da música do nordeste

As características da música nordestina conforme anotadas na musicologia, de Mario de Andrade em diante, tendem a dois enraizamentos fundamentais, a saber, os modos pré-temperamento de fulgor arabeizante dos cantos sacros medievos peninsulares (Ibéria), e os moldes aborígenes que os teriam resguardado no binário assimétrico do hoje famoso baião.

Com efeito, resta bastante clara a figura do sertanejo, para além de sua música, fortemente gravada numa sorte de tábua misturada entre a sabedoria nativa e a espiritualidade eremítica importada. O sucesso em Portugal das chamadas ordens Mendicantes (Franciscana e Dominicana) a partir do século XII, calcadas no desapego contemplativo e no “afeto à obra do Criador”, conforme explica, neste fascinante estudo, a historiadora Maria de Lurdes Rosa, achou nos primeiros descendentes do encontro entre os indígenas fugidos do litoral para o interior e seus outrora colonizadores a predisposição tecnológica de quem comungava amiúde os segredos da natureza.

gravura de Poty para Sagarana

O sertanejo nasce, assim, além de forte (porque saudável e trabalhador inveterado), poeta nato, no senso primaz de imitador dos estímulos sensoriais do entorno. Chamo atenção, nesta breve e insuficiente nota, à figura da Ave enquanto possível fonte maior de inspiração criadora e ideal simbólico de liberdade do poeta do sertão. Este trabalho chega a sugerir a figura rítmica do baião derivada do canto da rolinha cascavel. Arrisco apontar, além, a popularização do sopro agudo da flauta como significado de forte reminiscência do índio brasileiro em sua conversa constante com os pássaros, amigos que choravam no pio todas as suas mágoas, sortes e vontades, melhor talvez que qualquer palavra viria cantar. Outra suspeita, esta com relação à ligeireza do ritmo galope. O galope, tão comum na música nordestina, é, evidentemente, um transporte figurativo do cavaleiro em desabrida carreira, mas o motivo desta, por sua vez, seria, antes de qualquer pressa ou corrida contra o tempo, outra forma de imitar a velocidade empolgante e tranquilizante, vento no rosto e nada no pensar, dos gaviões, urubus, corujas e açus daquela terra nossa.

Outro dia compartilhei este disco no Facebook, por achar emblemático da sonoridade aqui em questão. Hoje, publico o primeiro trabalho de estúdio do Quinteto Violado, conjunto pernambucano de competentes músicos cantadores, pesquisadores e professores, lançado em 1972. É disco feliz e sensível, de ouvir na íntegra, mas destaco a ‘Marcha Nativa dos Índios Quiriris’, faixa sugestiva da faceta nativa, mais que portuguesa, do poeta sertanejo.

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