um desenho

Há exato um ano, quando vivi por alguns meses em Portugal, fiz este desenho a partir de um estudo etnográfico sobre tatuagens. Do alto à esquerda, em sentido horário, os modelos têm origem em povoados indos, bérberes, egípcios e marubos. Abaixo, retratos colhidos na internet.

colagens visuais, sonoras e textuais – durante muitos séculos tradições relativamente fugazes (uma mistura aqui, um pastiche popular acolá) – foram o centro explosivo de uma série de movimentos no século 20: futurismo, cubismo, dadaísmo, música concreta, situacionismo, pop art e o apropriacionismo. na verdade, a colagem, o denominador comum nessa lista, pode ser considerada a forma de arte por excelência do século 20, sem falar do século 21. mas deixemos de lado, por ora, cronologias, escolas ou mesmo séculos. à medida que os exemplos se acumulam – a música de igor stravinsky e de daniel johnston, a pintura de francis bacon e henry darger, os romances do grupo oulipo e de hannah crafts (a autora que se valeu do bleak house de dickens para escrever the bondwoman’s narrative), assim como os textos favoritos, que se tornaram problemáticos para seus admiradores após a descoberta de elementos ‘plagiados’, como os romances de richard condon ou o sermões de martin luther king jr. – fica evidente que a apropriação, a imitação, a citação, a alusão e a colaboração sublimada consistem em uma espécie de condição sine qua non do ato criativo, permeando todas as formas e gêneros no campo da produção cultural

a consistência de um sistema equivale à proposição que afirma que, através das regras do sistema, nenhuma contradição pode ser derivada. a proposição é, em si, combinatória, envolvendo regras simples de manipulação de símbolos – regras que determinam quais sequências de símbolos decorrem de quais sequências de símbolos. essa proposição combinatória é, exatamente por ser combinatória, equivalente a algo aritmético. portanto, pode ser formulada dentro do sistema da aritmética – e a questão natural a ser respondida é se ela pode ser provada dentro do sistema, e a resposta é que não pode. os aspectos sintáticos dos sistemas formais – que visavam evitar as intuições, aquelas alimentadoras de paradoxos – não conseguem captar todas as verdades sobre o sistema, inclusive a verdade de sua própria consistência

benjamin se preocupa sempre com o momento utópico encontrado no negativo – nas passagens encardidas e barulhentas, nas extravagâncias de grandville, na permuta de aforismos entre a moda e a morte, no papagaio barato de feuilletoniste, em baudelaire exclamando: “hélas! tout est abîme”. ninguém negaria que tudo isso faz parte do enredo. todo louvor a benjamin por trazer à luz esses fatos. mas, curiosamente, talvez tenhamos chegado a um momento da história em que é preciso reafirmar o outro lado da dialética do século XIX: não só os desejos e as potencialidades urdidos, contra as probabilidades, pelo negativo, mas antes de tudo aquilo que as formas de lucidez e positividade mais altivas do século (suas realizações efetivas) revelaram do terror – o verdadeiro abîme – entretecido ao sonho de liberdade da burguesia