Deixar entrar

A história das ideias se confunde com a história das formas de pensar. A diferença entre as duas será hierárquica: a história das ideias parece conter as diversas formas de pensar que, ao longo das gerações, funcionaram.

A imagem nos deixaria em paz se o problema da precarização não cruzasse a atualidade, fazendo-nos desconfiar do progresso bem como das conquistas da época moderna.

Entenda-se por precarização aquilo que abarca sua significação radical, sem que se perca o tino dos usos correntes, a saber, um estado de desespero peticional que desafia o senso comum em apelo à esperança revolucionária.

Que a precarização, seja nas relações econômicas iníquas, seja na saúde mental amiúde refém de purgatórios artificiais, propicie o tom dessa época brumosa, não é mais novidade. A época é brumosa porque a ignomínia dos mal ocultos custos de progressos e conquistas centrais como os transportes e as fronteiras nacionais – aqueles à expensa do ambiente, estas à expensa da paz – não garante a crítica competente de suas processualidades constitutivas. Claro, pois que a ignomínia pretende obliterar cadeias produtivas de passivos fundadores – a biruta do clima e a crise dos refugiados, por exemplo – cujos movimentos coadunar-se-ão à sombra da modernidade via regressos e despossessões em escala global. A novidade, aqui, parece estar na chance de um chamado à face afogada na forma, porque ciosa demais da história, das ideias.

A crítica competende das processualidades constitutivas da época moderna (a construção do Estado Democrático, o reconhecimento do sujeito de direitos, a transnacionalização dos contratos etc) pedirá à sensibilidade, assim, duas atitudes complementares: i) distanciamento da forma; ii) reordenação da história.

Se é verdade que a história das ideias contém as formas de pensar, não será mau lembrar que a forma das formas de pensar, por sua vez, contém a história. 

O grupo abrangente do móbile psíquico capaz da cronologia descritiva será o mesmo, ao fim e ao cabo, capaz de codificar os nexos pragmáticos em vias de deslindes totalizantes – exaurindo a evocação semântica dos acontecimentos – de modo a expor as ignomínias e acoplar, em suas devidas processualidades, os custos antes ocultos que burlavam a responsabilidade de conquistas e progressos de suas consequentes despossessões e regressos.

Curiosamente, as atitudes do distanciamento e da reordenação são mais ou menos naturais ao estágio a que nos trouxe o próprio conceito de pradarias filosóficas genealogicamente encadeadas. Quando o esforço analítico tanto e tão disciplinadamente voltado a si e à dignidade linguística como que num mito originário ancestral fecunda-se e rebenta no pragmatismo da eventualidade, resta à forma atual da interdisciplinaridade aplicada o ensejo lúcido de deitar ao chão o espelhinho de rosto e performar não na linha de frente ou no limiar do movimento histórico, mas antes a dança austera e beneficente que busca reanimar o que eram corpos insepultos, pois não se está diante de fim algum e somos jovens e potentes, e trocar luto por graça e resignação por força e luz.

Em outras palavras, se a história das ideias vinha estática porque demasiado afogadas vinham as faces nossas nas formas de operar a superfície do real em comunicação alerta e repertorial, mas sistemicamente vítima das ignomínias constitutivas de processualidades apenas parcialmente consideradas, as atitudes i e ii, por sua vez, legar-nos-ão a chance de, com as mãos pensas e o pensar desanuviado, procurar à propriedade dos dizeres as competências eventuais E totalizantes dos processos em mais grave inflamação. Que progresso nenhum e conquista nenhuma sejam aceitos ou consumidos sem a devida reflexão da ignomínia que o viabilizou, sem seu reingresso animado e clínico, sua sagração em rediviva e adaptativa adoção. Antes de marcos legais, multas e tributos, aponta-se algo tão simples quanto a honesta descrição da história constitutiva do que ora nos rege, conduz e subjuga – mesmo no aparente conforto.

O mal estar da ignomínia, coisa que se sente em degradê à ofensa, não deve ser confundido com os clichês da ignorância (a maldade paulina) e do esquecimento (a maldade hegeliana). Se contra a primeira criou-se a pedagogia da opressão, contra a segunda o choque de estado, e ambas vêm ajudando no pós-guerra, não é de dentro delas que se caça a ignomínia.

Claro que tampouco dentro dos favores apaziguantes da direita como a combinatória, o volume de metadados e a transparência, esta caça ou query estará domiciliado em campo frutuoso.

De dentro de onde, precisamente, será difícil dizer? O objeto da busca é a ocultação que já pode ter sido não saber, que provável já foi o esquecer, sendo no sentimento de ignomínia o desconforto um desconforto latente mas tácito, inflamado mas formigando.

Por que, por exemplo, a rede hidrológica planaltina (Piratininga) não informou o desenho das vias de rodagem e nem sequer a elas uniu-se em expansão da rede de transportes? Se foi ignorância ou esquecimento hoje é menos urgente dizer que a ignomínia buscar, deste um custo grave que se oculta. Desocultar é o movimento que trará à investigação ou query sua potência humana. Está-se diante de um quebra-cabeças com peças ocultas muitas das quais associadas à sensação de ignomínia quando se percebe a rede hidrológica soterrada a nada de aproveitável senão dejeto transportar. Por que, portanto, a ideia de ‘aproveitar’ a rede para ‘tratar’ os dejetos foi capaz de ocultar o problema do soterramento dos leitos contra seu efetivo uso? Um passo a mais e trago à reflexão um conceito não considerado em sua completude, a saber, o conceito mesmo de dejeto. Não considerado por conceito lateral, no caso da rede viária o dejeto fez da query query incompleta; esta, quase mecanicamente retorna ao investigador uma questão contra a incompetência da própria reflexão, mas dificilmente ingênua: lugar de dejeto é longe?

O conforto de dar descarga e ver o bolo fecal ir embora, por exemplo, ilumina o quê? E se fôssemos pensar a superquadra autossuficiente em tratamento de resíduos, quais seriam as implicações construtivas?

Deixar entrar é dar à combinatória, ao volume de metadados e à transparência a postura de afastamento e reordenação que possibilite novas descrições de antigos problemas.

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