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E se o que entendemos por cidadania fosse produto de um esforço de localização entre seis modos? Bem estar, ou estar situado em equidistância aos seis modos indispensáveis à cidadania seria:

1) ser capaz de descrever, justificar e fruir seus valores e funções

2) participar ativamente de suas dinâmicas de adaptação e crescimento

Dois atos, como vemos, práticos discursivos, propositivos ou responsais, i) esfriados na busca abstrata da mera conceituação, ou ii) quentes porque em atrito numa discussão para resolver um problema.

Esforço de localização, jamais superável, seres móveis e instáveis que somos. Será preciso, a cada confusão, grande evento ou fim de jornada que prepara a próxima, rebuscar as coordenadas. Novamente situar-se num local fora de seus domínios (posto serem caprichosos e vaidosos, os modos) mas ao alcance de nossos comandos e devassas.

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Bem. A vida é muito mais que cidadania. Esta é uma redução necessária para que a civilidade não suma, engasgada, morta, amofinada, no interior da urbanidade esquecida de critérios e senso. Quando escalo a trilha deslizante que me leva à cachoeira, dou bananas à cidadania. Ali, quero a ficção do príncipe selvagem, alucinado devorador de cogumelos incapaz de preencher um formulário.

Eis que a vida na cidade complicou-se. Nossa culpa fez dela uma entrega desmedida à função socioeconômica da força. Quem tenta enquadrar nosso cada instante numa célula de aferição em bigdata de fato venceu. Mas a vitória só foi possível dado o charme irresistível de seu ponto fraco: juntar-se a quem quer que esteja bem na foto.

Recuperar a dignidade plural do emprego da força. Nutrição, potência, postura, ato e consequência não estão, apenas, a serviço de uma carreira de sucesso, de artigos comprados para a inveja do vizinho. Devemos a força sagrada dos corpos alimentados pelos frutos da terra, também, ao exercício eclesiástico (em sentido largo) da aventura. Aqui, não há ranking, mesmo que haja risco. Não há salário, mesmo que a recompensa seja linda. Não há, tampouco, comparação ou competição, ainda que gostemos de nos superar e combater o marasmo com ineditismo.

A dignidade plural do emprego da força, no entanto, não virá com a tradução literal dos sonhos. A tradução, antes e infelizmente, é anti-poética, mais difícil e indigesta que a tradução literal. Os grandes culpados eram bonecos de olinda pilotados por nós mesmos. Ficou, ao mesmo tempo, mais fácil e mais difícil remontar o paraíso nos termos da conciliação. O divórcio não era apenas um gozo irresponsável. Era também a ilusão de consertar um erro com outro erro.

A tradução anti-poética dos sonhos requer a união de muitas Artes. Organização (em sentido largo) e equilíbrio, ou cada coisa em seu lugar além de nada sobrando ou faltando. O carnaval e o despertar trágico eram só mais um sabor de picolé?

Agora, contudo, resta a busca negociada de um amplo, semprevacilante equilíbrio. Nele, enquanto se ature, será mais fácil conceituar, discutir e decidir. Muitas das decisões que nos aguardam são  difíceis. Mas não será pedindo esse favor a alguém que ficaremos satisfeitos.

Organização e equilíbrio começam na primeira casa, o corpo do indivíduo. Conforme a prática se repita, um costume frutificante, generativo, pode nascer em rede. Situar-se pois, em mão dupla e acesso livre aos seis modos, é ativar-se de forma ligada (em rede) e autônoma (capaz).

LEG, JUD, EXE

Respondem tais três modos pela condução do serviço estatal, comprado por nós em comum acordo. Somos o Estado, ocupamos o Legislativo, orientamos o Judiciário e verificamos o Executivo. De novo, não é um boneco de olinda. Somos nós, sempre seremos.

IMP, ESC, IGR

Tais três modos respondem pelos quarto e quinto poderes, Imprensa livre, e Escola da qual ninguém se livra, mas que, numa fase da vida, é locus específico de formação mais ou menos dirigida. Igreja ponho aqui em sentido largo por tratar-se de apropriação idiossincrática, inventiva, no mais das contas reduzida ao cosmos em suas formas de silêncio, atenção, cuidado, cultivo e edificação.

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Buscar o centro exato do Círculo Situante Cidadão será tão vão quanto belo saber-se melhor hoje do que ontem, isto é, mais próximo, ‘mais equidistante’ dos seis modos, sabendo melhor descrevê-los e melhor usá-los hoje do que ontem.

Sou artífice de minha Igreja, assim como sou do Judiciário do meu país. Se necessário, cancelo um barzinho para meditar a São Bento ou Cosminho. Se necessário, não faço janta, peço um japonês e elaboro uma crítica a uma decisão do Supremo. Se necessário, pulo o futebol para interpelar o MEC quanto ao vício do vestibular, e não atendo, se necessário, a namorada para sugerir uma denúncia ao wikileaks.

Este breve, ligeiro, quase irresponsável esboço de teoria social tem, para além de sua missão primeira (tirar da bagunça mental um improviso quem sabe útil e me forçar, redigindo, a entendê-lo ou quase), uma missão segunda: provocar no leitor o autoexame: estou em dia com o bem estar cidadão? Situado estou em equidistância dos seis modos? Considero-os inescapáveis ou estranhos? Sou capaz de descrever, justificar e fruir seus valores e funções? Participo ativamente em casa, na rua e na cidade deste estado do Brasil, de suas dinâmicas de adaptação e crescimento?

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