Deixar pronta a casa bonita é o que ele quer, mas nem porque apontam troçando rindo que o patamar entortou. Eles acham que eu faria assim, uma casa torta e altinha sem querer? Mas não explica. Confessar dirão pior, olha o viado, já nem uma nem duas vezes, de mim que sou religioso e visito até hoje minha mãe. Mas é capricho no bom sentido. Negociei sobrado e entortei o prumo como coisa calculada de aproveitar melhor o sol da manhã. Beber seu gole mais encheio. Vão dizer do viado que não é hombridade, desarrumar um patamar. Fosse esse o problema. Quer bonita, amarelo gema forte, número em preto grande pra chegar correspondência. Quer fixar conchas brancas arqueando a entrada, pedras e contas desenhando a imitação das ondas nas paredes, e um chão de ladrilho paulista que nem eu vi no facebook fica bonito parece de qualquer jeito mas tem ordem. Isso é depende como olha. Brasa, amarelo e preto. Muitas samambaias, tantas quanto der, pois acha bonito as samambaias. Até que venha pássaro. Por causa das plantas. Ou nem que não venha ninguém. Mesmo assim eu prefiro. Fosse isso de apontarem era isso. Deixar bonita a casa, isso sim. Subi cimento, empilhei tijolo e pisei laje, encimei, e daí que não vieram, dois sobrinhos e o colega funcionário do ex-emprego diz que vinham, dia de jogo, é certo que esqueceram, no outro ameaçou chover, decerto foi cautela. Fosse isso. Agora já durmo. Calcula. Um colchão desses achado em bairro limpinho. Enrolei, baixo do braço, nem notaram. Criança nova nem dois anos, agora eu assim, no chão duro que não durmo. A manta a senhora de idade que às vezes passa deixou na porta. Serve. Sou bom de frio. Decerto ela ouviu da briga na empresa que briguei e da enchente que o senhor castigou, perdi tudo. Uma banqueta, as mudas nas big-coke. Olha. Cada coisa especial. Já já amanhece. Fosse isso né, provar isso, da luz e das plantas. Será durmo mais, e olho o teto. Vou é acabar esse teto assim que entrar serviço. Desço compro material faço gesso rebaixado, coisa fácil de fazer e fica chique. Prendo luzinha led que nem os restaurantes da cidade, você passa olha dentro e cadê as luzes? Guardadas, dando bafinho. Nem usa mais luz no teto, isso acabou, basta ver nas bancas as capas quando mostram casa chique você vê. E os tontos rindo, meteram a mão no bolo da noiva! E riem que a casa ficou torta. E que parece um bolo de noiva torto. Mas olha a luz da padaria. Fria, estralando a vista. Disso ninguém troça. Nenhuma planta no estabelecimento? Nada, nem percepção. Nem troça. Agora, é minha casa que está errada? Mas, né, fosse isso. E essa luz fria, de que que precisa? Vou é dizer isso. Mas nem é isso. Eu tento dormir, olho pro teto. Num durmo. Soergue o corpo magro, veste a camisa verde, mangas curtas alisada no descanso. Vou ali, na janela. E vai. Ó o leste, aponta. E ninguém ouve. É só o sol, só. Coisa pouca. Um sol grande e humilde, distanciado, vermelho, laranja e rosa-choque. Soergue o corpo, veste a camisa do mar alisada no descanso numa noite nunca a mesma, sempre a noite e ele ali. Eu fico aqui um pouco. E fica. Vou sim, diz, deixar bonita a casa. Esquadria de madeira achada, barato e chique. Vão dizer que dá trabalho que alumínio é prático. Eu cuido lixo e provo, ó, as plantas perto, coisa bonita que fica. Quando alguém aqui eu mostro. Aí é casa feita acabada e pronta. Agora é esmorecer os boatos. Pessoal fala muito. Mas nem é isso. Fosse isso, né. Olha o sol. Pura lentidão. Olha a largueza dum sol. Hoje eu tivesse material, né, continuava. Vou aonde.

Preâmbulo a ‘Duas Sicílias’

ANTES DA IDADE Média, ascenção religiosa, o império da técnica despertaria nos agrupamentos culturais sobreviventes e potentes o amargo deste esquivo desafio: se primor familiar nenhum conterá o escândalo da barbaridade, haverá guerra tamanha que permita produzir, no ofício dos netos, nossos ofícios?

A questão pode parecer solícita, mas tão grave mexerá nas tramas e raízes dos assentamentos letrados indoeuropeus que sua contínua atualização verterá o dilema do encontro dos povos na semente conceitual da aldeia global. Isto é dizer, o signo mesmo da potência generativa, crença mais cara às comunidades ciosas de suas raízes ou origens a partir do neolítico, que tão à vontade bailava nas pontas dos dedos e nos destros manuseios procurados pelo advento do Instrumento, internalizar-se-á, antecipatória e então urgentemente, nas construções enigmáticas, abstratas, teróricas e ferramentais do invisível pensamento.

A prática oracular do vaticínio, gênio dos eleitos, contemplava-a com mais ou menos lealdade o patrocínio dos conselhos sociais. Pensar seria outro pensar quando o saber fosse labor divino, expresso em carme e ludo na prática mercurial do poeta. Assim os governos, ciosos do que abarcavam em égide e pátria, far-se-iam sócios especialmente cordiais dos artesãos da revelação, ora albergando-os, ora expulsando-os.

A errância, apenas arbitrariamente essencial, responderia entretanto à história do trauma do exílio abrindo a via instituinte do método. Barganha, ao vate amealhava a urbana chance: provar ser humana, a ciência; ou: matéria de instrução. Tradições da Ásia ao Lácio erigiram o albergue do aprendiz de coisa alguma, coisa alguma que não a saga virtual do dínamo psíquico vertido ora não mais no assomo órfico, se antes em acomodação descritiva, inspetora, crítica, comunal, da física, da natureza, da tragédia, da república, do cosmo. Pois.

Museu marcará a transição da antiguidade para o mundo religioso ao sofrer o câmbio categórico de alcunha autoral para guarda nutricional. Novo edifício, servirá tal complexo do que espelhou e esculpiu o pensamento. Mínimo cosmo, cura fractal dos nomes, das alegorias, dos rastos consequentes. A novidade maior da ascensão será o convívio fazer viável, do juízo diversificado, este expresso em alternativas curatoriais não exclusivas; e, porque tornadas à história, também não diretivas. Aprenderemos com ela, num longo percurso de luzes e sombras, sombras e funduras, que é coeva à voz da saudade o primor da experiência. Coadunam-se.

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LIMPAR O TERRENO é sinal de contemplação anual. O câmbio sazonal e os tênues arbítrios das quatro imbricações a tela do arado os penhora na graça da terra. Esta os por assim dizer avançará a uma e cada semente, que então sofrerão duas vezes a cor local. Aquela da história do solo; aquela que confirmará no crescimento não ser outra a sua história. Os ciclos sublunares termoexangues não disporão, em regra, a dotes exóticos o plantio. Cada futuro estará guardado onde cada futuro idem. Sedibus urbem será o dizer, passo de um passo, antes que passo do passo, passo do quero, passo do passo do nada.

Acampamentos, jardins, academias, liceus. Florescerão tais imos nas fímbrias dos povos com divulgação e característica. O tipo trocará rapsódia por palestra, mas acabrunhará o mesmo conselho que diante do poeta sorria acomodado. Os guardadores de nomes e valores testemunharão, das margens para o centro, diversa, incontrolável produção na medida mesma em que se dista a controlar, incomodamente difusa e no entanto contagiante. Os feitos serão irregulares, deslocados, ruidosos, até que a voluntária fisiocultura componha novo fator de confusão, posto escravos e guerreiros terem bons belos corpos desde sempre, mas estes ora erotizados magos sem fama nem dívida, não. Porque restou difícil exilar a flor essencial da cidade, seu modo cativo e transitável – institucional –, a sanja estatal ali penetrará quesitos. Ser parte de um corpo, ao cabo, é ser corpo ao corpo mesmo. Encastelada pelo processo, a realidade do aedo-cientista crescerá e padecerá verões de gruta e invernos de fuga, os mesmos a que aliás apontara o antigo vate reduzirem-se sutis nossas empresas.

Matizes chocantes híbridas e parturientes alargarão porém o escopo do pensável. A maneira do edifício firme e nítida vai aos sulcos, salas de tábuas, rolos e volumes que tangem eirando as guarnições dos museus dos palácios e dos grêmios, silos em camadas empilhando, vistas e pórticos organizando.

Diante dos poetas o público é não poeta, mas a seu modo, em sua própria oficina ou família, será poeta a valer. Ante o fantasma erudito seremos apenas leigos. A chave da ascenção religiosa forja-se pois na sombra incogitável dos que dela para as luzes se doavam. As intrigas entre escolas, o comércio excludente das tutelas, a empáfia da inércia sofística, o escárnio goliardo das paródias destrutivas devolverão os conselheiros ao sono policial dos mores armados sobre a turba. Um novo império, protocolar e extremoso, ganhará da técnica o rubi e o cetro da redução.

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ANTES DA PRENSA, ascensão do comércio, o império da religião despertaria nos agrupamentos culturais sobreviventes e potentes o amargo deste esquivo desafio: se primor salvífico nenhum conterá o escândalo da descrença, haverá guerra tamanha que permita produzir, no ofício dos netos, nossos ofícios?

Se diante de alternativas há o capaz de optar pela pior, será preciso temor à lei a procurar temor à consequência. Neste estágio, o antigo artesão da voz, amigo das musas, fez-se caso de loucura. O denegrido bibliófilo é indexado na polícia. Administrada, nasce a modernidade. Seu sucesso é testemunho da atitude ignária. Variegadas na escala, serão as prendas a curar a loja, a roça, a escola, a oficina; valores valerão amiúde mais que a técnica; solicitada, a crítica revigora.

Dorme neste mundo organizado a premência belicosa da hierarquia. Palavras são: palavras de ordem. Juntos ou separados, a repressão nos conduz quando o milagre não convence. Aos senhores do conselho restará as novidades de semblante de uma arte univocamente espiritual. O capricho, a machetaria, os altares trabalhados. O assunto inflacionado será o da desinflação humana. No horizonte do maná abscôndito, as doações, a verve persuasiva, o doce recontar, e generoso, de uns simulacros de insânia e desespero. Orfeu, mas imitado.

Amargará ver no entanto que por mais trauma, é sem ruptura que ela galga. A história. Ora nos enfada, aprisiona e entristece o equívoco da desonra. Então desejaríamos um grave buraco no chão. Rasgar o chão aliás imputará engenho ao trunfo paupérrimo da cruz. Proceloso, emaranhado e alto em rios purpúreos haverá, desta cessão imaginada e descumprida, de chegar a mastro soprado o massivo nascituro à voz do povo?

A cônscia mansidão avessa ao caos pregará no exemplo extemporâneo da técnica. Mãos juntas, pescoço oblíquo, comiseração. Mesura elementar endividada. Estar nem lá, quando era deslumbre, nem cá, no instante interessado da penumbra.

À urbana chance servirá um burocrático evangelho. O chaveado livro-caixa, a lúgubre listagem, a confecção minuciosa do contrato, o custo marginal de produção, a tendência a investimento, a taxa de juro, a barreira de entrada, o dumping, o cartel – signos que da andança civilizacional tecem o ritmo no dito seguro e inclusivo da matéria meritosa. O indivíduo será todo para membro ser; o todo será corpo para contínuo gradar. E a nave vai, organizada, fazendo sempre nova a oração que nos livra da praga.

Duas Sicílias, zine que escrevi na Quarentena imposta pela crise sanitária internacional, fala da cópula. Procurei, em hipótese, inúmeros modais de matéria, toda ela viva. Do que fui capaz de elencar, a totalidade se melhor deu a dois, acredito. Melhor escrever um poema para comemorar a pesquisa e a luta empenhada no livreto a sair quando a situação melhorar:

Um ser será dois
infinitamente?
Dos dois,
um surgirá?
E neste, serão
dois para noutro
ser um?
Algo me inquieta.
Um nome à espreita
vence. O ser que cogito me re-
quer, donde não basto; o paço
do querer se dá à luz,
e às frondes
da chuva mas essas
correm. Há, creio,
dentro de mim
o que não tenho.

O IMPÉRIO DO comércio engendrado foi na unívoca conclamação à caritas, encarnada esta na urbana multiplicidade em convívio. Caro se nos haverá de ser não mais do sangue a efígie, do suor a expensa, mas deste o estrênuo próprio, daquele a chaga comum, secos e indistintos por chupados pelo barro que é só um.

Ora a passos de ócio temeroso, ora a torto passo ébrio, eis as luzes voláteis da modernidade a tencionar o mundo à saudosa concreção do Direito Natural. No alvará da loja, da escola, da roça e da oficina, lavrada está em vida a força tênue do verbo:

VOSAUTEMDIXIAMICOSQUIAOMNIA
QUAEAUDIVIAPATREMEONOTAFECIVOBIS

O espanto engendrou o poeta; a inveja, o crítico. Sobrevivente e potente, é no labor social do indivíduo que afim e judicioso o espiralado dito da aldeia global vingará. No ritmo acostumado, o ora cidadão-consumidor cultivará em si a marcha ingênua do homem novo – poeta-crítico –, signo fresco, continuador deste a nós eterno dual.

Ali vão baldes, vassouras, ferramentas de pequeno porte, lenços amarrados a pedaços de pau, estratos de candeias onde óleos, bumerangues silvos remos, bingos, tamancos qual sem par a minérios dezembrinos, chapéus de palha e sarja, de cânhamo e de lata, três ou quatro bengalas de porta de ótica, tráfico de gente a essa altura do século a brumados arquipélagos a esfíngicos globinhos se trocam navegar valor humano por coisas que usamos sem dar tino de gente, coisas são que servem se caprichos e apetites são de gente, não é verdade ? ergo tanta gente como nós tem na distância do recato a discrição da reverência mesma ao íntimo da conversa, deixe meu braço, licença, mais caloroso é meu regaço, senhor, na copa do navio a pelejar milagres tácteis num xadrez indistinguível, a meio da partida deixe a grande armada negra ser servil sem preferência, vontades de um açor desesperado e de outro rei conquanto os filhos, runas dignatárias do poder, não julgassem o balé como se filhos meio à margem do balé do tabuleiro, forâneas peças, crinas não eram senão da virtude das ovelhas pressionadas cabras depois de atravessar tantas mazelas a reunir-se e a organizar a vida nova longe das falésias surrealistas, já quase como sem palavras ao pé do forno aceso em dengoso tapete de brasas estalando pois perdiam, paladinas num torpe confronto sem contrários, o calor benevolente das tristes do apetite e repeti baixinho estrênuo, visai, maternal e condoída, contingente e rejeitada, lutai contra a virose desgraçada de uma imagem, tirai do coelho móvel afeita lua, dois brutos rubis travos olhos cavos e a tal crassa, tácita contumácia de nora a devorar peões em bispos, rainhas em cavalos, torres lídimos faróis em nívios sóis com o olho na barriga _

um corpo despossuído a varrer a capelinha sem jeito é trágico e sinistro como o efeito de ambular sem prece. Criptas à poeira dobram, altares à ruína atinam. Contínuo de um bailante suportar de escorregares, copázios de leite e moças d’enxovais têm sonhos. A brasileira tragava do futuro notas e mágoas da república que sentada contaria do frágil bonito papá que interrompia. Em vez disse infelizmente está metida noutras coisas e tentasse eu deitar ronda de cume de prédio cujas luzes tantas voltas às varandas de uma casa adjacente, vizinhança que não luzi, examinasse. Ouve, disse, apenas para lá do vidro o breu que é mar de formas e abre, então, a porta de correr, azul do meu crescer. Faz um breve recuo ao canto escuro da varanda e salta, por força de um sucesso esplêndido, não mais o traje do abandono, mas como quem tece um semblante tenaz. Adiante o brilho nos olhos da irmã da quitandeira só por trinta contrapestes fará vargem no mural das horas grandes, repique nas cisqueiras instaladas e travas tipo brocas lá na sonda da moenda. A face pacificada da egressa era matriz, laço e açude na cacimba e, dos bons, tropel à pátria. Como enxugam-se, os troncos rímicos! Mares quase sós entanto jazem… Sonhos são, as canduras, nessu’as jangadas? Das poucas ofertas sanitárias, o  enxuto dava pano para um terso, discurso fio d’água, e furo e remo leu, canoa nos olhos, barris se errassem random para o precipício _

Weissbrod

Mais uma daquelas breves e maciças pestanas no meão da tarde. Cinza do céu guardado na friagem, ventre da casa em silêncio, ciência que regressa ao corpo débil sem pressa e desembarca a alma da imparidade onírica. Não sei dizer quanto estive aqui, não vejo tão fácil as cifras da convenção neste cômodo, estância da vida infantil, canto de cidade esquecida. Arrasto das meias os pés até as amplas janelas ao sul, cruzo com trêmulos abraços egoístas a saleta de jogos. Seco de capim, fuligem de queima de cana, poeira de cerrado, trilhos duros e deslembrados da saudosa Noroeste lá no vale. Coisa rara ver um trem passando ali, tão bom quando acontece. O sino batendo sonso, o lapso modorrento da máquina, mistério quem saberá tenebroso dos vagões de carga tão grandes e vazios, de carga e de portas vazios de teto e de marcas, vazios de guarda, razão de ser e funduras. A mente se recompõe quando contemplo. Distância sobre-humana. Pontos múltiplos pensares do terreno agudizado, revide das noções e sem pressa da pessoa as memórias se encaixam afloram assistidas por um ser que saberá o que todos e tão mais vastos outros souberam divinizaram supuseram saber do inscrito que legou tanto pensar. Ontem, aula de piano. Hoje, quarta-feira.

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Quarta dia crucial. Perdê-la este erro de novo e de novo sofrido se o bom é dobrar a semana com quatro no mínimo dias de prática. Às quartas, não só mais frescas a explicação das lições e a urdidura das peças mas as mãos vão bem melhores mais quentes e destras graças à tutela de ontem.

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Querer praticar o piano sem piano em casa é transtorno que precoce dizima inúmeras esperanças. Dá entretanto às que persistem chance exangue de criar, entre incômodos e escusas mais ou menos inconvenientes, um arranjo capaz de garantir bilhete, ainda que de segunda classe, nos veios mais ou menos triunfais daquela busca. Comigo aconteceu quando diversas demoras e trocas fecundaram entre agregados e entes a revelação inesperada de um meio irmão da mãe da ex-esposa do padrasto, cepa distante e fortuita nas assembleias sanguíneas, mas de inequívoca e diria mesmo abençoada conexão espiritual. Chamavam-no Pai Antúrio.

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Aos dez anos sabia o piano para mim habitar a estranheza doméstica do pé ante pé estranheza dentro às terças e às terças na casa da Rute. Estimulado por sequer haver cogitado tão íntimos outros e proximamente alheios interiores aos dez anos as idades de portas e plantas em vasos adventícios e pesados escolhas de pisos tapetes odores de cores tão distantes quem sabe crises de laços rupturas afastamentos temporários lacrimosas reconciliações e se era outra e tão entranhada em si cada casa que não fosse a minha quanto trabalho adivinhar o caráter do que via e tocava o olhar. Leve é o intruso amestrado jaguar até que assente, casa de Rute às terças, edícula do Pai Antúrio quando desse, o aluno que lhe cobram. Nesta um velho piano alemão de armário resiste afinado, visitado pelo século e nada mais. Outro esforço entre a caminhada até sua casa, pasta azul debaixo do braço, e a travessia dos números Czernys, escalas, minuetos e cirandas brasileiras na prudência inabalável do invasor quiçá bem-vindo, largamente adstringente quando tantos vasos inopinados, pisos remotos, maçanetas burlescas ao repertório interpunham-se solícitas como pontos na lição de uma língua sem verbo, língua da pura dureza do toque nas formas e motivos que a custo bailariam pontuais e familiares na vida de um ser de dez anos ao piano.

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A pasta azul de polietileno sanfonado fechada em elásticos pretos resistiu por oito anos de prática indo e voltando em meu colo quando era a mãe quem à casa da Rute levava e lá na maior parte das terças às duas da tarde eu chegava dormindo, despertando suavemente quando o carro estacionava e sua voz, Força, filho, suave e dócil. Meu corpo renovado e alegre do transporte nem sempre cumprira os quatro dias mínimos desejados de estudo, e tal cincada atormentava o ânimo, angustiada contrição pois tanto era trair a benevolência escrupulosa e interessada da tutora, manchar com a ilusão de um ruído moroso a semana, moroso e sem valor, relapso e vadio, obtuso e desalentador, eis os passos do carro da mãe ao piano, cruzando da Rute a imensa garagem cujo portão restava aberto à espera dos alunos, lajotas de argila abrasiva num piso amiúde molhado, folhas caídas secas não restassem também elas molhadas pelas lavagens talvez diárias, como saber se só as terças-feiras conheci daquela casa? Manejo portanto sem duras provações ou pressões ou trancos na pasta aplainada, oito anos indo e voltando em meu colo na Belina preta e então no Vectra marinho, em contraste com as ó tão atribuladas caminhadas da casa dos pais perto do vale ao lugar do Pai Antúrio, dois quilômetros de tensões afetações latidos misturados aos tenso rebuliço e desgaste alongado, dois que pareciam seis, quinze quilômetros e junta pegada no corpo a pasta azul piscina, broquel sanfonado e boia de um menino esgatanhado surrealismo dentro seus pretos elásticos aos poucos bambeando menos hirtos semana depois de semana em que não ter um piano e cursar dignamente a iniciação musical no instrumento faziam dessa breve travessia da casa dos pais à edícula o lúdico jogral esmerilhado e distorcido e acirrado em que o que se alterava e bulia na mente deformava-se na pasta.

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Empurrva o portão encostado da casa térrea de sete metros de frente por cerca de vinte de fundo e cruzava a garagem de porcelanato ocre rabiscado por folículas de samambaia sem vestígio de frequência de automóvel quando interceptou-me Dona Benta, pele escura como a de um jatobá e polpuda em seus sessenta anos de firmeza, pano claro na cabeça e sorriso fácil, largo e averiguador, que passasse, menino, que o menino passasse, deixasse ali no quartinho a pasta e pronto lavasse as mãos, antes sequer de abrir o piano, tocasse o quanto quisesse. Lá no fundo Antúrio não teria como ouvir, pois se dorme aquele um é porque dorme que nem pedra não que nem montanha e não tem zoada que o acorde, dorme desse tamanho desde pequitico miúdo campestre, de criança lá em Assis pergunta quantas vezes a mãe não teve que levar a cria na Zoraia feiticeira dos bálsamos se não foi só as que eu vi de estar lá pra mais de vinte isso de criança que depois no seminário fez que fez e que dormiu tamanha dormilança até ser bem expulso, diziam lá os rapazes dominicanos que o que dormia o homenzinho era colosso, sentado dormiu, dormiu ajoelhado em pé andando, ceando no bancão das mesas dormiu jardinando era tum caía com a fuça na terra fofa e na hora carpindo dormiu estudando passando leitura instruindo dormiu cantando no banho marchando em procissão defumando imagem dormiu nas mais delicadas horas dos missais e não tinha quem por aventura o acordasse, não sabiam condição neurológica genética ou picada de mosquito ou mais bem deixar ele cafungar uns cajus que era isso só isso que acordava o cristão, fruta sua amiga dessas datas até hoje vai ver lá na fruteira tem caju e sonho de valsa, o senhor querendo já sabe mexer já no piano? Querendo e não souber a gente entra pra dentro e eu levo lá meio caju no fundo último quarto ele tum, cafunga e acorda desdizendo de contrário os sonhos e você tira o que tiver de dúvida de mexer nos mecanismos do instrumento, que quer tocar o piano você é por própria vontade sua? Era a própria bruma da fuga da lua da rua, a desgraça, marido dormiu nas jantas nas núpcias em um e cada um de todos os partos nas reuniões de família dormiu Antúrio em uma e cada uma das sessões de conversa de casal que o juiz mandou e depois em uma e cada uma das assembleias do divórcio na frente dos advogados ela uma santa falante o marido tum tum tum dormiu queixo na mão orelha no ombro mais ela testa no braço mais ela barriga na coxa envergonhando a senhora nos bailes nas jantas nos saraus nos hotéis nas viagens e municipais, o menino desse um tamanho não gostou do futebol? Ou não levou jeito? Quando vi, Dona Benta lavava meus bracinhos arranhados num cacto enquanto fugia minutos atrás de uma matilha lazarena com odor de rosas da Phebo e esfregava de que era dentro e fora remexendo aprumando circulando e espalhando o gostoso no corpo de reflexo, como fosse dela o filho o braço o risco do arranhão conjurando medicina e natureza Dona Benta esquentando tateando relaxando o menino eu que dali alguns segundos sentaria no Weissbrod preto 1908 do Antúrio a fim de dedilhar os primeiros exercícios. A edícula, tecnicamente, era um puxadinho frontal, quarto novo de nove metros quadrados acarpetado em que o Weissbrod preto 1908 encaixava-se insular e magnífico entre as colunas chão a teto de livros velhos álbuns Manchetes catálogos e partituras, toalhinhas de crochê matriciando nacos multicoloridos das mais diversas pedras brasileiras.

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Pouco ou nada vi do Pai Antúrio nas primeiras semanas. Igualmente pouco ou nada vi do Pai Antúrio nas semanas seguintes, e nas seguintes e conseguintes semanas daquele ano de 1988 quando novíssimas conexões sinápticas alterariam para sempre a estrutura deste um ser em movimento, da percepção em contato com o têxtil real do mundo, motricidade empenhada em tocar os toques do topos parir ritmos reconhecer padrões, 1988 que abre caminho ou diverge, no ninho jornada da prece da crescida vida os quinhões do não instrumentista à dita graciosa do instrumentista, conhecedor do pensar musical e da potência calada e plantada no fundo das fortunas sonoras. Fiando-se quem sabe duns acasos fenecidos de malogro, sortes cabais e tênues, coragens trombudas ainda que em corpos de cristal e azar, ter de no diário do erguer-se para se dar em prova e bênção ao mundo seria de 1988 em diante erguer-se para se dar em prova e bênção mundo estrelas, mundo formas prenhes e naturas de clarões números estrépitos porosas linhas fraseadas firmas de fugas e afãs por amor de desenhos caprichosos complexidades e harmonias repensadas, alargadas, sustentadas, picadas, distendidas. Quando finda o corpo e o tudo ou nada do jogo e da leitura começam os dedos perfariam de 1988 em diante o reinício de um fabrico de auspícios cruzadores e fronteiras formadoras, volteios e restituições de desovas, cálculos e esquecimentos de treinos e perdas, certezas e brancos que dão. Digo pouco ou quase nada porque do banco em frente ao Weissbrod preto 1908 em que sentava por duas às vezes três horas mediando a leitura, traduções das notações do pentagrama em movimentos de esguelha fisguei, anzóis dos olhos lépidos, a massa móvel densa e volúvel nas penumbras da sala de estar, troncos indo e vindo que na baixa claridade das cortinas descerradas poderiam muito bem ser Pai Antúrio. Ou Dona Benta.

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Nada nem ninguém me tira do centro daquele canto de um bairro limítrofe da vinda interiorana onde cresci e divergi meu caminho, senda cogitada num temperamento novo e radiante, nem não instrumentista, nunca mais um não instrumentista para quem a música é coisa de palco e comércio e não cadência inescrutável do sangue calado mas pulso do contínuo, amigo fantasmal das horas abertas em adivinhações e demoras mergulhadas em febre sã e vadia. Tampouco um instrumentista oficial, por assim dizer burocrático, encarregado e cobrado por ser a denominação antes da canícula, o sucesso objetivo antes da perdição acolhida em ilhéu num mar de termos nomes trocas e calções verbais e frios. Aquilo, porte-semblante impreciso, tronco subaquático fisgado de quando pelos olhos esguelhados ligeiros do menino ao piano, Pai Antúrio ou Dona Benta sem mais nem menos aportam na moldura dos batentes da porta estreita do quartinho puxadinho numa tarde de denso mormaço de março de 1990 às quase quatro em ponto da tarde corpo tronco todo porte-semblante panos brancos pelos brancos óculos manchados de amarelo sorriso plácido majestoso e afável trato, qual buscasse qualquer coisa na bagunça, licença, levanta e desce pilhas de papéis move pedras e murmúrios, diz enfim, como eu seguisse apreensivo, Bach é mão esquerda, onde está sua mão esquerda, a direita conheço, lá, senta a meu lado a orientar generoso e sintético tardes de estudo performático apontando as mais baixas frequências de que se ocupa a mão esquerda. Sinalizo à direita este som, o baixo, coração do harmônico, tinta interior.

Deixa

Sentar e escrever, para Homero, consistia liame e despertar de um esforço conjugal em tudo inesperado, inconsulto até nas mais dispendiosas cartomantes, e resistir às tentações de abraçar um litrão de vinho e debulhar o gogó nos versos safos do herói seria imprudente, imprudente seria aferroar-se agora, depois dos anos entrados neste século revisionista, revista Fapesp, Base de Alcântara, ascensão da classe D, aos hábitos acostumados mas antigos, charmosos mas obsoletos da oralidade folgazã que tanto lhe fez ponta e cartaz no teatro de revista, no teatro de arena, na escola de artes dramáticas, na boca do lixo, no teatro brasileiro de comédia, e não foi de outro modo que viveu, querendo comer e comendo tão pouco, querendo ter e ser quais forças de pontual convergência, vagando e orando, errando e tirando seu chapéu surrado, demonstrando e dando as deixas, atento aos pontos e às críticas, formando turmas sucessivas, empenhando-se na varrição, na lavagem da calçada, chegando ao capricho de tirar do próprio bolso uns trocados para eventuais reparos, troca de refletores, latas de lixo, panos pretos, caixotes e maletas dos brechós, pois não foi de outro modo que viveu, dândi e sem teto, enternecido e animado Homero antes do século virar e darem seu corpo e espírito primeiro com os cabelos, então com a abelha visitante, o creme da pele e os modos de mastigar, caindo nas primeiras noites da antiga e tão pequena quitinete ocupada na Rua da Consolação em dúvidas e confusões eu vejo o que vejo porque assim vejo, inquiria-se Homero, todas as mulheres? Mas. Dramaturgias que haveriam de circular gerações, fazer bilheteria, dar na imprensa, receber autoridades, e não era sequer pênsil cair assim um bardo abeirado aos sessenta em tão primário dilema, no que logo se fazia limpo das rotundas distrações, pós-barba e tamborilava sobre as notas das montagens paulistanas resmungando aqui e ali como quem vê não tão de um alto mas decerto um dedo acima os sucessores deslizando antigos erros vendilhadas vitupérios anti-literários benzia-se engolia e pronto partia, ônibus na Consolação, passo até a Praça do Correio, passos até a Líbero e lá o táxi grátis do seu chapa Olavo, viagem ouvindo notícia ou funkanejos, rindo os dois das modas e chegamos, pisca-alerta, escadinha escondida viaduto sem trânsito Avenida do Estado desce e bate um dos moleques sem eira recebe o chefe seu galpão, novo em folha todos os dias as manhãs em leituras, novos aprendendo, balbuciares, solicitando a explicada duns subtextos, as sílabas as vogais, as formas da boca os saltos do palato, refaçam e de novo, vai sozinho almoçar pois que a fome o faz santo e taciturno não fosse o encontro, uma vez, duas e três vezes, e a fantasmática frequência em seus vagares de bamboleio nos sonos, quem é ela um rapto uma força um nós uma dúbia estadia e circunspecta requisição ou que que faço se caço depois do mastigar augusto dos cabelos que chegou a cogitar, estupendo de tão básico, o creme da pele, morango, amoras, salsão, e a indiscreta indisposição a infringir as íntimas e invulgares indiscrições da inconsciência sem balanço nem estirpe, será comigo seu destino, será do meu chevette esta vaguinha, confuso e distraído os prazos as contas a pagar os comentários sobre a Long day’s journey into what se agora está clarividente e nua a plena fundura do alguidar tão sem alhos, tão sem cebolas, e assim que um dia não se aguentou foi lá perguntar Desculpe eu não pude deixar de notar a senhorita não só se recusa a tomar outros assentos que não este em que admira balançar o ipê roxo como escolhe ora cenouras, ora beterrabas, nunca as duas juntas, eu achei engraçado, não quero atrapalhar, mas não seria justo com a poesia prosaica dos dias de um velho poeta furtar a rapariga deste aceno gracioso tenha uma boa tarde, a que Regina Soprano não se fez de sufocada superou um leve engasgo meneando em negação acentuada a cabeça e abrindo um dos braços puxando uma das cadeiras Por favor Homero sente aqui, e eis que ela o conhecia, é cantora cumpriu suplências no Municipal, este mundo é pequeno, seu nome circula e num sem tempo ele deixava metade das caixas de sua vida para trás doava tralhas seguia por viver com Regina numa esquina de curva esbelta no Arouche, o prédio da Portela, como ela diz, Centro Madureira o Tietê é nossa praia interditada, vamos ficando, e apontava o azul branco recém dados, tinos de luz e elegância quantas árvores, já sei porque escolheu aqui, coisa de raiz e balanço, transformam-se nas estações e dançam galhadas, exatamente por isso, e se pouco mudou fora de casa a rotina do diretor do grupo Tens Tração?, dentro ele passou, convencido, numa anedota de fundo bastante sério e mesmo cortante, imposta pela governanta e nova parceira, a de que a poesia grega nasce para valer com os artífices dos epitáfios todos trabalhadores determinados à compostura do varejo, donos de forte aversão a romantismos e servos da lucidez competitiva, seu último texto bem recebido terá sido entregue há vinte e dois anos, Homero, é isso mesmo?, preciso retornar, não viver da velha imagem, sentar e fazer criar com indústria e com jeito ele se encaixa à mesa, há quanto tempo Deus do Céu há quanto tempo este poeta não fazia isso sentado, cotovelo no pinho, eu não sou um Goliardo?, não deixaria um Goliardo me frequentar assim, ela responde, o tempo é outro, o século entrado, a tradição oral da militância não colou, basta olhar, Linha Amarela, Fatecs, ciclofaixas, e riam-se afins de um tempo mais nos trilhos, depois fazes uns sarau, no fim do ano ou no outro, prêmio a teus esforços, senta aqui… e dormitavam, se querendo, Regina Soprano e Homero, diretor do seu teatro.

ao mr. robot

Whiterose tem a vantagem de crer
Depois dos nomes ruírem
Restarão suas nódoas fluidas (seus saberes)
E que antes dos nomes sentimos
Tantos dados iguais, caindo
Jogados, de ninguém, para todos
Mas Whiterose nos chama
a ver: nos fins, e só nos fins
far-se-ão valer os meios
meios que se meios saberão
do nome meio a nódoa: liga
entre a lonjura do tom
e o trom sem desconsolo
pórtico e charrua, casa e armadura
marcha em cosmo são
fértil chão, convidativo

Elliot prevalece porque ajusta
À par com a cova da sombra e a deleção
Da falta pressa sobra e da demora
Partos sonhados a fundo
Que é fio — vívido da história
Quando há ruído neste aquém
(pense em olhos numa face)
Há fluxo sem deleite
Capital dolente e massa
De manobra
Mas Elliot forte arbitra
Um por um dos fortes sem canto
Porque chaves vão trancadas
Se são ondas as fendas os vasos que transbordam
Servem mais quando merecem

Por que você não porta o que suporta com postura
Por que suas costas curvas, os milhos brancos, os sisos crus
Botas frágeis e essa falta
De milongas toantes a crer
Que migalhas contam se todos
Sabiam o que era, o que não era
Com a queda do muro de berlim zanzaremos a valer
Entre os mastros sem bandeira li aqui
Que antes da escrita eram poemas
As leis bem como as cartas de amor você sabia
Quantos caramujos cabem no rápido dilema de um nome?
Números encontram nomes
Eles casam, a lua-de-mel numa brecha
Entre a hora d’alva o lábio e o meio-dia
Mas o menino ajoelhado num imerso sagrado
Tem na mão direita as chaves
Na esquerda a vontade arqueada
E a ignorância da pipoca-doce