Diz Jomard

Retomando o debate sobre literatura e performance em Recife, quero declarar que meu propósito caminha em direção totalmente contrária a qualquer ideia de regionalidade frequente na crítica literária. De que modo poderia eu, uma paulistana, falar de um poeta pernambucano e principalmente de uma literatura que conheço instrumentalmente como a literatura de cordel, como fiz no primeiro post?

Por isso, meu olhar indica, denuncia ou apenas revela a curiosidade de falar sobre esses escritores a partir desse primeiro encontro, despretensioso, no qual reconheço descaradamente a literatura como performance.

O eixo norteador ou provocador parte da proposta de dançar com a palavra

A proposta de uma Literatura como Performance trata de pensar o mundo como espaço de composição, em que a palavra e o movimento se fazem na escrita, na poesia. O que importa não é a imagem, mas o que acontece entre as imagens, o que se passa entre os movimentos, da palavra e de sua localização como acontecimento. Não no movimento em si – sua duração –, mas nas virtualidades que entre eles escoam.

A performance é a escrita e o próprio pensamento em movimento. O que move o pensamento é a sensação e o pensamento tenta fixar. A palavra cria a imagem para tal sensação em movimento. No pensar/sentir, a linguagem é criativamente encerrada dentro de tonalidades afetivamente referenciadas, transformando-se em significados co-imputados pelo receptor. É quando novos territórios e paisagens podem nascer a partir do experienciado, do vivido.

Esta é a catalisação que encontramos em Jomard Muniz de Britto, cuja escrita transita por diferentes áreas: filosofia, poesia, teatro, cinema e música. Dentre suas inúmeras publicações estão os “atentados poéticos” (poemas em glosa) que nos interessam pelo caráter claramente performático. O atentado de Jomard é visual, auditivo, tátil e principalmente intervencionista.

Não se assustem leitores

Entre o sim e outros sinais,
o carnaval não pertence a ninguém.
Porque tudo – até mesmo o Bloco do NADA –
atravessa redemoinhos nas ladeiras de
Olinda ao Marco Zero reciferido por nossos
des-go-ver-nos!?
Imposs;ivel oficializar nossos desejos
Desrecalcados na folia.
Porisso escrevemos desgovernos: de 0 a 10
Ainda apostando no fervor
Dos empoderamentos foliões.
Viva o Bar do Sebastião com nosso
paganismo saudável, não saudosista.
Um telefonema de Amin Stepie para nós
Ultrapassa qualquer propaganda.
AMAR SEM TEMER NEM TERROR.
Brincar com fome de amorosidades.
Porisso a Sociedade Internacional de Economia
Ecológica arrebenta pré-conceitos
das ruas aos divãs.
Carnavalizar sem ignorar as
TRAMAS da VIDA do folião Abel Menezes.
Nossa paixão é um sábado ou domingo
que não tem fins de-ter-mi-nis-tas.
Beijar, abraçar, dançar, suspirar.
Com o retorno da pipoca moderna
entre suspenses e surpresas.
Rimas de tudo no Galo da Madrugada.
Ritmos de avenida devassadas.
Estrelas reinventando a beleza fugaz
de nossas tristes cidades.
Tempo folião de Carlos Fernando.
Mares, mangues, magias, alegrias.
Para nada salvar sem oitentação nem
Ostentação. Será possível?
Carnaval em clímax de trans-fi-gu-ra-ção
No cotidiano de todos, cada um de NÓS.

Recifevereiro 2017-05-17

Atentadospoeticos@yahoo.com.br

Jomard, não somente nos “atentados poéticos”, mas também em outras escritas pretende de forma alguma alcançar um pensamento puro e tampouco parece confiar que uma sensação pura existe. O que acontece é que na escrita eles estão juntos, o pensar está unido ao sentir ao mesmo tempo e são eles que imprimem movimento à escrita. É uma inclusão mútua, como sustenta Brian Massumi. A escrita é um corpo sem imagem, na qual está presente a força virtual do corpo, um corpo em passagem. Passagem que Jomard percorre nas ruas do Recife, na interação com os acontecimentos, com o carnaval, com as manifestações, com pessoas que sua escrita pretende evidenciar. Uma dobra do que um corpo na cidade pode tornar-se. Essa é a dimensão da performance “um corpo virtual e do não-ainda que o movimento incorpora através do movimento da escrita.” (MASSUMI)

Assim, é na captura do evento que temos o ponto convergente entre performance e literatura, onde Jomard através dos recortes das palavras e do ambiente que lhe é próprio se expressa no acontecimento-escrita, seja na composição de afetos e perceptos, seja no simples manejo das palavras e suas reverberações corpóreas.

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