a utilidade marginal da leitura – livros instrutivos e terapêuticos. E não se arrogue, a literatice, a reclamar elitismos abstratos de compensações místicas do contato ‘verdadeiro’ com a ‘verdadeira arte’, pois tal presunção, além de anti-literária, não tem lógica.

Cursei há pouco Marighella: O guerrilheiro que incendiou o mundo, de Mário Magalhães. Diverti-me mais que em 90% das séries em audiovisual que vi este ano. Além da diversão, aprendi, sobre a história do Brasil, o equivalente ao que aprende um leigo em cosmologia vendo a série famosa do Carl Sagan. Alta vantagem. De tão animado, planejo encarar, em breve, a saga do Getúlio.

Magalhães entrevistou 256 pessoas nos nove anos de trabalho dedicado ao livro, cuja bibliografia perpassa seiscentos títulos. A redação e a edição do resultado final não logram nenhum assombro literário, e contam decerto com as licenças popularizastes do copidesquismo objetivo informativo, mas são exitosas ao aprontar a narrativa com ganchos, reviravoltas, tramas cruzadas, suspenses, romances e arcos dramáticos entre fatos e dados não raro entre o curiosíssimo e o engraçado, informações capazes de enriquecer nossas conversas de bar ou almoços de família, mas também de tornar lucidamente consciente o brasileiro desinformado.

Tal foi o impacto mais severo, em mim, da leitura. Deixou-me assustado e preocupado, e na dureza do encontro documental, amarrado ao país onde venho escrevendo a minha história. A sensação é um pouco aquela que temos quando vemos um corpo humano por dentro: a delicadeza complexa da máquina viva nos deixa, mais que com repulsa à morte, prenhes de vontade visceral de nos cuidarmos. Mesmo que a vontade passe na próxima esquina, ao acendermos, distraídos, um cigarro. O ponto é justo esse: a sensação de pertença a um país que é também uma obra coletiva em andamento há de ser, para não se esvair, cultivada permanentemente.

Uma chave capaz de apresentar-nos à séria discussão política distanciados do cinismo e das simplificações irresponsáveis é nos expormos, como consumidores de produtos da cultura, aos objetos que nos dão, com força e forma, orgulho ante à comunidade em que foi gerado. Pode-se pertencer a uma miríade de comunidades; mas aqui, uma delas, e pela lógica territorial inescapável grandiosamente açambarcante, será a brasileira. Não se trata de ser anti ou hiperpatriota, nem de ter um mote aclichezado na carteira sobre o ‘afeto’ à ideia nacional, mas de aceitar a informação: vivemos num mundo cheio de ideias, mas indiscutivelmente físico. O feijão, a abobrinha, o transporte coletivo, os tijolos do prédio, o que é aqui usado está aqui, num bairro, numa cidade, neste país. Complicado ignorar, em qualquer debate que tenha por missão hierarquizar ou priorizar os assuntos graves da política, que as mais longínquas diferenças devem, em último caso, encontrar-se na unidade nacional. Não é possível desprezar a existência do Estado quando se toma banho usando a água dos lençóis freáticos sob sua guarda.

Mariguella não foi um só. Foi tantos. Poeta, nerd, certinho, travesso, namorador, soldado, apaixonado, engenheiro, arquiteto, pedreiro, salvador, gestor, chefe, leitor, líder, humorista, detetive, editor, crítico, congressista, agitador, conservador, progressista, religioso, corintiano, administrador, baiano, cético, estrategista, missionário, abstêmio, atleta, marido, pai, preso, perseguido, perseguidor, idealista, iludido, inocente, vítima, revoltado, revoltante, obstinado, forte. No colégio, fez fama nacional ao responder uma prova de ciências inteira usando versos rimados. Escondido em Moema, levantou (antes do zap) uma greve de trezentos mil trabalhadores. Cuidou de publicações socialistas oficiais e clandestinas. Redigiu manuais de subversão urbana que rodaram o mundo. Tramou e viabilizou a excursão e a turnê, em plena repressão e censura militar, de dezenas de artistas e intelectuais à União Soviética e à China. Encantado com os sucessos da experiência cubana, julgou possível conquistar justiça social a fórceps num país tão vasto e populoso. Um erro infelizmente retroalimentado pela repressão.

Não foi a luta armada uma batalha da coragem contra a covardia, apenas, mas foi um caso vergonhoso e arrastado de desperdício de talentos e oportunidades de progresso. Nosso Estado respondeu a sanha daqueles jovens idealistas e mal amparados como um irmão violentamente invejoso, e não como a firmeza paterna e a preocupação materna. Piorou o soneto e rendeu-nos páginas horrorosas hoje tratadas em aulas de história. Saí do livro com a impressão de que foi, Marighella, um patriota solidário e teimoso, aqui e ali enfeitiçado, mas dono de muitas habilidades. Não posso imaginar com clareza o que foi viver no contexto em que viveu, entre credos exageradamente utópicos e um status quo à esquerda e à direita esbanjando imaturidade. Uma das desvantagens dos regimes autoritários talvez seja esta, tornar o impacto do ambiente na formação do homem mais relevante que o impacto da formação do homem no ambiente. No Brasil da ditadura, sendo o ambiente desigual, sôfrego, injusto, o autoritarismo paria inimigos poderosos em suas próprias universidades, onde jovens românticos e autônomos consideravam tal inversão absurda.

A leitura de Marighella não pesa, passa rápido, mas deixa a gente humilde por tapar tantas ignorâncias, e às vezes tenso, com medo que descuidem de um país tão judiado e potente. Sugeri à editora uma adaptação aos quadrinhos, um modo de ampliar o acesso a tão caprichada reportagem. Sugiro, aos cineastas, a adaptação para a telona do capítulo oito, ‘Bicão Siderúrgico’, que trata da prisão de Marighella em Fernando de Noronha. Numa mistura bizarra de rebeldes integralistas e socialistas no paraíso de Vespúcio e Darwin, todos presos mas todos soltos numa ilha, jogava-se vôlei, cultiva-se hortas, assava-se pescadas, montava-se bibliotecas, vendia-se artesanatos e ministrava-se oficinas de interesse geral.  Num cenário belíssimo, esta exceção prisional em Noronha, estranhamente humana, civilizada e dramática, foi, como diz o jargão, de cinema.

Em suas páginas mais cruciantes, o livro detalha a metodologia nada honrosa dos interrogatórios da polícia. São páginas diante das quais devemos atentar, por dever cidadão e zelo histórico, em modo menos ressentido que investigativo. Por penosa que seja a disciplina, é mais útil discutir desde quais configurações estruturais, nas leituras psicológica e filosófica, pôde normalizar-se a prática da tortura. Em seguida, acompanhar a evolução dessas configurações aos nossos dias, especulando a forma de seus novos e insuspeitos rebentos. Se a tortura não é hoje prática oficial da Defesa, o degredo e o vilipêndio, a estupidez e a crueldade preconceituosa são cacoetes a rondar os sonhos de nossas razões, fazendo feder o entulho sôfrego de muitos de nossos juízos mais apressados. Policiar é preciso, mas tal verbo se conjuga antes em casa, consigo, no mentar reflexivo do indivíduo diante do espelho.

Este problema, em sua aurora esboçativa, nasceu enquanto caminhava numa noitinha. Sentado na primeira mureta que vi, rabisquei seus prenúncios: tanto Conceito quanto Percepção, aqui concepto e percepto, são tríades cognitivas que interpolam um sujeito mais ou menos conhecedor e um objeto mais ou menos conhecido. Entre os dois pólos, no entanto, diferem radicalmente as terceiras presenças. Para o concepto, há, entre sujeito e objeto, uma interface. Para o percepto, um intercâmbio. Fechada a caderneta, zanzei por uns barzinhos, virei dois conhaques, tomei uma tônica e voltei. Desenvolvi um bocado a ideia no quadro, fotografei, e segui com minha vida. Hoje volto porque há um problema novo no quadro, e seu eu deixasse passar muito tempo, as coisas embolariam. Notar: havia resíduos de notas passadas. Na empolgação da epifania, não apaguei tudo. O que não estiver explicitamente relacionado ao problema, peço não levar em conta.

No quadro, sobreveio a ênfase do viés não cru, mas político, do problema. Ora, se o concepto, esta habilidade que carece de acesso referencial a uma interface (corpo exógeno construído, mais ou menos dinâmico, perecível, atualizável) foi inflado nos últimos, digamos, 300 anos, assim ocorreu em contraponto a certa deflação do percepto, para não dizer a certa estigmatização. Donde ‘conhecer’ por meio de intercâmbio (dois corpos em troca sensorial ativa, sendo a terceira presença não um corpo exógeno, mas um julgo harmônico) ter sofrido paulatina dilapidação ante a cognição em interface. A pergunta que segue é dupla: há perda agregada com o desequilíbrio de valor entre concepto e percepto? (lembrando que mesmo um concepto ligeiríssimo quase imediato não deixa de ser um concepto); se sim, que fazer para reequilibrá-los?

De modo a aprofundar-me, mas num tatear neblinoso, recontei as sagas díspares de concepto e percepto lançando mão dos modos de existência latourianos, por um lado, e matematizei, sofregamente, a Área Eventual da Presença, medida de influência e disponibilidade navegacional do sujeito cognoscitivo, fórmula em que pesam os quoeficientes derivados de concepto e percepto, do outro. Nenhum destes dois exercícios de desdobramento me levaram muito longe, ainda, mas pude suspeitar: quando ORG valeu-se de REL e de REF, não seria estranho (para ela) valer-se de FIC, e FIC seria o modo onde preponderasse o percepto; e, fará sentido convocar o décimo-sexto modo (conforme sugiro em meu longo ensaio, ainda inédito), MEM, para determinar o quoeficiente de intercâmbio, ou sua humorada potência perceptora, do sujeito cognoscitivo?

[em relação aos modos latourianos, ver]
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lendo a crítica: euclidiana

Walnice Nogueira Galvão

(Companhia das Letras, 2009)

São três as qualidades mais notórias deste estudo. Íamos dizer deste apaixonado estudo, mas ocorreu-nos escapar ao pleonasmo. É que na entranha etimológico de ‘studium’ já fermenta, imemorial, imprescindível ‘passio’ — ou não se estudaria nada. A elas: o saboroso apanhado biográfico de Euclides da Cunha; um corte crítico original de Os Sertões; o cuidado rigoroso, de mãe ‘scholar’, ante a matéria textual, algo que inspira e faz crescer.

Em Euclidiana, graças ao empenho da pesquisadora no garimpo e na organização da epistolografia de Euclides, o leitor trava contato com faces e temperamentos variados do engenheiro escritor, além de aprender sobre o que o motivava e frustrava. Os traços biográficos espalham-se no livro e compõem-se, além das cartas, por itens curiosos como seu currículo na escola de engenharia, trechos dos autos do processo do seu assassinato, e alguns poemas da pena ainda adolescente do escritor:

Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das asp’ras cachoeiras que irrompem do sertão…
E a minh’alma, cansada ao peso atroz das mágoas,
Silente adormecer no colo da soi’dão…

Rebelde errante e ativista republicano, Euclides foi expulso da Escola Militar em 1888 após tentar (e não conseguir) quebrar seu sabre em desacato a um superior; morou em diversas cidades do interior, a trabalho ou ansiando aventuras, mas sempre animado pelo resoluto desejo de conhecer o Brasil por dentro. Quando saiu Os Sertões, em 1902, Euclides teria ficado “exasperado pelo excesso de erros tipográficos” e corrigido a ponta de canivete e nanquim cada um dos mil exemplares da primeira edição.

Quando expõe sobre o gênero de Os Sertões, a professora sugere um hibridismo. É um épico “na medida em que se realiza como uma narrativa em prosa” e um drama, dado “o ‘pathos’ do livro em registro apreciável e em vários níveis de elaboração de conflito.” Ou,

Temos aí um épico que também é trágico, um livro cientificista que se realiza como obra de arte literária, um esquema determinista que mimetiza a Bíblia, um Apocalipse com Gênesis porém sem redenção, uma demanda em que o herói é o autor, um diálogo escrito pelo simposiarca de convivas ausentes, um canto de bode entoado pelo verdugo.

Foi Walnice quem ergueu, em nove anos de trabalho, a edição crítica de Os Sertões, publicada em 1985 pela Brasiliense. Para tanto, cotejou escrupulosamente diversos exemplares das sucessivas edições emendadas por Euclides. Vestígios deste trabalho hercúleo formam a parte final de Euclidiana, “menos interessante que minuciosa”. Há todo um subcapítulo dedicado, por exemplo, à troca da ênclise pela próclise; outra seção trata da eliminação “em mais de meia centena de suas ocorrências” do pronome relativo ‘cujo’; mais à frente, o oblíquo, “mais de centena e meia de ‘lhe’ são eliminados”; e a fim de reduzir “poderosamente o eco”, Euclides sai cortando o sufixo -ADO: faz ‘canhestro’ de ‘achamboado’, ‘aspérrimo’ de ‘esbraseado’, ‘Apesar das’ de ‘malgrado’, ‘esmoído’ de ‘triturado’, ‘agitante’ de ‘agitada’, ‘a prumo’ de ‘aprumada’, ‘caboclo’ de ‘acaboclado’ etc. Essa parte final parece mesmo menos interessante que minuciosa, e sua leitura por vezes prova-se uma luta. Mas o que fica, especialmente a quem é familiar ao termo ‘nerd’, é o elã insinuante de um trabalho detalhista e implacável.

Alto na lista de dez livros para ler antes de morrer de qualquer brasileiro, Os Sertões gerou e gera vasta, inumerável prole, criadora, crítica, comentadora, referencial, etnográfica, jornalística, plástica, musical, alusiva. Em Euclidiana, apenas mais um desses rebentos, saiba-se que estamos em ótimas mãos.

lendo a crítica: humildade, paixão e morte

Davi Arrigucci Jr.

(Companhia das Letras, 1990)

Humildade, Paixão e Morte tem três partes dedicadas a cada um dos três termos do título, mas a obra não evolui em fases, degraus ou etapas, e sim de modo fluido-espiralado. O dito no início será dito no meio e dito no fim, certo que a partir de vistas e situações sempre novas, mas sem a menor cerimônia de reaparecer. O fôlego atlético dos ensaios, maratonas intertextuais de articulação ligamentosa e cacoetes de infinitude (o sinal de reticências no desfecho do livro sugere um autor a escrevê-lo até hoje, décadas depois da primeira edição), daria, em mãos menos hábeis, num trabalho trevoso de longo e copiosamente redundante. O que ocorre em Humildade, Paixão e Morte, no entanto, é o exato contrário disso.

O livro de Arrigucci, esforço de dezessete anos de pesquisa para a livre-docência, parece um touro virtual, tridimensional e dinâmico cujos liames fatal e humildemente apaixonados pela obra do arquiteto frustrado e rasgador do modernismo em nossa poesia conjuram no crítico o reflexo ou a imitação ou o duplo inspirado do bandeirante estrelado objeto de análise e, em si, reprodutor arguto de touros incontroláveis. O que dissemos portanto de Gilda Mello e Souza em seu livro sobre Macunaíma, vale aqui.

A aula de Arrigucci é sobre a “lição de vida e de poesia” de Bandeira. Com efeito, por ocasião da abertura da Flip 2009, o professor arriscou dizer: um país que nos deu Manuel Bandeira, o homem e o poeta, não terá como dar errado.

Parte o professor de alertar-nos à necessidade constante de reinvenção para superarmos este mar de incertezas que pode ser a vida. “Seguro apenas da própria incerteza e de uma entrega apaixonada à busca”, o artífice criador que habita todos nós precisa, baixo seu próprio esforço, passar “de uma indeterminação máxima à extrema determinação”, ou, do caos da existência à forma pensada e conscientemente trabalhada do produto; no caso de Bandeira, da vida limitadamente livre ao verso esmerado.

Nesta lenta e obstinada operação de abrir-se à vida sem temor, recriá-la desde sã autonomia e a ela retorná-la novos e quem sabe desejados artefatos do gênio humano, narrativa basilar que a todos nos funda, “a difusa matéria do vivido penetra de algum modo na interioridade lírica do poema” ou do produto que for, ao mesmo tempo em que o fazedor ou produtor desentranha, depois de muito viver e aprender, “a matéria preciosa metida na ganga impura do mundo.” No processo, o homem se dá conta de que, sem trabalho, ele é

incapaz de discernir o sentido de uma vida originalmente marcada pelo sentimento de queda e inevitavelmente condenada à morte (…) estigmatizada pelo senso teológico do pecado original e minada pela melancolia, que só reconhece ruínas no palco de uma história gravada com os sinais da transitoriedade na face petrificada da natureza.

Se só a partir do esforço mais sincero, desinteressado e transparente do homem-poeta, ou do fazedor produtor, ele vê um horizonte contrário ao grande hotel abismo da finitude melancólica, resta aproveitarmos a leitura da vida e da obra de Bandeira, e sua ”luta diuturna e vã com as palavras”, como quem aproveitasse os pontos ensinados de uma simples prece secular, e nada vã porque exemplarmente inspiradora, de um longo, pacificamente aterrado e assim sereno aprendizado para a morte.

Os nove poemas de Manuel Bandeira lidos por Arrigucci são pretexto para que o autor repise:

1) a ponte levantada por Bandeira entre toda a lírica ocidental e o Modernismo brasileiro, com seu “verso livre rápido, elástico e certeiro” em que o simples não se confunde com o banal;

2) o “estilo humilde” ou natural de Bandeira, herança da tradição cristã que habilita o escritor a ocultar o sublime nas coisas chãs, “marca de fábrica do poeta e seu maior enigma”;

3) um mínimo de contexto literário da época de cada peça junto a pinceladas biográficas do poeta, da meninice pernambucana ao sanatório europeu, à boemia da Lapa carioca;

4) o artesanato minucioso e musical, rítmico e melódico, da complexa versificação de Bandeira (e aqui a arguição de Arrigucci atinge níveis subatômicos de especificidade sintática, semântica e morfológica, decerto cogitando os versos muito mais que o próprio Bandeira);

5) a “busca apaixonada” de Manuel Bandeira pelo “alvo errante” da poesia ao longo de uma vida inteira, valendo-se para tanto de repetidas alusões ao livro ‘Itinerário de Pasárgada’, “longa e lenta viagem em que o vivido, transmudado em poesia, se revela à luz da consciência que lhe deu forma”;

6) a iniludível vizinhança com a morte, que dá as caras via tuberculose ainda na adolescência para fantasmar-se em rediviva comunhão no cogito criador e exigir do poeta, sem mentir-se com promessas de além-túmulo, encará-la com coragem, pois aquilo que “o tempo impõe inexoravelmente mesmo ao que parecia inacabável como o mundo da infância” são as duras belezas de um arco de vida por nós desenhado e retesado para, um dia, conforme afirme-se em justo legado, concluir-se.

A crise por que passa a literatura, quando certas formas consagradas não convencem ou não interessam tanto, e novas, híbridas, reimaginadas e resgatadas formas vêm rompendo brechas insuspeitas de atenção, exigirá um chacoalhão na identificação, justificação e valoração daquilo que é atual e literário. Mas onde mirar, por referenciação e nortes, quando um trabalho outrora confinado (a crítica literária) liberta-se como ferramenta e atividade da ampla comunidade humana? Decerto em trabalhos de sincero artesanato, refinada atenção, e valiosa matéria. Humildade, Paixão e Morte é um desses trabalhos.