duas florestas

Hoje algo incomum se passou. Nada menos que meu ideal de floresta, na pintura, foi abalado. Eu tinha um ideal que julgava difícil, por motivos em miríade, ser superado por outra obra. As florestas de Segall, que tive a chance de quase encostar o nariz certa feita numa exposição no Rio, seriam não trespassáveis também por aquele ponto ótimo de abstração em que a figura se desmonta sem desmontar a sensação, a floresta sai da figura mas você não sai da floresta. Tal façanha é complicada. A razão de ser do movimento de abstração, enterrar a estrela e despertar o designer nos pintores, foi pronto confundido por estudantes que julgavam enterrar a figura apenas para fazer rebrotarem-se estrelas sem desenho, e tamanha traição atrasou demais a nossa história. A floresta crepuscular de Segall, datada de 1956, vivia em mim como um desses marcos que colhemos ao fruir atentamente os objetos de arte que nos agradam, seduzem e fazem pensar, comparar. Bola pra frente, eu dizia, se a floresta mais boa foi pintada em 56, pintemos outras coisas, ou pintemos mesmo outras florestas sem pretensão, façamos de nossas florestas estampas de almofadas, ou deixemos que computadores componham por nós impensáveis, belas e assombradas florestas. Um desses problemas gostosos de ter, não é? O esgotamento da floresta na pintura em Segall?

floresta segall

Doce inocência, suave engano. Hoje dediquei parte da tarde ao folhear tedioso de um imenso livro de Gustav Klimt. Klimt? Que sei eu de Klimt? O homem do amor entre um homem e uma mulher, o homem dos mosaicos dourados e pretos, dos quase perfeitos brotos fractais, do beijo e do boato de que andava sem cueca. Pois. Indo indo a folhear o grande livro, enfrentando lá suas pinturas apenas razoáveis que valem unhas de Monet, pelinhos de Münch e

birch forest

dou com ESTA floresta. Que há de mais nessa floresta? Antes de pensar, ouça isso: eu pensei em ecto-glitch art. No que dei com os troncos, a relação numa palavra absurda entre musgo e revelação descascada, verde túrgido escuro e cinza computacional plasmático, não pude crer que aquele homem era, no fundo, um palhaço. Agora pense. Procure o que te espanta e então enfrente, nos troncos da floresta de Klimt, a vertigem das turquesas gêmeas, do tapete preto e dourado, das faces assombradas, do ecto-glitch orgânico, pintada em 1903.

ó lá, mundo

pensamos em começar com esta citação de 1949

Diante de um universo que anseia por compreender, mas cujos mecanismos não domina, o pensamento normal sempre busca o sentido das coisas nelas mesmas, que nada informam. O pensamento dito patológico, ao contrário, transborda de interpretações e ressonâncias afetivas, sempre pronto para aplicá-las sobre uma realidade de outro modo deficitária. Para o primeiro, existe o não verificável experimentalmente, isto é, o exigível; para o segundo, experiências sem objeto, ou o disponível. Na linguagem dos linguistas, diríamos que o pensamento normal sempre sofre de uma deficiência de significado, enquanto o pensamento dito patológico (ao menos em algumas de suas manifestações) dispõe de um excedente de significante. Graças à colaboração coletiva na cura xamânica, chega-se a um meio-termo entre essas duas situações complementares.

TB SIT

Para Lévi-Strauss, então, pode ser grande a força mágico-social na cura de nossos males. Não há aqui ‘um xamã’, mas o evento xamânico que se dá necessariamente a partir das forças e fraquezas de um conjunto.

Neste caso, o mal (ou o ruim, que é o contrário do que deseja a razão) é o hiato ou apartheid corrente em certa modernidade despreocupada com a seriedade da natureza conflituosa do que nos faz agir e escolher e cliva assim brutal o que o capitalismo das farmácias definiu como normal e desejável de um lado, e como doença e assim inoperabilidade e oportunidade de tratamento comercial e/ou intervenção, ostracismo, perseguição e prisão, do outro. Segundo tal modernidade, o caso é mesmo não dar nas mãos da norma nenhum tipo de biruta.

Contra tal rigidez improdutiva e perpetuadora de processos pouco revisados, existe a chance de compreender a experiência do patológico como “instauradora da condição humana e a via privilegiada para conhecermos nossos processos de formação, assim como traços de nossas estruturas de comportamento” (Safatle), isto é, a esperança de que o medo da loucura como casa (ai o hábito do impensável) dissolva-se em realizações normatizantes que simplesmente passem no teste da mágica social, isto é, sejam integradas e não repudiadas no decantar da análise da razão.

Eu acho engraçado a gente administrar o medo assim. Nunca se ameaçou tanto. E nunca fizemos tanta força para respirar a ontologia da escassez. Estamos provavelmente 99% errados.

Percebamos que é do fundo do poço que se vê a lua, claro, mas não deixemos de performar. Não hoje. Não deixemos de performar. Ampliemos essa treta conosco de modo a

amplificar tudo aquilo que não podemos.

Só assim para chamar a atenção dos magos sociais, não? Foi nomeando a si de neurótico e limítrofe que W. Allen e o punk convocaram sua cura. E

uma dimensão fundamental do trabalho analítico consiste não em dissolver os sintomas, mas em dissolver o vínculo do sujeito à identidade produzida pela doença, o que permite aos sintomas perderem certos efeitos, diminuírem intensidades e se abrirem à possibilidade de produção de novos arranjos

Não é pouca coisa fazer desejo e linguagem e não poder conversar com o cérebro. E ter que acreditar na inexistência da inteligência do cérebro. E herdar e repassar o que queremos por vitória e beleza. E trair quem não se importa. Tudo isso no momento em que “o casamento assombroso entre Gaia e Antropoceno” pressiona por duras reordenações de prioridades e desmontes em série. Você está fazendo o quê no bando transicional, exatamente? Tem certeza? Que bom.

Quer saber o que é ser da internet? Ser da internet é dizer sem vergonha e não precisar esconder que não leu Freud nem Marx PORRA NENHUMA. É isso. A Touro Bengala bem como seus sujeitos em sintonia xamânica são da internet. Não lemos Freud nem Marx porra nenhuma. Nosso devir é superar a doença da indeterminação da identidade que recusa a raia fácil da predicação não artística, isto é, a da posse ou repetição destrutiva. Boa sorte tentando seguir a gente.