Deixa

Sentar e escrever, para Homero, consistia liame e despertar de um esforço conjugal em tudo inesperado, inconsulto até nas mais dispendiosas cartomantes, e resistir às tentações de abraçar um litrão de vinho e debulhar o gogó nos versos safos do herói seria imprudente, imprudente seria aferroar-se agora, depois dos anos entrados neste século revisionista, revista Fapesp, Base de Alcântara, ascensão da classe D, aos hábitos acostumados mas antigos, charmosos mas obsoletos da oralidade folgazã que tanto lhe fez ponta e cartaz no teatro de revista, no teatro de arena, na escola de artes dramáticas, na boca do lixo, no teatro brasileiro de comédia, e não foi de outro modo que viveu, querendo comer e comendo tão pouco, querendo ter e ser quais forças de pontual convergência, vagando e orando, errando e tirando seu chapéu surrado, demonstrando e dando as deixas, atento aos pontos e às críticas, formando turmas sucessivas, empenhando-se na varrição, na lavagem da calçada, chegando ao capricho de tirar do próprio bolso uns trocados para eventuais reparos, troca de refletores, latas de lixo, panos pretos, caixotes e maletas dos brechós, pois não foi de outro modo que viveu, dândi e sem teto, enternecido e animado Homero antes do século virar e darem seu corpo e espírito primeiro com os cabelos, então com a abelha visitante, o creme da pele e os modos de mastigar, caindo nas primeiras noites da antiga e tão pequena quitinete ocupada na Rua da Consolação em dúvidas e confusões eu vejo o que vejo porque assim vejo, inquiria-se Homero, todas as mulheres? Mas. Dramaturgias que haveriam de circular gerações, fazer bilheteria, dar na imprensa, receber autoridades, e não era sequer pênsil cair assim um bardo abeirado aos sessenta em tão primário dilema, no que logo se fazia limpo das rotundas distrações, pós-barba e tamborilava sobre as notas das montagens paulistanas resmungando aqui e ali como quem vê não tão de um alto mas decerto um dedo acima os sucessores deslizando antigos erros vendilhadas vitupérios anti-literários benzia-se engolia e pronto partia, ônibus na Consolação, passo até a Praça do Correio, passos até a Líbero e lá o táxi grátis do seu chapa Olavo, viagem ouvindo notícia ou funkanejos, rindo os dois das modas e chegamos, pisca-alerta, escadinha escondida viaduto sem trânsito Avenida do Estado desce e bate um dos moleques sem eira recebe o chefe seu galpão, novo em folha todos os dias as manhãs em leituras, novos aprendendo, balbuciares, solicitando a explicada duns subtextos, as sílabas as vogais, as formas da boca os saltos do palato, refaçam e de novo, vai sozinho almoçar pois que a fome o faz santo e taciturno não fosse o encontro, uma vez, duas e três vezes, e a fantasmática frequência em seus vagares de bamboleio nos sonos, quem é ela um rapto uma força um nós uma dúbia estadia e circunspecta requisição ou que que faço se caço depois do mastigar augusto dos cabelos que chegou a cogitar, estupendo de tão básico, o creme da pele, morango, amoras, salsão, e a indiscreta indisposição a infringir as íntimas e invulgares indiscrições da inconsciência sem balanço nem estirpe, será comigo seu destino, será do meu chevette esta vaguinha, confuso e distraído os prazos as contas a pagar os comentários sobre a Long day’s journey into what se agora está clarividente e nua a plena fundura do alguidar tão sem alhos, tão sem cebolas, e assim que um dia não se aguentou foi lá perguntar Desculpe eu não pude deixar de notar a senhorita não só se recusa a tomar outros assentos que não este em que admira balançar o ipê roxo como escolhe ora cenouras, ora beterrabas, nunca as duas juntas, eu achei engraçado, não quero atrapalhar, mas não seria justo com a poesia prosaica dos dias de um velho poeta furtar a rapariga deste aceno gracioso tenha uma boa tarde, a que Regina Soprano não se fez de sufocada superou um leve engasgo meneando em negação acentuada a cabeça e abrindo um dos braços puxando uma das cadeiras Por favor Homero sente aqui, e eis que ela o conhecia, é cantora cumpriu suplências no Municipal, este mundo é pequeno, seu nome circula e num sem tempo ele deixava metade das caixas de sua vida para trás doava tralhas seguia por viver com Regina numa esquina de curva esbelta no Arouche, o prédio da Portela, como ela diz, Centro Madureira o Tietê é nossa praia interditada, vamos ficando, e apontava o azul branco recém dados, tinos de luz e elegância quantas árvores, já sei porque escolheu aqui, coisa de raiz e balanço, transformam-se nas estações e dançam galhadas, exatamente por isso, e se pouco mudou fora de casa a rotina do diretor do grupo Tens Tração?, dentro ele passou, convencido, numa anedota de fundo bastante sério e mesmo cortante, imposta pela governanta e nova parceira, a de que a poesia grega nasce para valer com os artífices dos epitáfios todos trabalhadores determinados à compostura do varejo, donos de forte aversão a romantismos e servos da lucidez competitiva, seu último texto bem recebido terá sido entregue há vinte e dois anos, Homero, é isso mesmo?, preciso retornar, não viver da velha imagem, sentar e fazer criar com indústria e com jeito ele se encaixa à mesa, há quanto tempo Deus do Céu há quanto tempo este poeta não fazia isso sentado, cotovelo no pinho, eu não sou um Goliardo?, não deixaria um Goliardo me frequentar assim, ela responde, o tempo é outro, o século entrado, a tradição oral da militância não colou, basta olhar, Linha Amarela, Fatecs, ciclofaixas, e riam-se afins de um tempo mais nos trilhos, depois fazes uns sarau, no fim do ano ou no outro, prêmio a teus esforços, senta aqui… e dormitavam, se querendo, Regina Soprano e Homero, diretor do seu teatro.

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